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TEORIA GERL DO PROCESSo

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de fazer o pagamento das parcelas relativas à 
compra. Paulo, no entanto, não procurou Mariana para devolver o veículo. 
Diante dessa situação, como Gustavo deve responder às seguintes indaga-
ções: Paulo poderia, por sua própria iniciativa, simplesmente deixar de 
pagar o preço a que se comprometeu? Considerando que Paulo entende que 
Mariana não cumpriu a sua parte no contrato, mas que a vendedora discorda 
dessas afirmações, a quem cabe afirmar e decidir quem tem razão?
Não pode faltar
Antes de adentrarmos o tema central, é importante compreendermos 
qual é o significado da disciplina que será abordada ao longo desse curso.
Assim, no entender de Didier Jr. (2015, p. 38), a Teoria Geral do Processo, 
como parte da Teoria Geral do Direito, “é uma disciplina dedicada à elabo-
ração, à organização e à articulação dos conceitos jurídicos fundamentais 
(lógico-jurídicos) processuais”. Completa Lamy (2018) definindo que o 
objetivo da disciplina não é guiado para encontrar soluções, mas sim para 
fornecer ao jurista uma base teórica que o preparará para compreender o 
conjunto principiológico que rege o sistema processual. Em suas palavras, 
Lamy afirma:
A Teoria do Processo é uma disciplina fundamentalmente 
teórica, voltada à compreensão dos princípios, garantias e 
institutos fundamentais do sistema processual. Não busca 
unificar soluções. O que deve ser comum são os grandes 
princípios e garantias, os principais conceitos e esquemas 
lógicos. (LAMY, 2018, p. 24)
“
Feitas essas considerações, passamos agora a tratar da evolução do processo.
Desde o início dos tempos, a reunião de pessoas em grupos foi imprescin-
dível para a própria sobrevivência da espécie humana, sendo que a qualidade 
de determinado homem supria eventual deficiência de outro. Agregavam-se 
qualidades essenciais para a subsistência do grupo, permitindo que as dificul-
dades existentes na época fossem superadas.
10 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
O agrupamento humano tratava-se de uma efetiva necessidade, passando 
desde os impulsos mais basilares (alimentação, vestimenta etc.) até aqueles 
inerentes a um maior conforto de seus membros (segurança, acúmulo de 
riquezas etc.). O homem, portanto, nunca foi destinado ao isolamento, 
uma vez que não consegue obter, por si mesmo, tudo o que precisa para sua 
sobrevivência.
Nesse aspecto, disserta Alvim:
O homem experimenta necessidades as mais diversas, sob 
variados aspectos, e tende a proceder de forma que sejam satis-
feitas; que desapareça a carência ou se restabeleça o equilí-
brio perdido. A necessidade decorre do fato de que o homem 
depende de certos elementos, não só para sobreviver, como 
para se aperfeiçoar social, política e culturalmente, pelo que não 
seria errôneo dizer que o homem é um ser dependente.
Se o homem é um ser dependente, podemos concluir que 
a necessidade é uma relação de dependência do homem 
para com algum elemento, relação essa que Carnelutti 
precisou como sendo uma ‘necessidade’. (2017, p. 4)
“
O convívio social, portanto, é inerente ao ser humano, que passou, 
então, a organizar-se nas formas mais diversas de sociedade. Tal organização 
deu-se por meio de regras de conduta, de maior ou menor complexidade, 
que visavam disciplinar a forma de agir de seus membros, bem como punir 
eventuais transgressões. Tratava-se, pois, do estabelecimento de um conjunto 
de regras para manter equilibrado o convívio social.
Vê-se, desde já, a íntima relação existente entre as formas mais basilares 
de Direito e o convívio social. Qual seria, portanto, a causa da correlação 
existente entre Direito e sociedade? Conforme Cintra, Grinover e Dinamarco 
(2014, p. 37), “[...] a resposta está na função que o direito exerce na sociedade: 
a função ordenadora, isto é, de coordenação dos interesses que se manifestam 
na vida social, de modo a organizar a cooperação entre pessoas e compor os 
conflitos que se verificarem entre seus membros”.
Dessa íntima relação, pode-se extrair a máxima: onde está o homem, está 
a sociedade, e onde está a sociedade, está o Direito. Veja isso na Figura 1.1.
Seção 1.1 / Direito e sociedade: evolução histórica da resolução de conflitos - 11
Figura 1.1 | Criação do Estado e origem do Direito
Fonte: adaptada de Rodrigues e Lamy (2018, p. 24).
Reflita
A simples existência de regras de conduta em determinada sociedade 
é suficiente para garantir a pacífica convivência entre seus membros?
A convivência entre membros de determinada sociedade nem sempre é 
pacífica e condizente com as regras estabelecidas pelo grupo, sendo natural 
a existência de “conflitos de interesses”. Isso porque, nos termos do entendi-
mento de Gonçalves:
[...] a imposição de regras ao indivíduo, pelo grupo social, não é 
suficiente para evitar, por completo, os conflitos de interesses. 
Nem sempre os bens e os valores estão à disposição em quanti-
dade tal que satisfaça a todos os indivíduos, o que pode provocar 
disputas. Além disso, nem sempre os integrantes do grupo social 
obedecem espontaneamente às regras de conduta por ele 
impostas. (2010, p. 22)
“
Como os bens são limitados, ao contrário das necessidades 
humanas, que são ilimitadas, surge entre os homens, relativa-
mente a determinados bens, choques de forças que caracte-
rizam um conflito de interesses, sendo esses conflitos inevitáveis 
no meio social.
Ocorre um conflito entre dois interesses, quando a posição 
ou situação favorável à satisfação de uma necessidade exclui 
ou limita a posição ou situação favorável à satisfação de outra 
necessidade. (2017, p. 5)
“
Anota Alvim que:
12 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
Pesquise mais
Para melhor assimilar o tema do homem em sociedade, sua relação com 
as regras de conduta e os conflitos de interesses, indicamos a seguinte 
leitura complementar:
CINTRA, A. C. de A.; GRINOVER, A. P.; DINAMARCO, C. R. Teoria Geral do 
Processo. 30. ed. São Paulo: Malheiros, 2014. p. 30-38.
Que tal nos aprofundarmos mais um pouco nessa discussão e tentarmos 
compreender conceitos importantes para o Direito Processual Civil, tais 
como pretensão e lide?
Concluímos anteriormente que, apesar de indesejável, a existência de 
conflitos de interesses é natural em uma sociedade. O conflito surge quando 
um indivíduo entende que determinado direito lhe cabe e não a outrem. Trava-
se, então, uma situação em que existe a pretensão de um interesse juridica-
mente protegido, a qual resiste outra pessoa. Tal situação é, portanto, geradora 
de uma lide, que, nas palavras de Carnelutti é “um conflito de interesse qualifi-
cado por uma pretensão resistida” (apud MONNERAT, 2015, p. 30).
Exemplificando
Analisaremos a situação a seguir para fixarmos as noções mencionadas:
Em um acidente de trânsito, Carlos colide com o veículo de Marta. Existe 
pretensão por parte de Marta de ver-se ressarcida dos danos sofridos. 
No entanto, se Carlos admite ser culpado pelo acidente e concorda em 
pagar pelos danos sofridos por Marta, não há resistência. Consequente-
mente, não há lide.
Por outro lado, se Carlos nega-se a assumir a culpa pelo acidente ou, 
ainda, não se entenda culpado e recusa-se a efetuar o pagamento dos 
danos sofridos por Marta, há pretensão a um interesse juridicamente 
protegido (indenização) e há resistência (recusa por parte de Carlos). 
Consequentemente, há lide.
Como analisamos, apesar de naturais e inerentes às relações humanas, os 
conflitos de interesses entre os membros de determinada sociedade não são, 
por óbvio, desejáveis, justamente por quebrarem o equilíbrio necessário ao 
convívio social. Considerando tal realidade, pensemos juntos em como se 
deu a evolução dos modos de resolução de conflitos de interesses.
Inicialmente, cada pessoa buscava resolver os embates em que se 
envolvia mediante seus próprios métodos. Não havia, para tanto, nenhuma 
disposição social