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SONETO A D. ANGELA DE SOUSA PAREDES 
 
Não vira em minha formosura, 
Ouvia falar dela todo dia, 
E ouvida me incitava, e me movia 
A querer ver tão bela arquitetura: 
 
Ontem a vi por minha desventura 
Na cara, no bom ar, na galhardia 
De uma mulher, que em Anjo se mentia; 
De um Sol, que se trajava em criatura: 
 
Matem-me, disse eu, vendo abrasar-me, 
Se esta a cousa não é, que encarecer-me 
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me: 
 
Olhos meus, disse então por defender-me, 
Se a beleza heis de ver para matar-me, 
Antes olhos cegueis, do que eu perde-me. 
 
Gregório de Matos 
 
 Este soneto exemplifica a lírica amorosa de Gregório de Matos Guerra que é, fortemente 
marcada pelo dualismo amoroso CARNE X ESPÍRITO, que leva, normalmente a um sentimento 
de culpa no plano espiritual. A mulher, muitas vezes, é a personificação do próprio pecado, da 
perdição espiritual. 
 Observa-se que, neste poema, a mulher – identificada inicialmente com a figura de um 
anjo o qual remete à pureza angelical contida no próprio nome ÂNGELA e depois com uma 
grandeza maior, – o SOL – é vista como um ser superior, dotado de grandezas absolutas e 
inacessíveis. 
 Porém, o que se percebe nos tercetos é que, em vez de proteger – papel que caberia ao 
anjo, – a mulher, com sua beleza, leva-o ao desejo e, consequentemente, ao pecado. Por isso, 
o eu lírico, em um apelo dramático aos próprios olhos – centro de percepção visual e origem 
do desejo . – pede a eles que se ceguem. Do contrário ele será levado à morte, isto é, à 
perdição espiritual. Eis o drama amoroso do Barroco: o apelo sensorial do corpo se contrapõe 
ao ideal religioso, gerando sentimento de culpa. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“À mesma D. Ângela” 
 
Anjo no nome, Angélica na cara, 
Isso é ser flor, e Anjo juntamente, 
Ser Angélica flor, e anjo florente, 
Em quem, senão em vós se uniformara? 
 
Quem veria uma flor, que a não cortara 
De verde pé, de rama florescente? 
E quem um Anjo vira tão luzente, 
Que por seu Deus, o não idolatrara? 
 
Se como Anjo sois dos meus altares, 
Fôreis o meu custódio, e minha guarda 
Livrara eu de diabólicos azares. 
 
Mas vejo, que tão bela e tão galharda, 
Posto que os Anjos nunca dão pesares, 
Sois Anjo, Que me tenta, e não me guarda. 
 
Gregório de Matos 
 
Analise da Poesia 
Bom esse poema como muitos dos outros de Gregório desenvolve se por meio do jogo de 
palavras que é sempre transcrito nos poemas Líricos, e por meios de imagens, que neste caso 
é: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”. Na qual Gregório segue a tradição 
explorada por Camões ao comparar a beleza da mulher à natureza. 
O esquema rimático é: ABBA / ABBA / CDC / DCD. O seu tema central é a contradição do poeta 
pela mulher “Ângela” que no poema ele colocar ao lugar da flor “metáfora da beleza” ,e objeto 
do desejo, em Anjo “metáfora de pureza” e símbolo da elevação espiritual, e que ocorre o uso 
de vários trocadilhos, Angélica (pura como um anjo e que ao mesmo tempo o nome de uma 
flor que inspira sensualidade) trata de uma mulher que tem uma feição angelical e tão bela e 
amorosa que passa a idéia de uma flor ,e que muito delicada, uma imagem de mulher 
construída a parti de duas palavras, que associa ao seu nome, e ao seu rosto: flor “Ângélica na 
cara” e Anjo “Anjo no nome”, aqui podemos perceber a presença de uma contradição, já que a 
mulher a mulher amada é anjo (plano espiritual) e flor (plano material). 
 A sua imagem é a de um Anjo, mas que tenta, e não guarda, e vem ai um grande toque 
barroco aparece no jogo de contradição revelado, se essa mulher é um anjo, como é possível 
que, em lugar de garantir proteção, causa apenas tentação ao lírico. A contradição entre o 
amar e o quere desemboca no paradoxo dos versos finais “Sois anjos que me tenta e não me 
guarda”. Assim a louvação a exaltação de uma beleza angelical termina com uma tentação 
demoníaca e que gera a imagem angelical feminina, e a tentação da carne que atormenta o 
espírito. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Lira I 
 
 
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, 
Que viva de guardar alheio gado; 
De tosco trato, de expressões grosseiro, 
Dos frios gelos, e dos sóis queimado. 
Tenho próprio casal, e nele assisto; 
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; 
Das brancas ovelhinhas tiro o leite, 
E mais as finas lãs, de que me visto. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
 
Eu vi o meu semblante numa fonte, 
Dos anos inda não está cortado: 
Os pastores, que habitam este monte, 
Respeitam o poder do meu cajado. 
Com tal destreza toco a sanfoninha, 
Que inveja até me tem o próprio Alceste: 
Ao som dela concerto a voz celeste; 
Nem canto letra, que não seja minha, 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
 
Mas tendo tantos dotes da ventura, 
Só apreço lhes dou, gentil Pastora, 
Depois que teu afeto me segura, 
Que queres do que tenho ser senhora. 
É bom, minha Marília, é bom ser dono 
De um rebanho, que cubra monte, e prado; 
Porém, gentil Pastora, o teu agrado 
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
 
Os teus olhos espalham luz divina, 
A quem a luz do Sol em vão se atreve: 
Papoila, ou rosa delicada, e fina, 
Te cobre as faces, que são cor de neve. 
Os teus cabelos são uns fios d’ouro; 
Teu lindo corpo bálsamos vapora. 
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora, 
Para glória de Amor igual tesouro. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
 
Leve-me a sementeira muito embora 
O rio sobre os campos levantado: 
Acabe, acabe a peste matadora, 
Sem deixar uma rês, o nédio gado. 
Já destes bens, Marília, não preciso: 
Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta; 
Para viver feliz, Marília, basta 
Que os olhos movas, e me dês um riso. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
 
Irás a divertir-te na floresta, 
Sustentada, Marília, no meu braço; 
Ali descansarei a quente sesta, 
Dormindo um leve sono em teu regaço: 
Enquanto a luta jogam os Pastores, 
E emparelhados correm nas campinas, 
Toucarei teus cabelos de boninas, 
Nos troncos gravarei os teus louvores. 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
 
Depois de nos ferir a mão da morte, 
Ou seja neste monte, ou noutra serra, 
Nossos corpos terão, terão a sorte 
De consumir os dois a mesma terra. 
Na campa, rodeada de ciprestes, 
Lerão estas palavras os Pastores: 
“Quem quiser ser feliz nos seus amores, 
Siga os exemplos, que nos deram estes.” 
Graças, Marília bela, 
Graças à minha Estrela! 
 
 
Interpretação 
Na Lira I da obra Marília de Dirceu, o eu lírico, apaixonado por Marília demonstra seu amor com simples 
palavras. Mesmo vivendo no campo, nega à sua amada que é um simples pastor, porém faz o possível 
para conquistá-la. Nota-se que o autor cita muitas coisas referentes às atividades do campo. Nos versos 
“Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;/ Das brancas ovelhinhas tiro o leite,/ E mais as finas lãs, de que me 
visto...” da primeira estrofe, o autor tem meios para viver com fartura e ainda vestir-se com finas lãs. Na 
2ª estrofe, Dirceu apresenta a juventude e a beleza de Marília e compara seus dotes intelectuais com 
outros pastores, procurando causar inveja. Ele cita também que todos seus bens privilegiados não 
podem ser trocados nem comparados ao grande amor que sente por Marília. 
 
 
 
Características do Arcadismo e da Lira 
As primeiras características do Arcadismo notáveis na Lira I são a simplicidade nas palavras, vocabulário 
acessível direto e sem exagero. Dirceu identifica a si e a sua amada como pastores. Nota-se que ele vive 
em plena harmonia com a natureza. O bucolismo está bastante evidente nessa lira e a maior parte do 
vocabulário apresenta termos ligados à vida no campo. Nos versos “Graças, Marília bela,/ Graçasà 
minha estrela!”, o poeta manifesta-se satisfeito com o próprio destino e afirma que possui sorte graças 
à sua amada, esse é um termo evidente do narcisismo, pois ele está se autovalorizando. Diferentemente 
de outros poetas barrocos, o autor recusa usar termos complicados, preferindo a clareza e a ordem 
lógica na escrita. 
 
 
Comentário sobre a situação histórica 
Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Portugal, estudou Direito em Coimbra e retornou para o Brasil em 
1782. Nesse período, Gonzaga apaixona-se pela jovem Marília Doroteia a quem dedica suas primeiras 33 
liras para conquistá-la e tê-la como esposa. O autor foi discriminado pela família da jovem, pois era bem 
mais velho e pobre. Foi preso em 1789 por ter se envolvido na Inconfidência Mineira e 
consequentemente ficou separado de sua amada para sempre. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SE EU MORRESSE AMANHÃ 
 
O trecho citado no título faz parte do poema Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo, poeta 
cujas obras são estudadas no contexto da segunda geração romântica. O texto daquele poeta será 
usado para compreendermos a produção literária do período. 
O Romantismo brasileiro aconteceu no período de 1836 a 1850 e, tradicionalmente, a produção 
literária da época é dividida em três gerações: nacionalismo, ultrarromantismo e condoreirismo. A 
primeira correspondeu ao desejo de valorizar a temática nacional em oposição à portuguesa e, para 
alcançar tal objetivo, inspirou-se em lendas do passado e na glorificação do indígena. A segunda – 
tema deste texto – caracterizou-se pela corrente individualista a que aderiram autores 
como Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, Visconde de Taunay. Já a terceira 
anunciou o movimento literário seguinte, muitas vezes por meio de textos de cunho abolicionista e 
republicano; nesse grupo, encontramos poetas como Castro Alves. 
Os textos da segunda geração romântica refletem a obsessão pela morte, pela melancolia, pela dor dos 
amores não correspondidos, pela lembrança da infância. A morte é vista, nessa geração, como a 
única saída para o descontentamento do eu lírico. O poema Se eu morresse amanhã, de Álvares de 
Azevedo, é bastante representativo desse momento. 
 
Se eu morresse amanhã 
Álvares de Azevedo 
 
Se eu morresse amanhã, viria ao menos 
Fechar meus olhos minha triste irmã; 
Minha mãe de saudades morreria 
Se eu morresse amanhã! 
Quanta glória pressinto em meu futuro! 
Que aurora de porvir e que manhã! 
Eu perdera chorando essas coroas 
Se eu morresse amanhã! 
Que sol! que céu azul! que doce n’alva 
Acorda a natureza mais louçã! 
Não me batera tanto amor no peito 
Se eu morresse amanhã! 
Mas essa dor da vida que devora 
A ânsia de glória, o dolorido afã… 
A dor no peito emudecera ao menos 
Se eu morresse amanhã! 
O texto é parte de uma coletânea publicada em 1853 – um ano após a morte de seu autor – e 
intitulada Lira dos vinte anos. É importante observar que todo o texto é construído 
a partir de uma hipótese – o que, gramaticalmente, é obtido por meio do subjuntivo. Esse modo 
enuncia a ação do verbo como “algo eventual, incerta, irreal, em dependência estreita com 
a vontade, a imaginação ou o sentimento daquele que o emprega. Por isso, as noções temporais não 
são precisas como no indicativo” (CUNHA & CINTRA, 2008, p. 487). No título do poema, 
podemos perceber a preocupação do eu lírico em relação ao seu futuro e ao de sua família caso 
viesse a falecer. Uma das características mais marcantes do movimento romântico é a idealização e 
o eu lírico fantasia sobre o momento de sua morte: como seus familiares se comportariam naquela 
situação? 
 
Se eu morresse amanhã, viria ao menos 
Fechar meus olhos minha triste irmã; 
Minha mãe de saudades morreria 
Se eu morresse amanhã! 
 
Álvares de Azevedo morreu de tuberculose aos 21 anos e expôs sua doença 
em muitos de seus textos, como em Lembrança de morrer (“Quando em meu peito rebentar-se a 
fibra…”). Em Se eu morresse amanhã, aparece a incerteza sobre o futuro; ao contrário 
dos outros jovens de sua idade, o eu lírico (talvez uma representação do próprio poeta) não viveria 
nenhuma glória e, por isso, evocava a própria morte: 
 
Quanta glória pressinto em meu futuro! 
Que aurora de porvir e que manhã! 
Eu perdera chorando essas coroas 
Se eu morresse amanhã! 
 
Ao mesmo tempo em que lamenta por uma morte tão prematura, ele também a exalta 
como solução para a dor física que o atormenta. O escapismo – uma das características 
do Arcadismo e do Romantismo – é o desejo de fugir a uma situação conflituosa; no texto 
de Azevedo, o eu lírico livrar-se-ia da dor se morresse. 
 
Que sol! que céu azul! que doce n’alva 
Acorda a natureza mais louçã! 
Não me batera tanto amor no peito 
Se eu morresse amanhã! 
 
Mas essa dor da vida que devora 
A ânsia de glória, o dolorido afã… 
A dor no peito emudecera ao menos 
Se eu morresse amanhã! 
 
É interesse observarmos, ainda, o recurso linguístico utilizado nas duas 
estrofes destacadas. O leitor deve notar que, nos dois últimos versos de cada uma delas, o 
autor afasta-se da norma culta ao elaborar a hipótese: em lugar de bateria e emudeceria, Azevedo 
utiliza batera e emudecera. Em uma leitura superficial do texto, podemos julgar que o jovem poeta 
comete um erro gramatical, utilizando os verbos no pretérito mais-que-perfeito do indicativo. 
Ao analisarmos a métrica do texto, percebemos que o poeta assim o faz com o propósito 
de manter a quantidade de sílabas métricas. 
 
Na recitação, a contagem de sílabas é feita de modo diverso daquele utilizado na 
contagem gramatical. Enquanto nesta contam-se todas as sílabas, naquela a contagem 
para na última sílaba tônica, “desprezando-se a átona ou as átonas finais” (BECHARA, 2009, p. 
630). A contagem poética considera o que será percebido por meio de leitura oral (realidade 
auditiva). Se eu morresse amanhã é um poema em que predominam os versos decassílabos; isto 
é, de 10 sílabas métricas. O leitor deve observar que, na segunda contagem, 
sublinhamos alguns trechos; eles indicam as sílabas contadas de maneira diferente. Na leitura 
de versos, proferimos as palavras com junções ou pausas exigidas pela técnica versificatória. Esse foi 
o recurso utilizado por Álvares de Azevedo. 
 
Como representante da segunda geração do Romantismo, o adolescente Álvares de Azevedo escreveu 
sobre os dramas, as aspirações, as decepções, os desejos e a rebeldia juvenis. No texto aqui analisado, 
podemos notar que o poeta não se inspirava em situações exteriores, mas a inspiração vinha 
dele mesmo e de suas experiências de vida. 
 
 
 
O Canto do Guerreiro 
 
I 
Aqui na floresta 
Dos ventos batida, 
Façanhas de bravos 
Não geram escravos, 
Que estimem a vida 
Sem guerra e lidar. 
– Ouvi-me, Guerreiros. 
– Ouvi meu cantar. 
II 
Valente na guerra 
Quem há, como eu sou? 
Quem vibra o tacape 
Com mais valentia? 
Quem golpes daria 
Fatais, como eu dou? 
– Guerreiros, ouvi-me; 
– Quem há, como eu sou? 
III 
Quem guia nos ares 
A frecha imprumada, 
Ferindo uma presa, 
Com tanta certeza, 
Na altura arrojada 
Onde eu a mandar? 
– Guerreiros, ouvi-me, 
– Ouvi meu cantar. 
IV 
Quem tantos imigos 
Em guerras preou? 
Quem canta seus feitos 
Com mais energia? 
Quem golpes daria 
Fatais, como eu dou? 
– Guerreiros, ouvi-me: 
– Quem há, como eu sou? 
V 
Na caça ou na lide, 
Quem há que me 
afronte?! 
A onça raivosaMeus passos conhece, 
O imigo estremece, 
E a ave medrosa 
Se esconde no céu. 
– Quem há mais valente, 
– Mais destro do que eu? 
VI 
Se as matas estrujo 
Co os sons do Boré, 
Mil arcos se encurvam, 
Mil setas lá voam, 
Mil gritos reboam, 
Mil homens de pé 
Eis surgem, respondem 
Aos sons do Boré! 
– Quem é mais valente, 
– Mais forte quem é? 
VII 
Lá vão pelas matas; 
Não fazem ruído: 
O vento gemendo 
E as malas tremendo 
E o triste carpido 
Duma ave a cantar, 
São eles – guerreiros, 
Que faço avançar. 
VIII 
E o Piaga se ruge 
No seu Maracá, 
A morte lá paira 
Nos ares frechados, 
Os campos juncados 
De mortos são já: 
Mil homens viveram, 
Mil homens são lá. 
IX 
E então se de novo 
Eu toco o Boré; 
Qual fonte que salta 
De rocha empinada, 
Que vai marulhosa, 
Fremente e queixosa, 
Que a raiva apagada 
De todo não é, 
Tal eles se escoam 
Aos sons do Boré. 
– Guerreiros, dizei-me, 
– Tão forte quem é? 
 
 
ANÁLISE: O Canto do Guerreiro foi dividido em 9 estrofes, com métrica regular de cinco silábas 
– redondilhas menores. Nesses versos se inicia a temática indianista que consagraria 
Gonçalves Dias como nosso maior indianista. O poema, cujo eu-lirico é o próprio índio, exalta 
os feitos indígenas, sua coragem, força e valentia para resistir á escravidão. 
 
 
 
 
 
 
Remorso 
Às vezes, uma dor me desespera... 
Nestas ânsias e dúvidas em que ando. 
Cismo e padeço, neste outono, quando 
Calculo o que perdi na primavera. 
Versos e amores sufoquei calando, 
Sem os gozar numa explosão sincera... 
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera 
Mais viver, mais penar e amar cantando! 
Sinto o que desperdicei na juventude; 
Choro, neste começo de velhice, 
Mártir da hipocrisia ou da virtude, 
Os beijos que não tive por tolice, 
Por timidez o que sofrer não pude, 
E por pudor os versos que não disse! 
 
 
Ao lermos o poema "Remorso" de Olavo Bilac , percebemos que são adotadas as 
características do parnasianismo,que estão presentes nas rimas ricas e pela preferência de 
estruturas fixas como os sonetos.Onde Olavo Bilac mostra que o remorso é uma dor causadas 
por sentimentos que não foram expostos , sendo guardados para si, deixando-se lamentar 
para o resto da vida.Assim nos transmitindo o quão importante é nos arriscarmos para sermos 
felizes para que, em tempos depois , não tenhamos que lamentar algo que não foi dito , 
expresso ou sentido. 
 
 
 
 
 
 
Sinfonias do Ocaso 
"Musselinosas, como brumas diurnas, 
descem do Ocaso as sombras harmoniosas, 
sombras veladas e musselinosas 
para as profundas solidões noturnas. 
 
Sacrários virgens, sacrossantas urnas, 
os céus resplendem de sidéreas rosas 
da Lua e das Estrelas majestosas 
iluminando a escuridão das furnas. 
 
Ah! por estes sinfônicos ocasos 
a terra exala aromas de áureos vasos, 
incensos de turíbulos divinos. 
 
Os plenilúricos mórbidos vaporam... 
E como que no Azul plangem e choram 
cítaras, harpas, bandolins e violinos." 
 
Toda a composição de Olavo Bilac, é regrada por instrumentos e a composição construída pelo 
ritmo do tema amor. 
Cruz e Souza, em “Sinfonias do Ocaso”, representa a subjetividade da temática - amor. As 
sensações descritas pelo poeta, provocam oscilações como “Sombras veladas e musselinosas / 
Para as profundas solidões noturnas.” Na estrofes encontramos o mistério do amor, com todo 
o universo composto pelo autor para citar o tema: “Ah! por estes sinfônicos ocasos / A terra 
exala aromas de áureos vasos, Incensos de turíbulos divinos.” Cruz e Souza , expressa desde a 
solidão até o êxtase do amor em sua composição: “Os plenilúnios mórbidos vaporam... E como 
que no Azul plangem e choram / Cítaras, harpas, bandolins, violinos...” 
Olavo Bilac e Cruz e Souza, destacam em seus poemas as sensações do amor, envolvidas pelo 
embalo de instrumentos musicais, que encantam ainda mais a essência de seus poemas. 
 
4º MOTIVO DA ROSA 
 
No quarto motivo – bem como no seguinte – a 
voz poética que temos é a da rosa. A beleza 
deixa de ser um objeto passivamente 
observado e dirige-se ao observador: 
 
Não te aflijas com a pétala que voa: 
 também é ser, deixar de ser assim. 
 
Rosas verás, só de cinza franzida, 
mortas intactas pelo teu jardim. 
 
Eu deixo aroma até nos meus espinhos, 
 ao longe, o vento vai falando de mim. 
 
E por perder-me é que me vão lembrando, 
por desfolhar-me é que não tenho fim. 
 
Logo no primeiro verso do poema, temos a rosa 
que diz Não te aflijas com a pétala que voa, 
indicando que, a despeito de estar 
desfalecendo, é a rosa quem consola o artista, 
e não o contrário. 
 A voz poética da rosa prossegue afirmando que 
também é ser, deixar de ser assim, apontando 
para o poeta uma outra possibilidade de 
existência. Na estrofe seguinte, a rosa compõe 
para o seu interlocutor – isto é, o poeta – o que 
é o futuro de todas as rosas – de toda beleza: 
Rosas verás, só de cinza franzida, / mortas 
intactas pelo teu jardim. A flor diz ao poeta que 
toda beleza, tão necessária ao artista, é 
passageira. 
 Na terceira estrofe, essa visão do futuro é 
aproximada do eu lírico da rosa – intimizando a 
experiência da efemeridade – quando esta se 
refere ao desfazer de seu corpo: Eu deixo 
aroma até nos meus espinhos, / ao longe, o 
vento vai falando de mim. Essa idéia é 
completada na estrofe seguinte, que informa o 
que acontece à rosa por espalhar-se ao 
desfazer-se: E por perder-me é que me vão 
lembrando, / por desfolhar-me é que não 
tenho fim. 
 É interessante observar que, além do 
andamento linear do poema – da primeira até a 
última estrofe –, existe ainda uma 
correspondência entre a primeira e a última 
estrofe, bem como entre as duas estrofes 
centrais. 
As duas estrofes centrais falam do 
esmorecimento da beleza, primeiramente em 
um nível geral, na segunda estrofe, e depois de 
forma pessoal – do ponto de vista do eu lírico 
da rosa –, na terceira estrofe: Rosas verás, só 
de cinza franzida, / mortas intactas pelo teu 
jardim. (segunda estrofe) // Eu deixo aroma até 
nos meus espinhos, / ao longe, o vento vai 
falando de mim (terceira estrofe). 
 A primeira e a última estrofe dialogam entre si 
na medida em que as duas, dentro do poema, 
são as que apontam para a outra existência, 
além da beleza. Na primeira estrofe, a 25 
indicação dessa outra existência se dá em 
termos gerais e, na última, de forma mais 
específica – assim como nas estrofes centrais 
em que o tema passa do geral para o mais 
específico: Não te aflijas com a pétala que voa: 
também é ser, deixar de ser assim – primeira 
estrofe – (...) E por perder-me é que me vão 
lembrando, / por desfolhar-me é que não 
tenho fim – quarta estrofe. 
O movimento de uma idéia geral que se 
especifica e pessoaliza, conduzindo ao fim, 
pode igualmente ser percebido nas rimas ao 
longo do poema. No quarto motivo, apenas 
rimam os segundos versos das estrofes, assim, 
as palavras que fazem as rimas ao longo do 
poema são: assim, jardim, mim e fim. As 
palavras que compõem a rima do quarto 
motivo reproduzem, de forma abstrata, o 
movimento geral do poema de afunilamento da 
experiência de efemeridade – do geral para o 
específico, até o inevitável fim. 
 
 
 
 
O Acendedor de Lampiões 
 
Foi um dos primeiros poemas de Jorge de 
Lima ainda em sua fase parnasiana que se 
pode perceber claramente pelo cuidado 
nos vocábulos sempre corretos na 
descrição do trabalho do acendedor de 
lampiões que é bastante objetiva, 
descritiva e impessoal, embora nestes 
versos Lima parece se compadecer deste 
tipo de trabalhador, fugindoum pouco da 
estética parnasiana que não costuma se 
envolver com suas temáticas. 
 
O Acendedor de Lampiões 
 
 
Lá vem o acendedor de lampiões da rua! 
Este mesmo que vem infatigavelmente, 
Parodiar o sol e associar-se à lua 
Quando a sombra da noite enegrece o 
poente! 
 
Um, dois, três lampiões, acende e 
continua 
Outros mais a acender 
imperturbavelmente, 
A medida que a noite aos poucos se 
acentua 
E a palidez da lua apenas se pressente. 
 
Triste ironia atroz que o senso humano 
irrita: 
Ele que doira a noite e ilumina a cidade, 
Talvez não tenha luz na choupana em que 
habita, 
 
Tanta gente também nos outros insinua 
Crenças, religiões, amor, felicidade, 
Como este acendedor de lampiões da rua 
 
 
Como dito anteriormente a poesia de Jorge 
de Lima demonstra diferentes faces acerca 
da percepção do universo humano, tendo 
um dom particular de expressar suas 
observações por meio da linguagem. 
Assim, nos primeiros versos Lima (1995) 
apresenta o personagem central do poema 
ao elaborar uma descrição do trabalho do 
acendedor numa linguagem lírica e bela 
como se pode observar nestes versos: 
Lá vem o acendedor de lampiões da rua!/ 
Este mesmo que vem 
infatigavelmente,/Parodiar o sol e 
associar-se à lua/ Quando a sombra da 
noite enegrece o poente!. 
 
Observe que os vocábulos 
“infatigavelmente”, “parodiar”, “enegrece” 
e “poente” demonstram a preocupação 
com a estética que é bastante 
característico da poesia mais formalistas, 
pois costuma se utilizar de um vocabulário 
mais culto e sofisticado, porém puramente 
descritivo que não tem pretensões de 
passar nenhum subjetivismo embora os 
vocábulos utilizados pelo poeta, nos 
permitam emocionar com as palavras, o 
que nos remetem a definição de “poesia” e 
“literatura” uma vez que para ser 
consideradas artes estas devem despertar 
no leitor alguma forma de sentimento. 
Além disso, os vocábulos apresentados 
descrevem não somente o estado de 
ânimo que o acendedor de lampiões estava 
no momento em que realizava seu trabalho 
onde ele afirma/ Este mesmo que vem 
infatigavelmente/ e também suas ações 
retocadas por uma estética sofisticada, 
mas que não é somente movida pela 
necessidade de atribuir beleza aos versos, 
posto que para Paz (1982) a palavra solta 
simplesmente não é uma linguagem uma 
vez que é necessários uma associação 
entre signos e sons para que atribuam 
sentido e transmitam sentido. 
Nos versos seguintes: 
Um, dois, três lampiões, acende e 
continua/ Outros mais a acender 
imperturbavelmente/ A medida que a 
noite aos poucos se acentua/ E a palidez 
da lua apenas se pressente 
 
 pode-se observar que o poeta continua 
descrevendo o trabalho do acendedor 
agora dessa vez enfatizado pelo vocábulo 
“impertubavelmente”, o que nos remete a 
ideia de que o acendedor realiza um 
trabalho cansativo e repetitivo como este 
sem questionar e tal ideia pode ser 
reforçada pelo advérbio de modo 
“infatigavelmente” que demonstra que ele 
também realiza este trabalho parar para 
descansar. 
Isto também é corroborado 
por Paz (1982) quando afirma a 
pluralidade de termos e signos da palavra 
solta que se transforma na frase certa que 
transmitem o significado e se transforma 
na linguagem.Assim, por meio dos versos 
/Um, dois, três lampiões, acende e 
continua/ os numerais “um, dois, três” 
reforça ainda mais a ideia que se trata de 
um trabalho que incessante e além de 
tudo necessário uma vez que para a cidade 
ser iluminada dependia de seu trabalho 
que era tão importante quanto o do 
governador ou do prefeito da cidade. 
Neste sentido, pode-se 
destacar a posição política do autor em 
relação à descrição de um trabalho como 
este uma vez que mostra um julgamento 
moral e ético acerca da exploração do 
trabalho de uma pessoa em suas 
dimensões sociais, o qual é produto de 
uma sociedade moderna e imposto pelas 
elites dirigentes. O olhar do poeta mostra 
uma postura ideológica distinta e 
contraditória entre si, pois era filho de 
senhor de engenho, portanto, da classe 
dominante. 
Sendo assim, pode-se 
observar que Jorge de Lima neste poema 
em que ele mostra que o acendedor de 
lampiões é um homem do povo que trás a 
lua para uma cidade assim como o sol 
ilumina o dia e colabora com a lua, posto 
que somente sua luz sozinha é fraca para 
iluminar toda a noite. 
Os versos da terceira estrofe: 
Triste ironia atroz que o senso humano 
irrita/Ele que doira a noite e ilumina a 
cidade/Talvez não tenha luz na choupana 
em que habita 
mostra o modo de viver humilde deste 
trabalhador através da descrição da sua 
casa “choupana em que habita” que 
significa um casebre simples e miserável 
sem qualquer tipo de conforto como é 
acrescentado anteriormente pelos 
vocábulos “não tenha luz”, revelando a 
realidade miserável que essa pessoa vive. 
A partir destes versos, percebe-se também 
que Jorge de Lima mostra as contradições 
inerentes na sociedade capitalista tão 
discutidos por Marx (1974), pois quem, 
um indivíduo que realiza um trabalho tão 
importante para a sua sociedade, mas não 
ganha o suficiente para ter luz de lampião 
na sua casa, denunciando claramente a 
miséria e a exploração da sociedade sobre 
a classe trabalhadora 
E para reforçar a ideia da denúncia das 
contradições da sociedade capitalista nos 
quatro estrofes os versos 
Tanta gente também nos outros Insinua/ 
Crenças, religiões, amor, felicidade,/Como 
este acendedor de lampiões da rua 
 mostram o quanto o trabalho do 
acendedor de lampiões é desvalorizado 
socialmente uma vez que tem a mesma 
importância social de tantos outras 
profissões como mostrado nos versos, mas 
não tem seus direitos reconhecido tantos 
quanto as outras profissões nas mais 
diversas esferas sociais. 
Muitos poetas e escritores fazem de seus 
poemas um instrumento de discussão de 
questões sociais através do qual se pode 
intervir e tratar de problemas de caráter 
social, político e religioso, denunciado e 
interpretando as mazelas sociais com o 
projeto de formular, veicular modificar ou 
aprimorar os conteúdos políticos na 
sociedade que, no geral, são bastante 
divergentes uns dos outros. 
Cristovão (2003) afirma que a poesia trata-
se de uma realização humana, portanto 
uma construção histórica que leva em 
consideração a realidade vivenciada 
pelos poetas, utilizando-se de uma 
linguagem original que desperte no 
leitor algo relacionado ao que está escrito, 
ou seja, consiste, muitas vezes, em 
linguagem uma metáfora com base na 
visão de mundo de seu autor em que 
estética se mistura com a ética. 
 
 
Eu vi um rosa 
 
- Uma rosa branca - 
Sozinha no galho. 
No galho? Sozinha 
No jardim, na rua. 
 
Sozinha no mundo. 
 
Em torno, no entanto, 
Ao sol de meio-dia, 
Toda a natureza 
Em formas e cores 
E sons esplendia. 
 
Tudo isso era excesso. 
 
A graça essencial, 
Mistério inefável 
- Sobrenatural - 
Da vida e do mundo, 
Estava ali na rosa 
Sozinha no galho. 
 
Sozinha no tempo. 
 
Tão pura e modesta, 
Tão perto do chão, 
Tão longe na glória, 
Da mística altura, 
Dir-se-ia que ouvisse 
Do arcanjo invisível 
As palavras santas 
De outra Anunciação. 
 
 
Manuel Bandeira foi o introdutor do verso 
livre e também adaptou os ritmos e formas 
regulares ao Modernismo. Em toda sua 
obra, mostra uma ardente ternura e um 
grande amor pela vida. É desprovida de 
preciosismo e vocábulo hermético. Ele 
criticava arduamente a poesia tradicional, 
como demonstra em sua obra “A Poética”: 
 
Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
........................................... 
 
 
Bandeira intitulava-se “o maior dos 
menores poetas” (clara 
modéstia), todavia, sabe-se que, na 
verdade, é o maior dos maiores poetas; ele 
expressa isso em“O Testamento”: 
 
...................................................... 
Fiz-me arquiteto, não pude! 
Sou poeta menor, perdoai! 
 
 
Através de seus “Alumbramentos”, realiza-
se plenamente em sua obra. “Eu vi uma 
rosa” é um exemplo disso. Um poema 
pentassílabo em verso branco, constituído 
por duas quintilhas (estrofes com cinco 
versos), três monósticos (estrofe com um 
verso), uma sextilha (estrofe com seis 
versos) e uma oitava (estrofe com oito 
versos). 
 
No primeiro verso, já se enceta com uma 
anáfora do título com o primeiro verso: 
Eu vi uma rosa (Título) 
Eu vi uma rosa (1º verso). 
 
E a rosa começa a ascender 
paulatinamente, como uma hierarquia de 
dimensão: galho, jardim, rua, mundo, no 
primeiro monóstico: 
 
 "Eu vi um rosa 
- Uma rosa branca - 
Sozinha no galho. 
No galho? Sozinha 
No jardim, na rua". 
 
Sozinha no mundo 
 
Na segunda estrofe, há uma antítese com a 
primeira. A rosa não está mais sozinha, 
pois ao seu redor, estão a natureza, o Sol, 
os sons. Do segundo ao quinto versos, da 
segunda quintilha, há um hipérbato: 
 
“Em torno, no entanto, 
Ao sol do meio, 
Toda a natureza 
Em formas e cores 
E sons esplendia". 
 
A seguir, há um monóstico que admite 
hipérbole a tudo que lhe foi atribuído 
anteriormente (à rosa): 
 
“Tudo isso era excesso”. 
 
No primeiro bloco, que compreende da 
primeira à segunda estrofe e o verso 
avulso, a rosa atinge o ápice do plano 
material e no segundo bloco (terceira 
estrofe adiante), ela parte para o plano 
místico, simetricamente com aliteração 
(“essencial”, “inefável” e “sobrenatural”): 
 
“A graça essencial, 
Mistério inefável 
- Sobrenatural- 
Da vida e do mundo, 
Estava ali na rosa 
Sozinha no galho. 
 
Sozinha do tempo 
 
Ainda nesta estrofe (terceira), há uma 
reflexão de como uma simples rosa conter 
tanta grandeza, tanto mistério, se ele está 
sozinha no galho, no mundo, na vida e 
como pode guardar tanto segredo, o 
milagre da vida e ser tão pura. 
Bandeira fez sua obra como um diário 
íntimo que vai sugerindo no dia-a-dia, 
como constata-se no “Itinerário de 
Pasárgada”. “Eu vi uma rosa” é um ideário 
do “eu lírico”. Na última estrofe, há 
anáfora nos três primeiros versos (Tão pura 
e modesta, tão perto do chão, tão longe da 
glória) e há também aliteração nos dois 
primeiros versos (“pura”, “perto”). Há uma 
espécie de abstração sem sair do plano 
físico, porém a rosa branca (branco da paz, 
clara referência à época que o poema foi 
feito, em 1945, ano que terminou a 
Segunda Guerra Mundial, em que o mundo 
estava necessitando, mais do que nunca, 
de muita paz) comunica-se com o plano 
metafísico, por intermédio do anjo 
supremo, que é o Arcanjo Gabriel: 
 
“Tão pura e modesta, 
Tão perto do chão, 
Tão longe na glória, 
Da mística altura, 
Dir-se-ia que ouvisse 
Do arcanjo invisível 
As palavras santas 
De outra Anunciação”. 
 
 “A “rosa” como metáfora do mundo, ou 
seja, a visão do “eu lírico” faz a rosa 
transitar ora no sublime (“Tão longe da 
glória, Da mística altura), ora no chão 
humilde do cotidiano de Bandeira” Davi 
Arrigucci Jr. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CARTAS DE MEU AVÔ 
 
A tarde cai, por demais 
Erma, úmida e silente... 
A chuva, em gotas glaciais, 
chora monotonamente. 
 
E enquanto anoitece, vou 
Lendo, sossegado e só, 
As cartas que meu avô 
Escrevia a minha avó. 
 
Enternecido sorrio 
Do fervor desses carinhos: 
É que os conheci velhinhos, 
Quando o fogo era já frio. 
 
Cartas de antes do noivado... 
Cartas de amor que começa, 
Inquieto, maravilhado, 
E sem saber o que peça. 
 
Temendo a cada momento 
Ofendê-la, desgostá-la, 
Quer ler em seu pensamento 
E balbucia, não fala... 
 
A mão pálida tremia 
Contando o seu grande bem. 
Mas, como o dele, batia 
Dela o coração também. 
 
A paixão, medrosa dantes, 
Cresceu, dominou-o todo. 
E as confissões hesitantes 
Mudaram logo de modo. 
 
Depois o espinho do ciúme... 
A dor... a visão da morte... 
Mas, calmado o vento, o lume 
Brilhou, mais puro e mais forte. 
 
E eu bendigo, envergonhado, 
Esse amor, avô do meu... 
Do meu - fruto sem cuidado 
Que ainda verde apodreceu. 
 
O meu semblante está enxuto. 
Mas a alma, em gotas mansas, 
Chora abismada no luto 
Das minhas desesperanças... 
 
E a noite vem, por demais 
Erma, úmida e silente... 
A chuva em pingos glaciais, 
Cai melancolicamente. 
 
E enquanto anoitece, vou 
Lendo, sossegado e só, 
As cartas que meu avô 
Escrevia a minha avó. 
O poema foi publicado em 1917 no livro de 
estreia “Cinzas das horas” de Manuel 
Bandeira. 
Ainda por transição, o autor em seus 
primeiros versos dá a forma de sentidos e 
não de uma forma material. Comove e 
enriquece quem está lendo a obra, 
trazendo uma apreciação da ideia central 
de uma forma meio que distante, pois já 
aconteceu no passado algo que não poderá 
mais alcançar, até mesmo por ter 
conhecido seus avós já velhinhos. 
A saudade e a forma que é mostrado no 
poema dar entender que o neto, que lê a 
carta, se sente incapaz de amar tanto 
assim, mas ao mesmo tempo admira a 
capacidade e intensidade do amor dos seus 
avós por ele. 
É curioso como ao ler, podemos observar 
as palavras que são colocadas de uma 
forma que mostra os dois sentidos, tanto 
abstratos como concretos, fazendo 
comparação do real com o imaginário. 
Percebe-se que o poema também 
apresenta os acontecimentos diários com 
simplicidade, porém mostrando uma 
trajetória dos avós em seu mundo de 
sofrimento e dor, ainda com a melancolia 
que traz saudades de um mundo que não 
foi seu, que não vivenciou, mas se encontra 
prezo por grandes laços familiares, 
afetuoso e por laços sanguíneos. 
O autor mostra através do poema o quanto 
vivemos em um mundo onde devemos 
sempre interpretar, imaginar, saber. Que a 
leitura nos leva a ter ideias, nos ensina a 
ser persistentes em um mar de leitura. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
ALGUMA POESIA
Publicado em 1930, Alguma Poesia, primeira obra poética de Drummond, contém quarenta 
e nove poemas, muitos deles, micro-poemas, reunindo produções do autor, entre 1925 e 
1930 e tem sido considerado como elo de ligação entre a primeira e a segunda gerações 
do nosso Modernismo, representando a síntese mais perfeita entre elas. 
Alguma Poesia foi escrito sob o ímpeto da modernidade de 1922, pratica o poema-piada, 
utiliza os coloquialismos apregoados pela estética, cultiva a poesia do cotidiano, 
repudiando as tendências parnasiano-simbolistas que dominaram a poesia até então. No 
entanto, o poema-piada de Drummond é antes um desabafo de um tímido que procura 
afogar (disfarçar) no humor os sentimentos que o amarguram. No prosaísmo esconde a 
procura de uma expressão poética autêntica e autônoma e, ao se voltar para o cotidiano, 
transcende o tempo e o espaço em busca do perene e universal. 
Drummond seguiu em Alguma Poesia a mesma linha temática que permaneceu durante 
sua trajetória poética, que pode ser identificada como se segue, a partir do que o próprio 
autor sugere como condução temática de sua obra: 
1. O indivíduo – "um eu todo retorcido" 
Seção que investiga a formação do poeta e sua visão acerca do mundo. Sempre lúcido, 
discorre com amargor, pessimismo, ironia e humor o que ele, atento observador, capta de 
si mesmo e das coisas que o rodeiam. Alguns poemas sintetizam a visão do indivíduo, 
como o poema Poema de sete faces em que vaticina seu destino. É o primeiro poema 
de Alguma Poesia do qual transcreve-se a primeira estrofe:Quando nasci, um anjo torto / 
desses que vivem na sombra / disse:Vai, Carlos! ser gauche na vida. 
 
A palavra gauche (lê-se gôx), de origem francesa, corresponde a "esquerdo" em nosso 
idioma. Em sentido figurado, o termo pode significar "acanhado", " inepto". Qualifica o ser 
às avessas, o "torto", aquele que está à margem da realidade circundante e que com ela 
não consegue se comunicar. 
2. A família – "a família que me dei" 
Uma das constantes temáticas de Drummond, presente desde Alguma Poesia até seus 
versos finais, é a família, sua vivência interiorana em Minas Gerais, a paisagem que marca 
sua memória. Contrariando o lugar-comum, ao invés de se referir à família como algo que 
lhe foi atribuído por Deus, o poeta coloca um "que me dei" a analisa suas relações 
pessoais, consciente de que se assentam na perspectiva pessoal. De modo muito 
individual, retrata o escoar do tempo, como é possível observar 
em Infância, Família, Sesta, alguns dos mais significativos poemas de Alguma Poesia. 
3. O conhecimento amoroso – "amar-amaro" 
Com o jogo de palavras amar-amaro, título emprestado de um poema do livro Lição de 
Coisas, o poeta acrescenta ao substantivo "amar" o adjetivo "amargo", sentimento 
recorrente em alguns de seus poemas e livros escritos posteriormente. Em Alguma 
Poesia o tema é tratado com boas doses de humor, sátira ou pitadas de idealismo, como 
em Toada do amor, Sentimental, Quero me casar, Quadrilha. 
4. Paisagem e viagens 
Um grupo de poesias faz anotações sobre viagens, retratando paisagens vistas e vividas, 
mas também recuperando as influências recebidas da sempre subserviente postura 
brasileira ante as supercivilizações, como em Lanterna mágica, Europa, França e Bahia. 
5. O social e a evolução dos tempos 
Drummond constrói poemas em que contempla a mudança dos tempos, o progresso 
chegando e invadindo a antiga paisagem, como em A rua diferente ou Sobrevivente. 
 
Poemas escolhidos 
NO MEIO DO CAMINHO 
No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra 
no meio do caminho tinha uma pedra 
Nunca me esquecerei desse 
acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do 
caminho 
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra. 
QUADRILHA 
João amava Teresa que amava 
Raimundo 
que amava Maria que amava Joaquim 
que amava Lili 
que não amava ninguém. 
João foi para os Estados Unidos, Teresa 
para o convento, 
Raimundo morreu de desastre, Maria 
ficou para tia, 
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. 
Pinto Fernandes 
que não tinha entrado na história. 
 
POEMA DE SETE FACES 
Quando nasci, um anjo torto 
desses que vivem na sombra 
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. 
As casas espiam os homens 
que correm atrás de mulheres. 
A tarde talvez fosse azul, 
não houvesse tantos desejos. 
O bonde passa cheio de pernas: 
pernas brancas pretas amarelas. 
Para que tanta perna, meu Deus, 
pergunta meu coração. 
Porém meus olhos 
não perguntam nada. 
O homem atrás do bigode 
é serio, simples e forte. 
Quase não conversa. 
Tem poucos, raros amigos 
o homem atrás dos óculos e do bigode. 
Meu Deus, por que me abandonaste 
se sabias que eu não era Deus 
se sabias que eu era fraco. 
Mundo mundo vasto mundo, 
se eu me chamasse Raimundo 
seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo, 
mais vasto é meu coração. 
Eu não devia te dizer 
mas essa lua 
mas esse conhaque 
botam a gente comovido como o diabo. 
 
TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO 
Eu também já fui brasileiro 
moreno como vocês. 
Ponteei viola, guiei forde 
e aprendi na mesa dos bares 
que o nacionalismo é uma virtude. 
Mas há uma hora em que os bares se 
fecham 
e todas as virtudes se negam. 
Eu também já fui poeta. 
Bastava olhar para mulher, 
pensava logo nas estrelas 
e outros substantivos celestes. 
Mas eram tantas, o céu tamanho, 
minha poesia perturbou-se. 
Eu também já tive meu ritmo. 
Fazia isso, dizia aquilo. 
E meus amigos me queriam, 
meus inimigos me odiavam. 
Eu irônico deslizava 
satisfeito de ter meu ritmo. 
Mas acabei confundindo tudo. 
Hoje não deslizo mais não, 
não sou irônico mais não, 
não tenho ritmo mais não. 
 
Catar feijão 
1.atar feijão se limita com escrever: 
joga-se os grãos na água do alguidar 
e as palavras na folha de papel; 
e depois, joga-se fora o que boiar. 
Certo, toda palavra boiará no papel, 
água congelada, por chumbo seu verbo: 
pois para catar esse feijão, soprar nele, 
e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 
2.Ora, nesse catar feijão entra um risco: 
o de que entre os grãos pesados entre 
um grão qualquer, pedra ou indigesto, 
um grão imastigável, de quebrar dente. 
Certo não, quando ao catar palavras: 
a pedra dá à frase seu grão mais vivo: 
obstrui a leitura fluviante, flutual, 
açula a atenção, isca-a como o risco. 
No poema João Cabral de Melo Neto revela sua 
concepção do ato criador. Tem como objeto a 
construção do poema, toma como referência 
um ato do cotidiano em que também o 
escolher, o combinar são necessários. O jogar 
as palavras é a primeira etapa criadora: a 
inspiração. Essa leva o artista a colocar no 
papel suas iniciais impressões. Porém, o 
verdadeiro artista não fica aí: ele, assim como o 
catador de feijões, seleciona os melhores grãos, 
a fim de construir uma poesia que fale, não 
pelo excesso, mas pela contenção, desfazendo- 
se de tudo o que for leve e oco, palha e eco. O 
que já foi dito não interessa repetição. Sua 
paixão e consciência buscam a originalidade da 
forma e do conteúdo. 
Em Cabral, o eu-lírico está presente com toda a 
força que sua ausência impõe, diferentemente 
de outros poetas, seus contemporâneos ou 
antecessores, que propuseram uma lírica 
subjetiva, idealizadora do mundo em oposição 
a este, quer expressando uma visão pessimista, 
irônica ou inconformada. Cabral não. Ele 
silencia a voz valorativa. Apresenta uma 
poética, em sua maior parte, crua, destituída de 
individualidade. Mas não isenta de seu olhar 
original sobre a realidade. Olhar que corta. 
O poeta seleciona, vê e revela, mesmo 
disfarçando, o que seus olhos percebem. Numa 
postura inovadora: a pedra dando à frase seu 
grão mais vivo; o prazer mais vivo. 
O rigor composicional do poema largamente 
difundido pela crítica nesse livro chega a seu 
ápice. São quarenta e oito poemas escritos em 
duas estrofes que muito se assemelham a 
quadros pictóricos, visualmente considerados. 
Ao todo cada poema atinge dezesseis ou vinte 
e quatro versos e o universo temático sempre 
tendo a ver com o Nordeste / Espanha, a 
condição humana e o fazer poético. Tudo isso 
numa rede de inter-relações lucidamente 
arquitetada. Catar feijão se apresenta 
composicionalmente em duas partes, com a 
marcação da segunda delas como o número 2. 
Na primeira parte o poeta descreve o que se 
pode denominar de habitual, comum num ato 
de catar feijão: a limpa, isto é, "jogar fora o leve 
e oco, palha e eco" que é a sobra, a sujeira – o 
"eco", pois o bom do feijão fica no fundo. 
Ocorre, porém, que já desde aí o poema 
conotativamente inicia seu jogo poético. A 
começar pelo título: Catar feijão. Nada mais 
despistador. Na verdade, ao término de sua 
leitura, sabe-se que lhe interessa mesmo é o 
"catar" palavras. E nessa linha do despiste, o 
primeiro verso enuncia que "catar feijão se 
limita com escrever, quando quer mesmo a 
idéia de que escrever se limita com catar feijão. 
O jogo através do símile se faz o inverso, toma-
se o real comparado na condição de 
comparante. A composição começa por 
demonstrar assim que ela toma-se a si mesma 
como modelo desse catar feijão em que a 
pedra dá à frase seu grão mais vivo:/ obstrui a 
leitura fluviante, flutual, /açula a atenção, isca-
a com o risco. 
O verbo catar assume o sentido de escolher. 
Porque catar feijãoé, como catar palavras, 
recolher, retirar o que não é feijão ou não é 
feijão bom ,o que não é palavra adequada ou 
não é palavra boa. Nota-se que o rigor de 
escolha é mesmo exemplar. Conquanto haja o 
propósito de conceituar o ato de escrever, com 
a importância fundamental que lhe dá de ser 
dada, o poeta usa o verbo limitar para 
estabelecer proximidades (e não igualdade) 
entre comparante e comparado: "Catar feijão 
se limita com escrever", e não é o mesmo que 
catar feijão é como escrever. As diferenças e 
semelhanças dos dois atos ficam 
garantidamente asseguradas nos versos do 
poema. E para demonstrar concretamente essa 
imagem, seguem-se os verso dois, três e 
quatro, com os quais estabelece 
simultaneamente a semelhança / diferença no 
ato de jogar: "joga-se os grãos na água do 
alguidar" é semelhante apenas na intenção de 
escolher a "e as palavras na folha de papel". E a 
imagem da diferença novamente se estabelece, 
pois, ao contrário dos grãos, as palavras não 
vão fundo, bóiam no papel, não obstante 
chumbo: Certo, toda palavra boiará no papel, / 
água congelada, por chumbo seu verbo. A 
imagem é muito significativa, ainda mais 
quando se observa que a "água-papel" se 
contrasta com a "água – alguidar" não apenas 
quanto à imagem produzida: líquida, a do 
alguidar, sólida (e branca), a do papel, amas 
também porque a complexidade do verbo boiar 
é muito maior pelo efeito que o contexto lhe 
confere. Ora, na água – papel, efetivamente as 
palavras não bóiam porque não há fundo, mas 
conotativamente bóiam, quando ao texto não 
se ajustam, sendo então necessário "catá-las". 
Com o visível propósito de evidenciar, 
concretizar a imagem buscada, o poema 
efetivamente se constrói sob o efeito de uma 
espécie de hipálage, atribui-se o que é próprio 
do catar feijão ao escrever (poesia) e vice-
versa, numa estrutura sintática direcionada 
pelo símile. E nessa linha se fecha a primeira 
fase: "pois para catar esse feijão, soprar nele e 
jogar o leve e oco, a palha e eco. "Esses são 
elementos concretamente próprios do ato de 
catar feijão jogado no alguidar: o que sobe é 
leve, palha, oco e, pois, eco (sujeira). Mas 
poeticamente é no "catar" palavras que ele se 
aplica: jogar fora as que são palha, ocas, 
portanto, eco. Deve-se atentar ainda para a 
especial conotação da palavra eco, que no 
poema é eco (sujeira de que se deve livrar) por 
fazer eco, (som desagradável, que se deve 
evitar). 
Na segunda parte, a segunda estrofe, o poema 
expõe uma das conseqüências ou um dos 
resultados possíveis desse ato de catar feijão; o 
risco que se corre, pois pode ficar no fundo algo 
que, como o feijão, não bóia e que, estranho, é 
um perigo: "um grão qualquer, pedra ou 
indigesto, um grão imastigável, de quebrar 
dente". Isto para esse real catar feijão na água 
do alguidar. Entretanto para acatar palavra o 
efeito é outro bem contrário: "a pedra dá à 
frase seu grão mais vivo:" Como se verifica, o 
processo composicional estabelecido se 
mantém. Apenas que desta feita a implícita 
comparação se dá de forma direta. A pedra 
para o "catar palavra" não é indigesta, mas sim 
renovadora. Melhor dizendo, o indigesto em 
"catar palavras", qual seja, o que rompe o 
tradicional (o habitual) não causa problemas, 
ao contrário, instaura o novo, criativamente 
considerado, "a pedra dá à frase se grão mais 
vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual. 
A sintaxe do poema é também bem peculiar. 
Sua estrutura dá sustentação à forma lógico-
argumentativa em que se organiza. A reflexão 
sobre o fazer poético que busca limites no catar 
feijão se conduz por acirrada linguagem lógico 
– argumentativa. Os versos não as medidas 
extensas e variáveis, mais apropriados e 
adequados a esse tipo de raciocínio, no caso, 
poemático. Mas o que singulariza a sintaxe 
poemática de Catar feijão é a construção 
firmada em frase elípticas, o que concorre 
tanto para a economia vocabular do poema 
enquanto para a sua pauta rítmica. Sirvam de 
exemplo: a elisão de água em: as palavras na da 
folha de papel;" v.3; e a intrincada construção 
com versos 5, 6 e 7: "Acertos, toda a palavra 
boiará no papel. Água congelada (que é água 
congelada), por chumbo seu verbo (por ser de 
chumbo o seu verbo); / pois para catar esse 
feijão, soprar nele (é necessário soprar 
nele)". Catar feijão é, pois, uma poema em que 
a construção poemática é brevemente 
discutida, melhor diria, argumentada (em 
dezesseis versos), porém numa linguagem 
poética lógico – discursiva bastante densa e 
rigorosamente trabalhada, dando-se próprio 
poema como exemplo desse fazer poético que 
ele mesmo preconiza. Há uma perfeita sintonia 
entre a cadência rítmica assegurada pela 
freqüência quase exclusiva de vocábulos 
paroxítonos e oxítonos alternado-se, a grande 
incidência da aliteração, da assonância e a 
reiteração de determinadas palavras ou 
expressões como já se observou. Essa sintonia 
se faz presente no amálgama dessa camada 
sonora com o campo semântico e sintático, o 
que também já ficou aqui observado. Se há 
uma certa dissonância: a rima toante feita de 
forma bem peculiar, a variabilidade da métrica 
nos versos, a sintaxe singularmente elíptica e 
outros, é porque "quando ao catar palavras "a 
pedra dá à frase seu grão mais vivo". 
 
 
 
 
 
POEMAS DE NATAL 
Um dos mais belos poemas de natal de Vinicius de Moraes, o poetinha, como é 
conhecido. Nasceu no dia 19/10/1913, na cidade do Rio de Janeiro e morreu em 
09/07/1980 deixando uma obra que encantou e encanta gerações até os dias de hoje. 
Dele disse, o também poeta, Carlos Drummond de Andrade: "Vinicius é o único poeta 
brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado 
natural". A vida do poetinha foi intensa e pode viver o que escrevia através de seus 
amores e dos grandes amigos e parceiros que fez em vida. 
Mas nem só de amor Vinícius de Moraes escreveu, também falou sobre o Natal, sobre 
as festas de fim de ano, e o poema de natal é uma de suas obras mais respeitadas, 
apresentamos essa bela obra natalina em dois formatos, em uma imagem com o 
poema pronto para postar no Facebook e também em formato PPS para baixar e 
compartilhar. 
O poeta passa sua mensagem de natal para todas as pessoas que buscam uma 
mensagem de emoção, motivação e otimismo para essa data tão especial 
Para isso fomos feitos: 
Para lembrar e ser lembrados 
Para chorar e fazer chorar 
Para enterrar os nossos mortos - 
Por isso temos braços longos para os 
adeuses 
Mãos para colher o que foi dado 
Dedos para cavar a terra. 
Assim será nossa vida: 
Uma tarde sempre a esquecer 
Uma estrela a se apagar na treva 
Um caminho entre dois túmulos - 
Por isso precisamos velar 
Falar baixo, pisar leve, ver 
A noite dormir em silêncio. 
Não há muito o que dizer: 
Uma canção sobre um berço 
Um verso, talvez de amor 
Uma prece por quem se vai - 
Mas que essa hora não esqueça 
E por ela os nossos corações 
Se deixem, graves e simples. 
Pois para isso fomos feitos: 
Para a esperança no milagre 
Para a participação da poesia 
Para ver a face da morte - 
De repente nunca mais esperaremos... 
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas 
Nascemos, imensamente. 
Neste Natal Papai Noel pode chegar 
muitos e muitos presentes. Que todos 
os presentes sejam o que você sempre 
quis. Que todos os seus desejos e 
sonhos, tornem-se realidade com a 
magia do Natal. Tenha um Natal 
abençoado.

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