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O que é uma questão - Antônio Máximo Ferraz

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que é a fusão do horizonte existencial do intérprete com a obra de arte 
(PALMER, 1997, p. 235). O ponto de chegada, na circularidade hermenêutica, é o 
mesmo ponto de partida, como o trenzinho a girar nos trilhos circulares, na imagem do 
poema “Autopsicografia”. Mas, como fazemos um percurso questionante, não 
chegamos jamais iguais ao mesmo ponto. O mesmo jamais é o igual, pois o mesmo se 
mostra de diferentes maneiras. 
 Para que o efetivo diálogo com as questões de que a obra é portadora 
ocorra, é preciso, então, não garroteá-la com metodologias ou teorias prévias e 
esquemas conceituais. Assim, o intérprete pode se abrir para “ouvir” as questões que se 
projetam no horizonte da obra, e que hão de repercutir, de modo circular, em seu 
próprio horizonte existencial. Daí se poder considerar que o único motivo de ser do 
diálogo com a obra é aprofundarmos o nosso horizonte existencial: a existência é a 
suprema obra de arte, e cada ser humano é um poema ao mesmo tempo original e 
originário, isto é, que tem origem nas questões. 
 
A tradição metafísica em questão 
 Alguém há de se perguntar: por que enfatizar tanto a nossa pertença às 
questões? Resposta: porque nossa era vive presa a um cerrado esquema conceitual, 
advindo de 2.500 anos de realização da tradição metafísica, que se acumulou sobre o 
entendimento do que são o real, o homem e a arte. 
 A tradição metafísica empreendeu uma interpretação do real segundo a qual 
sobre ele se projeta um fundamento estático (um subjectum) fora da ação do Tempo. 
Subjectum é o que está lançado (jectum) por debaixo (sub-) do real em permanente 
devir. A idéia platônica, a substância aristotélica, o logos medieval e, na modernidade, 
o cogito cartesiano são fundamentos apriorísticos projetados e hipostasiados pelo 
homem sobre o real em deveniência. Entretanto, o real não é uma idéia minha, a minha 
idéia do real é que é uma idéia minha – para lembrar mais uma vez Caeiro. Na projeção 
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antropocêntrica do real, este vê silenciada a sua ambigüidade de ser e não-ser, já que 
está em devir: ele está sempre sendo. Com a projeção de um fundamento estático sobre 
o real, o conhecimento passa a se pautar pela metodologia que se julga adequada para 
chegar a sua “essência”. E seu devir é relegado ao terreno da mera “aparência”, 
portanto ao falso, ao não-verdadeiro. A matriz deste entendimento do real é o 
platonismo, com sua separação do real em dois mundos: o mundo inteligível, imutável 
e verdadeiro, que é, mas nunca devém, e o mundo sensível, mutável e aparente, que 
devém, mas nunca é. A negação do devir e o estabelecimento de um fundamento 
ontológico estático sob o real em deveniência caracterizam a tradição metafísica, em 
suas sucessivas etapas.
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 Na modernidade técnico-científica, o cogito é o fundamento antropocêntrico 
e estático a partir do qual se projeta o real, negando-o em seu devir. O cogito dá 
nascimento ao sujeito, que se institui como tal a partir do modo como se relaciona com 
a coisa, na medida em que passa a objectualizá-la através da metodologia. Entretanto, o 
que é o real e o que é o homem são questões que não se esgotam em conceitos. Como 
nos diz a pertença etimológica, a coisa é o que está sempre em causa. Homem é humus, 
terra, e tampouco sabemos o que são a terra ou o real, pois não se exaurem na definição 
mais corrente: a de que a coisa é meramente uma matéria com uma determinada forma. 
A coisa, para além do senso comum, é o que está e sempre estará em causa. 
 Não sabemos o que são o real e o homem, mas eles estão sempre 
mutuamente implicados. Esta é a condição originariamente metafísica do homem: ele 
está sempre entre (metá) as coisas (phýsis), não em face delas, o que lhe permitiria 
objetivá-las. Por isso, a verdade não é a predicação que o homem a respeito delas faz. A 
predicação verdadeira é apenas a predicação verdadeira, não a verdade. A verdade não 
são as idéias que temos sobre o real e, sim, o seu desvelar autovelante. O real sempre 
vela a sua realidade – tomando o termo “realidade” por aquilo que o real é de verdade, 
aquilo que ele efetivamente é. Não por outro motivo, atendendo a uma dimensão mais 
originária na compreensão da verdade, os gregos chamaram-na de alétheia, o 
desvelamento do real, o qual, por mais que se desvele, sempre vela sua realidade, por 
ação do Tempo: as coisas não são, elas estão sendo. A ação originária da realidade do 
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real sempre se velando é o que instaura o homem e o próprio real como questões. O 
homem é o pastor da questão do que é o real, ele é o guardador de rebanhos (Caeiro) 
que, solicitado pelo velamento do real e de si próprio, ajunta a diversidade das coisas 
em uma identidade. 
 Cada época – e cada distinta obra de arte – é sempre uma diferente 
figuração da mesma relação originária, que envolve o homem e o real, e configura 
distintos sentidos de verdade. 
 
***** 
 
 Reconduzir o homem ao lugar em que ele já está – a seu lugar de origem –, 
foi o que nos motivou a perguntar ao longo do texto: o é uma questão? Mas não 
tivemos, em nenhum momento, a vã pretensão de chegar a alguma conclusão. Como 
diz Álvaro de Campos, “não me venham com conclusões! A única conclusão é morrer” 
(PESSOA, 1995, p. 356). Questionar o que é uma questão não nos permite a veleidade 
das conclusões, mas nos abre para a sua vigência, que se dá no próprio questionar. Se 
alguma conclusão houvesse, seria a de que não sabemos o que é uma questão, vez que 
ela só permanece enquanto tal na medida em que nela façamos a nossa morada. É o que 
nos diz Heidegger, em A origem da obra de arte (HEIDEGGER, 2010, p. 179): 
 
 A resposta à pergunta é, como cada 
autêntica resposta, a saída derradeira do último 
passo de uma longa seqüência de passos 
questionantes. Cada resposta somente conserva 
sua força como resposta enquanto ela permanecer 
enraizada no questionar. 
 
 A arte é a dimensão em que as questões se manifestam. A obra de arte 
opera-as de modo radical, original e originário, convidando o homem, por doação do 
diálogo, a fazer a travessia para modos mais autênticos de ser, que pressupõem o 
percurso alquímico do conceito à questão, na vigência da livre escuta do destino. O 
acontecer das questões no horizonte existencial, em diálogo com a obra, nos mostra que 
a arte não é apenas uma das esferas de realização do homem, mas a esfera, em todos os 
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seus empenhos, desempenhos e percursos, não só naqueles domínios que se 
convencionaram chamar artísticos. Como nos diz Friedrich Hölderlin, “poeticamente o 
homem habita esta terra” (apud HEIDEGGER, 2006, p. 257). 
 A obra de arte nunca está fora do homem, não é um objeto a ele 
contraposto, que pudesse se lhe descortinar através de teorias e esquemas 
metodológicos prévios. A arte elide a separação entre o sujeito e o objeto, e nos faz 
aparecer a própria existência como a suprema obra de arte, a ser erigida na ética da 
escuta das questões. O éthos do homem – isto é, a sua morada, seu modo de habitar, seu 
lugar de realização – são as questões. É o que, não de modo igual, não com as mesmas 
palavras, mas falando do mesmo, também nos diz o poeta-pensador Fernando Pessoa: 
“todas as frases do livro da vida, se lidas até ao fim, terminam numa interrogação” 
(PESSOA, 2006, p. 30).
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A interrogação de que Pessoa nos fala não é apenas um sinal colocado no 
fim da frase, mas uma maneira de ela ser, que repercute desde o seu início até o seu 
final.

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