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AULA 1 EPIDEMIOLOGIA Profª. Ivana Maria Saes Busato 02 CONVERSA INICIAL O conhecimento da história da epidemiologia permitirá compreender a sua importância no desempenho dos profissionais de saúde em qualquer área de atuação, na gestão, na atenção direta a pacientes, e na organização dos serviços. Ao final desta aula objetivamos que você relacione a evolução histórica para o desenvolvimento da epidemiologia, sintetize o conceito da epidemiologia e conheça aspectos da epidemiologia brasileira. CONTEXTUALIZANDO O conceito da epidemiologia foi construído historicamente com a evolução das ciências e do conhecimento do processo saúde-doença. A epidemiologia está presente em qualquer atividade profissional da área de saúde. A investigação causal de agravo, doença ou evento de saúde implica o levantamento de informações, situações, dados, números que devem ser analisados por meio da ciência da epidemiologia. Vamos analisar matéria jornalística: Número de casos de zika, dengue e chikungunya caem em 2017 - Registros das doenças causadas pelo Aedes do país têm forte queda em comparação com o mesmo período de 2016. O número de notificações de dengue, zika e chikungunya caiu neste ano em comparação com o mesmo período de 2016. Até o dia 18 de fevereiro de 2017, as três doenças somavam 60.124 registros, de acordo com o Ministério da Saúde, contra 590.380 suspeitas no mesmo período do ano passado. A queda é de 89,81% (...). Acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Dengue e Arboviroses, Artur Timerman, esse comportamento é natural para as doenças do Aedes e outros vírus. Ele diz que a transmissão da doença tem um ciclo - um início, um pico e uma queda. Depois disso, ainda de acordo com Timerman, novas pessoas voltam a ser infectadas e novas epidemias da doença voltam a surgir. (G1, 2017) Na matéria acima é possível identificar os elementos fundamentais que definem o conceito da epidemiologia. Vamos aos temas desta aula e ao final retomaremos. TEMA 1 – CONCEITO DE SAÚDE E O PROCESSO SAÚDE-DOENÇA 1.1 O que é saúde? A Organização Mundial da Saúde – OMS, organismo internacional fundado em 1948, define saúde como “estado de completo bem-estar físico, mental e 03 social”. Essa definição foi adotada pela Conferência Sanitária Internacional realizada em junho de 1946, Nova York (OMS, 1946). O conceito de saúde como ausência de doença reforçava o modelo explicativo do processo saúde-doença biomédico, focado na assistência individual e unicausal. Quando a OMS aponta que a saúde vai além da ausência de enfermidade ou invalidez, influencia os modelos explicativos do processo saúde- doença, havendo necessidade de ampliar os determinantes e condicionantes da saúde. Nesse sentido, há necessidade de a epidemiologia e as ciências sociais se associarem na busca de explicações para os padrões populacionais de distribuição das doenças (Barata, 2005), e o modelo explicativo de Determinação Social da Saúde contempla o atual conceito de saúde da OMS, que estudaremos mais profundamente. O conceito de saúde da OMS influenciou a organização das políticas públicas de saúde. No Brasil, a Constituição Federal de 1988, consagrou a saúde como direito de todos e dever do Estado, e o conceito de saúde foi regulamentado pela Lei Federal n. 8.080/1990, no art. 3º: ...saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais; os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do País. (Brasil, 1990) As condições socioeconômicas e sociais para o processo saúde-doença são consideradas na lei ao afirmar que os níveis de saúde são expressões da organização social e econômica do País. A Lei Federal n. 12.864/2013 (Brasil, 2013) amplia esse conceito de saúde para a política pública de saúde acrescentando atividade física, que indica claramente a preocupação com a escolha do Estilo de Vida e as Redes Sociais e Comunitárias. A epidemiologia deve considerar o conceito de saúde e os modelos explicativos do processo saúde-doença para ser uma ciência aplicada. Barata (2005) aponta que os fenômenos estudados pela epidemiologia pertencem ao âmbito coletivo e, portanto, devem remeter ao social. 04 1.2 O processo saúde-doença A indagação humana – “Por que adoecemos?” – é explicada por meio do conhecimento do processo saúde-doença. As sociedades sempre buscaram esclarecimentos, o porquê, em uma comunidade, alguns adoecem e outros não adoecem. Assim, várias explicações foram se desenvolvendo com a evolução do conhecimento científico. Busato (2016, p. 47) aponta que os “diversos modelos explicativos têm sido estabelecidos para elucidar a complexidade do processo saúde-doença ao longo da história da humanidade”. Os modelos explicativos do processo saúde-doença têm início no modelo mágico-religioso, que defende que as doenças são resultantes dos malfeitos ou dos pecados que vêm em forma de castigo divino ou dos deuses. A contribuição da medicina hindu e da medicina chinesa trouxe o modelo holístico que explicava as doenças por meio do equilíbrio entre os elementos e humores que compõem o organismo humano (Busato, 2016). A observação das doenças fez surgir o modelo empírico-racional, que também explica a ocorrência das doenças por meio da consequência do desequilíbrio dos elementos água, terra, fogo e ar. Na Idade Média, com a teoria dos humores trazem o mesmo conceito de desequilíbrio do modelo empírico- racional para determinar a ocorrência de saúde ou de doença (Busato, 2016, p. 48). O desenvolvimento das ciências no período do Positivismo e a possibilidade de estudar o corpo humano fizeram desenvolver o modelo biomédico. A principal justificativa para a ocorrência das doenças está na presença de um agente causal que possibilitava adoção de medidas curativas (modelo unicausal) e que influenciou os primeiros conceitos de saúde como ausência de doença. A História Natural da Doença é um modelo explicativo do processo saúde- doença inovador, porque considera múltiplas determinações causais. Institui a Tríade ecológica, apontando que a doença é resultado da interação entre agente, hospedeiro e ambiente. Esse modelo multicausal foi sistematizado por Leavell e Clark (1976). O modelo explicativo História Natural das Doenças analisa as características das funções de uma doença ou agravo, numa linha de tempo apontando sua distribuição e levando em consideração: pessoas, tempo e espaço. 05 Essa linha de tempo para ocorrência da doença tem início antes dos primeiros sinais e sintomas, o período pré-patogênico, que leva até a morte. A explicação da doença nessa linha de tempo permitiu o desenvolvimento de ações de prevenção e de promoção da saúde, além de considerar a possibilidade da reabilitação. Hoje, entendemos o processo saúde-doença pela Determinação Social da Saúde, esse modelo foi proposto por Dahlgren e Whitehead (2007). Os modelos anteriores exploram as condições individuais e biológicas para explicar a ocorrência de doença ou não, e o modelo de Dahlgren e Whitehead introduz a importância dos determinantes sociais. As condições individuais como sexo, idade e fatores hereditários não são mais as únicas formas de explicações para as pessoas estarem com saúde ou com doença. A escolha do Estilo de vida e as redes sociais e comunitárias passam a ser consideradas para ocorrência das doenças. As condições socioeconômicas, culturais e ambientais gerais como: educação,renda, condições de vida e de trabalho, entre outras, são determinantes do processo saúde-doença. As determinações sociais da saúde possibilitam evitar as iniquidades em saúde. As iniquidades em saúde são diferenças socialmente produzidas, sistemáticas em sua distribuição pela população e injustas (Mendes, 2012). TEMA 2 – A EPIDEMIOLOGIA E SUA HISTÓRIA 2.1 Raízes históricas Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.) é considerado o pai da epidemiologia, seus textos já relacionavam o meio ambiente com epidemia, afirmava também que a ocorrência do desequilíbrio entre os elementos da natureza: terra, fogo, ar e água era capaz de provocar doenças. Na mitologia grega, Asclépios, deus da saúde, tinha duas filhas, Higéia e Higina, a primeira deusa da saúde coletiva e a segunda deusa da saúde individual. Hipócrates sofreu mais influência de promover a saúde com ações preventivas (Higeia), pelo equilíbrio entre os elementos da natureza: terra, fogo, ar e água. Claudius Galeno (ca. 130-200), foi um médico grego, e um dos mais importantes antiga Roma. Os médicos gregos eram muito valorizados pelos romanos e Galeno tornou-se médico das celebridades pelo seu conhecimento e 06 arrojo (Busato, 2016). A medicina galena foi importante para o avanço da descrição e do conhecimento de doenças. A antiga Roma trouxe várias contribuições para a epidemiologia coletiva com sua infraestrutura sanitária na construção de aquedutos e esgotos. O caráter coletivo da medicina árabe tem em Avicena (980-1037), médico, matemático e filósofo persa, seu principal representante. Trouxe para medicina ocidental os conceitos epidemiológicos e coletivos de Hipócrates e Galeno. Busato (2016, p. 30) aponta que “médicos muçulmanos, baseados na escola hipocrática, adotaram uma prática precursora da saúde pública, com grandes avanços nos registros de informações demográficas e sanitárias, bem como os sistemas de vigilância epidemiológica”. Durante um grande período temporal que vai do século XI até meados do século XIX os conceitos iniciados por Hipócrates, Galeno e Avicena foram substituídos pela Teoria Miasmática, que explicava a má qualidade do ar como causa de todas as doenças, retrocedendo aos conceitos epidemiológicos. 2.2 John Snow – fundador da epidemiologia Durante os anos de 1850, a Teoria Miasmática estava perdendo força entre os jovens médicos da Inglaterra, e nesse contexto os jovens simpatizantes das ideias médico-sociais, com oficiais da saúde pública e membros da Real Sociedade Médica, organizaram um grupo de estudos epidemiológicos, a London Epidemiological Society. Busato (2016, p. 30-31) destaca “a participação de Florence Nightingale (1820-1910), fundadora da enfermagem, no London Epidemiological Society, e sua importância para a epidemiologia nos estudos pioneiros sobre a mortalidade por infecção pós-cirúrgica nos hospitais militares na Guerra da Crimeia”. Um dos membros fundadores dessa sociedade foi John Snow (1813-1858), que realizou a mais notável investigação da epidemia de cólera de 1854, e por esse feito é considerado por muitos o fundador de epidemiologia. Snow mostrou a contaminação hídrica da cólera pela metodologia epidemiológica, sem o conhecimento da teoria microbiana de Pasteur. John Snow é considerado por muitos autores o fundador da epidemiologia, e outros indicam Snow como o “pai da epidemiologia”. Aos 14 anos começou a ser aprendiz de cirurgião pelo sistema mestre-discípulo, auxiliando um cirurgião 07 da época. Graduou-se em medicina em 1844 na cidade de Londres pelo Royal College of Physicians, começando a clinicar na capital britânica. O estudo de John Snow sobre a cólera teve início no surto de 1931/32, quando ainda era aprendiz. Questionando a teoria do miasma para explicar a epidemia da cólera, percebeu que os mineiros que trabalhavam no interior da terra, longe das regiões miasmáticas, também haviam adoecido, e percebeu a influência da água para a ocorrência da doença. Assim, em agosto de 1849, publicou um panfleto defendendo a transmissão da cólera pela água. Os médicos da época não confirmaram a teoria de Snow. “Em Londres, no ano de 1854, a cólera reapareceu com características de uma grave epidemia, nos primeiros dias de setembro foram registrados mais de 616 casos fatais. Nessa época Snow era titular de uma posição equivalente a ministro da saúde de Londres” (Busato, 2016, p. 32). Várias teorias tentavam explicar o grande número de óbitos em tão pouco tempo. John Snow mapeou as 616 mortes mostrando a distribuição espacial do surto concentrada nas imediações da bomba de água da Broad Street, indicando a possível fonte da contaminação. Anos depois da morte de Snow, Robert Koch identificou o Vibrio cholerae como agente causador da cólera em 1884. TEMA 3 – CONCEITO DE EPIDEMIOLOGIA “A Clínica, a Estatística e Medicina Social compõem os elementos conceituais, metodológicos e ideológicos, da epidemiologia” (Busato, 2016). Segundo Almeida Filho e Rouquayrol (2013), o termo “epidemia” está nos textos hipocráticos. Etimologicamente, a palavra epidemiologia é formada pela junção do prefixo epí (“em cima de; sobre”) com o radical demos, significando “povo”. O sufixo logos, do grego, é “palavra, discurso, estudo”. Esse sufixo é geralmente empregado para designar disciplinas científicas nas línguas ocidentais modernas. A palavra Epidemiologia significa etimologicamente “ciência do que ocorre (se abate) sobre o povo” (Almeida Filho e Rouquayrol, 2013). Last (2001, p. 87, tradução nossa) conceitua a epidemiologia como “o estudo da distribuição e dos determinantes de estados ou eventos relacionados à saúde em populações específicas, e sua aplicação na prevenção e controle dos problemas de saúde”. Almeida Filho e Rouquayrol (2013, p. 1) fazem uma conceituação clássica da epidemiologia, apontando todos os aspectos que compõem sua dimensão 08 como ciência: “epidemiologia estuda o processo saúde-enfermidade na sociedade, analisando a distribuição populacional e fatores determinantes do risco de doenças, agravos e eventos associados à saúde”. 3.1 A clínica A clínica contribui com o conhecimento sobre a descrição, diagnóstico e tratamento das doenças, eventos e agravos em saúde que acometem as pessoas e as comunidades, tendo como alicerce o avanço nas pesquisas e o desenvolvimento da tecnologia médica. Os séculos XVII e XVIII, especialmente na França e Inglaterra, contribuíram para o desenvolvimento da epidemiologia com a prática profissional, baseada na observação e descrição minuciosa de sinais e sintomas de pacientes resultando numa terapêutica individual, contribuindo para a progresso da clínica médica. Um dos fundadores desta clínica moderna foi Thomas Sydenham (1624- 1689), médico e liderança política em Londres, que contribuiu como precursor da ciência epidemiológica e no conceito de história natural das enfermidades. Na década de 1980, despontou uma epidemiologia clínica, utilizando fortemente a metodologia epidemiológica com ênfase na identificação de caso e avaliação da eficácia terapêutica, em que foi difundida a medicina baseada em evidências, reforçando o uso da clínica no estudo epidemiológico. 3.2 A estatística O império romano contribuiu para a epidemiologia na realização de registro periódico de nascimento, óbitos e censos populacionais periódicos, trazendo a estatística para o uso epidemiológico. No século XVII nascia a estatística, uma disciplina científica de cunho mercantil e político, que, com foco nas probabilidades, tornou-se destinada a dimensionar as doenças e seus efeitos. A Aritmética Política, de William Petty,(1623-1687) e os levantamentos estatísticos de John Graunt (1620-1674) são trabalho considerados os precursores da demografia, estatística e epidemiologia. Willian Farr (1807-1883) criou o registro anual de morbidade e mortalidade para a Inglaterra e País de Gales, promovendo a institucionalização dos sistemas de informação em saúde. Outro importante nome da história foi Foucault (1926- 1984), francês, realizou os primeiros registros de contagem de enfermos (ovinos) 09 visando o controle de uma enfermidade (epizootia), em seus estudos veterinários, nos primórdios de uma medicina científica moderna. A introdução dos computadores provocou a matematização da epidemiologia, promovendo sua expanção na capacidade de investigação e possibilitando estudos multicêntricos, com grande número de variáveis e sujeitos de pesquisa utilizando a quantificação. Destacam-se os estudos para avaliação da eficácia dos tratamentos clínicos utilizando a estatística de Pierre-Charles Alexandre Louis (1787-1872), que integraram a clínica moderna e a estatística. 3.3 A medicina social A medicina social foi impulsionada no final do século XVIII com a ascensão do poder político da burguesia emergente, aumento da urbanização, havendo necessidade de iniciativas de intervenção do Estado na saúde das populações, para conter as doenças e manter a ordem pública. Baseada nos conceitos de higiene, a medicina social trouxe um conjunto de normas e preceitos que devem ser aplicados em âmbito individual, e outros referentes à saúde coletiva por meio de leis e regulamentos. Devemos citar também Louis Villermé (1782-1863) e sua pesquisa sobre o impacto da pobreza e das condições de trabalho na saúde das pessoas. O francês Guérin, em 1838, cunhou o termo Medicina Social, usado para indicar modos de abordar coletivamente a questão da saúde. As pesquisas epidemiológicas que relacionam os condicionantes e determinantes sociais no processo saúde-doença foram impulsionadas no estudo das doenças crônicas não transmissíveis como diabetes, hipertensão em especial o câncer. 3.4 Aplicações da epidemiologia A epidemiologia estuda o processo saúde-doença por meio do modelo explicativo, visualizando a distribuição populacional e geográfica. Descrevendo os fatores de risco, a epidemiologia possibilita propor medidas de prevenção específicas, de promoção da saúde, de recuperação da saúde. A atuação da epidemiologia tem alcance individual e/ou coletivo com a responsabilidade de produzir informações e conhecimento de saúde. 010 As aplicações da epidemiologia abrangem três grandes áreas de atuação: diagnóstico de situação de saúde de populações, investigação etiológica e determinação do risco. Gomes (2015, p. 12) aponta que “diagnóstico da situação de saúde consiste na coleta sistemática de dados sobre a saúde da população, informações demográficas, econômicas, sociais, culturais e ambientais, que servirão para compor os indicadores de saúde”. O diagnóstico da situação de saúde de uma população (cidade, estado, país, vila, território de uma equipe de saúde da família) é a base para o planejamento estratégico em saúde, para priorização de ações, organização dos serviços. A investigação etiológica é a vocação da epidemiologia, na busca dos determinantes e condicionantes do processo saúde-doença, na descrição das doenças, na proposição de prevenção, promoção e recuperação da saúde. A determinação do risco é estudada por meio das medidas de associação, com os indicadores de saúde. Esses conceitos serão abordados nas próximas aulas. TEMA 4 – EPIDEMIOLOGIA NA ATUALIDADE A microbiologia teve grande participação na epidemiologia, contribuindo com a identificação dos agentes etiológicos e medidas de prevenção e tratamento das doenças infectocontagiosas, possibilitando diminuição expressiva da morbimortalidade, nos séculos XIX e XX (Gomes, 2015). A primeira escola de saúde pública nos Estados Unidos da América, baseada no relatório de Abraham Flexner, em 1910, Medical Education in the United States and Canada, apontou necessidade de mudanças no ensino superior para a medicina, foi inovador e sua importância é reconhecida até os dias atuais. Assim com este modelo de “escola de saúde pública” foi difundido para todo o mundo por meio da Fundação Rockefeller. A epidemiologia tentava ampliar seus conhecimentos para além das doenças infectocontagiosas quando o livro The Principles of Epidemiology, do final dos anos 1920, focou exclusivamente as enfermidades infecciosas. A crise econômica mundial de 1929 trouxe a necessidade de uma abordagem na saúde, e nesse cenário redescobriu-se o caráter coletivo da epidemiologia para organização da saúde. 011 O estabelecimento dos “estados de bem-estar-social” na Europa Ocidental, em especial Inglaterra e França, na organização dos serviços de saúde, uniu a assistência à saúde com as políticas sociais, trazendo para a epidemiologia a necessidade de inovar nas investigações sociais. Nos períodos das guerras mundiais houve grande avanço na realização de grandes inquéritos epidemiológicos para avaliar a saúde física e mental das tropas, especialmente para enfermidades não infecciosas, fazendo surgir novas abordagens de estudos na população. Surgindo na epidemiologia a identificação de indicadores básicos de saúde (prevalência e incidência), conceito de risco e risco relativo, que estudaremos mais profundamente nas próximas aulas. As doenças emergentes e reemergentes impulsionam o estudo epidemiológico mundial, no trabalho em cooperação, conduzido pela Organização Mundial da Saúde, com as grandes diferenças epidemiológicas entre os países, a grande imigração internacional, as transações de produtos e a mobilidade entre as pessoas. Esses fatores propiciam o ressurgimento das doenças reemergentes (cólera, dengue), e o risco de expansão de doenças emergentes (AIDS, H1N1, Ebola) levou a epidemiologia a buscar seu desenvolvimento tentando superar esses novos desafios. TEMA 5 – EPIDEMIOLOGIA BRASILEIRA A epidemiologia brasileira se destaca na atuação nas doenças tropicais e na luta pelo Sistema Único de Saúde. 5.1 Oswaldo Cruz e sua importância para a epidemiologia brasileira A epidemiologia brasileira tem suas raízes nos estudos sobre as doenças tropicais. As condições sanitárias das cidades portuárias, no início da República, eram marcadas pela ocorrência de doenças como: febre amarela, peste bubônica e varíola. Essas condições dificultavam as transações comerciais porque as grandes companhias não queriam expor seus marinheiros às doenças infectocontagiosas. Em 1903 foi nomeado o médico Oswaldo Cruz como Diretor-Geral de Saúde Pública, com a tarefa de sanear a cidade do Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz erradicou a febre amarela utilizando medidas rigorosas, multas e demolições de imóveis insalubres. Em seguida implantou a notificação 012 compulsória dos casos de peste bubônica e combate aos ratos, que incluiu a compra de ratos. Oswaldo obteve sucesso com essas medidas, porém com grande insatisfação da sociedade. No combate à epidemia de varicela, em 1904, Oswaldo Cruz conseguiu aprovar no Congresso a obrigatoriedade da vacinação contra varíola. A forma autoritária como essa vacinação foi imposta provocou uma ampla oposição da população que resultou na Revolta das Vacinas (BUSATO, 2016). Outro grande avanço foi realizado por Carlos Chagas, em 1905, quando conseguiu controlar o surto de malária no interior de São Paulo. O protozoário causador da doença de chagas foi descoberto por Carlos Chagas, e esse protozoário foi nomeadoTrypanossoma cruzi, em homenagem a Oswaldo Cruz. A Fundação Oswaldo Cruz é um importante espaço de ensino, pesquisa e desenvolvimento da epidemiologia brasileira, teve seu início em 1900 como Instituto Soroterápico Federal, com a direção técnica de Oswaldo Cruz. Esse instituto nasceu com o objetivo de promover estudos sobre as doenças por meio da participação dos estudiosos brasileiros da época. A Fiocruz tem 17 unidades técnico-científicas, sendo 11 localizadas no Rio de Janeiro, 5 localizadas em outros estados brasileiros e uma unidade em Maputo capital de Moçambique. Todas as unidades técnico- científicas da Fiocruz desenvolvem programas de pós-graduação stricto sensu, com cursos de doutorado, mestrado acadêmico ou profissional. São 32 programas, inseridos em dez áreas de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e ainda diversos cursos de pós-graduação lato sensu (especialização, aperfeiçoamento, atualização e residência); e de educação profissional, por meio da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). A Fundação possui 19 diferentes cursos com foco na epidemiologia. (Fiocruz, S.d.) 5.2 A saúde coletiva brasileira A Fundação Rockefeller teve papel importante no avanço da epidemiologia no mundo, e no Brasil, como vimos anteriormente, exerceu grande influência na formação do pensamento sanitário. Foi formada a primeira geração de epidemiologistas, dos quais destacamos: Guilherme Rodrigues da Silva, José da Rocha Carvalheiro, Maria Zélia Rouquayrol, Euclides Castilho e Sebastião Loureiro, citados e estudados até hoje. A Organização Pan-Americana (OPAS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), impulsionadas pelo governo norte-americano, empreenderam diversas ações no controle e erradicação de várias doenças. 013 As campanhas de erradicação da varíola na década de 1960 e da poliomielite na década de 1970, a grave epidemia da doença meningocócica contribuíram para consolidar o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica no Brasil (Medronho et al., 2009). A consolidação da epidemiologia no Brasil se mistura com a história da Saúde Coletiva, na década de 1970 foram criados diversos núcleos de saúde coletiva que abrigaram os primeiros epidemiologistas brasileiros. A Saúde Coletiva como campo interdisciplinar engloba a epidemiologia na busca do desenvolvimento de atividades de investigação sobre o estado sanitário da população, a natureza das políticas de saúde, a relação entre processos de trabalho e doenças e agravos, bem como as intervenções de grupos e classes sociais sobre a questão sanitária. Em 1979 foi implantada a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO), que pautou questões de temas de pesquisa, como também a formação e intervenção da epidemiologia. A preocupação dos epidemiologistas passava pela organização do sistema de saúde brasileiro, com engajamento no movimento da Reforma Sanitária que teve seu ápice na VIII Conferência Nacional de Saúde, marco na criação do Sistema Único de Saúde. Ressaltamos que a Constituição Brasileira de 1988 (art. 200, inciso II) explicita a aplicabilidade da epidemiologia por meio das ações da vigilância epidemiológica como uma das competências do Sistema Único de Saúde, mostrando sua importância no contexto da saúde da população e dos sistemas de saúde. Logo após a promulgação da Constituição Federativa do Brasil de 1988 foi elaborado o I Plano Diretor para o Desenvolvimento da epidemiologia no Brasil. O marco da epidemiologia no Brasil aconteceu em 1990 na realização do I Congresso Brasileiro da Epidemiologia e na criação do Centro Nacional de Epidemiologia (CENEPI). A Revista Brasileira de Epidemiologia é publicada pela ABRASCO, traz artigos originais, incluindo resenhas críticas de temas específicos que podem contribuir para o desenvolvimento da Epidemiologia e ciências relacionadas, a revista é indexada na base de dados da Scielo. (ABRASCO, S.d.) 014 FINALIZANDO Iniciamos nesta aula o estudo da Epidemiologia. Pudemos estudar sua história e seu impacto na construção do saber epidemiológico, da antiguidade até os dias de hoje. Tratamos de entender o conceito da epidemiologia. Retornando à contextualização, é apresentada uma matéria jornalística sobre a queda dos registros das doenças causadas pelo Aedes de um ano para outro. Os elementos do conceito da epidemiologia estão presentes na matéria: a estatística mostra os números da diminuição das doenças de um ano para outro, as notificações de dengue, zika e chikungunya, com a investigação dos casos, em que há análise clínica das doenças, e o impacto social, completando assim os três elementos da epidemiologia. Conhecemos a construção da epidemiologia brasileira e sua relação com a construção do Sistema Único de Saúde. 015 REFERÊNCIAS ABRASCO – Associação Brasileira de Saúde Coletiva. Sobre a Revista Brasileira de Epidemiologia. Disponível em: <https://www.abrasco.org.br/site/revistas/revista-brasileira-de-epidemiologia/>. Acesso em: 3 mar. 2018. ALMEIDA FILHO, N.; ROUQUAYROL, M. Z. Introdução à Epidemiologia. 4. ed. rev. e ampliada. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. BARATA, R. B. Epidemiologia social. Rev Bras Epidemiol. v. 8, n. 1, p. 7-17, 2005. BONITA, R.; BEAGLEHOLE, R.; KJELLSTRÖM, T. Epidemiologia básica Tradução e revisão científica: Juraci A. 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