Prévia do material em texto
Direito Constitucional Profº.Eduardo Hipólito do Rego 1 ORIGENS E CARACTERÍSTICAS DO CONSTITUCIONALISMO 1. A idéia de Constituição Data da antiguidade a percepção de que, entre as leis, algumas há que organizam o próprio poder. São leis que fixam seus órgãos, estabelecem suas atribuições. Em suma, estabelecem sua Constituição. Aristóteles, em sua obra “A política” 1 , distingue leis constitucionais das demais leis, chamadas comuns ou ordinárias. Essa distinção porém só veio ser valorizada no século XVIII, na Europa Ocidental, com o propósito de limitar o poder, afirmando a existência de leis que seriam a ele (poder) anteriores e superiores. Á partir daí, o termo “Constituição” passou a ser empregado para designar o corpo de regras que definem a organização fundamental do Estado. Isto ocorreu ao mesmo tempo em que se reconhecia que o homem podia modelar o Estado segundo princípios racionais, estabelecendo para este uma (nova) Constituição. Nova Constituição forçosamente consagrada num documento escrito. A Constituição escrita apresenta como novidade fundamental essa crença na possibilidade de colocar a organização costumeira do Estado numa estrutura racional, inspirada num sistema preconcebido. Por mais que tenha aparecido modestamente aqui ou ali, essa crença só se difundiu e ganhou o público na segunda metade do século XVIII, triunfando com a Revolução de 1789. 2. Antecedentes A idéia de Constituição escrita não foi inventada por algum doutrinador imaginoso: é uma criação coletiva apoiada em precedentes históricos e doutrinários. Tais precedentes são identificados, de um lado, nos pactos e nos forais ou cartas de franquia e contratos de colonização; e de outro, nas doutrinas contratualistas medievais e na das leis fundamentais do Reino, formulada pelos legistas da filosofia iluminista. 3. Pactos, Forais e Cartas de Franquia Os pactos, de que a História constitucional inglesa é particularmente fértil, são convenções entre o monarca e os súditos concernentes ao modo de governo e às garantias de direitos individuais. Seu fundamento é o acordo de vontades, sendo o mais célebre desses pactos a Magna Carta, com consubstancia o acordo entre o Rei João sem Terra e seus súditos revoltados, sobre direitos a serem respeitados pela Coroa (1215). Outro, também da doutrina inglesa, é a Petition of Rights (1628), que os parlamentares lograram impor ao Rei Carlos I, forçando-o a respeitar direitos imemoriais dos cidadãos ingleses. Os forais ou cartas de franquia, que se encontram por toda a Europa, têm em comum com os pactos a forma escrita e a matéria, que é a proteção dos direitos 1 É composto por oito livros. Na filosofia aristotélica (Século V a.C) a Política é a ciência que tem por objeto a felicidade humana e divide-se em ética (que se preocupa com a felicidade individual do homem na pólis) e na política propriamente dita (que se preocupa com a felicidade coletiva da pólis). O objetivo de Aristóteles com sua Política é justamente investigar as formas de governo e as instituições capazes de assegurar uma vida feliz ao cidadão. Por isso mesmo, a política situa-se no âmbito das ciências práticas, ou seja, as ciências que buscam o conhecimento como meio para ação. Direito Constitucional Profº.Eduardo Hipólito do Rego 2 individuais. Esboça-se nelas, porém, a participação dos súditos no governo local, inserindo-se assim nesses forais um elemento propriamente político, estranho à maioria dos pactos. Pactos, Forais e Cartas de Franquia, freqüentes na Idade Média, firmaram a idéia de texto escrito destinado ao resguardo de direitos individuais, que a Constituição iria englobar a seu tempo. 4. Contratos de colonização Próximos ainda dos pactos, mas já bem próximos da idéia setecentista de Constituição, situam-se os contratos de colonização, típicos da História das colônias da América do Norte. Recém chegados na América, os peregrinos imbuídos de igualitarismo, não encontrando na nova terra um poder estabelecido, fixaram, por mútuo consenso, as regras por que haveriam de governar-se. Firma-se assim, pelos chefes de família à bordo do Mayflower o célebre “Compact” (1620); e desse modo se estabelecem as Fundamental Orders of Connecticut (1639), mais tarde confirmadas pelo Rei Carlos II que as incorporou à Carta outorgada em 1662. Transparece aí a idéia de estabelecimento e organização do governo pelos próprios governados, que é outro dos pilares da idéia de Constituição. 5. As leis fundamentais do reino A existência de leis fundamentais que se impõem ao próprio rei é uma criação dos legistas franceses, empenhados em defender a Coroa, contra as fraquezas do próprio monarca. Afirmava essa doutrina que, acima do soberano e fora do seu alcance, há regras que constituem um corpo específico, seja quanto à sua matéria (aquisição, exercício e transmissão do poder), seja quanto à sua autoridade (é superior às regras emanadas pelo Poder Legislativo ordinário, que são nulas se com elas conflitarem), seja quanto à sua estabilidade (imutáveis, ou apenas alteráveis pelos Estados Gerais). Embora não houvesse acordo relativamente à enumeração das regras que compunham esse corpo, a doutrina das leis fundamentais teve ampla divulgação e aceitação, tendo penetrado também na Inglaterra. Nessa doutrina, encontra-se indubitavelmente a fonte da superioridade e da imutabilidade das regras concernentes ao poder, que se empresta às Constituições escritas. 6. Doutrinas no pacto social Antecedente próximo da idéia de Constituição é a de Pacto ou Contrato Social. Na verdade, a idéia de Constituição foi por muitos associada à de renovação ou restabelecimento do pacto social. Na Idade Média floresceu a idéia de que a autoridade dos governantes se fundava num contrato com os súditos: o pactum subjectionis. Por esse pacto, o povo se sujeitava a obedecer ao príncipe enquanto este se comprometia a governar com justiça, ficando Deus como árbitro e fiel do cumprimento do contrato. Assim, violando o príncipe a obrigação de justiça, exoneravam-se os súditos da obediência devida, pela intervenção do Papa, representante da divindade sobre a Terra. No século XVII, Hobbes, no Leviatã, e Locke, no Tratado do Governo Civil, desenvolveram a concepção de que a própria sociedade se funda num pacto, num acordo Direito Constitucional Profº.Eduardo Hipólito do Rego 3 ainda que tácito entre os homens. A mesma idéia foi difundida por Rousseau, às vésperas da Revolução Francesa, no Contrato Social. Sem dúvida não coincidem seus ensinamentos quanto à razão determinante de tal pacto, ou quanto às suas cláusulas. Entretanto, dessas lições resulta sempre que o poder decorre da vontade dos homens e tem um estatuto fixado por estes. Estatuto que se impõe aos governantes e visa assegurar a paz (único objetivo para Hobbes) e os direitos naturais (objetivo principal para Locke e Rousseau). 7. O pensamento iluminista A idéia de Constituição ganhou força associada às concepções do Iluminismo, a ideologia revolucionária do século XVIII. Essa cosmovisão tem 5 idéias-força, que se exprimem pelas noções de Indivíduo, Razão, Natureza, Felicidade e Progresso. De fato, ela concebe o homem como indivíduo, ser individualizado com vida e direitos próprios, que não se confunde com a coletividade, nem se funde nesta. Esse indivíduo é eminentemente racional, determina sua vontade por uma razão que não aceita senão o que lhe pode ser demonstrado. Razão, portanto, que rejeita o preconceito, isto é, tudo aquilo que não pode ser explicado objetivamente. Tal indivíduo racional vive num mundo governado em última instância por uma natureza boa e previdente. Desta natureza resultam leis (naturais) que conduzemà melhor das situações possíveis, desde que não embaraçadas. Visam a felicidade, que é o objetivo do homem. Objetivo a ser realizado na Terra e não no Céu, como era o caso da salvação eterna, meta proposta para o homem pelo Cristianismo. Enfim, o otimismo quanto ao futuro, pois o homem, sua condição de vida, seus conhecimentos, sempre estão em aperfeiçoamento, em progresso. Esta cosmovisão é fonte do liberalismo político e econômico que triunfa com as Revoluções dos séculos XVIII e XIX. Neste último plano o liberalismo afirma a virtude da livre concorrência, da não-intervenção do Estado, enfim o laissez-faire, que enseja a expansão capitalista. No plano estritamente político, o liberalismo encarece os direitos naturais do homem, tolera o Estado como um mal necessário e exige, para prevenir eventuais abusos, a separação dos poderes que Montesquieu teorizou, de forma definitiva, no Espírito das Leis, uma de suas obras mais famosas. 8. Noção polêmica de Constituição Ao surgir, ligada que estava a esta doutrina liberal, a idéia de Constituição escrita tinha um caráter polêmico. Não designava qualquer organização fundamental, mas apenas a que desse ao Estado uma estrutura conforme aos princípios do liberalismo. Era pois, uma arma ideológica contra o Ancien Régime, contra o absolutismo, contra a confusão entre o Monarca e o Estado, contra uma organização acusada de ser irracional. Propunha substituir tudo isso por um governo moderado, incapaz de abusos, zeloso defensor das liberdades individuais. Esse conceito polêmico é que exprime, numa fórmula célebre, a Declaração de 1789: “Toda sociedade na qual não está assegurada a garantia dos direitos nem determinada a separação dos poderes, não tem Constituição” (art. 16). Ou, mais explicitamente, para o liberalismo, a Constituição é um documento escrito e solene que organiza o Estado, adotando necessariamente a separação dos poderes e visando a garantir os direitos do homem. Direito Constitucional Profº.Eduardo Hipólito do Rego 4 9. O Constitucionalismo Esse conceito polêmico é que alimenta o movimento político e jurídico, chamado constitucionalismo. Esse visa a estabelecer em toda parte regimes constitucionais, quer dizer, governos moderados, limitados em seus poderes, submetidos a Constituições escritas. Confunde-se, no plano político, com o liberalismo e, com este, sua marcha no século XIX e nas primeiras décadas do século XX de forma triunfal. Ou pela derrubada dos tronos, ou pela “outorga” dos monarcas. Um a um, todos os Estados europeus, salvo a Rússia, adotaram a Constituição. Nas Américas, o rompimento das sujeições coloniais impôs a adoção de Constituições escritas, em que, abandonando a organização histórica, a vontade dos libertadores pudesse fixar as regras básicas da existência independente. Sem dúvida, o constitucionalismo na América procede da mesma orientação que o Europeu. Aqui, porém, a Constituição escrita era exigência da própria independência, pois esta implicava o rompimento dos costumes e a destruição das instituições públicas tradicionais. Essa extensão fulminante do movimento constitucionalista a todo mundo civilizado não significou, porém, que em toda a parte o governo moderado, constitucional, tenha deitado raízes. Em muitos casos, o êxito do constitucionalismo não foi além das aparências, fornecendo roupagem brilhante para vestir uma realidade adversa. Na verdade, tem o regime constitucional seus pressupostos. Em primeiro lugar, só um poder firmemente estabelecido é que pode assumir a forma constitucional, de modo que este não pode vingar ou prosperar onde um poder central efetivo não operou a unificação nacional. Por outro lado, esse regime depende da existência de uma opinião pública ativa e informada e esta depende de um certo grau de lazer, instrução, riqueza, que só um determinado nível de desenvolvimento pode um Estado alcançar. De um modo geral, os povos mais ricos tendem a ser os mais livres e o enriquecimento geral propicia a reivindicação de liberdade maior. 10. A racionalização do poder A 1a. Guerra Mundial, embora não marque o fim do constitucionalismo, assinala uma profunda mudança em seu caráter. Por um lado, o pós-guerra, ao mesmo tempo que gerava novos Estados que, todos, adotaram Constituições escritas, o desassocia do liberalismo. Os partidos socialistas e cristãos, cujo peso se faz então acentuadamente sentir, impõem às novas Constituições uma preocupação com o econômico e com o social. Isso repercute especialmente nas declarações constitucionais de direitos que combinam, de modo às vezes indigesto, as franquias liberais e os chamados direitos econômicos e sociais. Por outro lado, a ciência jurídica impõe às novas Constituições o resultado de suas elucubrações de gabinete. Sutis mecanismos jurídicos vêm nos novos textos racionalizar o poder. Racionalização do poder, nome pelo qual essa tendência veio a ser conhecida, incorpora nas Constituições sutilezas de juristas, prolongando o constitucionalismo. A pretensão de enquadrar pela lei inteiramente a vida política, que se desvenda na racionalização, não passa de um exagero do desejo inerente ao constitucionalismo de fixar por meio de regras escritas os lineamentos fundamentais da existência jurídica. Direito Constitucional Profº.Eduardo Hipólito do Rego 5 11. Valor da racionalização Viu-se no desmoronamento de todas as democracias que seguiram o ideal da racionalização, ao elaborar suas Constituições na década de 1920, sinal de seu fracasso. Na verdade, Alemanha, Polônia e nos jovens Estados do Báltico (entre outros), a racionalização do poder não logrou manter de pé as Constituições e o governo democrático. Isso, porém, nada prova contra ela, se não talvez, que seus crentes presumiam demais suas forças. Em todos esses Estados faltavam as condições mínimas para que um poder democrático pudesse subsistir. Crise econômica, minorias raciais em conflito, agitação extremista, ausência de tradição liberal, etc, conspiravam contra a sobrevivência de suas Constituições democráticas. Ora, não é possível suprir por regras jurídicas a ausência do substrato econômico e social próprio a cada regime. A racionalização tentou obviar essa lacuna, mas, empenhando-se em tarefa impossível, não podia ter êxito, como não teve. Todavia, essa tendência não morreu. Estando na linha de desenvolvimento do constitucionalismo, ressurgiu no pós-guerra, impondo suas soluções às Constituições elaboradas a partir de então. Diminuída a confiança em suas virtudes, nem por isso os constituintes desistiram do intento de racionalizar ao máximo as leis fundamentais.