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Universidade Federal Rural do Semiárido
Disciplina: Direito Penal III
Docente: Wallton Souza Paiva
Discente: Ana Carolina Mota Souto
FICHAMENTO – UNIDADE 3
Análise dos arts. 155 a 180 do Código Penal
Art. 155 – FURTO: Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel.
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Verbo núcleo = subtrair; Sujeito ativo = qualquer pessoa, desde que não seja o proprietário ou possuidor da coisa; Sujeito passivo = qualquer pessoa; Objeto material = coisa alheia móvel; Objeto jurídico = patrimônio da vítima; Classificação do crime = comum; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Resta configurado o delito de furto no momento da execução do verbo núcleo “subtrair” – no sentido de tirar do poder de alguém, com o fim de obter para si ou para outra pessoa uma coisa a ela não pertencente, de modo que essa coisa não perca as suas características, nem a sua substância (coisa móvel);
Em virtude da pena, é considerado um crime de médio potencial ofensivo;
É admissível a tentativa;
Obs.: Não configura o delito se o agente pegar a coisa alheia móvel com o intuito de devolvê-la logo em seguida. É essencial que haja a vontade de obter aquela coisa para si ou para outrem (animus furandi). Caso contrário, tal ação é considerada um fato atípico, conhecido doutrinariamente como “furto de uso”. Também não configura o delito de furto a obtenção de: res nullius (coisa de ninguém, que jamais teve dono); res derelicta (coisa abandonada); e res commune omnium (coisa de uso de todos);
§ 1º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é praticado durante o repouso noturno.
 É uma majorante que incide devido a audácia do agente que decide praticar o ato delitivo no momento em que a maioria da população está descansando/dormindo, não importando o fato da vítima estar ou não em repouso ou no ambiente, visto que pode ocorrer em comércios. Ainda, conforme jurisprudência do STJ: “Para a configuração da circunstância majorante do §1º do art. 155 do Código Penal basta que a conduta delitiva tenha sido praticada durante o repouso noturno, dada a maior precariedade da vigilância e a defesa do patrimônio durante tal período e, por consectário, a maior probabilidade de êxito na empreitada criminosa, sendo irrelevante o fato de uma das vítimas não estar dormindo no momento do crime (STJ, HC 331.100/MS, Rel. Min. Ribeiro Dantas, 5ª T., DJe 03/05/2016).”
§ 2º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor a coisa furtada, o juiz pode substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa.
 É uma causa de diminuição de pena a hipótese de incidência do chamado “furto privilegiado”, quando tratar-se de um réu primário que furtou um bem equivalente ao valor de um salário mínimo (pequeno valor). Sendo um direito subjetivo do réu, ao se deparar com esses dois requisitos, o juiz deve optar por uma das alternativas sugeridas no parágrafo.
§ 3º - Equipara-se à coisa móvel a energia elétrica ou qualquer outra que tenha valor econômico.
 O furto de energia ou qualquer outra que possua valor econômico à coisa móvel também faz parte do previsto no tipo penal, estando aqui inclusas a solar, térmica, mecânica, genética entre outras. Ao contrário da coisa móvel corpórea, nessa hipótese o furto possui natureza permanente. Obs.: ainda não é pacífico o entendimento sobre o furto (ou não) do sinal de TV à cabo.
Furto qualificado
§ 4º - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se o crime é cometido:
I - com destruição ou rompimento de obstáculo à subtração da coisa;
 Destruir ou romper indica a hipótese de quebrar, danificar, fazer desaparecer o objeto que está impedindo o agente de obter a coisa almejada, seja estragando antes ou durante a prática do delito (se for após, configurará dano). Esse objeto pode ser um alarme de carro ou de casa, cerca elétrica, vidro de carro, entre outros. O que importa é a sua violação, caso seja apenas desligado/desarmado, assim como seja rompida apenas a própria coisa furtada, não há a incidência dessa qualificadora, 
II - com abuso de confiança, ou mediante fraude, escalada ou destreza;
 Aquele que viola relação de confiança tida com outra pessoa, traindo-a, está abusando da sua posição de credibilidade. Todavia, se o agente estabelece uma relação de confiança para o fim de praticar a subtração, iludindo a vítima, o furto será qualificado pela fraude. A escalada é qualificadora quando o agente utilizar-se desta habilidade de forma incomum, assevera a jurisprudência do TJMG: “A qualificadora da escalada não se caracteriza quando o esforço exigido para a transposição do portão existente no local se revele impossível de gerar um esforço incomum, mormente se o portão é de facílima transposição (TJMG, Ap. 1.0194.06. 056690-9/001, 1ª Câm. Crim., Rel. Judimar Biber, pub. 29/1/2008). E a destreza incide quando o agente utiliza-se de uma habilidade especial sua na prática de um furto, de modo que a vítima não perceba a subtração.
III - com emprego de chave falsa;
 Qualquer chave que não seja a verdadeira, assim como qualquer instrumento que possa abrir fechaduras, é considerado chave falsa. Cabe salientar que “a utilização de chave falsa diretamente na ignição do veículo para fazer acionar o motor não configura a qualificadora do emprego de chave falsa (CP, art. 155, § 4º, III). A qualificadora só se verifica quando a chave falsa é utilizada externamente a res furtiva, vencendo o agente o obstáculo propositadamente colocado para protegê-la (STJ, REsp. 43047/SP, 5ª T., Rel. Min. Edson Vidigal, RT 746, p. 556).
IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.
 A reunião de mais de um agente para a prática de um delito tem maior probabilidade de concretização, por isso a previsão dessa qualificadora. No entendimento do TJRS: “Para o reconhecimento da qualificadora prevista no art. 155, § 4.º, inc. IV, do CP, prescindível que os autores tenham previamente ajustado a prática subtrativa. Basta a prova da participação de duas ou mais pessoas no delito e que estas possuam o completo domínio da ação criminosa” (Ap. Crim. 70060526720-RS, 8.a C. Crim., rel. Naele Ochoa Piazzeta, 13.05.2015, v.u.).
§ 4º-A A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se houver emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum. 
 Maior ainda são as penas mínima e máxima em caso de furto que utilize como meio para a sua concretização ou explosivo ou artefato semelhante que cause perigo comum. Presume-se que a elementar “cause perigo comum” é referente ao artefato análogo, visto que o explosivo já traz um real perigo gravíssimo.
 
§ 5º - A pena é de reclusão de três a oito anos, se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior
 É imprescindível para a incidência dessa qualificadora que o veículo automotor venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. Portanto, se o agente subtrai o veículo sem intentar ultrapassar a barreira do seu Estado ou do país, o furto será apenas simples. Obs.: A lei não deixou explícito se no caso de transporte para o Distrito Federal também se aplica a qualificadora. 
 “Na conduta tipificada no §5º do art. 155 do CP, afigura-se incabível a condenação simultânea pelas qualificadoras previstas no §4º do mesmo artigo (TJMG, Ap. 1.0313. 00.003557-3/001, 4ª Câm. Crim., Rel. Walter Pinto da Rocha, pub. 31/10/2007).”
§ 6º - A pena é de reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos se a subtração for de semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes no local da subtração.
 O semovente domesticável de produção é aquele destinado à pecuária, o gado. Esse parágrafo foi criado por conta do frequente furto de gado, conhecido por abigeato, nos interiores do país, daí ter-se agravado os crimes de furto e receptação de animais e o comércio de carne ilegal. Obs.: Por só prever expressamente essa modalidade de subtração, a lei afasta da sua incidênciaos animais que sejam considerados de estimação.
§ 7º A pena é de reclusão de 4 (quatro) a 10 (dez) anos e multa, se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego.
 A lei qualifica, ainda, a subtração de explosivos ou de acessórios, por sua própria natureza e finalidade, visto que o furto de material explosivo geralmente ocorre para a prática de crimes. Assim, pune-se essa conduta pelos gravíssimos danos que o objeto da ação pode causar;
 “Súmula 511/STJ: É possível o reconhecimento do privilégio previsto no § 2º do art. 155 do CP nos casos de crime de furto qualificado, se estiverem presentes a primariedade do agente, o pequeno valor da coisa e a qualificadora for de ordem objetiva.”
Art. 156 – FURTO DE COISA COMUM: Subtrair o condômino, coerdeiro ou sócio, para si ou para outrem, a quem legitimamente a detém, a coisa comum:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.
§ 1º - Somente se procede mediante representação.
§ 2º - Não é punível a subtração de coisa comum fungível, cujo valor não excede a quota a que tem direito o agente.
Verbo núcleo = subtrair; Sujeito ativo = condômino, coerdeiro ou sócio; Sujeito passivo = condômino, coerdeiro ou sócio na posse legítima da coisa; Objeto material = coisa comum subtraída; Objeto jurídico = patrimônio da(s) vítima(s); Classificação do crime = próprio; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Trata-se de uma modalidade de subtração de coisa pertencente a mais de uma pessoa, sejam elas coproprietárias, sucessoras ou sócias;
O preceito secundário traz a pena cominada a critério do juiz, que pode ser privativa de liberdade ou pecuniária;
Por ser um crime de pequeno potencial ofensivo, o Ministério Público só agirá se houver representação de alguma vítima;
É admissível a tentativa;
“STJ: Mesmo que o fato descrito na exordial caracterize, em princípio, o delito próprio de furto de coisa comum, ao qual o legislador condicionou o processo ao exercício do direito de representação pelos coerdeiros, tal manifestação não exige forma rígida, bastando que a intenção das vítimas seja demonstrada de forma inequívoca. Devem ser consideradas válidas as atitudes dos coerdeiros após o fato delituoso, que demonstraram o firme interesse de que fosse apurada a responsabilidade criminal da paciente, eis que compareceram ao Ministério Público pugnando pela instauração da ação penal e, posteriormente, à Delegacia, onde prestaram depoimento acerca dos fatos. Ordem denegada, cassando-se a liminar anteriormente deferida (HC 60680-PB, 5ª T., rel. Gilson Dipp, 24.04.2007, v.u.)”;
O § 2º pressupõe uma ocasião de fato atípico quando a coisa comum é substituível por outra da mesma espécie, quantidade e qualidade, e o agente subtrai uma parcela que não excede a cota a que tem direito.
ART. 157 – ROUBO: Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência:
 Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
 § 1º - Na mesma pena incorre quem, logo depois de subtraída a coisa, emprega violência contra pessoa ou grave ameaça, a fim de assegurar a impunidade do crime ou a detenção da coisa para si ou para terceiro.
Verbo núcleo = subtrair; Sujeito ativo = qualquer pessoa, desde que não seja o proprietário ou possuidor da coisa; Sujeito passivo = qualquer pessoa; Objeto material = coisa móvel alheia; Objeto jurídico = patrimônio da vítima; Classificação do crime = comum; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
O roubo é um crime complexo, por conjugar o furto (subtração) com o constrangimento ilegal (mediante violência ou grave ameaça);
O preceito primário prevê dois tipos de violência: a própria, que é a violência física praticada pelo agente sobre a pessoa, a fim de obter a coisa pretendida, e a violência imprópria, quando o agente, não usa a violência física, mas utiliza outro meio que reduza a possibilidade de resistência da vítima;
Então, o caput expõe a modalidade de roubo próprio, sendo assim chamada por ocorrer primeiramente uma violência ou grave ameaça e, só posteriormente, a subtração da coisa. Enquanto o §1º traz o “roubo impróprio”, assim chamado devido à inversão na ordem das condutas, ocorrendo quando o agente obtém sucesso com a subtração da coisa, mas, seguidamente, emprega violência ou a grave ameaça para garantir que a empreitada tenha êxito;
É admissível a tentativa;
“Crime de roubo quando a subtração do bem é cometida mediante violência ou grave ameaça. Impossibilidade de desclassificação para o crime de furto. É desnecessário que a violência física perpetrada cause dano à integridade corporal da vítima, sendo suficiente, para a caracterização do roubo, imposição de força física, material ou simples vias de fato capazes de minar a possibilidade de resistência à subtração do bem. Precedentes (STF, HC 107147/MG, Relª Minª Rosa Weber, 1ª T., DJe 3/5/2012).”;
“O delito de roubo, assim como o de furto, consuma-se no momento em que o agente se torna possuidor da coisa alheia móvel, ainda que por poucos instantes, sendo prescindível a posse mansa, pacífica, tranquila e desvigiada do bem. Dessa forma, prevalece, tanto nesta Corte Superior quanto no Supremo Tribunal Federal a teoria da amotio ou apprehensio (STJ, HC 362.436/SP, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, 5ª T., DJe 04/10/2016).”
§ 2º  A pena aumenta-se de 1/3 (um terço) até metade
I – (revogado);                 
II - se há o concurso de duas ou mais pessoas;
Assim como no furto, a reunião de mais de um agente para a prática do delito tem maior probabilidade de concretização, justificando essa previsão normativa. Porém, ao contrário do furto com concurso de pessoas, que qualifica o crime, no roubo tal circunstância aumenta a pena do agente.
“O fato de o crime ter sido cometido por duas pessoas, sendo uma delas menor inimputável, não tem o condão de descaracterizar o concurso de agentes, de modo a excluir a causa de aumento prevista no inc. II do §2º do art. 157 do Código Penal (STF, HC 110425/ES, Rel. Min. Dias Toffoli, 1ª T., DJe 8/8/2012).”
III - se a vítima está em serviço de transporte de valores e o agente conhece tal circunstância.
Para a incidência dessa majorante é imprescindível que, primeiro, a vítima esteja em serviço de transporte de valores pertencentes a terceiro e, segundo, que o agente conheça que a vítima, naquele momento, estava transportando valores. Portanto, se o agente não esse tiver conhecimento sua conduta delituosa será apenas roubo, sem o aumento de pena;
“Em delito de roubo praticado contra funcionário de uma distribuidora de bebidas, que transportava valores pertencentes a esta, não se aplica a majorante do art. 157, § 2º, III, CP, tendo em vista que, nessa hipótese, a função da vítima de transporte de valores é meramente acessória e a causa de aumento de pena em questão exige que esta seja a finalidade específica do seu trabalho (TJMG, Ap. 1.0352.06. 032255-4/001, 5ª Câm. Crim. Rel. Pedro Vergara, pub. 5/4/2008).”
IV - se a subtração for de veículo automotor que venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior;      
Situação também prevista no art. 155 (furto), diferenciando-se apenas na natureza da punição (naquela qualificadora e nesta majorante), evidencia a necessidade de que o veículo automotor venha a ser transportado para outro Estado ou para o exterior. Se o agente subtrai o veículo sem intentar ultrapassar a barreira do seu Estado ou do país, o roubo será apenas simples. 
V - se o agente mantém a vítima em seu poder, restringindo sua liberdade.
Restringir é limitar a liberdade, diferente de privar, que é tirar a liberdade, isso que diferencia tal conduta da extorsão mediante sequestro. Assim, esse roubo majorado acontece quando o infrator restringe a liberdade da vítima para garantir o sucesso da sua empreitada, “largando-a” depois;“A majorante prevista no inc. V do § 2º do art. 157 do CP exige, para a sua configuração, que a vítima seja mantida por tempo juridicamente relevante em poder do réu, sob pena de que sua aplicação seja uma constante em todos os roubos (STJ, AgInt no REsp 1.581.894/DF, Rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., DJe 31/08/2016).”
VI – se a subtração for de substâncias explosivas ou de acessórios que, conjunta ou isoladamente, possibilitem sua fabricação, montagem ou emprego.        
Semelhante ao furto, quando a substância explosiva ou acessórios forem objeto material da subtração o roubo será majorado, não qualificado, visto o perigo gravíssimo que o objeto da ação pode causar.
§ 2º-A  A pena aumenta-se de 2/3 (dois terços):                 
 I – se a violência ou ameaça é exercida com emprego de arma de fogo; 
Importância do emprego de arma de fogo, com um aumento de pena maior do que o do parágrafo anterior. A inserção desse parágrafo exclui a majoração quando qualquer violência for realizada com a utilização de arma branca e, pela revogação do inciso I do parágrafo 2º, a que admitia arma de qualquer natureza. Dessa forma, sendo de brinquedo, sem munição ou simulacro, a arma também não servirá para essa qualificadora.
            II – se há destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum.    
Destruir significa desfazer-se do obstáculo, demoli-lo. Romper é arrombar, cortar, perfurar, deslocar ou forçar, de qualquer modo, o obstáculo, com ou sem dano à substância da coisa. Assim, havendo durante a conduta delituosa a utilização de explosivo como meio para a “destruição ou rompimento de obstáculo mediante o emprego de explosivo ou de artefato análogo”, incide esta majorante.
“Súmula 443/STJ - O aumento na terceira fase de aplicação da pena no crime de roubo circunstanciado exige fundamentação concreta, não sendo suficiente para a sua exasperação a mera indicação do número de majorantes.”
            
§ 3º  Se da violência resulta:                 
 I – lesão corporal grave, a pena é de reclusão de 7 (sete) a 18 (dezoito) anos, e multa; 
II – morte, a pena é de reclusão de 20 (vinte) a 30 (trinta) anos, e multa.
O roubo qualificado pelo resultado se configura pelo dolo na conduta antecedente (roubo) e dolo ou culpa na conduta subsequente (lesão corporal grave ou morte). Dessa forma, é necessário que os resultados sejam provenientes da violência física praticada pelo agente contra a vítima;
É roubo qualificado se durante a conduta do agente resultar lesão corporal de natureza grave, caso seja apenas lesão corporal leve ou vias de fato não incide a qualificadora. Ademais, “o crime de roubo seguido de lesão corporal de natureza grave se consuma com a lesão grave, independentemente da efetiva subtração patrimonial (TJMG, AC 1.0439. 03.023472-8/001, Rel. Alexandre Victor de Carvalho, DJ 1º/9/2007).”
O inciso II trata das hipóteses de latrocínio, crime complexo (roubo + homicídio) considerado hediondo; 
“Prevalece, no Superior Tribunal de Justiça, o entendimento no sentido de que, nos delitos de latrocínio – crime complexo, cujos bens jurídicos protegidos são o patrimônio e a vida, havendo uma subtração, porém mais de uma morte, resta configurada hipótese de concurso formal impróprio de crimes e não crime único (HC 185.101/SP, Habeas Corpus 2010/0170000-5, 6ª T., Rel. Min. Nefi Cordeiro, DJe 16/04/2015).”
Sabe-se que se há a tentativa de roubo seguida da tentativa de homicídio, há o latrocínio tentado, assim como é considerado consumado quando ambas as condutas são consumadas. Porém, quando uma é tentada e a outra é consumada ou vice-versa, a consumação do latrocínio dependerá do resultado morte, ou seja, roubo tentado + homicídio consumado = latrocínio consumado; roubo consumado + homicídio tentado = doutrina majoritária acredita ser latrocínio tentado. Assim, pronunciou-se o STF por meio da Súmula nº 610 – Há crime de latrocínio, quando o homicídio se consuma, ainda que não realize o agente a subtração de bens da vítima.
ART. 158 – EXTORSÃO: Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar de fazer alguma coisa:
        Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa.
Verbo núcleo = constranger; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = qualquer pessoa; Objeto material = pessoa que sofre a violência ou a grave ameaça; Objeto jurídico = patrimônio da vítima, sua integridade física e liberdade; Classificação do crime = comum; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Diferentemente do roubo, a extorsão precisa da atuação/colaboração da vítima sendo coagida a fazer alguma coisa com o fim de obter vantagem econômica indevida para o agente. A ausência dessa finalidade descaracteriza o crime de extorsão, podendo se configurar, por exemplo, como delito de constrangimento ilegal, ou, sendo a vantagem devida, pode configurar exercício arbitrário das próprias razões, a depender de cada caso;
O meio que o agente utiliza ainda é a violência ou a grave ameaça, cabendo evidenciar que a conduta já se consuma com o constrangimento de alguém. Assim, a obtenção da vantagem faz parte apenas da fase de exaurimento da conduta delitiva, segundo Súmula do STJ;
É admissível a tentativa;
“Não é admissível a coautoria após a consumação do crime, salvo se comprovada a existência de ajuste prévio. A pessoa que participa apenas no momento do exaurimento do crime comete crime de favorecimento real, se sabe prestar auxílio destinado a tornar seguro o proveito do crime (STJ, HC 39732/RJ, Rel.ª Min.ªMaria Thereza De Assis Moura, 6ª T., j. 26/6/2007, DJ 3/9/2007, p. 225).”
        § 1º - Se o crime é cometido por duas ou mais pessoas, ou com emprego de arma, aumenta-se a pena de um terço até metade.
Como já abordado, o concurso de pessoas e o emprego de arma (aqui não necessariamente de fogo) tem o condão de facilitar o sucesso da conduta do indivíduo, sendo por isso uma causa majorante de pena;
“Havendo participação de dois ou mais agentes na empreitada delituosa, com liame subjetivo os ligando, impossível expurgar da condenação a qualificadora do concurso de pessoas, não obstante o outro agente ser menor (TJMG, AC 1.0313.02.068254-5/001, Rel. Pedro Vergara, DJ 2/2/2007).”
        § 2º - Aplica-se à extorsão praticada mediante violência o disposto no § 3º do artigo anterior.  
As assertivas sobre as modalidades qualificadas de roubo aplicam-se à extorsão, salvo a extorsão qualificada pelo resultado morte, que não é reconhecida como latrocínio.
§ 3o  Se o crime é cometido mediante a restrição da liberdade da vítima, e essa condição é necessária para a obtenção da vantagem econômica, a pena é de reclusão, de 6 (seis) a 12 (doze) anos, além da multa; se resulta lesão corporal grave ou morte, aplicam-se as penas previstas no art. 159, §§ 2o e 3o, respectivamente.
O conhecido “sequestro relâmpago”, com a previsão da possibilidade de dois resultados qualificadores (lesão grave e morte) – se advier lesão grave, a pena será de reclusão, de 16 a 24 anos; se ocorrer morte, a pena será de reclusão, de 24 a 30 anos;
Salienta-se que a privação da liberdade da vítima deve ocorrer por um tempo razoável e deve ser apenas um meio (condição necessária) para que o agente consiga a obtenção da vantagem econômica.
ART. 159 – EXTORSÃO MEDIANTE SEQUESTRO: Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate:
Pena - reclusão, de oito a quinze anos.
Verbo núcleo = sequestrar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = qualquer pessoa; Objeto material = pessoa que tem sua liberdade privada e pessoa que perde seu patrimônio; Objeto jurídico = patrimônio e liberdade; Classificação do crime = comum; formal; permanente; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
“Sujeito ativo do crime de extorsão mediante sequestro é quem pratica qualquerdos elementos objetivos do tipo: sequestra, comunica o evento e exige o pagamento de resgate, negocia, vigia o refém, vai apanhar o resgate, entre outros (TJPR, AC 0300110-7/Campo Mourão, 3ª Câm. Crim. Rel. Juíza Conv. Lilian Romero, un., j. 19/7/2006).”
“Súmula 96/STJ: Cuidando-se de crime formal, sequestrada a vítima e exigido o resgate, ocorre a consumação, ainda que não se tenha conseguido a vantagem econômica almejada.”
É uma forma qualificada da extorsão, aqui considerada crime hediondo e crime complexo, por envolver figuras típicas como o sequestro e o roubo;
A privação da liberdade desse crime é diferente da referida no art. 148 apenas pela finalidade especial de obter qualquer vantagem;
É admissível a tentativa;
“Para a concretização do crime do art. 159 do CPB é dispensável que a privação da liberdade da vítima seja superior a 24 horas. Tal só se exige para a incidência da qualificadora do § 1º do referido artigo (STJ, HC 86127/RJ, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, 5ª T., DJ 17/3/2008, p. 1).”
 § 1o Se o sequestro dura mais de 24 (vinte e quatro) horas, se o sequestrado é menor de 18 (dezoito) ou maior de 60 (sessenta) anos, ou se o crime é cometido por bando ou quadrilha.
        Pena - reclusão, de doze a vinte anos.
Haja vista o perigo gerado para a vítima, quando a sua privação da liberdade durar mais de 24 horas, o delito é tido como qualificado, assim como nas hipóteses de ser o ofendido menor de idade ou idoso, por possuírem uma maior fragilidade em decorrência de suas idades – obs.: para incidir essa qualificadora a idade da(s) vítima(s) tem que ser conhecida pelo agente. Também, é punida de forma mais severa quando cometido por três ou mais pessoas que se associaram com a finalidade específica de cometer o crime (bando ou quadrilha).
        § 2º - Se do fato resulta lesão corporal de natureza grave:               
        Pena - reclusão, de dezesseis a vinte e quatro anos.  
§ 3º - Se resulta a morte:
        Pena - reclusão, de vinte e quatro a trinta anos.
Esses parágrafos dão um maior enfoque no resultado que a prática do delito tem sobre a vítima (lesão corporal grave ou morte), divergindo do posicionamento adotado no crime de roubo, que se atém ao resultado causado só que pela violência aplicada;
“Restando incontroverso que a intenção dos apelantes era praticar uma extorsão mediante sequestro, com uso de arma de fogo, conforme previamente ajustado entre eles, respondem todos pela morte da vítima, sendo irrelevante a autoria do disparo da arma de fogo ou mesmo o grau de participação deles na execução do crime (TJBA, AC 0302791-65.2011.8.05.0001, DJe 21/11/2013) O crime de extorsão mediante sequestro qualificado pelo resultado morte possui a maior pena cominada na Parte Especial do Código Penal, variando de 24 (vinte e quatro) a 30 (trinta) anos de reclusão, após a modificação levada a efeito pela Lei nº 8.072/1990, que, a seu turno, eliminou a cominação da pena de multa.”
        § 4º - Se o crime é cometido em concurso, o concorrente que o denunciar à autoridade, facilitando a libertação do sequestrado, terá sua pena reduzida de um a dois terços.                    
Hipótese de diminuição de pena quando ocorrer um negócio jurídico entre o infrator que entregar os seus comparsas e o Estado, negócio este comumente chamado de colaboração ou delação premiada. Por isso, é necessário, nesse caso, que o crime tenha sido cometido em concurso de pessoas, que um dos agentes o denuncie à autoridade, e que haja a facilitação da libertação do sequestrado;
“Tendo o agente facilitado a libertação do sequestrado, impõe-se o reconhecimento do benefício previsto no §4º do art. 159 do CP. Quando a revelação do cativeiro não é espontânea, mas, sim, voluntária (após a prisão), a reprimenda é reduzida em grau mínimo (um terço) (TJRJ, AC 2007.050. 00237, 6ª Câm. Crim., Rel. Des. Paulo de Tarso Neves, j. 14/2/2008).”
ART. 160 - EXTORSÃO INDIRETA: Exigir ou receber, como garantia de dívida, abusando da situação de alguém, documento que pode dar causa a procedimento criminal contra a vítima ou contra terceiro:
        Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.
Verbo núcleo = exigir ou receber; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = qualquer pessoa; Objeto material = documento que poderá dar ensejo à instauração de procedimento criminal; Objeto jurídico = patrimônio e liberdade individual; Classificação = comum; formal (quanto ao núcleo “exigir”) e material (quanto à conduta de receber); permanente; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Configura-se extorsão indireta quando o agente exigir ou tão somente receber documento que seja apto a ensejar a instauração de procedimento criminal, desde que exista uma dívida entre o sujeito passivo e o sujeito ativo do presente crime e este último abuse da situação de inferioridade em que se encontra o sujeito passivo, além de ter a finalidade de, por meio do documento exigido, garantir o pagamento do sujeito passivo, sob a ameaça do processo penal;
Assim, é indireta porque o agente indiretamente se vale da situação complicada da vítima para lograr seu objetivo;
É admissível a tentativa;
“Súmula nº 246/STF: Comprovado não ter havido fraude, não se configura o crime de emissão de cheque sem fundos.”;
“TJSE: EMENTA: Restando configurado o abuso da situação da vítima que, diante das dificuldades prementes que a deixou vulnerável - existência de um mandado de busca e apreensão decorrente da falta de pagamento do financiamento do seu veículo, realizou o “empréstimo”, não há porque se modificar a sentença condenatória que reconheceu a materialidade do crime de extorsão indireta; - Apelação Criminal conhecida e improvida. Unanimidade.” (TJSE, AC 2006313644, Câm. Crim., Rel. Des. Manuel Pascoal Nabuco D’Avila, j. 10/4/2007). 
ART. 161 - ALTERAÇÃO DE LIMITES: Suprimir ou deslocar tapume, marco, ou qualquer outro sinal indicativo de linha divisória, para apropriar-se, no todo ou em parte, de coisa imóvel alheia:
Pena - detenção, de um a seis meses, e multa.
Verbo núcleo = suprimir ou deslocar; Sujeito ativo = proprietário e/ou possuidor; Sujeito passivo = proprietário e/ou o possuidor do imóvel no qual são suprimidos ou deslocados os tapumes, marcos ou quaisquer outros sinais indicativos de linha divisória; Objeto material = imóvel que teve suas metragens alteradas; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = próprio; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
O núcleo suprimir está no sentido de eliminar, acabar, destruir tapume, marco ou qualquer sinal indicativo de linha divisória. Ao passo que deslocar é afastar/retirar do lugar o tapume, o marco ou outro sinal indicativo de linha divisória, a fim de que, com isso, o agente, se aproprie, total ou parcialmente, de coisa imóvel alheia;
É admissível a tentativa.
§ 1º - Na mesma pena incorre quem (USURPAÇÃO DE ÁGUAS)
I - desvia ou represa, em proveito próprio ou de outrem, águas alheias;
Verbo núcleo = desviar ou represar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = proprietário do curso das águas; Objeto material = água alheia; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
O verbo “desviar” está no sentido de alterar a direção, e “represar”, no sentido de deter. Ambos tem como finalidade o proveito, para si ou para outrem, das águas alheias, seja de propriedade pública ou privada;
É admissível a tentativa;
“Sendo o delito de usurpação de águas considerado de menor potencial ofensivo, já que punido com pena não superior a 6 (seis) meses de detenção, e multa, a competência para julgar é agora das Turmas Recursais do Juizado Especial Criminal (TJMG, AC 2.0000.00.404126-3/000, Rel. Antônio Armando dos Anjos, DJ 15/11/2003).”
II - invade, com violência a pessoa ou grave ameaça, ou mediante concurso de mais de duas pessoas, terreno ou edifício alheio, para o fim de esbulho possessório (ESBULHO POSSESSÓRIO).
Verbo núcleo = invadir; Sujeito ativo= qualquer pessoa; Sujeito passivo = proprietário do terreno ou edifício; Objeto material = terreno ou edifício alheio; Objeto jurídico = posse e propriedade; Classificação = comum; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Esbulhar é privar alguém de alguma coisa a que tem direito, mediante fraude ou violência;
A invasão visando o desalojamento do proprietário e/ou possuidor do imóvel e utilizando-se da violência contra a pessoa é tipificada penalmente, porém, caso ocorra às escondidas, só será enquadrado no tipo penal se for por meio do concurso de mais de duas pessoas – aqui o concurso não é tido como majorante nem qualificadora do crime;
É admissível a tentativa;
“O fato de o agente permanecer em terras da União, Estados e Municípios é atípico, não sendo possível desclassificá-lo para o delito de esbulho possessório tipificado no artigo 161, II, do Código Penal, uma vez que o tipo deste é o de invadir, com violência à pessoa ou grave ameaça, ou mediante concurso de mais de duas pessoas, terreno ou edifício alheio, para o fim de esbulho possessório (TRF 2ª R., RSE 2004.50.01.008189-7, 2ª T. Especializada, Rel. Des. Fed. André Fontes, j. 24/6/2009, DJU 30/6/2009, p. 42).”
§ 2º - Se o agente usa de violência, incorre também na pena a esta cominada.
Os delitos supracitados, quando praticados com violência contra a pessoa, devem ser punidos em concurso com o delito correspondente à violência cometida.
§ 3º - Se a propriedade é particular, e não há emprego de violência, somente se procede mediante queixa.
Nos casos de alteração de limites, usurpação de águas e esbulho possessório a ação será pública incondicionada. Porém, tratando-se de propriedade privada e não tendo o crime sido cometido com violência, a ação será privada. 
        ART. 162 - SUPRESSÃO OU ALTERAÇÃO DE MARCA EM ANIMAIS: Suprimir ou alterar, indevidamente, em gado ou rebanho alheio, marca ou sinal indicativo de propriedade:
        Pena - detenção, de seis meses a três anos, e multa.
Verbo núcleo = suprimir ou alterar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = proprietário do gado ou rebanho; Objeto material = gado ou rebanho alheio; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Tutelando a posse e a propriedade dos semoventes, o tipo penal incrimina a ação de suprimir (eliminar) e alterar (modificar) um sinal ou marca previamente colocados nos animais para indicar seu proprietário. Assim sendo, se o gado ou rebanho não estiver marcado, aquele que fizer a marcação não responderá pela presente figura típica, podendo ser incriminado por furto qualificado pelo emprego de fraude;
É admissível a tentativa;
“A marca não constitui prova incontestável da propriedade, não só porque há animais não marcados, cuja propriedade ninguém contesta, como outros marcados que podem não pertencer ao dono da marca. A marca simbólica em animais só vale como ‘tomada da posse’, jamais como ‘crimes de propriedade’. Daí a razão pela qual, se forem encontradas letras de duas marcas e a perícia não chega a dizer qual das duas fora alterada, somente mediante a prova efetiva da origem do animal será possível atribuir a propriedade a um ou outro dono da marca (TJMG, Rel. Sebastião Maciel, ADV COAD 150).”;
FALTA JURISPRUDÊNCIA
ART. 163 – DANO: Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
Verbo núcleo = destruir, inutilizar ou deteriorar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = qualquer pessoa que seja proprietário/possuidor da coisa danificada; Objeto material = coisa alheia (móvel ou imóvel); Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; material; instantâneo; comissivo ou omissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Destruir quer dizer eliminar; inutilizar é tornar imprestável alguma coisa aos fins para os quais se destina; deteriorar está no sentido de estragar;
A consumação se dá com a prática do dano efetivo, mesmo que parcialmente. Todavia, não há delito se a coisa não for prejudicada em sua utilidade;
Obs.: O tipo não fala sobre o objetivo de obter vantagem econômica;
É um crime subsidiário, configurando-se somente quando o agente não prática conduta criminosa posterior e mais grave;
É admissível a tentativa;
“STF: Pode ser agente ativo do crime de dano o condômino que danifica dolosamente coisa comum, salvo se a coisa é fungível e o prejuízo não excede o valor da parte a que tem direito o autor do fato (RT 543/433).”
Dano qualificado
Parágrafo único - Se o crime é cometido:
I - com violência à pessoa ou grave ameaça;
O crime é qualificado quando o agente faz uso da violência (lesões corporais ou vias de fato) ou grave ameaça à pessoa como meio para a prática do delito, ou seja, durante a prática ou com o fim de destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia. Portanto, sendo a violência empregada depois da consumação do delito, a qualificadora não se aplica;
É admissível a tentativa.
II - com emprego de substância inflamável ou explosiva, se o fato não constitui crime mais grave;
Exige-se para a incidência da qualificadora que essa atuação seja um meio para atingir o objetivo almejado. Não obstante, trata-se de uma infração de natureza subsidiária – só incidindo se não houver crime mais grave (ex: incêndio, explosão).
III - contra o patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviços públicos;
Visto que mais pessoas são atingidas por essa conduta criminosa, por tratar-se de bem coletivo e não individual, o agente deve responder de forma mais grave pelo prejuízo causado;
“O que se imputa ao paciente, no caso, é a prática do crime de dano, descrito no art. 163, III, do Código Penal, por ter quebrado o vidro da porta do Centro de Saúde localizado em Belo Horizonte em decorrência de chute desferido como expressão da sua insatisfação com o atendimento prestado por aquela unidade de atendimento público. Extrai-se da sentença absolutória que o laudo pericial sequer estimou o valor do dano, havendo certificado, outrossim, o péssimo estado de conservação da porta, cujas pequenas lâminas vítreas foram fragmentadas pelo paciente. Evidencia-se, sob a perspectiva das peculiaridades do caso, que a ação e o resultado da conduta praticada pelo paciente não assumem, em tese, nível suficiente de lesividade ao bem jurídico tutelado a justificar a interferência do direito penal. Irrelevância penal da conduta.” (HC 120580, 2.a T., rel. Teori Zavascki, 30.06.2015, processo eletrônico DJe-157, divulg. 10.08.2015, public. 12.08.2015).”
“Não comete o crime de dano qualificado o detento que, objetivando empreender fuga da cela, serra as grades da mesma, pois o seu objetivo centra-se na conquista da liberdade, faltando, portanto, o dolo específico de causar dano ao patrimônio do Estado (TJMG, AC 1.0525.07.124628-0/001, Rel. Des. Vieira de Brito, DJ 19/6/2009).”
A simples locação da coisa pelo Poder Público não serve para caracterizar a qualificadora prevista no inc. III do art. 163 do Código Penal (STJ, CC 20387/SP, Rel. Min. Vicente Leal, S3, JBC 38, p. 280).
IV - por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima:
Nucci afirma que o motivo egoístico é um particular motivo torpe, que busca satisfazer um capricho ou incentivar um desejo de vingança ou ódio pela vítima. Ao passo que Greco e Sanches entendem que o egoístico não pode ser considerado como aquele motivo que satisfaz simples sentimento pessoal, mas sim os casos em que se prende ao desejo ou expectativa de um ulterior proveito pessoal indireto, seja econômico ou moral. Ademais, quando o crime de dano provoca na vítima um prejuízo de elevado custo, e foi esta a intenção do agente, é necessária uma punição mais grave.
Pena - detenção, de seis meses a três anos, e multa, além da pena correspondente à violência.
 
        ART. 164 - INTRODUÇÃO OU ABANDONO DE ANIMAISEM PROPRIEDADE ALHEIA: Introduzir ou deixar animais em propriedade alheia, sem consentimento de quem de direito, desde que o fato resulte prejuízo:
        Pena - detenção, de quinze dias a seis meses, ou multa.
Verbo núcleo = introduzir ou deixar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = proprietário ou possuidor do lugar onde foram deixados os animais; Objeto material = propriedade alheia (móvel ou imóvel); Objeto jurídico = posse e propriedade; Classificação = comum; material; instantâneo (introduzir) ou permanente (deixar); comissivo ou omissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Para a caracterização do crime é necessário que não só seja deixado animais em propriedade alheia, mas que haja a ausência de consentimento de quem de direito e o consequente prejuízo resultante desses comportamentos;
Sanches ressalta que mesmo que, inicialmente, o agente tenha sido autorizado a introduzir o animal na propriedade alheia, se posteriormente é advertido pelo proprietário para que retire o animal e abandona-o no local está cometendo esse crime;
Não é admissível a tentativa;
“TJPE: Testificada a conduta omissiva do Querelado em adotar providências com vistas a impedir que o seu gado ingressasse na propriedade do Querelante, danificando o cultivo de capim, hortaliças, bem como os equipamentos de irrigação, configurada está a infração penal tipificada no art. 164 do CPB (APL 3322318-PE, 4.a C. Crim., rel. Gustavo Augusto Rodrigues de Lima, 04.03.2015, DJe 16.03.2015).”
“Não há crime de dano e de introdução ou abandono de animais em propriedade alheia sem a intenção dolosa de prejudicar (TJSP, AC 28220, Rel. Olavo Guimarães, RT 185, p. 669).”
        ART. 165 - DANO EM COISA DE VALOR ARTÍSTICO, ARQUEOLÓGICO OU HISTÓRICO: Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa tombada pela autoridade competente em virtude de valor artístico, arqueológico ou histórico:
        Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa.
Verbo núcleo = destruir, inutilizar ou deteriorar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = pessoa jurídica de Direito Público (União, Estado ou Município), o proprietário ou o possuidor do bem merecedor de proteção; Objeto material = coisa tombada (móvel ou imóvel); Objeto jurídico = ordenamento urbano e o patrimônio cultural; Classificação = comum; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Obs.: Este tipo penal foi tacitamente revogado pelo art. 62, I, da Lei nº 9.605 (Lei dos Crimes Ambientais), que regulou inteiramente a matéria que era cuidada pelo Código Penal. Com a tipificação da conduta nos moldes da nova Lei, o aumento da pena, que antes variava de seis meses a dois anos de detenção agora é de um a três anos de reclusão e a previsão da forma culposa antes não era tipificada. Assim, o dispositivo é aplicado apenas nos casos ocorridos durante a sua vigência;
“A legislação brasileira qualifica com a nota de tipicidade penal a conduta daquele que transgride a inviolabilidade do patrimônio artístico, arqueológico ou histórico nacional (CP, arts. 165 e 166). Esses preceitos do Código Penal brasileiro objetivam tomar mais efetiva a proteção estatal destinada a resguardar a integridade do acervo cultural do País (STF, HC 73.499-9, Rel. Celso de Mello, DJ 7/2/1997, p. 1.338).”
“Incabível o reconhecimento de dolo eventual quando o agente desconhecia o bem jurídico protegido, condição que afasta a realização do tipo penal denunciado. O delito de dano exige a consciência e a vontade de destruir, restando impunível a conduta culposa. A prova judicializada não contém elementos para demonstrar que o acusado conhecia a existência de sítio arqueológico no local das obras sob sua responsabilidade. A inexistência de marcos visuais conforta as alegações do réu. Solução absolutória que se impõe (TRF, 4ª Reg., AC 950417622-4/RS, Rel.ª Tânia Escobar).”
        
        ART. 166 - ALTERAÇÃO DE LOCAL ESPECIALMENTE PROTEGIDO: Alterar, sem licença da autoridade competente, o aspecto de local especialmente protegido por lei:
        Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Verbo núcleo = alterar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = Estado e/ou proprietário; Objeto material = local protegido por lei; Objeto jurídico = patrimônio histórico, cultural, ecológico, paisagístico, turístico, artístico, religioso, arqueológico, etnográfico ou monumental do Estado; Classificação = comum; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Assim como o tipo penal anterior, este foi tacitamente revogado pelo art.63 da Lei nº 9.605 (Lei dos Crimes Ambientais). Na nova Lei a pena também sofreu alteração, passando a ser de um a três anos de reclusão, cumulada com a multa;
“O réu, voluntária e conscientemente, alterou a estrutura e o aspecto de local especialmente protegido pelo Patrimônio Histórico e Cultural, realizando obras em imóvel de sua propriedade, em desacordo com a autorização do Poder Público. Impossibilidade de aplicação do princípio da insignificância nos casos que versem sobre a prática, em tese, de crime ambiental, dada a indisponibilidade do bem jurídico tutelado (TRF-1ª Reg., ACR 2006.36.00.003476-1/MT, Rel. Des. Fed. Hilton Queiroz, DJe 18/9/2013).”
“O art. 166 do CP pune os atentados a bens que o Poder Público cumpre proteger em nome dos interesses nacionais e que são coisas tombadas ou aquelas outras que, por seu valor histórico ou predicado artístico, se encontrem, por lei, submetidas à proteção especial da autoridade (TJSP, AC, Rel. Fernando Prado, RT 542, p. 305).”
        Art. 167 - AÇÃO PENAL: Nos casos do art. 163, do inciso IV do seu parágrafo e do art. 164, somente se procede mediante queixa.
São casos de cabimento da ação penal privada, que se procedente mediante queixa: dano simples (art. 163), dano qualificado pelo motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima (art. 163, parágrafo único, IV) e introdução ou abandono de animais em propriedade alheia (art. 164);
“O crime de dano por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima somente se procede mediante queixa, decaindo o direito de ação no prazo de seis meses (TJMG, RESE 106613-3, Rel. Lucena Pereira, RJTAMG 46, p. 437).”
“Não tendo em momento algum tanto a exordial acusatória como os laudos periciais e o v. acórdão condenatório demonstrado se realmente foi utilizada uma substância inflamável ou explosiva, capaz de justificar a imputação de dano qualificado e não de dano simples que, nos termos do art. 167 do Código Penal, somente se procede mediante queixa é de se reconhecer a ilegitimidade ad causam do Parquet (STJ, HC 39377/PB, Rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., DJ 20/3/2006 p. 312).”
        ART. 168 - APROPRIAÇÃO INDÉBITA: Apropriar-se de coisa alheia móvel, de que tem a posse ou a detenção:
        Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Verbo núcleo = apropriar; Sujeito ativo = possuidor ou detentor da coisa alheia; Sujeito passivo = proprietário da coisa; Objeto material = coisa alheia móvel; Objeto jurídico = propriedade; Classificação = próprio; material; instantâneo; comissivo ou omissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
O verbo núcleo “apropriar” está no sentido de tomar para si a coisa, mesmo que temporariamente. Obs.: a coisa deve se achar com o agente, legalmente, antes da apropriação, além disso, a posse ou a detenção exercida pelo agente deve ser desvigiada (confiada sem vigilância).
“O fato de a coisa indevidamente apropriada ser bem fungível não impede a caracterização do crime de apropriação indébita (Precedentes desta Corte e do Pretório Excelso) (STJ, REsp. 880870/PR, Rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., DJ 23/4/2007, p. 307).”
É necessário que o agente tenha o dolo de não devolver a coisa ao dono, e que essa vontade só tenha surgido após a posse ou detenção da coisa;
É admissível a tentativa;
 “Identificar o momento e o local exatos em que se consumou o delito de apropriação indébita reclama, em última instância, a observação do lapso temporal em que houve a exteriorização da inversãodo animus da posse, transformando-a em domínio (STJ, AgInt no HC 353.803/SC, Rel.ª Min.ª Maria Thereza de Assis Moura, 6ª T., DJe 12/05/2016).”
“É assente na jurisprudência desta Corte o entendimento segundo o qual a restituição do bem ou o ressarcimento do dano não são hábeis a excluir a tipicidade do crime ou afastar a punibilidade do agente. Precedentes (STJ, AgRg no AREsp 828.271/SC, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, 6ª T., DJe 03/05/2016).”
        Aumento de pena
        § 1º - A pena é aumentada de um terço, quando o agente recebeu a coisa:
São majorantes devido ao fato de ser mais reprovável ainda o agente que abusa da posição e qualidade especial em que está e pratica tal delito.
 I - em depósito necessário;
Acontece quando o sujeito passivo não tinha outra opção a não ser confiar a coisa ao agente – atribuído no desempenho de função legal ou na ocorrência de calamidades. Por isso, se sua confiança é atraiçoada, deve o sujeito ativo responder mais gravemente pelo que fez.
“STF: Imputação do crime de apropriação indébita. Art. 168, § 1.º, I, do CP. Não devolução de veículo objeto de contrato de compra e venda, depois da desconstituição amigável deste. Fato absolutamente atípico. Caso de mero inadimplemento de obrigação de restituir, oriunda do desfazimento do negócio jurídico. Simples ilícito civil. Inexistência de obrigação original de devolver coisa alheia móvel e, sobretudo, de depósito necessário, inconcebível na hipótese. Caso de posse contratual. Inépcia caracterizada. Absolvição do réu” (AP 480-PR, T. P., rel. Min. Cezar Peluso, 11.03.2010, m.v.).
        II - na qualidade de tutor, curador, síndico, liquidatário, inventariante, testamenteiro ou depositário judicial;
Por serem pessoas que, em regra, recebem coisas de outrem para guardar consigo, necessariamente, até que seja o momento de devolver, gozam de confiança e, ao quebra-la, devem responder mais gravemente pela apropriação.
        III - em razão de ofício, emprego ou profissão.
Casos em que a apropriação é cometida por pessoas que, por conta das suas atividades profissionais, recebem coisas para guardar e devolvê-las futuramente;
“Tendo o acusado recebido a quantia a título de caução devido a sua profissão de corretor de imóveis e proprietário da imobiliária, resta configurada a hipótese de aumento de pena previsto no art. 168, § 1º, inc. III, do Código Penal (TJDF, Rec. 2008.01.1.133848-7, Ac. 434.538, 1ª T. Crim., Rel. Des. Luciano Moreira Vasconcellos, DJDFTE 13/8/2010, p. 172).”
 ART. 168-A - APROPRIAÇÃO INDÉBITA PREVIDENCIÁRIA: Deixar de repassar à previdência social as contribuições recolhidas dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional: [1: As contribuições previdenciárias são espécies de tributos.]
 Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. 
Verbo núcleo = deixar de repassar; Sujeito ativo = pessoa que tem o dever legal de repassar à Previdência Social a contribuição recolhida dos contribuintes; Sujeito passivo = contribuintes; Objeto material = contribuição recolhida; Objeto jurídico = previdência social; Classificação = próprio; material; instantâneo; omissivo; unissubjetivo; unissubsistente;[2: A pessoa jurídica não pode ser punida, somente os seus representantes legais.]
“Na linha da jurisprudência deste Tribunal Superior, o crime de apropriação indébita previdenciária, previsto no art. 168-A, ostenta natureza de delito material. Portanto, o momento consumativo do delito em tela corresponde à data da constituição definitiva do crédito tributário, com o exaurimento da via administrativa (STJ, RHC 36.704/SC, Rel. Min. Felix Fischer, 5ª T., DJe 26/02/2016).”
Os Crimes Previdenciários, diferentemente dos Crimes Contra a Ordem Tributária, estão dispostos no Código Penal, nos quais foram inseridos através da Lei 9.983/2000;
Diversamente do art. 168, que pune quando o agente inverte o ânimo da posse para agir como se fosse o dono do objeto apropriado, o delito do art. 168-A pune a omissão em transmitir ao órgão previdenciário o valor recolhido do contribuinte, seja na previdência pública (oficial) ou na privada;
Portanto, para configurar o presente delito é necessário que: 1) seja praticada a conduta de deixar de repassar à previdência social; 2) contribuições que já tenham sido recolhidas dos contribuintes; 3) no prazo e forma legal ou convencional;
É um crime de competência da Justiça Federal e de ação pública incondicionada;
“O crime de apropriação indébita previdenciária não exige, para sua consubstanciação, a efetiva demonstração do dolo específico de fraudar a previdência social, bastando a ausência de repasse das contribuições descontadas (TRF, 5ª Reg., ACR 2003.84.00.004208-3, Rel. Des. Federal César Carvalho, 1ª T., pub. 28/3/2008).”
 § 1º Nas mesmas penas incorre quem deixar de:
Exposição das modalidades equiparadas à prevista no caput, cominando as mesmas penas ao seu autor. Diferenciam-se somente em relação ao sujeito ativo. 
I – recolher, no prazo legal, contribuição ou outra importância destinada à previdência social que tenha sido descontada de pagamento efetuado a segurados, a terceiros ou arrecadada do público;
Ou seja: o sujeito ativo não repassa à previdência os valores das contribuições devidas pelo segurado;
“O delito previsto no art. 168-A, § 1º , I, do Código Penal, configura-se apenas com o não recolhimento das contribuições previdenciárias, no prazo e forma legais, não sendo necessária a presença do elemento volitivo apropriar-se do montante não recolhido (TRF 1ª R., ACr 2005.35.00.015908-0, GO, 3ª T., Rel. Juiz Fed. Conv. Roberto Carvalho Veloso, j. 29/6/2009, DJF1 30/7/2010, p. 16).”
II – recolher contribuições devidas à previdência social que tenham integrado despesas contábeis ou custos relativos à venda de produtos ou à prestação de serviços;
Aqui tem-se a hipótese do contribuinte (empresário) contabilizar no preço final do produto que comercializa o valor da contribuição devida em razão da manutenção de funcionários, entretanto não faz o devido recolhimento.
 III - pagar benefício devido a segurado, quando as respectivas cotas ou valores já tiverem sido reembolsados à empresa pela previdência social. 
Ocorre quando o contribuinte (empresário) deixa de repassar ao empregado benefício previdenciário já reembolsado pela Previdência Social.
 § 2º É extinta a punibilidade se o agente, espontaneamente, declara, confessa e efetua o pagamento das contribuições, importâncias ou valores e presta as informações devidas à previdência social, na forma definida em lei ou regulamento, antes do início da ação fiscal. 
Além de mostrar arrependimento, por meio da declaração do valor devido (demonstrando o recolhido e não repassado) e a confissão da dívida, o pagamento antes do início da ação fiscal é essencial para a extinção da punibilidade.
 § 3º É facultado ao juiz deixar de aplicar a pena ou aplicar somente a de multa se o agente for primário e de bons antecedentes, desde que:
Cumulando-se as condições do réu ser agente primário e de bons antecedentes, o juiz poderá escolher entre deixar de aplicar a pena (perdão judicial) ou optar pela pena pecuniária, apenas quando nos casos dos incisos o agente:
 I – tenha promovido, após o início da ação fiscal e antes de oferecida a denúncia, o pagamento da contribuição social previdenciária, inclusive acessórios; ou 
 II – o valor das contribuições devidas, inclusive acessórios, seja igual ou inferior àquele estabelecido pela previdência social, administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento de suas execuções fiscais. 
§ 4º A faculdade prevista no § 3º deste artigo não se aplica aos casos de parcelamento de contribuições cujo valor, inclusive dos acessórios, seja superior àquele estabelecido, administrativamente, como sendo o mínimo para o ajuizamento de suas execuções fiscais. 
Não obstante, o legislador entendeu necessário ressaltar que a faculdade do juiz (§ 3º) não deve se enquadrar nos parâmetros do parágrafo§4.
ART. 169 - APROPRIAÇÃO DE COISA HAVIDA POR ERRO, CASO FORTUITO OU FORÇA DA NATUREZA: Apropriar-se alguém de coisa alheia vinda ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza:
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa.
Verbo núcleo = apropriar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = proprietário ou possuidor da coisa; Objeto material = coisa alheia desviada acidentalmente; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; material; instantâneo; comissivo ou omissivo; unissubjetivo; unissubsistente ou plurissubsistente;
Trata-se de uma espécie de apropriação indébita (art.168), visto que “apropriar-se”, mais uma vez, está no sentido de obter para si coisa alheia como se sua fosse. Nesse tipo penal, por mais que tenha sido obtida por erro, caso fortuito ou força da natureza, após tomar conhecimento disso, a pessoa ficar com a coisa, agindo como se dono fosse, o crime se consuma;
Cabe esclarecer o significado de erro no sentido de ser uma falsa percepção da realidade; caso fortuito é um evento acidental; e força da natureza é a energia física e ativa que provoca o ordenamento natural das coisas;
Comete o crime no modo comissivo quando se desfaz o indivíduo da coisa alheia móvel, que veio ao seu poder por erro, caso fortuito ou força da natureza, agindo como se fosse dono, vendendo-a a terceiro. Comete, também, o delito o agente que se recusa a devolver a coisa quando solicitado por seu legítimo dono, praticando conduta negativa;
É admissível tentativa;
“Não há concurso material dos crimes de apropriação de coisa havida por erro com o delito de furto com emprego de fraude, uma vez que para a consecução deste se faz necessário o dolo, a vontade de subtrair a coisa alheia para si ou para outrem, enquanto no caso em tela o sujeito passou a movimentar uma conta poupança, como se esta lhe pertencesse, a partir de erro da própria instituição bancária e da agência dos Correios (TRF, 5ª Reg., Ap. Crim. 3316/PE [2001.83.00.017635-0], Rel. Des. Fed. Paulo Roberto de Oliveira Lima, 3ª T., j. 16/5/2007, DJ 133, p. 626, 12/7/2007).”
Parágrafo único - Na mesma pena incorre:
Apropriação de tesouro
I - quem acha tesouro em prédio alheio e se apropria, no todo ou em parte, da quota a que tem direito o proprietário do prédio;
Aqui o sujeito passivo deve ser o proprietário do prédio onde o tesouro foi achado, e tesouro, nesse sentido, se refere a um conjunto de coisas preciosas ou valiosas; 
A previsão de pena menor possui o mesmo fundamento do caput, qual seja, a inexistência de quebra de confiança, eis que a coisa não chegou ao agente por deliberação do proprietário.
Apropriação de coisa achada
II - quem acha coisa alheia perdida e dela se apropria, total ou parcialmente, deixando de restituí-la ao dono ou legítimo possuidor ou de entregá-la à autoridade competente, dentro no prazo de quinze dias.
Esse achado de coisa alheia perdida só pode ser por acaso. Se intencional, caracterizará furto;
Com ênfase na coisa alheia perdida, é conduta atípica se o agente estiver diante de coisa de ninguém ou coisa abandonada;
“O fato de o animal estar à beira da estrada não significa, tão somente por isso, que se tratava de coisa perdida ou abandonada; ademais, a própria natureza da res furtiva, um animal de criação, isto é, coisa semovente, impede que se possa inferir se trate de coisa perdida. Por outro lado, aquele que encontra coisa perdida tem a obrigação de restituí-la ao dono, ou ao legítimo possuidor, ou, não logrando êxito em localizá-lo, de entregar à autoridade competente, e não simplesmente dela se apoderar para algum tempo para depois, dizendo-se proprietário do animal, vendê-la para terceiro (TJPR, ACR 0394359-7, 3ª Câm. Crim., Rel. Rogério Coelho, pub. DJ 7.502).”
“Condenam-se os réus pelo crime de apropriação de coisa achada (CP 169, parágrafo único, II, do CP), se suas confissões judiciais, confirmadas pelos depoimentos judiciais da vítima e do agente de polícia que os prenderam em flagrante, provam que eles acharam o animal atropelado, na estrada, e que se apropriaram de seus restos mortais, que não lhes pertencia, para fazer um churrasco (TJDF, Rec. 2008.08.1.001107-4, Ac. 438.189, 2ª T. Crim., Rel. Des. Sérgio Rocha, DJDFTE 16/8/2010, p. 415).”
ART. 170 - Nos crimes previstos neste Capítulo, aplica-se o disposto no art. 155, § 2º.
Ao Capítulo V (Da apropriação indébita) aplica-se a causa de diminuição de pena, quando tratar-se de um réu primário que se apropriou de um bem equivalente ao valor de um salário mínimo (pequeno valor). Sendo um direito subjetivo do réu, ao se deparar com esses dois requisitos, o juiz deve optar por substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa.
        ART. 171 - ESTELIONATO: Obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento:
       Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa, de quinhentos mil réis a dez contos de réis.
Verbo núcleo = obter; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = qualquer pessoa; Objeto material = pessoa enganada e bem obtido indevidamente; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
A fraude é o elemento central do estelionato, sendo esse delito identificado pelas partes integrantes da figura típica, quais sejam: a conduta do agente dirigida para a obtenção de vantagem ilícita, em prejuízo alheio (quando o indivíduo perde o que já possuía ou deixa de ganhar o que lhe era devido); ser essa vantagem para o agente ou para terceiro; a vítima ter sido induzida ou mantida em erro; o agente utilizar-se, para isso, de um artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento;
Induz a erro quando o agente cria na vítima uma concepção equivocada da realidade. Porém, se a vítima já tinha incorrido em erro, sem a atuação do agente, mas este sabe que ela tinha entendimento equivocado e, mesmo assim, permite que a situação se mantenha, para obter vantagem ilícita, também comete o crime;
Caso a vantagem obtida seja lícita o agente pode ter seu delito enquadrado em outro tipo penal, como o exercício arbitrário das próprias razões;
Segundo Greco (2017, p. 958), “pode o artifício manifestar-se por vários modos: consistir em palavras, gestos ou atos; ser ostensivo ou tácito; explícito ou implícito; e exteriorizar-se em ação ou omissão.”
A vítima deve ter capacidade para ser iludida, senão ocorrerá abuso de incapazes (art. 173, CP);
É admissível a tentativa;
“Afasta-se a almejada tentativa diante da consumação do crime de estelionato com a obtenção da vantagem, ainda que por curto espaço de tempo (TJMG, AC 1.0223. 06.185651-2/001, Rel. Des. Walter Pinto da Rocha, DJ 3/5/2007).”
 “Não existe diferença entre a fraude civil e a fraude penal. Só há uma fraude. Trata-se de uma questão de qualidade ou grau, determinado pelas circunstâncias da situação concreta. Elas é que determinaram se o ato do agente não passou de apenas um mau negócio ou se neles estão presentes os requisitos do estelionato, caso em que o fato será punível penalmente. Na hipótese em julgamento, a ação do apelante, fingindo intermediar a venda de um imóvel, recebeu grande quantia da vítima. Mais tarde, descoberta a impossibilidade do negócio, fraudou aquela mais uma vez, restituindo-lhe o valor pago com um cheque falso. Situações, sem sombra de dúvida, que mostram a existência do delito do art. 171, caput, do Código Penal, na ação do recorrente (TJRS, Ap. Crim. 70013151618, 7ª Câm. Crim., Rel. Sylvio Baptista Neto, j. 22/12/2005).”
        § 1º - Se o criminoso é primário, e é de pequeno valor o prejuízo, o juiz pode aplicar a pena conforme o disposto no art. 155, § 2º.
Novamente, aplica-se a causa de diminuição de pena, quando tratar-se de um réu primário que se apropriou de um bem equivalente ao valor de um salário mínimo (pequeno valor). Sendo um direito subjetivo do réu,ao se deparar com esses dois requisitos, o juiz deve optar por substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços, ou aplicar somente a pena de multa;
“Esta Corte Superior é refratária à possibilidade de aplicação do princípio da insignificância ao crime de estelionato cometido em detrimento de entidade de direito público (art. 171, § 3º, do Código Penal), haja vista a maior reprovabilidade da conduta, que atenta contra o patrimônio público, a moral administrativa e a fé pública (STJ, AgRg no REsp 1.335.363/ES, Rel. Min. Jorge Mussi, 5ª T., DJe 25/03/2015).”
        § 2º - Nas mesmas penas incorre quem:
        Disposição de coisa alheia como própria
        I - vende, permuta, dá em pagamento, em locação ou em garantia coisa alheia como própria;
Hipótese taxativa de disposição da coisa alheia, que pode ser móvel ou imóvel. Cabe destacar que este inciso não tipifica o mero compromisso de compra e venda. Entretanto, a depender do caso, a conduta do agente poderá caracterizar o previsto no caput;
“Pratica o crime de estelionato aquele que vende como próprio veículo apreendido, registrado em nome de terceiro, cuja posse detinha apenas na condição de depositário fiel (TJMG, ACr. 1.0024.99.110192-4/001, 2ª Câm. Crim., Rel. José Antonino Baía Borges, pub. 15/1/2008).”
        Alienação ou oneração fraudulenta de coisa própria
        II - vende, permuta, dá em pagamento ou em garantia coisa própria inalienável, gravada de ônus ou litigiosa, ou imóvel que prometeu vender a terceiro, mediante pagamento em prestações, silenciando sobre qualquer dessas circunstâncias;
Aqui o objeto material muda, sendo coisa própria não passível de alienação;
Se não houver prova da fraude o crime não é configurado. Dessarte, TJRS: “Caso em que a vítima, mesmo sabedora de que a motocicleta oferecida pelo réu não possuía documentos e estava com o chassi cortado, tendo sido advertida de que ela não poderia trafegar na cidade, assumiu o risco adquirindo o bem pela módica quantia de R$ 510,00. Ausente prova de fraude (elemento normativo do tipo penal constante do art. 171, § 2.º, inciso II, do CP) faz-se impositiva a manutenção da absolvição do apelante (Ap. Crim. 70054622634-RS, 7.a C. Crim., rel. José Conrado Kurtz de Souza, 15.08.2013, v.u.).”
“Oneração fraudulenta de coisa própria. A fraude de que cogita o art. 171, § 2º, II, do Código Penal, pressupõe ignorância do lesado sobre a condição da coisa dada em garantia (STJ, REsp. 906/RS, Rel. Min. Paulo Costa Leite, RSTJ 13, p. 259).”
        Defraudação de penhor
        III - defrauda, mediante alienação não consentida pelo credor ou por outro modo, a garantia pignoratícia, quando tem a posse do objeto empenhado;
O sujeito ativo é o devedor com a posse da coisa empenhada e o sujeito passivo é o credor titular do penhor;
A defraudação, no sentido de tomar um bem de outrem, acontece por meio da alienação do bem ou de qualquer outro modo, desde que seja suficiente para privar o credor do seu direito sobre a garantia pignoratícia;
Rogério Sanches ressalta: “note-se que se a defraudação de coisa for penhorada não configura o inciso III, vez que a penhora, que se destina a servir de garantia à execução, não se confunde com o penhor, que é garantia de débito. Nesta hipótese, duas consequências podem advir: a) se a defraudação da penhora levar o devedor à insolvência, tem-se a prática do crime de fraude à execução (art. 179 do CP); b) se, mesmo com a fraude, ao devedor restam bens aptos a garantir o débito, estar-se-á diante de mero ilícito civil.” (2017, p. 371);
“O delito de defraudação de penhor consuma-se com a alienação dos bens dados em garantia sem a autorização do credor. O dolo necessário para a configuração da figura típica está na ciência inequívoca de que não poderia vender os objetos sem a devida autorização. É irrelevante se o apelante não auferiu vantagem econômica com a venda, podendo ser considerada tal circunstância por ocasião da dosimetria da pena (TJMG, ACR 1.0143.02.001772-7/001, 4ª Câm. Crim., Rel. Eduardo Brum, pub. 9/5/2008).”
        Fraude na entrega de coisa
        IV - defrauda substância, qualidade ou quantidade de coisa que deve entregar a alguém;
Defraudar a substância é alterar a matéria da coisa corpórea, ou a sua qualidade (importa que o objeto entregue seja inferior, pois se for de espécie superior inexiste ilícito penal), ou quantidade (refere-se às medidas - número, peso e dimensões);
Esse dever de entrega é devido a uma obrigação decorrente de lei, contrato ou acordo;
O delito é consumado no momento em que a coisa defraudada é entregue à vítima;
“O estelionato consistente na fraude na entrega de coisa não se configura com a simples defraudação, mas com a efetiva tradição da coisa ao destinatário. Assim, inexistindo esta, responde pelo delito do art. 275 e não do art.171, §2º, IV, ambos do CP, quem monta estabelecimento destinado a encher garrafas de uísque estrangeiro com produto nacional para vendê-las como mercadoria importada (TACrim./SP, AC, Rel. Edmond Acar, JTA.Crim./SP 31, p. 34).”
Fraude para recebimento de indenização ou valor de seguro
        V - destrói, total ou parcialmente, ou oculta coisa própria, ou lesa o próprio corpo ou a saúde, ou agrava as consequências da lesão ou doença, com o intuito de haver indenização ou valor de seguro;
É tipificado quando o agente destrói ou oculta coisa própria, ou quando a conduta é contra sua própria pessoa, causando lesão ao corpo ou à saúde, podendo, também, agravar as consequências da lesão ou da doença. Obs.: o contrato que obriga as partes deve ser vigente e válido à época do emprego da fraude;
“A fraude para recebimento de seguro é crime formal, que não requer a ocorrência de efetivo dano em prejuízo da vítima para sua consumação, o que ocorre pela simples conduta de ocultar (TAPR, Rel. Oswaldo Espíndola, RT 572, p. 383).”
“Punido a título de dolo, esta modalidade equiparada é a única de consumação antecipada (crime formal), perfazendo-se com o emprego da fraude, independentemente do recebimento da indenização (RT 5721383 e 635/389).”
        Fraude no pagamento por meio de cheque
        VI - emite cheque, sem suficiente provisão de fundos em poder do sacado, ou lhe frustra o pagamento.
Colocar em circulação o título de crédito (cheque) ou enganar um credor, fazendo-o achar que conseguirá a sua remuneração, caracteriza o delito desse inciso; 
Salienta-se a necessidade de o agente ter agido dolosamente quando emitiu o cheque;
“Segundo a jurisprudência do Superior Tribunal, a emissão de cheque como garantia de dívida não configura o crime do art. 171, §2º, VI, do Código Penal (estelionato) (STJ, RHC 20600/GO, Rel. Min. Nilson Naves, 6ª T., pub. DJ 25/2/2008, p. 360).”
“Súmula 554/STF: O pagamento de cheque emitido sem provisão de fundos, após o recebimento da denúncia, não obsta ao prosseguimento da ação penal.”
Greco (2017, p.375) afirma que “a conduta do agente que falsifica a assinatura do titular da conta corrente não se subsume ao inciso VI, mas à forma básica do caput, ocorrendo o mesmo no caso em que titular emite o cheque estando a conta já encerrada.”
        § 3º - A pena aumenta-se de um terço, se o crime é cometido em detrimento de entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência.
Essa majorante leva em consideração o sujeito passivo do crime e sua atividade de relevância para a sociedade, seja entidade de direito público ou de instituto de economia popular, assistência social ou beneficência;
“STJ: O aresto objurgado alinha-se a entendimento pacificado neste Sodalício no sentido de que, conquanto o dinheiro sacado das contas de FGTS não seja de propriedade da Caixa Econômica Federal, não há dúvidas de que a sua retirada fraudulenta, de modo antecipado, causa, sim, danos à mencionada empresa pública, que é a responsável por gerir tais quantias, que são vinculadas a programas sociais, cuja implementação fica comprometida, configurando tal conduta,pois, o delito tipificado no art. 171, § 3.º, do Código Penal” (AgRg no AREsp 828.697-SP, 5.a T., rel. Jorge Mussi, 14.06.2016, DJe 22.06.2016).”
Estelionato contra idoso
§ 4o  Aplica-se a pena em dobro se o crime for cometido contra idoso.     
Incidência da majorante sendo pessoa de idade igual ou superior a 60 anos (idosa), desde que conhecida por parte do agente e comprovável por meio de documentação.
ART. 172 - DUPLICATA SIMULADA: Emitir fatura, duplicata ou nota de venda que não corresponda à mercadoria vendida, em quantidade ou qualidade, ou ao serviço prestado. 
 Pena - detenção, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa. 
Verbo núcleo = emitir; Sujeito ativo = quem expede a fatura, duplicata ou nota de venda; Sujeito passivo = qualquer pessoa; Objeto material = fatura, duplicata ou nota sem correspondência à venda ou ao serviço; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = próprio; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; unissubsistente;
Esse crime se consuma no momento em que a duplicata é colocada em circulação, não havendo necessidade de efetivo prejuízo a terceiro;
É inadmissível a tentativa;
 “TJRS: Não há necessidade, pois, de ilusão ou concreto prejuízo às vítimas, eis que o delito de emissão de duplicata simulada é crime formal, bastando, para sua consumação, a emissão do título, o que restou exaustivamente comprovado nos autos (Ap. Crim. 70052266459-RS, 7.a C. Crim., rel. Laura Louzada Jaccottet, 21.11.2013, m.v.)”
“Réu condenado por infringir o art. 172 do Código Penal, depois de ser constatado que emitira duplicatas que não correspondiam a vendas efetivamente realizadas. Reputam-se provadas a materialidade e autoria desse tipo de crime quando a confissão do réu é corroborada por laudo de exame grafotécnico (TJ-DFT, Processo: 20121110024527APR, Rel. Des. George Lopes, DJe 06/07/2016).”
“Se a agente, ao emitir as duplicatas simuladas, objetiva fazer dinheiro e não lesar o patrimônio de terceiro, ausente o dolo antecedente na conduta, pratica o delito previsto no art. 172 do CP, e não o insculpido no art. 171 do CP. Mantém-se a causa genérica de aumento de pena da continuidade delitiva, se comprovada nos autos a emissão de 167 duplicatas simuladas pela agente, mediante ações diversas, contra a mesma vítima, nas mesmas circunstâncias (TJMG, APCr. 1.0702.04.172526-9/0011, Uberlândia, 4ª Câm. Crim., j. 7/4/2010, DJEMG 28/4/2010).”
 
 Parágrafo único. Nas mesmas penas incorrerá aquele que falsificar ou adulterar a escrituração do Livro de Registro de Duplicatas. 
É penalizado o agente que falsificar, inserindo dado inexatos, o livro obrigatório do comerciante - no qual deve escriturar em ordem cronológica as duplicatas emitidas, contendo todos os dados que as possam identificar. 
 
ART. 173 - ABUSO DE INCAPAZES: Abusar, em proveito próprio ou alheio, de necessidade, paixão ou inexperiência de menor, ou da alienação ou debilidade mental de outrem, induzindo qualquer deles à prática de ato suscetível de produzir efeito jurídico, em prejuízo próprio ou de terceiro:
Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa.
Verbo núcleo = abusar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = menor de idade, alienado ou débil mental; Objeto material = menor de idade, alienado ou débil mental abusado; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Consuma-se quando o agente tira vantagem da frágil condição pessoal do menor de idade, alienado ou débil mental fazendo-o praticar qualquer conduta suficiente para gerar efeitos danosos (efeito jurídico) ao patrimônio da vítima;
 “O delito de abuso de incapaz consuma-se com o só ato da vítima, débil mental, de outorgar procuração para a venda de seus bens, embora a mesma não se tenha verificado. Trata-se de crime formal, de conduta e resultado, em que o tipo não exige sua produção. Basta que o ato seja apto a produzir efeitos jurídicos. E é evidente que a procuração por instrumento público é idônea para esse fim (STF, HC, Rel. Carlos Madeira, RT 613, p. 405).”
“Se a prova deixa dúvida se a vítima apresentava debilidade mental, se foi efetivamente induzida a fazer compras para favorecer o agente e se este tinha conhecimento da debilidade do ofendido impõe-se à absolvição do réu, com base no art. 386, VII, do Código de Processo Penal (TJMG, AC 1.0348.07.000732-6/001, Rel. Des. Adilson Lamounier, DJ 17/4/2009).”
ART. 174 - INDUZIMENTO À ESPECULAÇÃO: Abusar, em proveito próprio ou alheio, da inexperiência ou da simplicidade ou inferioridade mental de outrem, induzindo-o à prática de jogo ou aposta, ou à especulação com títulos ou mercadorias, sabendo ou devendo saber que a operação é ruinosa:
Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.
Verbo núcleo = abusar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = pessoa inexperiente, simples ou mentalmente inferiorizada; Objeto material = pessoa inexperiente, simples ou mentalmente inferiorizada; Objeto jurídico = patrimônio da pessoa abusada; Classificação = comum; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Semelhante ao artigo passado, esse delito exige que o agente tire vantagem da frágil condição pessoal dos sujeitos. No entanto, aqui é imprescindível que haja, no mínimo, o conhecimento pelo agente da possibilidade de levar essas pessoas à ruína, mediante a prática de jogo ou aposta, ou especulando-se com títulos ou mercadorias, de forma que lhe traga proveito ou a terceiro;
Consuma-se o delito com a prática da conduta, independentemente do resultado naturalístico que possa ocorrer. Assim, se o sujeito passivo experimentar prejuízo efetivo, trata-se de mero exaurimento e, caso a operação termine lucrativa, o crime não será afastado, visto tratar-se de crime formal;
“O crime de induzimento à especulação, na modalidade de jogo do dedal, é crime formal que se consuma com a prática do ato potencialmente prejudicial, ainda que o fato não acarrete proveito ao agente ou terceiro, podendo haver tentativa quando o processo é interrompido antes de o sujeito passivo efetuar a aposta (TJSC, HC 00.024199-7, Rel. Jaime Ramos, j. 17/1/2001).”
O jogo do perde e ganha é uma das formas de o sujeito abusar, em proveito próprio ou alheiro, da inexperiência, da simplicidade ou da inferioridade mental de outrem, induzindo-a à prática de jogo ou aposta, sabendo ou devendo saber que a operação é ruinosa (TJPE, ACr 134478-5, Recife, 2ª Câm. Crim., Rel.ª Des.ª Helena Caúla Reis, j. 10/5/2006, DJPE 27/5/2006). 
ART. 175 -   FRAUDE NO COMÉRCIO: Enganar, no exercício de atividade comercial, o adquirente ou consumidor:
I - vendendo, como verdadeira ou perfeita, mercadoria falsificada ou deteriorada;
II - entregando uma mercadoria por outra:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.
Verbo núcleo = enganar; Sujeito ativo = comerciante; Sujeito passivo = adquirente ou consumidor; Objeto material = mercadoria falsificada, deteriorada ou substituída; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = próprio; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Difere do art. 171, § 2°, IV, pois neste tipo a conduta deve se dar apenas no exercício de atividade comercial;
Somente se amolda ao delito em estudo a conduta de vender, prevista no inciso I, não sendo típicas condutas de doar, trocar etc;
Se consuma o crime com o engano da vítima, que só pode surtir efeito após a efetiva tradição da mercadoria. Se, por exemplo, a vítima nota o engano, caracteriza-se a tentativa;
A venda de mercadoria falsificada, crendo o comerciante ser verdadeira, não serve para configurar o delito. Assim como acontece quando o vendedor aliena produto danificado pensando não está-lo;
“Para configuração do delito de fraude no comércio exige-se o elemento subjetivo do tipo, consistente na vontade consciente de entregar uma mercadoria por outra. O mero inadimplemento de uma obrigação ou a impontualidade no término de uma obra, em contrato firmado entre as partes, configura ilícito civil e, não ilícitopenal (TJMG, AC 1.0694. 01.000512-2/001, Rel. Pedro Vergara, DJ 2/2/2007).”
“A confiança do consumidor ao adquirir o produto, satisfeitos os requisitos da informação e da qualidade, tem íntima ligação com o objeto de proteção penal, ou seja, a relação de consumo que, devido a sua característica difusa e de interatividade com outros valores como a vida, o patrimônio, a saúde e a honra que podem ser, em certa medida, objetos de consumo, por sua vez, obedece ao critério de seletividade de bens jurídico-penais, não se chocando, pois, com os ideais do Minimalismo Penal (TJMG, AC 1.0024.01. 601264-3/001, Rel. Des. Alexandre Victor de Carvalho, DJ 6/10/2007).”
§ 1º - Alterar em obra que lhe é encomendada a qualidade ou o peso de metal ou substituir, no mesmo caso, pedra verdadeira por falsa ou por outra de menor valor; vender pedra falsa por verdadeira; vender, como precioso, metal de ou outra qualidade:
Pena - reclusão, de um a cinco anos, e multa.
São previstas ações nucleares diversas da anterior;
É a modalidade qualificada da fraude no comércio, visto ser penalizada mais rigorosamente e devido às quatro condutas elencadas serem tidas como mais graves.
    
  § 2º - É aplicável o disposto no art. 155, § 2º.
Prevê o parágrafo a possibilidade de aplicação do disposto acerca do furto privilegiado, que permite a redução da pena ou aplicação somente de multa, nos casos em que o agente é primário e é de pequeno valor o objeto material.
ART. 176 - OUTRAS FRAUDES: Tomar refeição em restaurante, alojar-se em hotel ou utilizar-se de meio de transporte sem dispor de recursos para efetuar o pagamento:
Pena - detenção, de quinze dias a dois meses, ou multa.
Parágrafo único - Somente se procede mediante representação, e o juiz pode, conforme as circunstâncias, deixar de aplicar a pena.
Verbo núcleo = tomar, alojar, utilizar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = prestador do serviço; Objeto material = pessoa que presta o serviço e deixa de receber a remuneração devida; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Previsão de três crimes no mesmo tipo penal, que ocorrem sem o agente dispor de recursos para efetuar o pagamento;
Os termos “restaurante”, “hotel” e “meios de transporte” devem ser considerados em sentido amplo, ou seja, abrangendo outros lugares e meios de transporte, respectivamente; 
Sanches (2017, p. 395) nota que “se o agente encomenda a refeição para ser entregue em local diverso, em que pese o pagamento posterior, não incorrerá no delito em estudo, podendo configurar, conforme o caso, o estelionato”, haja vista o transporte especificar que a conduta deve ser realizada no local especificado (restaurante ou hotel);
Em todas as três modalidades, deve o agente faltar ao pagamento por inexistência de recursos disponíveis, consistindo a fraude no silêncio quanto a esta circunstância;
É admissível a tentativa;
Por tratar-se de crime de menor potencial ofensivo, a pena culminada é menor e a ação penal será pública condicionada à representação do ofendido;
“Cheques de terceiros, em pagamento de despesas de bebidas e alimentos. Condutas que mais se afeiçoam ao disposto no art. 176 do CP (TJRS, Ap. Crim. 70007018583, 6ª Câm. Crim., Rel. Paulo Moacir Aguiar Vieira, j. 15/9/2005).” 
“Aquele que, após consumir refeição, se retira do estabelecimento sem pagar a conta terá cometido mero ilícito civil, ou o crime do art. 176 do CP se agiu com dolo preordenado, a que deve se referir a denúncia, jamais, porém, a infração do art.171, se o recebimento ou vantagem não for precedido de qualquer ardil (TACrim./SP, AC, Rel. Adauto Suannes, RT 569, p. 338).”
ART. 177 - FRAUDES E ABUSOS NA FUNDAÇÃO OU ADMINISTRAÇÃO DE SOCIEDADE POR AÇÕES: Promover a fundação de sociedade por ações, fazendo, em prospecto ou em comunicação ao público ou à assembleia, afirmação falsa sobre a constituição da sociedade, ou ocultando fraudulentamente fato a ela relativo:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa, se o fato não constitui crime contra a economia popular.
Verbo núcleo = promover; Sujeito ativo = fundador da sociedade por ações; Sujeito passivo = qualquer pessoa (física ou jurídica) que integre o quadro acionário da sociedade; Objeto material = prospecto ou a comunicação feita ao público ou à assembleia que contenha a afirmação falsa sobre a constituição da sociedade ou mesmo a omissão fraudulenta; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = próprio; formal; instantâneo; comissivo ou omissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
São duas as formas de executar o crime: 
promover a fundação fazendo afirmação falsa acerca da constituição da sociedade: quando o agente, no ato da fundação da sociedade, divulga dados inverídicos a respeito da empresa, como o valor do capital investido e seu respectivo retorno; o ramo de atividade para o qual foi criada; o seu quadro societário majoritário, envolvendo o nome de pessoas que desfrutam de elevado conceito no ramo empresarial etc.;
promover sua fundação ocultando fraudulentamente fato relativo à mencionada sociedade, com o intuito de atrair número maior de investidores em ações: o fundador, no ato da criação da sociedade, não divulga aos futuros investidores as reais características da empresa, omitindo dados relevantes, com a consequente indução dos pretensos acionistas em erro. Obs.: Trata-se de modalidade omissiva própria.
Se a afirmação ou a ocultação recaírem sobre elementos irrelevantes, periféricos, não configura esse crime;
Observar a ressalva expressa de que somente se aplicará o disposto no Código Penal se o fato não constitui crime contra a economia popular (tipo penal subsidiário);
“O paciente responde por crime de fraude na administração de sociedade por ações, cujo tipo penal exige, para sua configuração, a atuação específica do gerente ou diretor da empresa. Estando ele afastado das atividades que exercia, e também da empresa, deixa de haver necessidade de segregação preventiva como garantia de ordem pública, por não existir risco de voltar a praticar novos crimes dessa espécie (TJDFT, HC, Rel.ª Aparecida Fernandes, DJ 27/10/99).”
§ 1º - Incorrem na mesma pena, se o fato não constitui crime contra a economia popular:  
I - o diretor, o gerente ou o fiscal de sociedade por ações, que, em prospecto, relatório, parecer, balanço ou comunicação ao público ou à assembleia, faz afirmação falsa sobre as condições econômicas da sociedade, ou oculta fraudulentamente, no todo ou em parte, fato a elas relativo;[3: Prospecto é o documento previsto pela Lei nº 6.404/1976. Relatório, segundo Hungria, “é o compte rendu dos negócios sociais no exercício findo. Parecer, no sentido restrito da lei, é a exposição que deve ser apresentada pelo ‘conselho fiscal’ [...]. Balanço é o documento em que se resume, ao fim de cada ano ou exercício social, após o inventário do ativo e passivo, a situação real da sociedade”.]
Aqui a sociedade já está constituída e os agentes apontados pelo tipo penal afirmam falsamente sobre as condições econômicas da sociedade ou ocultam, fraudulentamente, no todo ou em parte, fato a ela relativo, utilizando, para tanto, prospecto, relatório, parecer, balanço, ou qualquer outro tipo de comunicação ao público ou à assembleia;
Admite tentativa.
II - o diretor, o gerente ou o fiscal que promove, por qualquer artifício, falsa cotação das ações ou de outros títulos da sociedade;
Conduta realizada com o objetivo de fomentar mercado fictício de ações ou outros títulos da sociedade, promovendo sua falsa cotação;
Crime que só pode ser praticado em relação a empresas cujos títulos tenham cotação regular no mercado de ações, na medida em que somente estes podem ser objeto de cotação falsa ou correta;
Admite tentativa.
III - o diretor ou o gerente que toma empréstimo à sociedade ou usa, em proveito próprio ou de terceiro, dos bens ou haveres sociais, sem prévia autorização da assembleia geral;
Não pode o diretor ou o gerente abusar da posiçãode poder que possui para utilizar os bens e haveres sociais em seu benefício, mesmo que não causem, efetivamente, qualquer tipo de prejuízo à sociedade;
Difere do crime de apropriação indébita em razão do animus do agente. No presente delito ocorre tão somente o empréstimo ou uso indevido do bem pertencente à sociedade, enquanto naquele, o agente quer se apropriar, agindo como se dono fosse;
A ação de usar não admite tentativa, ao passo que o empréstimo admite.
IV - o diretor ou o gerente que compra ou vende, por conta da sociedade, ações por ela emitidas, salvo quando a lei o permite;
A conduta se consubstancia na compra e venda, pela sociedade, das ações de sua própria titularidade, o que é, em regra, vedado por lei (art. 30 da Lei 6.404/76). Qualquer transação capitaneada pela sociedade, envolvendo suas ações, capaz de produzir efeitos econômicos, é tratada como compra e venda, podendo ensejar a ocorrência do delito em estudo. Nos casos em que a lei permitir a negociação, considera-se excluída a tipicidade, afastando a incidência do tipo penal.
V - o diretor ou o gerente que, como garantia de crédito social, aceita em penhor ou em caução ações da própria sociedade;
Noronha trabalha a finalidade dessa norma afirmando: “que a sociedade venha a receber, como garantia de crédito que possui, ações dela mesma. Seria, então, credora e fiadora ao mesmo tempo, o que é inadmissível”;
Claro que para haver o delito, é imprescindível que a sociedade tenha crédito contra acionista ou contra terceiro, e que, como garantia desse crédito, o diretor ou o gerente aceite ações da própria sociedade.
VI - o diretor ou o gerente que, na falta de balanço, em desacordo com este, ou mediante balanço falso, distribui lucros ou dividendos fictícios;
Nas palavras de Sanches (2017, p. 404), “na sociedade por ações, o lucro é apurado de acordo com a realização do balanço e, portanto, a distribuição dos dividendos somente ocorrerá com base no resultado deste último. O repasse de dividendos sem a existência de lucro induz o investidor a acreditar que a sociedade prospera economicamente, quando na verdade pode ocorrer o contrário;
A consumação ocorre com a efetiva distribuição (entrega) dos lucros ou dividendos fictícios;
A tentativa é admitida.
VII - o diretor, o gerente ou o fiscal que, por interposta pessoa, ou conluiado com acionista, consegue a aprovação de conta ou parecer;
José Henrique Pierangeli explica: “a prática do crime se realiza mediante duas condutas: a primeira é de pessoa, a quem os administradores ou o fiscal cedem suas ações para que o cessionário vote na assembleia geral em seu favor; a segunda consiste em corromper acionistas, pessoas que têm direito a voto, para que votem de conformidade com o desejado pelos administradores ou fiscal. Mas há burla também quando ocorre aliciamento de acionista verdadeiro, isto é, autêntico, que mediante suborno vota pela aprovação de ditas contas.”;
“A transferência de ações entre acionistas, feita e registrada regularmente, é operação legítima, desprovida de ilicitude penal, uma vez que constitui títulos representativos de frações do capital social, negociáveis e transmissíveis, nominalmente ou ao portador. A sociedade controladora, através de seus representantes legais, exerce, nas assembleias da sociedade controlada, o direito de voto condizente com suas próprias ações e, à míngua de infração criminal, ao direito civil concerne resolver litígios derivados de responsabilidade por eventuais prejuízos causados ao conjunto de acionistas (STJ, HC 58.052/SP, 6ª T., Rel. Min. Paulo Medina, pub. DJ 2/4/2007, p. 310).”
VIII - o liquidante, nos casos dos ns. I, II, III, IV, V e VII;
No caso de liquidação da sociedade, cessam as atribuições dos sócios gerentes ou administradores, assumindo a figura do liquidante. No exercício dessa atividade, tendo a mesma responsabilidade do administrador, pode cometer os crimes previstos nos incisos anteriores, com exceção do VI (a situação de liquidação da sociedade é incompatível com a distribuição de lucros e dividendos).
IX - o representante da sociedade anônima estrangeira, autorizada a funcionar no País, que pratica os atos mencionados nos ns. I e II, ou dá falsa informação ao Governo.
As condutas puníveis previstas nos incisos I e II, assim como a previsão do caput, aplicam-se ao dirigente de sociedade anônima estrangeira autorizada a operar no Brasil. Além do patrimônio dos acionistas, busca-se assegurar a veracidade das informações que devem ser prestadas ao Poder Público brasileiro.
§ 2º - Incorre na pena de detenção, de seis meses a dois anos, e multa, o acionista que, a fim de obter vantagem para si ou para outrem, negocia o voto nas deliberações de assembleia geral.
É a chamada “negociação de voto”, que tem por finalidade punir aquele que, fraudulentamente, busca obter vantagem para si ou para outrem em detrimento dos demais acionistas e da sociedade.
ART. 178 - EMISSÃO IRREGULAR DE CONHECIMENTO DE DEPÓSITO OU “WARRANT”: Emitir conhecimento de depósito ou warrant, em desacordo com disposição legal:[4: São títulos de garantia, emitidos por uma empresa encarregada da guarda e conservação de mercadorias.]
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.
Verbo núcleo = emitir; Sujeito ativo = depositário da mercadoria, obrigado a emitir os títulos de crédito; Sujeito passivo = pessoa detentora do título; Objeto material = título de crédito emitido irregularmente; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = próprio; formal; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; unissubsistente;
O conhecimento de depósito afirma a propriedade da mercadoria, atribuindo ao seu titular disponibilidade sobre a mesma. Ao passo que o warrant é título de garantia real, que assegura ao portador a possibilidade de instituir penhor sobre a mercadoria;
A punição ocorre em razão da natureza negociável dos títulos que, uma vez emitidos, circulam representando valores que proporcionam crédito ao seu titular;
Consuma-se com a emissão, que garante a efetiva circulação dos títulos, independentemente dos prejuízos dela decorrentes;
Não admite tentativa;
“Planejando e executando estelionato, constante na emissão irregular de um conhecimento de depósito e warrant, inexistindo a respectiva mercadoria no armazém, incidem os acusados no delito previsto no art.178 do Código Penal (TJSP, AC 130787, Rel. Weis de Andrade, RT 501, p. 265)”
“O conhecimento de depósito e o warrant são títulos emitidos conjuntamente, com possibilidade de sua separação e circulação mediante endosso, que poderá ser apenas de um deles ou de ambos, sendo que, nesta última hipótese, o endossatário possui pleno direito de disposição da mercadoria armazenada (TJMG, AI 1.0035.07.096680-5/001, 17ª Câm. Crim., Rel. Eduardo Mariné da Cunha, pub. 21/8/2007).”
ART. 179 - FRAUDE À EXECUÇÃO: Fraudar execução, alienando, desviando, destruindo ou danificando bens, ou simulando dívidas:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.
Parágrafo único - Somente se procede mediante queixa.
Verbo núcleo = fraudar; Sujeito ativo = devedor em ação de execução; Sujeito passivo = credor (exequente); Objeto material = bens alienados, desviados, destruídos ou danificados; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = próprio; material; instantâneo; comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Quando o credor é impedido de obter o que é seu por direito devido à uma manobra ardilosa do devedor/agente que busca se desfazer de seu patrimônio ou simular que o fez, no intuito de se livrar do ônus que lhe é inerente;
A conduta só diz respeito a fraudar processo de execução judicial, assim não se aplicando às demais ações constantes do processo de conhecimento e do processo cautelar;
Sanches (2017, p. 409) lembra que “o crime admite a modalidade omissiva, como nos casos em que o agente tem o dever de tomar as cautelas necessárias à conservação do bem (art. 13, § 2°, do CP) e permite que este pereça, no intuito de evitar o sucesso da execução.”;
“Responde pelo delito do art.179 do CP de 1940 o executado que, embora nomeado depositário, dá mau destino aos bens penhorados (RT 595, p. 378).”
“Consoante entendimento jurisprudencial, ‘não se caracteriza a fraude à execução quando a alienação do bem ocorre antes da citação do devedor nos autos do executivo fiscal’. (Precedente: STJ, AgRg. no AREsp. 372.264/MG, Rel. Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, DJe 30/9/2013).[AC 0005958- 02.2006.4.01.3812/MG, Rel. Desembargador Federal Luciano Tolentino Amaral, Sétima Turma, e-DJF1 p.2184 de 9/5/2014] (TRF-1ª Reg., AC 2004.41.00.001923-4/RO, Rel. Des. Fed. Jirair Aram Meguerian, DJe 18/8/2014).”
ART. 180 – RECEPTAÇÃO: Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte:
Pena - reclusão, de um a quatro anos, e multa.    
Verbo núcleo = adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, influir; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = proprietário ou possuidor da coisa produto de crime; Objeto material = coisa que sabe ser produto de crime; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; formal; instantâneo (adquirir, receber) ou permanente (transportando, conduzindo ou ocultando a coisa); comissivo ou omissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;[5: Nucci ressalva “não se inclui nesse conceito o instrumento utilizado para a prática do crime. Se alguém ocultar, por exemplo, um revólver para proteger o criminoso, responde por favorecimento real, e não por receptação.”]
É um crime único;
É um tipo misto alternativo e, ao mesmo tempo, cumulativo, pois adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar coisa originária de crime são condutas alternativas, o mesmo ocorrendo com a influência sobre terceiro para que adquira, receba ou oculte produto de crime. Mas se o agente praticar condutas dos dois blocos fundamentais do tipo, estará cometendo dois delitos;
É formado por duas condutas autonomamente puníveis: a primeira é a receptação própria –formada pela aplicação alternativa dos verbos adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, tendo por objeto material coisa produto de crime. Nesse caso, tanto faz o autor praticar uma ou mais condutas, pois responde por crime único. A segunda é denominada receptação imprópria, sendo formada pela associação da conduta de influir alguém de boa-fé a adquirir, receber ou ocultar (encobrir ou disfarçar) coisa produto de crime. Deve ser ressaltado, no que diz respeito à receptação imprópria, que não foram inseridos os núcleos transportar e conduzir, tal como ocorreu com a receptação própria;
A doutrina considera admissível a tentativa apenas na receptação própria.;
A expressão “produto de crime” tem um sentido amplo, abrangendo tudo aquilo que for originário economicamente do delito levado a efeito anteriormente;
Greco (2017, p. 1032) nota que “não poderá ser considerado objeto material da receptação coisa que seja produto de contravenção penal, pois a lei exige a prática de um crime anterior”;
“Para que se consume o delito de receptação basta o mero ‘transporte’ da coisa, não sendo necessário o exaurimento da conduta (TJPR, ACr 0390033-2, 3ª Câm. Crim., Rel. Rogério Kanayama, j. 14/2/2008).”
“TJMG: Havendo provas contundentes de que o réu tinha ciência de tratar-se os bens adquiridos de produtos de crimes, mormente pelas circunstâncias que envolveram a ação delitiva, imperiosa a sua condenação pelo delito tipificado no art. 180, caput, do Código Penal. A mera alegação de desconhecimento da origem ilícita da res não é hábil à absolvição, pois aquele que compra itens sem nenhuma precaução autoriza o entendimento de que sabia da sua origem ilícita ou irregular, ainda mais quando deixa de apresentar informações e documentos comprobatórios de que os adquiriu legitimamente (Ap. Crim. 1.0145.13.038507-6/001-MG, 6.a C. Crim., rel. Jaubert Carneiro Jaques, 31.03.2015).”
“A consumação no crime de receptação se dá no local em que perpetrados os atos de aquisição, recebimento ou ocultação do bem (Precedentes) (STJ, HC 21732/SP, Rel. Hamilton Carvalhido, 6ª T., DJ 17/2/2003, p. 374).”
“O Superior Tribunal de Justiça há muito firmou sua jurisprudência no sentido de que ‘talonário de cheques e cartão de crédito não podem ser objeto de receptação, por não possuírem, em si, o valor econômico indispensável à caracterização de crime contra o patrimônio’ (REsp. 256.160/DF, Rel. Min. Fernando Gonçalves, 6ª T., DJ de 15/4/2002). Precedentes (STJ, HC 86267/SP, 5ª T., Rel. Min. Arnaldo Esteves Lima, DJ 5/11/2007, p. 338).”
Receptação qualificada
§ 1º - Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito, desmontar, montar, remontar, vender, expor à venda, ou de qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade comercial ou industrial, coisa que deve saber ser produto de crime:            
Pena - reclusão, de três a oito anos, e multa.
Trata-se de crime próprio, já que somente pode ser praticado por quem exerça atividade comercial ou industrial, por isso o maior juízo de reprovação;
A doutrina discute a natureza da expressão “deve saber” contida no tipo. Para uns (minoria), trata-se somente de dolo eventual e, consequentemente, aquele que sabe (dolo direto) responde simplesmente pelo caput, modalidade menos rigorosa. Para outros (maioria), a expressão “sabe” está contida naquela (deve saber), pois, se o legislador pretende punir mais severamente o agente que deveria ter conhecimento da origem criminosa do bem, é óbvia sua intenção em punir também aquele que possui conhecimento direto sobre a proveniência da coisa. Os Tribunais Superiores têm decisões em ambos os sentidos;
“Para que se configure a receptação dolosa qualificada, basta a prova de que o agente, no exercício de atividade comercial, tenha adquirido e exposto à venda objeto o qual deveria ter consciência da procedência ilícita. A jurisprudência vem entendendo que, em se tratando de crime de receptação, a apreensão de bens em poder do acusado inverte o ônus da prova, impondo-lhe o dever de prestar cabal explicação que justifique o fato, a fim de elidir o dolo caracterizador do tipo. Não tendo o acusado comprovado ser de outro o bem ilícito apreendido, resta demonstrada a autoria e a materialidade da receptação qualificada, bem como o dolo caracterizador do tipo. Tratando-se de receptação qualificada (art. 180, § 1º, CP), a solução mais razoável é aplicar a sanção prevista no caput do artigo 180, do Código Penal, em respeito aos princípios da harmonia e da proporcionalidade. Enquanto o delito de receptação previsto no caput do artigo 180 do CP exige o dolo direto do agente, impondo a pena de 1 a 4 anos de reclusão e multa, a receptação qualificada, disposta no § 1º do referido dispositivo legal, prevê o dolo eventual ao dispor a elementar deve saber, cuja pena cominada é de 3 a 8 anos de reclusão e multa. Dessa forma, o legislador impôs pena mais elevada ao fato de menor gravidade, o que fere os princípios da harmonia e da proporcionalidade. Pena reduzida (TJES, ACr 35080131242, 1ª Câm. Crim., Rel.ª Des.ª Subst. Heloisa Cariello, DJES 12/8/2010, p. 252).”
“A atividade comercial irregular ou clandestina também integra o tipo do parágrafo 1º do art. 180 do Código Penal (STJ, EDcl no HC 33603/SP, Rel. Min. Hamilton Carvalhido, 6ª T., DJ 17/4/2006, p. 208).”
“Consoante consignado no Tribunal a quo “[...] embora necessária a comprovação do dolo para caracterização do delito em comento, para a sua verificação não se faz imprescindível que o agente tenha ciência da origem ilícita do bem, visto que, na modalidade qualificada, basta que as circunstâncias fáticas e suas condições pessoais (proprietário de uma construtora) demonstrem ter ele condições de saber que o bem adquirido tratava-se de produto de crime. (STJ, HC 342.963/SC, Rel. Min. Nefi Cordeiro, 6ª T., DJe 23/08/2016).”
§ 2º - Equipara-se à atividade comercial, para efeito do parágrafo anterior, qualquer forma de comércio irregularou clandestino, inclusive o exercício em residência.   
Finalidade de ampliar o conceito de atividade comercial ou industrial, abrangendo qualquer forma de comércio, mesmo os irregulares ou clandestinos, ainda que praticados em residência. Com essa última indicação, buscou-se amoldar também ao comportamento típico as conhecidas “oficinas de fundo de quintal”, cujas atividades ilícitas são levadas a efeito na própria residência do agente.;
“Para a receptação qualificada basta prova de que o agente exercia qualquer forma de comércio, ainda que irregular ou clandestino, inclusive o exercido em residência, na forma do art. 180, § 2º, do Código Penal (TJMG, AC 1.0002.04. 001968-5/001, Rel. Judimar Biber, DJ 17/8/2007).”
 
§ 3º - Adquirir ou receber coisa que, por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço, ou pela condição de quem a oferece, deve presumir-se obtida por meio criminoso:          
Pena - detenção, de um mês a um ano, ou multa, ou ambas as penas.
Observar os núcleos “adquirir” e “receber”. Além disso, para que se possa concluir pela receptação culposa, a coisa adquirida ou recebida pelo agente deve presumir-se obtida por meio criminoso dadas: a sua natureza; a desproporção entre o valor e o preço; a condição de quem a oferece;
“Comprar bens em local onde se sabe que grande parte deles ali vendidos e/ou trocados é proveniente de atividade criminosa não caracteriza, por si só, a prática de receptação dolosa prevista no art. 180, caput, do CP. Mais das vezes caracteriza apenas a conduta culposa prevista no § 3º do mencionado artigo (TJBA, ACR 2007306655, Rel. Des. Netônio Bezerra Machado, j. 20/5/2008).”
“A condição de quem ofereceu a mercadoria, dois desconhecidos, a forma como estavam acondicionados e a desproporção entre valor e preço pago permitiam ao acusado, ainda que seja pessoa pobre e de reduzida instrução, presumir a origem ilícita (RecCrim. 710013 44662, Turma Recursal Criminal, Rel.ª Angela Maria Silveira, j. 27/8/2007).”
§ 4º - A receptação é punível, ainda que desconhecido ou isento de pena o autor do crime de que proveio a coisa.      
O crime de receptação é autônomo, não dependendo, para sua concretização, de anterior condenação do autor do crime que deu origem à coisa adquirida. Portanto, não há necessidade de que o delito antecedente tenha sido objeto de apuração em processo próprio. Entretanto, como faz parte do tipo penal da receptação ser a coisa produto de crime, é necessário evidenciar-se, no processo em que se apura o delito do art. 180, a existência do crime anterior;
O autor do delito anterior pode ser desconhecido, provando-se, tão somente, a existência do fato criminoso. Além disso, é possível que o autor do crime antecedente seja conhecido, mas não ocorra sua punição, por razões variadas;
 “O fato de o autor do crime antecedente ser isento de pena, por força da escusa absolutória prevista no art. 181, II, do Código Penal, não afasta a punibilidade do terceiro que pratica a receptação do bem objeto desse delito, segundo disposição expressa do art. 180, § 4.º, do mesmo Estatuto” (REsp 1419146/SC, 6.a T., rel. Sebastião Reis Júnior, 19.08.2014, DJe 10.10.2014).”
“A receptação constitui delito autônomo, não sendo ilegal a condenação do receptador, quando o indigitado autor do furto tenha sido absolvido por falta de provas (STF, RE 10034, Rel. Min. Orozimbo Nonato, 2ª T., RF 119, p. 227).”
 
§ 5º - Na hipótese do § 3º, se o criminoso é primário, pode o juiz, tendo em consideração as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Na receptação dolosa aplica-se o disposto no § 2º do art. 155.     
O § 5°, em sua primeira parte, possibilita ao crime culposo a concessão de perdão judicial, caso seu autor seja primário e tenha atuado com culpa levíssima. Em atenção à segunda parte do parágrafo, se o criminoso for primário e de pequeno valor a coisa receptada, o juiz poderá substituir a pena de reclusão pela de detenção, diminuí-la de um a dois terços ou aplicar somente a pena de multa;
“Não procede a aplicação do disposto na primeira parte do § 5º do art. 180 do Código Penal ao caso. Atentando-se para a previsão legal mencionada, verifica-se, por interpretação meramente literal, que, tão somente, nos casos de receptação culposa é que o réu pode ser beneficiado, quando primário, com o perdão judicial. Nos casos de receptação dolosa, como o dos autos, sendo atendidos os requisitos legais, incide a privilegiadora do furto (art. 155, § 2º, do Código Penal) (TJRS, AC 70016024887, Rel.ª Des.ª Marlene Landvoigt, DJ 28/9/2007).”
 
§ 6o  Tratando-se de bens do patrimônio da União, de Estado, do Distrito Federal, de Município ou de autarquia, fundação pública, empresa pública, sociedade de economia mista ou empresa concessionária de serviços públicos, aplica-se em dobro a pena prevista no caput deste artigo.
“Responde pelo crime de receptação com aumento de pena (art. 180, § 6º, do CP) aquele que recebe, em proveito próprio ou alheio, bem municipal que sabe ser produto de crime (TJMG, PCO-CR 1.0000.05.428597-8, 1ª Câm. Crim., Rel. Armando Freire, pub. 18/1/2008).”
Decidiu o STF: “no delito de receptação, os bens de empresa pública recebem o mesmo tratamento que os da União e, por' isso, cabível a majoração da pena ao crime contra ela praticado.”
“O crime de receptação previsto no art. 180, § 6º, do Código Penal é punido exclusivamente a título de dolo, havendo necessidade, para a condenação, prova extreme de dúvida do conhecimento do agente sobre a origem criminosa da coisa recebida, adquirida, transportada, conduzida ou ocultada (TJRS, Ap. Crim. 70013 540836, 5ª Câm. Crim., Rel.ª Genacéia da Silva Alberton, j. 28/6/2006).”
ART. 180-A. - RECEPTAÇÃO DE ANIMAL: Adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em depósito ou vender, com a finalidade de produção ou de comercialização, semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes, que deve saber ser produto de crime:
Pena - reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.
Verbo núcleo = adquirir, receber, transportar, conduzir, ocultar; Sujeito ativo = qualquer pessoa; Sujeito passivo = proprietário ou possuidor do animal produto do crime; Objeto material = semovente domesticável de produção; Objeto jurídico = patrimônio; Classificação = comum; material; instantâneo (“adquirir”, “receber”, “transportar”, “conduzir” e “vender”) ou permanente (“ter em depósito” e “ocultar”); comissivo; unissubjetivo; plurissubsistente;
Para configurar o tipo em estudo, é imprescindível a existência de delito precedente, tendo como objeto material o semovente domesticável de produção, ainda que abatido ou dividido em partes;
Se o agente comete alguma das condutas típicas no exercício de atividade comercial ou industrial deverá responder pela receptação qualificada, pois esta absorve o delito de receptação de animal;
Assim como ocorre na receptação própria do art. 180, o crime é material, consumando-se no momento em que a coisa é incluída na esfera de disponibilidade do agente. As hipóteses de transporte, condução, ocultação e de manutenção em depósito são formas permanentes do crime, possibilitando a prisão em flagrante a qualquer tempo;
“As instâncias ordinárias reconheceram que o Paciente sabia que as coisas receptadas eram produto de crime. Portanto, se o dolo eventual, nos termos da jurisprudência reiterada do Superior Tribunal de Justiça, é suficiente para configurar o tipo de receptação qualificada, com mais razão deve-se aplicar a pena mais grave aos condenados pela prática do crime com dolo direto, como no caso dos autos. Precedentes (STJ, HC 193.391/SP, Rel.ª Min.ª Laurita Vaz, 5ª T., DJe 1º/08/2013).”
“Habeas corpus. Receptação de caminhão e de animais. Prisão preventiva. Fundamentação idônea. Requisitos presentes. Medidas cautelares. Insuficiência. Eventuais condições pessoais favoráveis. Irrelevância. Ordem denegada. 1. Havendo prova da materialidade e indícios de autoria, presentes estão os pressupostos da prisão preventiva, mormente quando a decisão se encontraadequadamente fundamentada em elementos extraídos da situação fática que levaram o magistrado a concluir pela necessidade da prisão preventiva. 3. Mantém-se a prisão preventiva do paciente que demonstra periculosidade incompatível com o estado de liberdade, decorrente do modus operandi e das circunstâncias em que ocorreu sua prisão, ao ser preso de madrugada, conduzindo um veículo furtado em alta velocidade, com várias cabeças de gado, em especial quando já foi investigado anteriormente pelo crime de furto, sendo insuficiente a aplicação de medidas cautelares alternativas. 4. Eventuais condições pessoais favoráveis, por si sós, não são suficientes a autorizar a concessão de liberdade provisória ou a revogação da prisão preventiva, se presentes seus motivos ensejadores. Precedentes. 5. Ordem denegada. (Habeas Corpus, Processo nº 0002600-15.2017.822.0000, Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia, 2ª Câmara Criminal, Relator (a) do Acórdão: Desª Marialva Henriques Daldegan Bueno, Data de julgamento: 28/06/2017) (TJ-RO - HC: 00026001520178220000 RO 0002600-15.2017.822.0000, Relator: Desembargadora Marialva Henriques Daldegan Bueno, Data de Julgamento: 28/06/2017, 2ª Câmara Criminal, Data de Publicação: Processo publicado no Diário Oficial em 10/07/2017.)”

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