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O que é uma questão - Antônio Máximo Ferraz

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pensamento, e não mera 
representação de metodologias prévias na determinação do que são as coisas, é uma 
“pro-cura” que se lança na direção (pro-) de uma cura, isto é, do cuidado com as 
questões que nos erigem em nosso próprio ser. Pensar, originariamente, não se limita a 
raciocinar. Pensar é deixar-se procurar pelas questões que nos “pro-curam” e “dis-
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ponibilizam”. Ser livre é obedecer às questões que já desde sempre em nós se destinam. 
Obedecer é “ob-audire”, “colocar-se em posição de escuta”. Ser livre é obedecer, isto é, 
pôr-se na posição de escuta das questões, evidentemente não com os ouvidos, mas com 
a procura do sentido do que em nós já se destina. 
 
A circularidade ressonante das questões 
 Quem se dispõe a entrar no âmbito das questões – quem se dispõe a 
questionar, a tematizá-las no pensamento, a obedecê-las – sempre anda em círculos. Se 
eu digo: A é igual a B; B é igual a C; logo A é igual a C, estou empreendendo um 
raciocínio lógico-silogístico, que se descreve de maneira linear.
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Uma questão jamais é 
linear. Uma vez que estamos dentro das questões, questionar é sempre nos dirigirmos 
ao lugar em que já desde sempre estamos e somos. Entretanto, porque estamos tão 
dentro das questões, como nossa própria possibilidade de ser – por elas estarem sempre 
tão perto –, também são sempre o que de nós mais dista. O que está mais perto é 
sempre o que está mais distante. Veja-se: o que nós somos é certamente o que nos 
parece o mais perto. Entretanto, é também o que está sempre mais distante: o que 
viermos a saber de nós mesmos jamais esgotará não só o que somos, mas também e 
principalmente o que podemos vir a ser, o que ainda não somos, vez que sempre somos 
muito mais do que sabemos. Por este motivo, somos sempre grandes desconhecidos 
para nós mesmos. Como disse Álvaro de Campos, em referência irônica e explícita ao 
cogito cartesiano (PESSOA, 1995, p. 363): 
 
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? 
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! 
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! 
 
 A circularidade das questões não é algo nocivo, que devesse ser evitado. Ao 
contrário, a virtude das questões é mesmo a sua circularidade. Não o círculo vicioso, 
dentro do qual entra quem intenta definir o que não pode ser definido. As questões 
propõem um o círculo virtuoso, dentro do qual alarga seu horizonte existencial quem 
questiona. Virtus quer dizer força, donde virtude. Por estarmos dentro das questões, a 
lógica com sua linearidade jamais pode esgotá-las. A existência não é linear nem 
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silogística, e a força do questionamento está em facultar o amadurecimento existencial 
de quem questiona. “O rio não quer chegar, mas ficar largo e profundo”, diz-nos 
Guimarães Rosa. 
 Como vivemos, entretanto, em um tempo tão dominado pelo entendimento 
de que a lógica, que serve de esteio à construção do real sob a batuta da ciência e da 
técnica, é a única portadora da verdade, aos olhos de muitos o percurso das questões em 
sua circularidade pode parecer ilógico, no sentido do falso. No entanto, há muitas 
outras maneiras de pensar que não se restringem à lógica, e que nem por isso são falsas. 
Embora o Positivismo as tenha detraído, há pensamento – e abissal – nos mitos, nas 
religiões, na arte. Também essas realizações são o “pro-curar” e o “co-responder” 
humano ao apelo permanente das questões. Se, por estarmos dentro das questões, não 
podemos defini-las, isto não é uma deficiência. Ao tentarmos “co-responder” às 
questões, entramos em um círculo de ressonância que repercute em quem nós mesmos 
somos. 
 
As questões e os conceitos 
 Nenhum conceito que se estabeleça pode esgotar as questões. O homem 
sempre vige na tensão entre a questão e o conceito que tenta apreendê-la. Conceito é 
“cum-capere” (“apreender com”). A questão dirige-se ao homem, e ele “pro-cura” 
apreendê-la com conceitos. Mas a resposta que o conceito tenta dar às questões não as 
esgota. Por isso, o homem não somente sempre está, mas é o interlúdio ou o intervalo 
entre a questão e o conceito. As respostas que o homem procura conferir às questões 
não são só as que ele discursivamente dá, mas as que ele projeta no seu próprio 
desempenho existencial, em tudo o que ele faz ou deixa de fazer, seja quando fala, seja 
quando cala. Pois é certo que, dependendo do que faço ou deixo de fazer em minha 
existência, quer me dê conta ou não, estou sempre projetando um sentido do que são a 
Vida, a Morte e o Tempo. Disso não há como fugir. Dependendo das ações e inações 
que assumo ao longo da existência, projeta-se o sentido de minha existência, sempre 
solicitada pela fonte originária das questões. Portanto, a quem é dado o questionar é 
facultado o “experenciar”, isto é, o movimento para fora (ex-) dos limites (péras) de 
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onde se está postado.
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Este movimento para fora é um êxtase, isto é, ir para fora (ex-) de 
onde se está postado (stásis), e também, simultaneamente, uma êntase, um movimento 
para dentro (en- e stásis), na medida em que o questionamento se incorpora ao 
horizonte de desempenho existencial. 
 Ao percorrer as questões, tentando conceituá-las, elas se velam em qualquer 
desvelamento que façamos. Pensar, como diz a palavra “penso” (curativo), é a cura e o 
cuidado com as questões que estão sempre a se velar, porque jamais cabem em 
conceitos. Pensar é a condução não do escuro para o claro, como quer o racionalismo 
iluminista, e, sim, do claro para a escura fonte originária das questões., sempre velada. 
 
As questões e a arte 
 A arte também se erige a partir das questões que se dirigem ao homem em 
seu próprio ser. As questões estão na origem tanto do homem quanto da obra de arte. 
Cada homem é a consumação das questões em seu próprio desempenho existencial, e a 
obra de arte é a consumação das questões pondo-se em obra na obra. “Obra” vem de 
opus, e “operar” vem de operare. Em ambos, o radical “op-” indica “abundância”, 
“germinação”, “fecundação”, como vemos na palavra “opulência”. A obra é o operar da 
fecundação das questões. Esta fecundação se dá no âmbito do pólemos entre o real e 
seu sentido, pois o real (a coisa) se mostra, se manifesta como fenômeno, mas, 
silenciando a sua realidade, o que ela efetivamente é, doa-se como sentido. É este 
silêncio, retração ou velamento que solicitam o desvelamento do sentido do real que é a 
obra. 
 Na obra de arte, as questões germinam em abundância: ela é o próprio 
manifestar das questões. E é por isso que a arte não é expressão da subjetividade do 
artista, e, sim, o “co-responder” às questões pondo-se em obra na obra. A obra de arte é 
o espaço privilegiado de diálogo, em que aquele que a interroga resulta ser por ela 
interrogado. Pelo diálogo com a arte, aquele que dialoga não mais estará encerrado nos 
limites estáticos de uma subjetividade contraposta a um objeto, pondo-se, ao contrário, 
em deveniência e transformação. As questões que a obra de arte põem em obra 
convidam quem com ela dialoga à eclosão da verdade de sua consumação existencial, a 
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fazer a travessia da realização de sua própria humanidade. Esta é a virtude do círculo 
hermenêutico: aquele que questiona acaba sendo questionado pelas questões. Então, 
pode ocorrer aquilo que Richard Palmer nos diz sobre o ponto fulcral da experiência 
hermenêutica,

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