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https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:06 Durante o desenvolvimento das dentições decídua e permanente, tem-se como estágio intermediário o desenvolvimento da dentição mista, em geral considerado período crítico, no qual muitos problemas podem surgir e, se não tratados a tempo, implicar, no futuro, sérios distúrbios oclusais. Várias dessas complicações são decorrentes de problemas patológicos propriamente ditos, como anodontia, supranumerários, perdas precoces de dentes, mordidas cruzadas e inúmeros outros que serão analisados detalhadamente ao longo deste livro. Neste capítulo, serão abordados os principais problemas que podem surgir no desenvolvimento da oclusão e suas implicações clínicas, já que essas intercorrências, surgidas no processo de irrupção e desenvolvimento, podem provocar desajustes da oclusão tão ou mais graves que aqueles provocados por doenças características e conhecidas desses quadros. Esse alerta inicial tem o objetivo principal de lembrar ao clínico para estar atento, pois esses desarranjos podem ser de fácil solução se tratados a tempo, desde que se tenha conhecimento do desenvolvimento das dentições e sejam realizados os diagnósticos e o tratamento das condições que estão fora dos padrões de normalidade. É fundamental reconhecer a contribuição dos dentes e das estruturas esqueléticas para a ocorrência de alterações oclusais nos processos de desenvolvimento da dentição, além de definir prognóstico e tratamento que resultem em estabilidade, função e estética. O tratamento deverá englobar prioridades para cada fase, estabelecer sequência apropriada para a obtenção de resultados a curto e longo prazo e acompanhar a evolução da terapêutica instituída regularmente.1 Entre os diferentes fatores que podem provocar problemas na oclusão, serão apontados, a seguir, aqueles decorrentes da irrupção. Estudos sobre a sequência de irrupção têm demonstrado que a irrupção de certos grupos de dentes, em uma ordem determinada, contribui para o desenvolvimento da oclusão normal. Uma sequência desfavorável na maxila pode ser exemplificada pela situação na qual o segundo molar irrompe antes dos pré-molares e caninos, o que resulta em maior porcentagem de relações molares de classe II. Na mandíbula, as sequências desfavoráveis são aquelas nas quais os caninos irrompem depois dos pré-molares ou quando o segundo molar irrompe antes que os caninos e pré-molares. Nessa sequência, ocorrem diminuição do número de casos de classe I e aumento nas relações molares de classe III. Os casos de classe II apresentam forte tendência para que os molares superiores irrompam antes dos inferiores. Os primeiros molares superiores permanentes devem irromper após a irrupção dos molares inferiores. A inversão nessa ordem quase sempre provoca cruzamento nos molares permanentes, o superior ocluindo por lingual do inferior (Figura 9.1). https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 2 03/02/2017 16:06 É importante ressaltar que os diferentes grupos de dentes, ao irromperem ou sofrerem alguma alteração na sequência de irrupção, podem trazer problemas para a oclusão. Essa alteração pode ser de maior ou menor gravidade, dependendo da época, bem como dos dentes envolvidos, além do período decorrido entre a irrupção e o diagnóstico. Primeiros molares permanentes O primeiro molar permanente em geral irrompe em contato com o segundo molar decíduo. A impacção de um primeiro molar é o resultado de discrepância mesiodistal que não segue relação com o decíduo. Normalmente, é um sinal de apinhamento ou ausência congênita do segundo pré-molar. Figura 9.1 Primeiro molar superior permanente irrompendo antes que o inferior. Essa discrepância faz com que a força axiomesial do superior, por não encontrar intercuspidação no inferior, empurre os dentes superiores para a frente. Segundo Moyers, é um fator determinante de maloclusão.2 A impacção do primeiro molar pode ocorrer em ambos os arcos, mas é mais comum no superior (Figura 9.2) e, geralmente, leva a problemas adicionais. O primeiro molar inferior pode sobreirromper – passar da linha de oclusão – e encontrar o molar superior, de modo que as funções oclusais provocam relação progressivamente mais para mesial. Se a impacção não for grave, sem reabsorção da raiz do molar decíduo, o molar permanente poderá ser movido para distal para desimpactar, por meio de procedimento ortodôntico. Nos casos de impacções mais graves, que causam a reabsorção da raiz decídua, pode ser necessária a remoção do segundo molar decíduo (Figura 9.3). A perda do molar decíduo por esfoliação espontânea ou exodontia precipitará um rápido movimento do primeiro molar para mesial, que, às vezes, é tão extremo que até mesmo poderá ameaçar o espaço do segundo pré-molar (Figuras 9.4 e 9.5). Para distal, o desenvolvimento do segundo molar permanente seguirá rapidamente o primeiro molar a qualquer espaço novo disponível. Deve ficar claro que a precocidade do diagnóstico e do tratamento determina, na maioria dos casos, condutas de tratamento mais simples e resultados mais favoráveis. Muitas vezes, não só ocorre mesialização dos molares, mas também linguoversão dos molares inferiores, quando o problema é na mandíbula. Obviamente, se houver perda de espaço por mesialização do primeiro molar permanente, deve-se, por meio de procedimentos ortodônticos, distalizar esse dente, recuperando o espaço perdido e restabelecendo a oclusão normal. Artifícios clínicos ortodônticos são necessários na maioria dos casos. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:06 Figura 9.2 Criança com 7 anos. Observa-se a impacção do primeiro molar permanente superior esquerdo. Incisivos Os incisivos permanentes inferiores desenvolvem-se lingualmente às raízes dos incisivos decíduos em reabsorção, forçando-os vestibularmente para serem esfoliados. Portanto, a posição eruptiva lingual não deve ser motivo de alarme se os incisivos decíduos estiverem se reabsorvendo normalmente. Tão logo os incisivos centrais decíduos esfoliem, a irrupção posterior e a atividade da língua movem os incisivos permanentes para vestibular até sua posição normal. O tamanho dos dentes decíduos, a quantidade de espaços intermediários e o tamanho do perímetro anterior do arco dentário são fatores que determinam se os incisivos permanentes irromperão apinhados. Em geral, após a irrupção dos incisivos laterais, há algum apinhamento, e esses dentes se posicionam mais para lingual ao irromperem. À medida que emergem, não só empurram os incisivos laterais decíduos para vestibular, como também movem os caninos decíduos para distal e lateral, diminuindo o espaço primata a partir da mesial. Figura 9.3 Impacção grave provocando reabsorção da raiz do segundo molar decíduo. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 2 03/02/2017 16:07 Figura 9.4 Impacção do primeiro molar superior.3 Sobreirrupção do primeiro molar inferior. Nota-se que ele passou do plano oclusal e acentua o desvio do primeiro molar superior impactado. Fechamento de parte do espaço para o segundo pré-molar. e Fechamento acentuado do espaço para o segundo pré-molar. Figura 9.5 A impacção de um primeiro molar permanente superior sobre o molar decíduo é sintoma de outros problemas. O segundo pré-molar permanente pode estar ausente. Apinhamento ou desorientação pode causar a impacção do primeiro molar na raiz do molar decíduo. e O exame clínico pode mostrar a impacção molar, com ou sem apinhamento de outros dentes.3 https:1/jigsaw.vita1source.com/api/vO/books/9788527728881/print?fr... 3 de 3 03/02/2017 16:07Quando os incisivos permanentes são grandes demais para o arco dentário nos quais se encontram, a irrupção do incisivo lateral pode causar a esfoliação do canino decíduo. Essa perda precoce de canino decíduo, em particular no arco inferior, pode permitir a inclinação linguodistal do segmento incisivo por hiperatividade do músculo mentoniano, fechando o espaço. Ocorre, em geral, alteração da linha média e há tendência a se remover o antímero decíduo para impedir o desvio da linha média. Todavia, a remoção do canino inferior antímero, apesar de prevenir o desvio de linha média, não resolverá o problema sobre o encurtamento da arcada dentária pela inclinação dos incisivos. Na verdade, a extensão da arcada pode ser diminuída ainda mais pela remoção do antímero. A inclinação dos incisivos para lingual permite, ainda, ao canino permanente em desenvolvimento deslizar para vestibular, onde, mais tarde, irrompe em vestibuloversão (Figura 9.6). Como rotina, não é aconselhada a remoção de incisivos laterais decíduos para favorecer o bom posicionamento dos centrais nem a extração dos caninos para alinhar os incisivos laterais. Essas exodontias só estão indicadas após estudo cuidadoso dos arcos dentários, por meio de medidas dos modelos e avaliação radiográfica, bem como acompanhamento do caso em questão. Para que essas condutas possam ser seguidas, é necessário que o clínico tenha algum conhecimento do desenvolvimento da oclusão, bem como domínio de técnicas ortodônticas, para não só permitir o desenvolvimento natural dos arcos dentários nessa época, como também saber tirar proveito desse fenômeno. Figura 9.6 Incisivos apinhados na dentição mista podem permanecer relativamente estáveis. Perda ou remoção de um canino decíduo melhora o alinhamento de incisivos deslocados, em virtude de uma inclinação assimétrica de todo o segmento incisivo. C. A remoção do canino decíduo oposto pode preservar a simetria. Falha para equilibrar a perda assimétrica pode consolidar a assimetria com impacção agravada ao canino sucessor e irrupção precoce do canino permanente oposto. Exodontias em época certa podem resultar em bom alinhamento incisivo e simetria, mas esse não é sempre o caso. Mais comumente, os incisivos abrem-se em leque para preencher qualquer espaço disponível em excesso, aumentando, assim, o apinhamento do canino.3 Encontra-se pouca variação na irrupção do incisivo central superior, a menos que seja desviado por esfoliação https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:08 anormal do dente decíduo, por um dente supranumerário ou por problemas resultantes de traumatismo. Os incisivos centrais superiores permanentes irrompem com ligeira inclinação para distal. Em virtude da ausência do espaço na base da maxila, o ápice dos incisivos superiores converge para a linha média, existindo, portanto, algum espaço entre os incisivos centrais. Como o crescimento ocorre nessa área, esse espaço diminui à medida que os incisivos laterais irrompem e os caninos posicionem-se mais para lateral, buscando seu caminho no arco dentário. Essa maloclusão transitória é conhecida como fase do “patinho feio” (Figura 9.7). Os incisivos laterais superiores, por sua vez, muitas vezes, encontram mais dificuldade em assumir suas posições normais, pois, como estão irrompendo, as coroas dos caninos superiores em desenvolvimento estão exatamente em posição labial e distal às suas raízes. O canino, nessa posição, muitas vezes pode fazer com que a coroa do incisivo lateral irrompa mais para vestibular do que o incisivo central. Depois que o canino em irrupção mudou seu curso (parecendo ter sido desviado pela raiz do incisivo lateral), o incisivo lateral toma direção e se coloca ao lado do incisivo central. Podem ser observadas pequenas rotações na posição dos incisivos central e lateral, mas estas normalmente são corrigidas à medida que os caninos irrompem. Em geral, não é boa prática tentar alinhar os incisivos centrais e laterais enquanto a coroa do canino estiver em cima da raiz do incisivo lateral, pois a ação do aparelho ortodôntico contra a coroa do incisivo lateral pode pressionar a raiz contra a coroa do canino em irrupção e produzir reabsorção radicular. Figura 9.7 Fase do “patinho feio” de Broadbent. Percebe-se divergência do longo eixo do dente, de apical para cervical, e, nas idades de 7 a 9 anos, o canino próximo da raiz dos incisivos laterais. Em relação à irrupção e ao posicionamento dos quatro incisivos em cada arco, em inúmeras ocasiões em que, nos períodos iniciais de irrupção desses dentes, era possível afirmar que não haveria espaço para permitir uma disposição harmoniosa. Entretanto, com o passar do tempo, alguns meses ou 1 a 2 anos, verificou-se o perfeito ajuste dos incisivos. Por isso, é importante enfatizar que medidas radicais mutiladoras não são indicadas nessa fase de desenvolvimento. Caninos e pré-molares O desenvolvimento favorável da oclusão nessa região depende principalmente de três fatores: sequência favorável de irrupção, relação tamanho dentário-espaço disponível satisfatória e obtenção de uma relação molar normal com o máximo proveito do espaço livre de Nance. A sequência mais favorável de irrupção na mandíbula é: canino, primeiro pré-molar e segundo pré-molar. É vantajoso que os caninos erupcionem primeiro, pois eles mantêm o perímetro do arco e previnem a inclinação dos incisivos para lingual. Quando os incisivos estão inclinados para lingual, podem sofrer sobreirrupção, uma vez que, com essa inclinação no sentido lingual, perdem seus pontos de oclusão normais com os incisivos superiores. O canino inferior permanente é mais largo que o decíduo, cerca de quase 2 mm. Se não existir espaço na época da esfoliação do decíduo, essa diferença estará expressa por deslocamento para vestibular ou distal. Se o canino for deslocado para vestibular, estará fora de posição e, se o for para distal, pode ser detido em sua irrupção, causando reabsorção da raiz mesial do molar decíduo, tornando-se impactado, ou o molar decíduo pode se o for em sua esfoliação. Entretanto, essa situação não é muito frequente. Quando o molar decíduo esfoliar antes do canino ou ao mesmo tempo que ele, o canino tenderá a irromper na linha do arco, migrando para distal, para o espaço do pré-molar. Isso poderá bloquear ou prejudicar a irrupção mais tardia desses dentes (Figuras 9.8 a 9.10). https:1/jigsaw.vita1source.com/api/vO/books/9788527728881/print?fr... 3 de 3 03/02/2017 16:07 Figura 9.8 Um canino inferior deslocado para vestibular em geral irromperá de forma anormal.3 Figura 9.9 Um canino deslocado para distal pode impactar os pré-molares. Isso é, com frequência, o resultado da perda prematura do primeiro molar decíduo.3 Figura 9.10 A irrupção de um pré-molar inferior antes do canino é uma indicação de um possível apinhamento do canino.3 O primeiro pré-molar raramente apresenta dificuldade de irromper. As rotações dos pré-molares ocorrem, às vezes, como resultado da reabsorção irregular das raízes de molares decíduos. Para a maioria dos casos, como esse dente (segundo pré-molar) é sempre menor que o segundo molar decíduo, não há problema de espaço para ele. Entretanto, se houver perda de espaço nesse segmento do arco, esse dente sofrerá as consequências por ser o último a irromper, podendo ocorrer irrupção por vestibular ou lingual, dependendo de sua inclinação ou facilidade de irrupção, com suas consequências indesejáveis. Em casos mais extremos, pode ocorrer o bloqueio da irrupção ou infrairrupção. Esses fenômenos são decorrentes de deslocamento do primeiro molar no sentido mesial ou insuficiência na relação tamanho dentário-espaço. A sequência de irrupção maisfavorável na maxila é primeiro pré-molar, segundo pré-molar e canino ou primeiro pré-molar, canino e segundo pré-molar. Normalmente, o primeiro pré-molar irrompe sem qualquer problema no arco, em ambas as sequências. Quando o canino é o último dente a irromper e falta espaço, ele se posiciona por vestibular, sobrepondo-se parte sobre o incisivo lateral e parte sobre o primeiro pré-molar. Nos casos mais complicados, ele fica tão por vestibular, fora do arco, que chega a marcar o lábio do paciente. O tratamento ortodôntico nessa situação requer conhecimentos que escapam da rotina da Odontopediatria. Portanto, a prevenção é fundamental para que o caso não se agrave (Figura 9.11). https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:08 Figura 9.11 Os caninos superiores apinhados frequentemente irrompem para vestibular e acima da linha de oclusão. O deslocamento para lingual é muito mais sério. Vista oclusal com canino por vestibular.3 Nos casos em que o último dente a irromper é o segundo pré-molar e falta espaço, os mesmos problemas já descritos para o segundo pré-molar inferior podem ser observados. Segundos molares Na maioria das vezes, esses dentes não têm problemas para irromper e o fazem de modo a não provocar distúrbios, além de o alinhamento anterior do arco ser satisfatório e a sequência de irrupção normal. Algumas vezes, entretanto, é possível observar anomalias associadas à irrupção desses dentes. Assim, analisando isoladamente cada arco, quando o segundo molar irrompe antes do segundo pré-molar no arco inferior, e na maxila, quando esse dente irrompe antes do canino ou do segundo pré-molar, sua força axiomesial de irrupção (do segundo molar) empurra o primeiro molar permanente para mesial, podendo fechar o espaço desses dentes em ambos os arcos. Segundo Moyers, esse é um sinal característico de maloclusão (Figura 9.12).2 É interessante ressaltar que o diagnóstico precoce pode evitar essa situação. Outro problema que se pode ter em relação aos segundos molares é a irrupção do superior antes do inferior. Nesses casos, como mencionado para os primeiros molares, costuma ocorrer relação de classe II. Várias são as causas de impedimento da irrupção, podendo ser provocadas por fatores sistêmicos, endócrinos, https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 2 03/02/2017 16:08 doenças gerais e até mesmo problemas estritamente locais, como retenção prolongada de dentes decíduos, fibrose gengival, falta de espaço, entre outros. Figura 9.12 Tanto no arco superior quanto no inferior, quando ocorre quebra de sequência de irrupção e os segundos molares permanentes caminham para a irrupção antes dos caninos e pré-molares, geralmente tem-se o encurtamento do arco. Tanto no arco superior quanto no inferior, os segundos molares estão adiantados em relação a caninos e pré-molares. Na maxila, o segundo molar está entrando no arco antes que o canino, e acabará fechando o espaço.4 A retenção prolongada de dentes decíduos pode interferir no trajeto de irrupção do sucessor permanente (Figuras 9.13 e 9.14). O fator determinante mais comum da retenção prolongada de dentes decíduos é a anquilose dentoalveolar, a qual resulta em união óssea direta entre a raiz do dente e o osso alveolar. Os molares decíduos inferiores são os dentes mais suscetíveis que os superiores. O quadro etiológico não é claro. Alguns autores acreditam que esse processo esteja ligado a um traumatismo, enquanto outros admitem um padrão familiar. Observou-se que essa condição tem maior ocorrência em parentes de crianças com essas características. Um estudo avaliou 1.167 radiografias panorâmicas de crianças brasileiras na faixa etária de 6 a 12 anos e apontou que, nos casos em que ocorre agenesia de pré-molares, há também maior risco de a criança apresentar infraoclusão de molares decíduos.5 A reabsorção normal do molar decíduo inicia-se na superfície interna da porção lingual das raízes. O processo de reabsorção não é contínuo, pois é interrompido por períodos de atividade ou repouso, e um processo reparador segue-se ao período de reabsorção. No curso da fase reparadora, uma sólida união forma-se entre o osso e o dente decíduo. Essa reabsorção intermitente seguida por reparo explica os vários graus de firmeza dos dentes https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 3 03/02/2017 16:08 decíduos antes da sua esfoliação (Figuras 9.15 e 9.16). A anquilose do dente decíduo no osso alveolar pode ocorrer em qualquer época após o início da reabsorção. A gravidade dos problemas provenientes da anquilose depende do crescimento que toma lugar entre a época do início da anquilose e o tempo de esfoliação normal para o dente, dependendo, assim, da idade – se a anquilose ocorrer próxima à esfoliação, poderá ser seguramente ignorada, com a devida atenção para a retenção do dente afetado, além do seu tempo de esfoliação normal. Restaurações adesivas podem ser uma alternativa de tratamento para dentes em infraoclusão, buscando evitar a instalação de problemas oclusais. Em casos de anquilose grave, a conduta clínica é a exodontia.1,6 A anquilose, em um período de anos, pode produzir efeitos como os observados na Figura 9.17. Assim que o primeiro molar irrompe, ele se inclina na direção sobre a superfície oclusal do dente decíduo. Isso toma algum espaço requerido pelo segundo pré-molar permanente. O dente superior decíduo pode, às vezes, inclinar-se para um espaço distante o suficiente para limitar a inclinação do molar inferior, mas isso começará a romper o plano oclusal. A anquilose precoce pode levar à situação observada na Figura 9.17 E, com o dente decíduo completamente submerso e o espaço perdido em sua totalidade. O dente anquilosado não apresenta mobilidade, mesmo nos casos de reabsorção radicular avançada. A radiografia é um meio valioso na obtenção do diagnóstico. Um rompimento na continuidade da membrana periodontal indica que uma área de anquilose é em geral evidente na radiografia. No entanto, a anquilose pode ocorrer nas porções vestibular e lingual das raízes e não ser detectada em uma radiografia. Normalmente, surge uma mordida aberta posterior à medida que o nível oclusal dos dentes anquilosados não se mantém no mesmo ritmo do desenvolvimento vertical dos processos alveolares dos dentes adjacentes. Portanto, a denominação “dentes submersos” é errônea, pois estes não submergem. Aparecem como um edema na mucosa alveolar (Figura 9.18). São observados associados a dentes decíduos ou permanentes em irrupção. Ocasionalmente, preenchem-se de sangue como resultado de hemorragia dentro do folículo do dente, que se projetou para fora do osso alveolar, mas ainda não perfurou a mucosa Figura 9.13 Retenção prolongada de dentes decíduos anteriores. Aspecto clínico. Aspecto radiográfico. e Realizou-se a exodontia dos dentes decíduos. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 3 03/02/2017 16:08 Figura 9.14 Retenção prolongada dos incisivos decíduos superiores e um quadro de alveolise. Aspecto clínico. Aspecto radiográfico. Figura 9.15 Anquilose do segundo molar decíduo. Aspecto clínico. Aspecto radiográfico. Esse elemento dental ficou muito abaixo do plano oclusal, provocando a extrusão do segundo molar decíduo superior. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 3 03/02/2017 16:08 Figura 9.16 Radiografia do segundo molar decíduo anquilosado. Presença de lesão de cárie extensa no molar anquilosado e a mesialização do primeiro molar permanente. Figura 9.17 A anquilose do molar decíduo ( ) é identificada clinicamente por ausência do nível oclusal adequado e ( ) por percussão. Assequelas são: perda de espaço ( ), possível lesão nos dentes adjacentes e sobreirrupção dos dentes opostos ( e ).3 https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:09 Figura 9.18 Presença de cisto durante o processo de irrupção. Observa-se a presença de um edema na mucosa alveolar e a não irrupção do incisivo central superior direito. De acordo com Burstone, indivíduos sem diastemas anteriores na dentição decídua têm tendência maior a apinhamento dos dentes permanentes que aqueles com diastemas.7 É evidente que lesões de cárie nas faces proximais de dentes decíduos (Figura 9.19) em crianças portadoras de arco do tipo II agravariam muito mais o quadro de maloclusão na dentição mista do que naquelas portadoras do arco do tipo I, pois, segundo Baume, durante a irrupção dos primeiros molares permanentes, estes dentes sofrem inclinação axial para mesial quando um espaço é criado, anteriormente, em razão da perda de contato resultante de lesões de cárie, exodontias e esfoliações.8,9 Mas ocorre que, com as superfícies proximais de molares decíduos destruídas pela cárie, esses dentes tendem a sofrer inclinação axial no sentido mesial, diminuindo o espaço livre de Nance, podendo, assim, determinar a retenção de caninos e pré-molares, além de ter a possível torsiversão de incisivos laterais (Figura 9.20). Vários autores afirmam que as lesões de cárie e perdas precoces de dentes decíduos são agentes causais de maloclusão.10-14 Golla conclui que, no Brasil, ao contrário das pesquisas da maioria dos autores, encontrou-se uma frequência maior de arcos sem espaços ou arco tipo II.14 Figura 9.19 Presença de lesões de cárie interproximais nos molares decíduos. Verificou-se que, na região de molares decíduos, para todas as faces (mesial, distal, oclusal, vestibular, lingual ou palatina), tanto no gênero masculino quanto no feminino, há maior frequência de superfícies cariadas no arco tipo II e que o dente mais atingido é o segundo molar decíduo. Na região anterior, também há maior prevalência de lesões de cárie nos indivíduos com arco tipo II. Os dentes decíduos anteriores superiores e inferiores não têm a função básica de mantenedores de espaço, como no caso dos molares decíduos, que determinam a discrepância positiva dos dentes decíduos em relação aos permanentes na região posterior do arco. Pugliesi relata que, além do envolvimento das faces proximais, as lesões de cárie podem envolver a face oclusal, diminuindo a altura cérvico-oclusal do dente, o que determina, na maioria das vezes, quando da irrupção dos incisivos permanentes superiores e inferiores, sobremordida e/ou sobressaliência.15 Conclui-se que isso ocorre porque o potencial eruptivo dos primeiros molares permanentes não é suficiente para compensar aquela dimensão vertical estabelecida na dentição decídua e que se perdeu em parte no processo carioso. Quando há perda de tecidos dentários na face oclusal dos dentes, o antagonista tende a se extruir, estabelecendo desequilíbrios no plano oclusal e criando problemas periodontais para esse último dente. Da mesma forma, na ocorrência de lesões de cárie interproximais, há tendência de os dentes posteriores sofrerem movimento para mesial, promovendo apinhamento, perda do ponto de contato, contato prematuro, problemas para a articulação temporomandibular (ATM) e maior suscetibilidade de ocorrência de doenças periodontais. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 2 03/02/2017 16:09 Figura 9.20 Lesões de cárie interproximais na dentição decídua e ação axiomesial do primeiro molar permanente, que fatalmente encurtará o arco, com consequências indesejáveis sobre o ajuste na dentição permanente. A restauração deve reestabelecer o tamanho do arco. Tanto a cárie de acometimento precoce como a precoce grave, ainda que possam ser diferenciadas quanto à faixa etária que atinge a criança e à gravidade, podem comprometer a dentição decídua em períodos muito precoces da vida. A identificação de lesão cariosa cavitada em crianças com idade inferior a 71 meses indica a presença de cárie de acometimento precoce ou suscetibilidade a essa condição. A presença de uma ou mais superfícies lisas, com cavitação ou restauração nos incisivos superiores, ou ainda, perda do dente, é classificada como cárie de acometimento precoce grave, em especial se o número de superfícies de dentes decíduos cariados, extraídos e obturados (ceo-s) for maior que 4 na faixa etária de 36 a 47 meses e ceo-s for maior que 5 entre os 48 e 59 meses.16,17 A cárie de acometimento precoce atinge os dentes de forma a causar-lhes sensível perda de estrutura, provocando, com isso, redução das dimensões do arco, quer seja na dimensão vertical, quer seja encurtando-o (Figura 9.21). Por esses motivos, os referidos quadros patológicos são extremamente perniciosos à oclusão. Assim, se porventura estes não forem evitados ou acudidos a tempo, fatalmente implicarão problemas nas dentições decídua, mista ou permanente com maior ou menor gravidade, dependendo da quantidade de perda dentária, da época do atendimento e dos cuidados desse atendimento. Assim, não apenas as entidades denominadas cárie de acometimento precoce e cárie de acometimento precoce grave são prejudiciais durante seus períodos de existências, como também suas repercussões no decorrer do tempo. Figura 9.21 a Cárie de acometimento precoce grave. Observam-se perda de dimensão vertical e provável perda de espaço. Esses distúrbios devem ser corrigidos rapidamente para não agravar ainda mais o quadro clínico e impedir possíveis implicações negativas no desenvolvimento da dentição. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:09 Restaurações inadequadas Um contato proximal que força o dente contíguo a fornecer espaço é tão prejudicial quanto um contato frouxo, que permite a impacção alimentar. Um ponto de contato muito justo aumenta a dimensão mediodistal de cada dente a ser restaurado na face proximal, criando prematuridade funcional. Se mais de uma restauração em excesso estiver presente em um segmento, o arco estará aumentado a ponto de romper sua continuidade em questão de tempo. A separação mecânica também favorece o aumento de comprimento de arco. A criação de prematuridade funcional proximal conduz à rotação no segmento anterior. Entretanto, o mais comum são restaurações inadequadas por falta de material. Da mesma forma, se várias restaurações forem feitas no mesmo arco com diminuição de seus tamanhos, haverá encurtamento deste com todos os problemas já discutidos. A restauração deve restabelecer o tamanho do arco (Figura 9.22). Além dessas, há outras consequências igualmente indesejáveis, como perdas de contato e impacções alimentares. Os dentes tendem a se mover, além de criar uma situação de maior suscetibilidade a doenças periodontais. A falta de anatomia oclusal na área de cúspide dental permite a extrusão do dente oponente ou cria contatos prematuros que podem conduzir a mandíbula para fora de posição, causando mordida cruzada. A perda precoce de dentes decíduos resultante de lesões de cárie (Figura 9.23) e traumatismos traz como consequência imediata um grande número potencial de distúrbios diretos ou indiretos da oclusão, entre os quais mais comuns são perda de espaço, extrusão de dente antagonista, torsiversão de dentes adjacentes e problemas adicionais, como deglutição atípica. Figura 9.22 Após a fase de adequação do meio ( ), deve ser executada a fase restauradora. As restaurações devem restabelecer o tamanho do arco ( ). https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 2 03/02/2017 16:10Já a perda prematura de incisivos decíduos recebe pouca atenção do clínico, a menos que se perceba um padrão anormal de fala ou perda de espaço notável. O fechamento de espaço no segmento incisivo é o resultado da inclinação dos dentes adjacentes no sentido mesiolingual, causada pela pressão dos tecidos circundantes. O arco superior, de alguma forma, pode permanecer na posição correta por se sobrepor ao arco inferior intacto. A perda prematura do incisivo inferior, contudo, é frequentemente ignorada na expectativa de que haverá aumento do arco com o crescimento. Ocasionalmente, a perda no comprimento é grave, resultando em apinhamento na região anterior. Conforme citado na introdução deste tópico, muitas vezes, o problema maior da perda precoce de dentes decíduos são os efeitos colaterais, o que ocorre na perda de dentes anteriores, provocando em muitos casos deglutição atípica, por má postura da língua, e também problemas de fonação. Na perda precoce de molares decíduos, deve ser levada em conta a época em que ocorre. Assim, quando esta acontecer em períodos bem anteriores, a irrupção do primeiro molar permanente e os danos imediatos são muito grandes, em especial na perda do primeiro molar decíduo, porque o fechamento do espaço resulta da inclinação de dentes anteriores apinhados para distal, que é meramente uma redistribuição do espaço sem perda do comprimento do arco. Em um estudo longitudinal em um grupo de 40 crianças de 6 a 9 anos que apresentavam perda precoce unilateral de primeiros molares decíduos inferiores em decorrência de cárie, os autores concluíram que os movimentos da cúspide distal do molar decíduo favorece o fechamento de espaço, e a maior perda de espaço ocorre ao longo dos 4 primeiros meses após a exodontia.18 As médias da perda de espaço foram 1,31 mm após 2 meses, 1,69 mm após 4 meses, 1,41 mm após 6 meses e 1,22 mm após 8 meses. Figura 9.23 Perda precoce do primeiro molar decíduo. Observa-se o primeiro pré-molar sem adequada formação radicular. Entretanto, quando a perda precoce é concomitante com a irrupção do primeiro molar permanente ou ele está presente no arco, esses problemas tornam-se sérios, e o espaço costuma ser ocupado pela mesialização desse dente. Os primeiros molares permanentes podem se mover para esse espaço, e os segundos molares permanentes em desenvolvimento tendem a seguir esse movimento. Com isso, ocorrerão oclusão anormal entre os primeiros molares permanentes e falta de espaço para a irrupção dos pré-molares (Figura 9.24). A perda prematura de molares decíduos determina a irrupção precoce de dentes permanentes, caso ocorra em um período mais ou menos próximo da sua esfoliação normal, e um atraso no período de irrupção dos seus sucessores se esta ocorrer em uma época muito precoce ao de sua esfoliação normal, porque no local da perda ocorre neoformação óssea sobre o germe em desenvolvimento, além de fibrose no tecido gengival por causa do https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:10 traumatismo causado pela mastigação. Resultados de um estudo clínico randomizado em uma amostra composta por 4.468 crianças demonstraram que a irrupção de pré-molares pode ser acelerada em 2 até 8 meses quando há perda precoce, principalmente de molares decíduos superiores.19 Ocasionalmente, o dente permanente poderá perder a força eruptiva, freado por essa barreira mucosa, e a excisão desta pode ser necessária para permitir a irrupção desse dente. A perda de dentes permanentes em uma pessoa jovem é em geral decorrente de traumatismo ou cárie interproximal. A criança com uma relação incisiva de classe II é muito mais propensa à perda precoce por traumatismo. Se o arco já estiver apinhado, o espaço criado por tal perda tenderá a se fechar. O efeito da perda de um molar permanente depende do tempo desta. Se o dente for perdido durante a dentição mista, o espaço tenderá a se fechar, em especial na maxila, com inclinação do segundo molar permanente para mesial. Uma perda posterior de um primeiro molar permanente promoverá o fechamento do espaço menos satisfatório, especialmente se o segundo molar já estiver irrompendo, induzindo, assim, rotação e inclinação dos dentes, aproximando-se do espaço criado pela perda. Se as raízes dos dentes decíduos não forem corretamente reabsorvidas, os sucessores permanentes poderão não irromper na época correta ou ser deslocados para uma má posição. Frequentemente, os fragmentos das raízes decíduas retidas no processo alveolar, se não reabsorvidos, desviam o dente permanente do padrão eruptivo normal e mais certamente evitam o fechamento dos contatos entre os dentes (Figura 9.25). Muitos outros fatores podem ser mencionados como provocadores de alterações no desenvolvimento da oclusão normal, entre os quais se podem relacionar aqueles ligados aos tecidos moles, aos hábitos e às anomalias dos desenvolvimentos dentários. Problemas relativos ao selamento dos lábios quando a mandíbula está em repouso e durante a deglutição também interferem no desenvolvimento da oclusão. Se os lábios estiverem separados quando os músculos circumbucais e da mastigação estiverem em repouso, isso pode ocorrer pelo encurtamento labial, à altura excessiva do terço inferior da face, à respiração bucal decorrente da obstrução nasal ou a incisivos superiores proeminentes. Conforme aumenta o grau da incompetência labial, a criança tentará, com dificuldade, obter selamento bucal anterior durante a deglutição e adotará várias posturas de adaptação dos lábios, da mandíbula e da língua, a fim de obter o selamento sobre a oclusão existente. Essas posturas podem produzir alterações na oclusão. O lábio inferior, normalmente, cobre de um terço a metade da coroa do incisivo inferior em repouso. Conforme aumenta a incompetência labial, ocorre a vestibuloversão dos incisivos inferiores. A morfologia labial pode ter um efeito significativo sobre o posicionamento dos incisivos, indo de flácida a hipotônica, associada à vestibuloversão incisiva até lábios hipertônicos associados à linguoversão incisiva. Figura 9.24 e . Perda precoce de molares decíduos, com inclinação acentuada do primeiro molar permanente, https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 2 03/02/2017 16:10 e perda de espaço. . Perda precoce do segundo molar decíduo, sendo indicada a confecção de mantenedor de espaço. Figura 9.25 Raiz. Residual distal de segundo molar decíduo travando a irrupção do segundo pré-molar. Observa-se que, com a demora do dente permanente para atingir o plano oclusal, já houve perda de espaço. O crescimento normal da língua parece ter um padrão diferente do resto da cavidade bucal. Parece larga na criança jovem, mas, na idade adulta, seu tamanho relativo ao espaço bucal aumentado é menor. A língua assume uma posição mais baixa e, com o crescimento, a sua ação inclui a modelagem dos dentes aos lábios e à musculatura peribucal. Portanto, o tamanho, a posição e a atividade da língua podem ter um papel decisivo no desenvolvimento do tamanho e da forma do arco dentário, conforme equilibra as forças musculares externas aos dentes. A macroglossia produz desenvolvimentos dentários decorrentes do aumento da pressão da língua sobre os dentes. O crescimento exagerado da língua, segundo McDonald e Avery, é capaz de causar padrão de crescimento anormal da maxila e oclusão defeituosa.20 A inclinação exagerada dos dentes anteriores inferiores e uma oclusão classe III de Angle são o resultado ocasional da macroglossia. Podem ocorrer ondulações nas bordas laterais da língua por causa do traumatismo constante da oclusão sobre esta. O tratamento consiste em eliminar a causa primáriae, em alguns casos, remover cirurgicamente uma parte da língua. É o resultado de um freio lingual curto que se estende da ponta da língua até o assoalho da boca e até mesmo ao tecido gengival lingual. Por se acreditar que a anquiloglossia restrinja gravemente os movimentos linguais e cause dificuldades na fala e erros de articulação de palavras, a maioria dos pacientes é tratada com frenectomia. Na verdade, raramente, a anquiloglossia afeta o desenvolvimento da fala. Uma consideração mais importante resulta na produção de doença periodontal pela tração da gengiva inserida das superfícies linguais dos incisivos inferiores. Essa tensão é indicativa na frenectomia. O freio labial maxilar nas crianças estende-se da papila palatina através do processo alveolar até o lábio. Conforme os incisivos irrompem, o alvéolo cresce no sentido vertical, e a inserção desloca-se progressivamente do palato para a superfície vestibular do rebordo alveolar. Contudo, algumas fibras podem manter a sua inserção entre os incisivos até a sutura intermaxilar. Tal inserção pode estar associada a diastema de linha média; se este persistir após todos os dentes permanentes terem irrompido, a ação do freio pode ser verificada pela tração do lábio superior e pela visualização de isquemia no tecido interdentário. Isso não confirmará a ação do freio, mas pode sugerir um possível envolvimento na produção do diastema. O freio labial anormal, além de causar diastema médio, pode produzir outras condições clínicas indesejáveis. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:10 A quantidade exagerada de tecido e a inserção baixa são capazes de interferir na escovação, dificultando a colocação da escova na altura própria do vestíbulo durante a limpeza convencional. Se as fibras musculares do freio se inserirem no rebordo da gengiva marginal livre, distendendo o lábio durante a mastigação e a fala, podem causar retração no tecido do colo do dente. Esta inserção pode também provocar o acúmulo de restos de alimentos e, eventualmente, a formação de bolsas. O freio anormal pode ainda restringir os movimentos do lábio, interferir na fonação e produzir um efeito estético indesejável (Figuras 9.26 e 9.27). Sim e Finn classificam os hábitos bucais da criança em não compulsivos e compulsivos.21 Os hábitos possíveis de fácil adoção e abandono nos padrões de comportamento da criança, à medida que esta cresce, são denominados não compulsivos. Para que um hábito bucal seja compulsivo, a criança adquiriu uma fixação a ponto de necessitar praticá-la sempre que se sente insegura. A maioria dos autores considera os hábitos bucais ligados preferencialmente aos períodos de infância e adolescência. Figura 9.26 O freio normal une-se à superfície labial do processo alveolar, enquanto as fibras dentais se conectam aos incisivos. O freio, passando entre os incisivos para uma união palatina, ocupa o espaço normalmente preenchido pelas fibras interdentárias.3 Figura 9.27 Aspecto clínico do freio labial anormal causando diastema mediano e, consequentemente, efeito estético indesejável. Entre os hábitos mais comuns na infância e adolescência, estão a sucção do polegar, de outros dedos ou chupeta, sugar ou morder os lábios, respiração bucal, bruxismo, deglutição atípica, hábitos posturais. A instalação de hábitos bucais atua como fator etiológico de maloclusões, entre elas mordidas abertas anterior (Figura 9.28) e posterior, estreitamento dos arcos dentários, deslocamentos dentários e mordidas cruzadas anterior e posterior, entre outras. A identificação dessas alterações oclusais é importante para a realização de um diagnóstico correto e também para uma terapêutica adequada e individualizada. O tipo de maloclusão que pode se desenvolver depende de variáveis como atividades musculares associadas, posição da mandíbula durante a sucção, padrão esquelético da face, intensidade da força aplicada aos dentes e processo alveolar, frequência e duração do hábito.2 Esse assunto será tratado com mais detalhes na parte de Ortodontia. Entre as anomalias mais comuns que podem ser citadas e relacionadas com problemas oclusais, estão as https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 2 de 2 03/02/2017 16:10 anadontias, que, pela ausência de um ou mais dentes, são responsáveis de alguma maneira por diagnósticos na oclusão. O mesmo pode ocorrer com os dentes supranumerários (Figura 9.29), que podem provocar alterações demasiado diversas na oclusão e, não tão frequente, demasiado complexas, as quais devem sempre ser analisadas e avaliadas com toda a atenção pelo profissional clínico. Figura 9.28 Criança com 8 anos. Observam-se presença de mordida aberta anterior e hábito de interposição lingual, que podem causar deslocamentos dentários. Os odontomas também, na maioria dos casos, provocam alterações no desenvolvimento da oclusão, devendo ser quase todos tratados cirurgicamente. As macro e microdontias, alterações de tamanho, podem desestruturar o bom alinhamento dos dentes; macrodontias podem provocar problemas estéticos. Figura 9.29 Criança com 7 anos. Observa-se a presença de supranumerário na região anterossuperior. https://jigsaw.vitalsource.com/api/v0/books/9788527728881/print?fr... 1 de 2 03/02/2017 16:11 Essas alterações serão estudadas mais detalhadamente em outros capítulos, mas pode-se perfeitamente imaginar maior ou menor grau de alteração para a oclusão nas diferentes possibilidades mencionadas. Outras anomalias, como a amelogênese e a dentinogênese imperfeita, caracterizadas por alteração na cor e pelo desgaste dentário, também podem ocasionar perdas de dimensão vertical, além de interferir nas funções mastigatórias e na estética. Quando acometem a dentição decídua, devem-se reconstruir os dentes com material resinoso, cimento de ionômero de vidro ou coroas para evitar problemas no desenvolvimento das dentições mista e permanente. Agradecemos às colegas Lilian Waitman Chilvarquer, Marcia Moreira, Débora de Moraes e Luciana Faria Sanglard a cessão de algumas figuras deste capítulo. 1. American Academy of Pediatric Dentistry. Guideline on management of the developing dentition and occlusion in pediatric dentistry. Pediatr Dent. 2013;34(6):239-51. 2. Moyers RE. Ortodontia. 4.ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1991. 3. Thurow RC. Atlas of orthodontic principles. 2.ed. St. Louis: Mosby; 1977. 4. Araújo MCM. Ortodontia para clínicos. Programa pré-ortodôntico. 3.ed. São Paulo: Santos; 1986. 5. Kuchler EC, Risso PA, Costa MC, Modesto A, Vieira AR. Studies of dental anomalies in a large group of school children. Arch Oral Biol. 2008;17: doi:10.1016/j.archoralbio. 6. Kurol J. Impacted and ankylosed teeth. Why, when, and how to intervene. Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2006; 129(4 Suppl):S86-90. 7. Burstone CJ. Distinguishing developing malocclusion from normal occlusion. Dent Clin N Am. 1964;479-91. 8. Baume LJ. 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