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Disciplina: Teoria da Literatura II Coordenadora: Profª Diana Klinger GABARITO - AP1 – 2019/1 1- Desenvolva qual a relação que se pode estabelecer entre a poesia provençal (da Idade Média) e a canção contemporânea. Argumente com base nos textos lidos, nas video-aulas e nas atividades propostas na sala de aula. Na sua resposta, explique quais eram as características da poesia na Idade Média, se elas se mantiveram ao longo do tempo ou a poesia mudou na modernidade e como a canção se relaciona com essa história da poesia. Zumthor estuda a poesia na Idade Média, a poesia provençal dos trovadores, que era cantada e acompanhada por instrumentos musicais, assim como pelos gestos do poeta/cantor e do público. Esse evento artístico de apresentação pública, ele denomina “performance”, e considera que a performance é o “principal fator constitutivo e determinante” da poesia oral, porque implica, sobretudo, a presença do corpo no ato da comunicação poética. É no corpo que se experimenta toda a intenção do discurso, que traz a força teatralizante da linguagem. Trata-se de um momento integrado à recepção em que tal comunicação acontece pela presença corporal tanto do artista quanto do ouvinte, em que a voz do corpo suplementa a linguagem verbal transmitindo a mensagem poética num aqui e agora sempre vivo e único. O texto é, dessa forma, sempre renovado, pois muda em cada apresentação. O autor entende que essa poesia abrange variadas manifestações vivenciadas em diferentes lugares do mundo, bem como em diferentes momentos da história, em que a voz aparece como matéria-prima. Assim, trata-se de uma transmissão da cultura vinculada à oralidade, trazida pela voz e pela memória. A oralidade, nesse aspecto, vai muito além da materialidade da voz, é todo gesto, olhar e toda expansão do corpo no processo de expressão poética e de sua transmissão para o outro. Desse modo, ela integra a performance com todos os aspectos das percepções sensitivas que demandam o movimento do corpo, em determinado lugar. Nesse sentido, Zumthor destaca-a como um modo de expressão que não representa propriamente analfabetismo ou folclore no sentido pejorativo nem lacuna histórica. Há uma dimensão poética tal instaurada na oralidade e muito própria das vivências humanas que a sua presença pode ainda ser vista em nossas manifestações culturais da atualidade, como na MBP, por exemplo. De certa forma, a canção contemporânea mantém a tradição dos trovadores quando estabelece um vínculo com o fazer poético bem cuidado nas letras de música. Assim, a poesia provençal está recuperada na canção, uma vez que se pode relacionar a performance executada na Idade Média com muitas de nossas canções populares e com as apresentações performáticas desses cantores. Temos o exemplo do músico pernambucano Lenine que se definiu, em entrevista, como um “cantautor”, expressão advinda da língua espanhola, e que condiz muito bem com a relação entre poesia e música, com a lida do cantor que compõe suas próprias canções acompanhado de instrumento musical. Da mesma forma que os temas triviais do cotidiano e das relações amorosas continuam sendo muito explorados ainda hoje. Inclusive quando se trata de releituras de cantigas de amigo, cujo eu lírico feminino instaura uma perspectiva muito particular da cosmovisão feminina sobre uma experiência de vida, como faz Chico Buarque e outros. E não é à toa que muitos desses cantores-compositores traduzem seu trabalho como a de um poeta trovador, porque não desvinculam poesia da canção nem tampouco dispensam os elementos que o acompanham nessa empreitada, quer dizer, a própria composição exige o movimento poético entre o gestual e a voz, entre o verso e o ritmo, entre o verso e os acordes do violão. Da Idade Média para cá, no entanto, e com as transformações sociais na modernidade, a poesia desvinculou-se da música e, dessa separação, – promovida pela revalorização da importância da escrita na sociedade e com o advento da imprensa, – passou a ficar restrita ao formato do texto escrito. No entanto, com o estudo da performance trazido por Zumthor, amplia-se o campo da literatura e desmistifica-se a concepção de que ela é produto de uma cultura mediada exclusivamente pela escrita, ao mesmo tempo que abre- se espaço para outras referências de literatura instauradas em outros meios e modos de transmissão durante todo o processo histórico. 2- Destaque, na leitura do texto de José Veríssimo sobre obra de Machado de Assis, a importância dada a aspectos biográficos e o caráter impressionista de interpretação das obras, sobretudo da poesia. José Veríssimo apresenta Machado de Assis como um gênio – preceito artístico do Romantismo, do qual o escritor foi contemporâneo – que, saído da extrema pobreza e, portanto, vivendo em condições das menos favoráveis para o desenvolvimento literário, constitui uma figura original no panorama da literatura brasileira. Para isso, o crítico utiliza amplamente o princípio biográfico a fim de reconstruir as qualidades e o modo de viver daquele que seria aclamado um “escritor à parte” e mostra, entre outros atributos, por exemplo, o recato e a discrição com que Machado resguarda todo e qualquer vestígio de intimidade que pudesse vir a uma exposição pública para dar a ver exclusivamente o fulgor de suas publicações. Nessa perspectiva biográfico-psicológica, Veríssimo declara sobre o autor que “a sua biografia eram os livros, a sua arte era a sua prosápia”, conduzindo toda a atenção para um trabalho de poesia e prosa particularmente genial, com ressalvas aos textos produzidos para o teatro. Isto é, tal crítico vai produzindo por essa via a imagem de um escritor, cuja vocação literária dá-se primorosamente pela aplicação de engenho e arte. Veríssimo faz uso da vida simples e precária de Machado como meio para justificar a marcha ascendente do grande escritor, avesso a modas literárias, detentor de uma originalidade capaz, inclusive, de apontar em sua escrita poética para uma tendência à frente do seu tempo. Assim, quando esse crítico identifica, ainda no trabalho inicial do poeta em meio aos últimos suspiros do movimento romântico, “o lirismo sem exageros e a polidez do requinte de cada verso, sem individualismo”, ele nos remete ao Parnasianismo. É nítida a aproximação entre vida e obra construída por Veríssimo à medida em que dá à obra machadiana todos os méritos de uma vida cheia de elevação moral, modéstia e timidez, de um lado, e de consciência literária, estudo das línguas e leitura voraz da tradição, de outro. Em muitos momentos o que o crítico nos oferece é a genealogia de um gênio, como em “Modesto por índole e por civilidade, tímido de temperamento, modéstia e timidez que encobriam grande energia moral e íntima consciência de sua capacidade, Machado de Assis, estranho a toda a petulância da juventude, estuda, observa, medita, lê e relê os clássicos da língua e as obras-primas das principais literaturas.” (175, pdf). Nota-se que não há uma análise do que o próprio texto oferece, mas uma enxurrada de detalhes advinda da mais pura experiência de leitura da obra como o reflexo da vida do autor. Dos versos de Machado, Veríssimo derrama suas impressões: “Trazem certamente o cunho do tempo, porém com tal medida e acerto que, no seu encantador lirismo, muito nosso, nos são contemporâneos. É dos poucos de então que não envelheceram, isto é, que não precisam que nos ponhamos no diapasão do seu tempo para os sentirmos e estimarmos”. (p. 173, pdf). Nessa perspectiva, fica evidente na análise o caráter impressionista com que esse crítico define a poesiamachadiana, ao mesmo tempo que o afasta da vertente romântica ao intuir o “tom melancolicamente sentimental e de religiosidade romântica” sem, no entanto, cair no “comum excesso de sentimentalismo” nem no “exagero de idealismo” vistos marcadamente nos poetas desse movimento. E continua a mostrar através do “apuro na forma com os versos alexandrinos e na depuração de ritmo e rimas para elevar a polidez da língua” uma relação intrínseca com esta última. No que tange à temática, chama a atenção para uma preocupação do autor com a alma humana, de sua busca por retratar a essência das coisas e dos homens, seja em poesia, em contos de que foi precursor ou nos romances, em especial, nos de tendência realista. De visão pessimista e com forte pendor para o humor, o qual foi lição aprendida a partir de sua leitura do inglês, Machado de Assis, na prosa, é condecorado como o mais nacional dos romancistas pelos romances de costumes produzidos.