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CURSO: DIREITO - 2019/1 DISCIPLINA: ECONOMIA POLÍTICA - 1ª. Série Profa. Ma. Valéria C. Scudeler prof.valeria.scudeler@faesb.edu.br UNIDADE 3: ECONOMIA CLÁSSICA: ADAM SMITH, DAVID RICARDO, THOMAS MALTHUS E STUART MILL Bibliografia CARNEIRO, R. (org.) Os Clássicos da Economia (volume 1). São Paulo: Editora Ática, 1997. COUTINHO, M. C. Lições de Economia Política Clássica. São Paulo: Hucitec, 1993. VICECONTI, P. NEVES, S. das. Introdução à economia. 11a ed. São Paulo: Saraiva. 2012. 1 - As Origens da Economia Política Clássica Meados do sec. XVIII: nascimento da disciplina da Economia Política, que trata da relação entre os homens na reprodução da vida material em sociedades mercantis. Marco histórico: publicação de A Riqueza das Nações, de Adam Smith, em 1776. Desde início do sec. XVII, temas econômicos como juros, preços e câmbio vinham sendo objeto de atenção crescente, sem que houvessem ainda se convertido num ramo específico da especulação humana. Havia ainda muito preconceito em relação aos negócios de financistas e comerciantes na Europa. Ponto chave para a Economia Política Clássica: desenvolvimento da categoria "valor", que advém da generalização da produção de mercadorias. Adam Smith e Ricardo: distribuição da riqueza. A Economia Política está associada ao surgimento do capitalismo, a partir do sec. XV (Idade Moderna). Elementos constitutivos da ciência nascente: a) Racionalismo e Humanismo: as raízes filosóficas Os precursores e fundadores foram, antes de tudo, filósofos. Tanto quanto a filosofia da época, a economia veio a se beneficiar do desenvolvimento das ciências naturais e do impacto destas sobre o conhecimento humano em geral. As analogias mecânica e fisiológica são logo transportadas para um objeto de conhecimento, a sociedade humana, anteriormente excluída do campo das observações científicas. Os pensadores passam a conceber a sociedade humana como um sistema regido por leis. Jurisnaturalismo - o primado da razão: "a construção de uma ética racional separada definitivamente da teologia e capaz, por si mesma, precisamente Profa. Valéria C. Scudeler 2 porque fundada finalmente numa análise e numa crítica racional dos fundamentos, de garantir a universalidade dos princípios de conduta humana." O racionalismo jurisnaturalista, ao se propor a conhecer e normatizar a ação humana, traz uma noção da natureza humana decisiva na constituição da Economia Política. Noção de comportamento humano certo e regular, racional. Ideário da Economia Política Clássica: a sociedade humana complexa e cooperativa, que pressupõe a coerção estatal, será não só uma sociedade de progresso e fartura para todos, como também uma sociedade cuja relação econômica básica pressupõe o exercício da liberdade. Na sociedade econômica o homem busca o benefício privado, favorecendo a si próprio e à sociedade. Ao obedecer aos instintos aquisitivos, próprios de sua natureza humana, o homem promoverá o benefício social. b) Temas econômicos correntes Sec XVII e XVIII: a unificação dos espaços nacionais e a consolidação do poder central, bem como o crescimento do comércio e das relações internacionais, trouxeram à tona questões relevantes à prática comercial, às finanças do soberano e ao progresso das nações. Liberação do comércio internacional de grãos: liberalismo francês (fisiocracia) e David Ricardo. Teoria das Vantagens Comparativas: David Ricardo. Mercantilismo: um conjunto de doutrinas econômicas dominadas pelo nacionalismo e pelo intervencionismo que, já presentes no final da Idade Média, ganharam impulso nos séculos XVI e XVII. Trata-se de um corpo integrado de políticas de Estado em defesa da riqueza nacional que pressupõe, portanto, Estados constituídos e um poder central capaz de fazer face ao particularismo de guildas, corporações e relações agrárias feudais, favorecendo a criação de espaços econômicos nacionais, tendo em vista a produção de mercadorias. Politicamente, a partir do sec. XIV vai ocorrendo a associação entre monarcas e burgueses (a nova classe ligada ao comércio), o que garantiu a centralização do poder em detrimento da antiga classe dos senhores feudais. O nacionalismo exacerbado nos recém-criados Estados-nações conferiam poderes absolutos e divinos ao rei. Noção de unidade política somada à grandeza econômica: busca de superávit comercial no comércio internacional. O poder de uma nação é associado ao tesouro. O comércio interno promove a produção e a circulação de mercadorias e, ao favorecer o progresso, eventualmente gera saldos para exportação. O comércio internacional assegura tesouro (e riqueza). Para a Economia Política Clássica, o mercantilismo representa principalmente a emergência de questões econômicas no debate corrente, pano de fundo para posterior desenvolvimento da reflexão sistemática em economia. Profa. Valéria C. Scudeler 3 Metalismo ou Bulionismo: o principal problema que vinha assolando a Europa nos últimos dois séculos era a insuficiência de dinheiro em circulação para sancionar o aumento das trocas. A oportunidade propiciada pelas colônias americanas para o afluxo de metais preciosos parecia não só resolver o problema, mas garantir às potências colonizadoras a possibilidade de estimular a produção interna e com isso enriquecer o reino. Tal fato levou os primeiros autores mercantilistas do século XVI a uma associação simplista entre moeda e riqueza, acreditando-se que a primeira levaria automaticamente a um aumento da oferta de bens reais na economia. A concepção denominada bulionismo ou metalismo confundia moeda com riqueza, e a consequência dessa interpretação era a defesa de toda medida que contribuísse para o acúmulo de ouro e prata dentro das fronteiras do país. O comércio internacional era visto como meio para a aquisição de metais preciosos e todas as medidas restritivas que resultassem em aumento da entrada de metais seriam desejáveis (protecionismo de mercado). Quais as questões econômicas em debate? Dos Estados nacionais constituídos. A discussão a respeito da riqueza da nação muitas vezes se confunde com a problemática das finanças do soberano. De comparações entre países e digressões sobre causas do atraso e progresso. Temas em debate: fluxos de comércio de mercadorias e metais internacionais, taxas de juros, protecionismo, política monetária, renda da terra, nível de salários, relação entre preços e salários, relação entre nível de preços e renda da terra, tributação, opiniões sobre valor e preços, riqueza. Teoria do valor-trabalho. O mercantilismo, deste modo, pela gama de questões que suscita, representa a passagem das questões econômicas ao primeiro plano do debate corrente. Do debate sistemático destes temas, e muitas vezes em oposição aos postulados mercantilistas (especialmente o protecionismo), nasce a Economia Política Clássica. c) A bandeira do liberalismo Economia Política: pensamento científico que elabora uma das ideologias dominantes a partir da metade do século XVIII, o Liberalismo. Adam Smith (mão invisível), Ricardo (teoria das vantagens comparativas). O Liberalismo é um substrato do Iluminismo. Iluminismo: baseado no mesmo racionalismo presente na filosofia jurisnaturalista. O racionalismo assegura que o homem pode conhecer, pelo uso sistemático da razão, até mesmo a sociedade humana. O iluminismo, propondo-se a fornecer regras de condutapara a transformação da sociedade humana, em nome da razão, reforça os pressupostos da natureza humana jurisnaturalista. "Conhecer para Transformar". Para o Iluminismo, o homem é o senhor da natureza, e o progresso econômico uma resposta voluntária do homem à natureza. Ordem natural. Harmonia, Tendência ao equilíbrio, em contraposição à Ordem Sobrenatural Divina. Profa. Valéria C. Scudeler 4 O Liberalismo representa a face econômica do Iluminismo, ao considerar a existência de leis econômicas naturais, cuja existência o governo deveria esforçar-se por preservar. A admissão de leis econômicas naturais leva à caracterização de um revolucionário conceito de sociedade econômica. A sociabilidade humana não prescinde do Estado, muito pelo contrário. Há, todavia, um campo específico da ação humana - a economia - onde regras naturais e privadas conduzem a sociedade à harmonia. Vale dizer, admite-se a existência de uma sociedade econômica, com regras próprias de interação, à margem do Estado. O poder público deve se pautar em critérios que não perturbem o equilíbrio. O Liberalismo promove o ataque ao Mercantilismo (protecionismo, forte presença do Estado Nacional e confusão entre poder nacional e progresso). Apesar de ambos terem origens intelectuais semelhantes no jurisnaturalismo, apresentam profundas diferenças nas conclusões práticas e na própria forma de caracterizar o sistema econômico. No Mercantilismo, a indistinção entre tesouro do Estado e riqueza nacional fez com que as discussões sobre poder e propriedade tivessem como referência a tributação. Locke e Petty retratam, no sec. XVII, a preocupação extremada com a boa fiscalidade, isto é, aquela que compatibilizava a autoridade simbólica da Coroa com as prerrogativas dos proprietários. A economia converte-se quase que em uma disciplina do "bom governo". No sec. XVIII, o "século das luzes", a temática fiscal vai perdendo importância, e sofre transformações. A economia deixa de ser uma "ciência do bom governo", convertendo-se em uma ciência da riqueza privada e comercial. A temática fiscal não desaparece, mas é adequada aos desígnios de um pensamento que vê no progresso do capital a riqueza das nações. A doutrina Liberal teve como seu maior expoente Adam Smith (1723-1790) que é considerado o fundador da Economia Política Clássica. O liberalismo propagado por Adam Smith tem como pressupostos: A obediência à ordem natural, que consiste no respeito às leis absolutas que regem tanto a economia, como o universo, tal como a lei da oferta e da demanda. O individualismo econômico pressupõe a ideia de que cada pessoa tem o direito de dispor sobre a sua propriedade, desde que esta tenha sido adquirida por meios lícitos e que não esbarre no direito de outrem. Acredita-se que a sociedade é beneficiada quando os indivíduos seguem os seus próprios interesses, sem a ingerência nociva do Estado. A liberdade de contrato é defendida como o arbítrio de que cada pessoa dispõe para negociar tanto o contrato que lhe seja mais favorável, como as questões relativas ao valor do salário e às horas de trabalho. A livre concorrência e o livre cambismo. A concorrência é um método eficaz para manter tanto a baixa dos preços como a qualidade dos produtos. Deve-se também evitar todo e qualquer tipo de monopólio que só contribui para manter no mercado produtores não aptos e a prejudicar a concorrência. Profa. Valéria C. Scudeler 5 A máxima do laissez faire et laissez passer, le monde va de luimême (deixar fazer e deixar passar, o mundo marcha sozinho) que consiste na redução das funções do Estado, as quais devem ficar restritas à segurança pública – manutenção da ordem e da propriedade. "A grandeza de um Estado e a felicidade de seus súditos, por mais independentes que possam ser consideradas sob alguns aspectos, são comumente tomadas como inseparáveis do comércio; assim como os particulares recebem maior segurança do poder público na posse de seus negócios e riquezas, assim o povo torna-se poderoso na proporção da opulência e extensão do comércio dos particulares." Se o comércio produz riqueza, cabe ao governo não prejudicá-lo. Deste modo, segundo o Liberalismo, a riqueza da nação passa a ser identificada à riqueza privada, e os economistas passam a tratar, sobretudo, da produção de mercadorias. O liberalismo e o espírito científico herdado da tradição jurisnaturalista abrem espaço para que as questões econômicas sejam fundidas em uma ciência nova: a Economia Política. 2 - A Escola Clássica A Escola Clássica têm como principais representantes os autores Adam Smith, Thomas Malthus, Jean Baptiste Say, David Ricardo e John Stuart Mill. O que os une, independentemente de suas contribuições específicas à Escola do Pensamento Econômico, é a visão liberal quanto ao funcionamento da economia. Acreditam na existência de uma Ordem Natural que regula o funcionamento do mercado e que, por si só, leva ao máximo benefício para a sociedade. A ideia de ordem natural está relacionada às ciências naturais, como a matemática, a física e a astronomia. Existem leis imutáveis que regem o movimento dos astros e o funcionamento da natureza. Os Clássicos acreditam que tais leis também se aplicam ao funcionamento da sociedade e da economia, isto é, ciências que estudam o comportamento humano também estão sujeitas à existência de regras imutáveis e inerentes ao homem, portanto passíveis de racionalização e modelização. Exemplos dessas "leis" são a inclinação natural do homem para a troca de mercadorias e para a busca do maior benefício individual. Se o mercado atuar livremente, sem proteção ou privilégios para nenhum tipo de produção, a tendência é se chegar a um nível de equilíbrio entre preços e quantidades produzidas, bem como à melhor alocação e maior produtividade dos recursos existentes (capital, terra e trabalho). O nível de equilíbrio subentende pleno emprego da mão de obra e níveis de salários e preços condizentes com as leis de oferta e procura. O conceito de ordem natural traz em seu bojo a idéia de igualdade de oportunidades entre os agentes (pessoas ou empresas). O que torna alguns melhor sucedidos do que outros são méritos individuais. Como todos buscam o maior bem-estar possível, aqueles que conseguirem ser mais produtivos, mais empreendedores, mais aplicados em sua tarefa e mais parcimoniosos com seus gastos terão um melhor desempenho no mercado, acumulando capital e se tornando Profa. Valéria C. Scudeler 6 proprietários. A sociedade só tem a ganhar com isso, pois somente a partir da sobrevivência dos agentes mais produtivos é que se chegará aos os melhores resultados em termos de geração de bens materiais que aumentarão o conforto e o bem-estar de todos. (por exemplo, uma empresa que aplica melhor seus recursos gera uma produção maior com preços menores, o que beneficia todos os consumidores). Deste modo, os Clássicos imaginam a sociedade capitalista como uma sociedade harmônica e igualitária, que visa à produção de bens reais (mercadorias) com vistas a atender as necessidades de consumo dos indivíduos. O capitalista sente-se estimulado a produzir porque também quer aumentar seu conforto e ter acesso ao maior número possível de bens. Os fatores de produção engajados no processoprodutivo (capital, terra e trabalho) recebem como remuneração aquilo que lhes é de direito, isto é, o que compete à sua contribuição para o produto final. É importante notar que, para os Clássicos, não existe conflito entre as classes sociais e nem uma relação histórica de dominação do capital sobre o trabalho. Por isso vigora a idéia de harmonia social. Encaram as relações sociais e de produção de maneira apolítica, como se os agentes tivessem as mesmas oportunidades e fossem livres para optar se querem ser capitalistas ou trabalhadores. Uma outra característica comum aos Clássicos é a preocupação apenas com a esfera da circulação de mercadorias, acreditando numa troca de equivalentes. Vêem o capitalismo como um sistema composto por pequenos produtores independentes que trocam seus bens no mercado. O valor de cada bem depende do tempo de trabalho incorporado em sua produção, portanto as mercadorias se trocam segundo as horas de trabalho contidas (teoria do valor-trabalho). Como não investigam a geração do valor dos bens no âmbito da produção das mercadorias (o que Karl Marx fará adiante), não conseguem desvendar a origem do excedente, isto é, do lucro capitalista. Os Clássicos, ao acreditarem na existência de uma ordem natural com leis imutáveis, negligenciam o papel fundamental das transformações históricas e sociais dos modos de produção e acabam apresentando uma visão ingênua e idealizada do funcionamento da economia capitalista, especialmente no que se refere ao papel do dinheiro neste sistema. Para eles, o dinheiro é neutro, só funciona como um meio de troca. O objetivo dos indivíduos é produzir uma mercadoria somente porque querem ter acesso a outras mercadorias. Karl Marx vai desbancar esta visão simplista, mostrando que o objetivo último de toda a produção dentro do sistema capitalista é o acúmulo de dinheiro. O capitalismo é uma economia monetária, e só existe produção porque o capitalista quer ter acesso ao dinheiro, que é a mercadoria mais importante de todas. Por fim, apesar de encararem o capitalismo como um sistema que visa ao atendimento das necessidades materiais dos indivíduos, o que é uma utopia, os Clássicos contribuíram de maneira decisiva para o avanço da Teoria Econômica e para a Profa. Valéria C. Scudeler 7 sistematização de conceitos como valor, produção e riqueza - antes dispersos e imbuídos de fortes considerações éticas e morais - numa disciplina de estudo independente e com uma lógica própria de funcionamento. 3 - Adam Smith Adam Smith (1723-1790) é considerado o fundador da Economia Política Clássica. Sua obra Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações, mais conhecida como A Riqueza das Nações, de 1776, organiza e delimita a temática daquela nova disciplina de conhecimento. Objetivo central de seu trabalho: definir em que consiste e como ampliar a riqueza das nações. A partir de uma ferrenha crítica ao mercantilismo, chama a atenção para a confusão entre a riqueza e bens que a simbolizam e entre a pujança econômica da nação e a de seu soberano. Para Smith, a riqueza de uma nação não se confunde com a abundância de ouro, mas é constituída pelos bens necessários e confortos de que a nação, em seu conjunto, pode dispor. Tal argumento se constitui numa crítica direta aos mercantilistas. A riqueza (conjunto de bens materiais) é produto do trabalho humano, por isso defende a teoria do valor-trabalho. O potencial criador da riqueza é um produto social, depende da evolução da divisão do trabalho, isto é, da produtividade do trabalho. Os principais condicionantes do aumento da riqueza são o livre-mercado (mão invisível) e a acumulação de capital. Smith tinha a preocupação em encontrar uma medida invariável para o valor dos bens, isto é, seu valor real, e elegeu como medida a quantidade de trabalho necessária para a produção dos bens. O preço real dos bens é o custo humano para obter determinada mercadoria, isto é, a dose de sacrifício e renúncia necessários para que seja produzida. Uma mesma quantidade de trabalho sempre significa o mesmo custo. "A proporção entre as quantidades de trabalho necessárias para adquirir diferentes objetos será o único fator capaz de constituir uma norma de troca recíproca". Profa. Valéria C. Scudeler 8 As fontes do valor da produção são os salários, que remuneram o trabalho; a renda da terra, que paga a utilização da terra; e os lucros, que remuneram a riqueza acumulada sob a forma de capital, essencial para permitir o grau vigente de divisão do trabalho. Essas três fontes formam o valor natural dos bens. O valor natural dos bens constitui um termo de comparação ou normas com os quais todos os "preços artificiais", estabelecidos por interferências e obstáculos assumindo a forma de regulamentações legais, "privilégios exclusivos das corporações, estatutos de aprendizagem" e monopólios podiam ser contrastados. Por outro lado, deixando o mercado operar segundo as leis de oferta e procura real, sem obstáculos impostos pelo protecionismo, o preço dos bens tenderia ao seu nível "natural", de equilíbrio, com a adequada remuneração das fontes de valor (salários, renda da terra e lucros). Portanto, o "preço natural" dos bens é definido como sendo igual à soma das "taxas naturais dos salários, do lucro e da renda". O livre-mercado e a "mão invisível" É Adam Smith o primeiro filósofo a conceber uma organização dinâmica da sociedade no sentido de sua evolução para um sempre maior bem estar coletivo, uma linha de pensamento que evoluirá no século XIX para Utilitarismo: Ele concebe como agente desse movimento a própria "natureza humana" levada por uma forte inclinação para a troca comercial e pelo desejo de melhoramento próprio, porém susceptível de ser guiada pelas faculdades da razão. Livre concorrência: os homens que agem segundo sua liberdade e pensam exclusivamente no próprio lucro é que finalmente serão, involuntariamente, os motores do desenvolvimento social. "Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse", diz Smith. O desejo apaixonado do homem para melhorar sua condição pelo melhoramento próprio em detrimento do outro - "um desejo que vem conosco do útero materno e nunca nos deixa até que vamos para a sepultura" - é transformado em um agente beneficente social, dando nascimento a uma sociedade ordenada e progressista. Divisão do trabalho: A Riqueza das Nações abre com uma famosa passagem descrevendo a divisão do trabalho em uma fábrica de alfinetes na qual dez pessoas, por se especializarem em várias tarefas, produzem 48.000 alfinetes por dia, comparada com uns poucos, talvez somente um, que cada um poderia produzir isoladamente. E no Capítulo II do mesmo Livro I é descrito o princípio que dá origem à divisão do trabalho no grupo social: "Essa divisão do trabalho, da qual derivam tantas vantagens, não é, em sua origem, o efeito de uma sabedoria humana qualquer. Ela é consequência necessária, embora muito lenta e gradual, de uma certa tendência ou propensão existente na natureza humana, .a propensão a intercambiar, permutar ou trocar uma coisa pela outra."Profa. Valéria C. Scudeler 9 Dessa forma, a certeza de poder permutar toda a parte excedente da produção de seu próprio trabalho que ultrapasse seu consumo pessoal estimula cada pessoa a dedicar-se a uma ocupação específica, e a cultivar e aperfeiçoar todo e qualquer talento ou inclinação que possa ter por aquele tipo de ocupação ou negócio. A divisão do trabalho se equilibra pelo mesmo mecanismo da competição e da oferta e procura. Crescimento econômico. A análise de Smith do mercado como um mecanismo auto-regulador era impressionante. Assim, sob o ímpeto do apelo aquisitivo, o fluxo anual da riqueza nacional podia ser vista crescer continuamente. A riqueza das nações cresceria somente se os homens, através de seus governos, não inibissem este crescimento concedendo privilégios especiais que iriam impedir o sistema competitivo de exercer seus efeitos benéficos. Consequentemente, muito do Riqueza das Nações, especialmente o Livro IV, é uma polêmica contra as medidas restritivas do "sistema mercantil" que favorecem monopólios no país e no exterior. "Mão invisível": imagem metafórica, através da qual Smith argumentava que, apesar de as decisões numa economia de mercado serem tomadas de modo descentralizado pelos produtores, seguindo seus próprios interesses egoístas, elas levam à consecução dos melhores interesses do conjunto da sociedade. A mão invisível do livre comércio é que dá coerência e eficácia a essas decisões e que compatibiliza busca de interesses privados e bem público. O principal motivo para isso é que a elevação da produtividade permite que todos ganhem. Se o mercado operar livremente, "a quantidade de bens ofertada no mercado deve, em qualquer momento, ser quase igual à procura efetiva". Este argumento tem como origem a Lei de Jean Baptiste Say, outro importante representante da Economia Política Clássica: "toda a oferta encontra sua própria demanda no mercado." Adam Smith elaborou o conceito de capital como importante elemento do processo produtivo e fonte de apropriação de valor, sob a forma do lucro. Ele é o primeiro a associar diretamente o lucro ao emprego do capital, isto é, de riqueza previamente acumulada, e não simplesmente ao ato de se vender a preço maior que o de compra. O emprego do capital permite a apropriação de valor porque está associado à elevação da produtividade. Questões relevantes para Smith e para a compreensão da economia capitalista: - A produtividade e sua ampliação é a forma mais importante de se acrescentar riqueza. - A produtividade se baseia em alguma medida na divisão do trabalho entre os membros de uma sociedade, o que remete à sociabilidade, à interação social dos indivíduos. - A divisão do trabalho significa maior especialização, menores custos de mudar de uma atividade a outra, além de favorecer a introdução da maquinaria. Requisitos para o aprofundamento da divisão do trabalho: a) que sobrevivam os que não produzem diretamente os bens necessários à sua própria subsistência; Profa. Valéria C. Scudeler 10 b) a aquisição de bens de capital fixo (máquinas, equipamentos). Essa visão era ainda embrionária, com importância muito inferior a que se tem hoje; c) a união de diversos trabalhadores na produção de um único bem; d) a ampliação dos mercados, que se dá com melhorias nos meios de transporte e com o livre comércio. A acumulação de capital tem perdido terreno no debate econômico para a idéia de alocação ótima dos recursos existentes, e não de sua expansão. Perdeu-se a dimensão dinâmica da criação e ampliação de riqueza e privilegiou-se a estática de alocação de recursos dada.Por outro lado, a ampliação da produtividade não pode mais ser considerada resultante apenas da simples divisão do trabalho, e sim do avanço tecnológico e das formas de organização da produção, entre outros. Mas isto não anula nem torna defasada a formulação de Smith pois, ao enfatizar o aumento da divisão do trabalho, faz a inter-relação com o crescimento dos mercados e da economia. 4 - Thomas Malthus Thomas Robert Malthus (1766-1834) nasceu no seio de uma família próspera. Ingressou na Universidade de Cambridge aos 18 anos. Estudou Matemática e línguas clássicas e recebeu formação sacerdotal. Nove anos depois, foi eleito fellow da instituição e em 1797 tornou-se sacerdote. Seu trabalho mais conhecido foi o Ensaio sobre o princípio da população e seus efeitos na melhoria futura da sociedade, de 1798. Combina um estudo demográfico (o crescimento da população) e suas implicações para variáveis de ordem econômica como riqueza, salários, lucros, etc. Ao longo de sua vida, Malthus foi aceito em sociedades culturais importantes como O Royal Society e o Clube de Economia Política. Teve estreito contato com David Ricardo e James Mill, pai de John Stuart Mill. Imbuído no pensamento da época, partiu do conceito de ordem natural e de seleção natural (que Darwin desenvolveria seis décadas depois) para relacionar a sobrevivência humana com o crescimento populacional e a competição por recursos naturais. A quantidade de alimentos e outros recursos disponíveis para o consumo humano representa, para ele, um freio ou um estímulo, dependendo de sua escassez relativa, para o crescimento demográfico. À luz dessa idéia, maiores transferências de recursos para as populações carentes, no longo prazo, só agravariam o problema, pois levariam a um crescimento populacional desenfreado. O aumento da população levaria a um limite da capacidade da economia em atendê-la em suas necessidades, a Profa. Valéria C. Scudeler 11 ponto de se esgotar a capacidade de expansão demográfica ou mesmo reduzir-se a população em termos absolutos. Em suma, a escassez dos recursos naturais seria o elemento regulador do crescimento populacional. Essa é uma lei natural, bem como a paixão entre os sexos é um estímulo incontrolável para a reprodução, em qualquer momento histórico que se analise, a população tenderia a crescer numa progressão geométrica. Restaria ao governo esperar o controle voluntário da procriação por parte das famílias, incentivando a educação e apelando para fatores morais, antes que a natureza impusesse, de maneira bastante dolorosa, esse controle. No entanto, mais importante para o debate em Teoria Econômica foi sua obra Princípios de economia política e considerações sobre a sua aplicação prática, de 1820. Nele, Malthus discorre sobre riqueza, trabalho produtivo e improdutivo, valor, renda da terra, salários e lucros e investiga as causas de crescimento da riqueza, entendida como um conjunto de bens materiais, assim como concebeu Adam Smith. Também nesse livro, ele antecipa algumas ideias básicas de Keynes. Propunha a realização de obras públicas e o incentivo à agricultura para aumentar a demanda efetiva, preocupando-se com o excesso de oferta sobre a demanda agregada, o que levaria a um declínio da atividade econômica. Malthus acreditava que a renda dos proprietários de terras teria a função de injetar demanda no sistema econômico, portanto até o consumo perdulário teria um papel social. Injustamente, ele foi acusado de defender os privilégios das classes dos proprietários. Malthus ficaria caracterizado como adepto de um método em Economia que dá mais importância à experiência em contraposição ao viés mais abstrato e dedutivista de David Ricardo. Pode-se dizer que Adam Smith continha os dois caminhos metodológicose, com base nele, Ricardo enfatizou um e Malthus, o outro. Também em teoria, Ricardo foi o principal adversário de Malthus à época e as idéias de Ricardo acabaram sobressaindo-se às dele. 5 - David Ricardo Sem sombra de dúvidas um dos maiores economistas de seu tempo, David Ricardo (1772-1823) é considerado, ainda em vida, o legítimo sucessor de Adam Smith na divulgação da nascente Economia Política. Sua principal obra é Princípios de Economia Política e Tributação, de 1817 que, juntamente a seus outros escritos, atinge vastas áreas da economia, tais como: política monetária, teoria dos lucros, teoria da renda fundiária e da distribuição, teoria do valor e do comércio internacional, sendo que muitos desses temas permanecem atuais até os dias de hoje. Profa. Valéria C. Scudeler 12 A principal contribuição de David Ricardo para a compreensão do funcionamento do sistema capitalista, e que o difere dos outros autores clássicos, é a visão da importância das estruturas econômico-sociais, em detrimento da esfera individual de decisão, na determinação dos modos de produção e constituição das sociedades. Perguntas cruciais para a economia: De onde deve partir a análise econômica? Dos agentes que tomam decisões ou do ambiente econômico? E, consequentemente, que categorias analíticas se deve partir: do indivíduo ou das classes sociais? Da firma ou do mercado? Do nível micro ou macro? Da parte ou do todo? Ricardo foi o primeiro economista a dar uma resposta precisa a estas questões, tomando como ponto de partida antes a estrutura que o indivíduo. A estrutura condiciona não apenas a inserção social dos indivíduos mas, por meio dessa inserção, seus objetivos e toda a ação econômica a eles relacionada. Assim como para Adam Smith, os agentes econômicos relevantes no modelo Ricardiano são os capitalistas, os proprietários de terras e os trabalhadores assalariados. Agentes teoricamente livres, mas que atuam dentro de um quadro social e institucional muito bem determinado em que a única forma de apropriação econômica é a troca (exceto no caso do Fisco). O objetivo desses agentes é a maximização dos seus rendimentos. Mas os trabalhadores e terratenentes gastam tudo em consumo, pois os primeiros ganham apenas um "salário de subsistência" e os segundos têm em vista a "segurança econômica". Os capitalistas, ao contrário, para sobreviverem no mercado, precisam acumular (reinvestir parte dos lucros). O comportamento destes agentes torna-se previsível, desaparecendo a questão da "tomada de decisão individual". O próprio agente individual deixa de existir, o que comanda o processo de reprodução desses agentes é o movimento das estruturas econômico-sociais. A economia, a partir dessa constatação, passa a ser uma disciplina essencialmente racional, passível de ser "modelizada". Ricardo, influenciado por essa racionalidade, criou um modelo que seria aplicável a qualquer economia fechada (que não participa do comércio internacional), com base nas seguintes variáveis: - disponibilidade de terras agricultáveis; - heterogeneidade relativa destas terras (se são mais férteis ou menos férteis); - a taxa de salário de subsistência; - a parcela desses salários que é despendida em bens agrícolas; - a relação capital/trabalho média; - a produtividade do trabalho na indústria. O objetivo do modelo teórico de Ricardo é, a partir do conhecimento destas variáveis, e supondo-se estável "o estado das artes", projetar a dinâmica de evolução da taxa de lucro média e da acumulação privada. Profa. Valéria C. Scudeler 13 Para Ricardo, a produtividade do setor agrícola é fundamental para definir a taxa de lucro na indústria, pois todos os trabalhadores recebem seus salários com base numa cesta de bens de subsistência, basicamente os bens agrícolas. Ricardo defendia a abolição das restrições para a importação de cereais, pois, segundo a teoria das vantagens comparativas, a produção agrícola inglesa não tinha a mesma competitividade de outros países e, portanto, elevava o custo e o preço dos bens-salário. Só deveriam ser cultivadas as terras mais férteis, pois, quanto mais se buscava o cultivo nas áreas periféricas do país, aumentavam os custos de transporte e reduzia-se a lucratividade dos arrendatários de terras, isto é, dos capitalistas - principais responsáveis pelo aumento da produção e da riqueza. Os únicos que ganhavam com o protecionismo da agricultura na Inglaterra eram os proprietários de terras, que vivem de renda e não contribuem para o aumento do produto. Insistindo no cultivo das terras menos férteis, tanto o preço das matérias-primas quanto o salário dos trabalhadores tenderiam a aumentar, repercutindo num aumento de custos para a produção industrial, o que penaliza seu desempenho produtivo. Aumento do valor dos bens agrícolas =► aumento dos salários =► queda na taxa de lucro da indústria. Sob um ponto de vista histórico-empírico, isto é, de sua adequação às tendências objetivamente manifestas da evolução do capitalismo, este modelo teórico é um tremendo fracasso. Isto porque, apesar de ser formalmente dinâmico, o que significa que está voltado não só para a projeção do estado futuro da economia, mas para todo o percurso desse movimento, o modelo de Ricardo não é "histórico", pois subestima o impacto revolucionário do capitalismo sobre a ordem técnico-produtiva. Mas, sob um ponto de vista "formal" e "histórico-metodológico", centrado na consistência lógica ou "interna" do sistema, a conclusão é outra: seu modelo torna-se grandioso, sendo totalmente voltado para a obtenção de previsões. 5.1 - Teoria das Vantagens Comparativas O liberalismo e o livre-comércio são as expressões econômicas das Revoluções Burguesas a partir dos séculos XVII e substituem o mercantilismo ligado às políticas do Regime Absolutista. Sua teoria pregava que o fim dos entraves, como tarifas elevadas e “portos fechados”, faria que o comércio crescesse em todo o mundo, beneficiando a economia de todos os países que participassem. O benefício traduzir-se-ia em crescimento econômico e bem-estar, que promoveriam a paz entre as nações. O debate sobre o livre-comércio começou a ganhar corpo teórico quando Adam Smith (1723-1790), o pai do liberalismo econômico, em sua famosa obra A riqueza das nações, de 1776, desenvolveu a tese da vantagem absoluta. A tese da vantagem absoluta defendia que o crescimento econômico era uma função da divisão internacional do trabalho, que por sua vez dependia da escala do mercado, interno Profa. Valéria C. Scudeler 14 e externo. Quanto maior a escala, maior seria a possibilidade do crescimento, que por sua vez traria riqueza e poder para as nações que assim agissem. A escala estava ligada à produção dos bens em que cada país tinha maior especialização e, portanto, maior produtividade do fator trabalho. Vários anos depois, um discípulo de Adam Smith, chamado David Ricardo (1772 – 1823), aprofundou a reflexão sobre essa divisão internacional do trabalho, analisando a especialização defendida por Smith como vantagens comparativas nos termos de troca de uma nação em relação à outra. Nas palavras de Ricardo: “Sob um regime de comércio perfeitamente livre, cada país dedica naturalmente seu capitale trabalho às atividades mais vantajosas para ambos. Essa busca da vantagem individual articula-se admiravelmente com o bem universal do conjunto. Ao estimular a indústria, recompensar o engenho e empregar de modo mais eficiente os poderes peculiares oferecidos pela natureza, ela distribui o trabalho de forma mais eficiente e mais econômica; ao mesmo tempo, ao aumentar a massa geral da produção, difunde os benefícios gerais e une, por um laço comum de interesse e intercâmbio, a sociedade universal das nações em todo o mundo civilizado. É esse o princípio que determina que a França e Portugal fabricarão vinho, que o milho será cultivado na América e na Polônia, e que máquinas e outros produtos serão manufaturados na Inglaterra” (RICARDO, 1817). 5.2 - Modelo Clássico - Pressupostos: existem dois países; cada país produz dois bens; a mão de obra é o único fator produtivo considerado; a disponibilidade e produtividade da mão de obra é fixa em cada país; existe concorrência perfeita em todos os mercados. Tabela 1: Horas de trabalho e custo de oportunidade de produção – Alimento e Tecido - Vantagem absoluta: menor custo unitário de mão de obra na produção de todos os bens, em relação ao resto do mundo. Profa. Valéria C. Scudeler 15 - Vantagem comparativa (relativa): menor custo de oportunidade de produzir um bem (em relação a outro bem), em comparação com o resto do mundo. A vantagem comparativa decorre da diferença na produtividade relativa da mão de obra entre os países, sem considerar outros fatores produtivos. - Preços relativos em economia fechada: é o quanto se sacrifica de um produto para obter uma unidade adicional do outro. - Preços relativos em economia aberta: equilíbrio entre oferta e demanda mundial do bem. - Limitações do modelo clássico: considera apenas o fator produtivo mão de obra, impedindo discutir a distribuição interna de renda entre os fatores produtivos. 6 - John Stuart Mill John Stuart Mill (1806-1873) tornou-se o mais influente economista clássico após Ricardo. Trinta e poucos anos separam as respectivas idades, portanto Mill foi o jovem economista mais bem sucedido a dar prosseguimento à Economia Clássica, mantendo o prestígio da escola, ampliando o raio de suas reflexões e renovando-a em alguns pontos. Filho de James Mill, também notável economista, ele seguiu as influências do pai na formulação de suas idéias. Sua obra máxima em Economia, publicada em 1848, foi Princípios de economia política. As contribuições mais importantes de Stuart Mill para a disciplina de Economia Política estão localizadas na área metodológica. Neste período, nota-se o aparecimento de duas tendências: de um lado, os autores que acreditam que a verdade dos princípios de Economia só pode ser julgada a posteriori, ao arbítrio dos fatos. A outra tendência viria a considerar os princípios de que parte o raciocínio econômico verdadeiros a priori, isto é, hipóteses de conduta assumidas quando se abstrai o aspecto não econômico do comportamento humano. Mill adota esta Segunda perspectiva. Mill lança o conceito de "homem econômico", ser que existe enquanto se abstraem dele outras paixões e motivos humanos, exceto o desejo de riqueza e a aversão ao trabalho. É preciso estudar uma causa isolada, para prever e controlar seus efeitos. Assim, as conclusões da Economia Política são aplicáveis quando impera a causa isolada por ela. A Economia é tida como a ciência moral ou psicológica que trata dos comportamentos humanos em sociedade orientados para a obtenção de riqueza (entendida como coisas úteis produzidas pelo trabalho). Em sua esfera, os homens são guiados apenas por motivações pecuniárias e predomina neles uma única lei de conduta: a busca de riqueza. Profa. Valéria C. Scudeler 16 Em economia, diz Mill, considera-se apenas a busca de riqueza. Ela vai descrever apenas ações que decorrem desse motivo. Como consequência, as leis econômicas somente expressam tendências. Elas determinam o curso exato dos acontecimentos quando não operam impedimentos. Os princípios são certos, mas as conclusões incertas. As contribuições positivas em Economia, presentes na obra Princípios de economia política são temas como produção, distribuição da riqueza, troca, progresso da sociedade e papel do governo. A separação entre produção e distribuição é reforçada por Mill, pois acredita que enquanto as leis da produção de riqueza têm o caráter de verdades físicas, a distribuição da riqueza é "exclusivamente uma questão de instituições humanas, depende das leis e dos costumes da sociedade." Stuart Mill se aproxima da visão de Marx quando discute o tipo de distribuição da riqueza mais adequado para as sociedades, comparando a propriedade privada com o socialismo e o comunismo. Ambos preocuparam-se com as consequências sociais da industrialização em sua época, especialmente o baixo padrão de vida da crescente classe trabalhadora, ao passo que a expansão da produção e a acumulação de capital caminhavam de vento em popa. Portanto, tanto Stuart Mill quanto Marx perceberam que o sistema de distribuição da renda não estava funcionando bem na economia capitalista em expansão, e que o instrumental teórico legado pelos clássicos não era adequado: baseava-se no pressuposto da "harmonia de interesses" e da ordem natural e providencial, que não se confirmavam. Os dois autores não concordaram, contudo, quanto à solução: Mill preconizou políticas públicas de promoção do bem-estar social, sobretudo voltadas para a classe trabalhadora, enquanto Marx o criticou por não acreditar na possibilidade de harmonização entre os interesses do capital e o proletariado, cujas exigências não podiam mais ser ignoradas. Stuart Mill, ao introduzir na Economia preocupações com "justiça social" na distribuição da riqueza, entrou para a história como um "clássico de transição" entre sua Escola e as reações socialistas. Profa. Valéria C. Scudeler 17 ROTEIRO DE QUESTÕES PARA ESTUDO 1) Apresente o conceito de jurisnaturalismo e como este influenciou o surgimento da Economia Política Clássica. 2) O que foi o mercantilismo e o bulionismo? Por que essas doutrinas são importantes para o surgimento da Economia Política Clássica? 3) O que se entende por liberalismo econômico? Apresente suas características básicas e sua crítica à doutrina mercantislista (baseada na visão de Adam Smith). 4) Explique o conceito de ordem natural, que está na base filosófica do pensamento da Escola Clássica. 5) Considerando o conjunto dos autores, quais as principais características do pensamento econômico e da visão de sociedade dos autores clássicos? 6) Quais os objetivos centrais da obra "A Riqueza das Nações", de Adam Smith, e como o autor acredita que seja possível alcançá-los? 7) Comente o conceito de livre mercado e de “mão invisível” sob o ponto de vista de Adam Smith. 8) Cite as principais contribuições da obra de Thomas Malthus para a Economia Política Clássica. 9) Quais os aspectos centrais da obra de David Ricardo? Comente sua teoria da produção agrícola inglesa (renda da terra) e teoria das vantagens comparativas. 10) Qual a visão de Ricardo sobre o funcionamentodo sistema capitalista? Quais críticas podem ser feitas no tocante à sua teoria sobre a produção agrícola? 11) Comente as contribuições centrais da obra de John Stuart Mill à Economia Política Clássica. 12) Em que aspectos Stuart Mill contraria alguns pressupostos da Escola Clássica? Comente.