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GABARITO AP1 TEORIA DA LITERATURA II 2019 2

Gabarito AP1 (2019/2) de Teoria da Literatura II — Licenciatura em Letras (UFF/CEDERJ). Compara a poesia oral medieval segundo Paul Zumthor com a poesia contemporânea, discutindo performance, oralidade versus escrita e exemplos como Lenine, Chico Buarque, cordel, saraus e mídias digitais.

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Fundação Centro de Ciências e Educação a Distância do Estado do Rio de 
Janeiro 
Centro de Educação Superior a Distância do Estado do Rio de Janeiro 
Universidade Federal Fluminense 
Curso de Licenciatura em Letras- UFF / CEDERJ 
 
 
Disciplina: Teoria da Literatura II 
Coordenadora: Profª Diana Klinger 
 
GABARITO AP1 - 2019/2 
 
 
1- Compare a ideia de poesia oral medieval (de acordo com Paul Zumpthor) e a ideia de 
poesia na contemporaneidade. 
 A poesia na Idade Média, a poesia provençal dos trovadores, era cantada e 
acompanhada por instrumentos musicais e pelos gestos do poeta/cantor junto do 
público. Esse evento artístico de apresentação pública, denominada por Zumthor de 
“performance”, foi considerada por ele o “principal fator constitutivo e determinante” 
dessa poesia, porque implica, sobretudo, a presença do corpo no ato da comunicação 
poética. Essa análise valoriza o corpo como elemento por onde se experimenta toda a 
intenção do discurso trazendo a força teatralizante da linguagem. Trata-se de um 
momento integrado à recepção em que tal comunicação acontece pela presença corporal 
tanto do artista quanto do ouvinte, em que a voz do corpo suplementa a linguagem 
verbal transmitindo a mensagem poética num aqui e agora sempre vivo e único. A 
oralidade desse momento histórico vai produzir um tipo de manifestação inédita, já que 
o texto pode sofrer renovação em cada apresentação. 
 O autor entende que essa poesia abrange variadas manifestações vivenciadas em 
diferentes lugares do mundo, bem como em diferentes momentos da história, em que a 
voz aparece como matéria-prima. Assim, diz respeito a uma transmissão da cultura 
vinculada à oralidade, trazida pela voz e pela memória. A oralidade, nesse aspecto, vai 
muito além da materialidade da voz, é todo gesto, olhar e toda expansão do corpo no 
processo de expressão poética e de sua transmissão para o outro. Desse modo, ela 
integra a performance com todos os aspectos das percepções sensitivas que demandam 
o movimento do corpo, em determinado lugar. 
 Nesse sentido, Zumthor destaca-a como um modo de expressão que não representa 
propriamente analfabetismo ou folclore no sentido pejorativo nem lacuna histórica. Há 
uma dimensão poética tal instaurada na oralidade e muito própria das vivências 
humanas que a sua presença pode ainda ser vista em nossas manifestações culturais da 
atualidade, como na MBP, por exemplo. De certa forma, a canção contemporânea 
mantém a tradição dos trovadores quando estabelece um vínculo com o fazer poético 
bem cuidado nas letras de música. Assim, a poesia provençal está recuperada na canção, 
uma vez que se pode relacionar a performance executada na Idade Média com muitas 
de nossas canções populares e com as apresentações performáticas desses cantores. 
Temos o exemplo do músico pernambucano Lenine que se definiu, em entrevista, como 
um “cantautor”, expressão advinda da língua espanhola, e que condiz muito bem com a 
relação entre poesia e música, com a lida do cantor que compõe suas próprias canções, 
acompanhado de instrumento musical. Da mesma forma que os temas triviais do 
cotidiano e das relações amorosas continuam sendo muito explorados ainda hoje. 
Inclusive quando se trata de releituras de cantigas de amigo, cujo eu lírico feminino 
instaura uma perspectiva muito particular da cosmovisão feminina sobre uma 
experiência de vida, como faz Chico Buarque, entre outros letristas. E não é à toa que 
muitos desses cantores-compositores traduzem seu trabalho como a de um poeta 
trovador, porque não desvinculam poesia da canção nem tampouco dispensam os 
elementos que o acompanham nessa empreitada, quer dizer, a própria composição exige 
o movimento poético entre o gestual e a voz, entre o verso e o ritmo, entre o verso e os 
acordes do violão. 
 No entanto, com as transformações sociais na modernidade, a poesia desvinculou-se 
da música e, dessa separação, – promovida pela revalorização da importância da escrita 
na sociedade e com o advento da imprensa, – passou a ficar restrita ao formato do texto 
escrito. O estudo da performance trazido por Zumthor, de certa forma, ampliou o campo 
da literatura desmistificando a concepção de que ela é produto de uma cultura mediada 
exclusivamente pela escrita. No cenario atual, é importante destacar a poesia que 
acontece nos saraus, a dos repentistas e a tradição do cordel. Porém, a poesia na 
contemporaneidade continua quase que exclusivamente vinculada a suportes da escrita, 
seja por meio de livros ou outro tipo de mídia como os virtuais em que ela ganha uma 
configuração nova em sites e plataformas digitais. O fato é que houve, no decorrer dos 
séculos, mudança no próprio conceito de poesia que a fundiu de vez ao registro escrito e 
acabou a afastando de sua ligação com a oralidade de que trata Paul Zumthor. 
 
2- Em que sentido o romantismo cooperou para um conceito moderno de literatura, 
afastando-se da poética clássica? 
 Os pensadores românticos do idealismo alemão promovem a aproximação entre 
filosofia e poesia, saber e arte, razão e sensibilidade, intuição e reflexão. Influenciados 
pelo desenvolvimento da crítica kantiana, empreendem o exercício de pensar 
filosoficamente as obras literárias e propõem a mistura de instâncias que até então eram 
entendidas separadamente: “a poesia transcendental é uma mistura de filosofia e 
poesia”. 
 Dessa forma, o Romantismo alemão inaugura uma concepção de literatura 
completamente moderna pelo que apresenta: a criação de uma arte fragmentária que 
funde todos os gêneros (poesia transgenérica) e, por conseguinte, acaba transcendendo 
filosofia e poesia em função do exercício de crítica. Nessa perspectiva, as reflexões 
estéticas e o trabalho filosófico dos românticos não são atividades dissociadas, mas sim 
atividades produzidas em conjunto. 
 Os poetas românticos rompem com as rígidas separações de gêneros, 
correspondentes às hierarquias sociais das poéticas clássicas que vigoraram como 
“modelo-imitação” até o início da modernidade. Lembremos que Aristoteles descreve a 
poesia a partir de uma rígida separação entre comédia, tragédia e epopeia, sendo que os 
dois últimos são gêneros sérios, protagonizado pelos grandes heróis da sociedade grega. 
É nessa ruptura com os ideais clássicos que o movimento romântico vai produzir um 
certo grau de liberdade de criação no qual cada artista é capaz de criar suas próprias 
regras, traçar seu estilo e seu estar no mundo. As inovações do movimento romântico 
trazem mudanças históricas no conceito de literatura, promovidas pelo surgimento de 
novos gêneros a partir da mistura, como o romance, em que se destaca o indivíduo 
solitário e comum como protagonista, e o drama, com mistura do trágico e o cômico. 
Como consequência disso, surge uma variedade de escrita literária que acompanha o 
espírito de sua época revelando a liberdade criadora do sujeito que busca na diversidade 
de ritmos, versos e sons o seu próprio estilo. 
 Em se tratando da concepção de Schlegel, em específico, a poesia universal 
progressiva visa “reunificar todos os gêneros separados da poesia e pôr a poesia em 
contato com filosofia e retórica” (frag. 116), mas também fundir situações e formas de 
existir das mais variadas sem, no entanto, ser “esgotada por nenhuma teoria”. Além 
disso, “quer e também deve ora mesclar, ora fundir poesia e prosa, genialidade e crítica, 
poesia-de-arte e poesia-de-natureza, tornar viva e sociável a poesia, e poéticas a vida e a 
sociedade, poetizar o chiste, preencher e saturar as formas da arte com toda espécie de 
sólida matéria para cultivo, e as animar pelas pulsações do humor.” (frag. 116). A 
diversidade de possibilidades apontada neste fragmento reflete uma proposta 
revolucionária muito alinhada com as transformações sociais vividas e, por isso, capaz 
de produzir uma concepção de literatura totalmente em contato comas questões de sua 
época. Essa tendência propiciou uma abertura da literatura a vivências distintas como a 
filosofia e o imediato do cotidiano, por exemplo. 
 Diante disso, vale dizer que a ruptura promovida pelo Romantismo trouxe grandes 
influências para o fenômeno literário, as quais são vistas até hoje. A começar pela 
liberdade de criação de que cada escritor/poeta faz uso para ressignificar suas próprias 
regras, misturando gêneros literários e não literários sem estar vinculado 
obrigatoriamente a nenhum padrão estético. Da poesia transgenérica à relação com a 
filosofia, nota-se que a literatura agregou outras formas de expressão em seu campo. 
Vemos tendências literárias que preconizam o hibridismo, isto é, a mistura de elementos 
distintos na composição das obras, tais como realidade, ficção, jornalismo, literatura, 
documentário, entre tantos outros entrecruzamentos.

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