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Resumo do livro de Patologia - Robbins Nathalia Przybylski – 2022 Aterosclerose Estrutura normal dos vasos sanguíneos Os constituintes básicos das paredes dos vasos sanguíneos são as células endoteliais (CE), as células musculares lisas (CML) e a matriz extracelular (MEC), incluindo elastina, colágeno e glicosaminoglicanas. Possuem três camadas, íntima, média e adventícia. A íntima consiste em uma única camada de CE, com quantidade reduzida de tecido conjuntivo subendotelial subjacente. Encontra-se separada da média por uma membrana elástica densa chamada de lâmina elástica interna. O limite externo da média, na maioria das artérias é uma lâmina elástica externa bem definida. Ao redor da média encontra-se a adventícia, uma camada de tecido conjuntivo contendo fibras nervosas e vasa vasorum (pequenas arteríolas provenientes de fora do vaso que suprem as porções mais externas da média nos vasos grandes e médios). As artérias são divididas em 3 grupos de acordo com seus tamanhos e características estruturais: artérias elásticas (de grande calibre), artérias musculares (de médio calibre) e artérias de pequeno calibre. Nas elásticas, a média é rica em fibras elásticas organizadas em camadas compactadas separadas e alternadas por camadas de CML. Nas musculares, a média é composta principalmente de CML em disposição circular ou em espiral e a elastina é restrita às membranas interna e externa. Os capilares possuem revestimento de CE, mas não apresentam a camada média. Células Endoteliais As junções intercelulares das CE são impermeáveis a grandes moléculas como proteínas plasmáticas, contudo, podem se afastar sob influência de fatores hemodinâmicos e agentes vasoativos. Além disso, as CE exercem um papel na manutenção da interface sangue-tecido não-trombogênica, na modulação do fluxo sanguíneo, na resistência vascular, no metabolismo de hormônios, na regulação de reações imunes e inflamatórias e na regulação do crescimento de outros tipos celulares, particularmente as CML. Uma perda franca (desnudação) de CE estimula trombose e proliferação de CML. As CE estruturalmente intactas podem responder a uma variedade de estímulos fisiopatológicos ajustando suas funções habituais e expressando novas propriedades adquiridas, um processo chamado de ativação endotelial. Os indutores da ativação endotelial são citocinas e produtos bacterianos que provocam inflamação e choque séptico; estresse hemodinâmico e produtos lipídicos que contribuem para a aterosclerose; produtos finais da glicosilação avançada; vírus; componentes do complemento e hipóxia. As CE ativadas, por sua vez, expressam moléculas de adesão e produzem outras citocinas e quimiocinas, fatores de crescimento, moléculas vasoativas (vasodilatadores e vasconstritores), moléculas de MHC, pró-coagulantes e anticoagulantes e outros produtos biologicamente ativos. Essas CE influenciam a vasorreatividade das CML subjacentes através da produção de fatores de relaxamento (ex: NO) e de contração (ex: endotelina). A função normal do endotélio é caracterizada por um equilíbrio entre esses fatores e a capacidade dos vasos de responder de modo apropriado a diversos estímulos farmacológicos. A disfunção endotelial é caracterizada por alterações que prejudicam a vasorreatividade ou induzem uma superfície trombogênica ou anormalmente aderente a células inflamatórias, sendo responsável pelo início da formação de trombo, aterosclerose e lesões vasculares da hipertensão ou outros transtornos. Alguns distúrbios de CE são rapidamente estabelecidos (em minutos), reversíveis e independentes da síntese de novas proteínas, enquanto outros envolvem alteração na expressão de genes e síntese de proteínas, podendo levar dias para se desenvolver. Células Musculares Lisas São o elemento celular predominante na média dos vasos, sendo responsáveis pela vasoconstrição e vasodilatação em resposta a estímulos normais ou farmacológicos. Sintetizam colágeno, elastina, proteoglicanos, fatores de crescimento e citocinas. Essas células migram para a íntima e se proliferam quando ocorre uma lesão vascular. São, portanto, importantes tanto no reparo vascular normal quanto nos processos patológicos como na aterosclerose. As atividades de migração e proliferação das CML são reguladas por promotores de crescimento (PDGF, FGF, IL-1, IFN-gama, endotelina e trombina), inibidores (NO, TGF- beta e heparam sulfatos), sistema RA, catecolaminas e receptor de estrogênio. Espessamento da íntima – uma resposta a lesões vasculares da íntima Lesões vasculares por perda aguda de CE ou lesão/disfunção endotelial crônica estimulam o crescimento de CML. A reconstituição da parede vascular lesionada é uma resposta fisiológica de cicatrização que inclui a formação de uma neoíntima, a migração de CML da média para a íntima, a proliferação das CML na íntima e a síntese e deposição de MEC por essas CML. Durante a resposta de cicatrização, as CML sofrem alterações semelhantes a uma desdiferenciação, pois na íntima, elas deixam de ser contráteis, pela redução dos filamentos contráteis, e adquirem a capacidade de se proliferar, pois aumentam número de REG e CG. As CML podem retornar ao seu estado não-proliferativo após a reconstituição da camada endotelial subjacente subsequente a lesão aguda ou quando a estimulação crônica cessar. Entretanto, uma resposta exacerbada de cicatrização provoca espessamento ou hiperplasia da íntima, que quando excessivos, podem resultar em estenose ou oclusão dos vasos sanguíneos de pequeno e médio calibres. Normalmente ocorre espessamento da íntima em artérias como resultado do envelhecimento. Aterosclerose Arteriosclerose é um termo genérico para o espessamento e perda da elasticidade das paredes arteriais. A aterosclerose é o padrão de arteriosclerose mais frequente e importante. É caracterizada por lesões na íntima denominadas ateroma ou placas ateromatosas ou fibrogordurosas, que invadem e obstruem o lúmen vascular e enfraquecem a média subjacente e que podem provocar sérias complicações. A aterosclerose é responsável por aproximadamente metade de todas as mortes. As lesões ateroscleróticas são divididas em 6 tipos, iniciando com células espumosas e indo até lesões avançadas. As estrias gordurosas compreendem a lesão inicial da aterosclerose. São compostas por células espumosas repletas de lipídeos (intracelulares). Como não são notavelmente elevadas, não provocam alterações no fluxo sanguíneo. Surgem como múltiplas manchas amarelas planas muito pequenas, que coalescem em longas estrias. Contêm linfócitos T e lipídeos extracelulares em quantidades menores que as placas. As estrias gordurosas surgem na aorta de algumas crianças com menos de 1 ano de idade e em todas as crianças com mais de 10 anos. Já as estrias coronarianas, começam a se formar na adolescência, em locais anatômicos que podem ser propensos ao desenvolvimento das placas. A relação entre as estrias gordurosas e as placas ateroscleróticas é complexa. As estrias relacionam-se com os fatores de risco conhecidos para a aterosclerose em adultos, especialmente concentrações plasmáticas de colesterol e tabagismo, e algumas evidências apoiam o conceito da evolução das estrias gordurosas em placas. Entretanto, as estrias ocorrem com frequência em áreas da vasculatura que não são particularmente suscetíveis ao desenvolvimento de ateromas nos estágios posteriores da vida. Além disso, as estrias frequentemente acometem indivíduos em locais e populações geográficas onde a ocorrência das placas ateroscleróticas é incomum. Aindaque as estrias possam ser precursoras das placas, nem todas as estrias gordurosas estão destinadas a se tornar placas fibrosas ou lesões mais avançadas. As placas ateroscleróticas surgem primariamente nas artérias elásticas (ex: aorta, carótidas e ilíacas) e nas artérias musculares de grande e médio calibres (ex: coronárias). A doença aterosclerótica sintomática acomete mais frequentemente artérias que irrigam o coração, o cérebro, os rins e as extremidades inferiores. IAM, AVE, aneurismas de aorta e doença vascular periférica são as principais consequências da aterosclerose. Oferece risco por ter outras consequências relacionadas com a perfusão arterial reduzida de modo crônico ou agudo, como morte súbita cardíaca, doença cardíaca isquêmica crônica e encefalopatia isquêmica. Nas artérias pequenas, os ateromas podem obstruir os lumens, comprometendo o fluxo sanguíneo dos órgãos mais distantes e resultando em lesão isquêmica. O processo-chave na aterosclerose é o espessamento da íntima e o acúmulo de lipídeos. Um ateroma ou placa ateromatosa consiste em uma lesão focal elevada que tem início na íntima, apresentando um centro lipídico de colesterol coberto por uma cápsula fibrosa firme e branca. Ela invade o lúmen das artérias e se torna cada vez mais numerosa e difusa conforme a doença progride. Possuem como principais componentes CML, macrófagos e demais leucócitos, MEC (colágeno, fibras elásticas e proteoglicanos) e lipídeos intracelulares e extracelulares. Estrutura das placas: o Cápsula fibrosa superficial: composta por CML e MEC densa. o Abaixo e ao lado da cápsula: compostas por macrófagos, CML e linfócitos T. o Região profunda: localiza-se o centro necrótico, contendo uma massa lipídica desordenada, fendas de colesterol, restos de células mortas, células espumosas, fibrina, trombos e proteínas plasmáticas. o Ao redor da periferia das lesões: neovascularização com vasos pequenos em proliferação. Obs.: Células espumosas são células grandes repletas de lipídeos, principalmente os macrófagos teciduais derivados de monócitos, mas CML também podem absorver lipídeos e se transformar em células espumosas. Patogênese Segundo a hipótese de resposta a lesão, a aterosclerose consiste em uma resposta inflamatória crônica da parede arterial, iniciada por lesão do endotélio. A progressão da lesão é mantida pela interação entre as lipoproteínas modificadas, macrófagos derivados de monócitos, linfócitos T e constituintes celulares normais da parede arterial. Ocorre: Lesão endotelial crônica, geralmente sutil, com consequente disfunção endotelial, resultando em elevada permeabilidade, adesão leucocitária e potencial trombótico. o A lesão endotelial crônica ou repetida é o ponto principal da hipótese de resposta a lesão. No entanto, as lesões iniciais surgem em locais de endotélio morfologicamente intacto. Sendo assim, a anomalia que desencadeia a doença pode ser uma disfunção endotelial não- desnudante, resultando em permeabilidade endotelial elevada, aumento da adesão leucocitária e alterações na expressão de produtos de genes das células endoteliais. o A causa específica da disfunção endotelial na aterosclerose não é conhecida, mas sugere-se subprodutos da fumaça de cigarro, homocisteína, vírus e outros agentes infecciosos. Citocinas inflamatórias como TNF estimulam a expressão de genes endoteliais que podem promover a aterosclerose. No entanto, acredita-se que os dois principais determinantes importantes das alterações endoteliais sejam as alterações hemodinâmicas e os efeitos adversos da hipercolesterolemia. o Áreas de fluxo perturbado, turbulento e baixo estresse de cisalhamento são propensas a aterosclerose, enquanto que aquelas com fluxo laminar parecem protegidas. O fluxo laminar normal, normalmente encontrado em áreas da vasculatura protegidas da lesão, bloqueia os mecanismos inflamatórios que medeiam a disfunção endotelial e apoptose de CE, importantes na erosão das placas. Também ocorre ativação de genes endoteliais cujos produtos, como antioxidante superóxido dismutase, protegem contra o desenvolvimento de lesões. Adesão de monócitos plasmáticos e outros leucócitos ao endotélio, seguida por sua migração para a íntima e transformação em macrófagos e células espumosas. o A inflamação medeia o estabelecimento, a progressão e as complicações das lesões ateroscleróticas. o O endotélio normal não permite a ligação de leucócitos, no entanto, nas fases iniciais da aterogênese, as CE começam a expressar em sua superfície moléculas de adesão seletivas, que se ligam a diversas classes de leucócitos. A molécula de adesão de células vasculares-1 (VCAM-1) se liga precisamente aos monócitos e linfócitos T. o Após adesão dos monócitos ao endotélio, eles migram entre as CE para a íntima, estimulados em grande parte por citocinas, transformam-se em macrófagos e englobam avidamente lipoproteínas, principalmente LDL oxidadas. o Os macrófagos produzem IL-1 e TNF, que elevam a adesão de leucócitos. o Os macrófagos produzem espécies tóxicas de oxigênio que causam a oxidação do LDL nas lesões e produzem fatores de crescimento que podem contribuir para a proliferação das CML. o Linfócitos T também são recrutados para a íntima por quimioatração. O diálogo entre eles e os macrófagos induz ativação imune celular e humoral, características do estado inflamatório crônico. o Os leucócitos ativados podem liberar mediadores fibrogênicos que promovem a proliferação de CML e contribuem para a elaboração por essas células de MEC densa, característica da lesão aterosclerótica mais avançada. Acúmulo de lipoproteínas nas paredes vasculares, principalmente LDL, com elevados conteúdos de colesterol, e modificação de lipoproteínas lesionais por oxidação. o As dislipoproteínas são resultantes de mutações que geram lipoproteínas defeituosas ou outras anormalidades como níveis de colesterol LDL elevados, níveis de colesterol HDL reduzidos e níveis elevados da lipoproteína Lp (a) anormal. Defeitos genéticos no metabolismo de lipoproteínas provocando hiperlipoproteinemia estão associados à aterosclerose acelerada. Outros distúrbios genéticos adquiridos como diabetes mellitus, que provocam hipercolesterolemia, resultam em aterosclerose prematura e severa. o Os principais lipídeos nas placas de ateroma são colesterol e ésteres de colesterol derivados do plasma. o A hipercolesterolemia pode prejudicar diretamente a função das CE por elevar a produção de radicais livres de oxigênio, que desmobilizam o NO, principal fator de relaxamento endotelial. o As lipoproteínas se acumulam no interior da íntima em locais de elevada permeabilidade endotelial. o Alterações lipídicas químicas induzidas por radicais livres gerados em macrófagos e CE geram LDL oxidada. A LDL oxidada é encontrada em macrófagos em artérias em locais de estrias gordurosas. o A LDL oxidada é ingerida por macrófagos através do receptor depurador, em vez do receptor de LDL, formando células espumosas. o A LDL oxidada aumenta o acúmulo de monócitos nas lesões. o A LDL oxidada estimula a liberação de fator de crescimento e citocinas. o A LDL oxidada é citotóxica para CE e CML. Adesão de plaquetas. Liberação de fatores de macrófagos ou plaquetas ativadas ou células vasculares que provocam migração das CML da média para a íntima. o As CML migram da média para a íntima, onde proliferam e depositam componentes da MEC,transformando as estrias gordurosas em ateromas fibrogordurosos e contribuindo para o crescimento progressivo das lesões ateroscleróticas. Fatores como TGF-alta, PDGF (de macrófagos, CE, CML e plaquetas aderidas) e FGF estão envolvidos. o As CML podem absorver lipídeos modificados, contribuindo para a formação de células espumosas. o As CML sintetizam moléculas da MEC, principalmente colágeno, que estabilizam a placa aterosclerótica. Contudo, as células imunes e inflamatórias ativadas nas placas podem provocar a morte das CML da íntima por apoptose. Em estágios iniciais, a placa na íntima é um agregado de células espumosas originadas de CML e macrófagos, incluindo algumas que morreram e liberaram lipídeos e restos celulares. Com a progressão, o ateroma é modificado por colágeno e proteoglicanos sintetizados por CML. O tecido conjuntivo é particularmente proeminente na face da íntima, produzindo a cápsula fibrosa, mas muitas lesões retêm um núcleo central de células repletas de lipídeos e restos celulares gordurosos. A ruptura da cápsula fibrosa com trombo superposto está geralmente associada a eventos clínicos bem graves. Além disso, os processos inflamatórios são uma contribuição significativa para precipitar complicações agudas da aterosclerose. Complicações nas placas ateroscleróticas As placas podem se romper e precipitar, formando trombos que aumentam a obstrução do fluxo sanguíneo. Nas artérias maiores, as placas invadem a média subjacente e enfraquecem a parede do vaso afetado, causando aneurismas que podem se romper. Além disso, ateromas extensos podem liberar êmbolos na circulação distal. A lesão avançada da aterosclerose representa risco de desenvolver diversas alterações patológicas de importância clínica: Ruptura focal (ou erosão ou ulceração) da superfície luminal das placas: podem resultar na expressão de moléculas altamente trombogênicas, que induzem a formação de trombos ou a liberação de fragmentos na corrente sanguínea, produzindo microêmbolos de colesterol. Hemorragia nas placas: pode ser provocada pela ruptura da cápsula fibrosa ou dos capilares de paredes finas que vascularizam a placa. Um hematoma contido pode expandir a placa ou provocar sua ruptura. Trombose superposta: geralmente ocorre em lesões rompidas (ruptura, ulceração, erosão ou hemorragia) e pode obstruir o lúmen parcial ou totalmente. Os trombos podem ser incorporados na placa da íntima, aumentando seu tamanho. Dilatação aneurismática: pode resultar da atrofia induzida por aterosclerose da média subjacente, havendo perda de tecido elástico e resultando em fraqueza e ruptura. Fatores de Risco Os fatores de risco para aterosclerose podem ser constitucionais ou não-genéticos. São eles os principais: Idade: é uma influência dominante. A aterosclerose não costuma ser evidente até a meia-idade ou posteriormente. Sexo: os homens são mais propensos à aterosclerose e suas consequências do que as mulheres. IAM e outras consequências não são comuns em mulheres sem outras comorbidades antes da menopausa. Após a menopausa, com a redução dos níveis de estrogênio, a propensão ao IAM e outras doenças relacionadas à aterosclerose se iguala entre os sexos após os 70/80 anos. Genética: está mais comumente relacionada com agrupamento de outros fatores de risco como hipertensão, diabetes e com menos frequência a distúrbios genéticos hereditários no metabolismo de lipoproteínas, que resultam em níveis elevados de lipídeos no sangue. Hiperlipidemia: é o principal fator de risco para a aterosclerose, especificamente a hipercolesterolemia. Níveis elevados de colesterol no plasma são suficientes para estimular o desenvolvimento de lesões. Hipertensão: é um fator de risco importante para todas as idades. Tabagismo Diabetes mellitus: provoca hipercolesterolemia e elevação acentuada na predisposição à aterosclerose. Homocistinúria: provavelmente devido a um consumo reduzido de folato e de vitamina B. Outros fatores difíceis de quantificar estão associados a um risco menor, como falta de exercícios físicos, estilo de vida estressante e ganho de peso irrestrito. Múltiplos fatores de risco podem ter um efeito multiplicativo. A existência de dois dos principais fatores de risco eleva muito o risco. Quando três fatores de risco estão presentes, aumenta mais ainda. No entanto, a aterosclerose e suas consequências podem surgir na ausência de qualquer fator de risco. Prevenção A prevenção objetiva reduzir as consequências e o impacto da aterosclerose, através de prevenção primária, visando retardar a formação do ateroma ou provocar regressão das lesões já estabelecidas, e de prevenção secundária, para prevenir a recorrência de eventos como IAM em pacientes com doença sintomática. A prevenção primária consiste na modificação dos fatores de risco: abstenção ou interrupção do hábito de fumar, controle da hipertensão, redução do peso, aumento de exercícios físicos, consumo moderado de álcool e, acima de tudo, redução dos níveis plasmáticos de colesterol total e LDL, e aumento de HDL. Além disso, sugere-se que a avaliação e a prevenção dos fatores de risco devem começar na infância, visto que a doença aterosclerótica arterial coronariana tem início na infância. Cardiopatia Isquêmica O evento dominante nas síndromes da CI é a perfusão coronariana diminuída em relação à demanda miocárdica, decorrente em grande parte de uma interação complexa e dinâmica entre o estreitamento aterosclerótico fixo das artérias coronárias epicárdicas, trombose intraluminal que cobre uma placa aterosclerótica rompida, a agregação plaquetária e o vasoespasmo. Mais de 90% dos pacientes com CI têm uma aterosclerose de uma ou mais artérias coronárias. As manifestações clínicas da aterosclerose coronariana são em geral resultantes da progressiva invasão do lúmen que leva a uma estenose (obstruções “fixas e crônicas) ou ruptura aguda da placa acompanhada de trombose, que compromete o fluxo sanguíneo. Uma obstrução fixa que oclui 75% ou mais do lúmen geralmente causa isquemia sintomática induzida por exercícios físicos. Nesse grau de obstrução, o aumento do fluxo coronariano proporcionado pela vasodilatação compensatória não é mais suficiente para satisfazer até mesmo os aumentos moderados da demanda miocárdica. Uma estenose de 90% pode produzir um fluxo coronariano inadequado até mesmo no repouso. As oclusões que se desenvolvem lentamente podem, com o passar do tempo, estimular a formação de vasos colaterais, que protegem contra a isquemia e o IAM mesmo na presença de uma estenose final de alto grau. O início dos sintomas e o prognóstico da doença dependem da extensão, da gravidade e, de modo decisivo, das alterações dinâmicas na morfologia da placa coronariana. Alterações agudas na placa Na maioria dos pacientes, a isquemia do miocárdio subjacente à angina instável, ao IAM e à morte súbita cardíaca é precipitada por uma alteração abrupta da placa seguida de trombose. Frequentemente, o evento desencadeador é a ruptura de placas que previamente eram apenas parcialmente estenosantes, acompanhadas de: Ruptura/fissuramento que expõe os constituintes altamente trombogênicos da placa; Erosão/ulceração que expõe a membrana basal subendotelial trombogênica ao sangue; Hemorragia no interior do ateroma, que expande seu volume. A estrutura e a composição de uma placa são dinâmicas e contribuem para umapropensão à ruptura. É mais provável que sofram ruptura e sejam chamadas de “placas vulneráveis” aquelas que: Contêm grandes áreas de células espumosas e lipídeos extracelulares; Cuja capa fibrosa é fina, ou contém poucas células musculares lisas, ou tem agrupamentos de células da inflamação. A placa pode passar por um contínuo remodelamento, e o equilíbrio entre a síntese e a degradação do colágeno, principal componente estrutural da placa, é responsável pela sua resistência mecânica e determina a estabilidade e o prognóstico da placa. O colágeno é produzido pelas CML e degradado pelas MMP secretadas pelos macrófagos no interior do ateroma. Dessa forma, a inflamação desestabiliza a integridade mecânica das placas. Além disso, acredita-se que as estatinas estabilizem as placas por meio do seu efeito redutor de lipídeos e pela redução da inflamação nas placas. As influências extrínsecas à placa também são importantes. A estimulação adrenérgica pode elevar o estresse físico sobre a placa por meio da hipertensão sistêmica ou do vasoespasmo local. A estimulação adrenérgica associada aos atos de despertar e levantar provoca uma periodicidade circadiana acentuada durante o período no qual se inicia o IAM, com uma incidência-pico entre 6h da manhã e o meio-dia, simultânea ao incremento da pressão arterial; O estresse emocional intenso também pode contribuir para a ruptura da placa. Sabe-se agora que a lesão preexistente encontrada nos pacientes que desenvolvem IAM e outras síndromes coronarianas agudas não é necessariamente aquela lesão que se apresenta intensamente estenosante e hemodinamicante significativa antes de sua alteração aguda. As placas que sofrem ruptura abrupta que leva à oclusão coronariana são com frequência aquelas que produziram previamente apenas uma estenose luminal leve a moderada. Dessa forma, um número grande de adultos no mundo, atualmente assintomáticos, têm um risco real e imprevisível de sofrer um evento coronariano catastrófico. O papel da inflamação Os processos inflamatórios desempenham papéis importantes desde a formação da aterosclerose até o desenvolvimento de suas complicações. O estabelecimento da lesão inicial necessita da interação entre as CE e os leucócitos circulantes, que leva ao acúmulo de macrófagos e linfócitos T na parede arterial, como consequência da liberação de quimiocinas pelas CE e da expressão aumentada de moléculas de adesão nessas CE (ICAM-1, VCAM-1, E-selectina, P-selectina). Os linfócitos T na parede arterial produzem citocinas inflamatórias como TNF, INF-gama E IL-6, que estimulam as CE e ativam os macrófagos, que se tornam repletos de LDL oxidada. Nas etapas posteriores da aterosclerose, a desestabilização e a ruptura das placas podem envolver a secreção de MMP pelos macrófagos, que enfraquecem a placa por digerirem o colágeno da capa fibrosa ou na borda da lesão. O papel do trombo coronariano A trombose parcial ou total associada a uma placa rompida é decisiva para a patogênese das síndromes coronarianas agudas. Na forma mais grave de infarto, o IAM transmural, o trombo superposto a uma placa rompida, que previamente era parcialmente estenosante, dá origem a uma oclusão total. Em contraposição, na angina instável, no infarto subendocárdico agudo ou na morte súbita cardíaca, a extensão da obstrução do lúmen causada por uma trombose é geralmente incompleta (trombo mural) e pode crescer e minguar com o tempo. O trombo mural em uma coronária pode se transformar em um êmbolo e é um potente ativador de múltiplos sinais relacionados com o crescimento no interior das CML que podem contribuir para o crescimento das lesões ateroscleróticas. O papel da vasoconstrição A vasoconstrição compromete o tamanho do lúmen e, por meio do aumento das forças mecânicas locais, pode potencializar a ruptura das placas. A vasoconstrição que ocorre em locais com ateroma é estimulada por: Agonistas adrenérgicos circulantes; Conteúdo plaquetário liberado localmente; Secreção deficiente de fatores relaxantes das CE em relação aos constritores, devido à disfunção endotelial associada à aterosclerose; Mediadores liberados por células inflamatórias perivasculares. Resumindo, as síndromes coronarianas agudas (angina, IAM e morte súbita) têm como base fisiopatológica comum a ruptura da placa aterosclerótica coronariana e a subsequente formação de trombo intraluminal composto de plaquetas e fibrina. A consequência mais importante é a isquemia miocárdica abaixo da região do trombo. Angina estável: resulta de aumentos da demanda de oxigênio pelo miocárdio que ultrapassam a capacidade das artérias coronárias acentuadamente estenosadas de elevar a oferta de oxigênio, em situações de atividade física ou estresse emocional, deixando o coração vulnerável a uma isquemia adicional. Geralmente não está associada à ruptura de placa. É aliviada com o repouso (redução da demanda) e com nitroglicerina. Angina instável: resulta de uma alteração súbita na morfologia da placa, que desencadeia a agregação plaquetária parcialmente oclusiva ou a formação do trombo mural, e de uma vasoconstrição que provoca reduções intensas mas transitórias do fluxo sanguíneo coronariano. Provoca dor que ocorre com frequência crescente, é precipitada por esforços progressivamente menores, ocorre quase sempre em repouse e tende a ter duração mais prolongada. É quase sempre o pródromo de um subsequente IAM, sendo referida como “angina pré-infarto”. IAM: a alteração aguda da placa produz uma oclusão trombótica total. Morte súbita: lesão da placa em que o trombo e possivelmente um êmbolo causam isquemia miocárdica que desencadeia uma arritmia ventricular fatal.