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444 Mauricio Godinho Delgado este designado” (§ 3º do art. 11-A). Agregou ademais que a “fiscalização deverá ter natureza prioritariamente orientadora” (§ 1º do art. 11-A). Estipulou também o § 2º do mesmo art. 11-A da Lei n. 10.593/2002, em sua atual redação, que será “observado o critério da dupla visita para lavratura de auto de infração”. Contudo tal critério deixará de ser observado “quando for constatada infração por falta de anotação na Carteira de Trabalho e Previdência Social ou, ainda, na ocorrência de reincidência, fraude, resistência ou embaraço à fiscalização” (art. 11-A, § 2º). V. EMPREGADO RURAL A situação do trabalhador rural no Direito do Trabalho brasileiro conhece duas grandes fases, distintas sob qualquer ponto de vista: antes e após o Estatuto do Trabalhador Rural, diploma oriundo do ano de 1963. 1. Evolução Jurídica O campo não foi incluído no processo de organização do mercado de trabalho e do próprio modelo justrabalhista inaugurado, no País, entre 1930 e 1945. O tipo de pacto político que respondia pelo novo bloco de poder instituído com a chamada Revolução de 30 assegurou, pelo menos durante uma longa fase (que remonta à abolição da escravatura, estendendo-se ao início da década de 1960), a permanência do império quase absoluto do poder rural na regência das relações de trabalho pactuadas no setor agrário brasileiro. No início dos anos 1960, com o Estatuto do Trabalhador Rural (1963), inaugurou-se efetiva nova fase, caracterizada por mais extensa regulação legal das relações laborativas no campo do País. A) Fase de Restrição de Direitos — A exclusão dos rurícolas das normas heterônomas do Direito Individual do Trabalho ocorreu por meio do art. 7º, “b”, da CLT (“Os preceitos constantes da presente Consolidação, salvo quando for, em cada caso, expressamente determinado em contrário, não se aplicam (...) aos trabalhadores rurais” — grifos acrescidos). A mesma CLT estendia somente alguns poucos dispositivos aos empregados rurais, como os preceitos referentes a salário mínimo, férias, aviso-prévio e remuneração. Curiosamente, no conservadorismo da época, nem mesmo a Constituição de 1946 conseguia alargar os direitos dos rurícolas. Embora seu art. 157, XII, garantisse a estabilidade “na empresa e na exploração rural”, prevaleceu por longo tempo a tese de não ser o dispositivo autoaplicável, até pelo menos, basicamente, o advento do Estatuto do Trabalhador Rural, em 1963.(49) (49) A respeito, CATHARINO, José Martins. Compêndio de Direito do Trabalho. V. 2. São Paulo: Saraiva, 1982, p. 216. Também, SÜSSEKIND, Arnaldo et alii. Instituições de Direito do 445Curso de Direito do Trabalho Nesse quadro, a restrição de preceitos legais aplicáveis aos ruríco- las, associada a uma sistemática omissão administrativa do Ministério do Trabalho no tocante às relações sociojurídicas do campo, a par da então modestíssima estrutura do ramo judicial especializado na aplicação das leis trabalhistas (a Justiça do Trabalho) — sem falar na ausência das funções do Ministério Público do Trabalho como órgão agente, que passaram a existir apenas com a Constituição de 1988 —, em suma, tudo contribuía para man- ter a zona rural como verdadeiro limbo justrabalhista no contexto do mercado de trabalho do País. B) Fase de Aproximação de Situações Jurídicas — Décadas após, no início dos anos de 1960, é que se passou a conferir extensão efetiva da legislação trabalhista heterônoma ao campo (Estatuto do Trabalhador Rural — ETR —, implantado pela Lei n. 4.214, diploma que entrou em vigor em 2.6.1963). Curiosamente, além de estender parte importante da legislação traba- lhista ao campo, com certas adequações, a Lei n. 4.214, de 1963, ainda criou vantagem jurídica exponencial para os rurícolas: a imprescritibilidade de suas pretensões durante o período de vigência do respectivo contrato de trabalho. Posteriormente, a Lei n. 5.889/73 passaria a reger as relações empregatícias rurais, também em patamar de grande aproximação com o estuário de direitos inerentes ao empregado urbano, resguardadas adequações e peculiaridades tópicas. Por fim, a Constituição de 1988 veio fixar, em seu art. 7º, caput, uma quase plena paridade jurídica entre os dois segmentos empregatícios do país (São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social...). C) Fase Contemporânea: acentuação da igualdade — A fase contem- porânea vivenciada pelos empregados rurais é de plena aproximação jurídica com os empregados urbanos. Resguardam-se, contudo, algumas poucas es- pecificidades normativas tópicas em torno dessa categoria especial de obreiros. Os aspectos especiais à normatização do trabalho rural estão aventados, ilustrativamente, pela Lei n. 5.889/73. Trata-se, por exemplo, de parâmetros ligeiramente distintos de trabalho noturno, respeitada a sobrerremuneração constitucional mais elevada (art. 7º, Lei n. 5.889/73; art. 7º, IX, CF/88). Ou, ainda, certa flexibilidade na duração do intervalo intrajornada, observados os usos e costumes da região (art. 5º, Lei n. 5.889/73). Tais pequenas particularidades preservam-se na ordem jurídica, dado que a Constituição revogou tacitamente apenas os preceitos infraconstitucionais que lhe fossem (fenômeno da não recepção) antagônicos.(50) Trabalho. V. I, 8. ed., Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1981, p. 594-95. Sobre essa interpretação por inércia, muito comum ao constitucionalismo anterior a 1988, consultar, neste Curso, em seu Capítulo VII, o tópico II.4, intitulado “Disfunções no Processo Interpretativo”. (50) Mesmo com respeito aos intervalos mínimos na área rural, a jurisprudência tem acentuado o processo de aproximação de esferas jurídicas, já que, muitas vezes, tem considerado 446 Mauricio Godinho Delgado A diferenciação mais substantiva que se manteve, após 1988, foi concer- nente à prescrição (imprescritibilidade de parcelas durante o período contratual rurícola). Nesse caso, porém, tratava-se de diferenciação claramente favorável — e não discriminatória — aos trabalhadores do campo. Tal diferenciação favo- rável desapareceu em maio de 2000, com a Emenda Constitucional n. 28, que unificou os prazos urbanos e rurais de prescrição. Antes da EC 28, a Constituição, de fato, estabelecia, no caso do rurícola, prazo prescricional de até dois anos após a extinção do contrato (alínea “b” do art. 7º, XXIX, CF/88), sem fluência de prescrição no curso do contrato de trabalho. A regra já estava contida na Lei do Trabalho Rural (art. 10, Lei n. 5.889/73), que importou o critério do antigo Estatuto do Trabalhador Rural (Lei n. 4.214/63). Isso significava que, enquanto a prescrição urbana estendia-se a um período máximo de cinco anos dentro do contrato, a prescrição rural não corria no desenvolver do contrato de trabalho. Mas atenção: a regra da imprescritibilidade rurícola nunca foi absoluta: ela estendia-se apenas à fronteira temporal máxima do dia 2 de junho de 1961 (2.6.61), isto é, dois anos antes da imprescritibilidade instituída pela Lei n. 4.214/63. É que no período anterior ao antigo Estatuto do Trabalhador Rural vigorava o velho preceito celetista regente do critério prescricional, fixando em dois anos o prazo de prescrição de qualquer parcela pleiteada com suporte em suas regras (antigo art. 11, CLT). À medida que a prescrição é instituto de Direito material e, assim, não produz efeito retroativo (conclusão assentada na jurisprudência — ver, a propósito, Súmula 308, de 1992, do TST), o critério da imprescritibilidade não poderia, sem dúvida, retroagir anteriormente aos dois anos que precederam o início de vigência da Lei n. 4.214/63. Unificação do Prazo Prescricional — A Emenda Constitucional 28, como visto, unificou os prazos prescricionais dos segmentos campestres e urbanos de trabalhadores,extinguindo a vantagem comparativa rurícula. O prazo prescricional uniforme é o mesmo estabelecido para os trabalhadores da cidade já em 1988: cinco anos, até o limite de dois anos após a extinção do contrato. Há corrente interpretativa que tem sustentado o efeito retroativo da nova regra constitucional. Para ela, estariam prescritas parcelas anteriores a cinco anos da propositura da ação, ainda que o contrato rural tenha mais de 10 ou 15 anos de duração ininterrupta antes da Emenda Constitucional unificadora. Isso significa que a nova regra prescricional extinguiria a exigibilidade de par- celas já protegidas pela imprescritibilidade na data de vigência da EC n. 28 aplicável ao campo o intervalo mínimo de 1 (uma) hora, em jornadas superiores a seis horas diárias, ao fundamento de se tratar de regra de saúde laborativa, reservando aos usos e costumes da região a fixação do intervalo máximo intrajornada rural. A respeito, ver ex-OJ 381, SDI-I/TST e Súmula 437, I, TST; também consultar, nesta linha, art. 5º do Decreto n. 73.626, de 1974, que aprovou o Regulamento da Lei n. 5.889/73. 447Curso de Direito do Trabalho (29.5.2000); portanto, parcelas que já se haviam consolidado como imprescri- tíveis muitos anos antes da entrada em vigor da nova regra constitucional.(51) A segunda vertente de interpretação respeita o efeito meramente ime- diato da nova regra da Constituição e as situações jurídicas plenamente consolidadas antes de 29 de maio de 2000. É que no Brasil, por determinação da própria Constituição (art. 5º, XXXVI, CF/88), a norma jurídica somente pode ter efeitos imediatos, não retroativos, regendo apenas situações fático-jurí- dicas vivenciadas a partir de sua vigência. A retroatividade é admitida, como rara exceção, exclusivamente para as próprias regras constitucionais, desde que elas assim determinem (o que não aconteceu com a EC n. 28/2000). Nessa linha, os contratos rurais, no que diz respeito à prescrição, estavam regulados até 29.5.2000 pelo critério da imprescritibilidade. Somente os períodos contratuais subsequentes à referida data (ou iniciados em seguida a ela ou, pelo menos, desde 29.5.1995) é que, de fato, submetem-se ao império da regra nova quinquenal. Conforme já se expôs nesta obra, o parâmetro da irretroação de efeitos de regra prescricional já prevaleceu, no País, na década de 1960, quando se iniciou a imprescritibilidade rurícola. Naquela época, as parcelas anteriores a 2.6.1961 (dois anos antes da vigência do velho Estatuto do Trabalhador Rural) encontravam-se, sim, prescritas, porque regidas pelo antigo art. 11 da CLT (que falava em prazo prescricional de dois anos). Da mesma maneira, o novo prazo de 5 anos, criado em 5.10.1988 pela nova Constituição, para os contratos urbanos, não retroagiu ao período precedente a 5.10.1986, por respeito ao efeito meramente imediato da regra nova e ao direito adquirido do titular anteriormente favorecido pela vigência do critério antigo (Súmula 308, II, TST). Não há razão técnico-jurídica para, neste contexto (EC n. 28/2000), seguir-se orientação distinta. Hoje pode-se afirmar que a jurisprudência, sopesando a gravidade da mudança reformadora do art. 7º, XXIX, da Constituição pela EC n. 28 — publicada, em retificação, em 29.5.2000 (a primeira publicação, depois corrigida, foi em 26.05) —, decidiu sufragar a interpretação mais benéfica a respeito da alteração magna, seguindo a dimensão interpretativa do princípio da norma mais favorável inserido no próprio caput do art. 7º da Constituição. Nessa linha, tem considerado que o prazo quinquenal estabelecido em 2000 também para as relações trabalhistas rurais somente se aplica depois de passados cinco anos de vigência da mudança normativa, isto é, depois de 29.5.2005, data em que se esgotaram todos os efeitos possíveis da regra (51) A EC n. 28, promulgada em 25.5.2000, foi publicada no Diário Oficial da União, originalmente, em 26.5.2000; contudo foi retificada, com nova publicação, em 29.5.2000. Em decorrência dessa dualidade de datas, há decisões judiciais que fixam o marco de vigência da EC n. 28 em 26 de maio, ao lado de outras que preferem a data de 29 de maio de 2000. No presente Curso, de maneira geral, será utilizada a data de 29.5.2000. 448 Mauricio Godinho Delgado constitucional mais benéfica anterior. Nesta vertente, por exemplo, o acórdão relatado pela Ministra Rosa Maria Weber, então no TST: RECURSO DE REVISTA. TRABALHADOR RURAL. PRESCRIÇÃO QUIN- QUENAL. EMENDA CONSTITUCIONAL N. 28/2000. Esta Corte firmou entendimento no sentido de que a prescrição quinquenal, prevista na EC 28/00 para os trabalhadores rurais, se aplica às ações ajuizadas cinco anos após sua vigência, ou seja, após 29.5.2005. Proposta a reclamatória em 12.2.2008, apli- cável a prescrição quinquenal. Processo: RR-23800-53.2008.5.15.0125. Data do Julgamento: 28.9.2011. Relatora: Ministra Rosa Maria Weber, 3ª Turma. Data de Publicação: DEJT 7.10.2011.(52) 2. Caracterização do Empregado Rural A caracterização do empregado rural tem ensejado certa controvérsia no Direito do País. Não há dúvida de que em sua composição essa figura sociojurídica apresenta os mesmos elementos fático-jurídicos integrantes da relação de emprego, isto é, pessoa física, pessoalidade, não eventualidade, onerosidade e subordinação. Contudo, os elementos diferenciadores do rurícola perante o obreiro urbano — ou seja, os elementos fático-jurídicos especiais do empregado rural — é que têm sido algo controvertidos. Tal dúvida surge notadamente em face do contraponto entre o texto celetista definidor de empregado rural (art. 7º, “b”, CLT) e o texto da Lei de Trabalho Rural (art. 2º, Lei n. 5.889/73): é que não se ajustam, inteiramente, os critérios seguidos pelos dois diplomas legais. A) Antigo Critério Celetista — A CLT formulou critério de caracterização do rurícola fundado no método de trabalho observado pelo obreiro no desenrolar da prestação laborativa, ou na finalidade das atividades em que estivesse envolvido. Sendo rurícolas tais métodos ou fins, rurícola seria o trabalhador. De fato, para a Consolidação seriam trabalhadores rurais: “... aqueles que, exercendo funções diretamente ligadas à agricultura e à pecuária, não sejam empregados em atividades que, pelos métodos de execução dos respectivos trabalhos ou pela finalidade de suas operações, se classifiquem como industriais ou comerciais” (art. 7º, “b”, CLT; grifos acrescidos). O critério celetista de diferenciação, baseado nos métodos e fins da atividade laboral e operativa, sempre mereceu acerbadas críticas. De um lado, por não se harmonizar — sem justificativa e necessidade consistentes — ao critério dominante no Direito do País de enquadramento de qualquer empregado. (52) Na mesma direção está a OJ 417 da SDI-I do TST. 449Curso de Direito do Trabalho É que, como se sabe, a sistemática básica de determinação de categorias profissionais no Brasil funda-se no segmento de atividade do empregador (por exemplo, segmento bancário, metalúrgico, comercial, etc.); ela não se baseia, em princípio, no método de labor ou nos fins da atividade laborativa. O outro polo da crítica censurava a CLT por permitir excessiva dife- renciação entre trabalhadores vinculados a um mesmo empregador, criando problemas práticos de difícil solução. Assim, o mesmo empregador rural po- deria ter sob sua regência, em tese, simultaneamente, empregados rurais e urbanos, em face da diferenciação de métodos de trabalho e de fins da atividade laboral e operativa envolvidos em seu empreendimento. B) Critério da Lei n. 5.889/1973 — O critério de identificação do trabalhador rural brasileiro hoje vigorante é distinto do tradicional oriundo da CLT. Lançado pelo antigo ETR (Lei n. 4.214/63 — art. 2º) e também insculpido na Lei de Trabalho Rural (n. 5.889/73 — art.2º), o critério hoje prevalecente busca se ajustar ao modelo geral de enquadramento obreiro clássico ao Direito do Trabalho do País: o segmento de atividade do empregador. A partir desse critério, rurícola será o empregado vinculado a um empregador rural. O que importa à sua classificação como rurícola ou urbano é o próprio posicionamento de seu empregador: sendo rural este, rurícola será considerado o obreiro, independentemente de seus métodos de trabalho e dos fins da atividade em que se envolve. Noutras palavras: o enquadramento rural (ou não) do obreiro perfila-se, como regra geral, pelo enquadramento de seu empregador, conforme esta- belecido pela Lei n. 4.214/63 e também pela Lei n. 5.889/73 (revogando, nes- te aspecto, tacitamente, o antigo critério metodológico do art. 7º, “b”, CLT). Desse modo, sendo rural a empresa, rurícolas serão seus empregados que laborem no campo, ainda que não exercendo atividades tipicamente rurais; não sendo rurícola a empresa, também não serão tidos como trabalhadores do campo seus empregados.(53) A jurisprudência tem estabelecido uma exceção em vista desse critério geral: é a que envolve empresas de florestamento e reflorestamento. Embora tais entidades sejam enquadradas, jurídica e administrativamente, como em- presas urbanas, serão tidos como rurícolas seus empregados que exerçam, no campo, atividades efetivamente rurais. Nesta linha, a OJ n. 38, SDI-I/TST(54). A ordem jurídica fixa um segundo critério relevante, a ser aferido com- binadamente ao primeiro já exposto (enquadramento do empregado em (53) Para examinar o enquadramento do empregador como rural ou como urbano, consultar, a seguir, neste item V, o subitem “3. Caracterização do Empregador Rural”. (54) Na verdade, o enquadramento administrativo das fazendas de florestamento e refloresta- mento como empresas industriais (e não rurícolas) é que desponta como sumamente artificial. Daí a correção feita pela interpretação da OJ n. 38. 450 Mauricio Godinho Delgado conformidade com o enquadramento do empregador): trata-se do local de prestação laborativa. É o que dispõe a Lei de Trabalho Rural, quando se re- fere a labor em imóvel rural ou prédio rústico (art. 2º, caput, Lei n. 5.889/73). Este debate será retomado logo a seguir. C) Elementos Fático-jurídicos Especiais — Nesse quadro normativo dominante, trabalhador rural é a pessoa física que presta serviços a tomador rural, realizando tais serviços em imóvel rural ou prédio rústico. Por sua vez, empregado rural será a pessoa física que acrescenta a esse dois elementos fático-jurídicos especiais os demais característicos a qualquer relação de emprego. Insista-se: são dois os elementos fático-jurídicos especiais da categoria agropastoril: o primeiro, consistente na vinculação a um tomador de serviços de caráter rural; o segundo, consistente na circunstância de o trabalho ser prestado em imóvel rural ou prédio rústico. A esses dois elementos rurícolas especiais somam-se os elementos fático-jurídicos gerais de qualquer relação de emprego, para formar a figura do empregado rural. a) Enquadramento Rurícola do Empregador — Não importa, pois, o tipo de trabalho prestado pelo obreiro e muito menos os métodos e fins de seu trabalho (como queria o antigo texto do art. 7º, “b”, da CLT). O que importa são as circunstâncias de o trabalhador vincular-se a um empregador rural (uma fazenda de café, por exemplo), laborando no respectivo espaço rural (ou em prédio rústico). Desse modo, o administrador da fazenda, o datilógrafo ou o almoxarife ali existentes, todos esses trabalhadores serão considerados rurícolas, pois vinculados a um empregador rural, trabalhando na respectiva fazenda (embora o método de seu labor não seja exatamente agropastoril). Excetuadas as categorias diferenciadas, os demais trabalhadores sujeitam-se, em princípio, a esse critério geral de fixação de seu posicionamento no quadro das categorias profissionais(55). Conforme já visto, a jurisprudência vem construindo uma exceção ao critério geral ora examinado — trata-se dos obreiros que realizam labor tipicamente rural, em imóvel rural, mas para empregador enquadrado como urbano. Em tais casos (construídos a partir de empresas de florestamento e reflorestamento, que são tidas como industriárias), tem-se decidido que, (55) Obviamente que o empregado doméstico também forma uma categoria especial (Lei n. 5.859/72 LC n. 150/15). Assim, não será rurícola, porém empregada doméstica, a cozi- nheira/arrumadeira da fazenda que preste, onerosamente, com continuidade, pessoalida- de e sob subordinação, serviços estritamente domésticos, sem destinação econômica, na sede da fazenda, à família ali residente. 451Curso de Direito do Trabalho embora não se enquadrando o empregador como rural, serão rurícolas seus empregados que laborem, de fato, no campo, exercendo atividades nitidamente agrárias ou pastoris (OJ n. 38, SDI-I/TST). Como se percebe, a jurisprudência resgatou, em parte, o velho critério celetista (art. 7º, “b”), para manter como rurais trabalhadores exercentes de funções claramente rurais (capinadores, matadores de pragas e outros assemelhados) em áreas claramente rurais — não obstante o empregador seja tido, do ponto de vista administrativo e jurídico, como urbano-industrial(56). b) Imóvel Rural ou Prédio Rústico — O segundo elemento fático-jurídico especial do empregado rural é o local de sua prestação de serviços: trata-se do fato de seu labor ser cumprido em imóvel rural ou prédio rústico. A definição de imóvel rural não enseja controvérsia, atada ao próprio senso comum. Refere-se à zona geográfica situada no campo, exterior às áreas de urbanização. Já prédio rústico é conceito utilizado pela ordem jurídica para permitir o enquadramento como rurícola daqueles trabalhadores que efetivamente exercem atividade agropastoril, para empregadores economicamente ata- dos a tais atividades campestres, porém situados em localidades que, por exceção, ficam incrustadas no espaço urbano. Trata-se, pois, do imó- vel geograficamente classificado como urbano, porém envolvido, do ponto de vista econômico e laborativo, com atividades nitidamente agropastoris. Como bem exposto pelo jurista Márcio Túlio Viana, neste conceito “... o que importa mesmo é a natureza da atividade empresarial. Assim, será rurícola o lavrador que cultiva uma horta em pleno centro de São Paulo”(57). 3. Caracterização do Empregador Rural A precisa definição (e enquadramento prático) da figura do empregador rural é de grande importância no sistema jurídico brasileiro, já que sua existência é que viabiliza o enquadramento do empregado rural. Este enquadramento rurícola do empregador não foi realizado, natu- ralmente, pelo texto original da CLT (de 1943), uma vez que este diploma não visava se aplicar às relações empregatícias rurais (art. 7º, “b”, CLT). Apenas a partir da Lei n. 4.214, de 1963 (ETR), é que se passou a definir e enquadrar, com apuro técnico-jurídico, a figura do empregador rural. Foi este considerado “... a pessoa física ou jurídica, proprietário ou não, que explore (56) A jurisprudência trabalhista, neste caso, conforme visto, apenas corrigiu o artificialismo presente no enquadramento urbano-industrial das fazendas de florestamento e reflorestamento promovido pelo Decreto n. 73.626, de 1974. (57) VIANA, Márcio Túlio. O Trabalhador Rural. In BARROS, A. M. (Coord.) Curso de Direito do Trabalho — estudos em memória de Célio Goyatá. V. I. São Paulo: LTr, 1993, p. 293-94. 452 Mauricio Godinho Delgado atividades agrícolas, pastoris ou na indústria rural, em caráter temporário ou permanente, diretamente ou através de prepostos” (art. 3º, Lei n. 4.214/63). Para esta antiga lei equiparava-se ao empregador rural “... toda pessoa fí- sica ou jurídica que, por conta de terceiro, executequalquer serviço ligado às atividades rurais, mediante utilização do trabalho, de outrem” (art. 4º, Lei n. 4.214/63). Esclarecia o ETR que, para seus fins, indústria rural seria “... a atividade industrial exercida em qualquer estabelecimento rural...” não com- preendido na CLT (art. 3º, § 1º). A subsequente Lei n. 5.889/73 incorporou, no essencial, os critérios de definição e enquadramento do anterior ETR (que revogara), regendo a matéria pelas décadas posteriores. Para a Lei n. 5.889/73 é empregador rural “a pessoa física ou jurídica, proprietária ou não, que explore atividade agroeconômica, em caráter permanente ou temporário, diretamente ou através de prepostos e com auxílio de empregados” (art. 3º; caput; grifos acrescidos). Esclarece a lei que equipara-se “ao empregador rural, a pessoa física ou jurídica que, habitualmente, em caráter profissional, e por conta de terceiros, execute serviços de natureza agrária, mediante utilização do trabalho de outrem” (art. 4º, caput; grifos acrescidos). Como se percebe, é decisivo à caracterização do empregador rural a exploração de atividade agroeconômica por pessoa física, jurídica ou ente despersonificado, seja por conta própria, seja por conta de terceiros, com o concurso de empregados. Na ampla e crucial expressão atividade agroeconômica englobam-se dinâmicas agrícolas, pecuárias e agroindustriais, que tenham destinação ao mercado. Determina, coerentemente, a ordem jurídica que se inclua na atividade agroeconômica, para fins justrabalhistas, a exploração industrial em estabeleci- mento agrário não compreendido na CLT (art. 3º, § 1º, Lei n. 5.889/73). Ou seja, o Direito do Trabalho mantém como rurícola o empregador do campo que reali- ze também processo de industrialização em seu estabelecimento. O essencial é que sua atividade seja agroeconômica, ainda que se valha, no conjunto de seu empreendimento, de instalações e métodos industriais (ou, até mesmo, de instalações e métodos comerciais). Noutras palavras, a exploração industrial (e também comercial, é claro) realizada dentro de estabelecimento agroeconô- mico rege-se, para fins justrabalhistas, de maneira geral, pelo manto jurídico rurícola, nos moldes estipulados pela Lei de Trabalho Rural (art. 3º, caput e § 1º, Lei n. 5.889/73). Aliás, nessa mesma linha é que despontou recente alte- ração no texto do § 1º do art. 3º no sentido de incluir, no enquadramento rural, o “turismo rural ancilar à exploração agroeconômica” (novo texto do § 1º do art. 3º da Lei n. 5.889/73, conforme Lei n. 13.171, publicada em 22.10.2015).(58) (58) Eis o novo texto do § 1º do art. 3º da Lei n. 5.889/73, segundo redação conferida pela Lei n. 13.171/15: “§ 1º Inclui-se na atividade econômica referida no caput deste artigo, além da exploração industrial em estabelecimento agrário não compreendido na Consolidação das 453Curso de Direito do Trabalho Note-se que a perspectiva jurídica da Lei n. 4.214/63 e mesmo da Lei n. 5.889/73 (esta, hoje vigorante) é inclusiva da atividade agroeconômica, e não restritiva, excludente. Ainda assim surgem dificuldades de enquadramento no exame de casos concretos, em virtude da multiplicidade de combinações despontadas no segmento agroeconômico (ilustrativamente, fazendas que também elaboram, com técnicas industriais, quer produtos derivados de leite — queijos, manteiga, etc. —, quer doces a partir de sua matéria-prima agrária, e/ou fazendas que também comercializam, internamente, para o grande público, sua diversidade de produtos — além de várias outras combinações existentes). Tais dificuldades práticas recomendam o uso, pelo profissional do Direi- to, de instrumental metodológico já consagrado, avaliador das circunstâncias envolvidas no caso concreto, em auxílio à sua operação de subsunção do fato ao modelo jurídico previsto pela Lei n. 5.889/73. Por exemplo, o critério enfatizador da localização do estabelecimento (imóvel rural ou prédio rústico, em contraponto a imóvel nitidamente urbano); a seu lado, o critério que afere a intensidade ou preponderância da atividade (agroeconômica versus indus- trial/comercial); também o critério aferidor da principalidade em contraponto à acessoriedade da dinâmica examinada; até mesmo o critério que examina o caráter do procedimento industrial/comercial utilizado pelo estabelecimento, mantendo como agroeconômico certo tipo de operação rudimentar, rústica, que não agregue, de modo significativo, a sofisticação tecnológica da indús- tria ou do comércio (sem prejuízo de operações industriais ou comerciais so- fisticadas também se enquadrarem no conjunto agroeconômico, em virtude da presença dos demais elementos conducentes a tal enquadramento)(59). Tratando-se, portanto, de exploração agroeconômica, em imóvel rural ou prédio rústico, com a concorrência de uma ou, preferencialmente, algu- mas das circunstâncias analíticas ora expostas, enquadra-se o respectivo empregador como rurícola, sendo, desse modo, também rurícolas seus em- pregados. Curiosamente, o decreto regulamentador da Lei n. 5.889/73, elaborado nas sombras e silêncios do regime autoritário (1974), buscou alterar, de modo substantivo, o conceito de indústria rural. Escapando à competência constitucional estrita do poder regulamentar do Presidente da República (isto é, servir à aplicação da lei, mas não alterá-la, dimi- nuindo, significativamente, seu âmbito de abrangência), o Decreto n. 73.626/74 estipulou que a noção de indústria rural deveria se restringir “às atividades que compreendem o primeiro tratamento dos produtos agrários in natura sem Leis do Trabalho — CLT, aprovada pelo Decreto-Lei n. 5.452, de 1º de maio de 1943, a exploração do turismo rural ancilar à exploração agroeconômica” (grifos acrescidos). (59) É claro que nenhum destes critérios tem valor absoluto, sendo apenas instrumentos auxiliares às funções de interpretação e aplicação do tipo jurídico da Lei de Trabalho Rural (n. 5.889/73). 454 Mauricio Godinho Delgado transformá-los em sua natureza” (art. 2º, § 4º, Decreto n. 73.626/74). Intentou, desse modo, o regulamento normativo excluir de tal grupo aquela indústria que, “operando a primeira transformação do produto agrário, altere a sua natureza, retirando-lhe a condição de matéria-prima” (art. 2º, § 5º, Decreto n. 73.626/74; grifos acrescidos). O próprio decreto exemplifica tipos de indústria rural, segundo sua ótica restritiva: de um lado, aponta “o beneficiamento, a primeira modificação e o preparo dos produtos agropecuários e hortigranjeiros e das matérias-primas de origem animal ou vegetal para posterior venda ou industrialização”; de outro lado, indica “o aproveitamento dos subprodutos oriundos das operações de pre- paro e modificação dos produtos in natura, referidas no item anterior” (Decreto n. 73.626/74, art. 2º, § 4º, incisos I e II)(60). A par de seu viés manifestamente inconstitucional, à época, o tipo jurídico de indústria rural tentado pelo Decreto n. 73.626/74 tem o grave defeito de fracionar o enquadramento do empregador agroeconômico, fazendo conviver no mesmo estabelecimento dois grandes segmentos jurídicos, o rurícola e o industrial (além do comercial, se for o caso). Nesta medida, o intento do diploma meramente regulamentar faria renascer, de certo modo, o critério fracionário do antigo art. 7º, “b”, da CLT (revogado, por incompatibilidade, desde o antigo ETR, de 1963), que diferenciava como rurais, industriais e comerciais os trabalhadores do campo, todos dentro do mesmo estabeleci- mento, em conformidade com os “... métodos de execução dos respectivos trabalhos ou pela finalidade de suas operações...” (art. 7º, “b”, CLT; grifos acrescidos). Por todas estas razões, deve-se preservar a maior precisão e amplitude do conceito de empregador rural (rectius: empregador agroeconô- mico) da Lei de Trabalho Rural hoje vigorante, sem restriçõessignificativas ao conceito de indústria rural. A jurisprudência trabalhista perseverou na interpretação harmônica ao sentido da Lei n. 5.889/73, ao invés de repercutir o censurável intento do Decreto n. 73.626/74. É o que evidenciava a OJ 419 da SDI-I do TST, ao privilegiar, para o enquadramento, a atividade preponderante do empregador, ao invés da atividade específica realizada pelo trabalhador: “Considera-se rurícola empregado que, a despeito da atividade exercida, presta serviços a empregador agroindustrial (art. 3º, § 1º, da Lei n. 5.889, de 8.6.1973), visto que, neste caso, é a atividade preponderante da empresa que determina o enquadramento”.(61) (60) Os estritos limites do poder regulamentar do Presidente da República estavam fixados no art. 81, III, da Constituição de 1967 (conforme EC n. 1/1969), vigorante à época; atualmente encontram-se no art. 84, IV, da Constituição de 1988. No que tange a este aspecto, não houve mudança de substância entre os dois textos constitucionais. (61) A OJ n. 38 da SDI-I, por exceção, adota, quanto ao enquadramento rural ou industriário do empregado que labora para empresa de reflorestamento, o parâmetro da atividade espe- cífica do obreiro: sendo esta “ligada ao manuseio da terra e de matéria-prima”, considera-se rurícola o trabalhador; os demais empregados serão tidos como industriários, pois o Decreto n. 73.626, de 1974 (diploma administrativo também elaborado no período autoritário), enqua- dra como industrial o segmento desse tipo de empresa. Entretanto, a exceção jurisprudencial 455Curso de Direito do Trabalho Entretanto, em outubro de 2015, decidiu o TST reabrir o debate sobre o tema jurídico, cancelando a OJ 419 da SDI-I.(62) VI. O ÍNDIO COMO EMPREGADO As peculiaridades da população indígena conduziram o Direito brasilei- ro a conferir tratamento diferenciado à sua inserção nas relações humanas, sociais e econômicas da sociedade brasileira, inclusive relações de trabalho. Esse tratamento diferenciado expressou-se em diploma legal dos anos de 1970 (Estatuto do Índio, Lei n. 6.001/73). Também foi enfatizado pela Consti- tuição de 1988, que assegura relevante proteção em favor das comunidades indígenas (Capítulo VIII do Título VIII, arts. 231 e 232, CF/88). O tratamento diferenciado construído pelo Estatuto do Índio (Lei n. 6.001, de 1973: art. 4º) desdobra-se desde uma proteção severa e integral, de modo a preservar o habitat e o isolamento dos integrantes da comunidade indígena (os chamados índios isolados), passando por uma proteção ainda intensa nos casos de indígena(s) vivenciando processo contínuo de integração (os denominados índios em vias de integração), até atingir os grupos tidos como plenamente aculturados aos hábitos, costumes e estruturação da comunidade nacional (os ditos índios integrados) — estes últimos submetendo-se, com plenitude, à legislação nacional padrão aplicável a todos os indivíduos. Os índios e as comunidades indígenas ainda “não integrados à comunhão nacional” ficam sujeitos ao “regime tutelar” previsto na Lei n. 6.001/73 (art. 7º, caput), sob exercício da União (§ 2º do art. 7º). Nesse quadro, a Lei n. 6.001/73 considera “nulos os atos praticados entre o índio não integrado e qualquer pessoa estranha à comunidade indígena quando não tenha havido assistência do órgão tutelar competente” (art. 8º). Esclarece o preceito que não se aplica a regra da nulidade “no caso em que o índio revele consciência e conhecimento do ato praticado, desde que não lhe seja prejudicial, e da extensão dos seus efeitos” (parágrafo único do art. 8º).(63) se justifica, em virtude de se tratar, neste caso, da adoção de critério mais favorável de ma- neira a diminuir os efeitos trabalhistas prejudiciais provocados pelo artificialismo do Decreto n. 73.626, no instante em que caracterizou como industrial essa atividade empresária reali- zada na área rural, no manejo da terra, com o plantio e cultura de árvores. O enquadramento industrial do empregador é que, por força de ato administrativo, mostrou-se artificial, provo- cando a necessidade de atenuação interpretativa pela jurisprudência trabalhista. (62) Na mesma sessão de outubro de 2015 (Resolução 200, de 27.10.2015), foram cancela- das duas OJs da SDI-I relativas ao enquadramento de trabalhadores do campo: a de n. 419, já comentada, e a OJ n. 315, que abrange empregados tratoristas, operadores de ceifadeiras e outras máquinas e veículos inerentes ao agronegócio. Eis o texto da antiga OJ n. 315: “É considerado trabalhador rural o motorista que trabalha no âmbito de empresa cuja atividade é preponderantemente rural, considerando que, de modo geral, não enfrenta o trânsito das estradas e cidades”. (63) Naturalmente que o regime tutelar previsto no Estatuto do Índio pode ser afastado, in- vestindo-se o indivíduo indígena da plenitude de sua capacidade civil, porém desde que observados os requisitos e procedimentos especificados na Lei n. 6.001/73 (arts. 9º, 10 e 11).