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SONETO A D. ANGELA DE SOUSA PAREDES Não vira em minha formosura, Ouvia falar dela todo dia, E ouvida me incitava, e me movia A querer ver tão bela arquitetura: Ontem a vi por minha desventura Na cara, no bom ar, na galhardia De uma mulher, que em Anjo se mentia; De um Sol, que se trajava em criatura: Matem-me, disse eu, vendo abrasar-me, Se esta a cousa não é, que encarecer-me Sabia o mundo, e tanto exagerar-me: Olhos meus, disse então por defender-me, Se a beleza heis de ver para matar-me, Antes olhos cegueis, do que eu perde-me. Gregório de Matos Este soneto exemplifica a lírica amorosa de Gregório de Matos Guerra que é, fortemente marcada pelo dualismo amoroso CARNE X ESPÍRITO, que leva, normalmente a um sentimento de culpa no plano espiritual. A mulher, muitas vezes, é a personificação do próprio pecado, da perdição espiritual. Observa-se que, neste poema, a mulher – identificada inicialmente com a figura de um anjo o qual remete à pureza angelical contida no próprio nome ÂNGELA e depois com uma grandeza maior, – o SOL – é vista como um ser superior, dotado de grandezas absolutas e inacessíveis. Porém, o que se percebe nos tercetos é que, em vez de proteger – papel que caberia ao anjo, – a mulher, com sua beleza, leva-o ao desejo e, consequentemente, ao pecado. Por isso, o eu lírico, em um apelo dramático aos próprios olhos – centro de percepção visual e origem do desejo . – pede a eles que se ceguem. Do contrário ele será levado à morte, isto é, à perdição espiritual. Eis o drama amoroso do Barroco: o apelo sensorial do corpo se contrapõe ao ideal religioso, gerando sentimento de culpa. “À mesma D. Ângela” Anjo no nome, Angélica na cara, Isso é ser flor, e Anjo juntamente, Ser Angélica flor, e anjo florente, Em quem, senão em vós se uniformara? Quem veria uma flor, que a não cortara De verde pé, de rama florescente? E quem um Anjo vira tão luzente, Que por seu Deus, o não idolatrara? Se como Anjo sois dos meus altares, Fôreis o meu custódio, e minha guarda Livrara eu de diabólicos azares. Mas vejo, que tão bela e tão galharda, Posto que os Anjos nunca dão pesares, Sois Anjo, Que me tenta, e não me guarda. Gregório de Matos Analise da Poesia Bom esse poema como muitos dos outros de Gregório desenvolve se por meio do jogo de palavras que é sempre transcrito nos poemas Líricos, e por meios de imagens, que neste caso é: “Ângela” = “Angélica” = “Anjo”, “flor” = “florente”. Na qual Gregório segue a tradição explorada por Camões ao comparar a beleza da mulher à natureza. O esquema rimático é: ABBA / ABBA / CDC / DCD. O seu tema central é a contradição do poeta pela mulher “Ângela” que no poema ele colocar ao lugar da flor “metáfora da beleza” ,e objeto do desejo, em Anjo “metáfora de pureza” e símbolo da elevação espiritual, e que ocorre o uso de vários trocadilhos, Angélica (pura como um anjo e que ao mesmo tempo o nome de uma flor que inspira sensualidade) trata de uma mulher que tem uma feição angelical e tão bela e amorosa que passa a idéia de uma flor ,e que muito delicada, uma imagem de mulher construída a parti de duas palavras, que associa ao seu nome, e ao seu rosto: flor “Ângélica na cara” e Anjo “Anjo no nome”, aqui podemos perceber a presença de uma contradição, já que a mulher a mulher amada é anjo (plano espiritual) e flor (plano material). A sua imagem é a de um Anjo, mas que tenta, e não guarda, e vem ai um grande toque barroco aparece no jogo de contradição revelado, se essa mulher é um anjo, como é possível que, em lugar de garantir proteção, causa apenas tentação ao lírico. A contradição entre o amar e o quere desemboca no paradoxo dos versos finais “Sois anjos que me tenta e não me guarda”. Assim a louvação a exaltação de uma beleza angelical termina com uma tentação demoníaca e que gera a imagem angelical feminina, e a tentação da carne que atormenta o espírito. Lira I Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóis queimado. Tenho próprio casal, e nele assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Eu vi o meu semblante numa fonte, Dos anos inda não está cortado: Os pastores, que habitam este monte, Respeitam o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o próprio Alceste: Ao som dela concerto a voz celeste; Nem canto letra, que não seja minha, Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Mas tendo tantos dotes da ventura, Só apreço lhes dou, gentil Pastora, Depois que teu afeto me segura, Que queres do que tenho ser senhora. É bom, minha Marília, é bom ser dono De um rebanho, que cubra monte, e prado; Porém, gentil Pastora, o teu agrado Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Os teus olhos espalham luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve: Papoila, ou rosa delicada, e fina, Te cobre as faces, que são cor de neve. Os teus cabelos são uns fios d’ouro; Teu lindo corpo bálsamos vapora. Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora, Para glória de Amor igual tesouro. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Leve-me a sementeira muito embora O rio sobre os campos levantado: Acabe, acabe a peste matadora, Sem deixar uma rês, o nédio gado. Já destes bens, Marília, não preciso: Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta; Para viver feliz, Marília, basta Que os olhos movas, e me dês um riso. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Irás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marília, no meu braço; Ali descansarei a quente sesta, Dormindo um leve sono em teu regaço: Enquanto a luta jogam os Pastores, E emparelhados correm nas campinas, Toucarei teus cabelos de boninas, Nos troncos gravarei os teus louvores. Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Depois de nos ferir a mão da morte, Ou seja neste monte, ou noutra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dois a mesma terra. Na campa, rodeada de ciprestes, Lerão estas palavras os Pastores: “Quem quiser ser feliz nos seus amores, Siga os exemplos, que nos deram estes.” Graças, Marília bela, Graças à minha Estrela! Interpretação Na Lira I da obra Marília de Dirceu, o eu lírico, apaixonado por Marília demonstra seu amor com simples palavras. Mesmo vivendo no campo, nega à sua amada que é um simples pastor, porém faz o possível para conquistá-la. Nota-se que o autor cita muitas coisas referentes às atividades do campo. Nos versos “Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;/ Das brancas ovelhinhas tiro o leite,/ E mais as finas lãs, de que me visto...” da primeira estrofe, o autor tem meios para viver com fartura e ainda vestir-se com finas lãs. Na 2ª estrofe, Dirceu apresenta a juventude e a beleza de Marília e compara seus dotes intelectuais com outros pastores, procurando causar inveja. Ele cita também que todos seus bens privilegiados não podem ser trocados nem comparados ao grande amor que sente por Marília. Características do Arcadismo e da Lira As primeiras características do Arcadismo notáveis na Lira I são a simplicidade nas palavras, vocabulário acessível direto e sem exagero. Dirceu identifica a si e a sua amada como pastores. Nota-se que ele vive em plena harmonia com a natureza. O bucolismo está bastante evidente nessa lira e a maior parte do vocabulário apresenta termos ligados à vida no campo. Nos versos “Graças, Marília bela,/ Graçasà minha estrela!”, o poeta manifesta-se satisfeito com o próprio destino e afirma que possui sorte graças à sua amada, esse é um termo evidente do narcisismo, pois ele está se autovalorizando. Diferentemente de outros poetas barrocos, o autor recusa usar termos complicados, preferindo a clareza e a ordem lógica na escrita. Comentário sobre a situação histórica Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Portugal, estudou Direito em Coimbra e retornou para o Brasil em 1782. Nesse período, Gonzaga apaixona-se pela jovem Marília Doroteia a quem dedica suas primeiras 33 liras para conquistá-la e tê-la como esposa. O autor foi discriminado pela família da jovem, pois era bem mais velho e pobre. Foi preso em 1789 por ter se envolvido na Inconfidência Mineira e consequentemente ficou separado de sua amada para sempre. SE EU MORRESSE AMANHÃ O trecho citado no título faz parte do poema Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo, poeta cujas obras são estudadas no contexto da segunda geração romântica. O texto daquele poeta será usado para compreendermos a produção literária do período. O Romantismo brasileiro aconteceu no período de 1836 a 1850 e, tradicionalmente, a produção literária da época é dividida em três gerações: nacionalismo, ultrarromantismo e condoreirismo. A primeira correspondeu ao desejo de valorizar a temática nacional em oposição à portuguesa e, para alcançar tal objetivo, inspirou-se em lendas do passado e na glorificação do indígena. A segunda – tema deste texto – caracterizou-se pela corrente individualista a que aderiram autores como Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, Visconde de Taunay. Já a terceira anunciou o movimento literário seguinte, muitas vezes por meio de textos de cunho abolicionista e republicano; nesse grupo, encontramos poetas como Castro Alves. Os textos da segunda geração romântica refletem a obsessão pela morte, pela melancolia, pela dor dos amores não correspondidos, pela lembrança da infância. A morte é vista, nessa geração, como a única saída para o descontentamento do eu lírico. O poema Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo, é bastante representativo desse momento. Se eu morresse amanhã Álvares de Azevedo Se eu morresse amanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Que sol! que céu azul! que doce n’alva Acorda a natureza mais louçã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória, o dolorido afã… A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! O texto é parte de uma coletânea publicada em 1853 – um ano após a morte de seu autor – e intitulada Lira dos vinte anos. É importante observar que todo o texto é construído a partir de uma hipótese – o que, gramaticalmente, é obtido por meio do subjuntivo. Esse modo enuncia a ação do verbo como “algo eventual, incerta, irreal, em dependência estreita com a vontade, a imaginação ou o sentimento daquele que o emprega. Por isso, as noções temporais não são precisas como no indicativo” (CUNHA & CINTRA, 2008, p. 487). No título do poema, podemos perceber a preocupação do eu lírico em relação ao seu futuro e ao de sua família caso viesse a falecer. Uma das características mais marcantes do movimento romântico é a idealização e o eu lírico fantasia sobre o momento de sua morte: como seus familiares se comportariam naquela situação? Se eu morresse amanhã, viria ao menos Fechar meus olhos minha triste irmã; Minha mãe de saudades morreria Se eu morresse amanhã! Álvares de Azevedo morreu de tuberculose aos 21 anos e expôs sua doença em muitos de seus textos, como em Lembrança de morrer (“Quando em meu peito rebentar-se a fibra…”). Em Se eu morresse amanhã, aparece a incerteza sobre o futuro; ao contrário dos outros jovens de sua idade, o eu lírico (talvez uma representação do próprio poeta) não viveria nenhuma glória e, por isso, evocava a própria morte: Quanta glória pressinto em meu futuro! Que aurora de porvir e que manhã! Eu perdera chorando essas coroas Se eu morresse amanhã! Ao mesmo tempo em que lamenta por uma morte tão prematura, ele também a exalta como solução para a dor física que o atormenta. O escapismo – uma das características do Arcadismo e do Romantismo – é o desejo de fugir a uma situação conflituosa; no texto de Azevedo, o eu lírico livrar-se-ia da dor se morresse. Que sol! que céu azul! que doce n’alva Acorda a natureza mais louçã! Não me batera tanto amor no peito Se eu morresse amanhã! Mas essa dor da vida que devora A ânsia de glória, o dolorido afã… A dor no peito emudecera ao menos Se eu morresse amanhã! É interesse observarmos, ainda, o recurso linguístico utilizado nas duas estrofes destacadas. O leitor deve notar que, nos dois últimos versos de cada uma delas, o autor afasta-se da norma culta ao elaborar a hipótese: em lugar de bateria e emudeceria, Azevedo utiliza batera e emudecera. Em uma leitura superficial do texto, podemos julgar que o jovem poeta comete um erro gramatical, utilizando os verbos no pretérito mais-que-perfeito do indicativo. Ao analisarmos a métrica do texto, percebemos que o poeta assim o faz com o propósito de manter a quantidade de sílabas métricas. Na recitação, a contagem de sílabas é feita de modo diverso daquele utilizado na contagem gramatical. Enquanto nesta contam-se todas as sílabas, naquela a contagem para na última sílaba tônica, “desprezando-se a átona ou as átonas finais” (BECHARA, 2009, p. 630). A contagem poética considera o que será percebido por meio de leitura oral (realidade auditiva). Se eu morresse amanhã é um poema em que predominam os versos decassílabos; isto é, de 10 sílabas métricas. O leitor deve observar que, na segunda contagem, sublinhamos alguns trechos; eles indicam as sílabas contadas de maneira diferente. Na leitura de versos, proferimos as palavras com junções ou pausas exigidas pela técnica versificatória. Esse foi o recurso utilizado por Álvares de Azevedo. Como representante da segunda geração do Romantismo, o adolescente Álvares de Azevedo escreveu sobre os dramas, as aspirações, as decepções, os desejos e a rebeldia juvenis. No texto aqui analisado, podemos notar que o poeta não se inspirava em situações exteriores, mas a inspiração vinha dele mesmo e de suas experiências de vida. O Canto do Guerreiro I Aqui na floresta Dos ventos batida, Façanhas de bravos Não geram escravos, Que estimem a vida Sem guerra e lidar. – Ouvi-me, Guerreiros. – Ouvi meu cantar. II Valente na guerra Quem há, como eu sou? Quem vibra o tacape Com mais valentia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? – Guerreiros, ouvi-me; – Quem há, como eu sou? III Quem guia nos ares A frecha imprumada, Ferindo uma presa, Com tanta certeza, Na altura arrojada Onde eu a mandar? – Guerreiros, ouvi-me, – Ouvi meu cantar. IV Quem tantos imigos Em guerras preou? Quem canta seus feitos Com mais energia? Quem golpes daria Fatais, como eu dou? – Guerreiros, ouvi-me: – Quem há, como eu sou? V Na caça ou na lide, Quem há que me afronte?! A onça raivosaMeus passos conhece, O imigo estremece, E a ave medrosa Se esconde no céu. – Quem há mais valente, – Mais destro do que eu? VI Se as matas estrujo Co os sons do Boré, Mil arcos se encurvam, Mil setas lá voam, Mil gritos reboam, Mil homens de pé Eis surgem, respondem Aos sons do Boré! – Quem é mais valente, – Mais forte quem é? VII Lá vão pelas matas; Não fazem ruído: O vento gemendo E as malas tremendo E o triste carpido Duma ave a cantar, São eles – guerreiros, Que faço avançar. VIII E o Piaga se ruge No seu Maracá, A morte lá paira Nos ares frechados, Os campos juncados De mortos são já: Mil homens viveram, Mil homens são lá. IX E então se de novo Eu toco o Boré; Qual fonte que salta De rocha empinada, Que vai marulhosa, Fremente e queixosa, Que a raiva apagada De todo não é, Tal eles se escoam Aos sons do Boré. – Guerreiros, dizei-me, – Tão forte quem é? ANÁLISE: O Canto do Guerreiro foi dividido em 9 estrofes, com métrica regular de cinco silábas – redondilhas menores. Nesses versos se inicia a temática indianista que consagraria Gonçalves Dias como nosso maior indianista. O poema, cujo eu-lirico é o próprio índio, exalta os feitos indígenas, sua coragem, força e valentia para resistir á escravidão. Remorso Às vezes, uma dor me desespera... Nestas ânsias e dúvidas em que ando. Cismo e padeço, neste outono, quando Calculo o que perdi na primavera. Versos e amores sufoquei calando, Sem os gozar numa explosão sincera... Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera Mais viver, mais penar e amar cantando! Sinto o que desperdicei na juventude; Choro, neste começo de velhice, Mártir da hipocrisia ou da virtude, Os beijos que não tive por tolice, Por timidez o que sofrer não pude, E por pudor os versos que não disse! Ao lermos o poema "Remorso" de Olavo Bilac , percebemos que são adotadas as características do parnasianismo,que estão presentes nas rimas ricas e pela preferência de estruturas fixas como os sonetos.Onde Olavo Bilac mostra que o remorso é uma dor causadas por sentimentos que não foram expostos , sendo guardados para si, deixando-se lamentar para o resto da vida.Assim nos transmitindo o quão importante é nos arriscarmos para sermos felizes para que, em tempos depois , não tenhamos que lamentar algo que não foi dito , expresso ou sentido. Sinfonias do Ocaso "Musselinosas, como brumas diurnas, descem do Ocaso as sombras harmoniosas, sombras veladas e musselinosas para as profundas solidões noturnas. Sacrários virgens, sacrossantas urnas, os céus resplendem de sidéreas rosas da Lua e das Estrelas majestosas iluminando a escuridão das furnas. Ah! por estes sinfônicos ocasos a terra exala aromas de áureos vasos, incensos de turíbulos divinos. Os plenilúricos mórbidos vaporam... E como que no Azul plangem e choram cítaras, harpas, bandolins e violinos." Toda a composição de Olavo Bilac, é regrada por instrumentos e a composição construída pelo ritmo do tema amor. Cruz e Souza, em “Sinfonias do Ocaso”, representa a subjetividade da temática - amor. As sensações descritas pelo poeta, provocam oscilações como “Sombras veladas e musselinosas / Para as profundas solidões noturnas.” Na estrofes encontramos o mistério do amor, com todo o universo composto pelo autor para citar o tema: “Ah! por estes sinfônicos ocasos / A terra exala aromas de áureos vasos, Incensos de turíbulos divinos.” Cruz e Souza , expressa desde a solidão até o êxtase do amor em sua composição: “Os plenilúnios mórbidos vaporam... E como que no Azul plangem e choram / Cítaras, harpas, bandolins, violinos...” Olavo Bilac e Cruz e Souza, destacam em seus poemas as sensações do amor, envolvidas pelo embalo de instrumentos musicais, que encantam ainda mais a essência de seus poemas. 4º MOTIVO DA ROSA No quarto motivo – bem como no seguinte – a voz poética que temos é a da rosa. A beleza deixa de ser um objeto passivamente observado e dirige-se ao observador: Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim. Rosas verás, só de cinza franzida, mortas intactas pelo teu jardim. Eu deixo aroma até nos meus espinhos, ao longe, o vento vai falando de mim. E por perder-me é que me vão lembrando, por desfolhar-me é que não tenho fim. Logo no primeiro verso do poema, temos a rosa que diz Não te aflijas com a pétala que voa, indicando que, a despeito de estar desfalecendo, é a rosa quem consola o artista, e não o contrário. A voz poética da rosa prossegue afirmando que também é ser, deixar de ser assim, apontando para o poeta uma outra possibilidade de existência. Na estrofe seguinte, a rosa compõe para o seu interlocutor – isto é, o poeta – o que é o futuro de todas as rosas – de toda beleza: Rosas verás, só de cinza franzida, / mortas intactas pelo teu jardim. A flor diz ao poeta que toda beleza, tão necessária ao artista, é passageira. Na terceira estrofe, essa visão do futuro é aproximada do eu lírico da rosa – intimizando a experiência da efemeridade – quando esta se refere ao desfazer de seu corpo: Eu deixo aroma até nos meus espinhos, / ao longe, o vento vai falando de mim. Essa idéia é completada na estrofe seguinte, que informa o que acontece à rosa por espalhar-se ao desfazer-se: E por perder-me é que me vão lembrando, / por desfolhar-me é que não tenho fim. É interessante observar que, além do andamento linear do poema – da primeira até a última estrofe –, existe ainda uma correspondência entre a primeira e a última estrofe, bem como entre as duas estrofes centrais. As duas estrofes centrais falam do esmorecimento da beleza, primeiramente em um nível geral, na segunda estrofe, e depois de forma pessoal – do ponto de vista do eu lírico da rosa –, na terceira estrofe: Rosas verás, só de cinza franzida, / mortas intactas pelo teu jardim. (segunda estrofe) // Eu deixo aroma até nos meus espinhos, / ao longe, o vento vai falando de mim (terceira estrofe). A primeira e a última estrofe dialogam entre si na medida em que as duas, dentro do poema, são as que apontam para a outra existência, além da beleza. Na primeira estrofe, a 25 indicação dessa outra existência se dá em termos gerais e, na última, de forma mais específica – assim como nas estrofes centrais em que o tema passa do geral para o mais específico: Não te aflijas com a pétala que voa: também é ser, deixar de ser assim – primeira estrofe – (...) E por perder-me é que me vão lembrando, / por desfolhar-me é que não tenho fim – quarta estrofe. O movimento de uma idéia geral que se especifica e pessoaliza, conduzindo ao fim, pode igualmente ser percebido nas rimas ao longo do poema. No quarto motivo, apenas rimam os segundos versos das estrofes, assim, as palavras que fazem as rimas ao longo do poema são: assim, jardim, mim e fim. As palavras que compõem a rima do quarto motivo reproduzem, de forma abstrata, o movimento geral do poema de afunilamento da experiência de efemeridade – do geral para o específico, até o inevitável fim. O Acendedor de Lampiões Foi um dos primeiros poemas de Jorge de Lima ainda em sua fase parnasiana que se pode perceber claramente pelo cuidado nos vocábulos sempre corretos na descrição do trabalho do acendedor de lampiões que é bastante objetiva, descritiva e impessoal, embora nestes versos Lima parece se compadecer deste tipo de trabalhador, fugindoum pouco da estética parnasiana que não costuma se envolver com suas temáticas. O Acendedor de Lampiões Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Este mesmo que vem infatigavelmente, Parodiar o sol e associar-se à lua Quando a sombra da noite enegrece o poente! Um, dois, três lampiões, acende e continua Outros mais a acender imperturbavelmente, A medida que a noite aos poucos se acentua E a palidez da lua apenas se pressente. Triste ironia atroz que o senso humano irrita: Ele que doira a noite e ilumina a cidade, Talvez não tenha luz na choupana em que habita, Tanta gente também nos outros insinua Crenças, religiões, amor, felicidade, Como este acendedor de lampiões da rua Como dito anteriormente a poesia de Jorge de Lima demonstra diferentes faces acerca da percepção do universo humano, tendo um dom particular de expressar suas observações por meio da linguagem. Assim, nos primeiros versos Lima (1995) apresenta o personagem central do poema ao elaborar uma descrição do trabalho do acendedor numa linguagem lírica e bela como se pode observar nestes versos: Lá vem o acendedor de lampiões da rua!/ Este mesmo que vem infatigavelmente,/Parodiar o sol e associar-se à lua/ Quando a sombra da noite enegrece o poente!. Observe que os vocábulos “infatigavelmente”, “parodiar”, “enegrece” e “poente” demonstram a preocupação com a estética que é bastante característico da poesia mais formalistas, pois costuma se utilizar de um vocabulário mais culto e sofisticado, porém puramente descritivo que não tem pretensões de passar nenhum subjetivismo embora os vocábulos utilizados pelo poeta, nos permitam emocionar com as palavras, o que nos remetem a definição de “poesia” e “literatura” uma vez que para ser consideradas artes estas devem despertar no leitor alguma forma de sentimento. Além disso, os vocábulos apresentados descrevem não somente o estado de ânimo que o acendedor de lampiões estava no momento em que realizava seu trabalho onde ele afirma/ Este mesmo que vem infatigavelmente/ e também suas ações retocadas por uma estética sofisticada, mas que não é somente movida pela necessidade de atribuir beleza aos versos, posto que para Paz (1982) a palavra solta simplesmente não é uma linguagem uma vez que é necessários uma associação entre signos e sons para que atribuam sentido e transmitam sentido. Nos versos seguintes: Um, dois, três lampiões, acende e continua/ Outros mais a acender imperturbavelmente/ A medida que a noite aos poucos se acentua/ E a palidez da lua apenas se pressente pode-se observar que o poeta continua descrevendo o trabalho do acendedor agora dessa vez enfatizado pelo vocábulo “impertubavelmente”, o que nos remete a ideia de que o acendedor realiza um trabalho cansativo e repetitivo como este sem questionar e tal ideia pode ser reforçada pelo advérbio de modo “infatigavelmente” que demonstra que ele também realiza este trabalho parar para descansar. Isto também é corroborado por Paz (1982) quando afirma a pluralidade de termos e signos da palavra solta que se transforma na frase certa que transmitem o significado e se transforma na linguagem.Assim, por meio dos versos /Um, dois, três lampiões, acende e continua/ os numerais “um, dois, três” reforça ainda mais a ideia que se trata de um trabalho que incessante e além de tudo necessário uma vez que para a cidade ser iluminada dependia de seu trabalho que era tão importante quanto o do governador ou do prefeito da cidade. Neste sentido, pode-se destacar a posição política do autor em relação à descrição de um trabalho como este uma vez que mostra um julgamento moral e ético acerca da exploração do trabalho de uma pessoa em suas dimensões sociais, o qual é produto de uma sociedade moderna e imposto pelas elites dirigentes. O olhar do poeta mostra uma postura ideológica distinta e contraditória entre si, pois era filho de senhor de engenho, portanto, da classe dominante. Sendo assim, pode-se observar que Jorge de Lima neste poema em que ele mostra que o acendedor de lampiões é um homem do povo que trás a lua para uma cidade assim como o sol ilumina o dia e colabora com a lua, posto que somente sua luz sozinha é fraca para iluminar toda a noite. Os versos da terceira estrofe: Triste ironia atroz que o senso humano irrita/Ele que doira a noite e ilumina a cidade/Talvez não tenha luz na choupana em que habita mostra o modo de viver humilde deste trabalhador através da descrição da sua casa “choupana em que habita” que significa um casebre simples e miserável sem qualquer tipo de conforto como é acrescentado anteriormente pelos vocábulos “não tenha luz”, revelando a realidade miserável que essa pessoa vive. A partir destes versos, percebe-se também que Jorge de Lima mostra as contradições inerentes na sociedade capitalista tão discutidos por Marx (1974), pois quem, um indivíduo que realiza um trabalho tão importante para a sua sociedade, mas não ganha o suficiente para ter luz de lampião na sua casa, denunciando claramente a miséria e a exploração da sociedade sobre a classe trabalhadora E para reforçar a ideia da denúncia das contradições da sociedade capitalista nos quatro estrofes os versos Tanta gente também nos outros Insinua/ Crenças, religiões, amor, felicidade,/Como este acendedor de lampiões da rua mostram o quanto o trabalho do acendedor de lampiões é desvalorizado socialmente uma vez que tem a mesma importância social de tantos outras profissões como mostrado nos versos, mas não tem seus direitos reconhecido tantos quanto as outras profissões nas mais diversas esferas sociais. Muitos poetas e escritores fazem de seus poemas um instrumento de discussão de questões sociais através do qual se pode intervir e tratar de problemas de caráter social, político e religioso, denunciado e interpretando as mazelas sociais com o projeto de formular, veicular modificar ou aprimorar os conteúdos políticos na sociedade que, no geral, são bastante divergentes uns dos outros. Cristovão (2003) afirma que a poesia trata- se de uma realização humana, portanto uma construção histórica que leva em consideração a realidade vivenciada pelos poetas, utilizando-se de uma linguagem original que desperte no leitor algo relacionado ao que está escrito, ou seja, consiste, muitas vezes, em linguagem uma metáfora com base na visão de mundo de seu autor em que estética se mistura com a ética. Eu vi um rosa - Uma rosa branca - Sozinha no galho. No galho? Sozinha No jardim, na rua. Sozinha no mundo. Em torno, no entanto, Ao sol de meio-dia, Toda a natureza Em formas e cores E sons esplendia. Tudo isso era excesso. A graça essencial, Mistério inefável - Sobrenatural - Da vida e do mundo, Estava ali na rosa Sozinha no galho. Sozinha no tempo. Tão pura e modesta, Tão perto do chão, Tão longe na glória, Da mística altura, Dir-se-ia que ouvisse Do arcanjo invisível As palavras santas De outra Anunciação. Manuel Bandeira foi o introdutor do verso livre e também adaptou os ritmos e formas regulares ao Modernismo. Em toda sua obra, mostra uma ardente ternura e um grande amor pela vida. É desprovida de preciosismo e vocábulo hermético. Ele criticava arduamente a poesia tradicional, como demonstra em sua obra “A Poética”: Estou farto do lirismo comedido Do lirismo bem comportado ........................................... Bandeira intitulava-se “o maior dos menores poetas” (clara modéstia), todavia, sabe-se que, na verdade, é o maior dos maiores poetas; ele expressa isso em“O Testamento”: ...................................................... Fiz-me arquiteto, não pude! Sou poeta menor, perdoai! Através de seus “Alumbramentos”, realiza- se plenamente em sua obra. “Eu vi uma rosa” é um exemplo disso. Um poema pentassílabo em verso branco, constituído por duas quintilhas (estrofes com cinco versos), três monósticos (estrofe com um verso), uma sextilha (estrofe com seis versos) e uma oitava (estrofe com oito versos). No primeiro verso, já se enceta com uma anáfora do título com o primeiro verso: Eu vi uma rosa (Título) Eu vi uma rosa (1º verso). E a rosa começa a ascender paulatinamente, como uma hierarquia de dimensão: galho, jardim, rua, mundo, no primeiro monóstico: "Eu vi um rosa - Uma rosa branca - Sozinha no galho. No galho? Sozinha No jardim, na rua". Sozinha no mundo Na segunda estrofe, há uma antítese com a primeira. A rosa não está mais sozinha, pois ao seu redor, estão a natureza, o Sol, os sons. Do segundo ao quinto versos, da segunda quintilha, há um hipérbato: “Em torno, no entanto, Ao sol do meio, Toda a natureza Em formas e cores E sons esplendia". A seguir, há um monóstico que admite hipérbole a tudo que lhe foi atribuído anteriormente (à rosa): “Tudo isso era excesso”. No primeiro bloco, que compreende da primeira à segunda estrofe e o verso avulso, a rosa atinge o ápice do plano material e no segundo bloco (terceira estrofe adiante), ela parte para o plano místico, simetricamente com aliteração (“essencial”, “inefável” e “sobrenatural”): “A graça essencial, Mistério inefável - Sobrenatural- Da vida e do mundo, Estava ali na rosa Sozinha no galho. Sozinha do tempo Ainda nesta estrofe (terceira), há uma reflexão de como uma simples rosa conter tanta grandeza, tanto mistério, se ele está sozinha no galho, no mundo, na vida e como pode guardar tanto segredo, o milagre da vida e ser tão pura. Bandeira fez sua obra como um diário íntimo que vai sugerindo no dia-a-dia, como constata-se no “Itinerário de Pasárgada”. “Eu vi uma rosa” é um ideário do “eu lírico”. Na última estrofe, há anáfora nos três primeiros versos (Tão pura e modesta, tão perto do chão, tão longe da glória) e há também aliteração nos dois primeiros versos (“pura”, “perto”). Há uma espécie de abstração sem sair do plano físico, porém a rosa branca (branco da paz, clara referência à época que o poema foi feito, em 1945, ano que terminou a Segunda Guerra Mundial, em que o mundo estava necessitando, mais do que nunca, de muita paz) comunica-se com o plano metafísico, por intermédio do anjo supremo, que é o Arcanjo Gabriel: “Tão pura e modesta, Tão perto do chão, Tão longe na glória, Da mística altura, Dir-se-ia que ouvisse Do arcanjo invisível As palavras santas De outra Anunciação”. “A “rosa” como metáfora do mundo, ou seja, a visão do “eu lírico” faz a rosa transitar ora no sublime (“Tão longe da glória, Da mística altura), ora no chão humilde do cotidiano de Bandeira” Davi Arrigucci Jr. CARTAS DE MEU AVÔ A tarde cai, por demais Erma, úmida e silente... A chuva, em gotas glaciais, chora monotonamente. E enquanto anoitece, vou Lendo, sossegado e só, As cartas que meu avô Escrevia a minha avó. Enternecido sorrio Do fervor desses carinhos: É que os conheci velhinhos, Quando o fogo era já frio. Cartas de antes do noivado... Cartas de amor que começa, Inquieto, maravilhado, E sem saber o que peça. Temendo a cada momento Ofendê-la, desgostá-la, Quer ler em seu pensamento E balbucia, não fala... A mão pálida tremia Contando o seu grande bem. Mas, como o dele, batia Dela o coração também. A paixão, medrosa dantes, Cresceu, dominou-o todo. E as confissões hesitantes Mudaram logo de modo. Depois o espinho do ciúme... A dor... a visão da morte... Mas, calmado o vento, o lume Brilhou, mais puro e mais forte. E eu bendigo, envergonhado, Esse amor, avô do meu... Do meu - fruto sem cuidado Que ainda verde apodreceu. O meu semblante está enxuto. Mas a alma, em gotas mansas, Chora abismada no luto Das minhas desesperanças... E a noite vem, por demais Erma, úmida e silente... A chuva em pingos glaciais, Cai melancolicamente. E enquanto anoitece, vou Lendo, sossegado e só, As cartas que meu avô Escrevia a minha avó. O poema foi publicado em 1917 no livro de estreia “Cinzas das horas” de Manuel Bandeira. Ainda por transição, o autor em seus primeiros versos dá a forma de sentidos e não de uma forma material. Comove e enriquece quem está lendo a obra, trazendo uma apreciação da ideia central de uma forma meio que distante, pois já aconteceu no passado algo que não poderá mais alcançar, até mesmo por ter conhecido seus avós já velhinhos. A saudade e a forma que é mostrado no poema dar entender que o neto, que lê a carta, se sente incapaz de amar tanto assim, mas ao mesmo tempo admira a capacidade e intensidade do amor dos seus avós por ele. É curioso como ao ler, podemos observar as palavras que são colocadas de uma forma que mostra os dois sentidos, tanto abstratos como concretos, fazendo comparação do real com o imaginário. Percebe-se que o poema também apresenta os acontecimentos diários com simplicidade, porém mostrando uma trajetória dos avós em seu mundo de sofrimento e dor, ainda com a melancolia que traz saudades de um mundo que não foi seu, que não vivenciou, mas se encontra prezo por grandes laços familiares, afetuoso e por laços sanguíneos. O autor mostra através do poema o quanto vivemos em um mundo onde devemos sempre interpretar, imaginar, saber. Que a leitura nos leva a ter ideias, nos ensina a ser persistentes em um mar de leitura. ALGUMA POESIA Publicado em 1930, Alguma Poesia, primeira obra poética de Drummond, contém quarenta e nove poemas, muitos deles, micro-poemas, reunindo produções do autor, entre 1925 e 1930 e tem sido considerado como elo de ligação entre a primeira e a segunda gerações do nosso Modernismo, representando a síntese mais perfeita entre elas. Alguma Poesia foi escrito sob o ímpeto da modernidade de 1922, pratica o poema-piada, utiliza os coloquialismos apregoados pela estética, cultiva a poesia do cotidiano, repudiando as tendências parnasiano-simbolistas que dominaram a poesia até então. No entanto, o poema-piada de Drummond é antes um desabafo de um tímido que procura afogar (disfarçar) no humor os sentimentos que o amarguram. No prosaísmo esconde a procura de uma expressão poética autêntica e autônoma e, ao se voltar para o cotidiano, transcende o tempo e o espaço em busca do perene e universal. Drummond seguiu em Alguma Poesia a mesma linha temática que permaneceu durante sua trajetória poética, que pode ser identificada como se segue, a partir do que o próprio autor sugere como condução temática de sua obra: 1. O indivíduo – "um eu todo retorcido" Seção que investiga a formação do poeta e sua visão acerca do mundo. Sempre lúcido, discorre com amargor, pessimismo, ironia e humor o que ele, atento observador, capta de si mesmo e das coisas que o rodeiam. Alguns poemas sintetizam a visão do indivíduo, como o poema Poema de sete faces em que vaticina seu destino. É o primeiro poema de Alguma Poesia do qual transcreve-se a primeira estrofe:Quando nasci, um anjo torto / desses que vivem na sombra / disse:Vai, Carlos! ser gauche na vida. A palavra gauche (lê-se gôx), de origem francesa, corresponde a "esquerdo" em nosso idioma. Em sentido figurado, o termo pode significar "acanhado", " inepto". Qualifica o ser às avessas, o "torto", aquele que está à margem da realidade circundante e que com ela não consegue se comunicar. 2. A família – "a família que me dei" Uma das constantes temáticas de Drummond, presente desde Alguma Poesia até seus versos finais, é a família, sua vivência interiorana em Minas Gerais, a paisagem que marca sua memória. Contrariando o lugar-comum, ao invés de se referir à família como algo que lhe foi atribuído por Deus, o poeta coloca um "que me dei" a analisa suas relações pessoais, consciente de que se assentam na perspectiva pessoal. De modo muito individual, retrata o escoar do tempo, como é possível observar em Infância, Família, Sesta, alguns dos mais significativos poemas de Alguma Poesia. 3. O conhecimento amoroso – "amar-amaro" Com o jogo de palavras amar-amaro, título emprestado de um poema do livro Lição de Coisas, o poeta acrescenta ao substantivo "amar" o adjetivo "amargo", sentimento recorrente em alguns de seus poemas e livros escritos posteriormente. Em Alguma Poesia o tema é tratado com boas doses de humor, sátira ou pitadas de idealismo, como em Toada do amor, Sentimental, Quero me casar, Quadrilha. 4. Paisagem e viagens Um grupo de poesias faz anotações sobre viagens, retratando paisagens vistas e vividas, mas também recuperando as influências recebidas da sempre subserviente postura brasileira ante as supercivilizações, como em Lanterna mágica, Europa, França e Bahia. 5. O social e a evolução dos tempos Drummond constrói poemas em que contempla a mudança dos tempos, o progresso chegando e invadindo a antiga paisagem, como em A rua diferente ou Sobrevivente. Poemas escolhidos NO MEIO DO CAMINHO No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra. QUADRILHA João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. POEMA DE SETE FACES Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida. As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos. O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada. O homem atrás do bigode é serio, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do bigode. Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco. Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo. TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO Eu também já fui brasileiro moreno como vocês. Ponteei viola, guiei forde e aprendi na mesa dos bares que o nacionalismo é uma virtude. Mas há uma hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam. Eu também já fui poeta. Bastava olhar para mulher, pensava logo nas estrelas e outros substantivos celestes. Mas eram tantas, o céu tamanho, minha poesia perturbou-se. Eu também já tive meu ritmo. Fazia isso, dizia aquilo. E meus amigos me queriam, meus inimigos me odiavam. Eu irônico deslizava satisfeito de ter meu ritmo. Mas acabei confundindo tudo. Hoje não deslizo mais não, não sou irônico mais não, não tenho ritmo mais não. Catar feijão 1.atar feijão se limita com escrever: joga-se os grãos na água do alguidar e as palavras na folha de papel; e depois, joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo: pois para catar esse feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 2.Ora, nesse catar feijão entra um risco: o de que entre os grãos pesados entre um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar dente. Certo não, quando ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fluviante, flutual, açula a atenção, isca-a como o risco. No poema João Cabral de Melo Neto revela sua concepção do ato criador. Tem como objeto a construção do poema, toma como referência um ato do cotidiano em que também o escolher, o combinar são necessários. O jogar as palavras é a primeira etapa criadora: a inspiração. Essa leva o artista a colocar no papel suas iniciais impressões. Porém, o verdadeiro artista não fica aí: ele, assim como o catador de feijões, seleciona os melhores grãos, a fim de construir uma poesia que fale, não pelo excesso, mas pela contenção, desfazendo- se de tudo o que for leve e oco, palha e eco. O que já foi dito não interessa repetição. Sua paixão e consciência buscam a originalidade da forma e do conteúdo. Em Cabral, o eu-lírico está presente com toda a força que sua ausência impõe, diferentemente de outros poetas, seus contemporâneos ou antecessores, que propuseram uma lírica subjetiva, idealizadora do mundo em oposição a este, quer expressando uma visão pessimista, irônica ou inconformada. Cabral não. Ele silencia a voz valorativa. Apresenta uma poética, em sua maior parte, crua, destituída de individualidade. Mas não isenta de seu olhar original sobre a realidade. Olhar que corta. O poeta seleciona, vê e revela, mesmo disfarçando, o que seus olhos percebem. Numa postura inovadora: a pedra dando à frase seu grão mais vivo; o prazer mais vivo. O rigor composicional do poema largamente difundido pela crítica nesse livro chega a seu ápice. São quarenta e oito poemas escritos em duas estrofes que muito se assemelham a quadros pictóricos, visualmente considerados. Ao todo cada poema atinge dezesseis ou vinte e quatro versos e o universo temático sempre tendo a ver com o Nordeste / Espanha, a condição humana e o fazer poético. Tudo isso numa rede de inter-relações lucidamente arquitetada. Catar feijão se apresenta composicionalmente em duas partes, com a marcação da segunda delas como o número 2. Na primeira parte o poeta descreve o que se pode denominar de habitual, comum num ato de catar feijão: a limpa, isto é, "jogar fora o leve e oco, palha e eco" que é a sobra, a sujeira – o "eco", pois o bom do feijão fica no fundo. Ocorre, porém, que já desde aí o poema conotativamente inicia seu jogo poético. A começar pelo título: Catar feijão. Nada mais despistador. Na verdade, ao término de sua leitura, sabe-se que lhe interessa mesmo é o "catar" palavras. E nessa linha do despiste, o primeiro verso enuncia que "catar feijão se limita com escrever, quando quer mesmo a idéia de que escrever se limita com catar feijão. O jogo através do símile se faz o inverso, toma- se o real comparado na condição de comparante. A composição começa por demonstrar assim que ela toma-se a si mesma como modelo desse catar feijão em que a pedra dá à frase seu grão mais vivo:/ obstrui a leitura fluviante, flutual, /açula a atenção, isca- a com o risco. O verbo catar assume o sentido de escolher. Porque catar feijãoé, como catar palavras, recolher, retirar o que não é feijão ou não é feijão bom ,o que não é palavra adequada ou não é palavra boa. Nota-se que o rigor de escolha é mesmo exemplar. Conquanto haja o propósito de conceituar o ato de escrever, com a importância fundamental que lhe dá de ser dada, o poeta usa o verbo limitar para estabelecer proximidades (e não igualdade) entre comparante e comparado: "Catar feijão se limita com escrever", e não é o mesmo que catar feijão é como escrever. As diferenças e semelhanças dos dois atos ficam garantidamente asseguradas nos versos do poema. E para demonstrar concretamente essa imagem, seguem-se os verso dois, três e quatro, com os quais estabelece simultaneamente a semelhança / diferença no ato de jogar: "joga-se os grãos na água do alguidar" é semelhante apenas na intenção de escolher a "e as palavras na folha de papel". E a imagem da diferença novamente se estabelece, pois, ao contrário dos grãos, as palavras não vão fundo, bóiam no papel, não obstante chumbo: Certo, toda palavra boiará no papel, / água congelada, por chumbo seu verbo. A imagem é muito significativa, ainda mais quando se observa que a "água-papel" se contrasta com a "água – alguidar" não apenas quanto à imagem produzida: líquida, a do alguidar, sólida (e branca), a do papel, amas também porque a complexidade do verbo boiar é muito maior pelo efeito que o contexto lhe confere. Ora, na água – papel, efetivamente as palavras não bóiam porque não há fundo, mas conotativamente bóiam, quando ao texto não se ajustam, sendo então necessário "catá-las". Com o visível propósito de evidenciar, concretizar a imagem buscada, o poema efetivamente se constrói sob o efeito de uma espécie de hipálage, atribui-se o que é próprio do catar feijão ao escrever (poesia) e vice- versa, numa estrutura sintática direcionada pelo símile. E nessa linha se fecha a primeira fase: "pois para catar esse feijão, soprar nele e jogar o leve e oco, a palha e eco. "Esses são elementos concretamente próprios do ato de catar feijão jogado no alguidar: o que sobe é leve, palha, oco e, pois, eco (sujeira). Mas poeticamente é no "catar" palavras que ele se aplica: jogar fora as que são palha, ocas, portanto, eco. Deve-se atentar ainda para a especial conotação da palavra eco, que no poema é eco (sujeira de que se deve livrar) por fazer eco, (som desagradável, que se deve evitar). Na segunda parte, a segunda estrofe, o poema expõe uma das conseqüências ou um dos resultados possíveis desse ato de catar feijão; o risco que se corre, pois pode ficar no fundo algo que, como o feijão, não bóia e que, estranho, é um perigo: "um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar dente". Isto para esse real catar feijão na água do alguidar. Entretanto para acatar palavra o efeito é outro bem contrário: "a pedra dá à frase seu grão mais vivo:" Como se verifica, o processo composicional estabelecido se mantém. Apenas que desta feita a implícita comparação se dá de forma direta. A pedra para o "catar palavra" não é indigesta, mas sim renovadora. Melhor dizendo, o indigesto em "catar palavras", qual seja, o que rompe o tradicional (o habitual) não causa problemas, ao contrário, instaura o novo, criativamente considerado, "a pedra dá à frase se grão mais vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual. A sintaxe do poema é também bem peculiar. Sua estrutura dá sustentação à forma lógico- argumentativa em que se organiza. A reflexão sobre o fazer poético que busca limites no catar feijão se conduz por acirrada linguagem lógico – argumentativa. Os versos não as medidas extensas e variáveis, mais apropriados e adequados a esse tipo de raciocínio, no caso, poemático. Mas o que singulariza a sintaxe poemática de Catar feijão é a construção firmada em frase elípticas, o que concorre tanto para a economia vocabular do poema enquanto para a sua pauta rítmica. Sirvam de exemplo: a elisão de água em: as palavras na da folha de papel;" v.3; e a intrincada construção com versos 5, 6 e 7: "Acertos, toda a palavra boiará no papel. Água congelada (que é água congelada), por chumbo seu verbo (por ser de chumbo o seu verbo); / pois para catar esse feijão, soprar nele (é necessário soprar nele)". Catar feijão é, pois, uma poema em que a construção poemática é brevemente discutida, melhor diria, argumentada (em dezesseis versos), porém numa linguagem poética lógico – discursiva bastante densa e rigorosamente trabalhada, dando-se próprio poema como exemplo desse fazer poético que ele mesmo preconiza. Há uma perfeita sintonia entre a cadência rítmica assegurada pela freqüência quase exclusiva de vocábulos paroxítonos e oxítonos alternado-se, a grande incidência da aliteração, da assonância e a reiteração de determinadas palavras ou expressões como já se observou. Essa sintonia se faz presente no amálgama dessa camada sonora com o campo semântico e sintático, o que também já ficou aqui observado. Se há uma certa dissonância: a rima toante feita de forma bem peculiar, a variabilidade da métrica nos versos, a sintaxe singularmente elíptica e outros, é porque "quando ao catar palavras "a pedra dá à frase seu grão mais vivo". POEMAS DE NATAL Um dos mais belos poemas de natal de Vinicius de Moraes, o poetinha, como é conhecido. Nasceu no dia 19/10/1913, na cidade do Rio de Janeiro e morreu em 09/07/1980 deixando uma obra que encantou e encanta gerações até os dias de hoje. Dele disse, o também poeta, Carlos Drummond de Andrade: "Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural". A vida do poetinha foi intensa e pode viver o que escrevia através de seus amores e dos grandes amigos e parceiros que fez em vida. Mas nem só de amor Vinícius de Moraes escreveu, também falou sobre o Natal, sobre as festas de fim de ano, e o poema de natal é uma de suas obras mais respeitadas, apresentamos essa bela obra natalina em dois formatos, em uma imagem com o poema pronto para postar no Facebook e também em formato PPS para baixar e compartilhar. O poeta passa sua mensagem de natal para todas as pessoas que buscam uma mensagem de emoção, motivação e otimismo para essa data tão especial Para isso fomos feitos: Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos - Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra. Assim será nossa vida: Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos - Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve, ver A noite dormir em silêncio. Não há muito o que dizer: Uma canção sobre um berço Um verso, talvez de amor Uma prece por quem se vai - Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações Se deixem, graves e simples. Pois para isso fomos feitos: Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte - De repente nunca mais esperaremos... Hoje a noite é jovem; da morte, apenas Nascemos, imensamente. Neste Natal Papai Noel pode chegar muitos e muitos presentes. Que todos os presentes sejam o que você sempre quis. Que todos os seus desejos e sonhos, tornem-se realidade com a magia do Natal. Tenha um Natal abençoado.