A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
73 pág.
TEORIA GERL DO PROCESSo

Pré-visualização | Página 3 de 19

que atribuísse a terceiros a solução de conflitos. Cabia ao 
Seção 1.1 / Direito e sociedade: evolução histórica da resolução de conflitos - 13
próprio indivíduo, com as armas de que dispunha, fazer valer o direito que 
julgasse ter. Poderia ser utilizada, inclusive, força física para o cumprimento 
de obrigações eventualmente não cumpridas. Tratou-se do período em que 
predominava a denominada autotutela.
Segundo doutrina de Monnerat, a autotutela é o meio de resolução de 
conflito de interesses caracterizado pela “imposição do interesse de uma parte 
sobre outra pela força, independentemente, portanto, da participação do Estado 
ou de qualquer terceiro imparcial, bem como sem a observância de qualquer 
norma jurídica” (2015, p. 66, grifo nosso). Trata-se de “solução egoísta e parcial 
do litígio. O ‘juiz da causa’ é uma das partes” (DIDIER JR., 2015, p. 164).
Assim, se João entendesse que era dono de um bem que estava na posse 
de José, mas José igualmente se reputasse proprietário do mesmo bem, o 
conflito de interesses estaria instaurado. Nos primeiros tempos da civili-
zação, no entanto, não se cogitaria um terceiro imparcial que solucionasse o 
conflito. Dessa forma, ou as partes chegavam a um acordo (autocomposição) 
ou empregavam o uso da autotutela, por meio da força. Aquele que fosse 
mais forte, astuto, perspicaz, manteria consigo a posse do bem conflituoso.
Aprofundemo-nos um pouco mais nessa discussão para verificar se, 
como regra, atualmente temos espaço para aceitar a autotutela como alter-
nativa viável para a resolução de conflitos. 
Conforme constatamos anteriormente, a autotutela pressupõe o emprego 
da força ou de meios não previstos no regramento social para que o conflito 
seja solucionado. Ou seja, vencerá o mais forte ou o mais ardiloso. Os 
ordenamentos jurídicos contemporâneos não compactuam, em regra, com 
a premissa da vitória do mais forte, mas, sim, daquele que estiver agindo em 
conformidade com o Direito.
Logo, concluímos que atualmente não se admite, em princípio, a autotu-
tela de direitos pelas partes envolvidas em conflitos de interesses. Nesse 
contexto, é importante lembrar que o Código Penal brasileiro (BRASIL, 
1940) prevê a autotutela como conduta criminosa, imputando, em seu art. 
345, a pena de 15 dias a 1 mês ou multa àquele que fizer justiça pelas próprias 
mãos, para satisfazer pretensão, ainda que legítima, salvo quando a lei o 
permitir. Tudo isso sem prejuízo da pena aplicável em virtude de eventual 
violência cometida pelo criminoso.
Nota-se que o próprio Código Penal (BRASIL, 1940), no dispositivo 
citado, ressalva uma hipótese para que a autotutela não seja caracterizada 
como crime: quando a lei expressamente permitir que se faça justiça pelas 
próprias mãos, ou seja, a lei pode excepcionar situações em que a autotutela 
será tolerada, retirando dela, nessas particulares previsões, o caráter ilícito.
14 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
Dentro desse contexto, é de se salientar que nem mesmo atualmente a 
fase da autotutela encontra-se inteiramente superada.
Exemplificando
Você sabia que, como regra, afasta-se a possibilidade de autotutela, mas 
ainda há resquícios dessa figura no Direito brasileiro? Admite-se, por 
exemplo, o desforço imediato, instituto previsto no art. 1.210, § 1º, do 
Código Civil (BRASIL, 2002), que preceitua: “O possuidor turbado, ou 
esbulhado, poderá manter-se ou restituir-se por sua própria força, contanto 
que o faça logo; os atos de defesa, ou de desforço, não podem ir além do 
indispensável à manutenção, ou restituição da posse”, ou seja, quando 
alguém que possua determinado bem tiver sua posse ameaçada ou efetiva-
mente retirada, poderá se manter na posse ou restitui-la, inclusive utilizan-
do-se de sua própria força.
Trata-se, no entanto, de exceção expressamente prevista na legislação 
brasileira. A regra continua sendo a proibição de que qualquer indivíduo 
possa fazer justiça com as próprias mãos, sem a intervenção do Estado-juiz.
Assimile
A partir das noções até agora desenvolvidas quanto à autotutela, ficam 
claras suas principais características:
Imposição da vontade de uma das partes em desfavor da outra.
Inexistência de um terceiro imparcial para solucionar o conflito.
Com a evolução da sociedade, esse panorama começou a ser alterado. 
Surgiu a noção de que os conflitos deveriam ser solucionados mediante a 
intervenção de terceiros, que precisariam ser dotados de imparcialidade. Ao 
contrário do período em que vigorava a autotutela, passou-se a exigir um 
distanciamento daquele que poderia colocar fim ao litígio com relação às 
partes envolvidas no conflito.
Surgiu, então, a figura da arbitragem, não nos moldes conhecidos atual-
mente, mas, sim, querendo significar a intervenção de uma pessoa sem 
interesse no conflito, que pudesse julgar imparcialmente.
Como bem ensinam Cintra, Grinover e Dinamarco (2014, p. 39-40), os 
indivíduos passaram a preferir, no lugar da autotutela, “uma solução amigável 
e imparcial através de árbitros, pessoas de sua confiança mútua em quem 
as partes se louvam para que resolvam os conflitos”. Narram tais doutrina-
dores, que a tarefa era atribuída normalmente aos sacerdotes ou aos anciãos, 
Seção 1.1 / Direito e sociedade: evolução histórica da resolução de conflitos - 15
que decidiam, respectivamente, de acordo com a vontade dos deuses e pelos 
costumes vigentes na época da decisão.
No período em que preponderou a arbitragem como forma de resolução 
dos conflitos, havia especificidades a depender da fase analisada. É assim que 
Wambier e Talamini (2014, p. 95-96) afirmam que o primeiro estágio dessa 
fase foi a arbitragem facultativa, por meio da qual as partes elegiam um 
terceiro desinteressado e imparcial. Continuam eles aduzindo que
[...] subsequentemente, a arbitragem tornou-se obrigatória, de 
modo que os envolvidos no conflito deveriam necessariamente 
submeter-se a uma solução criada por terceiro desprovido 
de interesse direto no objeto daquele conflito. Em uma etapa 
seguinte, a escolha do árbitro (privado) pelas partes passou a ser 
feita perante uma autoridade estatal, que controlava essa escolha 
e fixava determinados parâmetros de como se daria o processo 
perante o árbitro. (WAMBIER; TALAMINI, 2014, p. 95-96)
“
Dessa forma, o método de pacificação social evoluiu, passando da autotu-
tela para períodos em que terceiros (árbitros) dirimiam os conflitos.
Assimile
Como etapa subsequente de evolução da solução de conflitos, tem-se a 
arbitragem, que apresenta as seguintes principais características:
Existência de um terceiro para solucionar o conflito.
O terceiro deveria ser dotado de imparcialidade diante do conflito 
instaurado.
É importante que retiremos uma conclusão relevante da nossa conversa 
até esse momento: tanto no que diz respeito à autotutela, quanto em relação à 
arbitragem, estamos diante do que podemos denominar justiça privada, ou 
seja, não há nessas duas primeiras fases evolutivas uma atribuição ao Estado 
da atividade de pacificação social, seja por sua inexistência, ou, em momento 
mais recente, por ainda não se atribuir como função estatal a solução de 
conflitos.
Fixadas as premissas dessas duas primeiras fases de evolução dos meios 
de resolução de conflitos, como podemos conectar a pacificação social à 
atividade do Estado?
Tratou-se efetivamente do próximo passo da evolução social, fixando-se 
como atividade preponderantemente estatal a tarefa de solução de litígios. 
16 - U1 / Noções teóricas básicas do processo
Passou-se, então, da noção de resolução de conflitos como tarefa inerente 
à justiça privada para atividade típica de justiça pública, o que somente foi 
possível em virtude do fortalecimento da noção de Estado.
Nos termos da clássica doutrina constitucional, o Estado necessita, para 
ser como tal reconhecido, de três elementos