direito constitucional desembargador rui penha Cabo Verde
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Direito Constitucional I 
Teoria Geral da Constituição 
 
CAPÍTULO I \u2013 INTRODUÇÃO 
 
1. Introdução ao Direito Constitucional 
Direito Constitucional é o conjunto de normas que regulam o próprio Estado enquanto 
comunidade e enquanto poder.
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 O Direito Constitucional engloba as regras jurídicas que definem 
a titularidade do poder, os órgãos que exercem o poder do Estado, e a relação destes com os 
cidadãos. 
Formalmente Direito Constitucional é o ramo do direito público interno dedicado à análise e 
interpretação das normas constitucionais. 
Qualquer Estado envolve uma estrutura institucional do poder, no sentido em que tem de dispor 
de dispor de regras, ou normas jurídicas, em que assenta o seu ordenamento.
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Porém, só a partir do século XVIII surge a Constituição como um conjunto de regras jurídicas 
definidoras das relações do poder político. Surge então o constitucionalismo moderno. 
O Constitucionalismo tende a disciplinar toda a actividade dos governantes e todas as suas 
relações com os governados. Pretende submeter à lei todas as manifestações da soberania e 
consagra e protege direitos dos cidadãos perante os órgãos do Estado.
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1
 Jorge Miranda, in \u201cManual de Direito Constitucional\u201d, tomo I, 3ª edição, Coimbra Editora, 1997, pág. 13. 
2
 Jorge Miranda, in \u201cManual de Direito Constitucional\u201d, tomo II, 3ª edição, Coimbra Editora, 1996, pág. 7. 
3
 Miranda, tomo II, 1996, pág. 7. 
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Constitucionalismo é a teoria (ou ideologia) que ergue o princípio do governo limitado 
indispensável à garantia dos direitos em dimensão estruturante em dimensão estruturante da 
organização político-social de uma comunidade.
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A Constituição é resultado da necessidade dos povos de limitar o poder político, garantindo o 
exercício do poder ao serviço do povo e os direitos individuais fundamentais. 
O constitucionalismo moderno representará uma técnica específica de limitação do poder com 
fins garantísticos.
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O Direito Constitucional configura-se como \u201cDireito Público fundamental\u201d por referir-se 
directamente à organização e funcionamento do Estado, à articulação dos elementos primários do 
mesmo e ao estabelecimento das bases da estrutura política.
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Breve história das constituições: 
A organização política das comunidades remonta à pré-história tendo começado com a 
organização das famílias e dos clãs como grupos com interesses e fins comuns. 
As primeiras formas conhecidas de Constituição, enquanto organização do Estado e limitação de 
poderes, surge com os hebreus que criaram limites pela chamada \u201clei do Senhor\u201d ao poder 
político, cabendo aos profetas, legitimados pela vontade popular, fiscalizar e punir os actos dos 
governantes que ultrapassassem os limites bíblicos. 
As Cidades-Estado gregas praticam a democracia directa, havendo identidade entre governantes 
e governados, sendo os cargos públicos exercidos por cidadãos escolhidos em sorteio e limitado 
no tempo a sua designação. 
 
4
 José Joaquim Gomes Canotilho, in \u201cDireito Constitucional e Teoria da Constituição\u201d, 4ª edição, Almedina, 
Coimbra, 2000, pág. 51. 
5
 Canotilho, 2000, pág. 51. 
6
 Pedro Lenza, in \u201cDireito Constitucional Esquematizado\u201d, 12ª edição, Editora Saraiva, São Paulo, 2008, pág. 1, 
citando José Afonso da Silva, in \u201cCurso de direito constitucional positivo\u201d, pág. 36. 
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Em Roma, os denominados interditos pretendiam garantir os direitos individuais contra o arbítrio 
e a prepotência dos governantes. O Estado romano, embora essencialmente municipal, 
consagrava direitos básicos ao cidadão romano, nomeadamente o direito de eleger os seus 
representantes e de acesso às magistraturas, o direito de casamento legítimo e o direito de 
celebração de actos jurídicos. 
Na Idade Média o monarca tinha um poder absoluto, embora segundo a doutrina do pactum 
subjectionis, o governo teria de ser exercido com equidade, existindo ainda regras fundamentais 
do reino, especialmente as referentes à sucessão e indisponibilidade do domínio real. Existiam, 
porém, forais, pactos e cartas de franquia que concediam direitos especiais a determinadas 
pessoas ou aos habitantes de certas localidades. Com o cristianismo acentuou-se o valor da 
pessoa humana (criada à semelhança de Deus), implicando a igualdade de todas as pessoas 
perante Deus, constituindo forte abalo ao poder imperial romano ao contestar o carácter sagrado 
do imperador. 
Uma das principais manifestações de limitação do exercício do poder político pelo Rei surgiu em 
Inglaterra com a Magna Carta, de 15 de Junho de 1215.
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 A Magna Carta resultou da rebelião da 
aristocracia contra o Rei em resultado do fracasso deste na guerra de reconquista de territórios 
perdidos para os franceses, com consequente agravamento da situação da aristocracia inglesa, e 
por ingerência com a Igreja. Nos termos do seu art. 39º \u201cNenhum homem livre será preso, 
aprisionado ou privado de uma propriedade, ou tornado fora-da-lei, ou exilado, ou de maneira 
alguma destruído, nem agiremos contra ele ou mandaremos alguém contra ele, a não ser por 
julgamento legal dos seus pares, ou pela lei da terra\u201d e, de acordo com o art. 40º, \u201cA ninguém 
venderemos, a ninguém recusaremos ou atrasaremos, direito ou justiça\u201d. 
Petition of Right, de 7 de Junho de 1628, foi aprovada por ambas as câmaras do Parlamento 
inglês em reacção à decisão do rei Carlos I de cobrar impostos não aprovados pelo parlamento e 
aquartelamento forçado dos soldados em casas particulares, para suportar o esforço com a guerra 
dos trinta anos. A principal consequência da Petition of Right foi a proibição do rei cobrar 
 
7
 Anteriormente já Carta de Liberdades de Henrique I, outorgada em 1100, submetia o rei a determinadas regras no 
tratamento de oficiais da igreja e nobres, concedendo assim determinadas liberdades civis à igreja e à nobreza 
inglesa. 
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impostos que não tivessem sido aprovados pelo Parlamento e a proibição da prisão sem justa 
causa. À Petition of Right sucedeu o Bill of Rights de 1689, lei do Parlamento inglês que impôs 
que as leis emanassem apenas do Parlamento. 
O Constitucionalismo moderno nasceu com a Constituição da Federação dos Estados Unidos da 
América, de 1787, e com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
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, proclamada em 
Paris em 2 de Outubro de 1789, e que serviu de preâmbulo à Constituição da República Francesa 
de 3 de Setembro de 1791. 
 
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 Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As destinações sociais só podem fundamentar-se na 
utilidade comum. 
Art. 2.º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. 
Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão. 
Art. 3.º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhum corpo, nenhum indivíduo pode 
exercer autoridade que dela não emane expressamente. 
Art. 4.º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos 
naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo 
dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei. 
Art. 5.º A lei não proíbe senão as acções nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode ser obstado e 
ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene. 
Art. 6.º A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente