Prévia do material em texto
HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 97 of 485 Os Primeiros Instrumentos de Calcular “A coisa mais nobre que podemos experimentar é o mistério. Ele é a emoção fundamental paralela ao berço da verdadeira ciência. Aquele que não o conhece, que não mais pode cogitar, que não mais sente admiração, está praticamente morto.” Albert Einstein O mérito pelo pioneirismo na visualização e compreensão da possibilidade de mecanizar o cálculo aritmético, além da concepção e construção dos primeiros equipamentos com este objetivo, deve ser atribuído, principalmente, a John Napier, Wilhelm Schickard, Blaise Pascal e Gottfried Leibniz. Certamente, diversas outras contribuições nesta área poderão ser encontradas, assim como trabalhos paralelos que, de algum modo, ajudaram a influenciar ou apontar soluções no percurso para o desenvolvimento dos primeiros computadores, como é o caso de Joseph-Marie Jacquard e Samuel Morse. Entre a construção da máquina de calcular de Blaise Pascal, em 1624, até o ano de 1820, cerca de vinte e cinco inventores aventuraram-se a construir este tipo de equipamento. A grande maioria destas iniciativas caracterizou-se pelo esforço isolado de um único homem, algumas das quais funcionaram corretamente, e apenas uma pequena parte veio a ser de fato fabricada em série. A aspiração humana por tal tipo de equipamento, no entanto, pode ser rastreada até épocas mais antigas, abrangendo um conjunto maior de pensadores e empreendedores. Escolhemos assim, iniciarmos esta jornada por Leonardo da Vince. Leonardo da Vince Às vezes, quando achamos que tudo o que poderia ser documentado sobre um determinado assunto já o foi, somos subitamente confrontados com novas descobertas que, por vezes, passam incógnitas ao longo dos séculos, resistindo à busca de pesquisadores e aos mecanismos de divulgação de nossa era. Foi exatamente isto que ocorreu em 13 de fevereiro de 1967, com uma equipe de pesquisadores norte-americanos que estavam trabalhando na Biblioteca Nacional da Espanha, em Madri. Eles praticamente tropeçaram com dois trabalhos de Leonardo da Vince (1452-1519), desconhecidos até então, e que passaram a ser designados por Codex Madrid. Muita expectativa e controvérsia foram criadas na época, em torno desta descoberta, sobre a qual os responsáveis pela biblioteca HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 98 of 485 declararam que “os manuscritos não estavam perdidos, mas apenas colocados em lugar errado.” Ao examinarem o Codex Madrid∗, percebeu-se que ele continha a descrição de uma máquina que mantinha uma aparente semelhança com o mecanismo da máquina de somar de Pascal.∗∗ Motivo este, mais que suficiente, para que fosse chamado para analisá-la o renomado engenheiro italiano Dr. Roberto Guatelli (1904 - 1989),∗∗∗ especialista na construção de réplicas de projetos de Leonardo da Vince. Credenciado pela construção de quase 600 modelos, extraídos de uma coleção de cerca de 2.000 ilustrações de Leonardo da Vince que permaneceram intactas, e pela dedicação de toda a sua vida a comprovar que a maioria destes projetos realmente funcionam, Guatelli, pouco depois da descoberta do Codex Madrid, esteve na Universidade de Massachusetts para examinar uma cópia do precioso documento. Após estudar a descrição e o diagrama da máquina de somar de Leonardo da Vince, existente no Codex Madrid, Guatelli lembrou-se de já ter visto outro desenho parecido no Codex Atlanticus∗∗∗∗. Comparando os dois diagramas e contando com a ajuda das notas do próprio Da Vince nos dois documentos, Guatelli construiu no ano seguinte, patrocinado pela empresa IBM (International Business Machines), uma réplica deste equipamento, que terminaria por gerar mais controvérsias. Ao lado da réplica, na exposição da IBM, havia o seguinte texto: (228) ∗ Codex, palavra originária do latin, é utilizada para designar livros confeccionados em pergaminho, no formato moderno. Surgido entre os gregos, mas aperfeiçoado pelos romanos nos primeiros anos da Era Cristã para substituir os antigos rolos cilíndricos de mesmo material, ou de papiro, que tinham menor usabilidade. Este termo é aplicado à livros produzidos na Idade Média e escritos à mão. Uma vantagem adicional do Codex é ser produzido em pergaminho, material produzido a partir de peles de animais, em geral bovinos e caprinos, de maior durabilidade quando comparado ao papiro. O termo pergaminho é derivado da cidade de Pérgamo, na Ásia Menor, onde teria sido inventado e grandemente utilizado. À cópia de manuscritos antigos, atividade dos antigos mosteiros da Igreja Católica que mantinham bibliotecas de pergaminhos, podemos creditar a sobrevivência e divulgação no ocidente dos textos clássicos das culturas grega e latina. Atualmente, devido a sua grande durabilidade e pela dificuldade de ser falsificado, por causa das nuances naturais do material, o pergaminho é utilizado para a confecção de diplomas universitários e títulos honoríficos, convertendo-se em fonte de renda da região nordeste do Brasil. (226) (Nota do Autor) ∗∗ Talvez fosse mais lógico imaginarmos que a Pascaline é que se parecesse com o diagrama de Leonardo, e não o contrário. (Nota do Autor) ∗∗∗ Roberto Guatelli construiu o seu primeiro modelo, uma roda d’água, em Milão, aos 10 anos de idade, sendo responsável pela exposição de réplicas dos projetos de Leonardo da Vince em diversos países. Dedicado a comprovar o funcionamento destes projetos, diz que a questão se resume a saber decifrar e interpretar o raciocínio do gênio renascentista. No Brasil, foi responsável pela construção dos 29 modelos apresentados na exposição, visitada por 400 mil pessoas, durante um ano, a partir de abril de 1987, nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza e Belém, sendo mais tarde, em 1997, doados para o Museu de Astronomia e Ciências Afins do Ministério de Ciência e Tecnologia. (227) (Nota do Autor) ∗∗∗∗ O Codex Atlanticus, datado de 1479 a 1519, compõe-se por doze volumes e 1.119 páginas, sendo o maior conjunto deste tipo, contendo desenhos e descrições de Leonardo da Vince sobre as mais diversas áreas do conhecimento, indo da matemática à botânica, e de armamentos à música. (Nota do Autor) HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 99 of 485 “Dispositivo para Cálculo: Uma versão primitiva das atuais e complexas calculadoras, o mecanismo de Leonardo apresenta uma relação fixa entre cada uma das engrenagens que registram seus 13 dígitos. Para cada rotação completa da primeira manivela, a engrenagem das unidades é movida levemente para registrarum novo dígito entre zero e nove. Constituída por relações de dez para um, a décima rotação da primeira manivela faz a engrenagem das unidades completar seu primeiro giro, voltando a registrar o dígito zero e, por sua vez gira a engrenagem das dezenas do dígito zero para o dígito um. Cada engrenagem seguinte marca as centenas, milhares, etc., e funcionam de modo idêntico às anteriores. Ligeiras melhorias foram realizadas no desenho original de Leonardo para dar ao espectador uma visão mais clara de como cada uma das 13 engrenagens pode ser operadas de forma independente e ainda assim manter a relação de dez para um. O diagrama de Leonardo mostra pesos para indicar a equabilidade da máquina.” O desenho da máquina de calcular de Leonardo Da Vince, no Codex Madrid. A controversa réplica de Roberto Guatelli, em exibição da IBM. Após um ano de crescente controvérsia sobre a réplica de Guatelli, ela foi retirada da exposição e enviada à Universidade de Massachusetts para a realização de testes para comprovar a autenticidade do modelo. Os opositores de Guatelli alegavam que o desenho de Leonardo não era de uma calculadora, mas representava uma máquina de redução – uma volta da primeira engrenagem faria a segunda engrenagem girar dez vezes, alcançando assim, uma proporção de 10 elevado a 13ª. potência na última engrenagem. Tal máquina, argumentavam, não poderia ser construída devido à enorme fricção que seria gerada por estarem associadas todas as engrenagens. HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 100 of 485 John Napier John Napier (1550 – 1617), Barão de Merchiston, nascido em 1550 na cidade de Edimburgo, na Escócia, foi o introdutor da notação para representar frações empregando o ponto decimal e das tabelas de logaritmos*, que permitiram que operações trabalhosas de multiplicação e divisão fossem reduzidas a somas e subtrações, respectivamente. John Napier Oriundo de uma família abastada de nobres escoceses, proprietária do castelo de Merchsiton, Napier foi educado na reputada Universidade de St. Andrews, tendo iniciado seus estudos em 1563, com apenas 13 anos de idade. Entretanto, não existindo menção de seu nome nas listas de graduados, supõe-se que ele tenha abandonado St. Andrews antes completar o curso. É provável que seus notáveis conhecimentos de matemática e literatura clássica tenham sido adquiridos na França, Itália e Países Baixos. Protestante fervoroso, Napier tomava parte nas controvérsias religiosas da época, tendo publicado, em 1593, uma obra sobre o assunto, considerando-a seu mais importante trabalho (“Plaine Discovery of the Whole Revelation of St. John”). Sua discussão preliminar sobre logaritmos surgiu em 1614 em “Mirifici Logarithmorum Canonis Descriptio”, livro no qual descrevia os princípios do cálculo logarítmico, utilizando uma base próxima ao número e, chamada de base natural. Este trabalho incluía ainda algumas tabelas logarítmicas para funções trigonométricas. Napier† trabalhou por cerca de 20 anos nesta questão, analisando as publicações anteriores a respeito da representação dos números por sucessão de potências, desde os resultados apresentados pelo matemático grego Arquimedes (287 a.C. – 212 a.C.), em “O Contador de Areia”.(155) Napier, entretanto, não chegou a formular o conceito de base para o sistema de logaritmos e nem percebeu a importância do número e, que somente foi reconhecida um século mais tarde com o desenvolvimento do Cálculo Infinitesimal. Embora Napier tenha sido o primeiro a publicar um trabalho sobre logaritmos, o suíço Jobst Bürgi (1552- 1632), o mais famoso relojoeiro de sua época e amigo do astrônomo alemão Johannes Kepler (1571-1630), por quem foi * A palavra logaritmo deriva-se dos termos gregos logos (razão) e aritmos (números), significando algo como “razão dos números”. (Nota do Autor) † Napier foi também ficou conhecido como Naper, Nepair ou Neper. Desta última designação, originou-se o termo logaritmo neperiano. (Nota do Autor) HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 101 of 485 incentivado, também desenvolveu o mesmo tema, publicando o resultado de suas pesquisas em 1620. Bürgi, porém, utilizou um método diferente de Napier, aplicando outra base, em clara demonstração de que os dois alcançaram seus resultados de forma independente.(156) O matemático inglês Henry Briggs (1561 – 1630) foi o principal responsável pela divulgação e rápida aceitação dos logaritmos pelos cientistas da época. Educado na Universidade de Cambridge e professor de Oxford, publicou trabalhos nas áreas de navegação, astronomia e matemática. Partindo dos estudos de Napier, com quem esteve estudando por algumas semanas na Escócia, Briggs começou também a trabalhar no cálculo de logaritmos, reparando que a base utilizada era inconveniente. Em 1616, sugeriu a adoção da base decimal. Reconhecendo a melhoria introduzida, Napier, em trabalho conjunto com Briggs, adequou o formalismo, estabelecendo as igualdades “log 1 = 0” e “log 10 = 1”. Em 1617, Napier descreveu em “Rabdologiae”, um método de multiplicação usando bastões com números marcados. Baseado neste trabalho, criou um dispositivo mecânico feito com hastes de marfim para ser empregado na simplificação de cálculos de divisão e multiplicação, transformando-os em sequências de subtrações e adições, que ficaria conhecida como “Ossos de Napier” (Napier’s Bones).(224) Neste mesmo ano de 1617, o último de sua vida, Napier tentou sem sucesso concluir sua obra sobre logaritmos introduzindo a base 10 e descrevendo como foram construídos. Esta obra foi terminada e publicada por seu filho, em 1619, intitulando-se “Mirifici Canonis Constructio”. (2, 111 ,151 e 158) Sua representação esquemática. HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 102 of 485 Dispositivo “Ossos de Napier” Ainda em 1617, Briggs publicou seu primeiro trabalho sobre logaritmos – “Logarithmorum Chilias Prima” –, homenageando o amigo recém falecido, no qual apresentou uma tabela de logaritmos na base 10 para os números naturais de 1 a 1.000. Em 1624, complementando seu trabalho anterior, publicou o tratado “Arithmetica Logarithmica”, incluindo outra tabela de logaritmos para os números naturais de 1 a 20.000 e de 90.000 a 100.000, calculados até a décima quarta casa decimal, que foi utilizada até o século 19. Neste livro, Briggs sugeriu que os logaritmos para os números entre 20.000 e 90.000 poderiam ser calculados por uma equipe de pessoas, para a qual ele se propunha fornecer formulários especialmente desenhados para aquele propósito. As tabelas de logaritmos rapidamente se difundiram pela Europa, sendo introduzida na Itália, no mesmo ano da publicação de Briggs, em 1624, pelo sacerdote jesuíta e matemático italiano Francesco Cavalieri (1598 -1647), na França em 1626, por Edmund Wingate (1596 - 1656) e na Alemanha, entre1625 e 1629, pelo próprio Kepler. Em 1628, o livreiro e editor holandês Adriaan Vlacq (1600 – 1667), publicou em Gouda, Holanda, a tabela completa de Briggs contendo os logaritmos dos números de 1 a 100.000, com 10 casas decimais. Mais tarde, em 1633, as tabelas foram republicadas em Londres sob o título de “Trigonometria Britannica” pelo matemático inglês Henry Gellibrand (1597 – 1636), atendendo postumamente a um pedido de Briggs. (157, 159 e 160) William Oughtred Em 1620, Edmund Gunter (1581 – 1626), professor inglês de astronomia em Gresham College, onde teve a oportunidade de conhecer e trabalhar com Henry Briggs, confeccionou uma escala logarítmica usando uma régua simples com cerca de 70 cm de comprimento. Pouco tempo depois, construiu um dispositivo mecânico para realizar operações de multiplicação, denominado Escala de Gunter, usando a escala de logaritmos e um par de divisores. A descrição deste instrumento foi publicada em 1624, no ensaio intitulado “Description and Use of the Sector, the Crosse-staffe and other Instruments”, servindo de base para a construção de réguas de cálculo. Neste trabalho, Gunter pioneiramente utilizou as contrações sin para representar seno, e tan para tangente.(129) Partindo das idéias de Napier e de Edmund Gunter, o matemático inglês William Oughtred (1574 – 1660) criou uma primitiva régua de cálculo circular, em 1630. Dois anos mais tarde, aprimorou sua invenção utilizando simultaneamente duas Escalas de Gunter, tornando-a linear. A descrição deste dispositivo encontra- se na publicação “Circles of Proportion and the Horizontal Instrument”, do mesmo ano. HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 103 of 485 Antecipando as disputas por patente, tão comuns em nossos dias, a criação da régua de cálculo circular serviu de palco para uma acalorada discussão sobre a precedência da invenção, que estenderia-se até os últimos dias de vida de Oughtred. O matemático inglês Richard Delamain (1600 – 1644), ex-aluno e grande amigo de Oughtred, requisitou para si a originalidade da invenção por ter publicado o ensaio “Grammelogia, or the Mathematicall ring”, no qual descrevia a construção de uma régua de cálculo circular, em 1630, portanto antes de Oughtred. É bem possível que os dois tenham inventado seus instrumentos independentemente.(130 e 131) O formato atual das réguas de cálculo foi concebido pelo francês, oficial de artilharia, Amédée Mannheim (1831 – 1906), em 1850.(132) Régua de Cálculo, último formato. Napier, em seu trabalho conceitual sobre logaritmos e a posterior construção de um dispositivo auxiliar de cálculo, recebe o mérito por mostrar àqueles que lidavam com cálculos trabalhosos, ser possível tornar esta tarefa mais simples com o uso de instrumentos apropriados. Incentivados pelo avanço técnico introduzido por Napier, surgiram outros pesquisadores interessados no desenvolvimento de equipamentos mais sofisticados, como Wilhelm Schickard, Samuel Morland, Gaspard Schott, Athanasius Kircher, Rene Grillet, Edouard Lucas e Henri Genaille. Wilhelm Schickard Wilhelm Schickard (1592-1635), de Tuebingen, Wuerttemberg (atual Alemanha), outro amigo de Kepler, conseguia conciliar as funções de pastor protestante e professor de hebreu, de línguas orientais, matemática, geografia e astronomia. Em suas horas livres, Schickard dedicava-se ainda ao desenvolvimento de alguns equipamentos, vindo a construir, em 1623, uma máquina de calcular denominada "Calculating Clock" (Relógio de Calcular). Schickard é considerado por alguns autores como o primeiro construtor de uma calculadora. Este dispositivo de seis dígitos conseguia somar e subtrair, possuía mecanismos para HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 104 of 485 Diagrama da máquina de Schickard, encontrado em cartas enviadas à amigos. implementar o dígito de transporte e indicava ocorrências de “overflow” tocando uma campainha. Como facilitador para a execução de operações de multiplicação, tinha acoplado em sua parte superior conjuntos do dispositivo criado anteriormente por Napier. Em 1956, os desenhos desta máquina foram redescobertos, permitindo que a mesma pudesse ser reconstruída no ano de 1960, comprovando sua funcionalidade. (3 e 152) Samuel Morland O matemático inglês Sir Samuel Morland (1625 – 1695), filho de um clérigo de origem nobre, costuma ser mais frequentemente mencionado em livros de história sobre dispositivos mecânicos e máquinas à vapor do que em publicações sobre a história da computação. Apesar de ter sido um dos pioneiros na construção de somadoras mecânicas e de ter criado, inspirado nos “ossos de Napier” e sob a influência de Blaise Pascal, uma calculadora mecânica capaz de realizar operações de multiplicação, provavelmente a primeira com tais características, Morland é lembrado principalmente por seus projetos de bombas para puxar água. Em decorrência das instabilidades políticas que antecederam a ascensão ao poder de Oliver Cromwell (1599 – 1658), líder da Guerra Civil inglesa que derrubaria o rei Carlos I (1600 – 1649) em 1647, Morland somente pode ter acesso e concluir sua formação universitária, em Cambridge, tardiamente. Buscando escapar da tendência natural de seguir a profissão paterna, dedicou-se à matemática. Em sua autobiografia, admite que a decisão de escolher a matemática, aliada à determinação de se dedicar à construção de dispositivos de uso prático que pudessem causar impacto, foram tomadas com o objetivo de atrair a atenção e graças do rei Carlos II, que ascendeu ao trono após Cromwell. Em 1653, Morland foi enviado à Suécia, como parte da comitiva de embaixadores ingleses de Cromwell, incumbidos de negociar um tratado comercial entre os dois países. A Rainha da Suécia, Cristina I (1626 – 1689), dotada de inteligência e cultura incomuns e também grande patrocinadora da ciência, possuía em seu poder um exemplar da máquina de somar construída por Pascal em 1642, a qual tornou-se objeto de discussão durante a permanência de Morland naquele país. No ano seguinte, participando de outra missão diplomática à Itália, Morland deteve-se por pelo menos um mês na corte de Luis XIV, onde provavelmente conheceu René Grillet, relojoeiro do rei e criador de um equipamento para a realização de operações aritméticas. HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 105 of 485 Provavelmente entre 1664 e 1666, Morland construiu duas máquinas diferentes: uma versão mecanizada dos “ossos de Napier”, com capacidade de realizar operações de multiplicação e divisão, e uma somadora financeira com capacidade de representação dos vários tipos de unidades monetárias inglesas (libras, shillings, cents, etc.). Para este último equipamento também foi produzida ema versão portátil (10 x 7,5 x 0,6cm), para ser carregada no bolso. Mais tarde criou uma outra máquina para realizar cálculos trigonométricos. Alguns anos mais tarde, em 1673, publicaria o livro intitulado "Description and Use of Two Arithmetic Instruments" (Descrição e Uso de Dois Instrumentos Aritméticos), descrevendo o funcionamento de seus dois primeiros dispositivos. Sua primeira calculadora, utilizando os mesmos princípios adotados por Napier, tinha as hastes de marfim substituídas por discos planos que armazenavam em seu perímetro os resultados de operações aritméticas. O equipamento vinha acompanhado por trinta discos para o cálculo de multiplicações e mais cinco discos adicionais, marcados por Q/QQ, para realização de operações de raiz quadradae raiz cúbica. Após 1660, Morland mudou seus interesses, passando a dedicar-se prioritariamente à hidráulica e a projetos de bombas d’água. Morland, que já havia ocupado anteriormente os cargos de secretário particular e embaixador de Cromwell, conseguiu manter-se próximo ao sucessor e inimigo de Cromwell, o rei Charles II, ao salvar sua vida informando-o de um plano para matá-lo. Em 1681, foi indicado por Charles II para o cargo de "Master of Mechanics" (Mestre da Mecânica) devido ao seu bem sucedido projeto hidráulico de levar água do Rio Tâmisa para o Palácio de Windsor, utilizando suas bombas mecânicas. Mais tarde, em 1685, também projetou o sistema hidráulico do Palácio de Versailles, em Paris, para Luis XIV. (153 e 154) Gaspar Schott e Athanasius Kircher Em 1668, mais de 50 anos após sua morte, a influência de Napier continuava em ação. Neste ano, o padre jesuíta e professor de matemática Gaspard Schott (1608 – 1666), da Alemanha, criou um dispositivo chamado “Organum Mathematicum”, também baseado nos “Ossos de Napier”. Aperfeiçoando as idéias de seu antecessor, Schott substituiu as hastes de marfim originais por tubos cilíndricos, fixando-os numa caixa de modo que podiam ser girados para a obtenção dos números desejados, tornando o processo de multiplicação mais rápido. No ano seguinte, outro padre jesuíta alemão, Athanasius Kircher (1602 - 1680), com quem Gaspard Schott havia trabalhado entre 1652 e 1655, publicou um livro intitulado “Pantometrum Kircherianum”, descrevendo o desenvolvimento de uma calculadora geométrica. (161 a 164) HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 106 of 485 René Grillet de Roven Não existem muitas informações disponíveis sobre René Grillet de Roven, projetista francês de instrumentos mecânicos e conhecido por ter sido o relojoeiro do Rei Luís XIV. Originário de Roven, capital da região da Normandia no noroeste francês, o mesmo local onde foi desenvolvida a Pascaline, calculadora de Blaise Pascal, Grillet é reconhecido como o criador de diversos equipamentos tais como um higrômetro∗, grafômetros e instrumentos de desenho. A máquina de calcular de René Grillet Apesar de serem diversas as suas áreas de atuação, as máquinas de calcular ocupavam o principal interesse pessoal de Grillet que desenvolveu um equipamento para realizar operações aritméticas, aparentemente baseado tanto nas idéias de Napier como nas de Pascal, caracterizado ainda pela ausência de mecanismos para o armazenamento de resultados intermediários. (223 e 225) Em torno da invenção de Grillet pairam algumas questões sem o devido esclarecimento, reforçadas pela falta de informações mais precisas. Existe uma nota anônima, originada na década de 1640 (a mesma época da criação da Pascaline) e supostamente atribuída a Blaise Pascal, na qual é manifestada certa irritação, não dirigida a ninguém especificamente, mas que caberia bem a René Grillet, ao referir-se a “um relojoeiro de Roven, que teve o atrevimento de criar uma linda cópia da minha máquina, porém absolutamente inútil para se trabalhar.” Somente em 1673, nove anos após a morte de Pascal, Grillet publicou seu pequeno livro, intitulado “Curiositez mathematiques de l'invention du Sr Grillet horlogère a Paris” (Curiosidades matemáticas da invenção do Sr. Grillet, relojoeiro de Paris), informando sobre o dispositivo de cálculo desenvolvido por ele. John Couch Adams, Dorr Eugene Felt, Léon Bollée, Henri Genaille e Otto Steiger O legado de Napier, reforçado pelas idéias de Pascal e Leibniz, atravessou séculos estimulando pesquisadores, em diversas áreas do conhecimento, a darem continuidade ao seu trabalho. ∗ Grillet foi acusado de ter plagiado esta invenção de outro instrumentador. HISTÓRIA DA CIÊNCIA DA COMPUTAÇÃO Gilberto L. Fernandes e-mail: gilberto.fernand@uol.com.br 12/01/2014 Page 107 of 485 Em 1883, o matemático inglês John Couch Adams (1819 – 1892) projetou um dispositivo mecânico para resolver equações diferenciais.(191) Em 1887, o norte-americano Dorr Eugene Felt (1862-1930) inventou, em Chicago, a primeira calculadora com teclado e, em 1889, o inventor francês León Bollée (1870 – 1913) concebeu o aritmógrafo, uma calculadora que além das quatro operações podia extrair a raiz quadrada de números com 18 algarismos em cerca de meio minuto, recebendo por sua criação a medalha de ouro na Exposição de Paris, daquele ano. Bollée chegou a patentear seu invento na França, Alemanha, Bélgica e Hungria. Em 1891, o engenheiro civil francês Henri Genaille, encorajado por seu compatriota, o matemático François Edouard Anatole Lucas (1842 – 1891), também criou um dispositivo a partir das idéias de Napier, aperfeiçoando-o e tornando mais simples as operações de multiplicação e divisão. (193) Millionaire Em 1893, o suíço Otto Steiger (1858 - 1923) projetou em Zurique uma calculadora baseada na concepção de León Bollée, fabricada pelo engenheiro Hans W. Egli, co-fundador da importante empresa francesa da área de informática Bull, com o nome comercial de “Millionaire", alcançando a marca de 4.655 unidades vendidas no período entre os anos de 1894 a 1935.