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Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes
Departamento de Letras
Disciplina: Literatura Brasileira I
Docente: Derivaldo dos Santos
Discente: Nayara Lima
Candido, Antonio. Iniciação à literatura brasileira: resumo para principiantes. – 3. ed.– São Paulo : Humanitas/ FFLCH/USP, 1999. 98p.
	Em Iniciação à Literatura Brasileira, Antonio Candido mapeia a origem e os percursos da literatura local, os caminhos e somas que fizeram-na tomar suas formas, o que o autor chama de “desenho geral da literatura”.
	A literatura brasileira num dado momento buscou desvincular-se do modelo literário europeu, uma forma de gerar sua própria identidade com base na originalidade. Apesar de toda essa busca, é impossível romper o vínculo por completo, já que historicamente a influência colonizadora deixou arraigada muitos fragmentos culturais, e na literatura, não seria diferente.	
Candido frisa que ainda que “modificada pelas condições do novo mundo”, a literatura brasileira manteve-se atrelada às literaturas ocidentais, já que no processo contínuo e mútuo da língua, sociedade e cultura, a imposição da cultura do colonizador sobre o colonizado foi demasiadamente dominante. Havia uma discrepância e abismo cultural, onde o explorado, “cedeu” lugar ao explorador. Diante disso, o autor afirma que a formação da sociedade brasileira distancia-se de uma “certa imaginação romântica nacionalista”, que durante muito tempo preferia acreditar que somos apenas um rastro de um prolongamento cultural externo, quando na verdade fomos gerados em um berço de diferença cultural, que embalou uma literatura nascida lá fora, mas que foi criada aqui. Pode-se dizer que existe um DNA estrangeiro em muito do que nos constitui culturalmente.
A literatura trazida pelos portugueses era arraigada pela influência renascentista italiana, marcada por um tom extremamente culto e elevado, uma linguagem que descreveu o mundo selvagem e cheio de mistérios que desnudava-se diante dos olhos que desbravavam esta terra. Diante de tudo, é possível dizer que a literatura brasileira é fruto de uma imposição cultural, que durante seu trajeto foi adaptando-se aos aspectos sociais e culturais, ganhando um rosto mais seu, diante de todas as particularidades. O nosso verdadeiro “prolongamento literário” é o transplante de uma literatura culta portuguesa, que agiu da mesma forma que a cultura dominante da imposição colonizadora. Dessa maneira, é perceptível o quão dominante são as ferramentas de colonização, refletindo não somente nos âmbitos políticos e socias da Metrópole, mas em toda uma conjuntura cultural. No fim das contas tudo esteve sempre muito atrelado. Vale ressaltar, que nessa influência, ainda havia a religião, que tomando posse da literatura, disseminava seus valores e um modelo social que deveria ser seguido. Em meio a tudo, o povo subjugado, seguia perdendo o espaço de expressão e visão de mundo, num pódio que só havia lugar para a classe dominante.												Antonio Candido diz que é possível afirmar que a literatura brasileira teve um “duplo movimento de formação”, onde de um lado prevaleciam os temas reais que serviriam para a construção de enredos, ainda que distantes dos padrões que sugeriam a Metrópole, e do outro lado, uma adaptação geral, para expressar os sentimentos e a realidade social. Nisso residia um forte desejo de experimentar o Novo Mundo, sem abandonar o velho e perder o contato com as raízes ocidentais. Os traços da mitologia greco-latina são prova dessa continuidade de influência, que para Candido não deveriam ter sido vistas como diminuição e subserviência da literatura local, mas como afirmação da realidade de que aqui ocorria uma “segunda Europa”, como afirma Ruggero Jacobbi. A literatura brasileira deve ser considerada pela perspectiva das obras baseadas e transpostas pela Metrópole, assim como as que diferiam os temas e formatos de expressão literária, uma literatura derivada no meio desses dois processos de formação, que ganhou sua face e identidade, ao mesmo tempo que a Colônia tornava-se nação e fortificava também seu aspecto identitário. 
Ao considerar todo processo como um ponto de partida para a compreensão da formação da história da literatura brasileira, o autor divide as etapas de construção da seguinte forma: :” (1) a era das manifestações literárias, que vai do século XVI ao meio do século XVIII; (2) a era de configuração do sistema literário, do meio do século XVIII à segunda metade do século XIX; (3) a era do sistema literário consolidado, da segunda metade do século XIX aos nossos dias.” Dentro desse percurso construtor, o autor passeia pelas escolas literárias, desbravando as características, grandes autores e faces, vai do Barroco até o Modernismo, sendo esta última, a grande ruptura com as demais tendências anteriores. 
	Candido frisa que em meio a toda transposição já citada, sempre predominou a falta de sensibilidade para sentir a complexidade que habita na formação de uma sociedade. O requinte social se estendeu ao requinte literário, de modo sufocante, calando uma vida literária que poderia nascer de seu próprio chão. Vida que só passou a respirar por seu próprio fôlego em meados do século XVIII, quando ocorreu o esboço da “República das Letras”. Nesse dado momento, passamos a ter um melhor esboço do que poderia ser chamado de literatura brasileira, com grandes manifestações culturais da Colônia em um desabrochar mais natural, mais característico, um momento que a literatura brasileira caminha sem a sombra de Portugal. Nessa jornada, o autor nomeia o ponto de chegada, o verdadeiro nascimento de nossa literatura, de “sistema literário consolidado”, no qual figura com grande importância Machado de Assis, autor que para muitos, até hoje, é o maior símbolo da literatura brasileira. 
	Antonio Candido finaliza sua obra, a qual atribui modestamente o nome de “observações”, como uma retrospectiva de um processo da literatura brasileira até a chegada de sua maturidade plena. Certamente a literatura seguirá adquirindo outras tantas formas e faces, assim como as transformações que seguem o mundo, como seguiram na época do Brasil Colônia, mas hoje, uma literatura com raízes mais próprias, amparada por um solo fértil de grandes nomes que constituíram toda jornada de maturação. 					O autor coloca que os escritores recentes abrolham sua arte “desligados de tendências e movimentos” e, ainda que não citados na perspectiva histórica de sua obra, seguem produzindo literatura de qualidade, numa cultura que segue a amadurecer. Todavia, Candido ressalta, que entre eles ainda não figure alguém de alto relevo como os últimos grandes nomes da literatura, dos quais cita João Cabral, Guimarães Rosa e “até certo ponto”, Clarice Lispector.
	Ler a presente obra, nos situa num panomara social, histórico e cultural de importante valor para o entendimento da construção da literatura brasileira, de nossa tradição literária.

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