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O que é uma questão - Antônio Máximo Ferraz

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Revista Litteris - Ciências Humanas - Filosofia 
Novembro de 2010 
Número 6 
 
 
O QUE É UMA QUESTÃO? 
 
Antônio Máximo Ferraz
*
 
(Professor Adjunto da Universidade Federal do Pará, Belém, Brasil) 
 
Resumo: O ensaio se inscreve na marcha de superação do antropocentrismo e do 
subjetivismo, que tomam o homem como medida das coisas, em favor da abertura para 
a escuta da instância mais originária das questões, da qual ele próprio provém. O 
homem é figurado, então, como aquele ente que se realiza enquanto tal no interlúdio 
entre a questão e o conceito, entre o destino e a liberdade, entre o que ele deseja das 
questões, e o que as questões querem dele. Resgatando a metafísica em um sentido 
originário – o homem entre as coisas, não em face delas –, abrem-se caminhos para 
compreender a existência como a suprema obra de arte, a ser erigida na ética do diálogo 
com as questões. 
 
Palavras-chaves: Questão. Metafísica. Arte. Verdade (alétheia). 
 
Abstract: This essay is in a journey to overcome the anthropocentrism and subjetivism 
that presum man is the measure of all things, in favor of openness to listening to the 
more original instance, where lie down the questions of which man arises. Man is 
portrayed as a being which takes place in such as the interlude between the question 
and the concept, between destiny and freedom, between what he desires from the 
questions, and what the questions desires from him. The recovering of the original 
sense of metaphysics – man between the things, not in face of them – open up paths for 
understanding the existence as an artwork, to be built on the ethics of dialogue through 
the questions. 
 
*
 Coordenador do Núcleo Interdisciplinar Kairós – Pensamento da Arte e da Linguagem 
(CNPq/UFPA), grupo que vem desenvolvendo a pesquisa “O trágico na modernidade literária brasileira”. É doutor 
em Teoria Literária pela UFRJ, com a tese Fernando Pessoa em obra: a teatralização da metafísica, e mestre, na 
mesma área, pela UnB, com a dissertação O sagrado no 'Retábulo de Santa Joana Carolina', de Osman Lins. E-mail: 
maximoferraz@gmail.com 
Revista Litteris - Ciências Humanas - Filosofia 
Novembro de 2010 
Número 6 
 
 
 
Keywords: Question. Metaphysics. Art. Truth (alétheia). 
 
Escritos dedicados ao amigo Manuel Antônio de Castro 
 
Uma gota mais uma gota não fazem duas gotas, mas uma gota maior. 
(Domenico, personagem de Nostalghia, filme de Andrei Tarkovsky) 
 
 Uma questão é diferente de um problema. Se me perguntam quanto são dois 
mais dois, para esta pergunta há uma resposta definitiva: são quatro. Trata-se de um 
problema, e por isso tem uma resposta que o define. Entretanto, se me perguntam: o 
que é o homem? O que é o real? O que é a verdade? O que são a vida, a morte, o 
tempo? Para estas perguntas não há respostas definitivas, respostas que dêem fim ao 
perguntar. Pensemos, por exemplo, na questão do tempo. 
 Santo Agostinho, nas Confissões, ao se indagar sobre o que era o tempo, 
disse: “Si nemo a me quaerat, scio, si quaerenti explicare velim, nescio” (“Se ninguém 
me perguntar, sei; se, ao me perguntarem, quiser explicar, não sei”).1 É impossível 
definir o tempo. Tanto é assim que ele se manifesta em diferentes temporalidades. 
 No mundo mítico – para os gregos, por exemplo – o tempo é um deus, 
Khrónos – o deus que devora os próprios filhos.2 Khrónos é o tempo originário que está 
permanentemente presente em todos os momentos da sucessão temporal, sem jamais se 
esgotar. A própria língua grega guardava distintos entendimentos do tempo: Khrónos, o 
tempo mítico; aión, o tempo da duração ou da imagem móvel da eternidade imóvel; e 
kairós, o tempo da maturação, o tempo oportuno, da ocasião favorável: uma fruta só cai 
da árvore quando amadurece, em seu kairós. Nem todas as línguas fazem estas sutis 
diferenciações. A língua portuguesa, por exemplo, só tem uma palavra para designar o 
tempo. Portanto, talvez se pudesse dizer que o desvelamos mais limitadamente. 
 Na modernidade, prevalece uma noção do tempo como uma sucessão linear. 
Em uma era em que a ciência e a técnica fornecem o paradigma de entendimento do 
que são o real e a verdade, as coisas são vistas finalisticamente, elas devem servir a um 
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fim, e isto afeta o nosso entendimento do que é o tempo. Uma finalidade é algo que se 
alcança mediante etapas que se sucedem, se cumprem e apontam para a etapa seguinte. 
O modo como as coisas são encaradas na modernidade determina, assim, um tipo de 
temporalidade em que o tempo é visto como uma sucessão neutra e linear de momentos 
que se esgotam. 
 São, a rigor, infinitas e inimagináveis as possibilidades de desvelamento do 
tempo.
3
 Cada obra de arte instaura sua própria temporalidade, cada existência também. 
A temporalidade de quem está na espera da fila de um banco é evidentemente diferente 
da temporalidade de quem está lendo prazerosamente um livro. Em todos esses 
exemplos, trata-se de diferentes temporalidades desveladas sempre a partir do mesmo 
apelo. Este apelo é a questão do tempo, ou o tempo como uma questão que não se 
esgota em nenhuma temporalidade, e que não cabe em nenhuma definição.
 
 
O que sabemos das questões? 
 Em relação às questões, nós tanto sabemos algo sobre elas quanto não 
sabemos, pois sempre estamos na liminaridade entre saber e não-saber o que elas são. É 
esta liminaridade, aliás, que nos destina à tarefa do questionamento, pois, se já 
soubéssemos o que elas são, que sentido haveria em questionar? Façamo-nos mais 
explícitos. Continuemos com a questão do tempo. 
 Embora nós saibamos, de certo modo e por experiência própria, o que é o 
tempo, vez que as coisas estão em permanente mudança – a começar por nós mesmos –, 
nós não sabemos o que é o tempo, no sentido de poder defini-lo. Entretanto, também 
sabemos o que é o tempo, porque ele está tanto dentro de nós (nós mudamos ao longo 
do tempo), quanto nós estamos dentro dele (todas as coisas mudam ao longo do tempo, 
não só nós). Por estar tanto dentro de nós quanto nós dentro dele, jamais estamos em 
face do tempo. Se estivéssemos em face dele, poderíamos ter a pretensão de objetivá-lo 
e defini-lo – como, aliás, pretende o subjetivismo, que reduz as coisas à determinação 
do sujeito metodologicamente municiado. Esta é uma vã pretensão, pois, como diz 
Alberto Caeiro, “o Universo não é uma idéia minha. / A minha idéia do Universo é que 
é uma idéia minha” (PESSOA, 1995, p. 238). Do mesmo modo, podemos dizer: as 
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questões não são uma idéia minha. A minha idéia das questões é que é uma idéia 
minha. É por isso que Santo Agostinho afirma que, se não for perguntado, sabe o que é 
o tempo, mas, se quiser defini-lo, já o não sabe. 
 O tempo nos excede largamente, como o mar excede o barco que nele 
navega: antes de virmos ao mundo, as coisas já estavam mudando, sob a ação do 
tempo. Enquanto vivemos, o tempo transforma as coisas e nos transforma. Quando 
tivermos partido, as coisas continuarão em seu permanente devir. O tempo é maior do 
que a temporalidade concedida a cada vida. Por isso, grafaremos, a partir daqui, a 
palavra com maiúscula (Tempo), para mostrar que é uma grandeza que excede o 
homem, e dentro da qual ele se realiza enquanto tal. Outras questões, também 
originárias, como Vida e Morte, serão grafadas do mesmo modo, pelo mesmo motivo. 
 
As questões nos disponibilizam 
 Assim se passa com o Tempo, e assim se passa com todas as questões: não é 
o homem quem

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