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RENÊ COPPE PIMENTEL 1 
 
 
 
 
 
Evolução Histórica e 
Ambiente da Contabilidade 
- INTRODUÇÃO - 
 
 
Material Adicional de Aula Elaborado por: Renê Coppe Pimentel (renecp@usp.br) 
MATERIAL EM ELABORAÇÃO (DRAFT) 
FAVOR NÃO CITAR OU DISTRIBUIR SEM PRÉVIA AUTORIZAÇÃO 
 
 
RENÊ COPPE PIMENTEL 
 
 
Fev, 2017 
 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 2 
Sumário 
1 ......................................................................................................................................................................... 3 
Introdução Geral à Contabilidade ..................................................................................................................... 3 
1.1 O que é contabilidade? ............................................................................................................................ 4 
1.1.1 O Processo Contábil .......................................................................................................................... 5 
1.2 O Papel da Contabilidade no Ambiente em que está Inserida ................................................................ 7 
1.2.1 Pré-história: surgimento da Contabilidade ...................................................................................... 7 
1.2.2 Antiguidade: antigos sistemas organizados ..................................................................................... 8 
1.2.3 Idade média e renascimento: a contabilidade como conhecemos hoje .......................................... 8 
1.2.4 As grandes navegações: o surgimento das Companhias .................................................................. 9 
1.2.5 Revolução Industrial: do comércio à indústria e o mercado de capitais ........................................ 10 
1.2.6 Crise de 1929: a maior crise contábil ............................................................................................. 11 
1.2.7 A Revolução Tecnológica e a Internacionalização do Mercado de Capitais ................................... 11 
1.2.8 Afinal, o que concluirmos ao estudar a história da contabilidade? ............................................... 12 
1.3 Contabilidades: Financeira, Gerencial, Tributária e Pública .................................................................. 13 
Questões: ..................................................................................................................................................... 14 
Referências: ................................................................................................................................................. 14 
2 ....................................................................................................................................................................... 16 
O Ambiente da Contabilidade ......................................................................................................................... 16 
2.1 A Teoria Contratual da Firma ................................................................................................................ 17 
2.2 Conflito de Agência ................................................................................................................................ 22 
2.2.1 Acionistas vs Administradores - os casos de remuneração variável .............................................. 24 
2.2.2 Credores vs Administradores/acionistas – os casos de risco de crédito ........................................ 24 
2.2.2 Acionistas Controladores vs Acionistas Minoritários – os casos de mudanças societárias............ 25 
2.3 Assimetria de Informação...................................................................................................................... 25 
2.3.1. Seleção Adversa ............................................................................................................................. 25 
2.3.2. Risco Moral .................................................................................................................................... 26 
2.4 Mercado de capitais e informação contábil .......................................................................................... 27 
2.4.1 Hipótese de Mercado Eficiente ...................................................................................................... 28 
2.4.2 Implicações da pesquisa sobre contabilidade e mercado de capitais ............................................ 30 
2.5 Modelos de Governança Corporativa .................................................................................................... 31 
Referências .................................................................................................................................................. 32 
 
 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 3 
 
Introdução à Contabilidade 
 
 
1 
Introdução Geral à Contabilidade 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Objetivos do capítulo: 
 Definir Contabilidade 
 Diferenciar a contabilidade para público interno e externo 
 Apresentar a ideia geral do processo contábil 
 Caracterizar o papel das teorias, da ciência e da teoria da contabilidade 
 Destacar os principais momentos históricos que associados com a evolução da contabilidade 
 Diferenciar os tipos de abordagens contábeis mais comuns 
 
 
 
 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 4 
 
Como o título do capítulo sugere, não há consenso sobre uma “teoria da contabilidade” que seja 
única, imutável e universal. Desta forma, este capítulo apresenta aspectos iniciais sobre “contabilidade”, 
“teoria” e a ligação entre os dois conceitos. Diferentemente de textos acadêmicos bastante difundidos no 
Brasil, que consideram que a contabilidade é a ciência que estuda o patrimônio das entidades, este capítulo 
busca apresentar argumentos de que essa é uma visão apenas parcial sobre Contabilidade. Como 
consequência, do ponto de vista teórico, há mais perguntas do que respostas. 
 
1.1 O que é contabilidade? 
Uma definição direta e objetiva da Contabilidade dependerá muito de quem a faz, ou melhor, 
depende de qual a visão que o indivíduo tem ou adota da contabilidade. Apesar de ser impossível dissociar 
a prática profissional do corpo teórico da contabilidade, para fins didáticos (especialmente para os níveis 
introdutórios) a Contabilidade pode ser melhor entendida por duas visões 1principais que não são 
exclusivas, mas, pelo contrário, se complementam: 
A Contabilidade como Técnica - O senso comum provavelmente diria que a contabilidade é uma 
técnica de coleta, registro e organização de dados e geração de relatórios. Essa visão tecnicista da 
Contabilidade é, na verdade, a visão do Processo Contábil, composto pelas etapas de reconhecimento, 
mensuração e evidenciação dos eventos/fenômenos econômicos. Nesse sentido, a técnica contábil visa 
suprir os diversos agentes interessados em informações econômicas e financeiras com informações úteis 
que darão suporte à tomada de decisão. Essa é a abordagem clássica da Contabilidade e, nesse sentido, 
praticamente toda e qualquer tentativa de registrar, mensurar e comunicar resultados ou eventos pode ser 
considerada como “contabilidade”. Assim, o simples fato de uma pessoa controlar suas despesas e seus 
rendimentos mensais não deixa de ser uma contabilidade pessoal. Inclusive, a mídia frequentemente utiliza 
o termo “contabilidade do crime” para se referir a papeis com anotações precárias sobre recursos 
arrecadados, de registro de devedores e quantias devidas, pagamentos a outros criminosos. Ultimamente 
também se tem visto com certa frequência o termo “contabilidade criativa”, em situações que a 
contabilidade é utilizada de maneira a maquiar uma determinada situação. Obviamente essa é uma visão 
extremamente limitada e restrita daContabilidade. 
A Contabilidade como Ramo do Conhecimento – Na qualidade de formação acadêmica e 
profissional as “Ciências Contábeis” dizem respeito ao ramo do conhecimento que difunde, reflete e 
aprimora o conhecimento contábil em termos técnicos e em relação às demais áreas que circundam a 
contabilidade (interfaces da contabilidade). Esse é, portanto, um conceito mais abrangente que engloba o 
processo de reflexão sobre a adequação das diversas possibilidades (técnicas) de tratamento contábil. Isso 
implica que não há um único tratamento contábil possível para o mesmo evento/fenômeno econômico, 
pelo contrário há diversos tratamentos contábeis possíveis e passíveis de julgamento. Assim, as “Ciências 
Contábeis” são classificadas como uma ciência social aplicada. 
Apesar de as duas visões serem inseparáveis, na prática, alguns profissionais (geralmente não 
contadores) acreditam que a Contabilidade se limita a simplesmente preparar regularmente as 
demonstrações e relatórios contábeis de acordo com regras pré-estabelecidas. Entretanto, apesar de os 
contadores de fato desempenharem esse papel, os registros e a geração de relatórios não são um fim em si 
mesmos: o grande objetivo da contabilidade é a geração de informação útil para tomada de decisão. Isso 
implica, necessariamente, no conhecimento do usuário, das decisões a serem tomadas e do ambiente em 
que a contabilidade está inserida. Com isso, o foco deixa de ser o mero tecnicismo de controle do 
patrimônio e dos eventos econômicos e passa a ser a Contabilidade como ferramenta efetiva de 
 
1 Aqui apresentamos apenas duas visões (contabilidade como técnica e contabilidade como ramo do conhecimento 
por considerarmos ambas suficientemente abrangentes. Porém, a literatura contábil utiliza-se de outras visões ou 
“imagens”, como prefere Belkaoui (1997), por exemplo. Nesse sentido, Belkaoui (1997) extende as visões da 
contabilidade como ideologia, como linguagem, como registro histórico, como realidade econômica, como sistema de 
informação ou como commodity. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 5 
informação. Para tanto, o objeto estuda deixa de ser simplesmente o “patrimônio” e passa a ser também o 
usuário, ou melhor, o efeito da informação para o usuário na tomada de decisão. Essa é a abordagem da 
utilidade da informação contábil para o usuário (decision-usefulness approach). 
Assim, a Contabilidade é parte (talvez a mais importante) do sistema de informação das 
empresas, provendo informações úteis para que os agentes econômicos (gestores, investidores, credores 
etc) aloquem adequadamente recursos econômicos escassos. Dentre o grupo de agentes econômicos 
(usuários da informação contábil), uma grande divisão pode ser feita em usuários internos e usuários 
externos. 
Tipicamente, os usuários internos têm acesso amplo e facilitado à informação de maneira rápida, 
detalhada (analítica) e customizada para cada tipo de tomada de decisão. São incluídos nesse grupo os 
gestores, administradores e corpo diretivo em geral. Uma vez que as informações são geradas e utilizadas 
internamente, não há padrão rígido de contabilidade a ser seguido, pois cada empresa pode adequar seus 
relatórios de forma a atender adequadamente suas necessidades na gestão da empresa e suas atividades. 
Por sua vez, os usuários externos, via de regra, só têm acesso às informações divulgadas pela 
empresa, daí a necessidade de haver um padrão de relatório a ser seguido. Estão incluídos nesse grupo os 
acionistas (que não participam da gestão), analistas de mercado de capitais, analistas de crédito de bancos, 
credores em geral, governo (por meio de seus órgãos de fiscalização e regulação), clientes, sindicatos, 
funcionários não ligados à gestão etc. Considerando a gama de usuários externos e seus diversos objetivos 
a contabilidade ganha caráter mais formal, devendo haver um padrão geral para o processo contábil (de 
reconhecer, mensurar e evidenciar), esses padrões são os chamados “Princípios Contábeis Geralmente 
Aceitos” ou sua expressão em inglês “Generally Accepted Accounting Principles – GAAP”. Desta forma, os 
padrões contábeis buscam estabelecer uma base de referência para problemas contábeis de 
reconhecimento, mensuração e evidenciação. 
A contabilidade voltada para o público interno é tipicamente denominada Contabilidade 
Gerencial, enquanto que a contabilidade voltada para o público externos é denominada Contabilidade 
Financeira (ou Contabilidade Societária). Ambos, usuários internos e externos, devem assegurar que suas 
decisões de alocação de recursos sejam eficientes, para tanto, eles precisam de informações econômicas e 
financeiras acerca da empresa, cabe à Contabilidade suprir adequadamente essa necessidade. 
Portanto, a Contabilidade pode ser entendida como uma ciência social que estuda o Processo 
Contábil e o impacto da informação contábil nos diversos usuários da informação. 
 
1.1.1 O Processo Contábil 
O Processo Contábil consiste em transforma eventos e fenômenos econômicos em informações 
úteis e relevantes para a tomada de decisões. Para tanto, o Processo Contábil consiste em (1) reconhecer, 
(2) mensurar e (3) evidenciar eventos econômicos, sendo que os eventos econômicos são todas as 
transações realizadas entre as empresas, as pessoas e os governos. Como exemplo: vendas de produtos, 
pagamento de fornecedores, remuneração de executivos, operações de fusões e aquisições de empresas, 
compra e venda de ações, operações com instrumentos financeiros e derivativos, captação de recursos, 
entre muitos outros. Assim, o reconhecimento busca identificar quando o fato ocorreu e, se aplicável, 
registrá-lo contabilmente; a mensuração busca medir o que a informação representa em unidades 
monetárias, ou seja, atribuir um valor; e a evidenciação busca disponibilizar a informação aos usuários 
interessados. 
Com isso, a Contabilidade se preocupa em desenvolver e aplicar modelos que capturem a 
realidade econômica subjacente às entidades de maneira a propiciar informações úteis para a tomada de 
decisões. Informações contábeis são extensamente utilizadas como linguagem dos negócios dentro das 
empresas, servindo de base para a formação de diversos contratos (acordos) que tenham consequências 
econômicas. 
 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 6 
 
Exemplo para reflexão 
 
Um pequeno agricultor resolve alocar o dinheiro que estava aplicado em sua caderneta de poupança (R$ 
112.000) para fazer, em parte de sua propriedade (o valor proporcional ao terreno é de R$ 175.000), uma pequena 
plantação de eucalipto para vender a madeira em momento futuro. Os gastos do plantio (correção de solo, adubação, 
mudas etc) totalizaram R$ 40.000, sendo plantadas mudas de 50cm. Sabe-se que os custos anuais de manutenção 
(irrigação, controle de pragas etc) são de R$ 12.000/ano (todos os serviços feitos por terceiros e pagos à vista). Assim, 
houve investimento dos R$ 40.000 iniciais (que estavam aplicados na poupança) e mais R$ 12.000 a cada ano. 
Ao final do 5º ano, o agricultor olha orgulhoso para sua plantação e vê suas árvores, que antes tinham 
apenas 15 cm e que agora estão com cerca de 20m de altura. Dadas as características e qualidade de sua plantação, a 
madeira poderá ser utilizada para lenha, carvão, celulose ou serralharia. Com base em inventário recente, o agricultor 
estima que o volume total de madeira, na forma como já está, poderá ser vendido, atualmente, por R$ 600.000 a preços 
de mercado corrente. No entanto, se esperar mais 3 anos, com o crescimento das árvores, o valor de venda poderá 
chegar a R$ 950.000. Em qualquer caso, haverá custos adicionais para colheita e transporte que totalizarão R$ 
150.000. 
Assim, ao final do 5º ano nos temos a seguinte condição: 
 Valores investidos/desembolsados: 
Inicial Ano 1 Ano 2 Ano 3 Ano 4 Ano 5 TOTAL 
40.000 12.000 12.00012.000 12.000 12.000 100.000 
 
 Valor total de venda atual (líquido do custo de colheita): 600.000 – 150.000 = R$ 450.000 
 Valor total de venda em 3 anos (líquido do custo de colheita): 950.000 – 150.000 = R$ 800.000 
 Considere que a remuneração da caderneta é de 6% a.a. 
Perguntas para reflexão: 
1) Ao final do 5º ano o agricultor deveria ter reconhecido (registrado) alguma receita? 
2) Ao final do 5º ano o agricultor deveria ter reconhecido (registrado) algum custo? 
3) Durante o período, houve algum ganho para o agricultor? Houve lucro? 
4) Se alguma das respostas acima for positiva, qual o valor? 
5) Se ele (agricultor) tiver que informar seu patrimônio, qual deveria ser esse patrimônio do agricultor, ao 
final do 5º ano (considere apenas a atividade de eucalipto e que o valor inicial alocado ao projeto foi de 
R$ 112.000 + R$ 175.000, poupança + terreno)? 
6) Quais os elementos que compõe o patrimônio do agricultor? Como esse patrimônio poderia ser 
apresentado? 
 
Todas essas perguntas, e o caso como um todo, estão relacionadas às etapas de reconhecimento (registar, 
reconhecer ou não um determinado item ou evento), de mensuração (qual valor atribuir) e evidenciação (como 
informar). 
O ponto chave do problema é se o crescimento natural das árvores, mesmo que elas não tenham sido 
vendidas ou extraídas, pode ser considerado como uma receita e, assim, gerar lucro. Uma coisa que sabemos é que 
não houve entrada nenhuma de caixa, porém, o valor da plantação aumentou e está maior que o custo de se produzir, 
até aquele momento. O agricultor deve reconhecer ou não o lucro (a receita)? 
Se alguma receita for considerada, como mensurar seu valor? O eucalipto pode ser utilizado em diversas 
atividades (lenha, carvão, celulose ou serralharia) dependendo da função, mais ou menos nobre, o preço de mercado 
varia. Qual preço utilizar, da madeira para lenha/carvão ou celulose/serralharia? Os mercados ao redor do país podem 
praticar preços diferentes, qual utilizar? 
Esses são problemas de reconhecimento e de mensuração contábil. Nem sempre a resposta é objetiva, a 
seu ver, qual seria a melhor representação do patrimônio do agricultor? 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 7 
Como você divulgaria esse patrimônio para: 
- Um banco que está analisando a situação econômica do agricultor para conceder empréstimos 
- Um investidor que potencialmente poderá comprar para si a plantação de eucalipto (incluindo a parte do 
terreno destinada à plantação). 
- O governo, que irá calcular o imposto sobre a renda do agricultor. 
A apresentação seria a mesma nos três casos? 
As questões de divulgação (evidenciação) também são problemas enfrentados pela contabilidade. Nem 
sempre as coisas são totalmente claras e objetivas, por isso o processo contábil está em constante mutação. Por essas 
potenciais diferenças é que o mundo têm harmonizado suas práticas contábeis em princípios gerais similares para fins 
de divulgação financeira. 
Esse exemplo será retomado e dissecado em partes específicas do livro, quando se tratar especificamente 
do processos contábil. 
 
 
 
 
1.2 O Papel da Contabilidade no Ambiente em que está Inserida 
Uma vez que a Contabilidade tem como objetivo principal de fornecer informações úteis para 
tomada de decisão, a evolução da Contabilidade acaba se confundindo com a evolução da economia, da 
sociedade, da tecnologia e das operações das empresas. 
 
1.2.1 Pré-história: surgimento da Contabilidade 
A Contabilidade, em sua forma mais rudimentar, remonta dos primórdios da humanidade em 
diversas partes do mundo quando os humanos começam a trabalhar de maneira cooperativa, por meio de 
observação, comunicação, memória sobre comportamento passado e sanções informais em virtudes de 
desvios das normas sociais. 
Mullings, Whitehouse and Atkinson (2013) sugerem que “a escrita e a manutenção de registros 
[recordkeeping] ajudam a resolver problemas de cooperação em grupos numerosos de indivíduos por 
transcender a diversas limitações do desenvolvimento psicológico através da elaboração de quatro 
ferramentas de cooperação: (1) comportamentos recíprocos, (2) formação e manutenção de reputação, (3) 
normas sociais e fiscalização das normas e (4) identificação e empatia com o grupo”. 
Nesse sentido, já nos primórdios da civilização moderna, os grupos de pessoas aumentam de 
tamanho, assim como sua complexidade, o que dificulta a lembrança, por parte dos indivíduos, sobre 
interações do passado e obrigações. Dessa forma, as sanções informais aos desonestos (“cheaters and free 
riders”) tornam-se menos eficazes e como resultado, novos arranjos são necessários para suportar grandes 
grupos. 
Assim, a contabilidade surge como uma necessidade básica da de manutenção de registros 
(recordkeeping). Segundo Basu e Waymire (2005, p. 8): “a manutenção de registros [recordkeeping] é 
uma instituição que é necessária (mas não suficiente) para o surgimento de cooperação humana em 
grande escala. Nosso argumento é que a manutenção de registros evoluiu bio-culturalmente para apoiar 
a coordenação econômica e uma complexa divisão do trabalho, servindo como um dispositivo 
mnemônico para complementar a memória humana”. 
Assim, segundo Basu e Waymire (2005) a contabilidade é uma instituição cujo desenvolvimento 
depende da co-evolução com outras instituições culturais, tais como comunicação, direito, tecnologia da 
informação, medição, etc formando, assim, sistemas estáveis em um nível social e coletivo. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 8 
Adicionalmente, a contabilidade deve co-evoluir com nossa composição biológica e genética com maior 
ênfase às habilidades cognitivas e funções cerebrais ao longo do tempo. Assim, entender a evolução 
humana ajuda a entender a evolução da contabilidade e vice-versa. 
 
1.2.2 Antiguidade: antigos sistemas organizados 
Segundo Hain (1966), um antigo papiro encontrado em 1915, conhecido como “Papiro de Zenon” 
– sendo Zenon, um grego que ocupou o cargo de chefe executivo em Apolônio, Egito, 256 a.c. – mostrou 
evidências de que os gregos já utilizavam sistemas elaborados de registros contábeis cinco séculos antes de 
Cristo. O modelo grego de controle, que apresenta informações sobre a construção de projetos, atividades 
agrícolas e atividades mercantis, se espalhou pelas regiões do oriente médio e leste do mediterrâneo. 
Conforme essas áreas foram sendo conquistadas pelos Romanos, esses também passaram a adotar o 
sistema grego com algumas modificações. Esse método de controle prevaleceu ente as administrações 
públicas e privadas até a queda do império romano após as invasões bárbaras e islâmicas (Hain, 1966, 
p.699). 
Vollmers (2009) mostra que Império Persa, entre 509 e 494 a.c., também possuía sistema 
elaborado de controle de bens em blocos de argila (um “tablet" da antiguidade), especificamente, 
suprimentos alimentares, que eram distribuídos por pessoas específicas para regiões específicas. Tais 
controles de quantidade física e pessoas envolvidas na distribuição eram sistematicamente anotados e 
monitorados. 
Uma característica geral para as sociedades antigas é que elas estavam baseadas, 
substancialmente, em regimes de subsistência, escambo e comércio localizado. Para tanto, não eram 
necessários sistemas contábeis altamente sofisticados ou que fossem aplicados em diversos locais e 
diversas situações de forma sistemática e padronizada. Basicamente, a contabilidade passava pelo controle 
de mercadorias e não havia um rigor na medição com base em denominador monetário comum. Os 
usuários da informação eram os próprios donos dos ativos e os governos que buscavam tributação. Não 
havia uma ideia rígida de período contábil. Porém, com a evolução econômica e social, esse cenário mudou 
especialmente na alta idade média. 
 
1.2.3 Idade média e renascimento: a contabilidade como conhecemos hojeA idade média é o período que compreende a queda do império romano até o renascimento 
cultural, comercial e início das grandes navegações Mais formalmente, aceita-se que a idade média se 
encerra com a queda de Constantinopla em 1453. Porém, diversos outros eventos relevantes fazem a 
transição da idade média para a idade moderna, tais como a viagem de Cristóvão Colombo à América em 
1492 ou a viagem de Vasco da Gama à Índia em 1498. O ponto principal é a mudança no panorama da 
sociedade e da economia. 
O início da idade média (chamada de baixa idade média), especificamente a Europa e leste do 
mediterrâneo, foi um período considerado “era da estagnação” ou “idade das trevas”. A Europa estava 
dividida e as atividades produtivas e comerciais eram bastante restritas devido a constantes ataques dos 
chamados “bárbaros”2, especialmente os vindos do norte da Europa, e dos árabes, vindos principalmente 
do norte da África. A insegurança e a forma desigual na qual a sociedade estava estruturada (com senhores, 
servos e clero) limitaram por muito tempo as formas mais complexas de comércio e de produção. Os 
senhores feudais basicamente realizavam a contabilidade e esta servia como um instrumento de avaliação 
e controle de suas riquezas, havendo delegação de funções no desenvolvimento das atividades 
profissionais. 
No entanto, com o início das cruzadas, houve aumento do fluxo de pessoas, mercadorias e 
recursos entre o ocidente e o oriente. Com isso algumas cidades italianas tiraram proveito de suas posições 
 
2 A denominação de bárbaros era dada pelos romanos a todos os povos que não tinham influencia da língua e da 
cultura romana. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 9 
privilegiadas em relação à prática do comércio, especialmente as cidades de Genova e Veneza que 
mostraram uma efervescência comercial sem precedente, surgindo, inclusive uma nova classe social: os 
burgueses. Com as profundas alterações na estrutura social, iniciou-se a segregação entre propriedade e 
gestão/execução das atividades comerciais, produtivas e intelectuais: a Europa chega ao seu momento de 
renascimento. 
Cada vez mais o comércio se mostrava uma atividade lucrativa e uma grande necessidade de 
recursos era necessária para financiar o comercio, afinal havia grande demanda por produtos que não era 
suprimida. Assim, maiores recursos envolvidos, maiores segregações de atividades profissionais e 
especialização em determinadas áreas geraram necessidade de maior controle e maiores informações para 
tomada de decisão. Nesse cenário é que, no final do século XV, Frei Luca Pacioli publicou o livro: ‘Summa de 
Arithmetica, Geometria, Proportioni et Proportionalita’ em 10 de novembro de 1494, essa obra, 
especificamente em seu capítulo ‘Tractatus de Computis et Scripturis’ deu origem à base de escrituração 
contábil como a conhecemos até hoje: por meio da introdução do método das partidas dobradas. Portanto, 
os italianos são considerados os “pais da contabilidade moderna”. 
Apesar de indícios de que as partidas dobradas surgiram por volta de 1200, foi de Luca Pacioli a 
primeira exposição completa do método contábil por partidas dobradas a partir do inventário. Na época, os 
números negativos eram considerados absurdos e fictícios, daí a engenharia de controle considerando a 
subtração por oposição. 
 
1.2.4 As grandes navegações: o surgimento das Companhias 
As grandes navegações impulsionaram fortemente a contabilidade. Com elas, ampliou-se a 
separação entre propriedade e gestão e criou-se uma grande necessidade de capital para financiar as 
expedições. Foi nessa época, por volta de 1600, que houve o surgimento das grandes companhias de 
navegação com a criação da Companhia das Índias Orientais (East India Company) em 1600, na Inglaterra, e 
a Companhia Holandesa das Índias Orientais (Dutch East India Company) em 1602, sendo essas 
consideradas extensões das commendas italianas e predecessores das sociedades por ações modernas. 
No caso inglês, Napier (2010) sugere que o método de contabilização por meio das partidas 
dobradas surgiu da influência de mercadores italianos que atuavam em Londres e outras cidades inglesas. 
Somente no século XVI foram impressos os primeiros livros em primeiro Inglês sobre o método das partidas 
dobradas, conhecido como o "método italiano". Já o conceito legal de “corporação” ou “sociedade 
anônima” – sendo uma pessoa artificial existindo separadamente de seus membros constituidores e que 
continuaria a existir mesmo que os membros constituidores mudassem – já existia na idade média, mas era 
restrito alguns órgãos públicos e religiosos. Dessa forma, corporações entendidas como entidades 
empresariais tiveram seus inícios com autorizações do reino inglês para exploração de atividades 
monopolísticas específicas, como o caso da Companhia das Índias Orientais. 
Como a Companhia das Índias Orientais passou a ser um negócio lucrativo e que demandava 
grandes volumes de investimento, começou-se a controlar os ativos não mais por “empreitada” (projetos 
específicos de navegação e exploração) mas sim pelo total acumulado durante um período de tempo 
(período contábil). Ao final desse período, havia apuração e distribuição dos resultados, não de uma única 
empreitada, mas de todos os resultados obtidos no período de acordo com a participação no capital, 
iniciou-se o processo de distribuição de lucros e pagamento de dividendos de acordo com a parcela 
proporcional de capital empregado. 
Assim, com empresas operando em processo de continuidade por diversos períodos, foi 
necessário desenvolver registros e demonstrações contábeis que refletissem contribuições contínuas ou 
periódicas de capital e que resumisse o resultado da operação em determinados intervalos de tempo. 
Nesse contexto, visando separar o desempenho (resultado) de diferentes períodos dos investimentos de 
capital, houve também a separação entre a demonstração do resultado e o balanço patrimonial (Schroeder, 
Clark e Cathey, 2011). Adicionalmente, houve a necessidade de tornar públicas as demonstrações contábeis 
criando a figura da demonstração financeira para usuários externo e para fins gerais. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 10 
Portando, do ponto de vista contábil, a Companhia das Índias Orientais (inglesa) e teve grande 
importância pois “mudou de uma corporação empresarial que proporcionava aos proprietários o retorno 
do capital mais um lucro, para algo que gerava retorno sobre o capital na forma de dividendos regulares” 
(Napier, 2010). 
Neste ponto, importante apontar uma hipótese apresentada na literatura contábil e econômica: 
foi com (1) a criação das “corporações” (sociedades anônimas) e com (2) o método das partidas dobradas e 
a apuração do retorno sobre o capital, precisamente calculado, possibilitaram a criação das corporações 
modernas e, consequentemente, possibilitaram a criação da economia capitalista moderna. 
 
Neste contexto, a contabilidade deixa de ser uma mera resposta à demanda dos usuários por 
informação, mas passa a ser um meio para o desenvolvimento da sociedade moderna. Em outras palavras, 
a contabilidade criou ambiente informativo propício para o surgimento do capitalismo e dos mercados de 
capitais modernos. 
Essa hipótese sempre será alvo de discussão e contestação, e talvez nunca tenhamos uma 
resposta definitiva para ela, afinal, do ponto de vista científico essa não é uma hipótese testável, porém, é 
possível encontrar argumentos, evidências e sugestões que tendam a corroborar ou refutar esse 
argumento. 
 
1.2.5 Revolução Industrial: do comércio à indústria e o mercado de capitais 
Com a revolução industrial, entre 1760 e 1820, outros grandes passos foram dados do ponto de 
vista contábil. As colônias na América e Ásia já estavam constituídas e gerando recursos para grandes 
empresários. No entanto, com o adventoda revolução industrial e da produção em série, torna-se nítida a 
grande mudança que se instaurou na sociedade em geral: a atividade econômica principal passa de uma 
base comercial para uma base industrial, onde torna-se necessário apurar custos de produção e otimizar 
processos produtivos. Assim, surgiram novos conceitos na contabilidade, tais como: rateios, custos, 
depreciação, capital. 
 Com a revolução industrial a contabilidade gerencial, com característica detalhada e refinada, 
especificamente na gestão de custos de produção, ganhou extrema relevância. Associado à mudança no 
perfil econômico, houve crescimento substancial da demanda por recursos para financiamento das grandes 
empresas, especialmente em empresas ferroviárias e metalúrgicas. Com a maior demanda por capital, 
houve maior necessidade de captação de recursos junto ao público em geral, isso influenciou diretamente 
no crescimento e desenvolvimento do mercado de capitais e, com isso, houve a necessidade de maior 
formalidade da contabilidade na prestação de contas sobre o desempenho das atividades operacionais. 
Assim, vultuosos recursos captados impulsionaram o mercado de títulos e valores mobiliários negociáveis, 
mas como contrapartida demandaram adequada remuneração do capital empregado e detalhada 
prestação de contas ao público investidor. O Código Comercial Francês de 1673, por exemplo, determinava 
que todas as empresas deveriam elaborar demonstrações contábeis a cada dois anos. 
No entanto, nesse período (séc. XIX e começo do sec. XX) a profissão contábil não estava 
adequadamente estruturada e diversos conceitos contábeis não estavam bem definidos, criando espaço 
para diversas interpretações e diversas metodologias de mensuração, reconhecimento e evidenciação 
contábil. Até 1915, por exemplo, o conceito de lucro não estava devidamente formalizado e desenvolvido; 
sendo que a primeira tentativa de organizar a profissão contábil e criar padrões gerais de contabilidade 
ocorreu em 1904 com o Congresso Internacional de Contadores organizado por contadores norte-
americanos (Schroeder, Clark e Cathey, 2011). 
Iniciava-se, portanto, em meados de 1910, uma tentativa de organizar e sistematizar as práticas 
contábeis entre empresas e ao longo do tempo; ou seja, buscava-se consistência das demonstrações 
contábeis e a busca por princípios gerais para elaboração e divulgação de relatórios contábeis para o 
público em geral. No entanto, muitos críticos da época sugeriam que a informação contábil era muito mais 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 11 
voltada para atender a gestão interna da empresa do que de prestação de contas ao público externo; com 
isso permitia-se muita flexibilidade na publicação dos relatórios contábeis. Esse era o grande desafio 
enfrentado por contadores e investidores no começo do século XX. 
 
1.2.6 Crise de 1929: a maior crise contábil 
Foi na primeira metade do séc. XX que a contabilidade conheceu seus principais pensadores nas 
principais escolas contábeis incluindo a norte-americana, europeia, árabe e asiática (Japão, 
principalmente). Aos interessados, Edwards (1994) dedica toda uma obra a estudar os principais 
pensadores do séc. XX, de muitos países e escolas contábeis diferentes (ao todo 19 influentes teóricos). Em 
linhas gerais, o mercado de capitais assumia um papel de destaque no financiamento produtivo das 
empresas em diversos países do mundo, sendo esse movimento foi mais proeminente nos EUA. Foi 
principalmente, com a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929, em que ficou clara a necessidade de que a 
contabilidade deveria desempenhar papel fundamental na quebra da assimetria informacional entre 
gestores/administradores e investidores. Adicionalmente, a contabilidade deveria monitorar contratos 
entre os diversos agentes envolvidos na atividade operacional e financeira das empresas. 
A consequência da Crise de 1929 foi dramática, principalmente nos Estados Unidos, onde muitas 
famílias ricas simplesmente faliram do dia para a noite e as famílias de classe mais baixa passaram por 
problemas ainda maiores com a falta de itens básicos como alimentação, saúde, emprego. Como resposta 
direta à quebra da bolsa, os Estados Unidos, no que naquele momento já possuíam o maior mercado de 
capitais do mundo, iniciaram uma série de medidas para organizar o mercado de capitais e melhorar as 
práticas contábeis: foi dado início a uma série de reuniões entre a Associação Americana de Contadores 
(AAA) e a Bolsa de Valores de Nova Iorque (NYSE) para desenvolvimento de princípios gerais de 
contabilidade que deveriam ser seguidos pelas empresas; foi criada a SEC – Securities and Exchange 
Commission; foram criados mecanismos de proteção aos agentes do mercado de capitais por meio de 
controles e fiscalização mais rigorosos; formação e fortalecimento do que viria a ser no presente o 
American Institute of Certified Public Accountants (AICPA); criação de um Comitê de Procedimentos 
Contábeis etc. 
A partir dessas iniciativas, deu-se início ao desenvolvimento uma estrutura conceitual básica de 
contabilidade, de forma organizada e estrutura, para fins de divulgação financeira. Devido à necessidade de 
representação democrática dos diversos agentes interessados em na regulação da contabilidade, em 1973 
foi criado o FASB – Financial Accounting Standards Board, que possuía em sua estrutura representantes de 
diversas organizações e membros atuantes em tempo integral ao desenvolvimento de normas contábeis. 
 Com uma base participativa que convergia interesses dos diversos agentes de mercado, a 
estrutura conceitual norte-americana se destacou muito em relação às demais práticas contábeis ao redor 
do mundo, especialmente pelo forte apelo do mercado de capitais norte-americano. No entanto, esse 
modelo contábil era diverso do restante dos demais países do mundo, e isso ficou bastante evidente 
quando diversas empresas de países ao redor de todo o mundo passaram a listar seus títulos no mercado 
de capitais norte-americano. 
 
1.2.7 A Revolução Tecnológica e a Internacionalização do Mercado de Capitais 
Recentemente, durante a década de 80, o mundo passou por uma grande transformação 
tecnológica: microcomputadores com alta capacidade de armazenamento e processamento de dados 
começaram a ser desenvolvidos. Sistemas de rede e transmissão em tempo real de dados tiveram um papel 
fundamental na otimização das atividades empresarias, na geração de informações e na 
internacionalização dos mercados de capitais. 
Investidores dispersos geograficamente passaram a ter informações sobre oportunidades de 
investimentos e passaram a ter acesso a um fluxo cada vez mais facilitado de recursos financeiros entre os 
diversos países. Assim, durante os anos 90, surge uma verdadeira economia global e essa integração de 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 12 
mercados deixou claro que as práticas contábeis eram extremamente diferentes e geravam resultados 
completamente díspares entre países. 
Frente à grande diversidade de padrões contábeis, verificou-se a necessidade de se criar, 
internacionalmente, uma estrutura conceitual similar ente os diversos países para fins de publicação de 
relatórios financeiros. Nesse momento, ganha forma o IASB – International Accounting Standards Board, 
criado em 2001 como sucessor do IASC – International Accounting Standards Committee. O IASB passou a 
ser responsável por desenvolver as Normas Internacionais de Contabilidade - IFRS (International Financial 
Reporting Standards). 
As IFRS são atualmente utilizadas para elaboração de relatórios contábeis e financeiros na grande 
maioria das economias mais representativas do mundo. Com isso foram reduzidas as discrepâncias entre 
diversos métodos contábeis distintos. 
 
1.2.8 Afinal, o que concluirmos ao estudar a história da contabilidade? 
Em resumo, os fatos históricos aqui relatados são pontuais e representaram apenasos maiores 
impactos nas práticas contábeis ao longo dos tempos. No entanto, a grande conclusão que se chega é que a 
contabilidade está em constante evolução para acompanhar a também constante evolução da economia e 
da sociedade. A Contabilidade é, portanto, reflexo das interações e das circunstâncias econômicas e sociais. 
Na verdade, a contabilidade pode ser entendida não só como uma mera resposta à demanda dos 
usuários por informação, mas sim um meio para o desenvolvimento da sociedade moderna, uma vez que a 
contabilidade cria condições e ambiente informativo propício para o surgimento e a evolução da econômica 
como um todo. 
Ilustrando: assim como o diagnóstico na medicina evoluiu de uma simples avaliação médica 
manual para técnicas mais elaboradas como raio-x, tomografia e ressonância magnética, a contabilidade 
também evolui com um único objetivo: fornecer o melhor conjunto possível de informação para o 
diagnóstico a tomada de decisão. Certamente, em ambas as áreas, a pesquisa, a tecnologia, a prática e o 
tempo criarão formas cada vez mais acuradas para gerar informação. Afinal, as ferramentas de medição 
evoluem por conta da evolução da medicina ou é a medicina que evolui devido às ferramentas mais 
sofisticadas de medição? 
Hopwood (1987) ilustra essa interdependência entre as mudanças no ambiente (mercado) e as 
mudanças contábeis, sob o ponto de vista organizacional, conforme apresentado da Figura 1. Do ponto de 
vista organizacional, ao mesmo tempo em que a contabilidade possui papel crucial na mediação de novas 
políticas de produção, pode ser entendida como a resultante de uma complexa interação das estratégias 
organizacionais, de marketing e de produção. 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 1 – Contabilidade inserida nas ações organizacionais (Hopwood, 1987, p.222) 
 
Assim, a contabilidade é, de fato, parte dos sistemas organizacionais e não pode ser entendida 
nem concebida de forma separada das instituições. Da mesma forma, as instituições não podem ser 
Mudança 
no 
Mercado 
Mudança 
nas políticas 
de produção 
Mudança 
Organizacional 
Mudança no sistema 
de informação 
Mudança 
Contábeis 
Mediação 
contábil 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 13 
concebidas de forma independente da contabilidade: a contabilidade promove governabilidade às 
estratégias e contratos das instituições. A contabilidade é ao mesmo tempo causa e efeito das mudanças 
organizacionais, sociais e econômicas. 
Aspectos adicionais poderão ser obtidos em: HOPWOOD (1983, 1987), Nahapiet (1980) e Roberts 
(2014). 
 
 
1.3 Contabilidades: Financeira, Gerencial, Tributária e Pública 
Como visto, a contabilidade visa suprir de informações úteis os diversos agentes envolvidos não 
processo de tomada de decisão (são os usuários da informação contábil). Considerando que as 
necessidades por informação dos diversos usuários são diferentes, a contabilidade pode assumir diferentes 
características e funções. Da mesma forma, as características do processo contábil podem variar de acordo 
com a entidade que está sendo analisada, por exemplo, entidades públicas ou providas, com ou sem fins 
lucrativos, entidades financeiras e não-financeiras etc. Nesse sentido, é possível identificar alguns 
direcionamentos da técnica e da pesquisa contábil, a seguir são elencados três grandes grupos de acordo 
com seus usuários: 
Contabilidade Financeira (ou Societária): tem como objetivo prover informações para os usuários 
externos de maneira geral, ou seja, não busca atender um usuário em específico mas a maior gama possível 
de usuários. É na contabilidade financeiras que as demonstrações contábeis e financeiras são elaboradas e 
publicadas. Apesar de não haver direcionamento da informação para um usuário específico, tipicamente, a 
contabilidade financeira tende a favorecer aqueles que fornecem capital à empresa, mais especificamente 
investidores, acionistas ou credores. Para tanto, ao divulgarem publicamente as informações financeiras as 
empresas devem seguir, de forma consistente, um conjunto de regras e procedimentos de 
reconhecimento, mensuração e evidenciação que privilegia a apresentação das demonstrações com base 
na essência econômica das operações. Portanto, para fins de contabilidade financeira, as demonstrações e 
relatórios contábeis devem apresentar uma visão verdadeira e apropriada da situação econômica e 
financeira das empresas. 
Mesmo entre os usuários externos, é possível distinguir diversos contextos de decisão. Em geral, 
grandes grupos ganham maior destaque para a contabilidade financeira: os tomadores de decisão voltados 
para o patrimônio líquido (acionistas e títulos de propriedade); os tomadores de decisão voltados para 
operações de crédito e emissão de dívida e os tomadores de decisão voltados para remuneração do quadro 
diretivo. Assim, mesmos outros tomadores de decisão utilizam informação contábil. Os gestores da 
companhia e funcionários frequentemente precisam dessa informação para desenvolver seus controles de 
rotina sobre as operações. 
Portanto, a contabilidade financeira fornece informação para diversos usuários com diferentes 
propósitos, ou seja, as demonstrações são elaboradas para propósitos gerais. 
 Contabilidade Gerencial: envolve o desenvolvimento e interpretação de informação contábil 
para fins específicos do gerenciamento das atividades operacionais e financeiras das empresas. Os gestores 
utilizam informação contábil para uma diversidade de fins, tais como avaliação de desempenho das 
diversas unidades de negócios, das diversas áreas e subáreas das empresas e dos indivíduos. Normalmente, 
a contabilidade gerencial fornece informações sobre a introdução ou a exclusão de determinada linha de 
produtos e serviços de acordo com as o consumo de recursos e contribuições geradas por cada produto e 
diversos outros aspectos das operações empresariais. 
A grande parte das decisões é de caráter financeiro, no entanto, a contabilidade gerencial 
também tem como papel gerar informações e fatore de natureza não financeira, como market share, 
capacidade produtiva, aspectos políticos, sociais e ambientais, imagem da empresa, atuação de 
concorrentes, produtividade dos trabalhadores etc. No entanto, uma vez que todas decisão envolve 
considerações financeira, normalmente a maior parte dos sistemas de informação gerencial tem caráter 
financeiro. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 14 
Muitas empresas de fato mantem sistemas avançados de sistema de informações gerenciais que 
proporcionam as informações requeridas para a gestão do negócio. Diferentemente das informações 
geradas pela contabilidade financeira, a contabilidade gerencial tem caráter mais analítico, específico, 
detalhado e customizado, uma vez que os sistemas de informação gerencial variam em função de cada tipo 
de empresa, dependendo da estrutura e cultura organizacional. 
Do ponto de vista teórico, uma vez que não há padronização das decisões gerenciais, não uma 
teoria que diga como a contabilidade gerencial deve ser. Normalmente, os estudos estão baseados no 
impacto da informação gerada pelos diversos sistemas e artefatos gerenciais na tomada de decisão dos 
gestores. São também tradados de aspectos temporais das decisões e sistemas de incentivo e remuneração 
dos gestores. 
Contabilidade Tributária (ou Fiscal): Especialmente após a separação formal da contabilidade 
financeira da contabilidade tributária, a atuação da contabilidade tributária no processo de apuração do 
lucro tributável passou a ser fundamental. No entanto, a contabilidade tributária não se limita a apuração 
do lucro para fins tributários mas principalmente no processo de planejamento tributário, ou seja, 
antecipar os efeitos tributários gerados pelas diversas decisões operacionais das empresas. Por exemplo, 
abrir (ou transferir) uma unidade produtiva onde sejamaplicados benefícios fiscais; utilizar meios logísticos 
que minimizem o impacto fiscal das operações etc. 
No Brasil, a contabilidade tributária sempre exerceu grande influência na contabilidade financeira 
e muitas vezes as disciplinas eram analisadas conjuntamente (apesar da nítida especialização da 
contabilidade fiscal). Atualmente a contabilidade tributária tem características mais próprias e não 
emprega todos os conceitos da contabilidade financeira (e nem deveria devido a diferença de propósitos), 
no entanto, há grande desafio para os profissionais e pesquisadores em contabilidade tributária: a difícil 
adequação e acompanhamento das contínuas e volumosas mudanças e exigências tributárias. É sabido que 
o Brasil é um dos países onde se gasta maior números de horas para se cumprir aspectos burocráticos, 
formais e tributários. 
Ao mesmo tempo em que a contabilidade tributária gera grandes desafios, também gera grandes 
oportunidades tanto em termos profissionais como em termos de pesquisa científica. Trata-se de uma área 
que, não fossem as constantes incertezas geradas pelo governo, a seria melhor explorada, inclusive do 
ponto de vista internacional. 
 
Questões: 
1) O que é contabilidade? 
2) O que é e como é dividido o Processo Contábil? 
3) O que são os Princípios Contábeis Geralmente Aceitos? Qual sua importância? 
4) Por que a contabilidade não é totalmente objetiva? 
5) Por que o renascimento, as grandes navegações e a revolução industrial são relevantes para entender 
a evolução da contabilidade? 
6) Como a crise de 1929, com a quebra da bolsa de Nova York influenciou o desenvolvimento contábil? 
7) Qual a principal conclusão podemos chegar ao estudar a história da contabilidade? 
8) Caracterize contabilidade financeira, gerencial e tributária. 
 
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 RENÊ COPPE PIMENTEL 16 
2 
O Ambiente da Contabilidade 
 
 
 
Objetivos do capítulo: 
Apresentar a contabilidade como uma função do ambiente no qual está inserida 
Apresentar e discutir a ideia da firma como um conjunto de contratos (teoria contratual da firma) 
Discutir o papel da contabilidade da teoria contratual da firma 
Apresentar e discutir a teoria de agência e o papel da contabilidade 
Apresentar e discutir as hipóteses de mercado eficiente e seus impactos para a contabilidade 
Discutir como os diferentes modelos de governança corporativa influenciam na contabilidade 
 
 
 
Este capítulo discute quando e por que a contabilidade é importante. Apresenta aspectos que 
fundamentam a existência da contabilidade e justifica seu uso no processo de tomada de decisão sob três 
principais óticas: (1) a contabilidade como ferramenta de controle na execução de contratos (poder de 
feedback ou stewardship); (2) a contabilidade como ferramenta de quebra de assimetria informacional e (3) 
a contabilidade como ferramenta de projeção de desempenho futuro. 
 A teoria da firma e a teoria organizacional estão diretamente preocupadas com o 
comportamento das pessoas ao buscarem alcançar determinados objetivos por meio da manipulação das 
diversas variáveis a sua disposição. Assim, os indivíduos usariam essas variáveis a sua disposição de forma 
ótima, racional ou eficiente para alcançar seus objetivos individuais e/ou objetivos coletivos (Simon, 1979). 
Porém, não há uma forma única ou perfeita para se modelar o conjunto de variáveis e conjunto de 
interesses individuais e coletivos; da mesma forma, não há uma única forma de medição ou de geração 
informações úteis para monitoramentos de contratos e tomada de decisão. 
Padronização de certos aspectos da informação contábil captura ganhos da coordenação social. 
Porém é difícil dizer oque é bom para um indivíduo, da mesma forma que é difícil dizer o que é bom para a 
sociedade como um todo (Sunder, 1997). Assim, a utilidade da informação depende do usuário. Porém, 
tipicamente, a mesma informação utilizada pelos investidores na tomada de decisão é utilizada para avaliar 
o desempenho dos gestores. Nesse contexto, surgem os dilemas enfrentados pela contabilidade no 
processo de reconhecer, mensurar e evidenciar informação. Os investidores demandam informações que 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 17 
possibilitem investimentos eficientes em empresas, especialmente aquelas listadas no mercado de capitais. 
Com isso, mensurações a valor corrente, ao invés de custo histórico, tendem a ser mais informativas sobre 
a situação atual dos ativos e passivos da entidade, e seu consequente desempenho futuro. 
Do ponto de vista da mensuração do desempenho dos gestores, o objeto principal da avaliação é 
informação sobre a atuação eficiente dos gestores na administração dos recursos investidos. Nesse caso, 
valores correntes, por serem tipicamente mais voláteis e gerarem resultados que não estão diretamente 
relacionados à atuação dos gestores, não representam a medida mais informativa sobre a eficiência da 
atuação dos gestores. 
Com isso, a divulgação financeira assume dois principais papeis que muitas vezes são conflitantes 
entre si: o de monitoramento e avaliação do valor da empresa e o de avaliação de desempenho gerencial 
(stewardship). 
 
2.1 A Teoria Contratual da Firma 
Desde a formação das companhias modernas, com dissociação entre gestão e propriedade, houve 
crescente complexidade do ambienteinterno e externo às empresas. Segundo a teoria da firma, as 
companhias surgiram de uma necessidade coordenação econômica entre indivíduos diversamente 
especializados e que operam em uma economia de mercado. Portando, cada indivíduo ou grupo de 
indivíduos desempenharia um papel na organização econômica que adquire e gerencia recursos para 
produzir produtos e serviços desejados pelo mercado. Assim, essa organização econômica do processo 
produtivo seria feita por meio das organizações (firmas). 
Por exemplo, imagine que um indivíduo precise de um empréstimo para comprar sua casa. A 
princípio, ele pode obter esse dinheiro de qualquer um de seus amigos ou conhecidos, no entanto, ele teria 
que perguntar a cada um deles se eles têm dinheiro e se têm interesse em emprestar. Pode acontecer que 
nenhum de seus conhecidos tenha dinheiro ou interesse de emprestar, então o indivíduo vai perguntar aos 
conhecidos dos conhecidos e assim por diante. Acontece que identificar as pessoas que poderiam fazer o 
empréstimo, ainda que parcial, demoraria muito tempo e demandaria grande esforço (isso sem contar na 
desconfiança entre as partes, principalmente do credor, que entrega o dinheiro). Imagine ainda que fossem 
necessários diversos empréstimos, com contrapartes diferentes, para aquisição do imóvel. É nesse 
momento que surgem os bancos (Fig. 2.1) como agentes especializados em captar dinheiro e emprestar 
para aqueles que demandam dinheiro (e que deverão pagar no futuro, evidentemente). Nesse caso, apenas 
um contrato será firmado entre banco e o indivíduo e o contratual será mais facilmente monitorado. Para 
tanto, os bancos, na qualidade de organização econômica, vão cobrar uma taxa (lucro) para exercer essa 
atividade. 
 
Figura 2.1 – Bancos: organização econômica entre indivíduos 
para realizar captação e empréstimos 
 
Obviamente, as organizações não têm substância física propriamente, são “abstrações 
contratuais”. Por exemplo, um único indivíduo (pessoa) não poderia fazer consulta a todos os demais 
indivíduos de uma sociedade sobre a necessidade de emprestar ou tomar dinheiro emprestado. Muito 
provavelmente ele precisaria de ajuda que, em uma corporação tradicional, poderia vir por meio de um 
sócio, que dividiria as atividades e ganharia partes de um lucro possivelmente variável, ou um funcionário 
que receberia remuneração em maior parte fixa (ignore a questão do aporte de capital por enquanto). Em 
ambos os casos haveria um contrato, ou de sociedade, ou empregatício. No primeiro caso, como apurar a 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 18 
parcela que cada um teria direito? No segundo caso, vale apena ter funcionários ou sócios? Nessas 
questões entra a contabilidade. 
Já nas corporações modernas, os proprietários (tipicamente os acionistas) estão dispersos e 
contribuem principalmente com aporte de capital, não participando, de fato, de aspectos operacionais. 
Dessa forma, eles (proprietários) delegam a gestão operacional da empresa e não possuem capacidade ou 
incentivos de controlar todas as atuações dos gestores de forma eficiente. Acontece que os gestores 
tendem a agir em seu próprio interesse em detrimento dos interesses dos proprietários e dos demais 
agentes econômicos. Desse modo, ao invés de gerar eficiência à coordenação econômica e redução de 
custos de transação, haveria desequilíbrio entre os agentes pelo não cumprimento adequado dos 
contratos. 
Para Simon (1952), as organizações podem ser entendidas como grupos de contratos entre 
diversos indivíduos relacionados a vários fatores de produção em que os indivíduos são motivados por 
objetivos individuais, porém não egoísta, na busca pela otimização de seus esforços. Nesse sentido, a 
Teoria Contratual da Firma considera que as empresas são formadas com base em contratos privados, onde 
o papel do estado é limitado a zelar pelo correto cumprimento dos contratos. Dessa forma, as diversas 
partes (agentes) são livres para firmarem acordos em conformidade aos seus interesses e cada contrato 
deve possuir proteção legal e constitucional. 
Portanto, os contratos são, na verdade, resultado de ações cooperativas entre os agentes para 
obtenção de um beneficio final comum a todos os participantes. Assim, a empresa poderia ser entendida 
como um conjunto de contratos entre diversos agentes econômicos e mesmo que haja conflito entre os 
diversos agentes, há também interesse de cooperação para se chegar a acordos comuns que as partes 
consideram individualmente adequadas. Portanto, cada agente relacionado com a empresa contribui para 
seu funcionamento e manutenção e espera certa remuneração (também usados os termos direitos, 
incentivos ou payoff, nas páginas adiante) por seu esforço. 
Simon (1952) exemplifica isso com uma organização com apenas um empreendedor 
(proprietário/acionista) um empregado e um consumidor (cliente). O sistema pode ser representado por: 
 
Quadro 2.1 – Tipos de agentes, suas contribuições e direitos 
Tipo de Agente Contribuições Direitos/Incentivos/Remuneração 
Empreendedor 
Custo da produção (capital no 
início) Receitas com vendas 
Empregado Trabalho Salário, benefícios 
Consumidor Preço de pago pelo produto Mercadorias 
 
E fácil perceber que o empreendedor não incorreria em custos de um projeto se não houvesse a 
perspectivas de geração de receitas, da mesma forma, o empregado só trabalharia se tivesse a perspectiva 
de recebimento de salário e benefícios e o consumidor só desembolsaria seus recursos caso tivesse 
interesse pelo produto mediante preço estabelecido. Tratam-se, portanto, de esforços colaborativos e 
complementares. 
Em um ciclo inverso, o consumidor, ao pagar pelas mercadorias, proporciona ao empreendedor 
sua receita que viabiliza seus custos de produção e, por sua vez, possibilita ao empreendedor pagar o 
salário ao funcionário, uma vez que o funcionário viabilizou a transformação de produtos que possibilitou a 
geração da receita. 
Claramente, temos um sistema em que cada participante tem seu interesse e seu custo de 
oportunidade. O consumidor pode comprar mercadorias de outras empresas com características ou preços 
diferentes; o funcionário pode trabalhar para outras empresas com salário maior ou carga de trabalho 
menor, e o empreendedor pode optar por projetos que sejam mais lucrativos. Inicia-se aí, a partir do 
resultado de forças de oferta e demanda, um complexo sistema de equilíbrio, em que TODOS os agentes 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 19 
buscaram maximizar seus benefícios individuais até que um equilíbrio seja atingido. Como isso, a forma, o 
montante e o período dos recursos e contribuições que um indivíduo aloca e os direitos esperados são 
motivos de negociação ou barganha entre as partes. 
No entanto, cabe lembrar que sempre haverá custos e riscos associados ao processo, 
especialmente custos relacionados à identificação de outros indivíduos para criação de novos esforços 
colaborativos. Por exemplo, para o consumidor haverá custos para identificar novos fornecedores, 
descobrir preços e avaliar a qualidade dos produtos e sempre há o risco de comprar mercadorias com 
qualidade inferior. Da mesma forma, o empreendedor tem custos para encontrar e manter funcionários e 
consumidores. Funcionários, apesar de muitas vezes protegidos pela legislação trabalhista, têm custos para 
identificação de novo empregador e sempre haverá incerteza na troca de empregador (entra aqui outros 
aspectos relacionados a assimetria de informação que será tratado adiante). 
Um ponto crucial para a teoria dos contratos diz respeito às condições em que os indivíduos 
continuarão a participar de um contrato de colaboração. É possível dizer que cada indivíduo permanecerá 
na organização se a sua satisfação (ou utilidade) gerada a partir dos incentivos (direitos) líquidos forem 
maiores que a contribuição (utilidade) percebida caso ele escolha sair da firma, e assimterminar sua 
relação cooperativa (Simon, 1952). 
Desta forma, a estabilidade de uma organização (firma) depende se sua habilidade de 
proporcionar incentivos suficientes aos indivíduos para que eles considerem mais desejável participar da 
organização do que sair dela. Assim, a firma nada mais é do que um grande conjunto de acordos 
cooperativos contratuais (que podem ser formais ou não). Como complemento ao exemplo anterior, o 
Quadro 2.2 a seguir apresenta as contribuições e os direitos de alguns dos principais tipos de agentes 
envolvidos em contratos com a empresa: 
 
Quadro 2.2 – Tipos de agentes, suas contribuições e direitos (Sounders, 1997, p16) 
Tipo de Agente Contribuições Direitos/Incentivos/Remuneração 
Acionista Capital Dividendos 
Administrador Habilidades Salário, bônus, benefícios 
Credor Financiamento Juros, principal 
Empregado Habilidades Salário, bônus, benefícios 
Fornecedor Bens, serviços Caixa 
Cliente Caixa Bens, serviços 
Governo Ações públicas Impostos 
Auditor Serviços Honorários 
Fonte: Sounder (1997, p16) 
 
Assim, o funcionamento adequado da empresa depende do equilíbrio contratual estabelecido 
entre as diversas partes. Para um indivíduo ingressar em um contrato cooperativo com outros, formando a 
empresa, deverá ser levado em conta: (1) qual contribuição ele tem a oferecer, (2) qual direito ele terá e (3) 
quais as alternativas disponíveis para ele no momento do ingresso. Um agente racional não entrará em um 
contrato que prometa menos do que as melhores alternativas disponíveis e conhecidas. Porém, na 
prática, há problemas no estabelecimento e na execução dos contratos uma vez que esses contratos são 
firmados e operados em condições de incerteza que podem advir de informações imperfeitas ou 
informações incompletas. 
Em ambientes e contratos operados com condições de informação imperfeita, as regras são 
claras e todos os participantes as conhecem, porém um agente não conhece as ações dos outros agentes. 
Por exemplo, investir na bolsa de valores: todos conhecem as regras de negociação, sabem que o preço dos 
ativos varia em função de oferta e demanda, porém, um agente não consegue saber, a priori o 
comportamento dos outros investidores em relação àquela ação. Assim, o comportamento do valor da 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 20 
ação vai proporcionar informação sobre os vários eventos e ações dos outros agentes. O mesmo ocorre 
com a informação contábil, ao ser divulgada, ela mostra quais foram as ações dos administradores na 
gestão da empresa, mesmo que esse comportamento não fosse conhecido anteriormente. 
Já em ambientes e contratos operados em condições de informação incompleta, as regras não 
estão totalmente claras e por isso é necessário que haja um agente intermediário. Por exemplo, partilha de 
bens de uma família ou empresa: muitas disputas ocorrem quando membros de uma família se acham, por 
qualquer motivo que seja, com direitos maiores ou diferenciado dos demais. Nesses casos é difícil aplicar 
uma regra clara de partilha, necessitando de um agente intermediário que irá gerenciar o conflito 
indicando as direções mais satisfatórias para a partilha de bens. E o mesmo ocorre com a contabilidade, 
muitos contratos, as vezes firmados entre sócios, não são detalhados o suficiente para englobar todos os 
casos e possibilidades possíveis (inclusive de extinção da empresa), nesse ponto, a contabilidade surge 
como uma forma de mostrar a estrutura do contrato e a posição de cada individuo em relação a ele. 
Além de operarem em condições de informação imperfeita e incompleta, os diversos agentes 
tendem a maximizar seus próprios benefícios individuais em detrimento dos benefícios de terceiros, 
gerando conflitos de agência, que será tratado em detalhes no tópico a seguir. Contudo, considerando que 
a execução de contratos não é perfeita, diversos problemas na execução de contratos podem gerar uma 
variedade de custos contratuais, tais como: 
 Custos de negociação: por exemplo, a contratação de advogados para causas trabalhistas, 
cíveis ou tributárias, negociações com sindicatos etc; 
 Custos de monitoramento dos contratos: por exemplo, honorários de auditorias 
independentes, manutenção de departamentos de controles internos, de cobrança e de 
recursos humanos etc; 
 Custos de prevenção a fraudes: por exemplo, controle de estoque, seguros, sistemas de 
vigilância etc; 
 Custo de renegociação ou violação de contratos: por exemplo, renegociar taxas de 
empréstimos bancários, pagamento de multa por atraso no pagamento de obrigações, 
pagamento de multas por erros ou omissões fiscais etc; 
 Custos de possíveis falências: por exemplo, aumento no custo dos empréstimos devido a 
possibilidade de ‘calote’ ou insolvência da empresa etc 
Com base nos exemplos acima, é fácil perceber que os custos contratuais dependem das 
características econômicas e legais das empresas, tais como, constituição jurídica (sociedade anônima ou 
de quotas de responsabilidade limitada), setor econômico, estrutura de capital (financiamento por meio de 
dívidas ou capital próprio) etc. Para otimização da contribuição da empresa no fornecimento de bens e 
serviços à sociedade e para satisfação dos diversos agentes é desejável que os custos de transação sejam 
minimizados, ou seja, seriam contratos eficientes. 
 
A disputa contínua entre sindicatos e bancos no Brasil 
A cada ano os sindicatos dos bancários no Brasil iniciam processo, muitas vezes caloroso, de negociação salarial 
com os bancos e como resultado há greves e paralizações nos serviços bancários por todo o país. O argumento 
sindical, na maioria das vezes, parece ser sempre o mesmo: o alto lucro dos bancos. Segundo os sindicatos, os bancos 
não estariam repassando seu desempenho crescente de lucro para a criação de novos postos de trabalho e aumento 
salarial. Conforme manchete divulgada em novembro/2013 “apesar dos altos lucros, bancos reduzem agências e 
cortam empregos”1. 
Os bancos por sua vez, alegam que as constantes incertezas no país, tanto por questões econômica quanto por 
ações políticas, dificultam a gestão de riscos e demandam spread3 coerente com essas incertezas enfrentadas. 
Adicionado a isso, existe a grande incerteza no mercado financeiro internacional quando considerado sob a perspectiva 
de um mercado emergente, como o caso brasileiro. Adicionalmente, os bancos alegam que o cenário de queda nas 
taxas de juros nas últimas décadas e a maior concorrência no setor financeiro forçam a contenção de custos das 
instituições financeiras. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 21 
Esse é, portanto, um nítido exemplo de agentes visando maximizar seus benefícios individuais em contratos, 
especificamente em contratos de trabalho. Os trabalhadores, representados por seus sindicatos, buscam maximizar seu 
bem estar enquanto que empregadores buscam atingir seus objetivos de rentabilidade sobre seu capital alocado. Aqui, 
também é nítido o papel da contabilidade no monitoramento dos contratos, os sindicatos acompanham a divulgação do 
lucro visando equilibrar o contrato, de forma que os empreendedores (no caso proprietários e acionistas das instituições 
financeiras) não aumentem significativamente seus benefícios em detrimento daqueles que contribuem e viabilizam, 
com suas aptidões, para o desenvolvimento da atividade bancária (no caso, os funcionários). 
 Tipicamente, após negociação entre as partes, chega-se a um equilíbrio de interesses que satisfaz a utilidade de 
cada participante. É exatamente esse equilíbrio que viabiliza a perenidade das corporações. Caso qualquer uma 
das partes desista integralmente de seus contratos, e não haja substituto para os indivíduos, a firma (no caso 
as instituições financeiras) deixa de existir. 
________ 
1Contraf-CUT “Apesar dos altos lucros, bancos reduzem agências e cortam empregos” 19/11/2013. Acesso em janeiro/2014:http://www.contrafcut.org.br/noticias.asp?CodNoticia=36510. 
2Spread, grosso modo, é a diferença entre as taxas de captação e de aplicação dos bancos e que gera o resultado da 
intermediação financeira (espécie de lucro bruto das instituições financeiras). 
 
A contabilidade tem, portanto, papel fundamental no monitoramento dos diversos contratos 
entre agentes na empresa. Especificamente, a contabilidade financeira tem extrema relevância na 
mensuração da contribuição e na mensuração do direito/remuneração de cada indivíduo. Assim, esses 
contratos vão desde contratos empregatícios entre a empresa e seus gestores, contratos de empréstimos 
entre firma e seus financiadores, até contratos comerciais de fornecimento e compra de bens e serviços. 
Toda argumentação apresentada neste capítulo torna explicito que os diversos contratos de 
cooperação, entre os diversos agentes envolvidos com a firma, possuem naturezas e características 
diferentes. Mas será então que a contabilidade está desenhada para mensurar eficientemente todo tipo 
de contrato? 
É nesse ponto que surgem as diferenças no processo de mensuração contábil. As contribuições e 
direitos dos diversos indivíduos não são mensurados de maneira homogênea. Do ponto de vista contatual, 
a mensuração das contribuições e dos direitos de cada agente é simples e direta, por exemplo, numero de 
horas trabalhada, volume de produção, volume de vendas etc. Entretanto, contratos que possuam a 
geração de riqueza ou outra variável não observável de forma direta ou objetiva são mais custosos e 
complexos para se mensurar. 
O custo para se produzir medidas específicas para o monitoramento de cada contrato seriam 
maiores. Por isso, a contabilidade financeira, especificamente, justifica-se com a utilização de uma única 
metodologia contábil para fins gerais e não específicos. Mais que isso, a contabilidade financeira, apesar de 
almejar o maior número de usuários possíveis, tem suas atenções mais voltada para o monitoramento de 
contratos relacionados à alocação de capital à firma. Contratos que consideram alocação de capital para 
gestão de terceiros (gestores) são apontados como de maiores riscos e incertezas em suas execuções, 
especialmente pela possibilidade de apropriação da riqueza dos detentores de capital pelos gestores da 
firma. 
A Estrutura Conceitual das IFRS/CPC, por exemplo, é clara em afirmar que as demonstrações 
contábeis: 
objetivam fornecer informações que sejam úteis na tomada de decisões econômicas e avaliações 
por parte dos usuários em geral, não tendo o propósito de atender finalidade ou necessidade 
específica de determinados grupos de usuários. 
Demonstrações contábeis elaboradas com tal finalidade satisfazem as necessidades comuns da 
maioria dos seus usuários, uma vez que quase todos eles utilizam essas demonstrações contábeis 
para a tomada de decisões econômicas, tais como: 
(a) decidir quando comprar, manter ou vender instrumentos patrimoniais; 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 22 
(b) avaliar a administração da entidade quanto à responsabilidade que lhe tenha sido 
conferida e quanto à qualidade de seu desempenho e de sua prestação de contas; 
(c) avaliar a capacidade de a entidade pagar seus empregados e proporcionar-lhes outros 
benefícios; 
(d) avaliar a segurança quanto à recuperação dos recursos financeiros emprestados à 
entidade; 
(e) determinar políticas tributárias; 
(f) determinar a distribuição de lucros e dividendos; 
(g) elaborar e usar estatísticas da renda nacional; ou 
(h) regulamentar as atividades das entidades. 
Por esse motivo, as estruturas conceituais básicas de contabilidade são desenvolvidas de forma a 
serem aplicáveis a uma gama de modelos contábeis e conceitos de capital e sua manutenção. No entanto, 
as informações contábeis podem ser restritas para o uso igualmente eficaz de todos os usuários, tais 
usuários devem considerar informações oriundas de outras fontes, como, por exemplo, condições 
econômicas gerais e expectativas, eventos políticos e clima político, e perspectivas e panorama para a 
indústria e para a entidade. 
Também é devido a diversidade de contratos, em suas naturezas e características, é que a 
contabilidade gerencial torna-se relevante. É a contabilidade gerencial terá função extremamente relevante 
em mensurar contratos particulares entre gestores, funcionários e detentores de capital. Justamente por 
isso, a contabilidade gerencial não terá uma estrutura conceitual única, mas sim específica para cada 
ambiente de interesse. 
Baiman (2007) sugere que a teoria contratual da firma se tornou o paradigma dominante na 
pesquisa analítica em contabilidade gerencial. Segundo ele, a teoria contratual proporcionou grandes 
insights sobre o papel dos sistemas de contabilidade gerencial. A teoria contratual também gerou bases 
teóricas para a pesquisa empírica sobre comportamento e orientação temporal dos gestores. Dessa forma, 
parece claro que pesquisadores em contabilidade gerencial devem iniciar suas hipóteses e pesquisas 
enxergando a firma como um conjunto de contratos que demandam monitoramento e controle. Disso se 
desprendem as demais plataformas de pesquisa. 
 
2.2 Conflito de Agência 
Como visto na seção anterior, os agentes envolvidos nos diversos contratos da empresa buscam, 
de forma racional, maximizar seus próprios benefícios individuais. Para tanto, os agentes devem possuir 
recursos e diferenciais que os façam obter benefícios e, para o mesmo fim, agem de maneira inovadora, ou 
seja, tomam atitudes que os privilegiem, mesmo que não estipulado previamente nos contratos. 
A relação de agência (ou conflito de agência) surge quando há dissonância ou desequilíbrio entre 
os interesses dos agentes. Relação de agencia é definida como um contrato em que uma ou mais pessoas 
(o principal(is)) delegam a outra pessoa (o agente) a execução de determinadas atividades que envolvem, 
inclusive, a delegação no processo de tomada de decisão em nome do(s) principal(is) (Jensen e Meckling, 
1976, p.308). 
Tipicamente, há três relações de agências que geram problemas na execução de contratos, e 
consequentemente, custos no monitoramento desses contratos, ou mais especificamente, custos de 
agência. A primeira é a relação entre os proprietários (acionistas - principais) e os gestores (agentes). A 
segunda é a relação entre credores (principais) e gestores (agentes). A terceira é a relação entre acionistas 
minoritários (principais) e acionistas controladores (agentes). 
O principal, especificamente o proprietário (acionista), não possui capacidade ou habilidade para 
realizar pessoalmente a gestão da empresa. Dessa forma, os proprietários procuram gestores capacitados 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 23 
para representa-los e tomar as melhores decisões em prol da maximização da riqueza dos proprietários. O 
mesmo ocorre no caso dos credores, em que as decisões deveriam ser tomadas no sentido de garantir o 
pagamento do principal da dívida mais os juros esperados pelos credores. 
Ocorre que os proprietários e credores não conseguem observar todas as ações dos gestores, 
possibilitando aos últimos, agirem em função da maximização de sua própria riqueza ou bem estar. Assim, 
a teoria de agência sugere que haverá conflito entre proprietários (principal) e gestores (agentes); afinal, se 
ambas as partes desejam maximizar seu bem estar (sua utilidade), haverá bons motivos para acreditar que 
os gestores não irão agir sempre em função do melhor interesse dos proprietários (Jensen e Meckling, 
1976). Evidentemente, esse conflito ocorrerá quando o interesse dos gestores é divergente do interesse 
dos proprietários, e nesse caso, a riqueza dos proprietários não será maximizada. 
Por exemplo, gestores podem tomar decisões de investimentos para geração de lucros de curto 
prazo não sustentáveis em detrimento da geração de lucros persistentes nofuturo. Os gestores podem 
ainda, escolher práticas contábeis ou manipular a informação contábil de forma a aumentar o lucro atual 
para obterem bônus maiores. Com isso, a remuneração dos gestores aumenta e a riqueza dos proprietários 
diminui. Para forçar o alinhamento de objetivos, os proprietários assumem diversos custos de 
monitoramento (ou custos de agência) para limitar a atuação dos gestores. Todos os custos de agência irão 
reduzir a riqueza dos proprietários como resultado da divergência entre os interesses. Jensen e Meckling 
(1976) identificam três tipos de custos de agência: 
(1) custos de monitoramento dos contratos – são gastos com auditores, gastos com divulgação 
pública de informações (publicações e sites de relações com investidores), criação e 
manutenção de comitês de administração e fiscalização da ação dos gestores etc 
(2) custos para manter alinhados os interesses dos gestores – são basicamente os gastos com 
remuneração dos gestores como remuneração variável por desempenho, bonificação, 
benefícios etc 
(3) custos residuais – são todos os gastos adicionais aos dois anteriores oriundos de decisões 
dos gestores que não seriam tomadas caso os proprietários fossem responsáveis pela 
operação da empresa. Dessa forma, os proprietários iriam incorrer nos dois custos 
anteriores caso eles sejam menores que os custos residuais. 
Para Lambert (2001), a principal contribuição da teoria de agência para a literatura contábil é o 
fato de questionar: (1) como as características da informação, da contabilidade e dos sistemas de 
remuneração afetam (reduzem ou pioram) os incentivos gerenciais e (2) como a existência de problemas 
nos incentivos gerenciais afeta o desenho e a estrutura da informação, da contabilidade e dos sistemas de 
remuneração. 
Portanto, “a teoria de agência explicitamente incorpora potenciais conflitos entre duas (ou mais) 
partes, e ela reconhece o papel da informação na gestão desses conflitos. Como resultado, o paradigma de 
agência tem sido muito útil em proporcionar entendimento de muitas práticas de contabilidade gerencial” 
(Magee, 2001, p.89). Desta forma, a teoria de agência é uma vertente da teoria dos contratos e que vem 
ganhando maior atenção da literatura contábil, uma vez que há desequilíbrio/dissonância de interesses 
entre os agentes. 
Em resumo, o conflito de agência ocorre, portanto, quando existem diferentes interesses entre o 
agente (gestor, credor) e o principal (fornecedor de recursos). Quando a empresa começa a crescer e tem 
um gestor diferente do acionista 
(1) Acionistas vs Administradores 
(2) Credores vs Administradores/acionistas 
(3) Acionistas Controladores vs Acionistas Minoritários 
 
 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 24 
2.2.1 Acionistas vs Administradores - os casos de remuneração variável 
Para alinhar os interesses dos gestores aos interesses dos proprietários (acionistas), são criados 
mecanismos de incentivos para os gestores, incluindo contratos produtividade, ou seja, muitos contratos 
de trabalho de executivos são baseados metas a serem atingidas, metas essas pré-acordadas e de 
conhecimento das partes. Com isso, no fim do ano, por exemplo, ao atingir as metas estipuladas, os 
executivos ganham bônus e estariam, ao mesmo tempo, obtendo resultados que interessam aos acionistas 
e a si próprios. 
No entanto, tais bônus podem fazer com que gestores ajam de forma a apenas atingirem as 
metas e maximizarem seu bem estar. Assim, poderiam agir de maneiras a prejudicarem os acionistas, por 
exemplo (lista não extensiva): 
(1.1) Orientação temporal para o curto prazo: Investir em projetos que gerem retorno 
menor em curto espaço de tempo, ao invés de projetos que tenham maior geração 
de retorno, porem, em prazos mais longos; 
(1.2) Gerenciamento de informações contábeis: Utilizar informações e práticas 
contábeis que antecipem receitas e posterguem despesas por meio de 
gerenciamento de resultados; 
(1.3) Assumpção de riscos desnecessários: Assumir maiores riscos em investimentos 
incertos em detrimento de projetos menos ariscados e de forma geral assumirem 
posições desnecessárias de risco, como, por exemplo, endividamento excessivo; 
(1.4) Realização de fraudes: Realizar operações que não estão em conformidade com a 
lei ou com o contrato original firmado entre as partes; e 
 
2.2.2 Credores vs Administradores/acionistas – os casos de risco de crédito 
Imagine que a empresa ABC possua dívidas que totalizam $160.000 e que vencem em três meses. 
Atualmente, a situação patrimonial da empresa é: 
ATIVO PASSIVO 
$120.000 $160.000 
 
PL ($40.000) 
Sendo o ativo formado por máquina e equipamento no valor de $120.000, considerando que o 
valor de liquidação dos ativos equivale ao seu valor em uso e ao valor contábil registrado e considerando 
que A=P+PL  120.000=160.000+PL  PL=-$40.000 
Sabe-se que a empresa possui dois projetos mutuamente excludentes para uso de seus ativos: 
1º) Fluxo de Caixa garantido de $20.000 (ou seja, VPL=20.000) 
2º) Probabilidade de 10% se se obter um Fluxo de Caixa de $100.000 (VPL=100.000) 
 
No primeiro caso, se o primeiro projeto for escolhido, o credor esperaria receber $140.000 (valor 
de liquidação dos ativos mais o resultado gerado pelo projeto), enquanto que os acionistas não receberiam 
qualquer valor e a empresa seria liquidada (caso não seja possível renegociar a dívida). 
No segundo caso, se o segundo projeto for escolhido, o credor poderia receber $160.000 (valor 
total de sua dívida) e os acionistas poderiam receber $60.000. O evento de sucesso é condicional a uma 
probabilidade de 10%. Ou seja, é pouco provável que seja recebido, mas há, sim, uma pequena 
possibilidade. Porém, no segundo caso o cenário mais provável, com 90% de probabilidade, é que o credor 
receba $120.000 (valor de liquidação dos ativos) e os enquanto que os acionistas não receberiam qualquer 
valor e a empresa seria liquidada (caso não seja possível renegociar a dívida). 
Portanto, qual o projeto deveria ser escolhido pelos gestores? 
- Do ponto de vista do credor, o primeiro projeto gera o maior payout, de $140.000 
($140.000x100%), uma vez que os credores iriam se apropriar de 100% do valor de liquidação mais o 
resultado gerado pelo projeto. Já o segundo projeto tem um payout condicional de apenas $124.000 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 25 
($160.000x10% + $120.000x90%), posto de outra forma, é mais provável que eles recebam apenas o valor 
de liquidação dos ativos. 
- Do ponto de vista do administrador e do acionista, o segundo projeto seria preferível, pois gera 
um payout condicional de $6.000 [($120.000+100.000-160.000)x10% + $0x90%], enquanto que o primeiro 
projeto tem payout igual a zero (os credores iriam se apropriar da totalidade dos recursos). Do ponto de 
vista do acionista, apenas o segundo projeto poderia manter parte de seu capital. Da mesma forma, apenas 
o segundo projeto poderia manter o emprego dos gestores. 
Surge aí mais um conflito de agência: os gestores tomariam decisões que prejudicariam os 
credores em detrimento do interesse dos acionistas e seus próprios interesses. 
Na prática, para evitar esse tipo de comportamento, os credores tipicamente impõem cláusulas 
restritivas, covenants, e limitando a atuação dos gestores no sentido de expropriação do capital, ou parte 
do capital, dos credores. Assim, as covenants, são estrições contratuais impostas pelos credores para 
execução mais harmônica dos contratos. 
 
2.2.2 Acionistas Controladores vs Acionistas Minoritários – os casos de mudanças societárias 
As ações podem atribuir aos seus detentores direito de voto (ações ordinárias, acionistas 
ordinaristas) ou atribuir certas preferências no recebimento de dividendos ou outros benefícios (ações 
preferências, acionistas preferencialistas). 
Assim, haverá controle de uma empresa se uma ou mais pessoas ligadastiverem, individualmente 
ou em conjunto, preponderância nas deliberações sociais da empresa, ou seja, esse indivíduo ou grupo de 
indivíduos “manda” na empresa, tendo capacidade de determinar e indicar os gestores/administradores e 
as políticas operacionais e financeiras da empresa. É o chamado controlador ou grupo de controle. 
Tipicamente, sabe-se que esse grupo de controle possuir mais do que 50% do capital votante, haverá, 
necessariamente, controle. Os demais acionistas irão compor o grupo dos minoritários. 
 
2.3 Assimetria de Informação 
Como vistos nas seções anteriores: (1) as empresas podem ser vistas como um conjunto de 
contratos entre diversos indivíduos, sendo que o funcionamento adequado da empresa depende, portanto, 
do um adequado equilíbrio contratual entre os agentes; e (2) no caso específico das relações de agência, o 
agente pode agir de forma a maximizar sua própria riqueza em detrimento da riqueza do principal, 
quebrando assim uma relação contratual. 
Ocorre que, alguns indivíduos podem ter acesso a uma maior quantidade de informações sobre as 
operações das empresas e sobre a execução dos contratos do que outros. A essa diferença de acesso à 
informação dá-se o nome de assimetria de informação. A priori, dois grandes problemas surgem da 
assimetria de informação e que possuem impacto direto na contabilidade: a seleção adversa e o risco 
moral. 
2.3.1. Seleção Adversa 
Seleção Adversa (adverse selection) ocorre quanto um indivíduo (ou mais) possui maior acesso às 
informações sobre um determinado ativo do que outros agentes. A primeira, e ainda melhor ilustração 
para o caso, foi feita por a George A. Akerlof em 1970 em "The Market for Lemons: Quality Uncertainty and 
the Market Mechanism", citado mais de 18.000 vezes segundo o Google Academic. Basicamente, Akerlof 
(1970) utiliza o exemplo de carros usados e que pode ser estendido para uma diversidade de outros ativos. 
Segundo ele, a demanda por carros usados depende principalmente de duas variáveis: (1) Preço e (2) 
Qualidade Média dos Carros Negociados. Em condições de informação perfeita, é de se esperar que os 
carros de maior qualidade tenham preços maiores e carros com menor qualidade, preços menores. Assim, 
a carros com qualidade média estariam sendo vendidos exatamente pelo preço médio. No entanto, os 
compradores não possuem informações perfeitas sobre as condições e qualidade dos carros, mas os 
vendedores possuem essa informação. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 26 
Como exemplo, digamos que o preço médio dos carros seja de $20.000. Nitidamente, vender o 
carro a esse preço seria um bom negócio para os proprietários de carros em situação inferior à média. Em 
contrapartida, aqueles que tem carros em bom estado (melhor que a média) não se sentiriam atraídos em 
vender seus carros pelos $20mil, logo, eles não estariam dispostos a continuar no mercado. Uma vez que 
apenas os carros de qualidade inferior permanecem (ficam disponíveis para negociação), o efeito da 
assimetria de informação é desfavorável ao mercado como um todo (por isso seleção adversa) e, 
principalmente, aos (1) proprietários de carros em melhor estado e (2) compradores que não são capazes 
de diferenciar a qualidade dos carros devido à ausência de informações. 
Como resolver esse problema de assimetria informacional? No caso dos carros, existem diversos 
mecanismos que ajudam na quebra de assimetria de informação: por exemplo, (1) o manual do carro 
contendo todas as revisões ao longo da quilometragem é um indicativo do grau de comprometimento com 
a manutenção do veículo, (2) uma inspeção visual sobre os componentes do carro também, mas 
principalmente (3) uma inspeção detalhada do veículo com um especialista em mecânica reduziria 
significativamente a assimetria de informação, ele seria um agente de quebra de assimetria informacional 
ou intermediário informacional. 
 Do ponto de vista contábil, exatamente os mesmos conceitos podem ser estendidos: com 
ausência de informações um investidor não será capaz de distinguir empresas boas das empresas ruins, 
assim as decisões de investimento ficam prejudicadas, empresas boas poderiam ser penalizadas por 
empresas ruins e não estarem dispostas a continuar no mercado. E da mesma forma, para que a assimetria 
não prejudique o mercado de capitais como um todo, alguns mecanismos que ajudam na quebra de 
assimetria de informação como a própria (1) divulgação da informação contábil, (2) a inspeção das 
demonstrações, e (3) inspeção detalhada das informações por especialistas, eles seriam agentes de quebra 
de assimetria informacional ou intermediários informacionais. 
Os intermediários informacionais são os agentes de mercado e fazem a transição e o alinhamento 
de informação entre os agentes interessados com vender e comprar títulos, como por exemplos: auditores 
independentes, analistas de investimento e analistas financeiros, agências de rating etc. 
Em resumo, a seleção adversa ocorre quando um comprador racional interpreta informação não 
divulgada como uma informação desfavorável sobre o valor ou qualidade do ativo; desse modo, a 
estimativa do valor do ativo passa a ser adversa. Na falta de informação, os investidores descontam o valor 
dos seus ativos até o momento em que se torna interessante para a firma revelar a informação, mesmo 
que desfavorável (Verrecchia, 2001, p.161). 
Apesar de uma quantidade considerável de divulgação financeira ser obrigatória (por exemplo, 
informações trimestrais, relatórios anuais, balanços, demonstração de resultados etc), os gestores podem 
ter informações adicionais cuja divulgação não é obrigatória, mas útil para avaliar a perspectiva futura da 
empresa. Consequentemente, um problema do ponto de vista contábil é identificar em quais circunstâncias 
um gestor divulgará ou não esta informação. 
2.3.2. Risco Moral 
Risco Moral (Moral Hazard) é a possibilidade de um individuo agir desonestamente de forma a 
prejudicar outro. Em geral, surge quando as pessoas agem de uma determinada forma acreditando (ou 
sabendo) que não serão punidas ou prejudicadas e sairão ilesas. Esse conceito corresponde, portanto, ao 
comportamento de uma pessoa ou agente econômico que, ao receber determinado tipo de cobertura, 
seguro ou poderes para suas ações, diminui os cuidados ou assume comportamento oposto ao esperado. 
Em operações de seguros, por exemplo, risco moral ocorre quando uma pessoa, ao assinar um 
contrato de seguro, age de maneira a facilitar a ocorrência de um sinistro, diminuindo seu cuidado com o 
veículo, ou ainda instigando a ocorrência intencional um sinistro. 
Do ponto de vista contábil, ao receber recursos de investidores, os gestores, por acreditarem que 
não serão monitorados, agem com displicência na gestão da empresa ou com dolo em provocar perdas aos 
investidores; assim, gestores podem agir de maneira a não assegurar e maximizar os recursos que lhes 
foram confiados. Portanto, em condições de assimetria de informações os acionistas não têm como 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 27 
garantir que os executivos de suas empresas agirão de modo a maximizar o valor da firma. Mais uma vez a 
contabilidade surge como instrumento de quebra de assimetria informacional. 
 Em resumo, enquanto a seleção adversa está relacionada a uma informação oculta (não 
conhecida) o risco moral está relacionado a uma ação oculta (não conhecida). 
 
Caso: Adiamento da publicação de demonstrações financeiras da Petrobras 
Em 06/02/2014, o Valor Econômico divulgou a seguinte manchete: “Ação da Petrobras desaba com adiamento de balanço” 
(por: Tatiane Bortolozi, Alessandra Saraiva e Edna Simão). Segundo a reportagem, “O adiamento da divulgação do balanço da 
Petrobras acendeu ontem um sinal de alerta entre os analistas que cobrem a empresa. A estatal divulgou que os números do quarto 
trimestre de 2013 deverão ser divulgados em 25 de fevereiro. A datainicial era 14 de fevereiro. Para os especialistas, o adiamento 
sinaliza desempenho ruim para o exercício da estatal no ano passado.” 
De fato, durante o pregão de 05 de fevereiro (data em que foi informado o adiamento da publicação das informações anuais 
de 2013), as ações chegaram a cair até 4%. Segundo os gestores da Petrobrás, o adiamento foi devido a questões técnicas, porém, 
não houve maiores explicações sobre tais questões técnicas. No entanto, analistas avaliaram essa informação não divulgada (ou 
pelo menos, postergada) de forma bastante negativa, demonstrando a expectativa de resultados insatisfatórios. Analistas 
entrevistados na reportagem sugeriram que o adiamento da divulgação do resultado seja, talvez, “um pouco de superstição do 
mercado. Historicamente, nos últimos anos em que isso ocorreu, veio um resultado pior que o esperado. O mercado não gostou do 
adiamento" (Lenon Borges, Ativa Corretora). 
Reflexão: Afinal, seria esse um caso de seleção adversa? Aparentemente, sim. A informação não divulgada foi interpretada 
como um sinal negativo sobre o desempenho operacional da empresa, a consequência é que diante a incerteza há penalização do 
preço dos ativos. Eventualmente, problemas podem ter ocorrido na agenda dos gestores ou problemas operacionais na elaboração 
das demonstrações contábeis, o fato é que essa informação também não foi explicitada pela companhia, causando assimetria de 
informação entre o público interno (que conhece o real motivo do adiamento) e o público externo (que pode apenas fazer 
suposições e conjecturas). 
Bortolozi, T.; Saraiva, A & Simão, E. (2014). “Ação da Petrobras desaba com adiamento de balanço”. Valor Econômico, 06/02/2014. 
Disponível em: http://www.valor.com.br/empresas/3421028/acao-da-petrobras-desaba-com-adiamento-de-balanco#ixzz37iId0G1w 
 
2.4 Mercado de capitais e informação contábil 
Como discutido no Capítulo 1 e anteriormente neste capítulo, o desenvolvimento de uma teoria 
da contabilidade não irá resolver todas as necessidades de todos os usuários da informação contábil. As 
teorias também devem ajudar a explicar e prever as reações dos diversos agentes acerca das informações 
divulgadas pela contabilidade. Nesse sentido, algumas teorias ajudam a entender como os usuários reagem 
à informação contábil. 
O valor real de uma empresa, muitas vezes denominado de valor intrínseco, não é uma variável 
diretamente observável. De qualquer forma, esse valor real da empresa reflete as expectativas futuras de 
seu desempenho. Há uma série de formas para se calcular o valor de uma empresa e, em condições ideais, 
o valor será sempre o mesmo, independente da forma na qual o valor da empresa é calculado. E nesse 
caso, em condições perfeitas, o valor dos ativos da empresa deveria refletir o valor presente dos benefícios 
futuros esperados por esses ativos. Portanto, o valor das ações da empresa seria estável e sempre entraria 
em equilíbrio por meio da oferta e demanda de títulos (Fama, 1970). 
No entanto, a realidade do mundo dos negócios é extremante incerta e os benefícios futuros 
estão sujeitos à mudanças, assim como o custo de oportunidade e a aversão/tolerância ao risco variam 
dinamicamente ao longo do tempo. Em ambiente de incerteza, a tomada de decisão é feita com base em 
cenários esperados, em que não há benefícios futuros certos, mas sim esperados com base no valor 
resultante da probabilidade de cada cenário possível3. Desta forma, expectativas futuras são mensuradas 
 
3 Considerando três cenários e as respectivas probabilidades, imagine que o lucro esperado será função de: 
(1) Economia estará aquecida – Lucro de $500mi com probabilidade de 30% 
(2) Economia permanecerá estável – Lucro de $460mi com probabilidade de 40% 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 28 
de forma condicional ao estado da natureza em determinado momento. Porém, mesmo com as incertezas 
sobre o futuro, o valor das ações entraria em equilíbrio por meio da oferta e demanda de títulos. 
O fato é que investidores, analistas e gestores possuem conhecimento limitado sobre as os 
cenários e sobre as probabilidades de cada cenário, com isso, seu poder de projeção também será limitado. 
Logo, a definição de cenários e suas respectivas probabilidades são subjetivas assim como subjetivas serão 
as expectativas de resultado e, consequentemente, o valor da empresa. Uma vez que os investidores, 
analistas e gestores sabem que suas previsões estão sujeitas a erros, eles ficam alertas sobre qualquer nova 
fonte de informação que possibilite a eles revisar seus cenários e estimativas. A informação contábil é uma 
dessas fontes. 
Mais que isso, a informação pode não ser distribuída a todos os investidores de maneira 
uniforme, assim como as novas informações podem ser percebidas de maneira distinta entre os agentes. 
Por isso surge, no mercado de capitais, a análise fundamentalista de ações, que tenta identificar se 
determinadas ações ou títulos estão mal precificadas por meio de análises detalhadas de toda informação 
financeira disponível. A premissa subjacente à análise fundamentalistas é que pode haver erro na 
precificação dos ativos por parte do mercado, em outras palavras, o valor de equilíbrio das ações estaria 
divergente do valor real (ou valor intrínseco) da ação. Porém, isso só ocorreria que o mercado não 
reconhecesse eficientemente todas as informações disponíveis. 
 
2.4.1 Hipótese de Mercado Eficiente 
Em economia, os preços dos produtos e serviços são definidos a partir da interação entre oferta e 
demanda até que seja atingido um preço de equilíbrio. A intuição geral é bastante simples: se a oferta for 
maior que a demanda sobrarão produtos e, o excesso de produtos ofertados fará com que o preço caia, o 
preço diminuindo pode impulsionar mais indivíduos a comprar o produto até que o novo equilíbrio seja 
estabelecido. O oposto também é valido: se a demanda for maior que a oferta o preço dos produtos tende 
a aumentar reduzindo a demanda até o equilíbrio. Graficamente: 
 
 
 
Figura 2.2 – Curva de oferta e demanda de produtos e serviços 
 
A mesma ideia foi estendida ao mercado de capitais, principalmente a partir dos trabalhos de 
Eugene F. Fama e Kenneth R. French (frequentemente, Fama e French) durante a década de 60 e 70. A 
 
(3) Economia estará em recessão – Lucro de $280mi com probabilidade de 30% 
Nesse caso o valor (lucro) esperado será de $418mi, que é a resultante das probabilidades (500x0,3 +460x0,4 + 
280x0,3). Mais formalmente, sendo X o lucro como uma variável aleatória; E[ ] representa esperança matemática; xi 
são os valores possíveis para o lucro, e p(xi) a probabilidade de ocorrência do cenário i (onde, i=1, 2 e 3).



1
)(][
i
ii xpxXE
 
 
onde, 
D=Demanda 
S=Oferta (supply) 
P=Preço 
Q=Quantidade 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 29 
partir dos modelos de oferta e demanda o preço dos ativos é determinado por consenso dos compradores 
em função de toda informação disponível sobre o produto (no caso, ativos financeiros). 
Dessa forma, o preço das ações de uma empresa deve refletir adequadamente todas as 
informações relevantes disponíveis sobre a economia como um todo e cada empresa em específico (por 
meio de demonstrações financeiras, prospectos, relatórios etc), assim, o mercado seria eficiente ao 
reconhecer toda informação disponível no preço dos ativos. No entanto, caso isso ocorra, não haveria 
possibilidade de ganhos adicionais por meio de análises fundamentalistas. Por esse motivo, as discussões e 
estudos acadêmicos sobre o grau de eficiência com que o mercado reconhece as informações disponíveis 
ficam conhecidos comoHipótese de Mercado Eficiente (HME). 
A HME sugere três formas de eficiência de mercado: na forma fraca, semiforte e forte. 
2.4.1.1 Hipótese de Mercado Eficiente na Forma Fraca 
A forma fraca sugere que os preços dos ativos possuem comportamento aleatório a partir de suas 
séries históricas (random walk process), ou seja, o preço passado do ativo é uma estimativa adequada para 
seu valor futuro. O preço dos ativos mudaria a partir de novas informações sobre a expectativa de 
benefícios futuros ou de novas alternativas de investimento. 
Assim, o mercado incorpora toda informação sobre o preço passado dos ativos o que implica que 
um investidor não poderia ter retorno acima dos demais apenas por conhecer a série histórica de preços 
passados. Neste caso, há espaço para que os analistas fundamentalistas consigam obter retornos acima dos 
demais agentes de mercado ao considerar que os ativos podem estar precificados incorretamente. 
Em resumo, a hipótese de mercado eficiente de forma fraca sugere que o preço dos ativos 
incorpora apenas informação sobre o preço passado dos ativos, havendo, portanto, possibilidades de 
ganho adicional ao se buscar o real valor da ação (ou seu valor intrínseco). 
2.4.1.1 Hipótese de Mercado Eficiente na Forma Semiforte 
A HME em sua forma semiforte sugere que o preço dos ativos incorpora todas as informações 
publicamente disponíveis, sejam elas sobre os preços passados ou sobre informações sobre o desempenho 
da empresa que sejam publicamente disponíveis. Isso implica que nenhum investidor poderia obter ganhos 
adicionais se operar apenas com informação publicamente disponível, porém, investidores operando com 
informações privilegiadas (insider information) poderiam obter retornos acima da média de mercado. 
Do ponto de vista contábil, a HME semiforte implica que toda informação contábil é importante e 
afetará o preço dos ativos assim que tornada pública, isso incluiria as notas explicativas e estimativas; dessa 
forma, todas essas informações seriam incorporadas imediatamente ao preço dos ativos assim que fossem 
tornadas públicas. Acima de tudo, a implicação contábil é de que as práticas contábeis adotadas por uma 
determinada empresa não influencia em sua precificação se os investidores forem capazes de ajustar as 
demonstrações contábeis para a forma que desejarem. Portanto, se a HMF de forma semiforte prevalecer, 
a mudança das normas brasileiras locais para as IFRS não afetariam o preço das ações. 
 
Caso: Geografia contábil: Variações do preço de mercado de instrumentos financeiras na demonstração do resultado ou 
na demonstração do resultado abrangente? 
Em 16/08/2013, o Valor Econômico divulgou a seguinte manchete: “'Geografia contábil' sob os holofotes” (por: Fernando 
Torres). Segundo a reportagem, “A temporada de balanços do segundo trimestre [de 2013] trouxe para o holofote temas contábeis 
extremamente áridos como "geografia contábil" e o uso do "valor justo" para mensurar ativos e passivos.” 
O fato é que, durante o segundo trimestre de 2013, houve mudanças significativas nas taxas de juros (elevadas pelas 
autoridades monetárias brasileiras) e no câmbio (especificamente o dólar subiu 10% no período). Especificamente, o impacto da 
variação do dólar provocou um aumento - em reais - da dívida em moeda estrangeira das empresas. Esse aumento de passivo teria 
como contrapartida natural uma despesa na demonstração do resultado das companhias. No entanto, algumas companhias, como 
Petrobras, Vale e Braskem, decidiram adotar a contabilidade de hedge para evitar esse impacto. Dessa forma, o efeito do câmbio 
na dívida foi registrado diretamente no patrimônio, sem reduzir o lucro líquido das companhias no trimestre. O impacto é 
evidenciado apenas na demonstração do resultado abrangente, que inclui outras variações patrimoniais que não afetam o resultado 
do exercício. 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 30 
A princípio, essa "geografia contábil" não deveria gerar diferenças no fluxo de caixa das empresas caso os ajustes da 
mudança do valor de mercado fossem registrados no resultado ou no patrimônio líquido, já que o impacto final é igual. Entretanto, 
isso não foi percebido (ou entendido) por todos os agentes de mercado, motivando análise do caso pela Comissão de Valores 
Mobiliários (CVM) e sugerindo que a forma de classificação e divulgação das informações no balanço tem importância. 
A ideia central é que se o passivo aumenta devido à variação cambial, a empresa reconhece a perda (redução) de patrimônio, 
sem que haja registro dessa redução no resultado, uma vez que aos ganhos futuros com exportação irão contrapor a redução de 
patrimônio (Eliseu Martins, FEA/USP). Segundo a reportagem, “o que aparentemente aconteceu é que as empresas preferiram 
enfrentar o trabalho de ter que provar aos auditores que seus hedges funcionam do que ter que passar horas tentando convencer 
investidores e o público que a despesa "não caixa" que corroeu o lucro não terá efeito nenhum - quando na maior parte dos casos a 
distribuição de dividendos é sim afetada pelo sobe e desce cambial.” 
Reflexão: Considerando a eficiência de mercado, tal classificação (no resultado ou no patrimônio líquido), deveria afetar o 
preço dos ativos? A princípio, não, apesar de haver uma diferença temporal na distribuição de dividendos. Ao lançar o impacto da 
variação cambial no resultado corrente, a parcela a pagar de dividendos referente aos resultados correntes deverá ser reduzida. Ao 
realizar o lançamento pelo patrimônio líquido, a variação o valor futuro efetivo da dívida (e o seu resultado financeiro considerando 
os efeitos de ganhos com exportação) será conhecido com maior propriedade. Apesar de não ter efeito direto no fluxo de caixa da 
empresa, a redução na oscilação dos lucros é frequentemente apontada pela literatura como algo positivo. 
Lucros com parcelas significativamente transitórios (como é o caso da variação cambial ocorrida) são mais difíceis de serem 
previstos e consequentemente mais incertos em seu comportamento futuro. Assim, práticas que minimizam variação nos lucros por 
resultados transitórios podem dar maior estabilidade e previsibilidade aos lucros, fazendo com que o risco percebido da empresa 
seja menor. Ao mesmo tempo em que isso tem um lado positivo, isso pode ser entendido como gerenciamento dos resultados ao 
ponto da manipulação contábil se tornar prejudicial aos investidores, especialmente nos casos de fraude, por isso a preocupação da 
CVM no caso, por isso a necessidade de avaliação empírica e acadêmica de tais procedimentos, suas causas e suas 
consequências. 
Torres, F. (2013). ““'Geografia contábil' sob os holofotes”. Valor Econômico, 18/08/2013. Disponível em: 
http://www.valor.com.br/empresas/3235436/geografia-contabil-sob-os-holofotes#ixzz2cnvsB7LE 
2.4.1.1 Hipótese de Mercado Eficiente na Forma Forte 
A HME de forma forte considera que todas as informações, incluindo preços passados, 
informações públicas e informações privadas estão incorporadas o preço dos ativos. A ideia sugere 
evidenciação completa de todo tipo de informações (full disclosure). Dessa forma, o não haveria 
possibilidade de ganho adicional por qualquer investidor ou agente. Ou seja, qualquer nova informação 
sobre a empresa seria imediatamente tornada pública e incorporada ao preço. 
Do ponto de vista contábil, se todos já possuem informações sobre as operações e as perspectivas 
futuras das empresas, a informação contábil não geraria qualquer impacto no preço dos ativos; elas já 
estariam incorporadas ao preço antes de serem tornadas públicas. 
 
2.4.2 Implicações da pesquisa sobre contabilidade e mercado de capitais 
As pesquisas sobre eficiência de mercado tiveram grande impacto para a contabilidade e para a 
pesquisa em contabilidade. A falta de uniformidade nos princípios contábeis e a possibilidade de escolhas 
contábeis baseadas em julgamentodos gestores fizeram (e fazem) com que a contabilidade seja duramente 
criticada ao oferecer aos gestores oportunidades de manipularem os números contábeis (especialmente 
lucros) e enganar investidores. Esse é um dos pontos centrais nas discussões contábeis, porém, muita 
pesquisa já foi desenvolvida e mostra, dentre outros pontos que: 
 A contabilidade não é a única base de informação dos analistas e investidores. Pelo 
contrário, a contabilidade representa apenas uma menor parcela de informação para 
determinação do retorno das ações. Frequentemente vemos notícias de que as ações sobre e 
descem por conta de mudanças nas taxas de juros (do Brasil e do exterior), sobre perspectiva 
de aceleração ou desaceleração econômica internacional, taxa de desemprego, câmbio, valor 
de commodities etc. Tais itens representam a maior parte das variações no preço das ações. 
 A contabilidade tem sim, conteúdo informacional, porém incremental e confirmatória. Os 
analistas e investidores utilizam informação contábil para revisar (ou não) suas expectativas 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 31 
futuras, isso acontece especialmente ao nível da empresa (não do mercado). A evidência 
empírica é imensa ao mostrar que quando a publicação das demonstrações financeiras traz 
informações novas (inesperadas), como lucros anormais, faz com que os analistas revejam 
suas expectativas, caso essas novidade seja persistente (i.e. não são transitórias). 
 Diferentes práticas e escolhas contábeis podem afetar o retorno das ações. Apesar de a 
HME indicar que escolhas contábeis não deveriam afetar o preço das ações, a evidência 
empírica é que muitas vezes elas afetam. Isso sugere que o mercado não é eficiente em sua 
forma forte, mas sim, semiforte, onde a informação é incorporada ao preço quando 
divulgada. 
 
2.5 Modelos de Governança Corporativa 
Como visto no Capítulo 1, a contabilidade é fruto do contexto em que está inserida (ao mesmo 
tempo em que é agente ativo em influenciar seu meio). Rene Davis, em seu livro “Les Grands systèmes de 
droit contemporains”4 de 1966, foi o primeiro a identificar e documentar as características principais de 
dois grandes sistemas jurídicos no mundo os sistemas de Direito Romano (ou code-law) e Consuetudinário 
(commo-law). Em 1978, com a parceria de John E.C. Brierley o livro foi traduzido para o inglês (Major Legal 
Systems in the World Today) e, apesar de não ser uma obra contábil, influenciou enormemente a literatura 
contábil ao identificar os fatores jurídicos e institucionais que tornavam a contabilidade diferente entre os 
diversos países. 
Davis e Brierley (1985) mostram que a política pode exercer grande influência no processo 
legislativo (standard setting) e nos mecanismos que forçam o cumprimento da lei (enforcement). No 
entanto, essa influência acontece de maneira muito diferente em países code-law e common law. Assim, 
diversos estudos5 passaram a utilizar a separação dos países em code-law e common-law para avaliar a 
influência política na formulação de padrões contábeis. Do ponto de vista contábil Ball, Kothari e Robin 
(2000) identificam implicações a seguir: 
 Code-law se origina a partir de interesses coletivos definidos pelo setor público. Nesse 
caso a contabilidade seria definida (ou fortemente influenciada) por entidades 
governamentais ou entidades representantes dos interesses governamentais. Da mesma 
forma, os mecanismos que forçam o cumprimento da lei são basicamente governamentais 
e não existe crime caso não possa ser enquadrado no arcabouço legal vigente. 
 Common-law se origina a partir de interesses individuais no setor privado. Procedimentos 
legais se desenvolvem ao se tornarem comumente aceitos na prática, sem que haja a 
formulação de arcabouço legal prévio. Nesse caso a contabilidade seria definida por 
práticas aceitas pela prática de mercado, independentemente de uma formulação 
(codificação) governamental. Assim, o sistema common-law se desenvolveu para atender 
as demandas contratuais de mercado. Tal prática surgiu no Reino Unido (UK) e se 
espalhou por suas colônias. 
São os principais exemplos de países common-law: Australia, Africa do Sul, Canada, UK, US, 
Malásia e Nova Zelandia. Em geral, os demais países da europa, américa latina, áfrica e asia são 
considerados code-law. Porém, evidentemente, há características em comum aos dois sistemas. Não há 
nenhum país que seja totalmente common-law ou code-law, há influência de um em outro sempre: o que há 
é predominância de um modelo ou outro. Ilustrando, não há preto e branco, apenas tonalidades de cinza. 
 
Quadro 2.3 – Comparação dos sistemas code-law e common-law 
 CODE LAW 
(DIREITO ROMANO) 
COMMON LAW 
(DIREITO CONSUETUDINÁRIO) 
Regulamentação contábil Definida por órgão governamental o Definida por entidade com interesses 
 
4 “Principais sistemas legais no mundo atual” 
5 Como exemplo dos mais influentes pode-se citar: Ball, Kothari e Robin (2000); Bushman, Chen, Engel e Smith (2004); 
e Bushman e Piotroski (2006) 
 
 RENÊ COPPE PIMENTEL 32 
relacionado ao governo privados 
Fontes de financiamento Mercado de capitais Mercado de crédito (bancos) 
Estrutura acionária 
Concentrada. Baixa parcela de free-float 
das ações. 
Pulverizada. Alta parcela de free-float das 
ações. 
Força da profissão contábil Baixa, busca atender exigências legais. Alta, busca melhor avaliação patrimonial. 
Impacto tributário na contabilidade 
Elevado, grande influência de normas 
fiscais. 
Reduzido, há influência fiscal, mas o foco é 
na evidenciação da posição econômica. 
Relevância da contabilidade Menor Maior 
 
 
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Ball, R., Kothari, S. P., & Robin, A. (2000). The effect of international institutional factors on properties of 
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Bushman, R. M., & Piotroski, J. D. (2006). Financial reporting incentives for conservative accounting: The 
influence of legal and political institutions.Journal of Accounting and Economics, 42(1), 107-148. 
Bushman, R., Chen, Q., Engel, E., & Smith, A. (2004). Financial accounting information, organizational 
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Chorafas, Dimitris N. (2006). IFRS, Fair Value and Corporate Governance. Oxford: Elsevier. 
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Magee, Robert P. (2001). Discussion of “Contracting theory and accounting”. Journal of Accounting and 
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Simon, Hebert A. (1979). Rational Decision Making in Business Organizations. The American Economic 
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