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TEORIA GERL DO PROCESSo

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Outra questão que merece a nossa atenção diz respeito à constitu-
cionalização do processo. Você já deve ter notado que, para a exposição 
da nossa disciplina de Teoria Geral do Processo, por vezes citamos dispo-
sições do Código de Processo Civil (BRASIL, 2015) ou de outra legislação 
infraconstitucional, por outras vezes mencionamos a Constituição Federal 
(BRASIL, 1988). Nesta parte do nosso conteúdo exploraremos alguns dispo-
sitivos constitucionais. O que isso quer significar?
Estamos em um momento histórico em que o Direito Processual encon-
tra-se definitivamente constitucionalizado. Não é por outra razão que a 
primeira norma fundamental constante do Código de Processo Civil dispõe 
que “O processo civil será ordenado, disciplinado e interpretado conforme 
os valores e as normas fundamentais estabelecidos na Constituição da 
República Federativa do Brasil, observando-se as disposições deste Código” 
(BRASIL, 2015, art. 1º). Essa disposição, na verdade, configura-se na consa-
gração legislativa de todo um processo histórico em que se entendeu que 
toda a atuação do Estado (desde a legislação da matéria processual até sua 
aplicação nos casos concretos) deve ser pautada estritamente pela obser-
vância do que dispõe a Constituição Federal (BRASIL, 1988).
A constitucionalização do processo pode ser constatada em duas dimen-
sões: (i) na incorporação de normas processuais nos textos constitucionais; 
(ii) no ponto de vista em que as normas infraconstitucionais são concretiza-
doras das disposições constitucionais (DIDIER JR., 2015, p. 46).
Como dissemos, de nada valeria a simples previsão constitucional de 
determinado princípio processual, se não fosse conferida a tal previsão 
a necessária concretude. Ora, todo o ordenamento processual brasileiro, 
previsto ou não no texto da Constituição Federal, está estruturado no 
sentido de concretizar os valores e as normas fundamentais constitucionais 
(BRASIL, 1988).
Conforme precisa doutrina de José Miguel Garcia Medina (2015, p. 71),
BUENO, C. S. Curso sistematizado de Direito Processual Civil. 8. ed. São 
Paulo: Saraiva, 2013. v. 1, p. 82-100.
[...] passa-se a admitir que a Constituição impera não apenas nas 
relações existentes entre cidadão e Estado, mas também naquilo 
que antes se resolvia no ambiente privado, entre os cidadãos. A 
vida passa a ser contemplada a partir dos olhos da Constituição. 
Fala-se em ‘constitucionalização’ do direito.
“
50 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
Assim, “as normas dispostas na Constituição Federal constituem o ponto 
de partida do trabalho do processualista” (MEDINA, 2015, p. 80).
A partir de tal premissa, pode-se aferir que todas as normas jurídicas 
decorrem da Constituição, e todas devem estar em conformidade com ela.
Exemplificando
Para entender toda a extensão da denominada constitucionalização 
do Direito Processual, trabalharemos com um exemplo: a Constituição 
prevê, em seu art. 5º, inciso LV (BRASIL, 1988), que aos litigantes são 
assegurados o contraditório e ampla defesa, ou seja, basicamente, se 
atribui aos litigantes o direito de ter integral ciência das alegações da 
parte contrária (informação) e, ainda, é possibilitado a eles que reajam 
às alegações (reação). Contudo, de nada adiantaria tal previsão se não 
houvesse meios eficazes para fazê-la valer na prática.
É assim que o Código de Processo Civil (BRASIL, 2015) prevê inúmeras 
disposições que garantem a aplicabilidade e concretude de tal princípio, 
como exemplificativamente: a necessária oitiva de uma parte, em regra, 
antes que seja proferida decisão contra ela (BRASIL, 2015, art. 9º); a 
impossibilidade de se proferir decisão com base em fundamento a 
respeito do qual não se oportunizou o debate entre as partes (BRASIL, 
2015, art. 10); a possibilidade de apresentação de contestação (a forma 
de defesa por excelência) por parte do réu para se contrapor às alega-
ções do autor da demanda (art. 335) e inúmeras outras previsões.
Trata-se, portanto, de um caminho sem volta: o Direito Processual encon-
tra-se definitivamente constitucionalizado, sendo imprescindível a análise 
dos valores e normas fundamentais da Constituição Federal (BRASIL, 1988) 
para que se apliquem as regras processuais.
Pesquise mais
Para saber mais acerca da íntima relação entre Constituição Federal e 
processo, indico a seguinte leitura complementar:
CINTRA, A. C. de A.; GRINOVER, A. P.; DINAMARCO, C. R. Teoria Geral do 
Processo. 31. ed. São Paulo: Malheiros, 2015. p. 103-113.
Ainda dentro dessa ideia de amplo acesso à justiça, não apenas formal-
mente, mas, sim, de modo que seja alcançada a melhor prestação jurisdicional 
possível, estabeleceu o Código de Processo Civil um importante e inovador 
princípio: a cooperação entre todos os sujeitos do processo (BRASIL, 2015).
Seção 1.3 / Acesso à justiça e constitucionalização do processo - 51
É assim que está disposto no art. 6º do CPC (BRASIL, 2015), que “todos os 
sujeitos do processo devem cooperar entre si para que se obtenha, em tempo 
razoável, decisão de mérito justa e efetiva”. É de se notar que, uma vez mais, 
a preocupação do legislador é que seja alcançada a melhor prestação jurisdi-
cional possível: em tempo razoável, uma decisão justa e efetiva. Consoante 
doutrina de Didier Jr. (2015, p. 125):
[...] esse modelo caracteriza-se pelo redimensionamento do 
princípio do contraditório, com a inclusão do órgão jurisdicional 
no rol dos sujeitos do diálogo processual, e não mais como um 
mero espectador do duelo das partes.
“
Reflita
Será que o legislador também busca atribuir concretude ao princípio 
da cooperação? Em quais dispositivos podemos perceber a tentativa de 
aplicar a cooperação entre as partes e o órgão jurisdicional?
Vamos pensar juntos nessa questão? O Código de Processo Civil, além 
de prever, em seu art. 6º (BRASIL, 2015), a existência do princípio da coope-
ração, também busca atribuir-lhe efetividade em diversas disposições. Por 
exemplo, se o juiz, ao verificar que a petição inicial apresentada pelo autor 
para dar início ao seu processo tem defeitos e irregularidades capazes de 
dificultar o julgamento, determinará que o autor complete sua petição, mas 
deve fazê-lo “indicando com precisão o que deve ser corrigido ou comple-
tado” (BRASIL, 2015, art. 321). Outra previsão do Código de Processo Civil 
é a expressa possibilidade de, se a causa apresentar complexidade, o juiz 
designar audiência para que o saneamento seja feito em cooperação com as 
partes, devendo o juiz, se for o caso, convidar as partes a integrar ou escla-
recer suas alegações (BRASIL, 2015, art. 357, § 3º). Trata-se de manifestos 
exemplos de cooperação entre as partes e o órgão jurisdicional para que se 
chegue mais rapidamente à decisão final justa e efetiva.
A cooperação é, portanto, dever intersubjetivo, relacionando-se tanto 
a deveres entre as partes como também destas com o órgão jurisdicional e 
vice-versa (MEDINA, 2015).
Contudo, faz-se necessário interpretar com cautela o referido dispositivo. 
Muitos autores têm criticado a redação do dispositivo, pois, como entende 
Neves (2017), seria uma utopia imaginar uma solidariedade processual em 
que as partes poderiam abrir mão dos interesses de seus clientes em prol do 
melhor andamento do processo.
52 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
No ponto de vista desse autor, esse princípio da cooperação passa por 
uma atuação mais ativa do juízo, no sentido de proporcionar às partes 
a possibilidade de esclarecimento no que houver dúvida, o de consulta às 
partes antes da prolação de uma decisão e também o de dar oportunidade de 
realizar correções, mediante recomendações das partes.
Estamos de acordo com o referido autor, pois o princípio da cooperação 
deve ser uma decorrência do princípio do contraditório, e não necessário de 
uma cooperação das partes em contraposição