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AULA 1 
EPIDEMIOLOGIA 
Profª. Ivana Maria Saes Busato 
 
 
02 
CONVERSA INICIAL 
O conhecimento da história da epidemiologia permitirá compreender a sua 
importância no desempenho dos profissionais de saúde em qualquer área de 
atuação, na gestão, na atenção direta a pacientes, e na organização dos serviços. 
Ao final desta aula objetivamos que você relacione a evolução histórica para o 
desenvolvimento da epidemiologia, sintetize o conceito da epidemiologia e 
conheça aspectos da epidemiologia brasileira. 
CONTEXTUALIZANDO 
O conceito da epidemiologia foi construído historicamente com a evolução 
das ciências e do conhecimento do processo saúde-doença. A epidemiologia está 
presente em qualquer atividade profissional da área de saúde. A investigação 
causal de agravo, doença ou evento de saúde implica o levantamento de 
informações, situações, dados, números que devem ser analisados por meio da 
ciência da epidemiologia. Vamos analisar matéria jornalística: 
Número de casos de zika, dengue e chikungunya caem em 2017 - 
Registros das doenças causadas pelo Aedes do país têm forte queda 
em comparação com o mesmo período de 2016. O número de 
notificações de dengue, zika e chikungunya caiu neste ano em 
comparação com o mesmo período de 2016. Até o dia 18 de fevereiro 
de 2017, as três doenças somavam 60.124 registros, de acordo com o 
Ministério da Saúde, contra 590.380 suspeitas no mesmo período do ano 
passado. A queda é de 89,81% (...). Acordo com o presidente da 
Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, Artur Timerman, esse 
comportamento é natural para as doenças do Aedes e outros vírus. Ele 
diz que a transmissão da doença tem um ciclo - um início, um pico e uma 
queda. Depois disso, ainda de acordo com Timerman, novas pessoas 
voltam a ser infectadas e novas epidemias da doença voltam a surgir. 
(G1, 2017) 
Na matéria acima é possível identificar os elementos fundamentais que 
definem o conceito da epidemiologia. Vamos aos temas desta aula e ao final 
retomaremos. 
TEMA 1 – CONCEITO DE SAÚDE E O PROCESSO SAÚDE-DOENÇA 
1.1 O que é saúde? 
A Organização Mundial da Saúde – OMS, organismo internacional fundado 
em 1948, define saúde como “estado de completo bem-estar físico, mental e 
 
 
03 
social”. Essa definição foi adotada pela Conferência Sanitária Internacional 
realizada em junho de 1946, Nova York (OMS, 1946). 
O conceito de saúde como ausência de doença reforçava o modelo 
explicativo do processo saúde-doença biomédico, focado na assistência individual 
e unicausal. Quando a OMS aponta que a saúde vai além da ausência de 
enfermidade ou invalidez, influencia os modelos explicativos do processo saúde-
doença, havendo necessidade de ampliar os determinantes e condicionantes da 
saúde. 
Nesse sentido, há necessidade de a epidemiologia e as ciências sociais se 
associarem na busca de explicações para os padrões populacionais de 
distribuição das doenças (Barata, 2005), e o modelo explicativo de Determinação 
Social da Saúde contempla o atual conceito de saúde da OMS, que estudaremos 
mais profundamente. 
O conceito de saúde da OMS influenciou a organização das políticas 
públicas de saúde. No Brasil, a Constituição Federal de 1988, consagrou a saúde 
como direito de todos e dever do Estado, e o conceito de saúde foi regulamentado 
pela Lei Federal n. 8.080/1990, no art. 3º: 
...saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, 
a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o 
trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens 
e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a 
organização social e econômica do País. (Brasil, 1990) 
As condições socioeconômicas e sociais para o processo saúde-doença 
são consideradas na lei ao afirmar que os níveis de saúde são expressões da 
organização social e econômica do País. 
A Lei Federal n. 12.864/2013 (Brasil, 2013) amplia esse conceito de saúde 
para a política pública de saúde acrescentando atividade física, que indica 
claramente a preocupação com a escolha do Estilo de Vida e as Redes Sociais e 
Comunitárias. 
A epidemiologia deve considerar o conceito de saúde e os modelos 
explicativos do processo saúde-doença para ser uma ciência aplicada. Barata 
(2005) aponta que os fenômenos estudados pela epidemiologia pertencem ao 
âmbito coletivo e, portanto, devem remeter ao social. 
 
 
 
04 
1.2 O processo saúde-doença 
A indagação humana – “Por que adoecemos?” – é explicada por meio do 
conhecimento do processo saúde-doença. As sociedades sempre buscaram 
esclarecimentos, o porquê, em uma comunidade, alguns adoecem e outros não 
adoecem. Assim, várias explicações foram se desenvolvendo com a evolução do 
conhecimento científico. 
Busato (2016, p. 47) aponta que os “diversos modelos explicativos têm sido 
estabelecidos para elucidar a complexidade do processo saúde-doença ao longo 
da história da humanidade”. Os modelos explicativos do processo saúde-doença 
têm início no modelo mágico-religioso, que defende que as doenças são 
resultantes dos malfeitos ou dos pecados que vêm em forma de castigo divino ou 
dos deuses. 
A contribuição da medicina hindu e da medicina chinesa trouxe o modelo 
holístico que explicava as doenças por meio do equilíbrio entre os elementos e 
humores que compõem o organismo humano (Busato, 2016). 
A observação das doenças fez surgir o modelo empírico-racional, que 
também explica a ocorrência das doenças por meio da consequência do 
desequilíbrio dos elementos água, terra, fogo e ar. Na Idade Média, com a teoria 
dos humores trazem o mesmo conceito de desequilíbrio do modelo empírico-
racional para determinar a ocorrência de saúde ou de doença (Busato, 2016, p. 
48). 
O desenvolvimento das ciências no período do Positivismo e a 
possibilidade de estudar o corpo humano fizeram desenvolver o modelo 
biomédico. A principal justificativa para a ocorrência das doenças está na 
presença de um agente causal que possibilitava adoção de medidas curativas 
(modelo unicausal) e que influenciou os primeiros conceitos de saúde como 
ausência de doença. 
A História Natural da Doença é um modelo explicativo do processo saúde-
doença inovador, porque considera múltiplas determinações causais. Institui a 
Tríade ecológica, apontando que a doença é resultado da interação entre agente, 
hospedeiro e ambiente. Esse modelo multicausal foi sistematizado por Leavell e 
Clark (1976). O modelo explicativo História Natural das Doenças analisa as 
características das funções de uma doença ou agravo, numa linha de tempo 
apontando sua distribuição e levando em consideração: pessoas, tempo e espaço. 
 
 
05 
Essa linha de tempo para ocorrência da doença tem início antes dos 
primeiros sinais e sintomas, o período pré-patogênico, que leva até a morte. A 
explicação da doença nessa linha de tempo permitiu o desenvolvimento de ações 
de prevenção e de promoção da saúde, além de considerar a possibilidade da 
reabilitação. 
Hoje, entendemos o processo saúde-doença pela Determinação Social da 
Saúde, esse modelo foi proposto por Dahlgren e Whitehead (2007). Os modelos 
anteriores exploram as condições individuais e biológicas para explicar a 
ocorrência de doença ou não, e o modelo de Dahlgren e Whitehead introduz a 
importância dos determinantes sociais. As condições individuais como sexo, idade 
e fatores hereditários não são mais as únicas formas de explicações para as 
pessoas estarem com saúde ou com doença. 
A escolha do Estilo de vida e as redes sociais e comunitárias passam a ser 
consideradas para ocorrência das doenças. As condições socioeconômicas, 
culturais e ambientais gerais como: educação,renda, condições de vida e de 
trabalho, entre outras, são determinantes do processo saúde-doença. 
As determinações sociais da saúde possibilitam evitar as iniquidades em 
saúde. As iniquidades em saúde são diferenças socialmente produzidas, 
sistemáticas em sua distribuição pela população e injustas (Mendes, 2012). 
TEMA 2 – A EPIDEMIOLOGIA E SUA HISTÓRIA 
2.1 Raízes históricas 
Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.) é considerado o pai da epidemiologia, seus 
textos já relacionavam o meio ambiente com epidemia, afirmava também que a 
ocorrência do desequilíbrio entre os elementos da natureza: terra, fogo, ar e água 
era capaz de provocar doenças. Na mitologia grega, Asclépios, deus da saúde, 
tinha duas filhas, Higéia e Higina, a primeira deusa da saúde coletiva e a segunda 
deusa da saúde individual. Hipócrates sofreu mais influência de promover a saúde 
com ações preventivas (Higeia), pelo equilíbrio entre os elementos da natureza: 
terra, fogo, ar e água. 
Claudius Galeno (ca. 130-200), foi um médico grego, e um dos mais 
importantes antiga Roma. Os médicos gregos eram muito valorizados pelos 
romanos e Galeno tornou-se médico das celebridades pelo seu conhecimento e 
 
 
06 
arrojo (Busato, 2016). A medicina galena foi importante para o avanço da 
descrição e do conhecimento de doenças. 
A antiga Roma trouxe várias contribuições para a epidemiologia coletiva 
com sua infraestrutura sanitária na construção de aquedutos e esgotos. 
O caráter coletivo da medicina árabe tem em Avicena (980-1037), médico, 
matemático e filósofo persa, seu principal representante. Trouxe para medicina 
ocidental os conceitos epidemiológicos e coletivos de Hipócrates e Galeno. 
Busato (2016, p. 30) aponta que “médicos muçulmanos, baseados na escola 
hipocrática, adotaram uma prática precursora da saúde pública, com grandes 
avanços nos registros de informações demográficas e sanitárias, bem como os 
sistemas de vigilância epidemiológica”. 
Durante um grande período temporal que vai do século XI até meados do 
século XIX os conceitos iniciados por Hipócrates, Galeno e Avicena foram 
substituídos pela Teoria Miasmática, que explicava a má qualidade do ar como 
causa de todas as doenças, retrocedendo aos conceitos epidemiológicos. 
2.2 John Snow – fundador da epidemiologia 
Durante os anos de 1850, a Teoria Miasmática estava perdendo força entre 
os jovens médicos da Inglaterra, e nesse contexto os jovens simpatizantes das 
ideias médico-sociais, com oficiais da saúde pública e membros da Real 
Sociedade Médica, organizaram um grupo de estudos epidemiológicos, a London 
Epidemiological Society. 
Busato (2016, p. 30-31) destaca “a participação de Florence Nightingale 
(1820-1910), fundadora da enfermagem, no London Epidemiological Society, e 
sua importância para a epidemiologia nos estudos pioneiros sobre a mortalidade 
por infecção pós-cirúrgica nos hospitais militares na Guerra da Crimeia”. 
Um dos membros fundadores dessa sociedade foi John Snow (1813-1858), 
que realizou a mais notável investigação da epidemia de cólera de 1854, e por 
esse feito é considerado por muitos o fundador de epidemiologia. Snow mostrou 
a contaminação hídrica da cólera pela metodologia epidemiológica, sem o 
conhecimento da teoria microbiana de Pasteur. 
John Snow é considerado por muitos autores o fundador da epidemiologia, 
e outros indicam Snow como o “pai da epidemiologia”. Aos 14 anos começou a 
ser aprendiz de cirurgião pelo sistema mestre-discípulo, auxiliando um cirurgião 
 
 
07 
da época. Graduou-se em medicina em 1844 na cidade de Londres pelo Royal 
College of Physicians, começando a clinicar na capital britânica. 
O estudo de John Snow sobre a cólera teve início no surto de 1931/32, 
quando ainda era aprendiz. Questionando a teoria do miasma para explicar a 
epidemia da cólera, percebeu que os mineiros que trabalhavam no interior da 
terra, longe das regiões miasmáticas, também haviam adoecido, e percebeu a 
influência da água para a ocorrência da doença. Assim, em agosto de 1849, 
publicou um panfleto defendendo a transmissão da cólera pela água. Os médicos 
da época não confirmaram a teoria de Snow. 
“Em Londres, no ano de 1854, a cólera reapareceu com características de 
uma grave epidemia, nos primeiros dias de setembro foram registrados mais de 
616 casos fatais. Nessa época Snow era titular de uma posição equivalente a 
ministro da saúde de Londres” (Busato, 2016, p. 32). 
Várias teorias tentavam explicar o grande número de óbitos em tão pouco 
tempo. John Snow mapeou as 616 mortes mostrando a distribuição espacial do 
surto concentrada nas imediações da bomba de água da Broad Street, indicando 
a possível fonte da contaminação. Anos depois da morte de Snow, Robert Koch 
identificou o Vibrio cholerae como agente causador da cólera em 1884. 
TEMA 3 – CONCEITO DE EPIDEMIOLOGIA 
“A Clínica, a Estatística e Medicina Social compõem os elementos 
conceituais, metodológicos e ideológicos, da epidemiologia” (Busato, 2016). 
Segundo Almeida Filho e Rouquayrol (2013), o termo “epidemia” está nos 
textos hipocráticos. Etimologicamente, a palavra epidemiologia é formada pela 
junção do prefixo epí (“em cima de; sobre”) com o radical demos, significando 
“povo”. O sufixo logos, do grego, é “palavra, discurso, estudo”. Esse sufixo é 
geralmente empregado para designar disciplinas científicas nas línguas ocidentais 
modernas. A palavra Epidemiologia significa etimologicamente “ciência do que 
ocorre (se abate) sobre o povo” (Almeida Filho e Rouquayrol, 2013). 
Last (2001, p. 87, tradução nossa) conceitua a epidemiologia como “o 
estudo da distribuição e dos determinantes de estados ou eventos relacionados à 
saúde em populações específicas, e sua aplicação na prevenção e controle dos 
problemas de saúde”. 
Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 1) fazem uma conceituação clássica 
da epidemiologia, apontando todos os aspectos que compõem sua dimensão 
 
 
08 
como ciência: “epidemiologia estuda o processo saúde-enfermidade na 
sociedade, analisando a distribuição populacional e fatores determinantes do risco 
de doenças, agravos e eventos associados à saúde”. 
3.1 A clínica 
A clínica contribui com o conhecimento sobre a descrição, diagnóstico e 
tratamento das doenças, eventos e agravos em saúde que acometem as pessoas 
e as comunidades, tendo como alicerce o avanço nas pesquisas e o 
desenvolvimento da tecnologia médica. 
Os séculos XVII e XVIII, especialmente na França e Inglaterra, contribuíram 
para o desenvolvimento da epidemiologia com a prática profissional, baseada na 
observação e descrição minuciosa de sinais e sintomas de pacientes resultando 
numa terapêutica individual, contribuindo para a progresso da clínica médica. 
Um dos fundadores desta clínica moderna foi Thomas Sydenham (1624-
1689), médico e liderança política em Londres, que contribuiu como precursor da 
ciência epidemiológica e no conceito de história natural das enfermidades. 
Na década de 1980, despontou uma epidemiologia clínica, utilizando 
fortemente a metodologia epidemiológica com ênfase na identificação de caso e 
avaliação da eficácia terapêutica, em que foi difundida a medicina baseada em 
evidências, reforçando o uso da clínica no estudo epidemiológico. 
3.2 A estatística 
O império romano contribuiu para a epidemiologia na realização de registro 
periódico de nascimento, óbitos e censos populacionais periódicos, trazendo a 
estatística para o uso epidemiológico. 
No século XVII nascia a estatística, uma disciplina científica de cunho 
mercantil e político, que, com foco nas probabilidades, tornou-se destinada a 
dimensionar as doenças e seus efeitos. A Aritmética Política, de William Petty,(1623-1687) e os levantamentos estatísticos de John Graunt (1620-1674) são 
trabalho considerados os precursores da demografia, estatística e epidemiologia. 
Willian Farr (1807-1883) criou o registro anual de morbidade e mortalidade 
para a Inglaterra e País de Gales, promovendo a institucionalização dos sistemas 
de informação em saúde. Outro importante nome da história foi Foucault (1926-
1984), francês, realizou os primeiros registros de contagem de enfermos (ovinos) 
 
 
09 
visando o controle de uma enfermidade (epizootia), em seus estudos veterinários, 
nos primórdios de uma medicina científica moderna. 
A introdução dos computadores provocou a matematização da 
epidemiologia, promovendo sua expanção na capacidade de investigação e 
possibilitando estudos multicêntricos, com grande número de variáveis e sujeitos 
de pesquisa utilizando a quantificação. 
Destacam-se os estudos para avaliação da eficácia dos tratamentos 
clínicos utilizando a estatística de Pierre-Charles Alexandre Louis (1787-1872), 
que integraram a clínica moderna e a estatística. 
3.3 A medicina social 
A medicina social foi impulsionada no final do século XVIII com a ascensão 
do poder político da burguesia emergente, aumento da urbanização, havendo 
necessidade de iniciativas de intervenção do Estado na saúde das populações, 
para conter as doenças e manter a ordem pública. 
Baseada nos conceitos de higiene, a medicina social trouxe um conjunto 
de normas e preceitos que devem ser aplicados em âmbito individual, e outros 
referentes à saúde coletiva por meio de leis e regulamentos. 
Devemos citar também Louis Villermé (1782-1863) e sua pesquisa sobre o 
impacto da pobreza e das condições de trabalho na saúde das pessoas. O francês 
Guérin, em 1838, cunhou o termo Medicina Social, usado para indicar modos de 
abordar coletivamente a questão da saúde. 
As pesquisas epidemiológicas que relacionam os condicionantes e 
determinantes sociais no processo saúde-doença foram impulsionadas no estudo 
das doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, hipertensão em especial 
o câncer. 
3.4 Aplicações da epidemiologia 
A epidemiologia estuda o processo saúde-doença por meio do modelo 
explicativo, visualizando a distribuição populacional e geográfica. Descrevendo os 
fatores de risco, a epidemiologia possibilita propor medidas de prevenção 
específicas, de promoção da saúde, de recuperação da saúde. A atuação da 
epidemiologia tem alcance individual e/ou coletivo com a responsabilidade de 
produzir informações e conhecimento de saúde. 
 
 
010 
As aplicações da epidemiologia abrangem três grandes áreas de atuação: 
diagnóstico de situação de saúde de populações, investigação etiológica e 
determinação do risco. 
Gomes (2015, p. 12) aponta que “diagnóstico da situação de saúde 
consiste na coleta sistemática de dados sobre a saúde da população, informações 
demográficas, econômicas, sociais, culturais e ambientais, que servirão para 
compor os indicadores de saúde”. O diagnóstico da situação de saúde de uma 
população (cidade, estado, país, vila, território de uma equipe de saúde da família) 
é a base para o planejamento estratégico em saúde, para priorização de ações, 
organização dos serviços. 
A investigação etiológica é a vocação da epidemiologia, na busca dos 
determinantes e condicionantes do processo saúde-doença, na descrição das 
doenças, na proposição de prevenção, promoção e recuperação da saúde. 
A determinação do risco é estudada por meio das medidas de associação, 
com os indicadores de saúde. Esses conceitos serão abordados nas próximas 
aulas. 
TEMA 4 – EPIDEMIOLOGIA NA ATUALIDADE 
A microbiologia teve grande participação na epidemiologia, contribuindo 
com a identificação dos agentes etiológicos e medidas de prevenção e tratamento 
das doenças infectocontagiosas, possibilitando diminuição expressiva da 
morbimortalidade, nos séculos XIX e XX (Gomes, 2015). 
A primeira escola de saúde pública nos Estados Unidos da América, 
baseada no relatório de Abraham Flexner, em 1910, Medical Education in the 
United States and Canada, apontou necessidade de mudanças no ensino superior 
para a medicina, foi inovador e sua importância é reconhecida até os dias atuais. 
Assim com este modelo de “escola de saúde pública” foi difundido para todo o 
mundo por meio da Fundação Rockefeller. 
A epidemiologia tentava ampliar seus conhecimentos para além das 
doenças infectocontagiosas quando o livro The Principles of Epidemiology, do final 
dos anos 1920, focou exclusivamente as enfermidades infecciosas. A crise 
econômica mundial de 1929 trouxe a necessidade de uma abordagem na saúde, 
e nesse cenário redescobriu-se o caráter coletivo da epidemiologia para 
organização da saúde. 
 
 
011 
O estabelecimento dos “estados de bem-estar-social” na Europa Ocidental, 
em especial Inglaterra e França, na organização dos serviços de saúde, uniu a 
assistência à saúde com as políticas sociais, trazendo para a epidemiologia a 
necessidade de inovar nas investigações sociais. 
Nos períodos das guerras mundiais houve grande avanço na realização de 
grandes inquéritos epidemiológicos para avaliar a saúde física e mental das 
tropas, especialmente para enfermidades não infecciosas, fazendo surgir novas 
abordagens de estudos na população. Surgindo na epidemiologia a identificação 
de indicadores básicos de saúde (prevalência e incidência), conceito de risco e 
risco relativo, que estudaremos mais profundamente nas próximas aulas. 
As doenças emergentes e reemergentes impulsionam o estudo 
epidemiológico mundial, no trabalho em cooperação, conduzido pela Organização 
Mundial da Saúde, com as grandes diferenças epidemiológicas entre os países, a 
grande imigração internacional, as transações de produtos e a mobilidade entre 
as pessoas. Esses fatores propiciam o ressurgimento das doenças reemergentes 
(cólera, dengue), e o risco de expansão de doenças emergentes (AIDS, H1N1, 
Ebola) levou a epidemiologia a buscar seu desenvolvimento tentando superar 
esses novos desafios. 
TEMA 5 – EPIDEMIOLOGIA BRASILEIRA 
A epidemiologia brasileira se destaca na atuação nas doenças tropicais e 
na luta pelo Sistema Único de Saúde. 
5.1 Oswaldo Cruz e sua importância para a epidemiologia brasileira 
A epidemiologia brasileira tem suas raízes nos estudos sobre as doenças 
tropicais. As condições sanitárias das cidades portuárias, no início da República, 
eram marcadas pela ocorrência de doenças como: febre amarela, peste bubônica 
e varíola. Essas condições dificultavam as transações comerciais porque as 
grandes companhias não queriam expor seus marinheiros às doenças 
infectocontagiosas. 
Em 1903 foi nomeado o médico Oswaldo Cruz como Diretor-Geral de 
Saúde Pública, com a tarefa de sanear a cidade do Rio de Janeiro. 
Oswaldo Cruz erradicou a febre amarela utilizando medidas rigorosas, 
multas e demolições de imóveis insalubres. Em seguida implantou a notificação 
 
 
012 
compulsória dos casos de peste bubônica e combate aos ratos, que incluiu a 
compra de ratos. 
Oswaldo obteve sucesso com essas medidas, porém com grande 
insatisfação da sociedade. No combate à epidemia de varicela, em 1904, Oswaldo 
Cruz conseguiu aprovar no Congresso a obrigatoriedade da vacinação contra 
varíola. A forma autoritária como essa vacinação foi imposta provocou uma ampla 
oposição da população que resultou na Revolta das Vacinas (BUSATO, 2016). 
Outro grande avanço foi realizado por Carlos Chagas, em 1905, quando 
conseguiu controlar o surto de malária no interior de São Paulo. O protozoário 
causador da doença de chagas foi descoberto por Carlos Chagas, e esse 
protozoário foi nomeadoTrypanossoma cruzi, em homenagem a Oswaldo Cruz. 
A Fundação Oswaldo Cruz é um importante espaço de ensino, pesquisa e 
desenvolvimento da epidemiologia brasileira, teve seu início em 1900 como 
Instituto Soroterápico Federal, com a direção técnica de Oswaldo Cruz. Esse 
instituto nasceu com o objetivo de promover estudos sobre as doenças por meio 
da participação dos estudiosos brasileiros da época. 
A Fiocruz tem 17 unidades técnico-científicas, sendo 11 localizadas no 
Rio de Janeiro, 5 localizadas em outros estados brasileiros e uma 
unidade em Maputo capital de Moçambique. Todas as unidades técnico-
científicas da Fiocruz desenvolvem programas de pós-graduação stricto 
sensu, com cursos de doutorado, mestrado acadêmico ou profissional. 
São 32 programas, inseridos em dez áreas de avaliação da 
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) 
e ainda diversos cursos de pós-graduação lato sensu (especialização, 
aperfeiçoamento, atualização e residência); e de educação profissional, 
por meio da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio 
(EPSJV/Fiocruz). A Fundação possui 19 diferentes cursos com foco na 
epidemiologia. (Fiocruz, S.d.) 
5.2 A saúde coletiva brasileira 
A Fundação Rockefeller teve papel importante no avanço da epidemiologia 
no mundo, e no Brasil, como vimos anteriormente, exerceu grande influência na 
formação do pensamento sanitário. Foi formada a primeira geração de 
epidemiologistas, dos quais destacamos: Guilherme Rodrigues da Silva, José da 
Rocha Carvalheiro, Maria Zélia Rouquayrol, Euclides Castilho e Sebastião 
Loureiro, citados e estudados até hoje. 
 A Organização Pan-Americana (OPAS) e a Organização Mundial da 
Saúde (OMS), impulsionadas pelo governo norte-americano, empreenderam 
diversas ações no controle e erradicação de várias doenças. 
 
 
013 
As campanhas de erradicação da varíola na década de 1960 e da 
poliomielite na década de 1970, a grave epidemia da doença meningocócica 
contribuíram para consolidar o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica no 
Brasil (Medronho et al., 2009). 
 A consolidação da epidemiologia no Brasil se mistura com a história da 
Saúde Coletiva, na década de 1970 foram criados diversos núcleos de saúde 
coletiva que abrigaram os primeiros epidemiologistas brasileiros. A Saúde 
Coletiva como campo interdisciplinar engloba a epidemiologia na busca do 
desenvolvimento de atividades de investigação sobre o estado sanitário da 
população, a natureza das políticas de saúde, a relação entre processos de 
trabalho e doenças e agravos, bem como as intervenções de grupos e classes 
sociais sobre a questão sanitária. 
Em 1979 foi implantada a Associação Brasileira de Pós-Graduação em 
Saúde Coletiva (ABRASCO), que pautou questões de temas de pesquisa, como 
também a formação e intervenção da epidemiologia. A preocupação dos 
epidemiologistas passava pela organização do sistema de saúde brasileiro, com 
engajamento no movimento da Reforma Sanitária que teve seu ápice na VIII 
Conferência Nacional de Saúde, marco na criação do Sistema Único de Saúde. 
Ressaltamos que a Constituição Brasileira de 1988 (art. 200, inciso II) 
explicita a aplicabilidade da epidemiologia por meio das ações da vigilância 
epidemiológica como uma das competências do Sistema Único de Saúde, 
mostrando sua importância no contexto da saúde da população e dos sistemas 
de saúde. 
Logo após a promulgação da Constituição Federativa do Brasil de 1988 foi 
elaborado o I Plano Diretor para o Desenvolvimento da epidemiologia no Brasil. O 
marco da epidemiologia no Brasil aconteceu em 1990 na realização do I 
Congresso Brasileiro da Epidemiologia e na criação do Centro Nacional de 
Epidemiologia (CENEPI). 
A Revista Brasileira de Epidemiologia é publicada pela 
ABRASCO, traz artigos originais, incluindo resenhas críticas de 
temas específicos que podem contribuir para o desenvolvimento 
da Epidemiologia e ciências relacionadas, a revista é indexada na 
base de dados da Scielo. (ABRASCO, S.d.) 
 
 
 
014 
FINALIZANDO 
Iniciamos nesta aula o estudo da Epidemiologia. Pudemos estudar sua 
história e seu impacto na construção do saber epidemiológico, da antiguidade até 
os dias de hoje. Tratamos de entender o conceito da epidemiologia. 
Retornando à contextualização, é apresentada uma matéria jornalística 
sobre a queda dos registros das doenças causadas pelo Aedes de um ano para 
outro. Os elementos do conceito da epidemiologia estão presentes na matéria: a 
estatística mostra os números da diminuição das doenças de um ano para outro, 
as notificações de dengue, zika e chikungunya, com a investigação dos casos, em 
que há análise clínica das doenças, e o impacto social, completando assim os três 
elementos da epidemiologia. 
Conhecemos a construção da epidemiologia brasileira e sua relação com a 
construção do Sistema Único de Saúde. 
 
 
 
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