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O que é uma questão - Antônio Máximo Ferraz

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Por isso, também diremos: todas as frases do livro da vida começam e terminam, 
terminam e começam, de modo circular, em uma interrogação. A frase da vida não vai 
de um início que passou, que não é mais, até um fim que seria exaurimento. Ela se 
desdobra da arkhé (a origem que continua sendo) a um télos (a plenificação da origem). 
É isso o que nos destina a sermos sempre essa mesma interrogação se pronunciando, de 
distintas maneiras, em cada diferente existência humana. Esse “mesmo” são as 
questões, que constituem a identidade de todas as diferenças, a fonte sempre a jorrar, da 
qual todas as existências promanam. 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
 
HEIDEGGER, Martin. A Origem da Obra de Arte. Tradução de Idalina Azevedo e 
Manuel Antônio de Castro. São Paulo: Edições 70, 2010. 
__________________. Ensaios e conferências. Tradução Emmanuel Carneiro Leão et 
alii. Petrópolis: Vozes, 2006. 
PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Aguilar, 1995. 
Revista Litteris - Ciências Humanas - Filosofia 
Novembro de 2010 
Número 6 
 
 
________________. Aforismos e afins. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. 
RICHARD, PALMER. Hermenêutica. Tradução de Maria Luísa Ribeiro Ferreira. 
Lisboa: Edições 70, 1997. 
 
 
 
 
1
 SANTO AGOSTINHO. Confissões. Livro XI, 14,17. 
2
 Dirá Ricardo Reis: “O tempo passa, / Não nos diz nada. / Envelhecemos. Saibamos, quase / Maliciosos, / 
Sentir-nos ir. / Não vale a pena / Fazer um gesto. / Não se resiste / Ao deus atroz / Que os próprios filhos / Devora 
sempre” (PESSOA, 1995: 253). 
3
 Por que dizemos que o tempo é “desvelado”? Por que o termo “des-velar”? Ora, queremos apontar para o 
fato de que o tempo se manifesta (se “des-vela”) em distintas temporalidades, mas, por mais que se manifeste, jamais 
cessa de se velar. O núcleo da palavra “des-velar” é o “velar”, não o “des-”. Ou seja: o tempo se doa em distintas 
construções temporais, a partir de seu velamento, retração ou silêncio. Por isso não podemos defini-lo. É o seu 
velamento, entretanto, que permite a construção de diferentes temporalidades. 
 Uma observação a mais: aqui, como em outras palavras do texto, por vezes separaremos seus elementos de 
composição, colocando-os entre aspas, para evocar sua etimologia. E isto não por preciosismo filológico. Uma vez 
que as palavras não são meros rótulos das coisas, e, sim, o espaço em que se manifesta seu sentido, trata-se de 
suscitar a memória do significado originário da construção do real que a palavra abriga. Significado que se perde 
quando a palavra é utilizada como mero instrumento de comunicação. A linguagem só é instrumento de comunicação 
por derivação: na origem, ela é sempre iluminação poética do sentido do real, desvelado por diferentes línguas, de 
maneira própria. 
4
 A língua grega guarda claramente a noção de que não é o homem quem tem a Vida, mas a Vida quem o 
tem enquanto nele vige. Por isso, ela distingue Zoé (a Vida Incessante, que não cessa de nascer e perecer) de bíos (a 
vida de cada ente, ligada temporariamente à Zoé). 
5
 Páthos, freqüentemente traduzido por sofrimento, quer dizer, de modo mais amplo, tudo aquilo que se 
experimenta e agita a alma, tanto sentimentos como paixão, prazer e amor, quanto mágoa, tristeza, cólera. 
6
 Este raciocínio dedutivo pretende apresentar-nos uma verdade, a de que A é igual a C. Entretanto, o 
pensamento lógico jamais pode pretender esgotar a verdade. Nesta sentença, por exemplo, que é correta do ponto de 
vista da lógica, surgem outras questões que não se esgotam, e que precisariam ser percorridas para que se 
considerasse a sentença correta: o que é a igualdade? O que é a verdade? Qual a identidade e qual a diferença de A, B 
e C? O que é a identidade? O que é a diferença? Mesmo a lógica está sempre envolvida pelas questões, por isso não 
pode se pretender detentora da verdade, senão dentro de seu próprio âmbito. 
7
 Valemo-nos de um neologismo, “experenciar”, ao invés de “experimentar”, para evocar o movimento para 
fora (ex-) dos limites (péras), próprio ao questionamento. É importante chamar a atenção para o fato de que quem 
questiona não se confina ao “vivenciar”, no sentido de uma vida que confirma suas pressuposições e vivências 
pessoais, tampouco pode estancar em metodologias prévias na determinação do que são as coisas. “Experenciar” é 
franquear, no vigor do apelo das questões, os limites do que já somos e sabemos das coisas e de nós próprios para o 
que ainda não somos e não sabemos. 
8
 Note-se que atribuímos a matriz dessa tradição não a Platão, mas ao platonismo, ou seja: a redução de um 
pensar radical em escolas por ação epígonos. As respostas que Platão deu à questão do que é o real não a esgotam, até 
mesmo porque sua obra, fundada no diálogo, vige em uma das experienciações mais radicais de multifacetação de 
que o pensamento humano tem notícia. Platão não sabia o que era o real, tanto é assim que estava a se questionar. 
Entretanto, quando a resposta que deu à questão foi assimilada e passou a ser repetida, tomada como paradigma, a 
tradição metafísica veio se consolidando. É um erro, no entanto, repetir o que um pensador disse. O maior legado de 
todo pensador não é o que ele pensou, mas o não pensado de tudo o que pensou. 
9
 Em inglês no original: all sentences in the book of life, if read till the finish, will be found to end in a query.

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