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1 ESCOLA SUPERIOR DA MAGISTRATURA – ESMESC DISCIPLINA: DIREITO PROCESSUAL PENAL I E II PROFESSOR: MSc. JAIME RAMOS DATA: 20/11/2018 ALUNO: FÁBIO ERLO POSSIBILIDADE DE DETRAÇÃO PENAL DO TEMPO CUMPRIDO EM MEDIDAS CAUTELARES ALTERNATIVAS Este trabalho tem por objetivo verificar a possibilidade de aplicação da detração penal em face do cumprimento de medida cautelar criminal, especialmente quando ela restringe a liberdade das pessoas. A importância deste assunto se dá no sentido de que, conforme amplamente sabido, há uma superlotação carcerária no Brasil e deve-se procurar alternativas que viabilizem a aplicação da restrição da liberdade das pessoas de uma forma justa e eficaz, a fim de atender aos anseios atuais da população e cumprir o que está previsto no ordenamento jurídico em vigor. A Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB/88) estabelece que o Brasil é um Estado Democrático de Direito, sendo a dignidade da pessoa humana um de seus principais fundamentos e a construção de uma sociedade livre, justa e solidária um de seus objetivos. Assim sendo, o Estado deve evitar os comportamentos que limitem ou impeçam a liberdade ou o exercício de direitos pelo indivíduo sem o devido processo legal. De acordo com a lei processual penal a privação da liberdade pode se dar de forma cautelar ou definitiva. No ordenamento penal brasileiro foi criada a chamada detração penal, prevista no Art 42 do Código Penal, a fim de proporcionar uma compensação aos indivíduos que tiverem sua liberdade limitada. A fim de melhor elucidar este tema, transcreve-se a seguir o conceito doutrinário de detração penal. Segundo Dotti (2002, p. 604): “Consiste a detração no abatimento na pena privativa de liberdade e na medida de segurança, do tempo em que o sentenciado sofreu prisão provisória, prisão administrativa ou internação em hospital de custódia e tratamento psiquiátrico, ou mesmo em outro estabelecimento similar”. Entende-se assim, que a detração penal é o benefício implementado em execução penal, que autoriza o cômputo, na Pena Privativa de Liberdade e na medida de segurança, do prazo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro, de acordo com o constante no Art 42 do Código Penal, a seguir transcrito: “Art. 42 - Computam-se, na pena privativa de liberdade e na medida de segurança, o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro, o de prisão 2 administrativa e o de internação em qualquer dos estabelecimentos referidos no artigo anterior”. Observa-se assim que o tempo em que o réu esteve submetido às medidas cautelares diversas da prisão (previstas no Art 319 do Código de Processo Penal) não pode ser considerado para fins de detração penal, de acordo com o referido dispositivo legal. São exemplos dessas medidas, prevista no Art 319 do Código de Processo Penal: o monitoramento eletrônico, o comparecimento periódico em juízo e o recolhimento domiciliar em período noturno, entre outras. Percebe-se claramente que essas medidas também limitam, de certa forma, a liberdade de quem está sendo processado, apesar do mesmo não se encontrar preso, no sentido estrito do termo. Assim sendo, nada mais justo do que se considerar esse tempo para fins de detração penal no momento em que for fixada a pena definitiva ao condenado. Uma parte dos juristas afirmam que não é não é cabível a possibilidade de detração penal nesses casos. Esse é o entendimento de Lenza (2016, p. 505), a seguir transcrito: Na medida em que, segundo a redação do art. 42 do Código Penal, apenas o tempo de prisão provisória, no Brasil ou no estrangeiro, e de internação provisória (art. 319, VII, do CPP), são passíveis de detração, não há espaço para cômputo na pena ou na medida de segurança do período de cumprimento das demais medidas cautelares. O próprio caput do art. 319 as denomina “medidas cautelares diversas da prisão”. Por meio da Lei nº 12.403, de 4 de maio de 2011, foram criadas as chamadas medidas cautelares alternativas a prisão, as quais reduzem a liberdade do indivíduo com menor intensidade. Apesar de não estar prevista nos casos de cumprimento de medidas alternativas, admite-se a aplicação da detração, por analogia, em algumas hipóteses. Esse é o entendimento de alguns doutrinadores, tal como Nucci (2016): [...] instituídas pela Lei 12.403/2011, as medidas cautelares previstas no art. 319 do CPP têm por fim evitar a decretação da prisão provisória. Porém, implicam restrição antecipada à liberdade individual. Algumas possuem maiores limitações que outras e, sob tal enfoque, entendemos deva ser apreciada a viabilidade de detração. Não se pode compensar com a pena privativa de liberdade, aplicada na sentença, toda e qualquer medida cautelar alternativa, pois seria despropositado. Além disso, Nucci também afirma que: “medida cautelar de proibição de frequentar lugares, seguida do estabelecimento de PRD de proibição de frequentar lugares – por analogia, desconta-se nesta o período daquela, visto serem de mesma natureza”. Já em outras situações, tais como a medida cautelar de manter-se afastado da vítima, seguida de condenação ao cumprimento de pena em regime semiaberto, não é cabível a aplicação da detração, tendo em vista que são de natureza diversa. 3 Já Tonioli (p. 99) afirma que: “Em suma, portanto, quando há homogeneidade entre a medida cautelar e a pena definitiva, a detração será cabível. Ausente a semelhança, a jurisprudência afasta a possibilidade de detração (STJ, HC 25.183)”. Assim sendo, transcreve-se a seguir parte da supracitada decisão jurisprudencial, a fim de melhor compreensão do tema: A consideração do tempo para fins de contagem de detração penal deve ser aquela em que o condenado esteve sob efetiva custódia ou submetido a medida restritiva de direito, sendo descabida a soma do tempo em que o paciente esteve em liberdade provisória, por ausência de expressa previsão legal. Tem-se o caso também da prisão domiciliar processual, prevista no Art 318 do Código de Processo Penal, ou seja, aquela que é aplicada nos seguintes casos: I - maior de 80 (oitenta) anos; II - extremamente debilitado por motivo de doença grave; III - imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 (seis) anos de idade ou com deficiência; IV - gestante a partir do 7o (sétimo) mês de gravidez ou sendo esta de alto risco. IV - gestante; V - mulher com filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos; VI - homem, caso seja o único responsável pelos cuidados do filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos. Tendo em vista possuir natureza processual e substituir a prisão preventiva, além de seu caráter cautelar, se o réu for condenado definitivamente, é plenamente aplicável a detração, sendo que o ônus da prova das condições para esse tipo de prisão é sempre do interessado. Ou seja, o que se deve levar em conta prioritariamente ao se verificar a possibilidade ou não de aplicação da detração, é a natureza da medida cautelar e da condenação de prisão. Ao findar este trabalho, conclui-se que, embora alguns doutrinadores entendam que não é cabível detração penal em caso de cumprimento de medidas cautelares diversas da prisão, permitindo ao Estado reduzir a liberdade das pessoas sem qualquer repercussão no cumprimento da pena, o que se constata na prática, analisando-se inclusive decisões jurisprudenciais, é que isso é plenamente possível, desde que seja levado em consideração a similitude da natureza da medida cautelar aplicada e a da condenação de prisão. Ou seja, ausente a semelhança, a jurisprudência afasta a possibilidade de detração nesses casos. Em suma, não pode o Estado, alegando um suposto interessepúblico maior, deixar de compensar o tempo em que as pessoas foram submetidas às medidas cautelares alternativas, pois se assim o fizer, estará ofendendo os direitos humanos e os preceitos constitucionais fundamentais. 4 REFERÊNCIAS: BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em: 15 nov. 2018. BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689.htm>. Acesso em: 15 nov. 2018. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. HABEAS CORPUS Nº 25.183 – CE (2002/0142954-0). Revista Eletrônica da Jurisprudência. Brasília, DF, 27 abr. 2004. Disponível em: <https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/inteiroteor/?num_registro=200201429540&dt_publicaca o=28/06/2004>. Acesso em: 16 nov. 2018. DOTTI, R. A. Curso de Direito Penal: parte geral. 1ª Ed. - Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 604. LENZA, Pedro; et al. Direito processual penal esquematizado. 5. ed. - São Paulo: Saraiva, 2016. NUCCI, Guilherme de Souza. Código de Processo Penal comentado. 15. ed. rev., atual. e ampl. - Rio de Janeiro: Forense, 2016. TONIOLI, Maria Augusta. Direito Processual Penal. Itajaí: 2014. 214 p. Apostila. Disponível em: <https://drive.google.com/open?id=1hz9vwNUWB9h7fdNcrfuYXKODzrKHeKuZ>. Acesso em: 16 nov. 2018.