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18 UNIVERSIDADE PAULISTA INSTITUTO DE CIÊNCIA JURÍDICA ATIVIDADES PRÁTICAS SUPERVISIONADAS – APS 9º SEMESTRE DIREITO DO CONSUMIDOR UNIP/SP 2018 DIREITO DO CONSUMIDOR Trabalho de Atividades Práticas Supervisionadas apresentado a Universidade Paulista – UNIP – Sala 401. Lilian Teixeira Alves B411AI-3 SÃO PAULO 2018 SUMÁRIO I – Introdução……………………………………………………………………………...4 II – Parecer Jurídico…………………………………………………………………….. .4 III – Análise da Resposta do Procon………………………………………………….. 6 IV – Diferença de Garantias……………………………………… …………………...7 V – Julgado de Tribunal…………………………………………………………………13 V - Referências Bibliográficas……………………………………………….………….14 INTRODUÇÃO Este estudo apresentará uma fundamentação sobre seguro de garantia legal, estendida e garantia contratual, decisão do Procon sobre a decisão do fabricante, sobre a seguradora contratada; e, ainda, um parecer jurídico sobre o caso apontado com suas soluções e uma ficha técnica com os principais conceitos jurídicos, artigos de lei e julgados de tribunal. II - PARECER JURÍDICO a) Relatório: Trata-se de consulta formulada por Cecílio Roque, ele comprou uma televisão numa loja varejista bastante conhecida no mercado e, no mesmo ato, contratou um seguro de garantia estendida para vigorar após o vencimento do prazo da garantia contratual que era de 2 anos. Ele providenciou a instalação da televisão em sua casa obedecendo todos os requisitos do fabricante e, para sua desagradável surpresa, o equipamento não funcionou a contento, porque a imagem e o som estavam com péssima qualidade. Se o varejista não lhe desse uma televisão nova quem deveria dar seria a seguradora, pois ele contratou um seguro de garantia estendida. Ele entrou em contato com o PROCON para reclamar da solução apresentada pela empresa varejista e para exigir que lhe fosse entregue uma televisão nova, por entender que a garantia legal lhe dava esse direito. O PROCON, no entanto, disse que seria necessário esperar até 30 dias pelo conserto da televisão e, que no caso, não cabia acionar a seguradora para receber a garantia estendida. É o relatório. Passo a opinar. b) Fundamentação: I - Se o varejista não lhe desse uma televisão nova quem deveria dar seria a seguradora, pois ele contratou um seguro de garantia estendida. I - NOÇÕES GERAIS DE HERMENÊUTICA Todavia, por ocasião do choque de interesses, surge a necessidade da aplicação da lei ao caso concreto – subsunção – por um órgão competente para dirimir conflitos. Entram em cena os órgãos do poder judiciário. Como leciona Maria Helena Diniz, o magistrado é o intermediário entre a norma e a vida[1]. Para todos esses problemas interpretativos a hermenêutica dedica sua atenção. Na clássica lição de Maximiliano, hermenêutica é a teoria científica da arte de interpretar. Essa ciência tem por objeto o estudo e a sistematização dos processos aplicáveis para se determinar o sentido e o alcance das expressões legais[2]. Muitas expressões possuem conteúdo fluído, necessitando de um trabalho interpretativo para se adequar à finalidade da norma. Dissertando sobre o problema dos atos dito discricionários, Celso Antônio Bandeira de Mello asseverou que ao lado conceitos unissignificativos, apoderados de conotação e denotação claras, existem conceitos carreados de certa imprecisão, fluidez, ou seja, plurissignificativos [3]. A hermenêutica não visa apenas textos defeituosos. Sejam as expressões obscuras ou claras, deficientes ou perfeitas, ambíguas ou livres de controvérsias, todas são suscetíveis de interpretação [4]. Quando se fala em hermenêutica ou interpretação, advirta-se que elas não se podem restringir tão somente aos estreitos termos da lei, pois conhecidas são as suas limitações para bem exprimir o direito, o que, aliás, acontece com a generalidade das formas de que o direito se reveste. Desse modo, é ao direito que a lei exprime que se devem endereçar tanto a hermenêutica como a interpretação, num esforço de alcançar aquilo que, por vezes, não logra o legislador manifestar com a necessária clareza e segurança. [5]. A Hermenêutica será focalizada como sendo um sistema de diretrizes voltadas à orientação da atividade interpretativa, a fim de que esta não se deixe levar de roldão pelo sentido, dada a inesgotabilidade deste, que é capaz de provocar desvios na função social da interpretação - princípio, este, a que outorgamos especial relevo. Na verdade não é qualquer sentido nem é todo sentido que serve às finalidades de ordenação social, ou mesmo a outras finalidades que não impliquem cerceamento da liberdade de pensar, uma vez que a liberdade de pensar é uma coisa – que, aliás, se liga à inesgotabilidade do sentido, porquanto esta é consequência daquela – e outra, bem distinta, é a liberdade de aplicar as várias opções interpretativas. [6] 1.1 - Regras de Interpretação ou Hermenêutica A antiga Lei de Introdução ao Código Civil, em seus arts. 5º, 6º e 7º, mais ou menos diretamente prescrevia algumas normas para a interpretação à aplicação das leis. [7] A outra regra de hermenêutica consagrada pelo legislador é a do art. 5º, que assim reza: "Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum". Washington de Barros Monteiro, pondera que "fins sociais são resultantes das linhas mestras traçadas pelo ordenamento político e visando ao bem-estar e à prosperidade do indivíduo e da sociedade", enquanto, "por seu turno, exigências do bem comum são os elementos que impelem os homens para um ideal de justiça, aumentando-lhes a felicidade e contribuindo para o seu aprimoramento". [8] Contudo, Antonio de S. Limongi França, diz: "Quanto à expressão fins sociais, pensamos que aí se pode divisar a adoção do pensamento de Alexandre Álvares, esposado por Bevilaqua, segundo o qual "a aplicação da lei seguirá a marcha dos fenômenos sociais, receberá, continuamente, vida e inspiração do meio ambiente e poderá produzir a maior soma possível de energia jurídica. Com alusão as "exigências do bem comum", tal expressão parece significar mera ociosidade do legislador, pois é evidente que as leis se destinam ao bem comum e só com este fito podem ser aplicadas por quem de direito. O ordenamento, porém, não pode ter palavras supérfluas, de onde nos inclinamos para o entendimento de que essa expressão se refere a um critério para a solução de casos duvidosos, em que, diante de dois ou mais caminhos viáveis, o intérprete deve seguir aquele que mais consulta à utilidade comum dos cidadãos e da República. Há quem defenda, como Maria Helena Diniz, que o art. 5º traduz a adoção da equidade como modo de integração da norma ao caso concreto. Não raro, o art. 5º funciona como meio para retificar possível inadequação de determinada disposição legal frente à realidade fático-social, e sorte a harmonizar o caráter rígido e abstrato da norma com o caso concreto. Retira-se, pois, da norma seu rigor e a adapta à realidade emergente. As seguintes ementas constituem exemplos dessa utilização do art. 5º pelos tribunais: COMPETÊNCIA EM RAZÃO DO LUGAR. POSSIBILIDADE DE AJUIZAMENTO DA AÇÃO NO LOCAL DO DOMICÍLIO DO AUTOR QUANDO ESTE FOR DIVERSO DO LOCAL DA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS. Embora o art. 651 da CLT determine que a ação seja proposta no local da prestação dos serviços, quando o autor for domiciliado em localidade diversa, esta pode ser a sede do ajuizamento da ação, levando-se em conta que o reclamante teria dificuldades financeiras caso tivesse que se deslocar durante a fase da instrução do feito, sob pena de restar comprometido o próprio direito de ação assegurado constitucionalmente. Inteligência do art. 5º da LICC e do art. 5º, XXXV da CF. CERCEAMENTO DE DEFESA. AUSÊNCIA. OBEDIÊNCIA AOS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS DO PROCESSO. Não há que se falar em cerceamento de defesa quando as partes tiveramas mesmas oportunidades para provar suas alegações e auxiliar na formação da convicção do magistrado, cabendo a cada um se desvencilhar do ônus que lhe competia. (TRT-22 - RECURSO ORDINÁRIO: RECORD 573200910722002 PI 00573-2009-107- 22-00-2. Relatora: Enedina Maria Gomes Dos Santos. DJ: 08/02/2010). (Grifo Nosso). ADOÇÃO - ELEMENTOS E CIRCUNSTÂNCIAS DOS AUTOS - DIREITO FUNDAMENTAL - DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA - CANCELAMENTO DO ATO - POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO - EM ABSTRATO, NO CASO CONCRETO - INTERPRETAÇÃO TELEOLÓGICA/SOCIOLÓGICA - PRINCÍPIOS DA PROPORCIONALIDADE E DA RAZOABILIDADE - TEORIA DA CONCREÇÃO JURÍDICA - TÉCNICA DA PONDERAÇÃO - SITUAÇÃO FÁTICO-SOCIAL - CRIANÇA - PROTEÇÃO INTEGRAL, COM ABSOLUTA PRIORIDADE - SENTENÇA ANULADA - RECURSO PROVIDO. Tem-se o conflito das realidades fático-social e jurídica, ocasionado pela escolha indevida do instituto da adoção, ao invés de tutela. Não se olvida que a adoção é irrevogável, mas o caso sob exame revela-se singular e especialíssimo, cujas peculiaridades recomendam (ou melhor, exigem) sua análise sob a ótica dos direitos fundamentais, mediante interpretação teleológica (ou sociológica), com adstrição aos princípios da proporcionalidade e da razoabilidade, dando-se azo, com ponderação, à concreção jurídica, máxime por envolver atributo da personalidade de criança, advinda de relacionamento ""aparentemente"" incestuoso, até porque o infante tem proteção integral e prioritária, com absoluta prioridade, assegurada por lei ou por outros meios. Inteligência dos arts. 5º da LICC; 3º e 4º, caput do ECA; e 226, caput e 227, caput da CF). (TJMG APELAÇÃO CÍVEL N° 1.0056.06.132269-1/001. Relator: Nepomuceno Silva. DJ: 06/12/2007). 1.2 - Humanizar a lei A Lei de Introdução ao Código Civil consagra em seu art. 5º esse aspecto da missão de julgar, estabelecendo que, "na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum". Do mesmo modo, o Código de Processo Civil, nos arts. 126, 2ª parte, e 127, preceitua: "No julgamento da lide caber-lhe-á aplicar as normas legais; não as havendo, recorrerá à analogia, aos costumes e aos princípios gerais de direito"; e "O juiz só decidirá por equidade nos casos previstos em lei". Num e noutro dispositivo, embora este último esteja mais ligado àquilo que Ruggiero e Maroi denominam equita formativa, vemos uma autorização expressa do próprio direito positivo, no sentido de que o magistrado pode usar, nos seus julgamentos, das moderações propiciadas pelo exercício dessa verdadeira virtude anexa à justiça, a epieikeia dos gregos, a benigtas ou humanitas do direito romano, e que, através do direito intermédio, onde se chamava aequitas, passou para nós com o nome de equidade. Diz Antonio de S. Limongi França: "Havendo lei expressa a respeito, o problema não oferece maior dificuldade. Esta, porém, exsurge quanto se trata de assunto não previsto convenientemente num diploma legal, contingência a respeito das quais várias orientações se têm formado. O juiz deverá julgar o pedido com base nos recursos supletivos para o conhecimento do direito, já enumerados em lei, já consagrados pela doutrina". 1.3 - Dos Fins Sociais e as Exigências do Bem Comum Zeno Veloso, de forma bastante objetiva, leciona que: “O art. 5º da LICC indica um caminho, um rumo para o juiz: ele deve atender os fins sociais a que a lei se dirige, às exigências do bem comum. A interpretação, portanto, deve ser axiológica, progressista, na busca daqueles valores para que a prestação jurisdicional seja democrática e justa, adaptando-se às contingências e mutações sociais.”[9]. Assim, além da LINDB voltar-se à integração, de igual forma estabelece critérios de interpretação. Convém salientar a diferença entre normas integrativas e normas interpretativas: “As normas interpretativas estabelecem os critérios a seguir na pesquisa do sentido da norma (CC, art. 112) ou fixa-lhe previamente o sentido. Normas integrativas são as que compõem com outras normas, preenchendo lacunas.”[10]. Neste sentido, o Superior Tribunal de Justiça, em Recurso Especial sob o n. 251024/SP, assim aplicou o artigo 5º da LINDB: DIREITO CIVIL E DO CONSUMIDOR. PLANO DE SAÚDE. LIMITAÇÃO TEMPORAL DE INTERNAÇÃO. CLÁUSULA ABUSIVA. CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR, ART.51-IV. UNIFORMIZAÇÃO INTERPRETATIVA. PREQUESTIONAMENTO IMPLÍCITO. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. I - É abusiva, nos termos da lei (CDC, art. 51-IV), a cláusula prevista em contrato de seguro-saúde que limita o tempo de internação do segurado. II – Tem-se por abusiva a cláusula, no caso, notadamente em face da impossibilidade de previsão do tempo da cura, da irrazoabilidade da suspensão do tratamento indispensável, da vedação de restringir-se em contrato direitos fundamentais e da regra de sobredireito, contida no art. 5º da Lei de Introdução ao Código Civil, segundo a qual, na aplicação da lei, o juiz deve atender aos fins sociais a que ela se dirige às exigências do bem comum. III – Desde que a tese jurídica tenha sido apreciada e decidida, a circunstância de não ter constado do acórdão impugnado referência ao dispositivo legal não é obstáculo ao conhecimento do recurso especial.” Sendo assim, quando o magistrado, na aplicação da lei, busca atender aos fins e às exigências do bem comum, está-se tratando de normas interpretativas, não de normas integrativas, pois há lei para o caso concreto. 1.4 – Os artigos 4º e 5º da LICC e a decisão por equidade A Lei de Introdução ao Código Civil com objetivo, dentre outros de facilitar a aplicabilidade das normas existentes no ordenamento, encampa o prescrito pelos artigos 4º e 5º da referida norma, que respectivamente expressam:”art. 4º “Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais do direito”; art. 5º “Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum”, e que implicitamente admite a equidade. Observando as regras, acima apontadas, comunga-se com os que aceitam um sistema jurídico aberto diferente do afirmado por Hans Kelsen, e justificado na frase: “tudo que não está juridicamente proibido está permitido”[11] Quando essa situação ocorre (omissão da norma), primeiramente o juiz tenta fazer uso da analogia (aplicar norma semelhante); persistindo a lacuna, pode o julgador fazer uso do costume (secundum legem, praeter legem e contra legem); ainda, persistindo a lacuna, o magistrado poderá utilizar os princípios gerais de direito (como, por exemplo, o art.85 do CC; art. 5º, II, CF/88; bem como, os princípios da moralidade, igualdade de direitos e deveres diante do ordenamento jurídico; proibição de locupletamento ilícito[12], dentre outros). Porém, se ainda, assim, persistir a lacuna, o magistrado está autorizado a utilizar o recurso da equidade. A eventual solução dada a determinado caso não tem o condão de extirpar a lacuna, mais apenas resolver a referida questão, por isso o sistema jurídico é tido por aberto. A equidade para muitos doutrinadores, dentre estes Maria Helena Diniz[13], não se confunde com qualquer das fontes de direito supletivas mencionadas no art. 4º, da LICC. Tendo em vista que a interpretação da norma, como também o sociológico e bem comum, congrega não só o aspecto normativo, como também o sociológico e o valorativo, na hermenêutica e aplicação do direito importa a participação do julgador. Assim, a decisão judicial além das exigências legais deverá atender aos fins sociais e axiológicos do direito.[14] 1.5 - Meios Especiais a) analogia; b) equidade. a) Analogia Noutras palavras, diz Ferrara que "ela é a aplicação de um princípio jurídico que a lei estabelece, para um certo fato, a um outro fato não regulado mas juridicamente semelhante ao primeiro". E explica: "Posto que no sistema se podem descobrir casos análogos já regulados, por um processo de abstração, extrai-se a regra que vale para aqueles, alargando-a até compreender os casos não previstos que apresentem no entanto a mesma essênciajurídica. [15]. Na mesma ordem de ideias, o referido autor explica o fundamento da analogia que, a seu ver, repousa sobre a ideia de que "os fatos de igual natureza devem possuir igual regulamento, e, se um destes fatos encontra já no sistema a sua disciplina, esta constitui o tipo de onde promana a disciplina jurídica geral que deve governar os casos afins. Analogia" - conclui - "é harmônica igualdade, proporção e paralelo entre relações semelhantes". Como leciona Flávio Tartuce, “a analogia é a aplicação de uma norma próxima ou de um conjunto de normas próximas, não havendo uma norma prevista para um determinado caso concreto”[16]. Todavia, ressalva-se que as normas restritivas de direitos não admitem interpretação analógica, ante sua natureza. b) Equidade A expressão equidade é derivada do latim aequitas, de (aequus) (igual, equitativo). Para Pontes de Miranda[17], a palavra é “apenas palavra-válvula, com que se dá entrada a todos os elementos intelectuais ou sentimentais que não caibam nos conceitos primaciais do método de interpretação”. Palavra de extrema vaguidade, este conceito está intimamente relacionados às concepções jurídico-filosóficas, não havendo um consenso sobre ele.[18] Miguel Maria de Serpa Lopes[19], anuncia que a equidade se apresenta no plano jurídico com uma tríplice função: a equidade na elaboração das leis (espírito idealista); a equidade na aplicação do Direito e, finalmente, a equidade na interpretação. O mesmo autor também conceitua equidade e esclarece que esse conceito envolve um sentido objetivo e subjetivo. No primeiro caso, a equidade teria uma conceito externo ao Direito, designando um conjunto de princípios a ele preexistentes orientadores tanto da aplicação quando da elaboração do Direito. Nessa acepção a equidade tem sido entendida como direito natural em suas várias concepções. Já foi usada em sentido análogo ao de justiça (no Direito Romano, aequitas naturalis – a justiça absoluta ou ideal; aequitas civilis – elemento integrante da justiça absoluta aplicada pelos pretores), até se confundindo com ela. Outras vezes foi equiparada a caridade, ou bondade cordial, no abrandamento da interpretação da norma.[20] No segundo caso, de natureza subjetivista, a equidade não estaria fora do Direito Positivo, mas um princípio a ele inerente. Como parte integrante do Direito permitiria ao juiz humanizar a regra jurídica, levaria em consideração as circunstâncias de cada caso, funcionaria de modo subsidiário, corretivo, supletivo, mas sem criar nova regra. Na Grécia, Aristóteles que considerou a equidade numa concepção jusnaturalista, separou-a da justiça, ligando-a a ideia do justo natural. Ou seja, o equitativo é superior ao justo. É justo, mas não o justo segundo a lei, e sim a correção da justiça legítima. A equidade sana os defeitos oriundos da generalidade da lei. São Tomas de Aquino retomou as ideias de Aristóteles[21] relacionando o conceito de equidade à razão de justiça. Como é sabido de todos não é possível criarqualquer lei que abranja todos os casos. A análise da situação concreto, matéria-prima para a interpretação é a responsável pelo acatamento de um determinado conceito. A isso se acrescenta a extrema relatividade do conceito de justiça, amplamente permeado pelos valores presentes na sociedade no momento da efetiva interpretação para definição do conceito de equidade. Durante toda era medieval, prevaleceu esse conceito aristotélico-tomista. No absolutismo, o príncipe passou a ser considerado como a equidade personificada.[22] Na Lição de Miguel Maria de Serpa Lopes[23], que a equidade no Direito Romano desempenhou papel de importância, numa atividade criadora, manifestando-se na jurisprudência pretoriana. Com a queda do império a equidade minimizou importância. A tendência foi diminuir a sua importância e aumentar o respeito às leis romanas. Porém, a equidade perdeu terreno no direito comum, mas avançou no direito mercantil. Nesse contexto, o autor concluiu que ela se desenvolveria presas aos limites legais. A equidade, independente das diferentes concepções, serve à hermenêutica e à aplicação do direito. A moderna interpretação do direito auxiliar o alcance das disposições legais conforme o interesse da sociedade no momento considerado. Esta é a justificativa da longevidade do Direito Romano, pois a equidade foi aplicada como princípio basilar de suas interpretações.[24] A equidade na visão aristotélica-tomista apresenta proximidade com os dizeres do artigo 1º do Código Civil Suíço que prescreveu que, na falta de lei e de costume, o juiz aplicará a norma que estabeleceria se fosse legislador, esclarecendo que Aristóteles pregava a absoluta submissão do magistrado à lei, pois entendia perigoso decidir por equidade frente ao ambiente de corrupção que reinava na época.[25] Eduardo Espínola[26] 12 frisa que a Lei de Introdução ao Código Civil, com muita técnica, deixa claro que a equidade não é fonte de direito, pois, enumerando os elementos da integração da ordem jurídica, manda que o aplicador, na omissão da lei, utilize a analogia, ou recorra às duas fontes subsidiárias – o costume e os princípios gerais do direito (art. 4º). E, ainda, o art. 5º, da LICC, considera a equidade como capacidade que a norma tem de, atenuando o rigor da lei, adaptar-se-ão ao caso concreto. Equidade é do gênero dos chamados conceitos análogos, quer dizer, dos que apresentam vários significados semelhantes e relacionados uns com os outros. Do exame dos autores que, em filosofia, em ética e em direito, se ocupam com o assunto, resulta que cinco são as suas acepções mais importantes: a) a de princípio similar e anexo ao da justiça; b) a de virtude ou hábito prático informado por esse princípio; c) a de direito de agir de modo conforme a essa virtude; d) a de ato de julgar conforme os ditames do mesmo princípio; e e) a de jurisprudência em geral. A equidade encontra ainda base, além de outras, no direito positivo, nas regras gerais contidas nos arts. 4º e 5º da Lei de Introdução ao Código Civil, bem como no art. 127 do Código de Processo Civil. Em suma, nesses preceitos, está estabelecido a obrigatoriedade de julgar, por parte do magistrado, mesmo em face da omissão ou defeito da lei, e, ao mesmo tempo, a faculdade de, dentro de certos limites, adequar a lei às novas exigências, oriundas das transmudações sociais das instituições. III - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [1] DINIZ, Maria Helena. Compêndio de Introdução à Ciência do Direito. 20. Ed. São Paulo: Saraiva. 2009. p. 422 [2] MAXIMILIANO, Carlos. Hermenêutica e Aplicação do Direito. 19. Ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001. p. 01. [3] MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 29. Ed. São Paulo: Malheiros, 2012. p. 983. [4] MAXIMILIANO, Carlos. Op. Cit. p. 29. [5] Antonio de S. Limongi França - Hermenêutica Jurídica - 12ª edição, pág. 19. [6] RAIMUNDO BEZERRA FALCÃO - HERMENÊUTICA - 2ª EDIÇÃO, 2ª TIRAGEM, pag 84. [7]Antonio de S. Limongi França - Hermenêutica Jurídica – 12ª edição, pág. 32. [8] Washington de Barros Monteiro, conforme citado por FRANÇA (2014, p. 33) [09] VELOSO, Zeno. Comentários à Lei de Introdução ao Código Civil. 2. ed. Belém: Umuama, 2006, p. 126. [10] AMARAL, 2003, p. 74 [11] DINIZ, M. H. Lei de Introdução ao Código Civil brasileiro interpretado, p. 92 [12] DINIZ, M. H. Lei de Introdução ao Código Civil brasileiro interpretado, p. 126 [13] Id Ibid, p. 126 [14] SILVEIRA, A. Hermenêutica no direito brasileiro, 1. v., São Paulo: RT, 1968, p. 67, apud KOHLER. [15] Ferrara, Trattato, cit., p. 227, conforme citado por FRANÇA (2014, p. 46) [16] TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 2ª Ed. São Paulo: Método, 2012. p. 14. [17] MIRANDA, P. Comentários ao código de processo civil, p. 213 [18] DINIZ, M. H. As lacunas no direito, p. 242 [19] LOPES, M. M. de S. Comentários à Lei de Introdução ao Código Civil, p. 161 [20] SILVA, De. P e Vocabulário Jurídico, p. 180-181 [21] DINIZ, M. H. As Lacunas no Direito, p. 244 [22] DINIZ, M. H. As Lacunas no Direito, p. 245 [23] LOPES, M. M. de S. Comentários à Lei de Introdução ao Código Civil, p. 163-164 [24] BITTAR, E. C. B. A Justiça em Aristóteles, p. 128 [25] MIRANDA, P. Comentários ao código de processo civil, p. 213 [26] ESPINOLA, E.; ESPINOLA FILHO, E. A lei de introdução ao código brasileiro, p. 189-193.