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Aula 3(a) – Qualidade da água 23 3- QUALIDADE DA ÁGUA 3.1- Conceitos fundamentais Água pura, no sentido rigoroso do termo não existe na natureza, pois, sendo a água um ótimo solvente, nunca é encontrada em estado de absoluta pureza. A água possui uma série de impurezas que vão imprimir suas características físicas, químicas e biológicas; a qualidade da água depende dessas características. As características físicas, químicas e biológicas das águas naturais, bem como as que deve ter a água fornecida ao consumidor, vão influir no grau de tratamento que venha a se dar às águas naturais, o qual também depende do uso que se pretende dar à água. Portanto, o conceito de impurezas de uma água tem significado relativo. Assim, uma água destinada ao uso doméstico deve ser desprovida de gosto, ao passo que numa água destinada ao resfriamento de caldeiras, esta característica não tem importância. Portanto, a qualidade que se destina na água natural e a que se necessita na água de consumo, entre outros aspectos, vão influir na escolha do manancial e no processo de tratamento a ser adotado, sem se deixar também de levar em conta o aspecto econômico-financeiro deste tratamento. Assinale-se que o problema da quantidade de água, que deverá ser suficiente para todas as finalidades, está diretamente ligado ao problema da qualidade da água. 3.2- Caminhos da poluição da água - Conceitos de poluição e de contaminação Considera-se poluição qualquer alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas do meio ambiente (ar, água e solo), causada por qualquer forma de energia ou qualquer substância sólida, líquida ou gasosa, ou combinação de elementos, despejados no meio ambiente, em níveis capazes de, direta ou indiretamente: 1- ser prejudicial à saúde, à segurança e ao bem estar da população; 2- criar condições inadequadas para fins domésticos, agropecuários, industriais e outros, prejudicando assim as atividades sociais ou econômicas; 3- ou ocasionar danos relevantes à fauna, à flora e outros recursos naturais. Existe uma inter-relação entre as diversas formas de poluição, exigindo assim que a solução do problema deva ser equacionada em conjunto. A contaminação é a denominação genérica para as conseqüências da poluição, como os efeitos da introdução de substâncias ou organismos nocivos no recurso hídrico, causando doenças no ser humano. O lançamento à água de elementos que sejam diretamente nocivos à saúde do homem ou de animais, bem como a vegetais que consomem esta água, independentemente do fato destes viverem ou não no ambiente aquático, constitui contaminação. Como exemplo, a introdução na água de elementos em concentrações nocivas à saúde humana, tais como substâncias tóxicas ou venenosas ou radioativas, ou de organismos patogênicos, conduz à contaminação da água; assim, dizemos que esta água está contaminada quando nela foi introduzida matéria fecal proveniente de pessoas doentes ou de portadores. A contaminação constitui, portanto, um caso particular de poluição de água. b) Caminhos da poluição Aula 3(a) – Qualidade da água 24 Na preservação da qualidade da água dois aspectos a considerar: primeiro, as possibilidades de contaminação dos mananciais, e segundo da água captada do manancial e posteriormente fornecida ao consumidor, ou seja, da água de abastecimento ou de consumo, desde a captação até o momento de ser utilizada, incluindo portanto as instalações hidráulico-sanitárias prediais. Analisemos os caminhos da poluição nestes dois casos. - Caminhos da poluição das águas dos mananciais As impurezas contidas nas águas são adquiridas nas diversas fases do ciclo hidrológico; assim, as águas dos mananciais podem se tornar poluídas através dos seguintes caminhos: - Precipitação atmosférica: as águas de chuvas podem arrastar impurezas existentes na atmosfera; nesta fase é menos freqüente a existência de microorganismos patogênicos. - Escoamento superficial: as águas lavam a superfície do solo e carream as impurezas existentes: partículas terrosas, detritos vegetais e animais, fertilizantes, estrume, inseticidas (áreas cultivadas) etc.; podem conter elevada concentração de microorganismos patogênicos; muitas impurezas podem inclusive ser carreadas juntamente com as águas que infiltram no solo. - Infiltração no solo: nesta fase há uma certa infiltração das impurezas, mas, dependendo de características geológicas locais, muitas impurezas podem ser adquiridas pelas águas, através, por exemplo, da dissolução de compostos solúveis. Por outro lado, as impurezas podem ser carreadas para outros pontos, através do caminhamento natural da água no lençol aqüífero; este pode estar contaminado, por exemplo, por matéria fecal originada de soluções inadequadas para o destino final dos dejetos humanos, como as fossas negras. - Despejos diretos de águas residuárias e de lixo, esgotos sanitários, resíduos líquidos industriais e lixo em geral, indevida e/ou inadequadamente lançados nas águas naturais vão levar impurezas que poluem as águas naturais; inclusive podem favorecer o desenvolvimento de tipos inconvenientes de algas. -Represamento: nas represas as impurezas sofrem alterações decorrentes de múltiplas naturezas (física, química, biológica); o repouso pode, contudo, favorecer a melhoria da qualidade da água pela sedimentação, principalmente das partículas maiores, purificando até certo ponto a água. É igualmente considerável a ação dos raios solares. - Caminhos da poluição da água de consumo É de primordial importância, particularmente para a saúde, que o sistema de abastecimento de água seja bem projetado, construído, conservado e mantido; em outras palavras é necessário que várias providências sejam tomadas, para evitar que a água seja contaminada, desde a captação até o momento de ser utilizada pelo consumidor, envolvendo portanto a captação, a adução, o tratamento, o recalque e a distribuição, inclusive a reservação, bem como as próprias instalações hidráulico- sanitárias prediais. A seguir encontram-se alguns exemplos que evidenciam os caminhos da poluição da água captada do manancial e posteriormente fornecida ao consumidor, a qual pode assim se tornar contaminada: - Captação: a captação de água não deve ser localizada a jusante de um lançamento de esgotos, devendo-se mudar, ou o local de captação, ou o ponto de lançamento dos esgotos. - Adução: a adução deve ser executada com os devidos cuidados; por exemplo, não se deve aduzir água tratada em canais abertos. - Tratamento: nas próprias instalações de tratamento existem possibilidades de contaminação, como por exemplo, em filtros em mau estado, com descontinuidade na camada de Aula 3(a) – Qualidade da água 25 areia (“crateras”), em canais abertos, que conduzem água filtrada, etc. A cloração de água, quando feita inadequadamente também pode apresentar problemas de insegurança sanitária, mau cheiro etc. - Recalque: o sistema de distribuição de água deve ser bem projetado; por exemplo, as linhas de distribuição de água devem estar a mais de três metros das linhas de esgotos. Os reservatórios de água tratada devem ser cobertos. O sistema deverá funcionar sempre com pressão satisfatória. - Instalações hidráulico-sanitárias prediais: devem ser executadas com materiais e técnicas adequadas; por exemplo, o emprego excessivo de tubos de chumbos pode causar a doença denominada saturnismo; as instalações devem ser bem executadas para se evitarem as interconexões perigosas, e as possibilidades de refluxos perigosos que podem introduzir água contaminada no sistema de distribuição de água. 3.3- Grau de poluição das águas - Grau de poluição das águas naturais A qualidade das águas naturais vai depender do grau de poluição das mesmas, podendoexistir poluição de teor tão elevado, que até mesmo impeça a sua utilização, devido à impossibilidade ou dificuldade para o seu tratamento. Conforme já visto, podendo a poluição das águas ser devida as causas naturais, como as enxurradas, ou as causas artificiais, como no caso de despejos líquido industriais, é de grande importância o controle de poluição das águas naturais para preservação dos recursos hídricos de uma região. Deve-se assim fixar o que se poderia denominar “padrões de qualidade das águas naturais” , tendo em vista particularmente os usos que se pretende dar às mesmas; em outras palavras, deve-se estabelecer o grau de poluição das águas naturais, objetivando particularmente a sua utilização, de acordo com os diferentes usos, devidamente equacionada e planejada. Assinale-se que as águas naturais utilizadas para fins recreacionais, como as do mar e de rios ou lagos, devem ter qualidade adequadas para não oferecer riscos à saúde dos banhistas. - Grau de poluição e/ou contaminação das águas de consumo - Água de consumo doméstico A água destinada ao consumo de caráter domiciliar deve ser potável. Com relação ao conceito de potabilidade de uma água , transcrevemos de Capocchi o seguinte: “Valho-me, desde logo, da autoridade de Fair e Geyer reproduzindo aqui sua definição: “ Para preencher os requisitos gerais de salubridade, os suprimentos de água deverão possuir atributos, “higidez” e “patabilidade”. Ser “hígida” significa: - não estar a água contaminada e, portanto, ser incapaz de infeccionar seu consumidor, com qualquer moléstia de veiculação hídrica; - estar livre de substâncias tóxicas; e - não conter quantidades excessivas de substâncias minerais ou orgânicas. Quanto à patabilidade, deverá a água, impressionar bem os sentidos, pela sua limpidez (estando livre de cor e turbidez), pela ausência de sabor e pela temperatura refrescante. Para atingir os objetivos acima, a água deverá atender aos padrões de qualidade das águas destinadas ao abastecimento. Estes padrões são representados particularmente pelos padrões de potabilidade que são as quantidades limites que, com relação aos diversos elementos, podem ser toleradas nas águas de abastecimento, quantidades estas fixadas, em geral, por leis, decretos ou regulamentos regionais. Aula 3(a) – Qualidade da água 26 - Água de consumo não doméstico Entre os consumos de água não domésticos temos os seguintes usos: industrial, agrícola, pecuário e recreacional; cada um deles tem suas características específicas. - Água para uso industrial: sua qualidade varia com o tipo de indústria, ou seja, com a finalidade da água na indústria; assim, numa indústria a água pode ser destinada a resfriamento, e portanto, a sua qualidade pode ser bem inferior à da água usada como matéria-prima numa indústria por exemplo, de refrigerantes. - Água para fins agrícolas: sua qualidade vai depender do tipo de cultura; assim, de uma maneira geral, a água que contém excesso de boro, não serve para a agricultura. - Água para fim pecuário: de maneira geral pode exigir água de características satisfatórias; a criação de gado leiteiro exige água de boa qualidade. - Água para fim recreacional: em se tratando de piscinas, a água utilizada deve ter características semelhantes às da água potável. 3.4- Impurezas As impurezas mais comuns, os estados em que se encontram e os principais efeitos são: - Em suspensão: - Algas e protozoários: podem causar sabor e odor, cor, turbidez. - Areia, silte e argila: turbidez. - Resíduos industriais e domésticos. - Em estado coloidal: - Bactérias e vírus: muitos são patogênicos; algumas bactérias podem causar prejuízos à instalações. - Substâncias de origem vegetal: cor acidez, sabor. - Sílica e argilas: turbidez - Dissolvidas: Compreende uma grande variedade de substâncias de origem mineral (principalmente sais de cálcio e magnésio) compostos orgânicos e gases, que dão origem a alterações na qualidade da água, cujos efeitos dependem da sua composição e concentração e de reações químicas com outras substâncias. 3.5- Características físicas químicas e biológicas das águas As impurezas contidas nas águas conferem às mesmas, propriedades positivas ou negativas que devem ser encaradas sob os aspectos físico, químico ou biológico. Por outro lado, e praticamente em decorrência, a qualidade da água é definida através de suas características físicas, químicas e biológicas; são determinadas por meio de exame físico, análise química, exame bacteriológico e exame hidrológico, realizados em amostras adequadas de água e completados com inspeção sanitária de campo. As amostras de água para fins de exames e análises, devem ser colhidas obedecendo cuidados e técnicas apropriadas, com volume e número de amostras adequados; os exames e análises são feitos, segundo métodos padronizados, por entidades especializadas. Aula 3(a) – Qualidade da água 27 3.5.1- Características físicas e organolépticas Embora as características físicas da água tenham importância relativamente pequena do ponto de vista sanitário, elas podem ser determinantes na escolha da tecnologia de tratamento.Normalmente, as características físicas são facilmente determinadas, com destaque para as seguintes: cor, turbidez, sabor e odor, temperatura e condutividade elétrica. Estas características envolvem praticamente aspectos de ordem estética e psicológica, exercendo uma certa influência no consumidor leigo, pois que, dentro de determinados limites não tem relação com inconvenientes de ordem sanitária. Contudo, sendo perceptíveis pelo consumidor, independentemente de um exame, o seu acentuado teor pode causar certa repugnância a consumidores mais ou menos exigentes; pode também favorecer uma tendência para a utilização de água de melhor aparência, porém de má qualidade sanitária, com prejuízo da segurança. - Cor aparente e cor verdadeira Os compostos orgânicos naturais nas águas são oriundos da degradação de plantas e animais, e são denominados de substâncias húmicas. Antigamente, a medida de cor era feita apenas por razões estéticas, porém, com a descoberta de que tais substâncias são precursoras da formação de trihalometanos e organo-halogenados em geral, quando a desinfecção é realizada com cloro livre, a quantificação da cor passou a ser muito importante. Quando a medida de cor é feita com o sobrenadante de amostra de água centrifugada por 30 min, com rotação de 3 000 rpm, ou de água filtrada em membrana de 0,45 m, obtém-se a cor verdadeira. Com a amostra de água em seu estado natural, tem-se a cor aparente, pois há interferência de partículas coloidais e suspensas, além de microorganismo (Di Bernardo, 1993). As substâncias húmicas, geralmente, são compostas pelo ácido húmico e pelo ácido fúlvico. As dimensões das moléculas variam com o pH e com o grau de polimerização (entre 3,5 e 10 nm). A cor medida depende do pH da amostra: quanto menor maior o valor da cor verdadeira. A cor pode ser facilmente removida da água por coagulação química. Em alguns casos de cor extremamente elevada, a remoção pode ser auxiliada ou realizada integralmente através do processo de oxidação química, utilizando-se permanganato de potássio, cloro, ozônio, ou qualquer outro oxidante poderoso. Deve ser evitado o uso de cloro elementar para oxidar a cor devida à matéria orgânica, pois os compostos resultantes – clorofenóis e outros trihalometanos são suspeitos de serem cancerígenos. Entretanto, o cloro pode ser utilizado em combinação com amônia (aminocloração) ou na forma de dióxido de cloro, modos de aplicação que não produzem trihalometanos. - Turbidez A turbidez é uma característica da água devida à presençade partículas suspensas na água com tamanho variando desde suspensões grosseiras aos colóides, dependendo do grau de turbulência. A turbidez pode ser causada por uma grande variedade de materiais, incluindo partículas de areia fina, silte, argila e microorganismos. As partículas de menor tamanho e com baixa massa específica são mais difíceis de ser removidas nas ETAs, por apresentarem menor velocidade de sedimentação. A presença dessas partículas provoca a dispersão e a absorção da luz, dando à água uma aparência nebulosa, esteticamente indesejável e potencialmente perigosa. Aula 3(a) – Qualidade da água 28 É impraticável tentar correlacionar a turbidez com o peso da matéria em suspensão. Quanto mais subdividida uma fixada quantidade de uma dada substância, maior será a turbidez. Por esse motivo caiu em desuso a antiga unidade de turbidez em mg/L de sílica. Atualmente, a determinação da turbidez é fundamentada no método de Jackson. Consiste em se determinar qual a profundidade que pode ser vista a imagem da chama de uma vela, através da água colocada em um tubo de vidro. É limitada a valores de 25 a 1 000 unidades Jackson de Turbidez (U.J.T. ou J.T.U. na abreviação em inglês). A turbidez de 1000 UJT é equivalente a uma profundidade de apenas 2,3 cm. No outro extremo do campo de medição, a profundidade de 72,9 cm é equivalente a uma turbidez de 25 UJT (Figura 5). Há uma variedade de equipamentos mais ou menos sofisticados para medir valores inferiores a 25 UJT, porém os mais utilizados e, provavelmente melhores, são os nefelômetros. Figura 5 – Turbidimetria: Escala Jackson de turbidez Nesses aparelhos, mede-se, em uma célula fotoelétrica, a quantidade de luz dispersa através da amostra de água, a 90º da luz incidente (Figura 5). A escala de medição é calibrada com padrões conhecidos, usualmente preparados com uma solução de formazina, e permite medir valores tão baixos como 0,1 UJT, com uma precisão de 10%. Não há, entretanto, uma relação direta entre a quantidade de luz dispersa a 90 º e a que, como no tubo de Jackson, atravessa diretamente a amostra. Desse modo, não faz sentido calibrar-se os nefelômetros em unidades de Jackson e é preferível, neste caso, a denominação de Unidades Nefelométricas de Turbidez, U.N.T (ou N.T.U., em inglês). Aula 3(a) – Qualidade da água 29 Figura 6 – Esquema dos dispositivos usados para medir a turbidez A desinfecção da água, principalmente a inativação de vírus, é tanto mais eficaz quanto menor é a turbidez da água. Atualmente, está se exigindo água filtrada com turbidez menor que 0,1 UNT, preferencialmente inferior a 0,2 UNT. Ressalta-se, assim, a necessidade de se dispor de meios para a determinação da turbidez a valores tão baixos como 0,1 UNT e a importância deste parâmetro no controle de uma estação de tratamento. - Sabor e odor As características do sabor e odor são consideradas em conjunto, pois geralmente a sensação de sabor decorre da combinação de gosto mais odor; são características que provocam sensações subjetivas nos órgãos sensitivos do olfato e do paladar, causadas pela existência de substâncias como matéria orgânica em decomposição, resíduos industriais, gases dissolvidos, algas, etc. No caso particular de sais dissolvidos em concentrações elevadas, o gosto é sentido, sem que sinta o odor e sabor, como por exemplo, cloreto de sódio. Os gostos são quatro a saber: doce, amargo, ácido e salgado. Da combinação destes com os vários tipos de odor, resultam os sabores. O sabor e o odor são características que podem estar presentes nas águas correntes ou dormentes. As águas subterrâneas raramente possuem características de sabor e odor perceptíveis, a não ser o decorrente de sais dissolvidos em excesso. A remoção dessas substâncias geralmente requer a aeração, além da aplicação de um oxidante e de carvão ativado para a adsorção dos compostos causadores de odor e sabor. É difícil adotarem-se medidas de odor e sabor; assinale-se, a este respeito, o método apresentado pelo Eng. Dirceu Gonçalves para avaliar o gosto da água potável. Quanto ao odor assinalamos métodos (“Standard Methods for Examination of Water and Sewage”) que estabelecem um padrão de medida baseados na determinação da máxima diluição da amostra em que o operador treinado é capaz de perceber algum cheiro. Quanto ao sabor não existe nenhum processo de medida. Levando em conta estas dificuldades os padrões de potabilidade em geral estabelecem que as águas, quanto ao sabor e odor, devem ser inobjetáveis, ou seja, deve haver ausência de sabor e de odor. - Temperatura A temperatura influi nas reações de hidrólise do coagulante, na eficiência da desinfecção, na solubilidade dos gases, na sensação de sabor e de odor e, em especial, no desempenho das unidades de mistura rápida, floculação, decantação e filtração. Por isso, é importante conhecer a variação de temperatura na água a ser tratada. Aula 3(a) – Qualidade da água 30 - Condutividade elétrica A condutividade elétrica depende da quantidade de sais dissolvidos na água. A medição da condutividade elétrica permite estimar rapidamente a quantidade de sólidos totais dissolvidos (STD) presentes na água. Para valores elevados de STD, aumenta a solubilidade dos precipitados de alumínio e de ferro, o que influi na cinética da coagulação. Também são afetadas a formação e a precipitação de carbonato de cálcio, favorecendo a corrosão. 3.5.2- Características químicas das águas As características químicas das águas são devidas à presença de substâncias dissolvidas, geralmente avaliáveis somente por meios analíticos. São de grande importância, tendo em vista as conseqüências sobre o organismo dos consumidores, ou sob o aspecto higiênico, bem como sob o aspecto econômico; assinale-se ainda a utilização de certos elementos como cloretos, nitritos e nitratos bem como o teor de oxigênio consumido como indicadores de poluição, permitindo-se concluir se a poluição é recente ou remota, se é maciça ou tolerável. As características químicas das águas contam a estória da água antes do ponto de colheita da amostra. As características químicas das águas são determinadas por meio de análises químicas, seguindo métodos adequados e padronizados para cada substância. Os resultados são fornecidos em concentração da substância em mg/L (miligrama por litro). - Salinidade O conjunto de sais normalmente dissolvidos na água, formado pelos bicarbonatos, cloretos, sulfatos e, em menor quantidade, pelos demais sais, pode com já foi dito, conferir à água o sabor salino, já focalizado, e uma propriedade laxativa (sulfatos). O teor de cloretos pode ser indicativo de poluição por esgotos domésticos (próxima ou remota); verifica-se pela comparação de várias análises, após estudos de condições e situações locais. De modo geral a salinidade excessiva é mais própria das águas profundas que superficiais, sendo porém sempre influenciada pelas condições geológicas dos terrenos banhados ou lixiviados. - Dureza É uma característica conferida à água pela presença de sais alcalino-terrosos (cálcio, magnésio, etc.) e alguns metais, em menor intensidade. Quando os sais são bicarbonatos (de cálcio, de magnésio, etc.), a dureza é denominada temporária, pois pode ser eliminada quase totalmente pela fervura. Quando é devida a outros sais é denominada permanente. A dureza é caracterizada pela extinção da espuma formada pelo sabão, índice visível de uma reação mais complexa, o que dificulta o banho e a lavagem de utensílios domésticos e roupas, criando problemas higiênicos. As águas duras, em função de condições desfavoráveisde equilíbrio químico, podem incrustar as tubulações. A dureza é expressa em termos de CaCO3. As águas duras podem ser classificada em termos do grau de dureza em: Aula 3(a) – Qualidade da água 31 Moles.....................................................Dureza inferior a 50 mg/L em CaCO3 Moderadas.............................................Dureza entre 50 a 150 mg/L em CaCO3 Duras......................................................Dureza entre 150 a 300 mg/L em CaCO3 Muito duras............................................Dureza superior a 300 mg/L em CaCO3 - Alcalinidade A alcalinidade é devida à presença de bicarbonatos (HCO3-), carbonatos (CO32-) ou hidróxidos (OH-). Com maior freqüência, a alcalinidade das águas é devida a bicarbonatos, produzidos pela ação do gás carbônico dissolvido na água sobre as rochas calcárias. A alcalinidade não tem significado sanitário, e menos que seja devida a hidróxidos ou que contribua na quantidade de sólidos totais. É uma das determinações mais importantes no controle da água, estando relacionada com a coagulação, redução da dureza e prevenção de corrosão nas canalizações de ferro fundido da rede de distribuição. Os íons causadores da alcalinidade são todos básicos e, assim, capazes de reagir com um ácido de concentração conhecida. A quantidade de ácido adicionada até se atingir determinado valor do pH, mede a alcalinidade existente na amostra de água. Como indicadores, são geralmente utilizados a fenolftaleína e o metil orange. A fenolftaleína dá uma coloração rosa à água a pH 8,3 ou maior. Titulando com ácido até o desaparecimento da cor rosa, a quantidade de ácido consumida na neutralização dos íons hidróxido e carbonato é chamada de alcalinidade à fenolftaleína. A seguir, adiciona-se à mesma amostra algumas gotas de metil orange, devendo resultar uma cor amarela. Continuando a titulação, a cor muda de amarelo para vermelho ou laranja, a um pH ao redor de 4,2. Os mililitros de ácido consumidos neste intervalo representam a alcalinidade devida a carbonatos e bicarbonatos. A quantidade total de ácido consumido mede a alcalinidade total. Somente dois tipos de alcalinidade podem estar presentes simultaneamente numa amostra de água, posto que haveria uma reação entre hidróxidos e bicarbonatos, reduzindo estes à forma de carbonatos, como reação abaixo: OH- + HCO3- H2O + CO32- Em função do pH, podem estar presentes na água os seguintes tipos de alcalinidade: pH 11,0 a 9,4..................................Alcalinidade de hidróxidos e carbonatos pH 9,4 a 8,3..................................Carbonatos e bicarbonatos pH 8,3 a 4,6...................................Somente bicarbonatos pH 4,6 a 3,0 ...................................Ácidos minerais Tabela 5 - Relação entre os diversos tipos de alcalinidade. Resultado da titulação Alcalinidade de OH- Alcalinidade de CO32- Alcalinidade de HCO3- F = 0 F < ½ T F = ½ T F > ½ T F = T 0 0 0 2F – T T 0 2F 2F 2(T-F) 0 T T-2F 0 0 0 F = alcalinidade à fenolftaleína T = alcalinidade total Aula 3(a) – Qualidade da água 32 - Agressividade A tendência da água a corroer os metais pode ser conferida pela presença de ácidos minerais (casos raros), ou, pela existência, em solução, de oxigênio, gás carbônico e gás sulfídrico. De modo geral, o oxigênio é fator de corrosão dos produtos ferrosos, o gás sulfídrico dos não ferrosos e o gás carbônico dos materiais a base de cimento. - Ferro e manganês O ferro, muitas vezes associado ao manganês, confere à água um sabor amargo, ou melhor, uma sensação de adstringência e coloração amarelada e turva, decorrente da precipitação do mesmo quando oxidado. Certos sais férricos e ferrosos como os cloretos, são bastante solúveis nas águas. Os sais ferrosos são facilmente oxidados nas águas naturais de superfície, formando hidróxidos férricos insolúveis, que tendem a flocular e decantar ou serem adsorvidos superficialmente, razão pela qual a ocorrência de sais de ferro em águas superficiais bem aeradas dificilmente se dá em concentrações de elevado teor. É adotado o limite de 0,3 mg/L para a concentração do ferro, juntamente com manganês, nas águas, sugerindo-se concentrações inferiores a 0,1 mg/L. Essa limitação, entretanto, é feita devido a razões estéticas, pois águas contendo sais de ferro causam nódoas em roupas e objetos de porcelana. Em concentrações superiores a 0,5 mg/L causa gosto nas águas. É altamente prejudicial nas águas utilizadas por lavanderias e indústrias de bebidas gaseificadas. O manganês é semelhante ao ferro, porém menos comum, e sua coloração característica é a marrom, e, quando na forma oxidada é preto. - Cloretos, sulfatos e sólidos totais O conjunto de sais normalmente dissolvidos na água, formado pelos bicarbonatos, cloretos, sulfatos e em menor concentrações outros sais, pode conferir à água sabor salino e uma propriedade laxativa. O teor de cloretos é um indicador de poluição por esgotos domésticos nas águas naturais e é um auxiliar eficiente no estudo hidráulico de reatores como traçador. O limite máximo desejável em águas para consumo humano não deve ultrapassar 200 mg/L. Concentrações de cloretos, mesmo superiores a 1 000 mg/L, não são prejudiciais ao homem, a menos que ele sofra de moléstia cardíaca ou renal. A restrição de sua concentração máxima está ligada, entretanto, ao gosto que o sal confere à água, mesmo em teores da ordem de 700 mg/L não acusam gosto devido aos cloretos. Variações do teor de cloretos em águas naturais devem ser investigadas, pois é indicação de provável poluição. Quantidades excessivas de substâncias dissolvidas nas águas, podem torna-las inadequadas ao consumo. Recomenda-se que o teor de sólidos totais dissolvidos seja menor que 500 mg/L, com limite máximo aceitável de 1 000 mg/L. O cloreto é o ânion Cl- que se apresenta nas águas subterrâneas através de solos e rochas. Nas águas superficiais são fontes importantes as descargas de esgotos sanitários, sendo que cada pessoa expele através da urina cerca 6 g de cloreto por dia, o que faz com que os esgotos apresentem concentrações de cloreto que ultrapassam a 15 mg/L. Diversos são os efluentes industriais que apresentam concentrações de cloreto elevadas como os da indústria do petróleo, algumas indústrias farmacêuticas, curtumes, etc. Nas regiões costeiras são encontradas águas com níveis altos de cloretos. Nas águas tratadas, a adição de cloro puro ou em solução leva a uma elevação do nível de cloreto, resultante das reações de dissociação do cloro na água. Aula 3(a) – Qualidade da água 33 Para as águas de abastecimento público, a concentração de cloreto constitui-se em padrão de potabilidade, segundo a Portaria n° 2914 do Ministério da Saúde. O cloreto provoca sabor "salgado" na água, sendo o cloreto de sódio o mais restritivo por provocar sabor em concentrações da ordem de 250 mg/L, valor este que é tomado como padrão de potabilidade. No caso do cloreto de cálcio, o sabor só é perceptível em concentrações de cloreto superior a 1000 mg/L. Embora hajam populações árabes adaptadas no uso de águas contendo 2.000 mg/L de cloreto, são conhecidos também seus efeitos laxativos Da mesma forma que o sulfato, sabe-se que o cloreto também interfere no tratamento anaeróbio de efluentes industriais, constituindo-se igualmente em interessante campo de investigação científica. O cloreto provoca corrosão em estruturas hidráulicas como, por exemplo, em emissários submarinos para a disposição oceânica de esgotos sanitários, que por isso têm sido construídos com polietileno de alta densidade (PEAD). Interferem na determinação da DQO e embora esta interferênciaseja atenuada pela adição de sulfato de mercúrio, as análises de DQO da água do mar não apresentam resultados confiáveis. Interfere também na determinação de nitratos. Também eram utilizados como indicadores da contaminação por esgotos sanitários, podendo-se associar a elevação do nível de cloreto em um rio com o lançamento de esgotos sanitários. Hoje, porém, o teste de coliformes fecais é mais preciso para esta função. O cloreto apresenta também influência nas características dos ecossistemas aquáticos naturais, por provocarem alterações na pressão osmótica em células de microrganismos. O íon sulfato quando presente na água, dependendo da concentração além de outras propriedades laxativas mais acentuadas que outros sais, associado a íons de cálcio e magnésio, promove dureza permanente e pode ser um indicador de poluição de uma das fases da decomposição da matéria orgânica, no ciclo do enxofre. Numerosas águas residuárias industriais , como as provenientes de curtume, fábricas de papel e tecelagem, lançam sulfatos nos cursos de água. - Impurezas orgânicas e nitratos O nitrogênio é um elemento importante no ciclo biológico. O tratamento biológico dos esgotos só pode ser processado com a presença de uma quantidade suficiente de nitrogênio. A quantidade de nitrogênio na água pode indicar uma poluição recente ou remota. Inclui-se nesse item o nitrogênio, sob as suas diversas formas compostas, orgânico, amoniacal, nitritos e nitratos. O nitrogênio segue um ciclo desde o organismo vivo até a mineralização total, esta sob a forma de nitratos, sendo assim possível avaliar o grau e a distância de uma poluição pela concentração e pela forma do composto nitrogenado presente na água. Por exemplo, águas com predominância de nitrogênio orgânico e amoniacal são poluídas por uma descarga de esgoto próxima. Águas com concentrações de nitratos predominantes indicam uma poluição remota, porque os nitratos são o produto final de oxidação do nitrogênio. Independentemente da sua origem, que também pode ser mineral, os nitratos (em concentrações acima de 50 mg/L em termos de NO3), provocam em crianças a cianose ou metemoglobinemia, condições mórbidas associadas à descoloração da pele, em conseqüência de alterações no sangue. - Fenóis e detergentes O progresso industrial moderno vem incorporando os compostos fenólicos e os detergentes entre as impurezas encontradas em solução na água. Sempre decorrente de fatores poluidores, estão incluindo problemas numa fase em que está se tornando comum o termo “reuso”da água. Aula 3(a) – Qualidade da água 34 O fenol é tóxico, mas muito antes de atingir teores prejudiciais à saúde já constitui inconveniente para águas que tenham que ser submetidas ao tratamento pelo cloro, pois combina como o mesmo, provocando o aparecimento de gosto e cheiro desagradáveis. Os fenóis e seus derivados aparecem nas águas naturais através das descargas de efluentes industriais. Indústrias de processamento da borracha, de colas e adesivos, de resinas impregnantes, de componentes elétricos (plásticos) e as siderúrgicas, entre outras, são responsáveis pela presença de fenóis nas águas naturais. Os fenóis são tóxicos ao homem, aos organismos aquáticos e aos microrganismos que tomam parte dos sistemas de tratamento de esgotos sanitários e de efluentes industriais. Em sistemas de lodos ativados, concentrações de fenóis na faixa de 50 a 200 mg/L trazem inibição, sendo que 40 mg/L são suficientes para a inibição da nitrificação. Na digestão anaeróbia, 100 a 200 mg/L de fenóis também provocam inibição. Estudos recentes têm demonstrado que, sob processo de aclimatação, concentrações de fenol superiores a 1000 mg/L podem ser admitidas em sistemas de lodos ativados. Em pesquisas em que o reator biológico foi alimentado com cargas decrescentes de esgoto sanitário e com carga constante de efluente sintético em que o único tipo de substrato orgânico era o fenol puro, conseguiu-se ao final a estabilidade do reator alimentado somente com o efluente sintético contendo 1000 mg/L de fenol. No Estado de São Paulo, existem muitas indústrias contendo efluentes fenólicos ligados à rede pública de coleta de esgotos. Para isso, devem sofrer tratamento na própria unidade industrial de modo a reduzir o índice de fenóis para abaixo de 5,0 mg/L (Artigo 19-A do Decreto Estadual n.º 8468/76). O índice de fenóis constitui também padrão de emissão de esgotos diretamente no corpo receptor, sendo estipulado o limite de 0,5 mg/L tanto pela legislação do Estado de São Paulo (Artigo 18 do Decreto Estadual n.º 8468/76) quanto pela Legislação Federal (Artigo 21 da Resolução n.º 357 do CONAMA). Nas águas naturais, os padrões para os compostos fenólicos são bastante restritivos, tanto na legislação federal quanto na do Estado de São Paulo. Nas águas tratadas, os fenóis reagem com o cloro livre formando os clorofenóis que produzem sabor e odor na água. Por este motivo, os fenóis constituem-se em padrão de potabilidade, sendo imposto o limite máximo bastante restritivo de 0,001 mg/L pela Portaria n° 2914 do Ministério da Saúde. Os detergentes, em mais de 75% dos casos, constituídos de Alquil benzeno sulfonatos (ABS) são indesejáveis naturalmente, e, por isso, sua ação perdura em abastecimento de água a jusante de lançamento que os contenham. O mais visível inconveniente reside na formação de espuma quando a água é agitada; nas concentrações maiores trazem conseqüências fisiológicas. - Substâncias tóxicas Arsênico – Muitos compostos de arsênico são solúveis na água, podendo a sua ocorrência ser natural. Entretanto, são particularmente importantes como fontes potenciais de poluição pelo arsênico certos inseticidas, banhos carrapaticidas, marta-ervas, processamento de minerais, fabricação de tintas e de produtos químicos, de vidro e de corante e resíduos de curtumes. Cromo hexavalente – Os compostos de cromo hexavalente são os cromatos e os bicromatos (íons CrO42- e Cr2O72-). Transformam-se em compostos de cromo trivalente pelo calor, pela ação da matéria orgânica ou por agentes redutores. Os cromatos e bicromatos de sódio, potássio e de amônio são solúveis. São usados para cromação, anodização de alumínio, fabricação de tintas, corantes, explosivos, certos materiais cerâmicos, papéis e outras substâncias, e estão presentes nas águas residuárias dessas indústrias. Aula 3(a) – Qualidade da água 35 Cádmio - O cádmio se apresenta nas águas naturais devido às descargas de efluentes industriais, principalmente as galvanoplastias, produção de pigmentos, soldas, equipamentos eletrônicos, lubrificantes e acessórios fotográficos. É também usado como inseticida. A queima de combustíveis fósseis consiste também numa fonte de cádmio para o ambiente. Apresenta efeito crônico, pois concentra-se nos rins, no fígado, no pâncreas e na tireóide, e efeito agudo, sendo que uma única dose de 9,0 gramas pode levar à morte. O cádmio não apresenta nenhuma qualidade, pelo menos conhecida até o presente, que o torne benéfico ou essencial para os seres vivos. Estudos feitos com animais demonstram a possibilidade de causar anemia, retardamento de crescimento e morte. O padrão de potabilidade é fixado pela Portaria 2914 em 0,005 mg/L. O cádmio ocorre na forma inorgânica, pois seus compostos orgânicos são instáveis; além dos malefícios já mencionados, é um irritante gastrointestinal, causando intoxicação aguda ou crônica sob a forma de sais solúveis. A literatura, no entanto, registra o caso de quatro pessoas que, por longo tempo, ingeriram água com teor de 0,047 mg/L de cádmio, nada apresentando de sintomas adversos. No Japão, um aumento de concentração de cádmio de 0,005 mg/L a 0,18 mg/L provocado por uma mina de zinco, causando a doença conhecida como "Doença de Itai-Itai". A açãodo cádmio sobre a fisiologia dos peixes é semelhante às do níquel, zinco e chumbo. Está presente em águas doces em concentrações traços, geralmente inferiores a 1 µg/L. É um metal de elevado potencial tóxico, que se acumula em organismos aquáticos, possibilitando sua entrada na cadeia alimentar. O cádmio pode ser fator para vários processos patológicos no homem, incluindo disfunção renal, hipertensão, arteriosclerose, inibição no crescimento, doenças crônicas em idosos e câncer. Chumbo - O chumbo está presente no ar, no tabaco, nas bebidas e nos alimentos, nestes últimos, naturalmente, por contaminação e na embalagem. Está presente na água devido às descargas de efluentes industriais como, por exemplo, os efluentes das indústrias de acumuladores (baterias), bem como devido ao uso indevido de tintas e tubulações e acessórios a base de chumbo (materiais de construção). O chumbo e seus compostos também são utilizados em eletrodeposição e metalurgia. Constitui veneno cumulativo, provocando um envenenamento crônico denominado saturnismo, que consiste em efeito sobre o sistema nervoso central com conseqüências bastante sérias. Outros sintomas de uma exposição crônica ao chumbo, quando o efeito ocorre no sistema nervoso central, são: tontura, irritabilidade, dor de cabeça, perda de memória, entre outros. Quando o efeito ocorre no sistema periférico o sintoma é a deficiência dos músculos extensores. A toxicidade do chumbo, quando aguda, é caracterizada pela sede intensa, sabor metálico, inflamação gastrointestinal, vômitos e diarréias. O chumbo é padrão de potabilidade, sendo fixado o valor máximo permissível de 0,03 mg/L pela Portaria 2914 do Ministério da Saúde, mesmo valor adotado nos Estados Unidos. No entanto, naquele país, estudos estão sendo conduzidos no sentido de reduzir o padrão para 0,01 mg/L. É também padrão de emissão de esgotos e de classificação das águas naturais. Aos peixes, as doses fatais, no geral, variam de 0,1 a 0,4 mg/L, embora, em condições experimentais, alguns resistam até 10 mg/L. Outros organismos (moluscos, crustáceos, mosquitos quironomídeos e simulídeos, vermes oligoquetos, sanguessugas e insetos tricópteros), desaparecem após a morte dos peixes, em concentrações superiores a 0,3 mg/L. A ação sobre os peixes é semelhante à do níquel e do zinco. Cobre - O cobre ocorre geralmente nas águas, naturalmente, em concentrações inferiores a 20 µg/L. Quando em concentrações elevadas, é prejudicial à saúde e confere sabor às águas. Segundo pesquisas efetuadas, é necessária uma concentração de 20 mg/L de cobre ou um teor total de 100 mg/L por dia na água para produzirem intoxicações humanas com lesões no fígado. No entanto, concentrações de 5 mg/L tornam a água absolutamente impalatável, devido ao gosto produzido. Interessante é notar, todavia, que o trigo contém concentrações variáveis de 190 a 800 mg/kg de cobre, a aveia 40 a 200 mg/kg, a lentilha 110 a 150 mg/kg e a ervilha de 13 a 110 mg/kg. Aula 3(a) – Qualidade da água 36 As ostras podem conter até 2000 mg/kg de cobre. O cobre, em pequenas quantidades é até benéfico ao organismo humano, catalisando a assimilação do ferro e seu aproveitamento na síntese da hemoglobina do sangue humano, facilitando a cura de anemias. Para os peixes, muito mais que para o homem, as doses elevadas de cobre são extremamente nocivas. Assim, trutas, carpas, bagres, peixes vermelhos de aquários ornamentais e outros, morrem em dosagens de 0,5 mg/L. Os peixes morrem pela coagulação do muco das brânquias e conseqüente asfixia (ação oligodinâmica). Os microrganismos perecem em concentrações superiores a 1,0 mg/L. O Cobre aplicado em sua forma de sulfato de cobre, CuSO45H2O, em dosagens de 0,5 mg/L é um poderoso algicida. O Water Quality Criteria indica a concentração de 1,0 mg/L de cobre como máxima permissível para águas reservadas para o abastecimento público. As fontes de cobre para o meio ambiente incluem corrosão de tubulações de latão por águas ácidas, efluentes de estações de tratamento de esgotos, uso de compostos de cobre como algicidas aquáticos, escoamento superficial e contaminação da água subterrânea a partir de usos agrícolas do cobre como fungicida e pesticida no tratamento de solos e efluentes, e precipitação atmosférica de fontes industriais. As principais fontes industriais incluem indústrias de mineração, fundição e refinação. Mercúrio - O mercúrio é largamente utilizado no Brasil nos garimpos, no processo de extração do ouro (amálgama). O problema é em primeira instância ocupacional, pois o próprio garimpeiro inala o vapor de mercúrio, mas posteriormente, torna-se um problema ambiental, pois, normalmente nenhuma precaução é tomada e o material acaba por ser descarregado nas águas. Casos de contaminação já foram identificados na região do Pantanal, no norte brasileiro e em outras. O mercúrio é também usado em células eletrolíticas para a produção de cloro e soda e em certos praguicidas ditos mercuriais. Pode ainda ser usado em indústrias de produtos medicinais, desinfetantes e pigmentos. É altamente tóxico ao homem, sendo que doses de 3 a 30 gramas são fatais. Apresenta efeito cumulativo e provoca lesões cerebrais. É bastante conhecido o episódio de Minamata, no Japão, onde grande quantidade de mercúrio orgânico, o metil mercúrio, que é mais tóxico que o mercúrio metálico, foi lançada por uma indústria, contaminando peixes e habitantes da região, provocando graves lesões neurológicas e mortes. O padrão de potabilidade fixado pela Portaria n° 2914 do Ministério da Saúde é de 0,001 mg/L. Os efeitos sobre os ecossistemas aquáticos são igualmente sérios, de forma que os padrões de classificação das águas naturais são também bastante restritivos com relação a este parâmetro. As concentrações de mercúrio em águas doces não contaminadas estão normalmente em torno de 50 ng/L. Entre as fontes antropogênicas de mercúrio no meio aquático destacam-se as indústrias cloro-álcali de células de mercúrio, vários processos de mineração e fundição, efluentes de estações de tratamento de esgotos, fabricação de certos produtos odontológicos e farmacêuticos, indústrias de tintas, etc. O peixe é um dos maiores contribuintes para a carga de mercúrio no corpo humano, sendo que o mercúrio mostra-se mais tóxico na forma de compostos organo-metálicos. A intoxicação aguda pelo mercúrio, no homem, é caracterizada por náuseas, vômitos, dores abdominais, diarréia, danos nos ossos e morte. Esta intoxicação pode ser fatal em 10 dias. A intoxicação crônica afeta glândulas salivares, rins e altera as funções psicológicas e psicomotoras. Níquel - O níquel é também utilizado em galvanoplastias. Estudos recentes demonstram que é carcinogênico. Não existem muitas referências bibliográficas quanto à toxicidade do níquel; todavia, assim como para outros íons metálicos, é possível mencionar que, em soluções diluídas, estes elementos podem precipitar a secreção da mucosa produzida pelas brânquias dos peixes. Assim, o espaço interlamelar é obstruído e o movimento normal dos filamentos brânquias é bloqueado. O peixe, impedido de realizar as trocas gasosas entre a água e os tecidos brânquias, morre por asfixia. Por outro lado, o níquel complexado (niquelcianeto) é tóxico quando em baixos Aula 3(a) – Qualidade da água 37 valores de pH. Concentrações de 1,0 mg/L desse complexo são tóxicas aos organismos de água doce. Concentrações de níquel em águas superficiais naturais podem chegar a aproximadamente 0,1 mg/L, embora concentrações de mais de 11,0 mg/L possam ser encontradas, principalmente em áreas de mineração. A maior contribuição para o meio ambiente, pela atividade humana, é a queima de combustíveis fósseis. Como contribuintes principais temos também os processos de mineração e fundição do metal, fusão e modelagem de ligas, indústrias de eletrodeposiçãoe, como fontes secundárias, temos fabricação de alimentos, artigos de panificadoras, refrigerantes e sorvetes aromatizados. Doses elevadas de níquel podem causar dermatites nos indivíduos mais sensíveis e afetar nervos cardíacos e respiratórios. 3.5.3- Características biológicas das águas Entre o material em suspensão na água inclui-se a “parte viva” ou seja, os organismos presentes que também constituem impurezas e que, conforme sua natureza têm grande significado para os sistemas de abastecimento de água. Assinale-se que alguns desses organismos, como certas bactérias vírus e protozoários, são patogênicos, podendo portanto provocar doenças a até mesmo ser a causa de epidemias. Outros organismos, como certas algas, são responsáveis pela ocorrência de sabor e odor desagradáveis, ou por distúrbios em filtros e outras partes do sistema de abastecimento. A biologia da água, que constitui o ramo denominado “Hidrologia”, ocupa-se de dois campos: o vegetal e o animal; dentre os organismos de maior interesse com relação ao abastecimento de água, podemos citar: - reino vegetal: algas (verdes, azuis, diatomáceas) - bactérias (saprófitas e patogênicas) - reino animal: protozoários - vermes As características biológicas das águas são avaliadas através dos exames bacteriológicos e hidrobiológicos; entre os primeiros se destaca a pesquisa do número de coliformes. Normalmente se pesquisa o seguinte: a) Contagem do número total de bactérias. Por meio de processos e técnicas adequadas conta-se o número de bactérias por centímetro cúbico (ou miliLitro) da amostra de água. Com relação a este método assinala-se o seguinte: um número elevado de bactérias não é obrigatoriamente indicativo de poluição; variações bruscas nos resultados de exames podem ser interpretadas como poluição; águas pouco poluídas em geral apresentam resultados expressos por números baixos. A contagem do número total de bactérias é de menor interesse que a pesquisa de coliforme. b) Pesquisa de coliformes Normalmente, ou seja, rotineiramente, faz-se a pesquisa do número de coliformes do grupo coli-aerógenes, determinando-se o denominado “índice coli”. Os coliformes são bactérias que normalmente habitam os intestinos dos animais superiores. A sua presença indica portanto a possibilidade de contaminação fecal, servindo portanto de sinal de Aula 3(a) – Qualidade da água 38 alarme no combate à contaminação da água; contudo, não é obrigatório que toda água que contenha coliformes seja contaminada, e como tal, podendo veicular doenças de transmissão hídrica. Concentrações elevadas de coliformes podem tornar inexeqüível a utilização de um manancial, mesmo com tratamento, incluindo pré e pós-cloração. Sua determinação se faz por técnica bem estabelecida. Os resultados são expressos em números de coliformes por 100 mL de amostra de água. Atualmente o número de coliformes é expresso pelo denominado “ número mais provável” (NMP) que é obtido através de estudos estatísticos; representa a quantidade mais provável de coliformes existentes em 100 mL de água da amostra. O exame de coliforme é recomendado para o controle de sistemas de abastecimento de água, e, em particular, da eficiência do tratamento. Os principais indicadores de contaminação fecal são: Coliformes termotolerantes - bactérias do grupo coliforme são consideradas os principais indicadores de contaminação fecal. O grupo coliforme é formado por um número de bactérias que inclui os gêneros Klebsiella, Escherichia, Serratia, Erwenia e Enterobactéria. Todas as bactérias coliformes são gran-negativas, de hastes não esporuladas que estão associadas com as fezes de animais de sangue quente e com o solo. As bactérias coliformes termotolerantes reproduzem-se ativamente a 44,5ºC e são capazes de fermentar o açúcar. O uso das bactérias coliformes termotolerantes para indicar poluição sanitária mostra-se mais significativo que o uso da bactéria coliforme "total", porque as bactérias fecais estão restritas ao trato intestinal de animais de sangue quente. A determinação da concentração dos coliformes assume importância como parâmetro indicador da possibilidade da existência de microorganismos patogênicos, responsáveis pela transmissão de doenças de veiculação hídrica, tais como febre tifóide, febre paratifóide, disenteria bacilar e cólera. c) Variáveis Ecotoxicológicas Ensaios Ecotoxicológicos - Com vistas ao aprimoramento das informações referentes à qualidade das águas, a CETESB realiza, desde 1992, ensaios ecotoxicológicos com organismos aquáticos. Esses ensaios consistem na determinação de efeitos tóxicos causados por um ou por uma mistura de agentes químicos, sendo tais efeitos detectados por respostas fisiológicas de organismos aquáticos. Portanto, os ensaios ecotoxicológicos expressam os efeitos adversos, a organismos aquáticos, resultantes da interação das substâncias presentes na amostra analisada. No monitoramento da qualidade das águas a CETESB avalia os efeitos tóxicos agudos e crônicos, tanto para amostras de água como de sedimento. Os efeitos agudos caracterizam-se por ser mais drástico, causados por elevadas concentrações de agentes químicos, e em geral manifestam-se em um curto período de exposição dos organismos. Os efeitos crônicos são mais sutis, causados por baixas concentrações de agentes químicos dissolvidos, e são detectados em prolongados períodos de exposição ou por respostas fisiológicas adversas na reprodução e crescimento dos organismos vivos.Os ensaios ecotoxicológicos utilizados, bem como suas características, são descritos a seguir: Aula 3(a) – Qualidade da água 39 - Ensaio de toxicidade aguda com a bactéria luminescente - Vibrio fischeri (Sistema Microtox) Esse ensaio é utilizado para avaliar a ocorrência de efeitos agudos em corpos d'água onde o oxigênio dissolvido apresenta-se muito baixo, como é o caso de trechos de rios localizado na zona metropolitana de São Paulo. - Ensaio de toxicidade aguda/crônica com o microcrustáceo Ceriodaphnia dúbia Esse ensaio é utilizado para avaliar a ocorrência de efeitos tóxicos, agudos ou crônicos, em corpos d'água para os quais está prevista a preservação da vida aquática. O resultado do ensaio é expresso como agudo (quando ocorre letalidade de número significativo de organismos, dentro do período de 48 horas) ou crônico (quando ocorre inibição na reprodução dos organismos, dentro do período de sete dias). A amostra é considerada não tóxica caso não haja detecção de qualquer dos efeitos tóxicos. - Ensaio de toxicidade aguda/crônica com o anfípodo Hyalella azteca. Esse ensaio é utilizado para avaliar a ocorrência de efeitos tóxicos, agudos ou crônicos, em sedimentos coletados em recursos hídricos para os quais está prevista a preservação da vida aquática. O resultado do ensaio é expresso como agudo (quando ocorre letalidade de número significativo de organismos, dentro do período de 10 dias) ou crônico (quando ocorre inibição do crescimento de um número significativo de organismos, dentro do período de 10 dias). A amostra é considerada não tóxica caso não haja detecção de qualquer dos efeitos tóxicos. - Ensaios de Genotoxicidade. São ensaios que medem a capacidade de um composto ou mistura de causar dano ao material genético. Danos genéticos não reparados geram mutações nos organismos expostos as quais podem causar doenças como câncer, anemia, distúrbios cardiovasculares e neurocomportamentais, além de doenças hereditárias. A CETESB utiliza o ensaio de mutação reversa (conhecido como teste de Ames ou ensaio Salmonella/microsoma), o qual é eficiente para detectar uma grande variedade de compostos mutagênicos. As linhagens bacterianas utilizadas no teste apresentam característicasque as tornam mais sensíveis para detecção de mutações e o uso de diferentes linhagens na presença e ausência de sistema de metabolização in vitro pode fornecer informações importantes sobre a classe de compostos que estão presentes nas amostras avaliadas. No que diz respeito aos compostos carcinogênicos, a Tabela 6 a seguir apresenta alguns compostos orgânicos cancerígenos que são detectados pelo teste de Ames. Aula 3(a) – Qualidade da água 40 Tabela 6 – Compostos orgânicos detectados pelo testes de AME Composto orgânico Classificação de acordo com a IARC (International Agency for Research on Cancer) Benzo[b]fluoranteno 3,3'-Dimetoxibenzidina 4-Cloro-o-fenilenediamina CI Acid Red 114 CI Basic Red 9 Citrus Red N.º 2 Disperse Blue 1 3,3'-Dimetilbenzidina HC Blue N.º 1 2-Nitrofluoreno 2-Nitroanisole Grupo 1 (composto comprovadamente cancerígeno para humanos) 4-Aminobifenila Benzidina 2-Naftilamina Aflatoxina Grupo 2A (composto provavelmente cancerígeno para humanos) Benzo[a]antraceno Benzo[a[pireno 4-cloro-o-toluidina Dibenzo[a,h]antraceno Metilmetano sulfonato N-nitrosodimetilamina N-etil-N-nitrosouréia N-metil-N-nitrosouréia N-nitrosodietilamina Grupo 2B (composto provavelmente cancerígeno para humanos) Para amostras ambientais os resultados do teste de Ames são expressos em número de revertentes (bactérias que sofreram mutações) por litro ou grama equivalente de amostra e quanto maior esse número, maior a quantidade ou a potência de compostos mutagênicos na amostra analisada. Considera-se amostras de corpos d´água com 0 a 500 revertentes/litro com atividade mutagênica baixa; de 500 a 2500 - moderada; de 2500 a 5000 - alta e valores maiores que 5000 - extrema. Amostras que apresentam atividade mutagênica sugerem a necessidade de níveis de tratamento diferenciados quando a água é usada para consumo humano, bem como requerem a redução das fontes de contaminação.