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RELACIONAMENTO ABUSIVO FACULDADE UNINASSAU[1] Cintia Aparecida Ataide[2] Franciele Alves dos Santos Costa Lucila Pereira Andrade Italo Rosse Souza dos Santos INTRODUÇÃO O relacionamento afetivo amoroso, que muitas vezes culmina em matrimônio, tem por princípios basilares o respeito, a confiança, a parceria (companheirismo), a flexibilidade e obviamente o amor. Para ser considerado saudável, um casal deve ponderar seus impasses, visto que cada um compõe construções de vida distintas, o que torna a concepção de visão das situações variadas. Sendo assim, conflitos e brigas certamente surgirão, tendo a flexibilidade de ambos como aliado para resolver os atritos, já que uniões saudáveis imprimem maior estabilidade aos cônjuges, assim tornando-os cada vez mais aptos a dirimir problemas (Dessen & Braz, 2005). Porém, muitos relacionamentos saem dessa base de equilíbrio e a frequência de abusos cometidos pelos companheiros é tão grande que muitas das vítimas enxergam a situação como cotidiana e até mesmo cultural. O nível de escolaridade, situação econômica, princípios familiares, dentre tantos outros argumentos levam ao silêncio e submissão. Os papéis sociais e culturais de homem e mulher definidos pela sociedade têm raízes históricas, sendo passado de geração a geração. Nesse contexto, a desigualdade hierárquica que a figura feminina é colocada torna a imagem da mesma como fraca, submissa e subjugada ao homem, e muitas vezes esse mesmo conceito é repassado de forma ingênua entre as próprias mulheres como reforço para manter o problema em casa. A visão de “roupa suja se lava em casa” contribui muito para a omissão do problema, tornando a violência doméstica como uma vergonha a se esconder. Programas de ajuda ao combate ao abuso físico e psicológico e iniciativas de incentivo a conscientização e empoderamento à mulher têm sido realizados nos últimos anos no Brasil. Em Sergipe, existem campanhas para ajudar às vítimas que se sentem inseguras quanto a denunciar o companheiro(a) aos órgãos competentes. O acolhimento é uma das etapas mais importantes para superar o problema vivido, portanto ajuda de profissionais de terapia são de suma importância para que se possa voltar a ter uma vida normal e sem sustos. Nos tópicos a seguir vamos tratar sobre variáveis da temática, incidências, implicações e concluiremos trazendo uma crítica da discussão. DESENVOLVIMENTO Segundo Bourdieu (1994), é a partir do próprio corpo que formamos uma primeira identidade (homens ou mulheres) e como consequência desta, que é marcada e determinada pelo nosso sexo (biológico), é definido se seremos dominados (feminino) ou dominadores (masculino), cada qual desempenhando seu papel construído pela sociedade. E, desta forma, o corpo é o lugar do exercício do poder (apud, MONTEIRO, 2012). A transmissão dos valores de gênero e dominância se diferenciam entre as pessoas baseado em experiências de vida, valores familiares e sociais, determinando desde cedo o papel desempenhado entre homens e mulheres, assim como expectativas de comportamento entre um casal. O primeiro contato de uma menina com o amor em relação ao sexo oposto se dá pela relação paterna. Muitas vezes essas relações são fragilizadas, refletindo numa mulher com valores distorcidos sobre amor, respeito e igualdade. Sem a figura arquetípica do pai somos guiados pelo instinto cego e sem rumo, porque não somos capazes de enxergar nossa força ou estabelecer vínculos afetivos. Sentimentos de aflição são experimentados, pois em alguns momentos somos invadidas pela sensação que a vida parou, de que nada vai mudar. Se estivermos sós, perdemos a esperança de encontrar alguém. (MACHADO, 2013, p.20) À mulher cabia ainda a ideia de pertencer a uma família, ter filhos e se voltar a maternidade, contribuindo ao pensamento de que seu papel somente era de servidão. Nos relatos do postulado de Texto Gênero e Diversidade (2009, p.25) “[...] é a cultura que constrói o gênero, simbolizando as atividades como masculinas e femininas”. Estereótipos estes que cravam sobre a mulher pelos rastros históricos que deve se calar, que é responsável pelo elo familiar e, que por assim dizer, será bem sucedida se reunir todos os esforços, mesmo diante de situações adversas, para manter sua prole unida e com a aparência social estável. Porém o mundo contemporâneo trouxe aos ideais femininos, novas formas de pensar e com isso, novos papéis sociais. Esse enfoque moderno, apesar de estar há bastante tempo na sociedade ainda se funde a princípios arcaicos, o que mostra a presença de parceiros que ainda acreditam mandar na mulher. Isso, acrescido de comportamentos reforçados negativamente na infância, cria um homem dominante e agressivo, que acredita que a força é o melhor meio de chegar ao fim do conflito. São inúmeros os motivos que levam a agressão, desde ciúmes ao simples domínio completo. Segundo Machado (2013) à medida que esses gestos contra a parceira aumentam, escapando do controle, geram embotamento e frieza, surge uma agressão silenciosa que se faz desfalecer os sentimentos nobres que envolveram e atraíram para o matrimônio. Agora a rudeza de expressão denota um distanciamento, muitas vezes por receio ou proteção do outro. A relação conjugal é uma das etapas mais esperadas ao longo do ciclo da vida (Rosado & Wagner, 2015). Isso, para a vítima de relacionamento abusivo, gera expectativas e ações que tolhem repercussões que de alguma forma possa deteriorar o casamento e cada vez mais o intolerável entra em zona de resignação. Na sua maioria os abusos além de indícios físicos, culminam em transtornos psíquicos, como depressão e transtorno de ansiedade (MEAD, 2002). O que pode levar a morte, se não pela mão do agressor, por suicídio. Assim, a violência é entendida como uma diferença assimétrica numa relação hierárquica desigual na intenção de dominar e oprimir, tratando o sujeito como coisa e não como ser humano (MONTEIRO, 2013). O homem toma consciência de sua força física durante a infância, normalmente observando o comportamento de seus pais dentro de casa. Dessa forma, a instabilidade emocional que alguns apresentam contrapõe com a nova visão da mulher independente e produtiva que vem crescendo. Miller (1999) afirma que todo abuso tem propósito de controlar e não o de causar a dor, e quando o homem afirma que perdeu o controle, na verdade ele o está buscando através de seu ato (apud MACHADO, 2012). Um ato comum de violência e que a princípio não é física é a agressão verbal, “Quase sempre é possível usar a palavra. A violência humana é tal que, salvo casos excepcionais, toda violência possui uma parte verbal” (BRETON, 2005, p.4). Os abusos verbais se iniciam de forma sutil, mascarada como pedidos, a exemplificar: “pode trocar esse batom vermelho?Parece uma puta!”, se não há nenhum confronto, e é apenasaceito e obedecido a situação toma maiores proporções gerando uma relação tóxica. “Tais agressões visam atingir o outro em sua identidade, em vez de destruí-lo fisicamente, e usam para isso as palavras como vetores de violência.” (BRETON, 2005, p.4). Portanto, de diversas maneiras o abuso é demonstrado, seja ele de forma psicológica, física ou sexual. A psicológica, por ser mais “sutil”, maioria das vezes nem é vista como agressão, o que acaba levando bastante tempo para ser percebida. Seu objetivo é de reforçamento de poder e por não deixar marcas externas, a maioria não manifesta suas angústias pois muitas vezes não são compreendidas pelos mais próximos. O abuso físico se manifesta com o objetivo de impor poder e força. Muitas vezes vem de pessoas emocionalmente instáveis, tendo a agressividade submersa num passado inconsciente, porém quando estimuladas, liberam suas frustrações usando da violência como manobra de escape. Conforme Michael e Todd (2005), os homens são mais agressivos do que as mulheres, representando 80% dos crimes considerados violentos (apud MACHADO, 2012). Cabe a vítima denunciar o parceiro, porém a insegurança das autoridades competentes em protegê-la faz com o que o número de ocorrências seja menor do que o esperado, além do fato de ser um abuso que tem consequências visuais, mexendo com o psicológico da mulher, fazendo-a sentir-se envergonhada e com medo de se tomar uma atitude e acabar apanhando novamente. Abuso sexual vem do uso da força, sugestão e ameaça. A intenção é diminuir até conseguir sua gratificação pessoal sem se importar com o outro. Pode ser feita de diversos modos como impedir o uso de contraceptivos, exigências sexuais mesmo sem a aprovação da parceira, proibições de ir e vir, extinção de amizades da companheira, dentre outros. Os danos causados por esse tipo de agressão rebaixam a vítima e desvalorizam o amor próprio e qualquer sentimento de amor genuíno que possa haver entre o casal. A violência não se restringe a atos corporais nem a sentimentos de humilhação. Os sentimentos de humilhação são subproduto da dor física ou psíquica, e é exatamente essa intenção do agressor em relação ao agredido: fazê-lo sentir-se humilhado (Muszkat & Muszkat, 2018, p.64). As relações abusivas não necessariamente são constantes, elas passam pelo chamado Ciclo da Violência, que consiste em 3 etapas: acumulação da tensão (os problemas começam a gradualmente a aumentar), a explosão (fase da agressão de fato) e a lua-de-mel (comportamento amoroso e arrependido pós briga por parte do companheiro até um novo incidente de acumulação). Essas fases se repetem até entrar num ciclo vicioso, onde o ato não tomar atitude é por resguardo de sua integridade física. Diante dessas considerações, vamos observar os índices causadores e como a psicologia pode contribuir na reconstrução da vida das vítimas. DISCUSSÃO Segundo dados de pesquisa de 2018 da Secretaria da Transparência do Senado Federal, em 2015, das 749.024 denúncias realizadas pela Central de Atendimento a Mulher, 10% correspondiam a relatos de violência. No âmbito da saúde, os registros do Ministério da Saúde têm sido predominantemente de violência física, seguido da violência psicológica ou moral e violência financeira como última das queixas relatadas. No entanto, os dados afirmam bons resultados, pois desde 2014, os registros de denúncia têm subido gradualmente ao longo dos anos. Casos de feminicídio têm se mostrado nos noticiários, como uma onda crescente extremismo nas relações abusivas. Em 2018, houveram 221.238 registros de lesão corporal dolosa (acionando a lei Maria da Penha), totalizando 606 casos por dia. No estado de Sergipe, em 2017 o feminicídio relacionado a violência doméstica subiu para 69 (18 casos a mais que o ano anterior). A lei Maria da Penha, promulgada em 2006, estabelece os direitos e deveres das vítimas e agressores na intenção de proteger e permitir que a mulher possa se sentir segura a voltar à realidade pós-trauma. No entanto, existem ainda muitos casos de juízes que ignoram a gravidade dos casos, esperando conciliação e/ou retirada da queixa por parte da requerente. Problemas como esse contribuem para a diminuição dos registros legais contra parceiros abusivos. No Nordeste, o problema é ainda maior, pois além da demora na resolução do caso e arrumar coragem para denunciar, as vítimas ainda passam por abuso policial durante o registro de queixa (questionamentos sobre a situação, desvalorização do problema, entre outros). A existência de leis ajuda no combate, porém há necessidade de uma mudança de mediação por parte das autoridades competentes e da sociedade. Fechar os olhos, fazer pouco caso, na tentativa de se eximir da responsabilidade para com o outro, só amedronta a vítima e contribui para a ideia de que ninguém pode ajudar e de que deve se sujeitar a tal condição. Se o companheiro que deveria amar e apoiar a desvaloriza e humilha, como ela pode confiar em estranhos que pouco se doam na luta contra os relacionamentos abusivos? A confiança dessa mulher no outro é fragilizada, principalmente em homens, por um processo de generalização que a Psicologia explica, na qual ela começa a associar a fonte do trauma (no caso o parceiro) a estímulos que lhe pareçam semelhantes (outros homens), “Após um condicionamento, estímulos que se assemelham fisicamente ao estímulo condicionado podem passar a eliciar a resposta condicionada em questão” (MOREIRA&MEDEIROS, 2007). Ter esse conhecimento é enriquecedor para oferecer às vítimas subsídios emocionais para quem deseja ajudar, porém ñao possuem uma especialização para ser mais efetivo. É necessário um trabalho paciente e paulatino. O psicólogo e a terapia atuará no serviço de auxiliar o sujeito explorado e abusado na reestruturação da sua identidade, na desenvoltura da sua autonomia, da sua independência financeira, em um entendimento mais profundo e maduro dos elos afetivos e da necessidade de moderação nestes vínculos, na percepção das suas ações e da retirada da zona de dependência, seja ela de qual ordem for, tornando a vítima ativa em delinear sua história. Cabe ressaltar que há programas de empoderamento feminino que auxiliam na reestruturação da confiança para perceber e se libertar de parceiros problemáticos, além de conscientizar amigos e conhecidos das vítimas que passam pelo problema, assim como informar toda a população para que parem de enxergar como exagero ou burrice da vítima e entender e ajudar a ressignificar sua vida. Em Sergipe, existem programas de combate ao feminicídio (Frente Parlamentar de Combate à Violência de Gênero e suas Interseccionalidades). Dessa maneira, percebemos que com o tempo e mais proatividade e empatia social, com a elaboração de mais iniciativas sobre o tema serão promovidas ações que garantam o direito e a segurança de inúmeras mulheresque se silenciam. CONCLUSÃO Em síntese, reiteramos que um relacionamento que foge a um relacionamento abusivo são guiados por pilares inegociáveis e é o que subsidiam uma relação saudável e agregadora são o amor, o respeito, a confiança, a parceria, a flexibilidade, dentre outros pormenores. Uma união harmoniosa não encaixa o outro em papel cultural, tampouco o regala a qualquer desprestígio em função da sua sexualidade. A concepção do outro como um igual a si mesmo, no sentido de potencialidades, defeitos, direitos e deveres devem ser uma constante. Tudo o que escapa a isso tende a ser abusivo. A violência deve ser notada e combatida desde seus primeiros indícios. Insultos, injúrias, humilhações, violações físicas, assédio moral, privações, todas essas nuances devem ser detectadas para não entrar em um relacionamento abusivo. Entretanto, se a vítima já está nessa condição, deve fazer uso primeiramente da sua coragem, em seguida dos seus direitos e ousar denunciar e se alforriar de um elo danoso. A psicologia tem grande relevância como mediadora no processo de superação e ressignificação. Os amigos, todo o entorno da vítima deve estar atenta aos excessos e intervir. E que caia em anulação o jargão “Em briga de marido e mulher não se mete a colher”, se alguém sabe e se silencia ante uma relação doentia, está sendo conivente e responsável, ainda que indiretamente, pelas consequências. Que a empatia guie nossas atitudes contra este mal social. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRETON, Philippe. Argumentar em situações difíceis. Barueri, SP: Manole, 2005. CÂMARA MUNICIPAL DE ARACAJU. Feminicídio cresce em Sergipe e precisamos frear essa violência contra a mulher, afirma Kitty. Disponível em: <https://aracaju.se.leg.br/institucional/noticias/feminicidio-cresce-em-sergipe-e-as-au toridades-precisam-frear-essa-violencia-contra-a-mulher-alerta-kitty> acesso em 21 de março de 2019 DESSEN, M. A., & BRAZ, M. P. (2005). 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