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O livro analisa a incompreensão atual relativa à diversidade de fundamentos do direito privado, defendendo a viabili dade de compatibilização da justiça co mutativa e da justiça distributiva como formas de compreensão das bases dos institutos jurídicos privatistas. O estudo avalia as teorias dominantes formalistas, funciona listas sociais e funcionalistas econômicas do direito privado e detec ta um elemento compartilhado por to das: a teoria da justiça. O problema central identificado - que determina o atual conflito teórico - de corre da perda gradativa da relação do direito com a teoria da justiça clássica, aristotélico-tomista, operada paulatina mente a partir da Escola Moderna do Direito Natural. A crescente desconexão entre justiça e direito determinou a erra dicação do sentido essencial da justiça geral das análises jusprivatistas. A hipótese central apresentada para a superação desse problema entende que o resgate da justiça geral, transformada em justiça social na modernidade pela nova ordem centrada na igual dignidade humana, consubstanciada através da ga rantia das capaddades humanas básicas através de direitos fundamentais, permi te compreender que o direito privado é caracterizado por relações horizontais de direitos e deveres entre particulares que são racionalmente entendidos nos termos da justiça particular (comutativa e distributiva) ordenada pela justiça social da igual dignidade e reconhecimento e institudonalizada a partir da Constituição e dos direitos fundamentais. Rafael de Freitas Valle Dresch é advogado e professor universitário, especialista e mestre em Direito Privado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Doutor em Direito pela PUCRS, com estágio de doutoramento (Doutorado Sanduíche) na University of Edinburgh na Escócia, Reino Unido. Professor da Graduação e da Pós-Graduação Stricto Sensu da Escola de Direito da Universidade Unisinos. FUNDAM ENTOS DO DIREITO PRIVADO Uma Teoria da Justiça e da Dignidade Humana Como pode a função social da propriedade, do contrato e da empresa fundamentar uma decisão contrária aos interesses de um grupo (trabalhadores) qualificado como frágil na sociedade? A função social não preconiza justamente a proteção do mais fraco e o equi líbrio de poder nas relações sociais? Este livro parte da premissa de que a doutrina atual jusprivatista, tanto formalista/voluntarista quanto funcionalista social ou econômica, não apresenta uma explicação adequada para essas questões e, diante dessa ausência, obje tiva esclarecer o problema com base no debate contemporâneo sobre o papel da teoria da justiça e da Constituição no estudo do direito privado. O Capítulo 1 trata das diversas análises teóricas que estabelecem a justiça comutativa como racionalidade central do direito privado. O estudo, ainda, aborda aquela que pode ser considerada uma das mais completas análises atuais sobre direito privado nos termos da tradição jusprivatista: a teoria dos fundamentos do direito privado de James Gordley. No Capítulo 2 são analisadas as concepções de direito privado que acabam por determinar a sua racionalidade nos termos da justiça distributiva. No terceiro e definitivo capítulo, é abordado, especificamente, o argumento principal aqui defendido, qual seja: de que o direito privado é caracterizado por racionalidades centradas na justiça comutativa e na justiça distributiva, moduladas pelas premissas fixadas pela justiça social, que define uma justiça substantiva, tendo por objetivo "igual dignidade e reconhecimento" dos indivíduos. Aplicação Livro-texto para a disciplina Teoria do Direito Privado e leitura complementar para as disciplinas Direito Civil I - Parte Geral, Teoria Geral do Direito e Filosofia do Direito dos cursos de graduação e pós-graduação em Direito. Obra aplicada aos estudos acadêmicos e profissionais, em nível de graduação e pós-graduação, interessados na investigação do direito privado e de seus diversos institutos, tais como os contratos, a responsabilidade civil, a família, a sucessão, a empresa, as sociedades, as falências e recuperações empre sariais, as relações de consumo e de trabalho, a propriedade intelectual, entre outros. a t l a s . c o m . b r R A FA EL de Freitas Valle Dresch FUNDAMENTOS DO DIREITO PRIVADO Uma teoria da justiça e da dignidade humana SÃ O PAULO ED ITO RA ATLAS S.A. - 2013 2013 by Editora Atlas S.A. vV ,<>*;,v i Ä iCapa: Zenário A. de Oliveira ____ Projeto gráfico e composição: Set-up Time Artes Gráficas Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (OP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Dresch, Rafael de Freitas Valle Fundamentos do direito privado: uma teoria da justiça e da digni dade humana / Rafael de Freitas Valle Dresch. — São Paulo: Atlas, 2013. Bibliografia. ISBN 978-85-224-8048-7 epdf-ISBN 978-85-224-8049-4 1. Brasil - Constituição 2. Dignidade humana 3. Direito privado 4. Direitos fundamentais 5. Formalismo 6. Funcionalismo 7. Justiça - Teoria I. Título. 13-06301 CDU-347 índice para catálogo sistemático: 1. Direito privado : Fundamentos constitucionais 347 TODOS OS DIREITOS RESERVADOS - É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio. A violação dos direitos de autor (Lei n° 9.610/98) é crime estabelecido pelo artigo 184 do Código Penal. N-l Editora Atlas S.A. Rua Conselheiro Nébias, 1384 Campos Elísios 01203 904 São Paulo SP 011 3357 9144 atlas.com.br Para os meus fundamentos: Neiva, Renato, Noeli, Renata, Rodolfo e Fernanda A Liberdade e a Justiça A revolução do século XX separou arbitrariamente, para fins des mesurados de conquista, duas noções inseparáveis. A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo. A justiça absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas noções devem descobrir os seus limites uma dentro da outra. Nenhum homem considera livre a sua condição se ela não for ao mesmo tempo justa, nem justa se não for livre. Precisamente, não pode conceber-se a liberdade sem o poder de clarificar o justo e o injusto, de reivindicar todo o ser em nome de uma parcela de ser que se recusa a extinguir-se. Finalmente, tem de haver uma justiça, embora bem diferente, para se restaurar a liberdade, único valor imperecível da história. Os homens só morrem bem quando o fizeram pela liberdade: pois, nessa altura, não acreditavam que morressem por completo. “O Mito de Sísifo” Camus, Albert Sumário X Fundamentos do direito privado • Dresch Introdução, 1 1 O direito privado como justiça corretiva, 17 1.1 As origens da comutatividade no direito privado, 18 1.2 A teoria formalista de Ernest Weinrib, 31 1.3 O pragmatismo de Jules Coleman, 40 1.4 A análise de James Gordley sobre os fundamentos do direito privado, 55 1.5 Análise comutativa das questões centrais propostas, 66 2 O direito privado como justiça distributiva, 71 2.1 O surgimento do coletivismo fundonalizante, 72 2.2 A análise sociológica do Direito Social, 84 2.3 O modelo da Análise Econômica do Direito, 96 2.4 As teorias igualitaristas, 106 2.5 Análise distributiva das questões centrais propostas, 118 3 O direito privado na divisão complexa da justiça, 123 3.1 A justiça geral e legal como antecedentes da justiça social na teoria da justiça, 128 3.2 A justiça social: um fruto da modernidade, 133 3.3 A justiça social e a dignidade da pessoa humana na Constituição Federal Brasileira, 151 3.4 O direito privado e a teoria complexa da justiça: os contornos do direito privado na relação entre justiça social e justiça particular, 156 3.5 Análise privado-constitucional das questões centrais propostas, 179 Conclusão, 191 Referências, 209 Agradecimentosx i i Fundamentos do direito privado • Dresch Devo a realização desta obra a muitas pessoas, dentre as quais irei destacar algumas e, provavelmente, esquecer de outras tantas de igual importância. Primeiramente, devo um agradecimento geral aos meus amigos, alunos e co legas da Universidade UNISINOS, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, da Universidade Feevale e do Centro Universitário Metodista - IPA. Em especial, registro minha gratidão ao meu orientador Prof. Dr. Eugênio Facchini Neto pelo seu exemplo de seriedade e qualidade no trabalho acadê mico. Ao Prof. Dr. Cláudio Michelon Júnior, novamente, encaminho minha gratidão por ter me recebido na Universidade de Edimburgo e me orientado na difícil pesquisa em teoria e filosofia do direito. O livro, fruto da tese, não teria sido construído sem o período de doutorado na Escócia, Reino Unido. Agradeço, também, a amizade e a acolhida dos meus colegas de doutorado na referida universidade britânica. Devo agradecimentos, ainda, a todos os professores do doutorado do Programa de Pós-graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul com os quais aprendi a compreender a importância do pluralismo na sabedoria jurídica. Um agradecimento destacado é devido a todos os meus amigos e colegas pelo apoio e contribuição nos momentos cruciais desta jornada. Sou muito grato aos colegas da Farah e Terra Machado Advogados, da Franceschetto Junqueira Advogados e da Flores da Cunha Advogados por te rem me acompanhado nestes quatro anos de trabalho e dedicação, suprindo minhas eventuais ausências nas lides forenses, pois a tese defendida é fruto do labor de um acadêmico, professor e advogado. Sou devedor, ainda, de agradecimentos aos colaboradores da Secretaria do Programa de Pós-graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Não poderia deixar de agradecer aos colegas Prof. Dr. Adalberto de Souza Pasqualotto, Prof. Dr. Luis Renato Ferreira da Silva, Prof. Dr. Alfredo Carlos Storck - UFRGS, Prof1 Dr1 Claudia Rosane Roesler - Universidade de Brasília, pelas contribuições trazidas na banca de defesa de tese, pois as críticas e su gestões foram fundamentais para a versão final do livro. Agradeço, ainda, no mesmo sentido, a contribuição do Prof. Dr. Fabiano Menke pelas sugestões e acréscimos baseados na literatura jurídica alemã. Agradecim entos XÜi Finalmente, deixo marcada minha gratidão eterna aos meus pais Neiva e Renato, aos meus irmãos Renata e Rodolfo, a minha avó Noeli e a minha amada esposa Fernanda. Introdução 2 Fundamentos do direito privado • Dresch Imagine que um dado Estado institua que o critério de distribuição de direitos de propriedade imóvel ocorrerá com base na etnia dos cidadãos. Os direitos de propriedade sobre bens imóveis seriam acessíveis somente aos indivíduos de determinado grupo. O esquema distributivo poderia funcionar perfeitamente bem caso todos aceitassem ou se resignassem com essa situação. Toda a propriedade imóvel seria dividida igualitariamente entre os membros de uma etnia específica. Estaria aplicada a racionalidade distributiva de forma plena. Contudo, teria sido realizada a justiça distributiva? Imagine, ainda, que, em um dado Estado, se estabeleça que todos são ab solutamente livres no sentido de disposição de seu corpo. Imagine agora que, com base nessa liberdade, contratos são celebrados para alienação de órgãos humanos, de rins, córneas e, inclusive, corações. As pessoas contratariam, receberiam o pagamento (provavelmente de forma antecipada no caso dos fornecedores de corações) e entregariam seus órgãos, cumprindo exatamente o contratado. A racionalidade comutativa teria sido efetivada plenamente. Contudo, teria sido realizada a justiça comutativa?1 Agora, guarde e reflita sobre essas questões durante a leitura deste estu do, para que seja possível retomar essas indagações quando do capítulo final definidor da teoria que será aqui defendida. Em caráter prático, é também relevante a avaliação de uma importante decisão do tribunal brasileiro com maior poder jurisdicional. Nesse sentido, o Supremo Tribunal Federal, na Ação Direta de Inconstitudonalidade nQ 3.934-2 Distrito Federal,2 através de seu órgão pleno, percebeu uma questão central 1 No mesmo sentido, interessantes os exemplos de contratos de compra e venda de rins e de canibalismo consensual apresentados por Michael Sandel na sua obra Justiça: o que é fazer a coisa certa. O exemplo do canibalismo, inclusive, é baseado nos fatos ocorridos em Rotenburg, na Alemanha, em que Bemd-Jurgen Brandes acorda com Armin Meiwes uma estranha contratação: Meiwes deveria matar Brandes e comer sua carne. As prestações foram executadas e, mesmo não havendo a tipificação do crime de canibalismo consentido, Meiwes foi condenado por homicídio culposo (SANDEL, Michael J. Justiça - o que é fazer a coisa certa. Trad. Heloisa Matias e Maria Alice Máximo, 4. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011, p. 90-94). 2 EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ARTIGOS 60, PARÁGRAFO ÚNICO, 83, I E IV c, E 141, II, DA LEI 11.101/2005. FALÊNCIA E RECUPERAÇÃO JUDICIAL. INEXISTÊNCIA DE OFENSA AOS ARTIGOS 1“, III E iy 6o, 7°, I, E 170, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL de 1988. ADI JULGADA IMPROCEDENTE. I - Inexiste reserva constitucional de lei complementar para a execução dos créditos trabalhistas decorrente de falência ou recuperação judicial. II - Não há, também, inconstitudonalidade quanto à ausência de sucessão de créditos trabalhistas. III - Igualmente não existe ofensa à Constituição no tocante ao limite de conversão de créditos trabalhistas em quirografários. IV - Diploma legal que objetiva prestigiar a função Introdução 3 para a compreensão da relação da Constituição Federal com o direito privado. O Supremo Tribunal Federal analisou o tema da função social no direito priva do e acabou por fornecer subsídios para uma melhor análise dos fundamentos do direito privado a partir da Constituição. Da questão jurídica apresentada e decidida pelo referido Tribunal, o presente trabalho buscará fundamentos não somente teóricos, mas práticos, que possam confirmar a hipótese inicial da neces sidade da compreensão da teoria complexa da justiça para fins de explicitação e ilustração da racionalidade do direito privado conforme a Constituição Federal. A questão jurídica paradigmática analisada pelo Supremo Tribunal Fede ral teve por conteúdo a constitucionalidade de alguns dispositivos da recente legislação de liquidação e recuperação de empresas.3 As questões jurídicas centrais tratavam de três temas centrais: (1 ) a exigência de lei complementar para disciplina de créditos trabalhistas em liquidação ou recuperação judicial; (2 ) a ausência de sucessão dos créditos trabalhistas em liquidações; e (3 ) a possibilidade de qualificação de parte dos créditos trabalhistas como prefe renciais (até o valor de 150 salários-mínimos nacionais), sendo a outra parte desses mesmos créditos classificada como créditos quirografários.4 Os temas citados foram decididos, principalmente, pela análise da função social da social da empresa e assegurar, tanto quanto possível, a preservação dos postos de trabalho. V - Ação direta julgada improcedente (STF, ADI n° 3.934-2 - DF, Ttíbunal Pleno, Rei. Min. Ricardo Lewandowski, pub. 6/11/09). 3 Lei n° 11.101 de 2005. 4 Os dispositivos alegadamente inconstitucionais são: “Art. 60. Se o plano de recuperação judicial aprovado envolver alienação judicial de filiais ou de unidades produtivas isoladas do devedor, o ju iz ordenará a sua realização, observado o disposto no art. 142 desta Lei. Parágrafoúnico. O objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, observado o dis posto no § 1® do art. 141 desta Lei. Art. 83. A classificação dos créditos na falência obedece à seguinte ordem: I - os créditos derivados da legislação do trabalho, limitados a 150 (cento e cinquenta) salários-mínimos por credor, e os decorrentes de acidentes de trabalho; (...) VI - créditos quirografários, a saber: (...) c) os saldos dos créditos derivados da legislação do trabalho que excederem o limite estabe lecido no inciso I do caput deste artigo; (...) Art. 141. Na alienação conjunta ou separada de ativos, inclusive da empresa ou de suas filiais, promovida sob qualquer das modalidades de que trata este artigo: (...) 4 Fundamentos do direito privado • Dresch empresa em expressa relação com a função social da propriedade e do contrato, combinada com os princípios da livre-iniciativa, da valorização do trabalho e, principalmente, da dignidade da pessoa humana.5 A decisão, por conseguinte, fornece subsídios e autoridade para discussão, em termos constitucionais, dos casos situados no limiar entre o direito público e o direito privado, baseados em fundamentos de justiça comutativa, distributiva e justiça social. Como pode a função social da propriedade, do contrato e da empresa fundamentar uma decisão contrária aos interesses de um grupo (trabalhado res) qualificado como frágil na sociedade? A função social não preconiza jus tamente a proteção do mais fraco e o equilíbrio de poder nas relações sociais? O presente estudo parte da premissa de que a doutrina atual jusprivatista, tanto formalista/voluntarista quanto fundonalista social ou econômica, não apresenta uma explicação adequada para essa questão e, diante dessa ausên cia, objetiva esclarecer o problema com base no debate contemporâneo sobre o papel da teoria da justiça e da Constituição no estudo do direito privado.6 A obra retoma algumas questões anteriormente analisadas pelo seu autor:7 o direito privado tem objeto específico, diverso do direito público?8 O direito II - o objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematan te nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, as derivadas da legislação do trabalho e as decorrentes de acidentes de trabalho. UI." 5 Os dispositivos supostamente violados pela Lei 11.101/2005 são os artigos 1°, III e IV; 6a; 7a, I, e 170, VIII, da Constituição Federal. 6 Como demonstra Claudio Michelon, não se está a defender a justiça como fundamento de validade do direito, mas como critério de avaliação do direito justo. “There is a conceptual con nection between positive law and justice and, more specifically, particular justice, which has by and large eluded legal theorists. That connection runs in the opposite direction to the one legal theorists are most fam iliar with. The argument I put forward here does not aim at proving that justice is (o r is not) conceptually necessary fo r law to be e.g. valid, authoritative, binding, obligatory, an aspect o f practical reason, etc. Instead I argue that positive law is a necessary condition fo r arguments in voking particular justice to make sense. To put it more generally, in matters pertaining to particular justice, which include both commutative and distributive justice, positive law is a condition fo r moral arguments to make sense” (MICHELON, Claudio. The Virtuous Circularity between Positive Law and Particular Justice. Working Paper Series, University o f Edinburgh, School o f Law. n° 2.011/11, 2010. p. 1. Disponível em: < http://ssm.com/abstract=1791807> . Acesso em: 18 nov. 2010). 7 Fundamentos da responsabilidade Civil pelo fato do produto e do serviço: urn debate juridico- - filosófico entre formalismo e funcionalismo no direito privado. 8 Nesse aspecto da divisão entre público e privado, interessante, desde já, citar a obra fruto do debate entre professores das universidades de Paris II e Oxford: uEn fin de compte, il apparit qu’une vraie convergence est un train de s'établir, lês deux droits tendant vers une position médiane Introdução 5 privado tem uma finalidade própria? Tal finalidade poder ser compreendida como a garantia da manutenção de uma “igual liberdade”9 aos participantes de relações privadas? A análise aqui desenvolvida pretende, fundamentadamente, apresentar uma resposta a essas questões. Contudo, como será demonstrado, essa finali dade central do direito privado é complementar a uma finalidade antecedente, constituindo-se como dependente da definição do que consiste não somente uma “igual liberdade” , mas, sim, uma “igual dignidade”10 em um dado orde namento constitucional. Tal conceito de “igual dignidade” será definido aqui como um núcleo de direitos e deveres fundamentais que iguala e dignifica os membros de uma comunidade constitucional através da garantia das condições básicas para o desenvolvimento das capacidades humanas básicas. O estudo visa, ainda, a compreender, dentro da tradição do direito privado no ocidente,11 quais são as teorias que dominam a análise do direito privado, suas características e incompletudes, para, posteriormente, defender a possibilidade de uma teoria que explique a efetiva racionalidade prática do direito privado dans laquelle. La division du droit public et du droit privé n'est ni fanatiquement défendue, ni agres sivement dénnoncée, mais simplement considérée comme pertinente et moyennement riche de subs tance à la fo is". FREEDLAND, Mark e AUBY, Jean-Bernard. The Public Law/Private Law, Une enten te assez cordiale? La distinction Du droit public et du droit privé: regards français et britanniques. Oxford/Portland: HART Publishing, 2006. p. 7. 9 O sentido de igual liberdade é o extraído da análise de Richard Wright: “There are two principal types o f moral teories. The f i r s t 4corporate welfare’ types identifies the good with the corporate or aggregate welfare o f the community o r society as a whole, while the second 4equal individual free dom’ type identifies the good with the equal freedom o f each individual in the community or society” (WRIGHT, Richard W. Right, justice and tort law. In: PHILOSOPHICAL Foundations o f Tort Law. Oxford: Oxford University, 2001. p. 161). 10 O sentido de igual dignidade aqui defendido se vincula à análise de Martha Nussbaum sobre a compreensão da dignidade humana a partir da perspectiva das capacidades humanas, que teria sido fruto de uma tradição iniciada com os gregos: 14For several centuries, an approach to the foundation o f basic political principles that draws its key insights from Aristotle and the ancient Greek and Roman Stoics has played a role in shaping European and American conceptions o f the proper role o f government, the purpose o f constitution-making, and the nature o f basic constitutio nal entitlements. This normative approach, the 4Capabilities Approach’ (CA), holds that a key task o f a nation’s constitution, and the legal tradition that interprets it, is to secure fo r all citizens the prerequisites o f a life worthy o f human dignity - a core group o f 4capabilities’ - in areas o f central importance to human life” (NUSSBAUM, Martha C. The Supreme Court 2006 Term Foreword: Constitutions And Capabilities: “Perception” Against Lofty Formalism. Harvard Law Review, v. 121:4, [s.d.]. p. 7). n Para a importância da compreensão da tradição no estudo do Direito ver: MACINTYRE, Alasdair. Justiça de quem? Qual a racionalidade? 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001. 6 Fundamentos do direito privado • Dresch nos termos da teoria da justiça à luz da Constituição. Mais especificamente, a teoriaestá baseada no argumento central de que o direito privado somente pode ser entendido pela sua racionalidade através da compreensão da teoria da justiça em termos mais complexos do que aqueles que estão sendo elaborados no debate atual centrado na dualidade justiça comutativa - justiça distributiva. O argumento principal visa a esclarecer que, somente através da retomada da importância da justiça geral - mais especificamente de sua versão contempo rânea como justiça social - definidora de uma “igual dignidade” em termos de direitos e deveres fundamentais numa dada sociedade, é possível compreender o papel da justiça comutativa (corretiva/sinalagmática)12 no direito privado, bem como a possibilidade e a necessidade de implementação de uma racionalidade nos termos da justiça distributiva para alguns institutos do direito privado em determinados contextos socioeconômicos em que a racionalidade comutativa fere as bases fixadas pela justiça social a partir da Constituição. A teoria e a filosofia do direito têm hoje o tema como uma questão re levante. Basta analisar a produção acadêmica das últimas três décadas - que será abordada ao longo desta obra - voltada para a discussão sobre a tensão entre a justiça comutativa e a justiça distributiva como racionalidades confli tantes na busca do entendimento do direito privado. O debate, ainda, como será observado, recebe diversa nomenclatura, assim como diferentes contor nos, dependendo do contexto em que é travado.13 Além da dicotomia justiça comutativa - justiça distributiva, fala-se do formalismo (estruturalismo) em contraposição ao funcionalismo; nos Estados Unidos da América, desenvolve-se a controvérsia da Law and Economics14 contra as teorias centradas na concepção 12 O trabalho vai utilizar, principalmente, a denominação justiça comutativa como abrangendo a justiça corretiva e a justiça sinalagmática, eis que a tradição dos estudos da justiça, a partir dos escritos de Tomás de Aquino, tendeu a seguir essa denominação, sendo que ela se apresenta como mais funcional aos objetivos deste estudo por englobar duas formas de justiça: corretiva e sinalagmática. O tema, apesar de não ser o foco da presente tese, é desenvolvido com mais detalhe na seção 1.1 infra. 13 Necessário destacar que os debates mencionados não guardam identidade de conteúdo e de temas, mas correlacionam-se na questão central de uma visão centrada numa análise mais formal ou mais funcional, ou com algumas variações de funcionalidades. 14 Direito e Economia, também tratada por alguns acadêmicos como Economics Analisys o f Law (Análise Econômica do Direito). Vide definição de MERCURO E MEDEMA: “7bday, Law and Economics can be defined as the application o f economic theory (prim arily microeconomics and the basic concepts o f welfare economics) to examine form ation, structure, processes, and economic im pact o f Law and legal institutions” (MERCURO, Nicholas; MEDEMA, Steven G. Economics and the Law: from posner to post-modernism. Princeton: Priceton University Press, 1997. p. 4). Introdução 7 de Faimess.ls No Brasil, a dicotomia apresenta-se mais bem delineada pela con traposição entre uma análise voluntarista, que preserva uma ideia da tradição liberal dogmática de direito privado nos termos desenvolvidos no século XIX, em conflito com uma visão da fundonalização social nos moldes do chamado Direito Social, que finca origem no coletivismo europeu.16 O tema ganha especial relevância no Brasil diante de um quadro de nor mas constitucionais e de direito privado que expressamente determinam a fundonalização dos institutos de direito privado, interpretados segundo uma diretriz constitucional de proteção à dignidade humana, liberdade, igualdade e solidariedade, como bem ilustra a decisão paradigmática da ADI nQ 3.934-2, aqui analisada. Tal contexto de produção de normas funcionalizantes é pro pício, por conseguinte, para o objetivo que aqui se apresenta, haja vista que a Constituição Federal, o Código de Defesa do Consumidor, o Código Civil e a Lei de Liquidação e Recuperação de Empresas, entre outras, recebem nova interpretação, que, segundo o estágio da doutrina atual, define uma tendência de migração de uma concepção formalista estritamente centrada na justiça comutativa para uma compreensão preponderantemente coletivista da fun- cionalização social do direito privado. Ademais, em outros sistemas, como o norte-americano, destaca-se uma fundonalização econômica.17 A presente 15 Assim mapeia a controvérsia o Professor de Yale, Jules Coleman, no que se refere à análise do instituto da Responsabilidade Civil: uIn contemporary tort theory, both economists and m o ralists advance the view that tort law can be understood as the embodiment o f one fundamental overarching principle. For economists it is the principle o f efficiency.’ For some moralists, like George Fletcher, it is the principle o f reciprocity o f risk. While fo r others, like Richard Epstein, it is the prin ciple o f causal responsibility. In contrast, I reject the idea that the practice can be understood as a unified whole and argue that to rt law implements a variety o f different principles and policies. Some o f these are economic in nature, others moral. In this Essay, I develop the underlying moral principle involved in tort law-the principle o f corrective justice” (COLEMAN, Jules. The mixed conception o f corrective justice. 77 Iowa Law. Rev., p. 427,1991-1992). 16 Em Portugal, a dicotomia é profundamente analisada pela obra de Castanheira Neves (CASTANHEIRA NEVES, A. Entre o legislador, a sociedade e o ju iz ou entre sistema, função e problema - modelos actualmente alternativos de realização jurisdicional do direito. Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, v. LXXiy 1998). 17 Também nos E.UA., a funcionalização social está presente, como exemplifica a análise de Alexander, Gregory S.: *7 argue that American property law, both on the private and public sides, includes a social-obligation norm, but that this norm has never been explicitly recognized as such nor systemically developed. I argue that a proper understanding o f the social obligation explains a remarkably wide array o f existing legal doctrine in American property law, ranging from the power o f eminent domain to the modem public trust doctrine. In some cases, social obligation reaches the same result as law and economics, but in other cases it does not. Even if it reaches the same result as 8 Fundamentos do direito privado • Dresch teoria, nesse aspecto, visa a contribuir para uma melhor compreensão desse fenômeno de fundonalização, possibilitando uma melhor prática do direito privado e de seus institutos característicos. Nesse compasso, é relevante des tacar o ensinamento de Norberto Bobbio: Se aplicarmos à teoria do direito a distinção entre a abordagem estruturalista e a abordagem funcionalista, da qual os cientistas sociais fazem grande uso para diferenciar e classificar suas teorias, não resta dúvida de que, no estudo do direito em geral (a que se ocupa a teoria geral do direito), nestes últimos cinquenta anos, a primeira abordagem prevaleceu sobre a segunda.18 Contudo, nem todos são acordes com essa ideia de recuperação da compreensão da dicotomia entre forma (estrutura) e função (finalidade) centrada nas concepções de justiça, com base na tradição clássica, nos termos de uma análise que transita entre racionalidades comutativa e distributiva, preferindo uma compreensão preponderantemente sociológica, ao atribuir ao movimento chamado de Direito Social - o qual tem origem principal na sociologia solidarista de Hegel, Comte, Durkheim, Jhering e Duguit - o papel centralna compreensão da racionalidade desse fenômeno de funcionalização. Ademais, mesmo admitindo a importância da doutrina solidarista e do Direito Social, principalmente em análises sociológicas, a recuperação das noções de razão prática e justiça não pode ser realizada à margem da filosofia clássica, especialmente da tradição aristotélica, como será demonstrado neste trabalho. Daí por que não é possível afastar da análise do fenômeno da funcionalização a teoria da justiça e sua relação com o direito privado, ainda que, mais uma vez, reconhecendo as conquistas do movimento do Direito Social, da Análise Econômica do Direito e mesmo do Formalismo Voluntarista. O debate está aberto e tal abertura pode ser explicada pela diversidade das premissas que principiam as diversas construções teóricas. Imprescindí vel, nesse contexto, definir as premissas que sustentam a presente obra: (1 ) a teoria da justiça, nos termos da tradição do pensamento ocidental, tem uma law and economics, social obligation theory provides a superior explanation” (ALEXANDER, Gregory S. The Social-Obligation Norm in American. Property Law. Cornell Law Faculty Publications, Cornell Law Library Year, 2009, Cornell Law Review, v. 94, ago. 2009. p. 745). 18 BOBBIO, Norberto. Da estrutura a função: novos estudos de teoria do direito. TYad. Daniela Baccada Versiani; ver. Orlando Seixas Bechara, Renata Negamine, Barueri, São Paulo: Manole, 2007. p. 53. Introdução 9 complexidade para além da dicotomia justiça comutativa e justiça distributiva, essencial para a compreensão da racionalidade do direito privado; (2) a comple xidade é relevante para o entendimento do direito privado, pois tanto a justiça comutativa quanto a justiça distributiva são espécies da justiça particular, que, por sua vez, é complementar, eis que parte da justiça geral, modernamente, social; (3 ) a justiça e a justiça social constituem conceitos centrais para o direito e, consequentemente, para o direito privado, consoante, inclusive, expressa previsão normativa insculpida na Constituição Federal Brasileira;19 (4 ) o caráter complementar entre a justiça social e a justiça particular (comutativa e distri butiva) é reforçado pela própria norma constitucional, sendo que essa norma acaba por conformar juridicamente a precedência da justiça social em relação à particular e as situações em que deve prevalecer a justiça comutativa e aque las nas quais a racionalidade da justiça distributiva deve, excepcionalmente, preponderar no direito privado, de forma a fornecer uma justiça substantiva que permita a compreensão da modulação entre justiça comutativa, justiça distributiva e justiça social nos diversos institutos de direito privado. A teoria desenvolvida assemelha-se, em vários aspectos, à análise proposta por Castanheira Neves sobre os modelos alternativos de exercício jurisdicional do direito. As semelhanças residem justamente na proposição da existência de três modelos fundamentais de compreensão do direito em termos teóricos na atualidade, que, na visão do jurista lusitano, seriam: o normativismo legalista, o funcionalismo jurídico e o jurisprudencialismo. Apesar de essa divisão pro posta não se vincular diretamente aos sentidos de justiça como defendido neste trabalho, ela é válida no sentido de identificação dos modelos apresentados nos três capítulos da tese: o primeiro capítulo sobre o formalismo fundado na justiça comutativa; o segundo capítulo apresentando o funcionalismo e sua racionalidade, principalmente, distributiva; e o terceiro baseado na visão constitucional centrada na justiça social e na “igual dignidade” . Nesse aspecto, interessante referir as relevantes palavras do professor português: Os modelos em causa são três - ju lgo não errar muito nesta conclusão. São eles o normativismo legalista, o funcionalismo jurídico e o jurisprudencialis mo. Dir-se-á, é certo, que quanto ao primeiro deles temos falado da sua actual 19 O Preâmbulo da Constituição Brasileira estabelece que a justiça constitui um dos valores cen trais, conjuntamente com a harmonia social e a liberdade. O valor da justiça, nos dispositivos constitucionais seguintes, acaba por referir à justiça social, o que demonstra a primazia desse sentido de justiça para o ordenamento jurídico. 1 0 Fundamentos do direito privado • Dresch superação e expusemos alguns elementos que o comprovam. Mas nem por isso deixa de ser uma referênda indispensável, como imediato antecedente histó rico que é, nem se poderão negar as linhas de uma sua tentada recuperação, já pela atrás aludida recuperação do liberalismo radical, já pelo pensamento jurídico analítico e em alguns pontos pelo próprio fundonalismo sistêmico.20 A obra é desenvolvida em caráter prindpalmente teórico e filosófico,21 pelo método hipotético-dedutivo. Não se trata de um trabalho de análise dogmá tica, tampouco de um trabalho de sociologia, economia ou história do direito privado, apesar de reflexões sobre todos esses aspectos estarem presentes e se constituírem como arcabouço fundamental para a compreensão da tese de teoria e filosofia do direito privado aqui defendida. Ademais, apesar de, desde o princípio, aqui se definir uma hipótese - a da análise complexa da justiça no sentido de explicar a racionalidade do direito privado nos termos consti tucionais - , o estudo será permeado pela discussão de um problema prático supracitado (ADI n° 3.934-2). A análise da decisão paradigmática faz-se im portante, pois, como sustentou Aubenque, na tradição iniciada por Aristóteles ao defender justamente a importância da prudência (saber prático), não há como desvincular o saber prático do saber teórico, eis que esses saberes são complementares nessa tradição.22 20 CASTANHEIRA NEVES, op. cit., p. 15. 21 Nesse aspecto, vale ressaltar os ensinamentos de Stephen Smith sobre uma explanação teórica e/ou filosófica que busca apresentar princípios que garantam coerência e racionalidade para o direito: “A theoretical o r philosophical explanation o f the law is assessed by different criteria. The general aim o f such an account is to make sense o f the law - to render it intelligible - so fa r as this is possible. By definition this goal is better achieved by a theory that shows how the law is or might be thought to be explained by a relatively small number o f principles. These principles should be coherent in the sense o f fitting together o r at least not being inconsistent with one another. A philosophical theory that shows the law as giving effect to a random set o f disconnected principles is less successful at rendering the law intelligible than a theory which shows the law as based on a coherent set o f principles. O f course, the theory must also f i t the facts - the law - that it explains, and we cannot expect the law, which is after all a human institution, to be perfectly intelligible. But a philosophical theory o f the law is nonetheless judged by the extent to which it shows the law to be intelligible” (SMITH, Stephen A. Troubled foundations for private law: a review essay o f The Foundations o f Private Law by James Gordley (September 9, 2008). Canadian Journal o f Law and Jurisprudence, v. 21, n° 2, p. 458-476, 2009). 22 Pierre Aubenque, na sua obra A prudência em Aristóteles, busca demonstrar que Aristóteles, ao desenvolver a análise da razão prática, da prudência, ao lado da razão teórica, jamais as afas tou: “A prudência representa, desde então, menos uma dissociação entre a teoria e a prática e a revanche da prática sobre a teoria, do que uma ruptura interior da própria teoria” (AUBENQUE, Pierre. A prudência em Aristóteles. Trad. Marisa Lopes. São Paulo, Discurso editorial, 2003. p.38). Introdução 11 Além do caso paradigmático acima transcrito, a obra busca ilustrar suas conclusões através do enredo da peça “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare. A vinculação entre o direito e a literatura presta-se, nesta situação, para exercitar as situações em que se poderia admitir uma migração de uma racionalidade estritamente comutativa para uma racionalidade distributiva com fundamento na justiça social. O negócio jurídico celebrado entre Shylock e Antônio e a execução da garantia, no caso do inadimplemento, refletem, exatamente, essa possível tensão entre comutação e distribuição, que será explorada para fins de análise dos possíveis argumentos aqui apresentados. Sucintamente, o enredo da peça apresenta a seguinte questão jurídica: o mercador, Antônio, querendo ajudar um amigo, Bassânio, que pretende viajar em busca da mulher amada, Pórcia, mesmo não possuindo recursos para au xiliar no momento necessário,23 decide pedir um empréstimo a Shylock, um agiota (seu inimigo). Shylock, judeu, tendo sido destratado por Antônio, cristão, em situações anteriores, percebe que esse empréstimo pode lhe fornecer uma forma de vingança em caso de não pagamento do débito no seu vencimento. Assim, Shilock concorda com o empréstimo, mas exige a garantia de uma li bra de carne do corpo de Antônio em caso de incumprimento da obrigação.24 23 Assim o diálogo entre Antônio e Bassânio: “BASSÂNIO - Em Belmonte há uma jovem que de pouco recebeu grande herança. É muito linda e, mais do que esse termo, de virtudes admiráveis. Outrora eu recebi de seus olhos mensa gens inefáveis. Chama-se Pórcia, inferior em nada à filha de Catão, Pórcia de Bruto. Não lhe igno ra o valor o vasto mundo, pois pelos quatro ventos lhe têm vindo de toda parte muitos pretenden tes de fama sublimada. Como velo de ouro o solar cabelo lhe orna a fronte, o que transforma a sede de Belmonte em uma nova Cólquida, empenhando-se muitos Jasões no afã de conquistá-la. Ó meu Antônio! Se eu possuísse meios para poder apresentar-me como pretendente também, não me restara, diz-me o pressentimento, a menor dúvida de que eu viria a ser o felizardo. ANTÔNIO - Sabes que está no mar tudo quanto possuo. Dinheiro ora não tenho, nem dis ponho, nesta ocasião, de nada com que possa levantar qualquer soma. Sai a campo; põe à prova meu crédito em Veneza. Hei de espichá-lo ao último, contanto que te prepares para que em Belmonte vejas a bela Pórcia. Vai; informa-te por teu lado, como eu, onde há dinheiro para emprestar. Seria fato inédito nada obtermos agora com meu crédito” (SHAKESPEARE, William. O Mercador de Veneza. TYad. Nélson Jahr Garcia, Editor Ridendo Castigat Mores. Disponível em: < http://www.ebooksbrasil.org> . Acesso em: 20 dez. 2010. Ato I, Cena I). 24 “SHYLOCK - Quero dar-vos prova dessa amizade. Acompanhai-me ao notário e assinai-me o documento da dívida, no qual, por brincadeira, declarado será que se no dia tal ou tal, em lugar também sabido, a quantia ou quantias não pagardes, concordais em ceder, por equidade, uma libra de vossa bela carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver. ANTÔNIO - Palavra, aceito! Assinarei a dívida e declaro que um judeu pode ser até bondoso. BASSÂNIO - Jamais assinareis, por minha causa, um documento desses; antes quero conti nuar a passar necessidade. 1 2 Fundamentos do direito privado • Dresch Bassânio, com o empréstimo, consegue sucesso no pedido de casamento a Pór cia. Contudo, em meio à viagem de retomo de Bassânio, barcos em comércio pelo mundo, que configuram todo o patrimônio de Antônio, são perdidos. Sem dinheiro para saldar o débito no seu vencimento, Antônio vê Shilock exi gir a garantia de uma libra de came. O caso é levado ao Doge para que esse decida sobre a exigibilidade da garantia segundo as Leis de Veneza, claras no sentido da exigibilidade da garantia em termos comutativos. O Doge, diante da necessidade de exercício da jurisdição, manda consultar um magistrado sobre a exigibilidade da garantia. Nesse momento, Pórcia, fazendo-se passar por magistrado, vai a Veneza apresentar seu parecer sobre o caso. Através de um estratagema que enfoca a necessidade de interpretação literal da garantia, exatamente nos termos ressaltados por Shylock, Pórcia determina que Shylock tem direito à sua garantia, mas somente de uma libra de came. Se retirar uma gota de sangue de um cidadão veneziano, Shylock será punido. O filme culmina com o fracasso da tentativa de vingança de Shylock ao exigir uma justiça estritamente comutativa. Pórcia, mesmo exaltando o valor do perdão e da possibilidade de flexibilização da segurança negociai em termos de co mutação, caso esse perdão fosse dado, acaba tendo de usar uma interpretação contratual estritamente literal, para livrar Antônio de uma situação de extrema violação de sua dignidade, mais especificamente, o seu direito ao sangue, não objeto da contratação. Nesses moldes, ilustrando as conclusões parciais geradas por meio de uma decisão do órgão pleno da Corte Maior Brasileira e de um clássico da literatura universal, nos primeiros capítulos da obra, são mapeadas as diversas teorias que atualmente estão focadas na dicotomia entre justiça comutativa e justiça distributiva, entre voluntarismo formalista e funcionalismo coletivista. O Capítulo 1 trata das diversas análises teóricas que estabelecem a justiça co mutativa como racionalidade central do direito privado. O capítulo principia com os antecedentes históricos da visão formalista, seguidos da demonstração dos argumentos de Emest Weinrib, o jurista que deu início ao acirramento do debate entre formalismo e funcionalismo no direito privado, ao defender o formalismo nos termos de uma ideia de direito privado estruturada na justiça corretiva aristotélica e no direito kantiano em contraposição direta à ANTÔNIO - Nada temas, amigo, que eu não perco. Daqui a dois meses, isto é, um mês antes de se vencer a letra, espero certo receber nove tantos do que vale” (SHAKESPEARE, op. cit.). Introdução 1 3 funcionalizante Análise Econômica do Direito.25 No mesmo capítulo, ainda, é analisada a importante abordagem de Jules Coleman, argumentando, princi palmente, sobre a importância da justiça comutativa no estudo da responsabi lidade civil e admitindo um papel secundário à justiça distributiva, em termos pragmáticos, por vezes criticando e, em outras, concordando com a análise inicial de Weinrib. O capítulo, ainda, aborda aquela que pode ser considerada uma das mais completas análises atuais sobre direito privado nos termos da tradição jusprivatista: a teoria dos fundamentos do direito privado de James Gordley.26 Assim, são demonstradas as inúmeras virtudes da teoria de Gordley, mas, também, a sua incompletude decorrente da ausência de racionalização sobre a relação entre justiça comutativa e justiça distributiva no direito privado e a importância da justiça social nessa modulação de racionalidade. No Capítulo 2, iniciando novamente com um breve apanhado histórico, são analisadas as concepções de direito privado que acabam por determinar a sua racionalidade nos termos da justiça distributiva. Primeiramente, a análise da teoria do Direito Social já antes mencionada, que, com raízes no solidarismo sociológico de Comte, Durkeim, Duguit, Jhering, Gierke e Ewald, estabelece uma aplicação do direito privado diretamente vinculada a valores sociais, como a proteção dos mais frágeis e o equilíbrio de poder entre indivíduos ou grupos na sociedade. Assim, normas constitucionais, como o princípio da dignidade da pessoa humana, o princípio da solidariedade e a função social da propriedade, acabam por ter, indiscriminadamente, justificada umaaplicação não mediada pela análise do papel e da importância das formas de justiça comutativa como principal forma de complementação da justiça social nas relações privadas. O Direito Social, como será detalhado no segundo capítulo, acaba, equivocada- mente, defendendo uma preponderância absoluta da justiça distributiva na disciplina das relações privadas, estabelecendo um coletivismo tão pernicioso quanto o extremo individualismo. Além do Direito Social e suas característi cas, o segundo capítulo busca demonstrar as características da concepção de direito privado da Análise Econômica do Direito e como a definição da eficiên cia econômica como finalidade para o Direito acaba também por estabelecer uma racionalidade nos moldes da justiça distributiva, subjugando o indivíduo aos interesses coletivos e fulminando a importância do valor do indivíduo e 25 Vide: WEINRIB, Ernest. The idea ofprivate Law. Havard Cambridge: University Press, 1995. 26 A obra principal: GORDLEY, James. Foundations ofprivate Law: property, tort, contract, unjust enrichment. New York: Oxford University Press, 2007. 1 4 Fundamentos do direito privado • Dresch da justiça comutativa. Por fim, o segundo capítulo encerra-se com algumas tentativas igualitaristas, rawlsianas, como as de Ripstein27 e Perry,28 de com preensão do direito privado fundado tanto na racionalidade comutativa como na racionalidade distributiva numa visão procedimental da teoria da justiça. No Capítulo 3, é abordado, especificamente, o argumento principal aqui defendido, qual seja: de que o direito privado é caracterizado por racionalida des centradas na justiça comutativa e na justiça distributiva, moduladas pelas premissas fixadas pela justiça social, que defme uma justiça substantiva, tendo por objetivo “igual dignidade e reconhecimento” dos indivíduos. O contexto socioeconômico de atuação do direito acaba por conformar uma dada forma de justiça social através da Constituição, que, por sua vez, norteia a modulação das racionalidades comutativa e distributiva nos diversos institutos jusprivatistas. No presente argumento, portanto, a determinação dessas racionalidades não é aleatória, nem é um misto de racionalidades, pois tanto uma racionalidade comutativa quanto uma racionalidade distributiva estão a depender de um sentido e de uma racionalidade anterior, da racionalidade da justiça geral aristotélica (justiça legal tomista) ou, como abordado no direito constitucional atual, na sua versão contemporânea denominada de justiça social (centrada não na honra, mas, sim, na dignidade e reconhecimento). A forma da ordem legal da justiça social voltada para “igual dignidade e reconhecimento”, por sua vez, depende do contexto de cada sociedade, sendo percebida e implementada pela atuação político-jurídica. Para tanto, o Capítulo 3 inicia com um breve resgate desse sentido de justiça e sua transformação ao longo da tradição no pensamento jurídico e filosófico ocidental, para, em seguida, demonstrar os contornos desse novo sentido de justiça e a dependência da justiça particular, através da ideia de garantia da “igual dignidade” adma mencionada, enfocando o papel dos direitos fundamentais na compreensão desse conteúdo de “igual dignidade” e da razão prática. O estudo demonstra que uma análise centrada apenas na forma (estrutura) é incompleta, assim como uma análise centrada apenas na funcionalidade dos institutos. A compreensão substantiva da justiça como elemento finalístico e estruturante do direito só pode ocorrer pela compreensão de que fins (funções 27 RIPSTEIN, Arthur. Private order and public justice: Kant and Rawls. Virginia Law Review, v. 92, n° 7, p. 1391-1438, nov. 2006. 28 PERRY, Stephen R. On the Relationship between Corrective and Distributive Justice. In: HORDER, Jeremy (Ed.). Oxford essays in jurisprudence 237. 4. ed. [s.L ]: [s.e.], 2000. Introdução 1 5 consequentemente) e formas são mutuamente complementares. Tal correlação entre fins e forma, no direito privado, somente pode ser apreendida pela re tomada da centralidade do sentido de justiça geral/social. A justiça social é o campo primeiro para a compreensão e a percepção dos fins exigidos em cada contexto sodoeconômico e a fixação da ordem legal condizente com a perse cução desse fim. No Direito de um dado Estado, é a Constituição que percebe e define, principalmente, os termos de justiça sorial e, assim, a conformação dos fins. Com base nessa definição dos fins, é possível determinar a conformação (a forma) da justiça particular, mais detalhadamente, o papel da justiça comutativa e o papel da justiça distributiva na persecução desses fins e sua aplicação no direito privado. No caso do direito privado brasileiro, a manutenção da “igual dignidade” e do consequente “igual reconhecimento” nas relações privadas deve ocorrer dentro das condições próprias da realidade brasileira. Estabelecida essa relação no anseio de explicitar a ideia de uma análise complexa da justiça e sua importância para a compreensão da justiça particular no direito privado e para as alternâncias de racionalidades possíveis entre os institutos de direito privado ou, ainda, na análise de um mesmo instituto em diferentes contextos de atuação, a parte final do estudo demonstra como está estabelecida a justiça social, constitucionalmente centrada no fim de garantia de “igual dignidade”29 a todos nas relações privadas, e como essa conformação constitucional acarreta consequências decisivas para a compreensão do direito privado em termos de justiça comutativa e justiça distributiva. Neste aspecto, como princípios constitucionais fundamentais correlatos à dignidade da pessoa humana, como da igualdade, da liberdade e da solidariedade, determinam um direito privado centrado numa racionalidade comutativa mantenedora dessa “igual dignidade”, ou como se admite uma racionalidade distributiva, quando uma nítida escassez de bens e direitos afeta a “igual dignidade” como desenvolvimento das capacidades humanas básicas, em termos meramente comutativos.30 Neste compasso, a parte final demonstra ainda, como a justiça 29 A compreensão da igual dignidade será consubstanciada no Capítulo 3 pela análise da “Capabilities Approach” de Amartya Sen e Martha Nussbaum, sobretudo, nas seguintes obras: SEN, Amartya. The idea o f justice. Kindle’s edition, 2010; NUSSBAUM, Martha C. Frontiers o f jus tice: disability, nationality, species membership. Harvard University Press, Kindle’s Edition, 2007. 30 Neste aspecto, secundariamente, pretende-se também demonstrar como existe uma relevante diferença entre a modulação comutatividade e distributividade realizada pelo poder legislativo e pelo poder judiciário. Como os princípios e a argumentação jurídica têm destacado papel nessa possibilidade de modulação por parte do poder judiciário e como o debate político prepondera na modulação determinada pelo poder legislativo. 1 6 Fundamentos do direito privado • Dresch comutativa tem por função a manutenção desses valores em termos de garantia da “igual dignidade” em relações correlativas e como a justiça distributiva tem uma função de distribuição de bens em situações de escassez de bens necessá rios para a garantia das capacidades humanas básicas em relações privadas em que a “igual dignidade” interna ou externa à relação estará a ser prejudicada pela aplicação de uma jurisdição estritamente em termos comutativos. O estudo, ao final, retoma integralmente o caso paradigmático supracitado (ADI nQ 3.934-2) de aplicação da função social da empresa por parte do órgão pleno do Supremo TVibunal Federal e a peça de Shakespeare, para demonstrar e exemplificar como o argumento, pela análisecomplexa dos sentidos de justiça, dá conta de uma forma mais completa da racionalidade do direito privado em relação aos seus fundamentos. O direito privado como justiça corretiva "Se o homem falhar em conciliar a justiça e a liberdade, então falha em tudo . " C a d e r n o s C a m u s , A lb er t 1 8 Fundamentos do direito privado • Dresch O debate sobre o direito privado é dividido na atualidade, principalmente, por duas grandes correntes, como dito acima. Uma parte dos analistas entende que o direito privado tem uma racionalidade centrada na forma decorrente do sentido de justiça comutativa (corretiva/sinalagmática) desenvolvida na tradição aristotélica. Os institutos de direito privado são percebidos com base na busca de uma forma de relação que se desenvolve em termos de garantia de uma igualdade aritmética entre os participantes. Como ensina Gordley,1 0 direito privado teria sido moldado, desde os primórdios de sua tradição, segundo o sentido de justiça comutativa através da construção de soluções jurídicas pelos jurisconsultos romanos, principalmente, no período clássico do direito romano.2 O direito privado, portanto, desde os jurisconsultos, tem a forma de justiça comutativa como central e seus institutos são racionalmente compreendidos nos termos desse sentido de justiça. 1.1 A s origens da com utatividade no direito privado A forma de justiça comutativa que surgiu entre os romanos como um princípio o qual fundamentava uma diversidade de soluções jurídicas para 1 Vide a análise de Gordley em GORDLEY, op. cit., p. 14. 2 Importante desde já referir a influência do estoicismo, contrariamente à tese de Villey, para o qual a influência estóica é secundária. Nussbaum demonstra a importância do estoicismo na tradição como escola do pensamento que compreendeu, primeiramente, a possibilidade de uma construção político-jurídica baseada numa igual dignidade de todos os seres humanos: “Stoicism remedied this deficiency. The most influential school o f ethical and political thought in Greco-Roman antiquity, and perhaps the most influential philosophical school at any time in the Western tradi tion, Stoicism exercised such a widespread sway, particularly in Rome, that every educated person, and many who were not educated, were at some level guided by it. 106 Roman Stoic authors such as Cicero, Seneca, Epictetus, and Marcus Aurelius were more influential in the seventeenth and eighte enth centuries than Plato o r even Aristotle. The Stoics taught that every human being, just by virtue o f being human, has dignity and is wor thy o f reverence. The human ability to perceive ethical distinctions and to make ethical judgments is held to be the ‘god within’ and is worthy o f boundless reverence. Ethical capacity is found in all hu man beings, male and female, slave and free, high-born and low-born, rich and poor. Wherever this basic human capacity is found, then, it must be respected, and that respect should be equal, treating the artificial distinctions created by society as trivial and insignificant. This idea o f equal respect fo r humanity lies at the heart o f what the Stoics called Natural law’, the moral law that should provide guidance even when people are outside the realm o f positive law” (NUSSBAUM, Martha C. The Supreme Court 2006 Term Foreword: constitutions and capabilities: “ perception” against lofty formalism. Harvard Law Review, v. 121:4, [s.d.]. p. 37-38). O direito privado com o justiça corretiva 1 9 problemas práticos,3 ainda, segundo a visão de Gordley, teria sido objeto de uma estruturação na modernidade por jusnaturalistas, que acabaram por sistemati zar essa série de soluções jurídicas, as quais, durante a Antiguidade e a Idade Média, eram compreendidas de forma assistemática. Tal sistematização, por ter ocorrido no momento de preponderância de uma tradição liberal, acabou por se construir sobre pilares de primazia de uma racionalidade formalista. Contudo, antes de adentrar no estudo das teorias que abordam a justiça comutativa como um conceito central na análise de direito privado, convém, como já realizado em obra anterior,4 definir a justiça comutativa. A justiça comutativa, como justiça particular que é 0dikaion), está centrada na busca de igualdade entre participantes de transações voluntárias e involuntárias. A igualdade nas transações almejada, segundo a tradição Aristotélica, é uma igualdade aritmética. Assim, se há uma medida equivalente a dois para um participante da transação de um lado, deve-se ter a mesma medida equiva lente a dois para o outro participante. A igualdade aritmética buscada é uma igualdade absoluta, o que determina que as qualidades dos participantes da transação sejam desconsideradas. A justiça comutativa se estabelece nas transações voluntárias (negócios) e involuntárias (ilícitos), quando algum participante toma mais do que lhe cabe dos bens. A necessidade de correção ocorre, pois há sempre uma ação injusta para com o outro, caracterizada por um ganho indevido de uma parte, que gera uma consequente perda indevida da outra parte da transação. Aristóteles sempre compreende o sentido da justiça partindo da análise do injusto, nesse caso, o injusto caracteriza-se por tomar mais do que lhe cabe nas transações voluntárias e involuntárias. Diante da fixação do injusto, de uma ação que prejudica o outro numa relação entre seres humanos, a justiça comutativa define-se pela necessária 3 Importante a referência à análise de Theodor Viehweg sobre o papel central da razão prática no pensamento jurídico. Nesse sentido, Viehweg destaca como o Direito Romano teve suas ori gens centradas no pensamento problemático e não no pensamento sistemático. Vide VIEHWEG, Theodor. Tópica e Jurisprudência: uma contribuição à investigação dos fundamentos jurídico- -científicos. Trad. Kelly Susane Alflen da Silva, Porto A legre: Sergio Antonio Fabris, 2008. 4 A análise dos pontos 1.1 e 1.2 aqui desenvolvida é fruto de amplas reformulações e revisões dos pontos 1.1.3 e 2.1.3 da obra de DRESCH, Rafael de Freitas Valle. Fundamentos da responsa bilidade civil pelo fa to do produto e do serviço: um debate jurídico-filosófico entre o formalismo e o funcionalismo no Direito Privado. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. 2 0 Fundamentos do direito privado • Dresch correção entre os membros da comunidade, através da busca do reequilíbrio nas relações privadas, voluntárias (negócios) e involuntárias (ilícitos civis). A justiça comutativa, por conseguinte, toma-se pertinente numa relação entre indivíduos na qual um dos poios excede suas possibilidades em termos de ação ou omissão, causando uma perda indevida ao outro participante da relação. Há um ganho em termos de ação ou omissão, pois há um comporta mento humano contrário ao limite determinado pelo espaço político do outro. Por consequência, há uma perda pela limitação que esse comportamento de ação ou omissão causa ao outro participante da relação. Nessa situação, para atingir o fim garantia desse espaço, a justiça comutativa determina uma cor reção, de maneira a restabelecer bens perdidos. A justiça comutativa exige uma forma que tem por objetivo a preservação do fim que se pode denominar de “ igual liberdade” . Tal exigência pode ser satisfeita retirando o ganho indevido do favorecido e entregando ao prejudicado. Nesses moldes, é fundamental uma correlação entre o que é retirado e o que é devolvido. Tal mecanismo não tem por obje tivo principal a determinação de um prejuízo ao favorecido, ou mesmo uma pena. A reciprocidade entre o que se extrai do favorecido e o que se restitui ao prejudicado é inerente apenas à busca do reequilíbrio entre os participantesda relação, mais detalhadamente, é possível esclarecer a justiça comutativa como uma forma de restabelecer o equilíbrio, preservando o valor de igual liberdade, como mencionado. Assim, o papel do Estado é o de garantir essa correção, preservando o valor que aqui se busca definir como igual liberdade no âmbito das relações privadas. O órgão judicial, aplicando o direito privado, trata de empreender essa atividade de correção. Contudo, há uma diferença na denominação dada a essa espécie de justiça entre Tomás de Aquino e Aristóteles, como anterior mente referido. Tomás de Aquino denomina tal sentido de justiça como justiça comutativa, quando Aristóteles havia denominado tal sentido de justiça como corretiva. Com efeito, existem dois aspectos centrais no tratamento desse sentido de justiça, que, inclusive, acabaram por receber análises separadas por Aristóteles. O primeiro é o caráter sinalagmático entre prestações em um contrato, a reciprocidade entre prestação e contraprestação, que Aristóteles trata mais detalhadamente como justiça sinalagmática (justiça como reci procidade). O segundo caráter é o corretivo, acima desenvolvido, pelo qual, numa situação em que um comportamento indevido de um sujeito causa um prejuízo a outro sujeito, se exige o retomo desses sujeitos ao status quo ante O direito privado com o justiça corretiva 21 da maneira mais próxima possível. Veja-se como Aristóteles trata da permuta na análise da sua justiça corretiva: Os termos de perda e ganho nesses casos são emprestados das operações de permuta voluntária. Nesse contexto, ter mais do que lhe cabe é chamado de ganho e ter menos do aquilo que se tinha no início é chamado de perda, como, por exemplo, no comprar e vender e todas as demais transações que recebem a imunidade da lei.5 Cumpre notar que a diferença de tratamento entre os dois filósofos é explicitada pelo famoso e debatido exemplo do contrato de troca entre um construtor de casas e um sapateiro.6 A justiça do equilíbrio, nas trocas, da pro porcionalidade entre prestações, é analisada por Aristóteles, quando do estudo da justiça como reciprocidade (sinalagmática). Quando do estudo da justiça nas correções, Aristóteles refere-se à sua aplicação nas transações voluntárias, mas essa referência se dá em virtude de a necessidade de correção também ocorrer nessas transações.7 Ocorre que Tomás de Aquino, por perceber a correlação entre o caráter si- nalagmático e o corretivo, trata a justiça corretiva e a justiça como reciprocidade 5 ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução, estudo bibliográfico e notas Edson Bini. Bauru, São Paulo: ED1PRO, 2002. Livro V, cap. 4. 6 “Há os que opinam que a simples reciprocidade é justiça, doutrina que era dos pitagóricos. (...) A retribuição proporcional é efetuada numa conjunção cruzada. Por exemplo, suponhamos que A seja um construtor e, B um sapateiro, C uma casa e D um par de sapatos; requer-se que um construtor receba do sapateiro uma porção do produto do trabalho deste e que lhe dê uma porção do produto do seu. Ora, se a igualdade baseada na proporção entre os produtos for pri meiramente estabelecida e então ocorrer a ação de reciprocidade, a exigência indicada terá sido atendida; mas se isso não for feito, o acordo comercial não apresenta igualdade e o intercâmbio não procede [.. . ]" (ARISTÓTELES, op. cit.). 7 Cabe, nesse ponto, destacar o esclarecedor ensinamento de Bostock: “Reciprocity, says Aristotle, is not the right account either o f justice in distribution o r justice in retification, but it is the right account another kind o f justice, namely justice in ‘associations fo r exchange’. We must add, however, that what is needed here is not simple reciprocity but rather reciprocity ‘in accordance with propor tion’, fo r that is what holds a state together. I think it is clear that Aristotle means to introduce here a fu rther fo rm o f particular justice, i.e., o f justice as fairness. The basic question is: what constitutes a fa ir exchange? As his own discussion shows, this has a special case: what constitutes a fa ir price? To this we naturally add, though Aristotle does not, the closely related questions o f a fa ir wage, a fa ir profit, and so on, fo r the general area is, as one m ight say, justice in economics” (BOSTOCK, David. Aristotle’s ethics. Nova York: Oxford University, 2000. p. 63). 2 2 Fundamentos do direito privado • Dresch (sinalagmática) com uma nova denominação: justiça comutativa.8 Como a tra dição tendeu a seguir essa denominação e ela se apresenta como mais funcional aos objetivos deste estudo, é dada primazia à denominação de justiça comu tativa, justamente por englobar os dois aspectos: corretivo e sinalagmático. Contudo, não há como negar que esse tema é controverso, pois, no pensa mento ocidental, a divisão dos sentidos de justiça em: (1 ) justiça geral como o sentido mais abrangente de justiça em uma comunidade; (2 ) justiça particular como parte da justiça geral; (3 ) justiça distributiva e comutativa (corretiva e sinalagmática) como formas de justiça particular - é debatida até os dias atuais, sem uma possível conclusão definitiva sobre a melhor classificação.9 Diante dessa dificuldade e não sendo o tema principal deste estudo a controvérsia sobre a mais adequada classificação dos sentidos de justiça par ticular na tradição aristotélica, o estudo segue com a terminologia da justiça 8 Aquino, nos comentários à Ética a Nicômaco, é claro na sua interpretação sobre a existência de duas partes da justiça comutativa, uma para as transações involuntárias (centrada na correção) e outra nas voluntárias (centrada no equilíbrio): liLast, at There are two parts’, He subdivides commutative justice according to two different kinds o f transactions, making a twofold division. He says first that there are two parts o f commutative justice because there are two kinds o f transactions. Some are voluntary, others involuntary. The voluntary are so-called because the principle o f transac tion is voluntary in both parts, as is evident in selling and buying, by which one man transfers the dominion over his own property to another as compensation fo r a price received; in barter, by which someone gives what is his to another fo r something o f equal value; in bail, by which a person volun tarily appoints himself a debtor fo r another; in loan, by which a man grants the use o f his property to another without recompense but reserves ownership o f the thing to himself; in deposit, by which one commits something o f his to the custody o f another; in rent, by which a person accepts yet use o f something belonging to another fo r price. Then, at ‘Some kinds o f involuntary’, he subdivides the other division as transactions, saying that some involuntary transactions are occult; like theft, by which one takes a thing belonging to another who is unw illing’. AQUINO, Thomas. Commentary on Aristotle’s Nicomachean Ethics. TYanslated by C. I. Litzinger, O. R, Foreword by Ralph Mclnemy, Notre Dame. Indiana: Dumb Ox Books, (c. 929, 930), nov. 2001. p. 294. 9 \feja a classificação apresentada por Michelon: “Thus here are my stipulations: in what follows, 1 shall refer to distributive justice as the set o f criteria to be used to guide the individual allocation o f a community’s divisible goods and divisible burdens in proportion to ‘merit’, broadly conceived. By commutative justice I mean the set o f criteria, not sensitive to merit, to be used to guide allocation o f goods and burdens. I use corrective justice to mean commutative justice criteria appropriate to situations where someone is called to answer fo r someone else’s loss. In my use o f corrective justice, the expression includesboth situations in which the damage is predicated on the existence o f a special relationship between the parties (e.g. a contract that has been breached, a parental duty that has been overlooked) and situations in which the damage does not suppose that special relationship (e.g. a tort case between strangers). Finally, reciprocal justice is used fo r the commutative justice criteria appropriate to deal with the allocation o f goods between parties in an exchange.” MICHELON, op. cit., p. 3-4. O direito privado com o justiça corretiva 2 3 comutativa como abrangente dos sentidos de justiça como correção e de jus tiça como reciprocidade, exceto quando da análise de juristas e filósofos que preferem um ou outro termo. Ademais, é importante destacar, mesmo que brevemente, como esse sen tido de justiça comutativa teria se transformado na base de racionalidade do direito privado dentro da tradição jurídica privatista. Gordley ensina que tal princípio foi usado pela escolástica tardia, por juristas como Domingo de Soto (1494-1560), Luis de Molina (1535-1600) e Leonard Lessius (1554-1623), para originalmente sistematizar os institutos criados no Direito Romano e desenvolvidos na Idade Média.10 Com base nas ideias de Tomás de Aquino e Aristóteles, acima descritas, esses juristas apresentaram os princípios fundantes da primeira teorização do direito privado, eis que tanto os juristas romanos quanto os medievais não tinham uma preocupação de apresentar uma teoria sistematizante do direito privado.11 Corroborando a tese de Gordley, mister destacar a análise de Wieacker: N o espaço da contrarreforma, foram os teólogos morais e os juristas espanhóis quem, por outro lado, preparou caminho ao jusracionalismo, ao aplicar a tra dição (predominantemente tomista) da escolástica anterior ao conjunto das questões jurídicas do seu tempo [...] 10 “Centuries ago, however, jurists had an explanation. These jurists wrote in the 16th and early 17th centuries. They belonged to a school which historians refer to as the fate scholastics’. Few people today are fam iliar even with the names o f the leaders o f this group: fo r example, Domingo de Soto (1494-1560), Luis de Molina (1535-1600) and Leonard Lessius (1554-1623). Yet, as I have descri bed elsewhere, they were the first to give private law a theory and a systematic doctrinal structure. Before they wrote, the Roman law in force in much o f Europe had neither. For all their subtlety, neither the Romans nor the medieval professors o f Roman law were theorists. In contrast, the late scholastics tried to explain Roman law by philosophical principles drawn from their intellectual heroes, Thomas Aquinas and Aristotle. Their work deeply influenced the 17* century founders o f the northern natural law school, Hugo Grotius (1583-1645) and Samuel Pufendorf (1632-1694) who adopted many o f their conclusions and disseminated them through northern Europe, paradoxically, at the very time that Aristotelian and Thomistic philosophy was fa lling out o f fashion” (GORDLEY, James. Damages Under the Necessity Doctrine. Issues in Legal Scholarship, Vincent v. Lake Erie Transportation Co. and the Doctrine o f Necessity (2005): Article 2. p. 15-16. Disponível em: < http://www.bepress.com/ils/iss7/art2> . Acesso em: 3 nov. 2010. 11 Hespanha denomina o movimento dos juristas neotomistas de Escola Peninsular do Direito Natural e a caracteriza pela busca da laicização, logicização e radicação do direito na razão indi vidual, acrescentando que em alguns pontos há uma aproximação com o humanismo e com te mas da filosofia franciscana, o que determina um revisionismo do tomismo. HESPANHA, António Manuel. Panorama Histórico da Cultura Jurídica Europeia. 2. ed. Portugal: Publicações Europa- América, 1998. p. 144-146. 2 4 Fundamentos do direito privado • Dresch O pressuposto filosófico desta aplicação à própria época era, é certo, na maior parte dos casos a tentativa, metodologicamente difícil (que remontava até o estoicismo, de, a partir de princípios gerais, chegar a “princípios médios” ou conclusões, isto é, a normas detalhadas de direito natural). A contribuição prática para a cultura jurídica europeia não é, com isto, dimi nuída; foi precisamente através deste feito que eles se tomaram poderosos promotores do jusracionalismo da Europa ocidental. Os mais famosos destes teólogos, canonistas e juristas, são: Francisco de Vitó ria (1546), Domenico de Soto (1560); os juristas Fernando Vasquez (1568), Covarruvias (1512-1577) e Ayala (mais tarde no estado eclesiástico); por fim os teólogos morais Gabriel Vasquez (1604) e Francisco Suarez (1617).12 Contudo, cabe, aqui neste trabalho, acrescentar um ponto olvidado por Gordley, pois, segundo Michel Villey, o direito privado construído no período clássico do direito romano teria sido forjado desde seus primórdios com base na justiça particular, no d ik a io n de Aristóteles: Assim, no texto de Cícero adma citado, Sit ergo in jure civili fin is hic, era apenas a ciência do direito civil que se deveria ser constituída. Os grandes juristas des sa época são chamados de fundadores do jus civile. E esta expressão, que aliás foi tomando outros sentidos ao longo da história, parece então corresponder exatamente ao que se chamava na teoria de Aristóteles de dikaion politikon: direito existente, numa cidade, entre os cidadãos chefes de família, o único dikaion no sentido pleno da palavra.13 Nesse contexto, mesmo tendo o Direito sofrido, ainda no período romano e durante toda a Idade Média, a incumbência de reforçar a busca de fins po líticos, morais e religiosos, como bem salienta Villey,14 jamais foi tentada uma 12 WIEACKER, Franz. A história do direito privado moderno. Trad. A. M. Botelho Espanha, (s.l.): Fundação Cauloste Gulbenkian, [s.d.]. p. 320-321. 13 VILLEY, Michel. Filosofia do direito. Definições e fins do direito. Os meios do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 95. K “Mas com efeito das grandes conquistas e da formação do império, o direito romano trans formou de direito ‘civil’ em imperial, e principalmente legislativo [...] Outra coisa que deve ser lembrada: neste agregado de cidades que foi o Império Romano, sucessor dos impérios helénicos, um direito no sentido estrito, a aplicação da ‘justiça particular’ é impraticável; é difícil dar a de finição precisa do papel de cada um. Aqui entra em jogo a moral comum; tenta-se pelo menos obrigar os homens a respeitar a lei moral, a viver ‘honestamente’, ‘não lesar o próximo’, a manter suas promessas (fides). O direito da cidade é substituído pela lei moral universal, a lei estóica, e mesmo, a partir do século IV judaico<ristã.n VILLEY, op. cit., p. 95. O direito privado com o justiça corretiva 2 5 sistematização racional do direito privado até o surgimento da era moderna. Nesse aspecto, cabe também a lembrança dos ensinamentos do jusfilósofo do direito francês: Com isso não queremos dizer que a lógica estóica, mais dedutiva, não contribuiu para a formação lógica dos juristas romanos. Mas o principal vem da dialética de Aristóteles. Numa conferência pronunciada no Instituto de direito Romano, o Grande romanista Max Kaser denunciava a imagem enganosa que os modernos, a partir do século XVII, nos deram do direito romano, ao moldarem as soluções dos jurisconsultos clássicos no direito modemo, axiomático, deduzido de leis, preocupado acima de tudo com coerência, a uniformidade: com efeito, os ju ristas romanos não temiam tanto se contradizer; eles discutiam, adaptavam as soluções às circunstâncias, a arte deles era a busca incessante, tateante do justo. No mesmo sentido, o romanista italiano R. Orestano mostrou a falsa crença num direito romano uniforme(tal como foi o direito francês a partir do Código Civil) sobre a qual se baseou no século XIX, a “caça às interpolações” . Poderíamos tam bém remetermos às observações de Vieweg. Nelas não encontramos nada que possa surpreender quem tenha tido o cuidado de estudar primeiro a filosofia gre ga clássica do direito e da política, na qual os juristas romanos foram educados.15 A precursora sistematização moderna,16 realizada pelos juristas da escolás tica tardia, por sua vez, teria influenciado os fundadores da escola do direito natural do norte-europeu, sobretudo, dois juristas de central importância para a consolidação do sistema de direito privado no Ocidente: Hugo Grócio (1583- 1645)17 e Samuel Pufendorf (1623-1694),18 que acabaram por disseminar essa ls V1LLEY, Michel. A formação do pensamento juríd ico modemo. TYad. Stéphanes Rial, notas Eric Desmons. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 73. 16 Cabe ressaltar, como referido por Villey, que desde o estoicismo, passando pelas fases do cris tianismo antigo e medieval, diferentes formas de sistematização foram pensadas, principalmen te, no sentido de buscar determinar um direito natural universal, mas jamais nos termos e com a influência da sistematização dos jusnaturalistas modernos. Como exemplo de sistematização pré- -modema, vide a obra de Cícero (CÍCERO, Marco Túlio. Da República. São Paulo: Ediouro, 1995). 17 Sobre a importância de Grócio para o direito moderno, basta citar as palavras de Wieacker: “Como verdadeiro fundador do modem o jusracionalismo é considerado, desde há muito, com razão ou sem ela, Hugo Grócio (Huigh de Groot, 1583-1645)” (WIEACKER, op. cit., p. 323). No mesmo compasso: “Portanto, por detrás do direito natural de Grócio está um ethos político e pessoal, que se pode designar, com Erik Wolff, por uma nova crença no direito e que faz de Grócio (mas agora num sentido diferente do usual) o fundador do modem o direito natural” (WIEACKER, op. cit., p. 339). 18 Quanto à relação entre os pensamentos de Grócio, Pufendorf e os demais precursores do jusracionalismo e o direito privado posterior (codificação, pandectística etc.), assim preconiza 2 6 Fundamentos do direito privado • Dresch visão pela Europa na mesma época em que o pensamento de Aristóteles e Tomás de Aquino estava perdendo espaço na filosofia moderna.19 O que Gordley não menciona, mas que igualmente pode ser defendido, é que, dentro da mesma linha de tradição mencionada, os trabalhos de Grócio e Pufendorf influencia ram o mais destacado filósofo da modernidade, Immanuel Kant. Kant, como será a seguir demonstrado, é visto como um pensador central pelos analistas defensores da racionalidade comutativa. Cabe salientar, ainda, que essa influência não teria ocorrido tão somente em virtude da neoescolástica, pois, como bem lembram Wieacker20 e José Reinaldo de Lima Lopes, o direito moderno, individualista, contratualista, sistematizado,21 de uma racionalidade instrumental e procedimental, recebeu influência do humanismo francês, pelo mos gallicus (estilo francês),22 que se Wieacker: “ Uma vez que Grócio fundou o seu direito das gentes no direito natural e, por isso, formulou uma teoria jurídica geral, ele tomou-se num modelo mesmo para o direito privado jusnaturalista. Através da mediação de Pufendorf, Christian W olf e Thomasius, Grócio influen ciou até ao pormenor as codificações jusnaturalistas alemãs e estrangeiras até à pandectística e mesmo até ao direito privado da actualidade” (WIEACKER, op. cit., p. 326). 19 “Few people today are fam iliar even with the names o f its leaders: fo r example, Domingo De Soto (1494-1560), Luis de Molina (1535-1600) and Leonard Lessius (1554-1623), and yet, as I have shown elsewhere, they were the firs t to give Roman law a theory and a systematic doctrinal structure. Their work deeply influenced the 17* century founders o f the northern natural law school, Hugo Grotius (1583-1645) and Samuel Pufendorf (1623-1694), who disseminated many o f their conclusions through northern Europe, paradoxically, at the very time that Aristotelian and Thomistic philosophy was fa lling out o f fashion” (GORDLEY, James. Foundations o f private Law: property, tort, contract, unjust enrichment. New York: Oxford University Press, 2007. p. 10-11). 20 Nesse sentido, vide a análise da influência dos huguenotes sobre o jusradonalista Althussius: “Próximo da teoria política dos ‘monarcômacos’ huguenotes, ele encontra-se dominado nos seus esforços metodológicos pelo seu racionalismo antiescolástico. O ‘método dicotômico’ do humanista protestante Pierra de La Ramée (1515-1572; uma das vítimas da noite de S. Bartolomeu) influiu na sua obra da juventude De arte jurisprudentiae (1586), com os seus panoramas sinópticos e as suas divisões contínuas em membra e species, bem como na sua, mais madura mas menos original, Dicaelogia Juris (1617), com a sua sistemática exaustiva” (WIEACKER, op. cit., p. 322). 21 Wieacker assim menciona a importância da sistematização: “ O mais importante contributo jus- racionalista para o direito privado europeu é, contudo, o seu sistema. A jurisprudência europeia fora, até aqui, uma ciência da exegese e do comentário de textos isolados, tendo permanecido assim depois do fracasso do projecto sistemático do humanismo. Para o jusradonalismo, desde Hobbes e Pufendorf, a demonstração lógica de um sistema fechado tomou-se, em contrapartida, na pedra de toque da plausibilidade dos seus axiomas metodológicos. Quando, no século XVIII, ele começou também a ordenar as exposições de direito positivo, facultou-lhes o sistema; aquele sistema que ainda hoje domina os códigos e manuais” (WIEACKER, op. cit., p. 310). 22 “Sob a designação são agrupados os juristas que, no século XVI e sobretudo em França - (daí ‘mos gallicus (iura docendi)’ [maneira francesa de ensinar o direito], por oposição a ‘mos italicus O direito privado com o justiça corretiva 2 7 caracterizou por buscar reconstruir o corpus iuris civilis de uma forma siste mática e orgânica.23 Os juristas dessa escola, huguenotes, quando do massacre da noite de São Bartolomeu, em 1572, fugiram da França, passando a viver na Holanda e na Alemanha, onde acabaram por influenciar o surgimento da Escola Elegante Holandesa, da qual surge Hugo Grócio, e da Escola dos Usus Modemus Pandectarum, que principia a grande ciência jurídica alemã.24 Assim, de maneira direta e esclarecedora, Wieacker define a importância de Grócio como o fundador do jusnaturalismo modemo e como elo com a tradição aristotélico-tomista: O impacto de Grócio é antes fundado, por um lado, no seu eficaz papel de me diador entre a tradição da teologia moral e o futuro jusracionalismo profano. Ao contrário do que aconteceu com a tradição da Igreja Católica, Grócio pode ser directamente adoptado pelo iluminismo deísta e torna-se, assim, influente, no pensamento profano.25 Dessa etapa da ciência jurídica alemã e norte-europeia em diante, segundo Gordley, o direito, e mais especificamente o direito privado, vai se desenvolver com as características modernas supracitadas, reforçadas pelo Iluminismo, dando origem à possibilidade de compreensão do direito privado como um sistema de normas sedimentado nos princípios de justiça,26 focado no fim de igual liberdade dos privados.27 Vale mencionar, ainda, que, para esses juristas, (iura docendi)’ - , o estilo de discurso e ensino jurídicos tradicionais, dominantes em Itália - , se propõem a reformar a metodologia jurídica dos Comentadores no sentido de restaurar a pureza dos textos jurídicos da Antiguidade” (HESPANHA, op. dt., p. 137). 23 LOPES, José Reinaldo de Lima; QUEIROZ, Rafael M afei Rabelo; ACCA, Thiago dos Santos. Curso de história do direito. São Paulo: Método,2006. p. 93-94. 24 LOPES, José Reinaldo de Lima. O direito na história. Lições Introdutórias. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2008. p. 162-163. 25 WIEACKER, op. cit., p. 338. 26 Interessante é a referênda de Wieacker à presença da justiça contratual aristotélica nos escri tos de Grócio: “A teoria de Grócio acerca da justiça contratual (II, 12 ss) baseia-se na tradição aristotélico-tomista que já tinha tido influência nos condliadores. Esta tradição exige como cri tério de justiça contratual interna, uma equivalência das prestações (aequalitas) e, por isso, uma contraprestação equivalente: ne plus exigatur quam par est” (WIEACKER, op. d t., p. 333). 27 Cabe referir que, apesar de estar diretamente vinculado aos fundamentos aristotélicos da justiça na sua análise do direito, Grócio não se eximiu de críticas pontuais sobre a análise de Aristóteles, como bem ensina Izhak Englard: “A major and most influential figure o f the enli- ghtenment was Hugo Grotius (1583-1645). He accepted basically the Aristotelian dichotomy o f 2 8 Fundamentos do direito privado • Dresch o fundamento da justiça se mantinha presente; basta lembrar, exemplificati- vamente, as próprias palavras de Pufendorf: Não existe acordo a respeito da divisão da justiça. A divisão mais largamente aceita é entre a justiça universal e a justiça particular. Da justiça universal diz-se que é praticar os deveres de toda espécie em relação ao outro, mesmo os que não se podem exigir por força ou por meio de um processo judicial. A justiça particular consiste em fazer ao outro exatamente aquelas coisas que ele poderia exigir de direito; normalmente se divide em distributiva e comutativa. A justiça distributiva repousa em um acordo entre uma sociedade e seus mem bros a respeito da divisão pro rata (proporcional) das perdas e ganhos. A justi ça comutativa, ao contrário, baseia-se em um contrato bilateral em particular relativo a coisas e ações relevantes no com érdo.28 A desconexão do direito privado moderno com os seus fundamentos cen trados na tradição aristotélica da justiça,29 fundamentos esses que serviram de base tanto para a descoberta das soluções de direito pelos jurisconsultos romanos - conforme defendido do Villey - quanto para a sistematização dessas soluções pelo jusnaturalismo moderno, como fica claro nos escritos de Grócio, Pufendorf, entre outros, parece ter ocorrido, principalmente, nos séculos XVIII e XIX. Tal desconexão vai culminar com a escola pandectista, no século XIX, de tão grande influência posterior. Apesar de a desconexão ter afastado as refe rências diretas aos sentidos de justiça por parte dos jusprivatistas desde então, mesmo considerando a presença de novas influências filosóficas, sobretudo, a distributive and corrective justice, translating them, as mentioned, with Latin terms ofiustitia attri- butrix and iustitia expletrix he introduced into the distinction two new terms: aptitude and facultas. The latter term designates a legal right in the strict sense, like: personal freedom, paternal authority, ownership, and obligation. The form er concept aptitude, constitutes the potencial to obtain a right; in the framework o f distributive justice it is the Aristotelian axia, the merit (called in Latin dignitas) serving as a criterion fo r the proportional distribution” (ENGLARD, Izhak. Corrective & distributive justice: from Aristotle to modem times. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 143-144). 28 PUFENDORF, Samuel. Dos deveres do homem e do cidadão de acordo com a lei natural. TYad. José Reinaldo de Lima Lopes. In: Curso de história do direito. São Paulo: Editora Método, 2006. p. 309. 29 R. C. van Caenegem também afirma esse processo de desconexão: “De maneira geral, os auto res da Escola de Direito Natural tomavam emprestados os princípios do direito romano quando precisavam formular normas concretas de lei para questões específicas. Sua intenção não era rejeitar as normas tradicionais do direito como um todo, o que não teria sido nada realista; queriam modernizar o método jurídico e libertar a jurisprudência da restrição imposta pela auto ridade antiga” (CAENEGEM, R. C. Vãn. Uma introdução histórica ao direito privado. Trad. Carlos Eduardo Lima Machado. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 168-169). O direito privado com o justiça corretiva 2 9 kantiana,30 não há como desvincular a teoria da justiça do direito privado, eis que esta serviu de alicerce central nos dois momentos cruciais da formação do direito privado no Oddente.31 Nesse aspecto, apesar de Gordley não abordar essa questão histórica di retamente, é fundamental frisar que, apesar da crítica kantiana à metafísica do jusnaturalismo modemo anterior e a desconexão ocorrida em relação aos fundamentos da justiça aristotélica, a Escola Histórica do Direito, através de seus principais líderes, Savigny e Puchta, pode receber e conformar a he rança jusnaturalista e a forte influência kantiana e neokantiana.32 Ou seja, a 30 “Do ponto de vista dos valores subjacentes, este formalismo corresponde ao papel que ao di reito é reservado no sistema ético de Kant - ao direito não compete estabelecer padrões éticos de conduta, mas garantir a liberdade que, justamente, possibilita uma avaliação ética das condutas. E, nessa medida, o formalismo conceitualista traduz, do ponto de vista histórico-cultural, uma posição, por um lado, individualista, e, por outro, relativista” (HESPANHA, op. dt., p. 187). 31 Tal momento de desconexão relevante é bem descrito por Englard: “Among the legal scholars o f the seventeenth and eighteenth centuries, we find a strong tendency to critidze Aristotle’s distinctions, sometimes with ironical undertones directs against those jurists who spent time and intellectual efforts to elaborate these distinctions. An influential voice is Christian Thomasius (1655-1728), professor o f law at the University o f Halle. He argues in relation to Ulpian’s defini tion o f justice that the attempt to explain it on the basis o f Aristotle’s writings is even more awry that the attempt to explain the books o f Protestant theologians on the basis o f the writings o f the Popes ( . . . ) The German Pandectists o f the nineteenth century, too, were not specifically interest in the scholastic discussions o f the Aristotelian notions o f justice. Thus, e.g., Anton Friedrich Justus Thibaut (1772-1840), in his famous System des Pandekten-Rechts - after mentioning Grotius’s distinction between iustitia attributrix and iustitia expletrix - simply adds that, for the history o f science, the scholastic division between commutative and distributive justice is noteworthy. Some Pandectist scholars used even a most disparaging language in relation to the classical notions o f justice, claiming that their analysis was a waste o f time, misleading, and a contraband o f prohibited goods” (ENGLARD, op. cit., p. 171-174). 32 Assim Wieacker esclarece essa combinação no seio da Escola Histórica do Direito: “ Incorrecta seria, em contrapartida, a conclusão de que a crítica kantiana da metafísica do direito tenha tor nado impossíveis todos os ulteriores contributos metodológicos do jusracionalismo para a ciência jurídica. O jusracionalismo, como tentativa sistemática de uma ordenação científica do direito positivo, não foi de modo algum atingido por ela; assim, kantianos como Anselm Feuerbach (e, num certo sentido, Franz V Zeiler) puderam ser, ao mesmo tempo, legisladores jusracionalis- tas. Continuou ainda a ser possível, com base na autonomia ética de Kant, uma ética jurídica autônoma de carácter trans-histórico, tal como dominou o conjunto da primeira pandectística no conceito de pessoa jurídica, de direito subjetivo, de autonomia da vontade negociai e da ‘existênciaautônoma do direito’ como realização da ética em Savigny e em Puchta. Assim, para Savigny, o direito constitui ‘uma fronteira dentro da qual a existência e a acção de cada parti cular obtém um espaço seguro e livre’ e ‘a regra pela qual esta fronteira e este espaço livre são definidos’. Savigny chega assim a uma relação entre direito e moral que fundamenta eticamente a própria autonomia do direito; o direito serviria na verdade a moral: porém, não enquanto dava realização aos seus comandos, mas enquanto assegurava a cada um o desdobramento das suas 3 0 Fundamentos do direito privado • Dresch pandectística recebe a forte influência kantiana e a agrega às conquistas jurí dicas do jusnaturalismo moderno sobre o material romano, desconectando-se, entretanto, dos princípios de justiça que influenciaram os romanos e os pais do direito privado moderno.33 Contudo, sabidamente, a pandectística, ao longo do século XIX, irá agregar outro componente à tradição do direito privado ocidental, principalmente, continental europeu: o historicismo irá acrescentar um forte elemento teórico e filosófico a essa tradição. A história do direito privado oitocentista é marcada exatamente por essa consciência histórica e uma contínua migração de uma visão inicialmente formalista, defensora de uma visão comutativa, formalista, não abertamente analisada - presente, sobretudo, em juristas da primeira pandectística, como Savigny e Puchta34 - para uma visão funcionalista - e, portanto, de racionalidade distributiva, de juristas posteriores, como Jhering e Gierke, a qual será mais bem detalhada no Capítulo 2.35 Como essa construção moderna do formalismo acabou por abandonar os fundamentos da teoria da justiça da tradição aristotélico-tomista, para a posteridade, o formalismo deixou de estar vinculado especificamente à ideia energias internas. Daqui decorre que o direito ‘domine ilimitadamente na sua esfera’ e não tenha que cumprir outra missão que não a da consagração ética da natureza humana”’ (WIEACKER, op. dt., p. 403). 33 Wieacker, novamente, destaca essa ruptura promovida por Savigny: “o que ele terá feito foi distanciar-se, como todos os chefes da fila da jurisprudênda por volta de 1800, do direito natural pré-crítico, isto sob a influência de Kant; para ela já não existia qualquer direito natural ‘mate rial’, i.e. do ponto de vista do conteúdo, que pudesse representar a filosofia da dência jurídica” (WIEACKER, op. dt., p. 425). No mesmo sentido: “Foi também do jusnaturalismo que a nova ciência jurídica adoptou ainda o pressuposto de uma determinação ética geral para o direito. Na verdade a antiga ética sodal material do jusnaturalismo de Gródo e Pufendorf, juntamente com a sua tradição antiga e escolástica, apareda agora completamente desmentida pela ‘Crítica da razão prática’ e pelos ‘Fundamentos metafísicos da teoria do direito’ de Kant. Ela foi substituída pela ética formal do dever e da liberdade que Kant deduziria da autonomia moral de personali dade” (WIEACKER, op. cit., p. 427). 34 Interessante destacar como o valor “ igual liberdade”, antes mencionado, está presente na análise formalista de Savigny assim como estará para os formalistas contemporâneos da justiça corretiva: “ Do mesmo modo, as definições de direito subjectivo de autonomia privada, de negó cio jurídico e de vontade negociai dadas por Savigny correspondem a exigência posta por Kant daquela liberdade que pudesse coexistir com a liberdade de todos os outros” (WIEACKER, op. cit., p. 428). 35 Vide WIEACKER, op. cit., p. 409. O direito privado com o justiça corretiva 31 de comutatividade e passou a ser compreendido apenas nos termos do libe ralismo individualista.36 Contudo, como o objetivo focal da presente análise não é o de estabelecer uma avaliação histórica do direito privado, as referências históricas menciona das são meramente introdutórias para a apresentação das teorias que, dentro dessa tradição, desenvolvem o direito privado fundamentado na justiça comu tativa. Nesse compasso, na sequência dessa seção, é explicitado como parte das análises de direito privado, na atualidade, busca embasar a racionalidade desse ramo do direito, total ou principalmente, na forma de justiça comutativa. 1.2 A teoria formalista de Ernest Weinrib Como já sinalado no item anterior, a tese, nesses dois pontos iniciais, especificamente, sintetiza, reformula e acrescenta em relação ao tema ante riormente analisado pelo autor, ao desenvolver o pensamento do jurista mais engajado na defesa da justiça comutativa e na forma específica dela decorrente para fins de fundamentação do direito privado.37 Ernest Weinrib, na explana ção da teoria por ele denominada de formalismo, como não poderia deixar de ser, foca o entendimento do direito privado na forma (estrutura) particular que caracterizaria a correta compreensão dos institutos do direito privado. A compreensão dessa forma especial do direito privado possibilitaria o chamado entendimento interno, estruturado em uma ideia formal baseada no caráter, no tipo e na unidade das relações no âmbito do direito privado. Segundo Weinrib, é necessário entender tais conceitos nos seguintes termos: caráter (as 36 Ilustrativamente, exemplar é a análise de Castanheira Neves, ao tratar do modelo em questão: “TYata-se de um modelo de juridicidade-jurisdição perspectivado pelo individualismo modemo liberal e iluminista. Anotemo-lo em duas palavras, já que este é um terreno de todos bem co nhecido. No fundo de tudo esteve uma determinante antropológica, já que a compreensão que ao tempo o homem de si mesmo teve levava implícito tudo o resto. E essa compreensão, que se constituiu do séc. XVI ao século XVIII, radicava na autonomia humana, em ruptura com a ordem (ou a pressuposição da ordem ) teológica-metafísica-cultural transcendente, e para aceitar como fundamentos únicos de seu saber e de sua acção, respectivamente a razão (a razão em diálogo com a experiência empírica) e a liberdade. Em concomitância, se não como consequência, afir ma-se a secularização (posto que ainda não como secularismo) e a emancipação do econômico, ou a sua limitação dos quadros ético-religiosos (qualquer que tivesse sido a influência religiosa para a formação do capitalismo) e que não tardou a significar decisivamente a emancipação dos interesses, nos quais se via, aliás, a condição efectiva da realização da liberdade reinvidicada” (CASTANHEIRA NEVES, op. dt., p. 15-16). 37 DRESCH, op. dt., p. 81-101. 3 2 Fundamentos do direito privado • Dresch características essenciais do direito); tipo (fenômeno típico, distinto de outros modos de ordenamento jurídico); unidade (determinada pela constatação de uma coerência necessária à análise da relação de direito privado como tendo uma racionalidade que englobe todos os elementos da relação privada).38 39 Tais conceitos determinam, segundo Weinrib, a possibilidade de justifica ção jurídica que fornece racionalidade própria ao direito privado, distinta do direito público.40 Ademais, essa distinta racionalidade centrada em uma forma específica é imanente nas normas de direito privado, apesar de esse ideal de forma não se apresentar sempre perfeitamente nos diversos ordenamentos jurídicos, ante a necessidade de positivação do direito sofrer influência de diversos fatores contingentes. A racionalidade imanente mencionada fornece ainda uma noção integrativa, pois tanto a racionalidade quanto a imanência e a normatividade, na visão formalista, são conectadas por uma única estrutura complexa que reflete a forma do direito privado. No pensamento de Weinrib,41 a compreensão do direito privado parte do entendimento da estrutura racional da relação jurídica. A estrutura racional38 WEINRIB, op. c it , p. 22. 39 A visão de Weinrib, assim como será a de Coleman, tem por característica o foco na análise interna e na estrutura: “Weinrib and Coleman’s commitment to the methodological injunction raises a pressing problem. To see precisely how it arises, we should reiterate the nature and appeal o f this method in their hands. Both want to g ive an account o f private law; in order to do so, both think that the correct approach is one that takes up the participants’ or internal point o f view. Both argue that only when this approach is taken do w e get an account o f private law that ( I ) captures those features that participants that institution-cum-set-of-practices regard as signi ficant; and that (i i ) understands the value, or the point or the purpose o f that institution-cum- -set-of-practices.” LUCY, William. Philosophy o f private Law. 1. ed. New York: [s.e.], 2007. p. 276. 40 Assim esclarece Richard Wright o pensamento de Weinrib sobre a relação entre o direito pri vado centrado na justiça corretiva e o direito público nos termos da justiça distributiva: “Weinrib equates corrective justice with private law (private adjudication o f external human relations viewed as immediate interactions) and distributive justice with ‘public law’ (judicially enforceable lim ita tions on the legislative or administrative regulation o f external human relations viewed as mediated relations). External purposes, he maintains, are totally irrelevant fo r tort law or any other area o f private law, the sole purpose o f which is “not (as the instrumentalist thinks) to promote indepen dently justifiable goals, but simply to be tort law [o r private law] and therefore to develop itself in conformity with its own intelligible nature. For public law, Weinrib acknowledges, external political purposes must be invoked to select the specific distributive (o r mediating) criterion fo r any particular distribution. However, he asserts that the political aspect o f a particular distribution is distinct from its legal aspect, enforceable by judges, which is the requirement that the distribution conforms to and be a fu ll development o f the immanent rationality constitutive o f distributive justice” (WRIGHT, Richard. Substantive Corrective Justice. Iowa Law Review, v. 77, nQ 632,1991-1992. p. 633). 41 WEINRIB, op. cit., p. 24. O direito privado com o justiça corretiva 3 3 central mencionada é dada pela conexão de uma pessoa a outra em todas as suas dimensões, nos mesmos moldes apresentados pela forma de justiça cor retiva aristotélica,42 que teria sido desenvolvida posteriormente pela análise do direito kantiano.43 Nesse ponto, Weinrib, sem qualquer justificativa histórica, traz, quase que intuitivamente, os dois fundamentos principiológicos centrais apresentados na análise histórica da tradição de direito privado até então aqui apresentada:44 os sentidos aristotélicos de justiça corretiva e o direito kantiano. Contudo, assim como em Savigny, essa combinação acaba de construir uma compreen são centrada numa ideia de direito privado que tem por finalidade a referida compatibilização de esferas de liberdade e a forma estrita da justiça comutativa, o fim da “igual liberdade”. Assim, refere Wieacker sobre a finalidade presente na teoria de Savigny: Em particular, Savigny tirou daqui (com o já foi notado, p. 403) a convicção de que o direito serve a realização da moral, não enquanto ela ‘dá execução aos seus comandos, mas enquanto garante a cada um o livre desdobramento da sua vontade individual; que, portanto, o direito deve iluminar ilimitadamente no seu domínio’ e não ter que cumprir qualquer outra missão, nomeadamente ‘a definição ética da natureza humana’ (ou, por exemplo, ‘um bem-estar polí tico-econômico, designado por sua finalidade pública’) . Do mesmo modo, as definições de direito subjectivo de autonomia privada, de negócio jurídico e de vontade negociai dadas por Savigny correspondem à exigência posta por Kant daquela liberdade que pudesse coexistir com a liberdade de todos os outros.45 Segundo Weinrib, as relações jurídicas são a causa material do direito pri vado, sendo que esse se caracteriza como forma, como um ideal de relações.46 O direito privado não é o direito positivado apenas, mas a ideia de uma nor- 42 Nesta parte do trabalho, será utilizada a denominação justiça corretiva de maneira a refletir adequadamente o pensamento do autor analisado, pois este aborda o tema sempre com referên cia à justiça corretiva e a Aristóteles, não fundamentando sua teoria em Tomás de Aquino e nos demais filósofos dessa tradição, que adotam o termo justiça comutativa. 43 WEINRIB, op. cit. 44 Cumpre desde já advertir que uma nova fundamentação principiológica ganha força ao longo dos séculos XIX e XX: o coletivismo, que irá funcionalizar o direito privado como uma técnica para obtenção de fins econômicos e sociais. Isso será abordado no Capítulo 2. 45 WIEACKER, op. cit., p. 428. 46 WEINRIB, op. cit., p. 25. 3 4 Fundamentos do direito privado • Dresch matividade coerente e racional em virtude de uma forma (estrutura) particular. Nos termos kantianos,47 o direito privado, segundo o formalismo, é fundado em uma ideia, uma estrutura formal dada pela justiça corretiva aristotélica e pelo direito kantiano, não sendo apenas o direito positivado em um dado Estado. Focado na forma e na análise interna, portanto, o pensamento de Wein rib concentra-se na compreensão de uma relação jurídica de direito privado configurada como uma totalidade de elementos dispostos numa estrutura racional. A análise formal tem prioridade sobre a análise material,48 pois, para Weinrib, o foco deve se estabelecer sobre o princípio organizacional interno de uma relação jurídica de direito privado, sobre a ideia que toma inteligível a disciplina das relações privadas pelo direito. A forma, como defende Weinrib,49 é o princípio de unidade que garante à relação jurídica um caráter, permite classificar a relação com as que têm o mesmo caráter e a distinguir das demais com caráter diferente. O caráter de uma relação jurídica é dado pelo conjunto de características que são particulares desse tipo de relação; em relação ao direito privado, esse caráter é dado, principalmente, pela ligação direta dos participantes de uma relação jurídica de forma coerente, pela correlatividade entre direito e dever e pela proteção da personalidade desses participantes.50 A unidade é a ideia primordial e depende da coerência.51 A relação jurídica, no direito privado, não pode ser racionalmente inteligível como uma reunião 47 “Por lo tanto, la ley universal del derecho: obra externamente de tal modo que el uso libre de tu arbítrio pueda coexistir con la libertad de cada uno según una ley universal, ciertamente es una ley que me impone una obligación, pero que no espera en modo alguno, ni mismo aun exige, que deba yo mismo restringir m i libertad a esas condiciones por esa obligación, sino que la razón sólo dice que está restringida a ello en su idea y que también puede ser restringida por otros de hecho” (KANT, Immanuel. La metafísica de las costumbres: estúdio preliminar de Adela Cortina Orts, TYaducción y notas de Adela Cortina Orts y Jesus Conill Sancho. 3. ed. Madrid: Tecnos, 2002. p. 40). 48 Apesar de Weinrib usar o termo substantive, essa não pode ser considerada a maneira mais adequada, pois, no contexto clássico, principalmente aristotélico, a substância pode ser enten dida como forma, como matéria ou, inclusive, como a união das duas causas (sínolo) . Nesse sentido, REALE, Giovanni: “Assim o desenho da usologia aristotélica se mostra plenamente de terminado. Substância em sentido impróprio é matéria; num segundosentido, mais próprio, é sínolo; num terceiro sentido e, por excelência, é forma” (REALE, Giovanni. Ensaio introdutório: metafísica de Aristóteles. TYadução Marcelo Ferine. São Paulo: Loyola, 2001. p. 102). 49 WEINRIB, op. cit., p. 28. 50 Id., ibid., p. 28. 51 A importância central do papel da coerência, no formalismo de WEINRIB, pode ser também explicitada na seguinte passagem: “The juridical conception views the determination o f liability as a distinctive domain o f practical reason that subjects the interaction between the pla intiff and the O direito privado com o justiça corretiva 3 5 aleatória de elementos segundo opções casuísticas. Diferentes princípios de uni dade caracterizam diferentes ramos do direito, pois definem estruturas diferentes de relações. Assim, as relações jurídicas de direito privado têm um princípio de unidade diverso do das relações jurídicas no âmbito do direito público.52 A coerência, de tal sorte, é definida por uma única e integrada justificação de todos os elementos de uma relação jurídica, sendo mais que a ausência de inconsistência ou contradição. A coerência ocorre quando existe uma razão única que garante a estrutura e o fundamento de todas as características da relação. Nesse sentido, a coerência, no direito privado, só pode ser obtida pela forma estabelecida pela justiça corretiva e desenvolvida pelo direito kantiano, pois a relação de direito privado ocorre entre dois particulares de uma relação, não incluindo a coletividade em geral. A relação só pode ser coerentemente inteligível através de um princípio que tome racional a conexão entre essas duas partes,53 sendo, portanto, incompatível com a presença de considerações justificatórias externas à relação, tais como eficiência econômica, redistribuição de bem-estar, equilíbrio de poder entre os participantes da relação, entre outras apresentadas pelas análises funcionalistas. A coerência que garante a ideia de unidade estabelece a compreensão também da necessária ideia de correlatividade, a qual informa que a obrigação imposta ao devedor é a mesma obrigação em favor do credor. A obrigação, assim como será também defendido por Coleman, tem por característica a defendant to a coherent ordering. Because legal argument attests to the law’s self-reflective engage ment with its own coherence, the principles and concepts already present to tort law can provisio nally be regarded as constituents o f that ordering. Drawing on the law’s own efforts, the juridical conception o f corrective justice attempts to exhibit the normative ideas interior to a coherent regime o f liability” (WEINRIB, Ernest J. Correlativity, personality, and the emerging consensus on correc tive justice. Theoretical inquiries in Law, v. 2, n° 1, jan. 2001, art. 4, p. 4). 52 Nesse aspecto, Weinrib esclarece a importância da coerência na racionalidade centrada na justiça corretiva: “Corrective justice ties coherence to the justifications that inform private law’s characteristic concepts. Legal doctrine is viewed as coherent only to the extent that its underlying justifications are coherent. These justifications, in turn, are coherent only if their force as reasons is congruent with - rather than artificially truncated by the structure o f the relationship between the parties.” Id. The Disintegration o f Duty. U Toronto, Legal Studies Research Paper n° 5-6, p. 5, 2005. Disponível em: < http://ssm.com/abstract=716802> . Acesso em: 10 jan. 2011. 53 Nesse mesmo sentido, Weinrib assim preceitua: “Liability is a fa ir and coherent phenomenon only to the extent that the justifications that support it in a given case simultaneously embrace both parties as correlatively situated. Then a reason fo r considering the defendant to have done an injus tice is also a reason fo r considering the p la intiff to have suffered that injustice” (WEINRIB, Ernest J. Punishment and disgorgement as contract remedies. Theoretical inquiries in Law, v. 2, n° 1, jan. 2001, article 4, p. 59). 3 6 Fundamentos do direito privado • Dresch bipolaridade e só pode ser inteligível de forma correlativa, ou seja, um devedor é obrigado em relação a um credor, sendo que o conteúdo do débito é o mesmo conteúdo do crédito. A prestação que configura o débito configura o crédito de forma bipolar, sendo uma obrigação compreensível, portanto, somente através da ideia de correlatividade. Tendo por base um vínculo, a obrigação se estabelece numa relação entre, no mínimo, duas pessoas, pois não se pode pensar em um vínculo de uma só pessoa. Nesse sentido, a forma da relação jurídica obrigadonal é sempre bipolar.54>5S Credor e devedor são os poios ativo e passivo da mesma obrigação, de modo que crédito e débito têm por conteúdo um mesmo objeto. Cada posição das partes é inteligível somente em relação à posição da outra. Nesse aspecto, um fator que se aplique a somente uma das partes, como ocorre na raciona lidade distributiva ao avaliar o mérito de um dos participantes, por exemplo, é uma justificação imprópria para um vínculo obrigadonal, pois inconsistente com a correlatividade. Weinrib entende, inclusive, que a ausência dessa com preensão da bipolaridade e da correlatividade que caracteriza o direito privado pode colocar em perigo a própria existênda do direito privado.56 Nesse contexto, Weinrib afirma que Aristóteles opõe a correlatividade da justiça corretiva à estrutura distributiva do outro sentido de justiça particular. A justiça corretiva liga o credor e o devedor em um ilídto lesivo. A justiça distribu tiva atribui um benefício ou um ônus comparando um número irrestrito de par tes numa distribuição com base em um critério que qualifica os sujeitos passivos da distribuição. A diferença entre correlatividade e distributividade é evidente, segundo Weinrib, pois, enquanto uma tem uma forma bipolar, a outra aceita qualquer número de participantes em sua estrutura (estrutura multilateral);57 M WEINRIB, Ernest J. The idea o f private Law. Havard Cambridge: University Press, 1995. p. 120. ^ Nesse aspecto, W illiam Lucy mendona, mais uma vez, uma proximidade entre as abordagens de Weinrib e Coleman: “According to Weinrib and Coleman, one feature o f private law - or more precisely the tort law segment thereof - that participants regard as significant is its bilateral structure. Weinrib and Coleman also claim that this feature, as w ell as other features o f tort law, are a manifestation of, or best understood in light of, corrective justice.” LUCY, op. cit., p. 276. 56 “Because liability is bipolar - the liability o f the defendant is necessarily a liability o f the plaintiff - those justifications are coherent only i f they simultaneously embrace both parties by treating then as correlatively situated through the injustice done by the defendant and suffered by the plaintiff.” WEINRIB, Ernest. Does tort law have future. Hein online, 34 Val. U. L. Rev. n8 561,1999-2000. p. 561. 57 Nesse aspecto, salienta Richard W. Wright: “Distributive justice claims are m ultilateral To de termine the resources to which a person is entitled as a matter o f distributive justice, we must know O direito privado com o justiça corretiva 3 7 enquanto uma abstrai as qualidades dos participantes, a outra tem, pelo menos, uma dessas qualidades como critério central de atribuição de bens ou encargos. Para Weinrib, nesses termos, as obrigações têm uma estrutura bipolar (credor e devedor), pois se trata de um vínculo centrado na ideia de correlatividade, o que determina que os elementos da obrigação devam incidir sobre o vínculo e não sobre as características dos participantes da relação, como ocorre na distributividade. A natureza correlativa do direito obrigacionalmostra que méritos, ca pacidades e necessidades são virtudes que podem ser relevantes em outros contextos, mas não são pertinentes à relação obrigacional. No formalismo de Weinrib, mérito, capacidade e necessidade não conectam duas pessoas par ticulares correlativamente situadas como necessário na relação obrigacional entre credor e devedor, pois não possuem uma estrutura correlativa. Assim, a carência de bem-estar pode justificar uma redistribuição que transfira recursos daqueles que têm mais àqueles que têm menos. Tal redistribuição, entretanto, opera-se com uma comparação do bem-estar de muitas partes, mais do que com o vínculo correlativo de duas partes que caracteriza a obrigação. Assim, a obrigação não é o instituto adequado para redistribuição de bens, pois, caso sirva para tal finalidade, terá desvirtuada a sua estrutura racional básica, ou melhor, sua forma imanente.58 Segundo Weinrib, ainda, no direito obrigacional, os fundamentos da cor relatividade são, para o credor, o direito subjetivo e, para o devedor, o dever, ambos com um mesmo objeto, qual seja, a prestação. A concepção jurídica da justiça corretiva considera a injustiça como consistindo no ato do devedor que é incompatível com um direito do credor, no caso da responsabilidade civil. No direito contratual, os direitos subjetivos têm por objeto o conteúdo both the total amount o f resources that exist in the community and the person’s relative ranking according to the distributive criterion in comparison with all others in the community” (WRIGHT, Richard W. Right, justice and tort law. In: PHILOSOPHICAL Foundations o f Tort Law. Oxford: Oxford University, 2001. p. 177). 58 Nesse sentido, assim descreve Weinrib: Corrective justice offers a way out o f these difficulties because corrective justice renounces one-sided justifications. Corrective justice requires that the justification for liability match the institutional framework o f liability. Given that the liability o f a particular defendant is always a liability to a particular plaintiff, justification in the liability context is coherent only when it treats the parties as correlatively situated. Because the justi fications that ground liability are constitutive o f the normative relationship between the par- -ties, those justifications must themselves have a relational structure. WEINRIB, Ernest. Restoring Restitution. Virginia Law Review, v. 91, p. 861-878, 2004. p. 875. 3 8 Fundamentos do direito privado • Dresch dos deveres, estabelecidos de forma correlativa entre as partes, de modo que as razões que justificam a proteção dos direitos do credor são as mesmas que justificam a existência de deveres do devedor. Nos moldes do formalismo da pandectística, débito e crédito de uma obrigação têm por conteúdo a mesma prestação. A terceira concepção central, para Weinrib, é a da personalidade,59 reti rada principalmente da tradição kantiana.60 A personalidade, nesse contexto, configura-se como o tratamento dos seres humanos como seres racionais, como único fim absoluto da moral e, consequentemente, do direito.61 A personalidade, nesses termos, abstrai, iguala formalmente e determina essas pessoas como o único fim moral absoluto, garantindo-lhes dignidade.62 O status de dignida de da pessoa humana decorre da liberdade, possível pela razão que garante autonomia em relação às cadeias de causalidade. Através da racionalidade, o homem exerce o seu arbítrio, que pode ser racional e, portanto, conforme a boa vontade (perfeita), ou pode ser irracional e desconforme à boa vontade. Contudo, no plano da realidade, o direito deve delimitar externamente os 59 Ver especificamente: WEINRIB, Ernest J. Correlativity, personality, and the emerging consen sus on corrective justice. Theoretical Inquiries in Law, v. 2, n° 1, jan. 2001, p. 13 et seq. 60 Kant define a personalidade como “a liberdade e independência do mecanismo de toda a nature za, considerada ao mesmo tempo como faculdade de um ente submetido às leis peculiares, a saber, as leis práticas puras dadas por sua própria razão; porquanto a pessoa enquanto pertencente ao mundo sensorial está submetida a sua própria personalidade, na medida em que ela pertence ao mesmo tem po ao mundo inteligível; não é de surpreender então que o homem enquanto pertencente a ambos os mundos tenha de considerar seu próprio ente, em relação a sua segunda e mais alta destinação, com veneração e as leis da mesma com o máximo respeito” (KANT, Immanuel. Crítica da razão prática. TYadução Valério Rohden. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 305). 61 “Rational beings, on the other hand, are called persons because their nature already marks them out as ends in themselves - that is, as something which out not to be used merely as means - and consequently imposes to that extent as a lim it on all arbitrary treatment o f them (and is an object o f reverence). Persons, therefore, are not merely subjective ends whose existence as an object o f our actions has a value fo r us - they are objective ends - that is, things whose existence is in itself an end, and indeed an end such that in its place we can put no other ends to which they should serve simply as means; fo r unless this is so, nothing at all absolute value would be found anywhere. But i f all value were conditioned - that is, contingent - then no supreme principle could be found fo r reason at a ir (KANT, Immanuel. Groundwork o f the metaphysic o f morals: in focus. New York: Routledge, 2002. p. 56-57). 62 Nesse sentido, id., ibid., p. 305-307: “somente o homem, e com ele cada criatura racional, é fim em si mesmo. Ou seja, ele é o sujeito da lei moral, que é santa em virtude da autonomia de sua liberdade. Com razão atribuímos essa condição até a vontade divina em relação aos entes racionais no mundo, como criaturas, na medida em que ela se funda sobre a personalidade dos mesmos, pela qual, unicamente, eles são fins em si mesmos” . O direito privado com o justiça corretiva 3 9 arbítrios - diante da possibilidade dos arbítrios brutos. Assim, a personalidade e a pessoa são fundamentais para definir a forma pela qual os arbítrios devem se conformar à liberdade.63 A correlatividade e a personalidade complementam- -se, como ressalta Weinrib.64 Dessa vinculação com o pensamento kantiano Weinrib concebe a perso nalidade como sendo a capacidade intencional de agir racionalmente - sem consideração às finalidades particulares - , estabelecendo a concepção ideal de pessoa que fundamenta o direito privado no seu entender.65 A personalidade destaca o que é comum e essencial ao ser humano: sua liberdade fundada na capacidade de intenções racionais, de forma a preservar a sua liberdade e a do outro participante da relação jurídica. Por poder escolher ser racional e preservar a liberdade, sua e do outro, o ser humano é imputável em relação aos efeitos de seus atos. Para Weinrib, a personalidade estabelece, assim, a ideia do sujeito de direitos e deveres numa relação jurídica obrigacional, pois a personalidade possibilita uma concepção das partes vinculada a um status normativo no qual o bem-estar geral não importa, exceto quando conteúdo de uma prestação originada no respeito à personalidade dos demais. Para as pessoas pensadas dessa maneira, ser rico ou pobre (abastado ou necessitado) não basta para constituir uma obrigação privada, pois tais qualificações não preservariam a personalidade do devedor (e mesmo do credor em termos kantianos). A personalidade é a concepção das partes formulada em um grau elevado de abstração (sujeitos livres capazes de um agir racional), que toma possível o 63 Id. La metafísica de las costumbres: estúdio preliminar de Adela Cortina Orts,Tfaducción y notas de Adela Cortina Orts y Jesus Conill Sancho. 3. ed. Madrid: Tecnos, 2002. p. 39. 64 “In the juridical conception o f corrective justice, correlativity and personality are comple mentary ideas. They are the mutually entailed parts o f a single conception, out they highlight different aspects o f it. Just as correlativity is the most abstract representation o f the terms on which the parties interact in private law, so personality is the most abstract representation o f the parties themselves as interacting beings. And just as correlativity exhibits the structure o f the jus tifications that pertain to private law, so personality articulates the presupposition that informs the content o f those justifications. Correlativity and personality pass over the same theoretical ground from different directions.” WEINRIB, op. cit., p. 5. M Kant assim preceitua: “ [...] en esta relación recíproca del arbitrio no se atiende en absoluto a la materia del arbitrio, es decir, al fin que cada cual se proponen con el objeto que quiere, por ejemplo, no se pregunta si alguien puede beneficiarse también o no de la mercancia que me compra para su propio negocio; sino que se pregunta por la form a en la relación dei arbitrio de ambas partes, en la medida que se considera únicamente como libre, y si como ello, la acción de uno de ambos puede conciliarse con la libertad dei otro según una ley universal” (KANT, op. cit., p. 38-39). 4 0 Fundamentos do direito privado • Dresch correto entendimento da relação jurídica obrigadonal como uma correlação de direitos e deveres das partes.66 Contudo, é possível criticar o pensamento de Weinrib nessa questão, pois ele não analisa o conceito de pessoa e de personalidade como uma forma de preservar a dignidade da pessoa humana em termos materiais, destacando apenas a abstração fundada na caparidade para a ação intenrional centrada na radonalidade, o que garante a forma e a base para a capaddade para direitos e deveres.67 A personalidade, para ele, é pura forma, abstração, pois os seres humanos e seus direitos e deveres são pensados apenas em termos de capad dade de formar uma intenção radonal (livre-arbítrio).68 O fim, portanto, é o de busca de preservação de igual liberdade estritamente formal, individualista e voluntarista. De tal sorte, caracterizado sucintamente o pensamento de Weinrib, faz-se necessário seguir a análise dos demais pensadores que, de alguma maneira, têm a justiça comutativa como uma ideia central para o direito privado, des tacando suas similaridades e divergências conceituais. 1.3 O pragmatism o de Ju les Coleman Delineado o pensamento estritamente formalista de Weinrib, que configura uma das origens da retomada da análise do direito privado com base na ideia de justiça comutativa, importante destacar o diferente desenvolvimento que essa análise obteve através do pensamento de destacados filósofos e teóricos do direito. Nessa senda, necessário apresentar, primeiramente, a análise de Jules Coleman, que, ao lado de Weinrib, se estabeleceu como um precursor do estudo da justiça comutativa no direito privado. O professor de Yale propõe, principalmente no caso da análise da respon sabilidade civil, a alocação de custos dos acidentes com base na culpa, nos termos da justiça corretiva.69 Pela justiça corretiva, segundo Coleman, quando 66 WEINRIB, op. cit., p. 17. 67 Nesse sentido, Weinrib reduz a noção de personalidade à capacidade intencional, deixando o principal do conceito - dignidade da pessoa - para um segundo plano. 63 Ver especificamente: WEINRIB, op. cit., p. 16. 69 Coleman também prefere utilizar a denominação justiça corretiva, o que determina que aqui, assim como na análise do pensamento de Weinrib, a denominação justiça corretiva será O direito privado com o justiça corretiva 41 a vítima sofre um dano causado por culpa de um ofensor, como resultado de violação de seus direitos, o ofensor deve ser responsabilizado pelos custos da perda sofrida.70 Contudo, a realização da justiça tem início com os deveres para com a vítima, pois uma pessoa pode ter um débito de ressarcir a perda de uma vítima, mesmo não sendo responsável pela perda. Coleman, portanto, em decorrência de seu defendido pragmatismo, reconhece a possibilidade de um dever de ressarcir que não seja baseado na culpa, nos termos da justiça corretiva, desde que essa responsabilização determinada pela forma distributiva seja baseada nas práticas sociais ou jurídicas.71 Cabe ressaltar, entretanto, que, apesar de admitir a possibilidade de atri buição do dever de indenizar nos moldes distributivos, Jules Coleman é um dos críticos mais apurados da Análise Econômica do Direito e do Utilitarismo em geral. Ele desenvolve uma das principais consequências de uma concep ção funcionalista econômica, qual seja, a de que essa concepção, à medida que introduz eficiência econômica como um fim externo ao direito privado - em menor ou maior grau - , afeta a igual liberdade que caracteriza o ideal de direito privado. O indivíduo, como um dos participantes de uma relação privada, nesses termos, pode ter prejuízo em relação aos seus bens em prol do bem-estar econômico da maioria, pois, como constatado por Coleman, a neutralidade das medidas direcionadas à eficiência econômica ou a outros objetivos sociais é inverossímil, eis que, quando tais medidas são adotadas, apresentam favorecidos e prejudicados. Com efeito, Coleman salienta que, em virtude da existência de prejudica dos, na grande maioria das situações em que se avalia uma medida jurídica, a maior parte das análises, em termos econômicos, não pode adotar o critério empregada em lugar da justiça comutativa, pois, como anteriormente mencionado, seria mais abrangente em virtude do desenvolvimento que recebeu na obra de Tomás de Aquino (vide aná lise no item 1.1 acima). 70 “Consider first the role o f corrective justice in grounding recovery and liability under the fault principle. Under the fault principle a victim is entitled to repair only if his loss results from another’s fault. A loss that is the consequence o f another’s fault is, in the sense just characterized, a wrongful one. Since the principle o f corrective justice requires annulling wrongful losses, it supports the victim’s claim to recompense in fault liability." COLEMAN, Jules. Corrective Justice and Wrongful Gain. The Journal o f Legal Studies, v. 11, n° 2, jun., p. 421-440,1982. 71 COLEMAN, Jules. Tort liability and the limits o f corrective justice. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1994. 4 2 Fundamentos do direito privado • Dresch de Pareto,72 mas, sim, o critério Kaldor-Hicks, segundo o qual, sumariamente, os favorecidos por uma medida deveriam poder compensar os prejudicados, de maneira a garantir que, após a compensação, ninguém iria preferir o esta do anterior à medida adotada. Contudo, apesar de o critério Kaldor-Hicks ser potencialmente acorde com a Superioridade de Pareto, na realidade, não o é na maioria dos casos, pois as medidas e as normas defendidas em termos de eficiência econômica, segundo tal critério, não estabelecem a referida com pensação dos prejudicados como sendo obrigatória, mas somente potencial. Outro fator destacado por Coleman ressalta que o critério Kaldor-Hicks re cai no paradoxo de Scitovsky, pois, na comparação entre dois estados de coisas, A (anterior à medida jurídica) e P (posterior à medida), é possível pensar em compensação nos dois estados, vez que os favorecidos do estado “A” (anterior à medida) podem compensar os prejudicados, assim como os favorecidos do estado P (posterior à medida) também podem compensar os prejudicados, ou seja, o critério Kaldor-Hicksé intransitivo. Além disso, mesmo nos termos da Superioridade de Pareto, caso fosse possível supor essa Superioridade na generalidade dos casos de aplicação de medidas distributivas, não é certo que um estado objeto de preferência seja objeto de consentimento, a não ser que se equipare preferência a consentimento, o que determinaria a Superioridade de Pareto como sendo uma definição e não uma forma de fundamentação em termos kantianos.73 72 Os critérios em geral apresentados são nominados em homenagem aos seus descobridores; são eles o Ótimo de Pareto (desenvolvido pelo sociólogo Vilfredo Pareto) e o Kaldor-Hicks (definido por Nicholas Kaldor e John Hicks). O critério mais aplicado nas análises econômicas em geral é o Kaldor-Hicks, pelo qual o ganho dos favorecidos com uma ação, medida ou regra deve ser superior à perda dos prejudicados, de modo que os primeiros possam compensar os segundos. O Ótimo de Pareto estabelece os recursos econômicos que somente podem ser alocados por uma ação, medida ou regra que favoreça pelo menos um indivíduo, desde que não haja nenhum pre judicado. Diante das comparações baseadas no Ótimo de Pareto, o melhor estado de coisas em termos de ganhos de favorecidos, sem perdas para os prejudicados, é qualificado como Ótimo de Pareto. 73 ‘T o sum up: (1 ) Kaldor-Hicks, and not the Pareto criteria, is the basic standard o f efficiency in law and economics. The Kaldor-Hicks criterion is intransitive. Two states o f affairs can be Kaldor-Hicks efficient to one another. Utility observes transitivity, but Kaldor-Hicks efficiency does not. This suggests that Kaldor-Hicks does not embody or express the utilitarian ideal. (2 ) States o f affairs that satisfy the Kaldor-Hicks standard may produce losers as w ell as winners. The losers cannot be expected to consent to their loses, or at least we cannot infer that they will. Therefore, there is no Kantian or consent defense for Kaldor-Hicks efficiency. (3 ) Nor is there a consent-based defense o f Pareto optimality in the offing. On the assumption that losers w ill not consent to their losses, all w e can say is that once at a Pareto optimal point, individuals w ill not O direito privado com o justiça corretiva 4 3 Somado a esse problema central, Coleman, como parte de sua compreensão pragmática, apresenta ainda duas dificuldades básicas para a análise econômica do direito privado, usando como exemplo a responsabilidade civil. Primeiro, por ser uma análise reducionista dos institutos de direito privado, ao concentrar toda a compreensão conceituai e de conteúdo a partir de eficiência econômica; segundo, por falhar ao explicar o esquema racional prático refletido nas relações em termos de responsabilidade civil. Tal análise falha ao explicar as práticas e os conceitos próprios da responsabilidade civil (culpa, falta de cuidado, nexo causal, entre outros), mas também ao buscar fornecer um argumento para sacrificar os conceitos refletidos nas práticas atualmente existentes, ou seja, além de a análise econômica não fornecer uma compreensão adequada dos conceitos envolvidos nas práticas atuais (como também referido por Weinrib), ela não fornece uma razão suficiente para abandonar essas práticas e esses conceitos em termos de responsabilidade civil em favor de uma nova prática baseada na regulação de riscos e custos de acidentes.74 Coleman, portanto, na sua visão autodenominada de pragmatista, admite a possibilidade da forma distributiva decorrente das práticas jurídicas e sociais, mas deixa claro, em suas análises críticas, que uma análise econômica focada somente em eficiência, por exemplo, acarreta prejuízos em termos de com preensão das práticas atuais, que não se conformam com uma racionalidade funcional econômica. Contudo, os prejuízos mais enfatizados são aqueles referentes aos direitos individuais, prejuízos esses estabelecidos em favor da busca de desenvolvimento econômico garantidor de maior utilidade geral. A busca de uma análise funcional em termos econômicos é, em geral, contrária à preservação de direitos individuais nas relações privadas. O principal problema de uma racionalidade distributiva para a responsa bilidade civil, segundo Coleman, decorre do que ele chama de visão holística da relação entre a responsabilidade civil e a justiça corretiva. Pela sua visão unanimously consent to departures from it. (4 ) Nor can one infer that Pareto superior states are consented to. One can infer that Pareto superior states are preferred to those states Pareto inferior to them. But the fact that they are preferred does not entail that they are consented to, unless preference is defined in terms o f consent. In that case, the claim that Pareto superior states are consented to expresses a definition, and thus consent cannot ground or justify Pareto superio rity, being completely constitutive o f it. Or so I have argued.” COLEMAN, Jules. The grounds o f welfare. Public Law & Legal Theory Research Paper Series, n° 43, p. 108. Disponível em: chttp:// papers.ssm.com/abstract=388460>. Acesso em: 5 jan. 2011. 74 COLEMAN, Jules. The practice o f principle. New York: Oxford University Press, 2001. p. XV 23,40. 4 4 Fundamentos do direito privado • Dresch holística, o conteúdo de cada conceito depende, em maior ou menor grau, do conteúdo de um dos outros conceitos relacionados. Nesse compasso, o con teúdo da justiça corretiva, em parte, depende da responsabilidade civil e de suas práticas, sendo que, de outro lado, a responsabilidade civil constitui uma manifestação da justiça corretiva, a qual, por sua vez, informa e é informada pelo conceito mais abstrato defaimess (equidade), que influencia e determina, de certa maneira, o conteúdo da responsabilidade civil. Com base nessa visão, Coleman compreende que a simples análise da prática da responsabilidade civil demonstra que a justiça corretiva é o princípio que dá sentido a essas práticas.75 Nesse aspecto, é interessante ter presente uma ressalva precisa de John Gardner. O professor de Oxford bem esclarece que mesmo a racionalidade de terminada pela justiça corretiva deve estar voltada para uma certa eficiência. A justiça corretiva, como fundamento do direito privado, ou da responsabilidade civil mais especificamente, não pode deixar de indagar sobre uma finalidade. Para que serve o instituto da responsabilidade civil? Ou, ainda, poder-se-ia ir mais além nesse questionamento: para que serve o direito privado? Se a respon sabilidade civil ou o direito privado, pensados em termos de justiça corretiva, não servirem para nada de especial, então, é possível abandoná-los. Contudo, não é essa a conclusão de Gardner, pois ele entende que a responsabilidade, em termos de justiça corretiva, tem um propósito específico e, sendo assim, entra em questão a análise da eficiência na busca desse fim, mesmo nos termos de uma compreensão centrada na justiça corretiva.76 A eficiência, por conseguinte, na avaliação de Gardner, seria uma questão relevante mesmo na compreensão da responsabilidade civil nos termos da justiça corretiva, mas não uma eficiência econômica. A responsabilidade civil fundada na justiça corretiva teria que buscar eficiência não na tentativa de maximização do valor geral agregado aos bens econômicos, como sustenta 75 COLEMAN, op. cit., p. 55. 76 “There is no possible w ay o f looking at tort law that escapes the question o f its efficiency. It follows that ‘corrective justice’ as an answer to the question *what is tort law for?’ cannot be, as Weinrib and Coleman likes to think, an answer that rivals efficiency*. The answer ‘corrective justi ce’ tells us, rather, what it is that the law o f torts is supposed to be efficient at. It is supposedto be efficient at securing that people conform to a certain (partly legally constituted) moral norm o f corrective justice. I f it is not efficient at this job then, from the point o f v iew o f corrective justice itself, the law o f torts should be abolished forthwith.” GARDNER, John. What is Tort Law fo r? Part 1: The Place o f Corrective Justice (January 18, 2010). Oxford Legal Studies Research Paper na 1/2010, p. 26. Disponível em: < http://ssm.com/abstract=1538342> . Acesso em: 3 fev. 2011. O direito privado com o justiça corretiva 4 5 parte da análise econômica do direito,77 mas uma eficiência voltada para o que ele define como “tese da continuidade”, pois a responsabilidade civil deve ser eficiente não para prevenir ou para educar, e, sim, para servir como uma consequência racional da violação de um direito. Melhor analisando, a respon sabilidade civil determina uma obrigação secundária, decorrente racionalmente da obrigação primária. A obrigação primária seria a de cumprir o dever e não violar o direito de outrem; a obrigação secundária, consequentemente, seria a de reparar a perda ocasionada ao outro pela violação do dever primário.78 Considerando as contribuições de Gardner e apesar da possibilidade de se admitir a existência de uma compreensão e uma prática da responsabilidade civil nos termos de uma estrutura distributiva, Coleman não admite uma forma mista de estruturas, uma combinação de justiça corretiva e distributiva, como os tribunais, em certos julgamentos, parecem buscar aplicar.79 Além disso, a estrutura de justiça corretiva não tem prioridade sobre as demais possibilida des de estruturação de um sistema de responsabilidade, eis que o Estado tem autoridade para implementar o melhor sistema. Sob certas condições políticas, Coleman entende que o Estado pode, inclu sive, implementar regras de inversão de ônus da prova, de maneira a reforçar a estrutura de justiça corretiva em casos como determinação de culpa de fornece dores.80 Na concepção de Coleman, a justiça corretiva apresenta fundamentos e não modos de correção de ilícitos, de sorte que não seria possível aceitar um ilícito para eliminar outro ilícito. Contudo, o jurista norte-americano admite 77 Vide estudo mais detalhado da análise econômica do direito no Capítulo 2 abaixo. 78 “I t is the thesis that the secondary obligation is a rational echo o f the primary obligation, fo r it exists to serve, so fa r as may still be done, the reasons fo r the primary obligation that was not perfor med when its performance was due. Those reasons, not having been satisfied by performance o f the primary obligation, are still with us awaiting satisfaction and since they cannot now be satisfied by performance o f that obligation, they call fo r satisfaction in some other way. They call fo r next-best satisfaction, the closest to fu ll satisfaction that is still available. V/e need to know the rationale o f the obligation, o f course, so that we can work out what counts as next best. But once we have it we also have the rationale, all else being equal, fo r a secondary obligation, which is an obligation to do the next-best thing. I f all else is equal, the reasons that were capable o f justifying a primary obliga tion are also capable o f justifying a secondary one. I will call this the ‘obligation-in, obligation-out’ principle. And the explanation fo r i t that I have just sketched out I will call the *continuity thesis’.” Id., ibid., p. 40. 79 Nesse sentido, vide a compreensão das dimensões de direito privado de Waddmans no Capítulo 2 abaixo. 80 COLEMAN, Jules. Tort Liability and the Limits o f Corrective Justice. Cambridge, UK: Cambridge University Press, 1994. 4 6 Fundamentos do direito privado • Dresch que, em certas ocasiões, quando não houver alternativa e a diferença entre o ilícito criado e o ilícito eliminado for significante, a justiça corretiva poderia admitir o que seria, em outra situação, considerado um ilícito.81 Tais considerações demonstram como a concepção de Coleman é mais flexível do que a de Weinrib. Além de admitir a possibilidade de as práticas socias e jurídicas legitimarem uma racionalidade distributiva, como antes referido, também admite uma forma de justiça corretiva que acaba estabele cendo um comparativo entre ilícitos, o que culmina com uma certa forma de consequendalismo, decorrente da comparação de ilícitos. Cabe ressaltar, ainda, que, ao longo de seus trabalhos, Coleman busca defender uma visão mista de justiça corretiva,82 uma visão intermediária entre o que ele chama de visão anulativa e visão relacional. A justiça corretiva, na visão anulativa, entende que os ganhos e as perdas indevidos devem ser anula dos, sem determinar por quem. A visão relacional entende que as pessoas que cometem ilícitos têm o dever de repará-los. Assim, os ilícitos e não os ganhos e as perdas costituem o domínio e dão o conteúdo do dever na visão relacional. A visão mista de justiça corretiva defendida por Coleman compreende que as pessoas têm o dever de reparar as perdas indevidas pelas quais são responsáveis. A visão mista, portanto, compartilha com a visão anulativa o entendimento de que as perdas indevidas têm conteúdo moral central e não os ilícitos, mas compartilha com a visão relacional83 a crítica de que a visão anulativa centrada 81 "Something similar, I am suggesting, is true o f claims to repair in corrective justice. Corrective justice specifies grounds, not modes, o f rectification. It constrains modes o f rectification to the extent that it does not normally permit the creation o f wrongful losses as a way o f eliminating other wron gful losses. On some occasions, however, when no other alternatives are available and the difference between the loss created and the loss eliminated is sufficiently great, corrective justice may permit the creation o f what would otherwise be a wrongful o r unjust loss” (Id . The Mixed conception o f Corrective Justice. 77 Iowa Law. Rev. p. 427,1991-1992. p. 432). 82 Inicialmente, Coleman defendia a visão anulativa da justiça corretiva, mas, a partir de seu trabalho Risks and Wrongs (1992), ele verificou que a visão anulativa estabelece uma forma mais vinculada à justiça distributiva em termos de eliminação de perdas indevidas do que à justiça comutativa. 83 A crítica à visão relacional decorre do fato de ela se concentrar apenas nos ilícitos e no modo pelo qual esses ilícitos alteram os direitos subjetivos: “Because the relational view is concerned entirely with the ways in which wrongdoing alters individual rights and responsibilities, it is possible to confuse it with attempts to embed corrective justice in a particular account o f what it is to have a right, and in doing so to provide a conceptual foundation fo r corrective justice. Providing a founda tion fo r the relational conception o f corrective justice is important because it is unclear why corrective justice has no goal beyond identifying the ways in which wrongdoing alters the normative rela tionships among agents. The relational view merely imposes a scheme o f rights and responsibilities. O direito privado com o justiça corretiva 4 7 apenas na eliminação da perda indevida obscurece a relação entre o ilícito do ofensor e a reparação da perda do ofendido.84 Para sintetizar a compreensão da visão mista da justiça corretiva, cumpre esclarecer que Coleman entende que ela combina a necessidade de anulação dos efeitos dos ilícitos em termos de ganhos e perdas indevidos (como a visão anulativa) e do dever de reparar os ilícitos cometidos (nos moldes da visão relacional).85 Coleman ressalta, ainda, nos termos referidos por Gardner, outro ponto esclarecedor,ao defender que os direitos e os deveres decorrentes da justiça corretiva são secundários, pois, primeiramente, existem direitos e deveres gerais. Quando da ocorrência dos ilícitos e da violação de direitos e deveres gerais, surge, então, o direito e o dever secundário à reparação, que decorre do princípio de justiça corretiva, princípio esse que fornece fundamento, inclu sive, aos direitos subjetivos, ao determinar parte do que significa ter direitos.86 One reason it does, one m ight argue, follows from our understanding o f what it is to have a right. Corrective justice, in this view, is simply part o f the meaning o f rights” (COLEMAN, op. cit., p. 436). 84 “I have distinguished among three conceptions o f corrective justice: the annulment view, the relational view, and the mixed conception. The annulment v iew holds that wrongful gains and losses ought to be annulled. It does not specify by whom. It does, however, treat the existence o f certain gains and losses as determining its domain and purpose. In contrast, the relational v iew holds that individuals who do wrong (or wrongdoers) have a duty to repair the wrong. It selects the person who has the duty; indeed, its entire point is to create the agent-relative duty. In the relational view, however, wrongs and not losses (o r gains) are its domain and provide the content o f the duty. The mixed view holds that individuals have a duty to repair the wrongful losses for which they are responsible. Like the annulment view, the mixed view treats the existen ce o f wrongful losses as morally relevant to its purpose. Its point is to rectify them. To this end, however, it imposes the duty to repair on the person responsible for creating a wrongful loss. The relational v iew is correct to fault the annulment view for failing to connect the demands o f corrective justice to individual reasons for acting. The annulment view is correct to emphasize the moral significance o f wrongful losses. The relational view misses this point entirely. The mixed v iew captures the important insights o f both my previous v iew and its critics” (COLEMAN, op. cit., p. 444). to uThese considerations suggest the follow ing characterization o f what I c a ll4the mixed conception o f corrective justice’. Corrective justice imposes on wrongdoers the duty to repair their wrongs and the wrongful losses their wrongdoing occasions. The duty to repair the wrong follows from the rela tional view; the importance o f wrongful losses to the demands o f corrective justice is a remnant o f the annulment view, thus, the ‘mixed’ view” (Id., ibid., p. 441). 66 “ I f the duty to compensate and the right to compensation do not fo llow as a matter o f logic from the nature o f what it means to have a right, but fo llow instead from a suitable normative principle, from which principle do they derive? The obvious choice is the principle o f corrective justice. In other words, the duty to compensate and the right to compensation for the invasion o f 4 8 Fundamentos do direito privado • Dresch A diferença se estabelece, segundo Coleman, entre deveres de dois níveis, num primeiro nível, tem-se a violação ao dever que demanda uma reprovação, mas essa violação ao dever é pelo simples cometimento do ilícito, não decorre necessariamente da violação ao direito subjetivo de uma pessoa. Contudo, a tal violação ao dever geral pode se somar um prejuízo causado a outrem. Co leman apresenta o exemplo de dois motoristas que, exatamente nas mesmas condições, ultrapassam o sinal vermelho do semáforo.87 Apenas um deles, entretanto, atropela um pedestre.88 A ação ilícita é a mesma, mas a responsa bilidade decorrente é diferente, pois enquanto o que não atropelou somente pode ser responsabilizado por um ilícito ao dever geral de não ultrapassar o sinal vermelho, podendo ser-lhe aplicada uma multa, anotação de pontos na carteira etc., aquele que atropelou terá outra responsabilidade, a da reparação dos danos causados, de maneira a garantir ao detentor do direito violado o bem mais próximo possível ao do estado anterior à violação da obrigação.89 rights derives from the principle o f corrective justice. Or to put the matter somewhat differently, the second-order right to repair and the corresponding duty to compensate are ways in which the principle o f corrective justice requires that first-order rights be protected and duties enforced. The principle o f justice, however, does not derive from a plausible theory o f rights. Instead, it is the moral principle external to rights that gives rights a certain content; it is an element o f an underlying foundational theory o f rights, not part o f the meaning or syntax o f rights. In other words, w e cannot defend a particular conception o f corrective justice by showing that it follows from our understanding o f what it is to have a right when it is that conception o f corrective jus tice itself that grounds that understanding o f what it is to have a right. One thing we might say about the relational conception o f corrective justice is that it grounds a particular conception o f what it is to have rights o f a certain kind” (Id., ibid., p. 437). 87 O exemplo é aqui sintetizado e possivelmente alterado em alguns aspectos. 88 Sobre o mesmo tipo de problema, é importante destacar a análise de Jeremy Waldron, que acaba por defender a diversidade de responsabilidades, mesmo se tratando de um mesmo tipo de conduta reprovável: WALDRON, Jeremy. Moments o f Carelessness and Massive Loss. In: OWEN, D. G. (ed.). Philosophical Foundations o f Tort Law. [s.l.]: Oxford: Clarendon Press, 1995. p. 387-408. 89 ‘Take the case in which Smith and Jones both drive recklessly; Smith escapes damaging anyone, whereas Jones is less fortunate and injures those he puts at risk. There may be no difference between the two o f them with regards to their culpability o r blameworthiness. That does not imply that there are no moral differences between them at all. Those who are the victims o f Jones’s recklessness have perfectly sound moral claims to repair against Jones, which no one, not even they, have against Smith. After all, there is nothing that Smith has done to them, nothing he need apologize to them fo r and no outcome that he must answer for. The same is not true o f Jones. The victim ’s misfortune is connected to Jones’s mischief in ways that ground their claim to repair against him and that give him something he has to answer for. Their claim against him is not merely a convenience but something that has a sound moral basis, and part o f that basis is the fact that Jones is ‘outcome responsible’ fo r the mess in which they now find themselves” (COLEMAN, Jules L. Doing Away With Tort Law. Heinonline. Disponível em: < http://heinonline.org> . Acesso em: 10 jan. 2011. p. 1166). O direito privado com o justiça corretiva 4 9 Para a responsabilidade civil nos termos da justiça corretiva, por conseguin te, há um ilícito em dois níveis, um pela violação do direito, violação de uma norma geral, e outro pela violação ao dever especial de não lesar a outrem.90 Como será visto no Capítulo 3, a primeira violação à norma geral é objeto da justiça social e a segunda é objeto da justiça particular, no caso, comutativa.91 Diante da constatação desses dois níveis de ilícitos, Coleman refere o que se poderia denominar de justiça retributiva, ou seja, a justiça que demanda a punição pelo ilícito decorrente de uma violação de uma norma geral.92 Nesse contexto, poder-se-ia entender uma questão não referida por Coleman: que a justiça retributiva teria como objetivo complementar, acessoriamente, a justiça social (geral), como será demonstrado no Capítulo 3. Assim, a anulaçãodos ilícitos em termos morais, mas pode-se dizer igualmente em termos políticos e jurídicos, está na alçada e é a finalidade da justiça retributiva, pelo implemento da punição e não da justiça corretiva.93 90 Nesse sentido, John Gardner apresenta o seguinte argumento: 7n the context o f the law o f torts the primary obligation o f the tortfeasor, the one that she violates when she commits the tort, is always justified by the interest o f the person wronged (together with such other considerations as support the protection o f that interest by the imposition o f that obligation). It follows that the primary obligation o f the tortfeasor, the one that she violates by her tort, is always a rights-based obligation. This explains why, when that right is violated, the person wronged also has, in the law o f torts, a right to reparative damages. I f the primary obligation is rights-based then so is the secon dary obligation, fo r both . - by the continuity thesis . - must share the same rationale” (GARDNER, op. cit., p. 54). 91 “A tort is a wrong in two ways. It is a fa ilure to comply with one o f these norms and is a wrong in that sense. It is also the breach o f a particular duty to the person whom one owes a specific duty o f care under the general norm. The fa ilure to comply with the general norm gives everyone a reason to be indignant; but it is the breach o f the duty to the victim that gives her and her alone a reason to resent ( i f there is such a reason in the particular case)” (COLEMAN, op. d t., p. 1168). 92 Uma análise detalhada da justiça retributiva e do seu papel na compreensão do direito priva do, mais especificamente na responsabilidade civil, encontra-se no estudo de Ronen Perry, intitu lado The role o f retributive justice in the common law o f torts: a descriptive theory. Nesse trabalho, Perry desenvolve dois argumentos relevantes: o argumento inicial sobre a diferença entre justiça corretiva e justiça retributiva e a confusão decorrente da análise equivocada da justiça corretiva como sendo oposta à busca do bem coletivo, e o segundo argumento, o qual busca demonstrar que a justiça retributiva tem lugar na responsabilidade civil em apenas alguns casos limitados (PERRY, Ronen, The role o f retributive justice in the common law o f torts: a descriptive theory. Tennessee Law Review, v. 73, p. 5, 2006. Disponível em: < http://ssm.com/abstract=846309 > . Acesso em: 5 jan. 2011). 93 “Annulling moral wrongs is a matter o f retributive justice, not corrective justice. There exists a legal institution that, in some accounts, is designed to do retributive justice through punishment. The bulk o f cases in which claims in corrective justice are valid do not involve wrongs in this sense. I f we abandon the view that corrective justice requires annulling certain wrongs, we are left with 5 0 Fundamentos do direito privado • Dresch Coleman prossegue desenvolvendo a ideia de responsabilidade. Tal dife rença poderia ser compreendida, no direito brasileiro, como a responsabilidade pelos ilícitos decorrentes da violação de uma norma e a responsabilidade pela reparação dos efeitos dessa violação, onde se pode inserir a responsabilidade civil (civil liability).9* Assim, para Coleman, colocam-se duas questões ao jurista, uma analítica e outra normativa. A analítica seria: sob quais condições se pode determinar a responsabilidade de uma pessoa pelo resultado decorrente de um ato ilícito? A questão normativa seria: em relação a esse resultado, quando ele fornece uma base moral para impor uma responsabilidade civil e o dever de reparação? A distinção é relevante, pois, primeiro, deve-se indagar se o sujeito pode ser considerado responsável pelos efeitos de um ato e, segundo, quando ele moralmente deve reparar esses efeitos danosos.95 Ademais, Coleman, conjuntamente com Ripstein, em conhecido trabalho sobre a relação entre justiça distributiva e justiça corretiva, passou a desen volver uma forma de complementaridade maior entre os dois sentidos de justiça, aproximando-se, inclusive, de uma análise funcionalista no termo do Liberalismo-igualitarista (vide seção 2.4).96 Reiterando que os dois sentidos de justiça não podem ser reduzidos a uma única forma mista, Coleman defende o the claim that corrective justice imposes a duty on wrongdoers to annul the wrongful losses their conduct occasions” (COLEMAN, Jules. The mixed conception o f corrective justice. 77 Iowa Law. Rev., p. 427,1991-1992, p. 442). 94 Sobre tais distinções, relevantes as análises de Tony Honoré e Stephen Perry: HONORÉ, Tony. Responsibility and luck. The Moral Basis o f Strict Liability, 104 Law Q. Rev. 530,1988 with PERRY, Stephen R. The moral foundations o f Tort Law. 77 Iowa L. Rev. 449,1992, p. 489-514. 95 “There is, however, a genuine and distinct notion o f responsibility, that o f responsibility fo r outco mes. This notion figures in the fu ll range o f our practices o f debiting and crediting. It is also central to our self-understanding-our capacity to pick out our achievements and failures, as well as the marks we make in the world: the differences our lives have made in and to the world. There is, after all, a diffe rence between the question o f whether our hearts and character are pure and the question o f whether we have made any difference in the world: how the world is different, i f at all, fo r what we have contri buted to it. There are two questions we need to ask about this conception o f responsibility: one analytic, the other normative. First, what are the conditions o f outcome responsibility? Specifically, what must be true o f a person, an outcome (event o r state o f affairs) and the relationship between them fo r the agent to be outcome responsible fo r the state o f affairs? The second question is whether the notion o f outcome responsibility provides a morally sound basis fo r imposing liability or, as I prefer, whether it grounds liability to a duty o f repair. We do not have to settle on the correct account o f the conditions o f outcome responsibility to recognize that some such notion is necessary to connect the injurer’s breach with the victim’s harm if we are to hold the injurer accountable fo r it” (COLEMAN, op. cit., p. 1165) 96 COLEMAN, J.; RIPSTEIN, A. Mischief and Misfortune Mcgill Law Journal. Revue de Droit De Mcgill, v. 41, p. 91-131,1995. O direito privado com o justiça corretiva 51 caráter complementar, primeiramente, afirmando que as prévias distribuições justas somente podem ser preservadas através de um mecanismo de anulação de perdas injustas que alterem essa distribuição.97 Um segundo sentido de complementaridade ocorre em virtude da manutenção dos valores refletidos nas formas de distribuição de bens aos indivíduos, ocasionado pela justiça corretiva, ou seja, os valores que definem os esquemas de distribuição são preservados pelos mecanismos de imposição da justiça corretiva.98 O trabalho conjunto de Coleman e Ripstein, entretanto, desenvolve uma terceira relação que se apresenta nos casos de situações decorrentes do insuces so (;misfortune) em que ocorre uma perda (mischief) aos indivíduos. A questão é saber quem suporta as perdas decorrentes dessas situações de infortúnio. Na análise dos referidos autores, existem duas formas de responder à questão: uma forma liberal e outra não liberal. A resposta liberal é baseada na equidade (faimess), ou seja, cada indivíduo deve suportar as perdas decorrentes de suas atividades. Por outro lado, a resposta não liberal é a de que as perdas decor rentes das situações de infortúnio devem ser suportadas pela coletividade.99 97 “First, in order to sustain a just distribution, the effects o f wrongful transfers mustbe annulled. In this way, the institutions o f distributive justice require institutions o f corrective justice. Second, a practice o f corrective justice has the effect o f sustaining the prevailing distribution o f resources by annulling the effects o f certain changes in i t Because corrective justice imposes a moral reason on agents to make good others’ losses, in doing so it sustains the prevailing distribution. I t follows that not every distribution will be sufficiently just to warrant protection by such a practice. Only some distributions can be sustainable by a practice o f corrective justice; a requirement that unjust losses be rectified only makes sense provided holdings are not entirely unjust. Thus, corrective justice imposes constraints on the existing institutions o f distribution. To the extent that tort law helps shape our conception o f corrective justice, this means that it is impossible to entirely separate tort law from the institutions and demands o f both distributive and corrective justice” (Id., ibid., p. 93). 99 “Corrective and distributive justice are connected in another way as well. However distributive shares are to be fixed, their value will depend, in part, on the tort regime that is in effect. Depending on which transfers are considered wrongful and which not, the particular bundles o f goods that in dividuals hold may turn out to have very different values. Just as corrective justice sustains existing distributions, so the value o f distributive shares depends on ways o f correcting wrongs” (COLEMAN e RIPSTEIN, op. cit., p. 93). 99 “We hope to show a fu rther connection between distributive and corrective justice. Life is fu ll o f unplanned and unanticipated events, and even its best, planned aspects build on the result o f earlier chance. Chance has a downside, o f course. Its name is misfortune. We want to suggest that both tort law and the institutions o f distributive justice can be understood as responses to the question: who owns which o f life’s misfortunes? We can distinguish between liberal and non-liberal answers to this question, and between liberal and non-liberal institutions o f tort law and distribution. Part o f what it means to refer to institutions as “liberal” is that they aspire to express a conception o f equality. In the case o f both tort law and distributive institutions, that conception o f equality aspires to allocate 52 Fundamentos do direito privado • Dresch Prosseguindo na análise, Coleman e Ripstein entendem que tanto os li berais libertários quanto os igualitaristas100 apresentam respostas baseadas na equidade (faimess) ao problema em questão. A interpretação do que constitui a equidade nas situações em que não há uma forma de determinar uma res ponsabilidade causal, entretanto, são absolutamente opostas entre essas duas correntes liberais. Os libertários entendem que, nas situações em que não há uma forma de determinar a responsabilidade, a perda deve ser suportada por quem perdeu, a vítima. Os liberais igualitaristas, por outro lado, entendem que, não havendo uma forma de determinar a responsabilidade pelo infortúnio, a perda deve recair sobre a coletividade.101 Como os libertários e os igualitaristas, Coleman e Ripstein entendem que a equidade (faimess) deve ser o princípio que norteia as situações de determi nação de responsabilidades por perdas decorrentes de infortúnios, entretanto, ao contrário das análises mencionadas, eles compreendem que a resposta às situações de ausência de responsabilidade causal não podem ser resolvidas simplesmente pela alocação das perdas de um lado ou de outro (individual ou coletivo). Não podem assim ser resolvidas, pois essas soluções contrariam o próprio princípio de equidade, na medida em que a fixação dos custos das atividades passa a ser totalmente subjetiva, ou seja, cada sujeito, ao se envolver numa atividade, pode determinar individualmente os custos que irá suportar. Dessa forma, os custos não são distribuídos com base na equidade, mas, sim, são determinados subjetivamente.102 misfortune and its burdens fairly. What does faimess require in the allocation o f misfortune? I f we focus on misfortune’s costs, one plausible suggestion is represented by the principle that each o f us should bear the costs o f our own activities. In economic vocabulary, no one should be allowed to dis place the costs o f their activities. So put, the principle has the ring o f a tautology; i f someone else ends up bearing the costs o f one’s activity, they turn out not to be one’s own costs after a l l But the point is normative as well as conceptual: however we might f ix which costs belong to whom, it is surely unfair that some should end up bearing costs imposed by others” (Id., ibid., p. 94). 100 Vide análise na seção 2.4. 101 M.How can libertarians and liberal egalitarians accept the same general principle o f faimess, in terpret it in light o f the same general conception o f an activity’s costs yet support radically different views about what that principle requires in the way o f political institutions? The difference between the libertarian and the liberal egalitarian depends on the fact that they adopt different default mles. The libertarian claims that in the absence o f causal responsibility, the costs o f misfortune should lie where they fa ll on victims. The liberal egalitarian holds the opposite default rule: misfortunes that are nobody’s causal responsibility are to be held in common” (COLEMAN e RIPSTEIN, op. dt., p. 96). 102 “Like the libertarian and the liberal egalitarian, we accept the principle o f faimess in the alloca tion o f the costs o f misfortune. We reject, however, their shared conception o f an activity’s costs. Any O direito privado com o justiça corretiva 5 3 Com base nessa divergência em relação às respostas liberais tradicionais, Coleman e Ripstein defendem a necessidade de determinação de um critério objetivo que estabeleça previamente os deveres de cada um para com os outros. Somente através de um critério objetivo prévio é que os custos das atividades podem ser distribuídos de maneira equitativa. Ou seja, quais são os limites das atividades em termos de responsabilidade; até que ponto o lucro de um concorrente pode causar o prejuízo de outro.103 Nesse aspecto, os referidos autores compreendem que o critério objetivo que deve nortear as obrigações, em termos de justiça corretiva, é o fornecido pelo instituto da culpa. De outra banda, nos casos em que não se poderia utilizar o critério culpa, como nos infortúnios, o critério objetivo mais adequado, numa racionalidade distribu tiva, seria determinado nos termos do conceito de John Rawls referente aos bens primordiais (primary goods,) .104 Assim, os critérios objetivos necessários são somente possíveis através da definição substantiva de valores das diver sas atividades, não sendo possível uma neutralidade plena se a finalidade é theory that allows individuals to f ix the costs o f their own activities involves a subjective measure o f those costs. The costs o f my activities are fixed entirely by some fa ct about me: my control over them, my causal responsibility fo r them, my intentions, the risks I mean to take o r impose. On any such account, those features would matter in the same way, regardless o f the activity in which I was engaged. Any such conception o f the costs o f an activity not only fails to honor the principle that one should bear the costs o f one’s activities but has the rather perverse consequence o f allowing indivi- duab to determine what those costs are” (Id., ibid., p. 96). 103 “In contrast, we will argue that only an objective measure o f costs can honor the liberalprinciple o f fairness. In explicating this idea, we defend the view that any measure o f the costs o f an activity is normative and depends on an analytically p rio r account o f what each o f us owes one another. Only when we know what each o f us owes the other can we determine who owns the costs o f misfortunes that arise in the course o f our interactions. Whether the loss you suffer when my business succeeds in taking clients away from you is yours o r mine does not depend on whether my business activity is the cause o f your loss; instead, it depends on whether I owe you a duty not to intetfere with your business interests, whether constraints o f fairness lim it competition. It depends, in other words, on what we owe one another with respect to competitive business practices, and whether in competing with you I violate or comply with those obligations. We will argue that the only way to honor the principle o f fairness is by employing a normative conception o f what we owe each other. To the extent that such an account is supposed to honor the principle o f fairness, those duties must be specified objectively. We will argue that an objective measu re o f the costs o f an activity needs more than activity-neutral concepts like choice, cause, and agency. Instead, any plausible account will depend on the value o f the activities in which we are engaged and the ways in which those activities figure in our lives how they matter to us and why. Having shown this, we will demonstrate why the search fo r an appropriate default rule fo r dealing with all misfortunes is misconceived” (COLEMAN e RIPSTEIN, op. cit., p. 96). 104 Vide: RAWLS, John. A theory o f justice. Cambridge, Mass.: Belknap Press, 1971. p. 90. 54 Fundamentos do direito privado • Dresch definir o infortúnio que deve ser suportado por cada indivíduo e o que deve ser suportado coletivamente.105’106 Nesse ponto, Coleman, posteriormente, esclarece que, primeiramente, há uma questão de alocação, que é determinada pela fixação dos deveres de cada um para com os outros e, a partir dessa alocação, podem-se determinar as formas de atribuição corretiva ou distributiva. Assim, Coleman entende que a responsabilidade não é suficiente para a compreensão da responsabilidade civil, mas também que o conceito de responsabilidade depende do princípio ias f/iis point, we offer no general theory o f the duties we owe one another. Indeed, we may not even agree with each other about the specifics o f the theory that our argument claims to be necessa ry. We share, however, the view that the principle o f faimess requires an objective measure o f costs and an account, therefore, o f our responsibilities to one another. We also share a commitment to the central idea o f this essay, namely, that there is a right way o f thinking about how to form ulate and construct the general theory o f obligations, which is implicit in the idea o f bearing the costs o f one’s choices. In tort law, it is represented by a particular conception o f liability. That conception is more nearly explicit in the fau lt standard than in the strict liability rules that govern particular areas o f tort liability but is at work in both. In each case, liberty and security interests, which everyone can be supposed to share, determine the occasions fo r liability. In institutions o f distributive justice, it is represented by the strategy o f what John Rawls calls ‘primary goods’. Rawls describes primary goods as all-purpose means - things that anyone can be presumed to want in pursuit o f whatever conception o f the good they m ight have. Both rely on an interpersonal measure o f value, o f what is important in an individual’s life and why. These concerns are often controversial. But controversy is unavoidable. [ . . . ] Our view, in contrast, is that any measure o f the costs o f an activity presupposes substantive and contestable conceptions o f what is necessary or important to living a life in a liberal political culture. As a result, it is impossible fo r liberalism, or any other regime insisting on faimess as its central virtue, to be neutral in this way. We cannot be neutral with respect to all subjective accounts o f what the elements o f a good o r meaningful life are. I f we are to provide a defensible dis tinction between the misfortunes that are mine to bear and those that fa ll on others o r should be held in common, while honouring the principle o f equality, then we must appeal to objective measures o f the value o f various activities and their importance in ou r lives - how they matter and why 3A not by retreat to the seemingly neutral high ground o f the concepts o f choice, control, o r human agency” (COLEMAN e RIPSTEIN, A. Mischief and Misfortune Mcgill Law Journal. Revue de D roit De Mcgill, v. 41, p. 91-131,1995, p. 97). 106 Contrariamente à possibilidade de combinação da análise de Rawls com a justiça corretiva é a conclusão de Kevin Kordana e David Tabachnick: “Corrective justice addresses a set o f issues on which Rawlsianism is not silent: it creates normative demands without regard to what is required by the demands o f the two principles o f justice. In short, fo r Rawls, ‘to rt law’ would be constructed by a first-principle demand fo r security and/or as part o f the second-principle property bundle that functions in a forward-looking manner. It is the determinacy o f the two principles o f justice (taken in lexical priority ), in their inter-schemic selection with respect to security concerns and property construction, which renders any overlap with corrective justice a matter o f mere ‘patterning,’ as opposed to normative o r principled commitment” (KORDANA, Kevin A.; TABACHNICK, David H. On belling the cat: Rawls and tort as corrective justice. Virginia Law Review, v. 92 , p. 1279-1310, 2006, p. 1310). O direito privado com o justiça corretiva 55 político-moral de equidade que define, como antes mencionado, a alocação dos custos dos infortúnios e, nesse sentido, a responsabilidade como fator definidor da responsabilidade civil é uma questão anterior de moralidade política.107 Nes se aspecto da análise, como será demonstrado na seção 2.4, Coleman parece se vincular a Ripstein, desprendendo-se da corrente formalista e posicionando-se por uma fundonalização nos contornos definidos pelo Liberalismo-igualitarista. Contudo, quando menciona a alocação de deveres gerais, assim como fez ao referir a chamada justiça retributiva, Coleman mendona aspectos característicos da justiça social, como será demonstrado no Capítulo 3. Destarte, analisadas as contribuições de Weinrib e Coleman para a com preensão do direito privado em termos de justiça comutativa, é relevante seguir no caminho até aqui percorrido, para avançar na análise daquele estudo que pode ser considerado o mais elaborado e fielmente vinculado à tradição dos sentidos de justiça em conformação com as estruturas fundamentais do direito privado. 1.4 A análise de Jam es Gordley sobre os fundam entos do direito privado A terceira análise do direito privado centrada na justiça comutativa a ser destacada, preferencialmente, neste estudo, é apresentada por James Gordley, através de uma série de obras, dentre as quais se destacam The philosophical origins o f modem contract doctrine108 e Foundations ofprivate Zaw.109 Contudo, ao longo dos últimos anos, é necessário visualizar que Gordley apresentou di versos outros trabalhos que fundamentaram e construíram uma versão sobre o direito privado dentro de uma tradição iniciada por Aristóteles e desenvolvida por filósofos e juristas como Tomás de Aquino, Grócio e Pufendorf, entre outros. A presente tese busca traçar aqui as linhasprincipais desse pensamento e de algumas modificações surgidas com o passar do tempo. Como já destacado em obra anterior,110 Gordley compreende que o direito privado não pode ser corretamente analisado sem a devida percepção de que 107 COLEMAN, Jules. The practice o f principie. N ew York: Oxford University Press, 2001. p. 53-54. 108 GORDLEY, James. Philosophical origins o f modem contract. Nova York: Claredon, 1991. 109 Id. Foundations ofprivate Law: property, tort, contract, unjust enrichment. New York: Oxford University Press, 2007. 110 DRESCH, op. cit., p. 28. 5 6 Fundamentos do direito privado • Dresch seus institutos estão inseridos numa tradição111 iniciada por Aristóteles, quan do do desenvolvimento dos sentidos de justiça e de prudência. A mencionada tradição teria origem, principalmente, no livro Ética a Nicômaco, dentro de um pensamento teleológico que culmina com o objetivo maior do desenvolvimento do ser humano individual (felicidade) ou coletivamente (bem comum). Para alcançar o bem individual e, consequentemente, o bem comum, são exigidas determinadas ações decorrentes de uma saber prático, prudencial. As ações que contribuem para o bem individual e o bem comum são ações corretas (virtuosas) e as ações que não contribuem para essa felicidade (desenvolvimento pleno do ser humano) são equivocadas (viciadas). O indivíduo pratica as ações virtuosas por ser dotado de uma sabedoria específica, prática, a prudência, que se desen volve exatamente pelas práticas virtuosas.112 Ademais, o ser humano não alcança tal bem (sua realização plena) somente pela capacidade prudencial, pois ele necessita de certos bens externos para se desenvolver plenamente, assim como para o desenvolvimento dos demais membros de sua comunidade.113 Para determinar a possibilidade dessa garantia dos bens externos necessá rios para a busca da felicidade a cada indivíduo, como pleno desenvolvimento humano, Gordley, invocando a tradição aristotélica, entende que são apresen tados dois conceitos de justiça sobre os quais o direito se fundamenta: justiça distributiva e justiça comutativa. A finalidade da justiça distributiva seria a de garantir que cada um tenha os bens necessários para a busca de sua felicidade e a finalidade da justiça comutativa é a de possibilitar que cada um possa obter esses bens sem comprometer a habilidade dos demais de acessar esses bens.114 111 TYadição nos termos defendidos por MACINTYRE, Alasdair. Justiça de quem? Qual a raciona lidade. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001. 1.2 “Writers in the Aristotelian tradition belived there is a distinctively human life to which all one’s capacities and abilities contribute. Living such a life is the ultimate end to which all well-chosen actions are men, either instrumentally o r as constituent parts o f such a life. Actions which contribute to such a life are right. Those that detract from it are wrong. Unlike other animals, human being can identify the actions that do contribute. In doing so, a person exercises an acquired ability - a virtue - which these writers called ‘prudence’. In follow ing the dictates o f prudence, he may need others virtues as well, such as the courage to face the pain and danger o r the temperance to forego pleasure” (GORDLEY, op. cit., p. 7). 1.3 “In any event, fo r writers in the Aristotelian tradition, living a distinctively human life requires, not only virtues such as prudence, temperance and courage, but external things as well. Moreover, because human life is social, a person should not only want such thing fo r himself but want to help others acquire then as well” (Id., ibid., p. 8). 154 “They distinguished two fundamental concepts o f justice on which the law ultimate rests: distri butive and commutative justice. The object o f distributive justice is to ensure that each person has the O direito privado com o justiça corretiva 57 Como enfatiza Stephen Smith, os fundamentos do direito privado defen didos por Gordley podem ser resumidos em três princípios característicos da tradição aristotélica. O primeiro princípio seria o da busca de uma vida humana de plena realização ( eudaimonia - felicidade), possível através de ações virtuo sas fundadas na sabedoria prática, a prudência. O segundo é o princípio da justiça distributiva, que visa a garantir a cada pessoa os recursos necessários para essa vida plenamente realizada. Finalmente, o terceiro princípio é o da justiça comutativa, que ensejaria a possibilidade de essas pessoas acessarem esses bens sem afetar a mesma possibilidade de as demais pessoas também acessarem tais bens, garantindo a equidade da distribuição.115 Importante destacar que a igualdade de recursos defendida por Gordley não pode ser associada, segundo ele, com a igualdade em termos utilitaristas. Gordley entende que a justiça distributiva deve buscar uma “igualdade de re cursos” e não uma “igualdade de weZ/are”,116 ou seja, todos devem ter garantida uma igualdade inicial de bens necessários para a busca da plena realização como pessoa.117 Assim, não se justiçaria o confisco de bens dos que têm mais numa sociedade, pois, segundo Aristóteles e Tomás de Aquino, uma sociedade que busque uma igualdade absoluta em termos de recursos acarretaria dois problemas graves: o incremento das disputas e o desincentivo ao trabalho e ao cuidado dos bens.118 resources that he requires. The object o f commutative justice is to enable him to obtain the without unfairly diminishing others’ ability to do so” (Id., ibid., p. 8 ). 115 “In any event, i f his account ofprivate law is accepted in the terms in which it is presented it will easily satisfy the criteria just described. In the introductory chapter o f Foundations, Gordley states that the entirety ofprivate law can be explained on the basis o f three closely related principles. The first, which Gordley describes as the theory’s ‘apex,’ is the principle that actions which contribute to a ‘distinctively human life’ are right and those that detract from it are wrong. ‘Distinctively human’ is not defined, but the general idea - a common one in the Aristotelian tradition - is that there are some ways o f living that are more valuable or worthwhile than others. The other two principles, whi ch give content to the notion o f right and wrong and which, therefore, are the principles that Gordley believes explain the substantive private law, are distributive and commutative (o r ‘corrective’) justice. The principle o f distributive justice, Gordley explains, ‘gives every citizen a fa ir share o f resources’ while commutative justice ‘preserves the share that belongs to eachm (SMITH, op. cit., p. 465). 116 Como será defendido no Capítulo 3, nos termos da justiça social contemporânea, a igualdade e a dignidade não são garantidas pela igualdade de recurso ou igualdade de bem-estar, mas, sim, igualdade de capacidades humanas básicas para o autodesenvolvimento. 117 GORDLEY, James. “Servitudes,” Global Jurist Frontiers: v. 3: Iss. 1, Article 3, 2003, p. 25. Disponível em: < http://www.bepress.com/gj/frontiers/vol3/issl/art3> . Acesso em: 6 dez. 2010. 1,8 “ To say that resources are distributed equally in a democracy does not mean that people are equally able to lead such a life since, democracy or not, the virtuous are better able to make choices 58 Fundamentos do direito privado • Dresch Apesar de Gordley não apresentar essa justificativa explicitamente, a tradição aristotélica não pode conceber uma igualdade absoluta de recursos para todos, pois a distribuição justa deve refletir os méritos dos membros da comunidade; quem merece mais (mais virtuoso) deve ter mais recursos - sendo evidente que os critérios de mérito são contextuais. A ausênciadessa explana ção, entretanto, gera uma crítica relevante por parte de Stephen Smith, a de que as justificativas para a justiça distributiva com base no sistema de propriedade privada, no pensamento de Gordley, parecem ser apenas utilitaristas, pois o evitar querelas e improdutividade foca apenas a utilidade de um sistema de propriedade privada.119 Assim, como já referido em passagens supracitadas, os princípios acima delineados formam a base da tradição aristotélica segundo Gordley. Tais prin cípios teriam sido recebidos pela escolástica tardia e absolutamente alçados a princípios fundamentais, para, originalmente, construir a primeira forma de sistematização dos institutos criados pelos jusrisconsultos, principalmente, no Direito Romano do período clássico, e desenvolvidos através da análise assiste- mática de glosadores e comentadores na Idade Média.120 Com base nas ideias and will be able to live better. Equality means equal power to command resources: what we might roughly call equal purchasing power. Ronald Dworkin in an important essay called ‘equality o f re sources’ as opposed to ‘equality in w e lfa r e (GORDLEY, James. Foundations o f private Law: proper ty, tort, contract, unjust enrichment. New York: Oxford University Press, 2007. p. 9). 1,9 “The economic account o f property law provides one such explanation. But an alternative ap proach would be to show that creating, transferring, o r owning property is connected in a special way to achieving a valuable life, that is to say, connected in a way other than merely the fact that having resources permits us to satisfy our wants. The idea o f a valuable life fits neatly with such an approach. Further, such an account m ight be able to show why certain kinds o f property are parti cularly important fo r achieving a valuable life, and thus to explain rules that appear to diverge from the purely utilitarian goal o f maximizing wealth. But the only ideas used to explain property law in Foundations are the utilitarian ideas o f avoiding quarrels and giving incentives to produce and protect resources” (SMITH, op. cit., p. 469). 120 “Centuries ago, however, jurists had an explanation. These jurists wrote in the 16th and early 17th centuries. They belonged to a school which historians refer to as the ‘late scholastics’. Few pe ople today are fam iliar even with the names o f the leaders o f this group: fo r example, Domingo De Soto (1494-1560), Luis de Molina (1535-1600) and Leonard Lessius (1554-1623). Yet, as I have described elsewhere, they were the first to give private law a theory and a systematic doctrinal struc ture. Before they wrote, the Roman law in force in much o f Europe had neither. For all their subtlety, neither the Romans nor the medieval professors o f Roman law were theorists. In contrast, the late scholastics tried to explain Roman law by philosophical principles drawn from their intellectual heroes, Thomas Aquinas and Aristotle. Their work deeply influenced the 17h century founders o f the northern natural law school, Hugo Grotius (1583-1645) and Samuel Pufendorf (1632-94) who adopted many o f their conclusions and disseminated them through northern Europe, paradoxically, at the very time that Aristotelian and Thomistic philosophy was fa lling out o f fashion” (GORDLEY, O direito privado com o justiça corretiva 59 de Tomás de Aquino e Aristóteles, os juristas da neoescolástica apresentaram os princípios fundantes da primeira teorização sistemática racionalista do direito privado, eis que tanto os juristas romanos quanto os medievais não tinham uma preocupação de apresentar uma teoria sistematizante do direito privado. Como já referido na introdução deste capítulo (seção 1.1), a precursora sistematização pelos juristas da escolástica tardia, por sua vez, teria sido recebida amplamente pelos efetivos fundadores do jusracionalismo moderno, com destacada menção a Hugo Gródo (1583-1645) e Samuel Pufendorf (1623-1694). Os dois filósofos, considerados figuras centrais do direito privado natural moderno, como antes analisado, mantinham a compreensão dos sentidos de justiça da tradição como fator central da sua sistematização. Contudo, já a partir do pensamento deles, mas, sobretudo por juristas posteriores dos séculos XVIII e XIX, teria restado apenas a sistematização racional desconectada dos fundamentos de justiça em termos aristotélicos tomistas.121 Merece especial destaque, entretanto, uma consideração apresentada por Gordley referente ao seu pensamento: não lhe é necessário assunção da defesa e da explanação de uma metafísica nos termos da tradição aristotélica, como alguns de seus críticos sugerem, para a compreensão do direito privado vinculado aos sentidos de justiça iniciados nessa tradição. Gordley entende que as obras de direito privado não podem ter por tarefa a explanação de todo o direito e de todas as questões a ele relacionadas. Assim, sua defesa se constitui na constatação de que os princípios da tradição aristotélica adma analisados têm uma força explanatória da racionalidade dos institutos jusprivatistas e essa força tem uma explicação, além de racional, histórica.122 James. Damages Under the Necessity Doctrine. Issues in Legal Scholarship, Vincent v. Lake Erie TYansportation Co. and the Doctrine o f Necessity (2005): Article 2. p. 15-16. Disponível em: < http://www.bepress.com/ils/iss7/art2> . Acesso em: 10 fev. 2011). 121 “Few people today are fam iliar even with the names o f its leaders: fo r example, Domingo de Soto (1494-1560), Luis de Molina (1535-1600) and Leonard Lessius (1554-1623), and yet, as I have shown elsewhere, they were the firs t to give Roman law a theory and a systematic doctrinal structure. Their work deeply influenced the 17* century founders o f the northern natural law school, Hugo Grotius (1583-1645) and Samuel Pufendorf (1623-1694), who disseminated many o f their conclusions through northern Europe, paradoxically, at the very time that Aristotelian and Thomistic philosophy was fa lling out o f fashion” (GORDLEY, James. Foundations o f private Law: property, tort, contract, unjust enrichment. New York: Oxford University Press, 2007. p. 10-11). 122 “Some scholars may believe I cannot stop there. Historically, those who expounded these prin ciples claimed they were universal and linked them to a coherent metaphysics. Some may think I should preface this book by a larger one considering whether these principles are reflected in the law o f every culture or evaluating the truth o f Aristotelian metaphysics” (Id., ibid., p. 5). 6 0 Fundamentos do direito privado • Dresch Apesar de Gordley não desenvolver essa ideia claramente, para comple tar o processo de tradição, seria necessário compreender que tais sentidos de justiça teriam influenciado os jurisconsultos romanos no desenvovimento dos institutos do direito privado em sua origem, como acima mencionado.123 Contudo, o direito privado romano teria se caracterizado pela assismaticidade, ou por uma sistematização diversa da moderna, pois o caráter pragmático do romano focava o estudo jurídico mais nas soluções jurídicas necessárias para os problemas práticos do que no desenvolvimento de uma teoria do direito privado que sistematizasse todo um conjunto de soluções que eram pensadas de forma pragmática, como já referido na introdução do Capítulo 1. Os três princípios acima mencionados, o da busca da felicidade através das virtudes - principalmente da justiça e da prudência - , o da justiça dis tributiva e o da justiça comutativa servem de base para a comprensão dos diversos institutos de direito privado, conforme Gordley. O primeiro princípio serve como objetivo maior a nortear a distribuição de recursos pelajustiça distributiva. Ou seja, a justiça distributiva deve ser empregada de forma a garantir a felicidade dos seres humanos em uma dada sociedade, já que, para o seu desenvolvimento pleno, cada indivíduo precisa de bens externos e do desenvolvimento da capacidade de exercer suas escolhas. Somente através da garantia de recursos e dessa liberdade para individualmente exercer a prudência o indíviduo poderá atingir a felicidade. Dada uma distribuição fo cada na realização plena de cada indivíduo, a justiça comutativa tem o papel de garantir tal distribuição, centrada na circulação justa dos bens entre os membros de uma sociedade.124 Além disso, coerente com sua teoria, Gordley entende que uma distri buição absolutamente injusta, a qual, por conseguinte, não completa nem parcialmente seu objetivo de garantir a possibilidade de desenvolvimento pleno do indíviduos, não pode ser alterada apenas através do abandono da justiça comutativa, mas, sim, por uma revolução. Em todo caso, se alguma 123 A defesa dessa influência do pensamento aristotélico já sobre os jurisconsultos romanos pode ser observada nas obras de Michel Villey: “ Os grandes juristas desta época são chamados funda dores do jus civile. E esta expressão, que aliás foi tomando outros sentidos ao longo da história, parece então corresponder exatamente ao que se chamava na teoria de Aristóteles de dikaion politikon: direito existente, numa cidade, entre cidadãos chefes de família, o único dikaion no sentido pleno da palavra” (VILLEY, Michel. Filosofia do direito. Definições e fins do direito. Os meios do direito. São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 95). 124 GORDLEY, op. cit., p. 8. O direito privado com o justiça corretiva 61 redistribuição é necessária, ela deve ser feita por decisões da sociedade e não por indivíduos em proveito próprio.125 Para Gordley, os institutos de direito privado, nesse contexto principio- lógico, têm seu fundamento próximo centrado na justiça distributiva ou na justiça comutativa, pois estão destinados a implementar a distribuição de recursos necessários ao desenvolvimento de um ser humano ou a garantir a manutenção dessa justa distribuição nas transações entre os indivíduos. As sim, Gordley entende que o instituto da propriedade privada está fulcrado na justiça distributiva. Os direitos de propriedade devem ser distribuídos levando em conta questões pragmáticas que limitam o ideal que se pode ter sobre tais direitos de propriedade. A distribuição com base no princípio de justiça distributiva, entretanto, é claramente diferente da visão de direitos privados como conceitos sacrossantos e absolutos, mas também difere de uma visão de distribuição centrada em maximização de utilidade, duas visões que dominam o cenário jurídico em termos formalistas ou funcionalistas, como o presente trabalho busca demonstrar.126 A outra perspectiva referente aos direitos de propriedade diz respeito à vinculação dessa distribuição de direitos e sua consequente garantia de recursos ao que seria o objetivo específico da garantia da propriedade, o de incentivo ao trabalho e à conservação dos recursos. Conforme Gordley, portanto, o di reito de propriedade privada sofre limitações, pois, ao garantir bem-estar ao indivíduo, deve-se também garantir o bem-estar dos demais. Assim, o trabalho 125 T believe each person’s share o f resources is worth preserving to the extent that resources are fa irly distributed in a society. In a monstrously unjust society, in which nearly all the resources were in the hands o f a few decadent families while everyone else starved, it would not be worth preserving. What would be needed is a revolution, or, fa iling that, Robin Hood. But I do not claim, as some o f my critics think I must, that resources are distributed a justly as they should be in this or any other human society. The distribution need not be perfectly just to be worth defending. In any case, i f resources are to be redistributed, it should be by a social decision, not by individuals who go about redistributing them on their own” (Id. Servitudes. Global Jurist Frontiers, v. 3, Issue 1, Article 3, p. 1-29, 2003, p. 25-26). 126 T n any event, in this, study, this account o f distributive justice will figure in two ways. First, when the question o f how property rights should be acquired o r defined arises, we will continually return to the reasons why such rights should exist in the in the firs t place. Often, the reason may be that there are pragmatic constraints on how they ideally should be. We must identify these constraints and see how they should be limited. That approach is different than one which regards property rights as sacrosancts and unlimited. It is also different than one which identifies pragmatics constraints with 1u tilit/ as a modem economist understands the term ” (GORDLEY, James. Foundations o f private Law: property, tort, contract, unjust enrichment. New York: Oxford University Press, 2007. p. 11). 6 2 Fundamentos do direito privado • Dresch e a conservação podem servir como critério de distribuição ou redistribuição em termos pragmáticos, para reafirmar tais incentivos.127 Quanto à justiça comutativa, Gordley entende que existem dois tipos de justiça comutativa, segundo Aristóteles: uma das transações voluntárias e outra das transações involuntárias. Nas involuntárias, há a necessidade de se resta belecer o equilíbrio quando um dos participantes da relação toma mais do que lhe cabe e, nas voluntárias, há a necessidade de equilíbrios entre as prestações trocadas.128 Contudo, a referida análise não pode ser considerada como a mais apurada, pois, como já mencionado anteriormente, a justiça comutativa deve ser entendida como a soma de dois sentidos de justiça: a justiça corretiva, que pode ocorrer nas transações voluntárias ou involuntárias, bastando que um dos participantes tome mais do que lhe cabe em detrimento do outro - seja a transação involuntária ou voluntária -, e a justiça como reciprocidade (sinalag- mática), essa sim, avaliando a correlação entre prestações em uma transação voluntária ou involuntária (enriquecimento sem causa).129 Dada a justiça comutativa como relevante para os fundamentos do direito privado, Gordley atribui uma finalidade específica a esse sentido de justiça. O objetivo do princípio de justiça comutativa seria o de garantir as distribuições determinadas pela justiça distributiva. Assim, nos institutos obrigacionais do contrato, da responsabilidade civil e do enriquecimento sem causa, estaria presente esse princípio como elemento essencial.130 Por conseguinte, Gordley entende que podem ser determinados dois ca minhos para a análise dos fundamentos do direito privado. O primeiro inicia pelos princípios da prudência (direcionada à busca do bem dos indivíduos), da 127 “Ideally, a person should have a certain share o f wealth. Unfortunately, he often cannot i f we are to provide others with an incentive to labor and conserve resources. That is a pragmatic con sideration which long predated modem economists’ notions o f utility. If, however, for pragmatic reasons the law provides such incentive, then the person who labors and conserves resources thereby acquires a right. The extend o f his right is limited by the pragmatic reasons for providing the incentive” (GORDLEY, op. cit., p. 11). 128 Id., ibid., p. 12. 129 Vide seção 1.1 supra. 130 Nesse sentido, Gordley assim analisa: “Two consequences follow [ . . . ] is that one cannot define the rules o f contracts or tort o r unjust enrichment without regard to commutative justice, o r in other words, without regard to the effect o f these rules on the distribution o f resources between the parties[ . . . ] The other consequence is that concern fo r justice in private transactions-largely a matter o f com mutative justice-cannot be divorced from concern fo r distributive justice” (GORDLEY, op. cit., p. 12). O direito privado com o justiça corretiva 6 3 justiça distributiva e da justiça comutativa e como eles resolvem os problemas relativos aos contratos, à responsabilidade civil, à propriedade privada, entre outros institutos de direito privado. O segundo caminho pode ser traçado atra vés da análise de como os sistemas jurídicos existentes resolvem os problemas de direito privado e a consequente explicação dessas soluções com base nos princípios mencionados.131 Nesse sentido, Gordley ressalta que a diversidade de soluções apresentadas pelos sistemas jurídicos decorre do fato de que, na tradição aristotélica, a tarefa de elaboração e de aplicação das normas depende de dois aspectos da prudência - synesis e gnome - , sendo synesis a habilidade de produzir normas e gnome a capacidade de julgar casos particulares. Assim, como a atividade de produzir e aplicar sistemas jurídicos depende dessas duas capa cidades humanas exercidas em contextos diversos, a construção dos sistemas jurídicos pode ocorrer de forma mais adequada ou mais distante dos princípios que fundam o direito privado, por erros de julgamento ou de elaboração de normas, eis que tanto legislador quanto julgador lidam com a incerteza que caracteriza a elaboração e a aplicação de normas de um dado sistema jurídico e as capacidades humanas são imperfeitas. Além disso, as circunstâncias, os contextos sociais, políticos, econômicos e culturais são diferentes, o que acaba determinando normas diferentes baseadas nos mesmos princípios.132 Em seus recentes escritos,133 entretanto, Gordley tem apresentado uma ideia complementar aos três princípios decorrentes de uma tradição aristoté lica legitimada por uma compreensão de uma tradição histórica.134 Surge, nos últimos anos, uma concepção de Gordley sobre a prática por ele denominada de “paternalismo”, que, apesar de não ser um termo atrativo, pois parece repre sentar o tratamento dos pais em relação a crianças, é o que melhor representa as situações nas quais o Estado entende que deve tomar certas decisões no lugar dos cidadãos, pressupondo que estes tomariam decisões equivocadas apenas baseados na prudência ou em outra virtude individual.135 131 GORDLEY, op. cit., p. 32. 132 Id., ibid., p. 34-40. 133 Id. Morality and contracts: the question o f patemalism. William & Mary Law Review, v. 48, p. 1733-1772, 2006-2007; e GORDLEY, James. Takings. Tulane Law Review, v. 82, p. 1505-1532, 2007-2008. 134 Id. Takings. 7Ulane Law Review, v. 82, p. 1505-1532, 2007-2008.1.517. 135 GORDLEY, James. Morality and contracts: the question o f patemalism. William & Mary Law Review, v. 48, p. 1733-1772, 2006-2007. p. 1.743. 6 4 Fundamentos do direito privado • Dresch Nesse aspecto, Gordley exemplifica algumas situações em que o Estado acaba por adotar normas paternalistas em virtude da pressuposição de que os cidadãos não poderiam, apenas com base na virtude e na prudência, especial mente, adotar as decisões adequadas à busca do bem individual.136 É, assim, apresentado, primeiramente, um exemplo do que não seria paternalismo: a fixação de salário-mínimo, pois, nessa situação, o Estado estaria exatamente realizando a sua tarefa de justiça na distribuição;137 por outro lado, exemplos de paternalismo ocorreriam em situações nas quais o Estado tem medo de que os cidadãos façam escolhas erradas, como exercer trabalhos errados, sob condições inadequadas, gastar equivocadamente seu dinheiro, entre outras.138 Quanto à possibilidade de o Estado atuar paternalmente no que diz respeito às questões de moralidade, Gordley considera que Finnis interpreta equivoca damente a obra de Tomás de Aquino nesse aspecto, pois Finnis entenderia que, nesse caso, o Estado estaria extrapolando o seu papel. Contudo, a interpretação de Finnis, segundo Gordley, estaria influenciada erroneamente pela obra de Stuart Mill, que condicionou o pensamento moderno a esse entender. Assim, Gordley acredita que, na tradição aristotélica, inclusive, na obra de Tomás de Aquino, o Estado pode, excepcionalmente, determinar medidas referentes à moralidade em substituição às decisões livres dos cidadãos.139 Tal possibilidade ocorre, conforme Gordley, ao contrário do entendimento de Finnis, em virtude de que, para Tomás de Aquino, a Lei Humana não trata somente da justiça particular, ou seja, da justiça distributiva e comutativa, mas também do outro sentido fundamental de justiça, a justiça legal, pois determina o bem para os indivíduos como parte essencial da comunidade. A justiça legal, para Tomás de Aquino, define a relação da parte, do indivíduo, para com o todo, a comunidade, na direção do bem comum. O direito, quando J36 “w ith these ideas in mind, w e can turn to the question o f patemalism. I w ill use that term for the want for a better one. I dislike that word because it seems to mean treating adults as though they were children. To do so is obviously wrong. Yet it may be symptomatic o f our times that we have no other term for what the estate does when it circumscribes or influences the choice o f a citizen would otherwise make because it believes the citizen’s choice is wrong, whether through a want o f prudence or o f some other virtue. That is the sense in which I w ill be using the term patemalism here” (Id . Takings. Tulane Law Review, v. 82, p. 1505-1532, 2007-2008). 137 Id. Morality and contracts: the question o f patemalism. William & Mary Law Review, v. 48, p. 1733-1772, 2006-2007. p. 1744. 138 Id., ibid., p. 1748. 139 Id., ibid., p. 1749-1750. O direito privado com o justiça corretiva 6 5 promove diretamente a virtude e, portanto, ações condizentes com o bem da comunidade em geral, promove o que Tomás de Aquino chama justiça legal. Tal questão é central para as pretensões da presente tese, pois Gordley demonstra claramente que não se pode analisar o direito em relação somente à justiça particular, mas também e essencialmente em relação ao sentido de justiça geral/legal - que será recepcionado no constitucionalismo moderno como justiça social - , conforme será visto no Capítulo 3, sobretudo, considerando a constante substituição do sistema moral pelo sistema jurídico na atual era do Império do Direito.140 Para analisar as situações em que normas paternalistas são admitidas, Gordley, então, descreve três tipos de paternalismo. No primeiro tipo, o Es tado pode proibir determinadas escolhas dos cidadãos ou determinar certas escolhas como necessárias, como a proibição de uso de drogas, da prostituição, a proibição à discriminação de pessoas na hora de alugar uma casa, exigir determinadas medidas de segurança de fábricas de medicamentos, hospitais, ou ainda, exigir que as pessoas poupem dinheiro para a velhice. No segundo tipo, o Estado não proíbe nem exige determinada conduta, mas cria incentivos para agir ou não agir de certa forma, como nos casos de impostos sobre cigarro ou redução de impostos sobre gastos com educação. No terceiro tipo, o Estado aloca os recursos para atividades que considera prioritárias, como a construção de escolas, financiamento de eventos culturais, construção de parques, entre outros. Nesse caso, o Estado estaria alocando recursos, exercendo a distribuição dos bens na sociedade, como é sua tarefa, mas não no sentido de estabelecer a equidade (faimess) entre os cidadãos.141 Dessa feita, Gordley defende que se deve evitar o paternalismo em geral, primeiramente porque, muitas vezes, não existe uma única ação correta a sertomada pelo indivíduo, mas possíveis ações vinculadas a projetos de vida 140 “As Finnis notes, Aquinas did say that human law is concerned only with justice and injustice and not with other virtues as such; it is concerned with what affects other people; its business is to promote tranquility, peace, and, more generally ‘common good’. But Aquinas, following Aristotle, distinguished two kinds o f justice: ‘general’ and ‘particular’. ‘Particular justice’ includes both distributive and commutative justice; i f particular justice is violated, one person has recei ved or taken or harmed what rightfully belongs to another. As w e have seen, when the state acts to promote distributive or commutative justice, it does not act patemalistically as we are using the term. If Aquinas have thought human law should be concerned only with particular justice, Finnis would be correct: Aquinas would have thought it ultra vires for the state to promote its ci tizens’ fulfillment, excepting by promoting particular justice” (GORDLEY, op. tit., p. 1751-1752). 141 GORDLEY, op. tit., p. 1755. 6 6 Fundamentos do direito privado • Dresch distintos, ou ainda uma única ação correta, mas que pode ser correta para um indivíduo com certas características e equivocada em relação a outro com circunstâncias e características diferentes.142 Contudo, a razão principal para se evitar o paternalismo é que, na visão aristotélica, além de o indivíduo agir corretamente, para ele alcançar a sua realização plena, deve agir corretamente por compreender e escolher racionalmente a correção da ação.143 Assim, quando as escolhas são feitas pelo Estado, essa possibilidade de livre autorrealização é prejudicada.144 Gordley ressalta, também, que mesmo as escolhas erradas são importantes na busca da realização individual, pois somente com a possibilidade de escolher errado é que o indivíduo pode desenvolver a virtude da prudência.145 Por fim, em relação aos três tipos de paternalismo, Gordley entende que, em uma democracia, o Estado deve procurar evitar ao máximo as duas primeiras formas de paternalismo, sobretudo, diante dos prejuízos acima delineados. O terceiro tipo de paternalismo, entretanto, não seria tão prejudicial na visão de Gordley, haja vista que, em certos contextos, o ideal de democracia deve ceder espaço, a fim de se evitar os prejuízos que uma democracia ideal poderia causar,146 ou seja, a democracia pode sofrer certas limitações em termos de alocação de recursos, de forma a minimizar possíveis prejuízos decorrentes de uma distribuição não ideal existente na sociedade, justamente para proteger a manutenção da própria democracia.147 1.5 Análise comutativa das questões centrais propostas Fixadas as análises centradas na justiça comutativa, cabe refletir sobre a decisão paradigmática deste trabalho nos termos dessa racionalidade. Seria viá vel a aplicação da compreensão focada na racionalidade comutativa de maneira a explicar as conclusões apresentadas pelo Supremo Tribunal Federal? Teria a 142 Id., ibid., p. 1756-1757. 143 GORDLEY, James. Takings. Tulane Law Review, v. 82, p. 1505-1532, 2007-2008. p. 1.522. 144 Id. Morality and contracts: the question o f patemalism. William & Mary Law Review, v. 48, p. 1733-1772, 2006-2007. p. 1757-1758. 145 Id., ibid., p. 1760. 144 Id. Takings. 7Ulane Law Review, v. 82, p. 1505-1532, 2007-2008. 147 GORDLEY, James. Morality and contracts: the question o f patemalism. William & Mary Law Review, v. 48, p. 1733-1772, 2006-2007. p. 1769. O direito privado com o justiça corretiva 6 7 racionalidade em termos comutativos uma diferente abordagem sobre a questão do tratamento dos créditos trabalhistas no caso de falência de uma empresa? Relembrando, as três questões centrais sobre a constitucionalidade da Lei de Falência e Recuperação de Empresas são: (1) a exigência de lei complementar para a disciplina de matéria trabalhista e falimentar; (2) a ausência de sucessão dos créditos trabalhistas em liquidações; e (3 ) a possibilidade de qualificação de parte dos créditos trabalhistas como preferenciais (até o valor de 150 salários- -mínimos nacionais) e parte como créditos quirografários. Quanto ao primeiro tema, as análises centradas na comutatividade não teriam provavelmente nada a dizer. Apenas a abordagem de Gordley, não sobre a justiça comutativa, mas sobre o paternalismo, adma alinhavada, poderia explicar que a matéria rela tiva a questões referentes à falência de empresas e proteção aos trabalhadores tivesse de respeitar os ditames constitucionais sobre a forma especial pela qual o Estado poderia atuar paternalmente em questões centrais sobre proteção ao trabalho e à empresa. Ademais, para a racionalidade comutativa, sendo a lei ordinária ou complementar, em qualquer dos casos, deveria se pautar pelo respeito à forma específica das relações de direito privado.148 No que se refere aos dois últimos temas, entretanto, ela ensejaria uma posição peculiar. Quanto à sucessão dos devedores, só seria possível através do respeito à personalidade dos sucessores. Assim, a sucessão somente seria admitida através de uma manifestação volitiva dos adquirentes, ou seja, os sucessores. Para serem considerados como responsáveis, em termos comutati vos, teriam que, de alguma forma, ter consentido, seja pelo conhecimento, no momento da aquisição, de que a Lei Falimentar determina tal sucessão, seja por expressa previsão no negócio jurídico de aquisição, caso contrário, estar-se-ia estabelecendo um débito a essas pessoas, sem elas terem tido a possibilidade de exercer a sua capacidade de intenção racional, como Weinrib explica ao analisar a necessidade de preservação da personalidade, nos moldes acima delineados.149 No julgado fica bem claro que a legislação, nos artigos 60 e 141, não deixou margem a dúvidas sobre a ausência de sucessão, mas também não vedou a possibilidade da autonomia de as partes determinarem a sucessão. Assim, exatamente nos termos defendidos pelo formalismo, a obrigação deve se manter entre aqueles que participaram do negócio jurídico, sem impedir que, no negócio de alienação, o adquirente venha, através da manifestação de 148 Vide análise sobre o conceito de paternalismo de Gordley nas páginas 64-68. 149 Sobre a análise detalhada do personalismo, vide DRESCH, op. cit., p. 93. 6 8 Fundamentos do direito privado • Dresch sua vontade, dentro das prerrogativas inerentes à sua personalidade, consentir com a sucessão. Como foi bem ressalvado pelo Ministro Ricardo Lewandowski, o legislador entendeu por uma primazia dos princípios da livre iniciativa, da função social da propriedade e a consequente função social da empresa, o que estabelece uma fundamentação em termos comutativos no caso: Por essas razões, entendo que os arts. 60, parágrafo único, e 141, II, do texto legal em comento mostram-se constitucionalmente hígidos no aspecto em que estabelecem a inocorrênda de sucessão dos créditos trabalhistas, particular mente porque o legislador ordinário, ao concebê-los, optou por dar concreção a determinados valores constitucionais, a saber, a livre iniriativa e a função social da propriedade - de cujas manifestações a empresa é uma das mais conspícuas - em detrimento de outros, com igual densidade axiológica, eis que os reputou mais adequados ao tratamento da matéria.150 Quanto ao terceiro tema, respeitante à divisão do crédito trabalhista, é possível chegar à conclusão pela inviabilidade desse fracionamento na visão es tritamente comutativa do direito privado, pois os elementos que incidem sobre a relação obrigacional só podem ter natureza bipolar, correlativa e personalista. Assim, um critério que fixa um patamar de 150 salários-mínimoscomo sendo o máximo que um trabalhador poderia ter como crédito preferencial fere o caráter correlativo das obrigações, pois insere elementos externos para além da preservação da igual liberdade dos participantes da relação obrigacional. Fracionamento de créditos para fins de preservação da função social da em presa, combinado com a garantia de um mínimo de recursos em virtude da dignidade humana, não se apresenta como uma medida conforme a natureza das relações obrigadonais em termos comutativos, mas, sim, uma distribuição de bens em função de critérios voltados à conjugação de vários bens conflitan tes. Ademais, poderia ser dito que essa diferença entre credores trabalhistas viola a característica de preservação da personalidade ao atribuir um critério de bem-estar externo, não determinado pela caparidade intenrional das partes envolvidas na relação obrigacional. Os credores de créditos superiores aos 150 salários-mínimos estariam sendo prejudicados para a busca da preservação da empresa que interessa à maioria (coletividade). Contudo, as análises centradas na comutatividade poderiam apresentar algumas saídas para a compreensão da decisão em comento no que diz respeito ,so ADI 3.934-DF, p. 16. O direito privado com o justiça corretiva 6 9 ao fracionamento dos créditos trabalhistas. Primeiramente, poderiam simples mente afirmar que essas questões não são de direito privado, mas, sim, de direito público. O caráter distributivo evidente estabeleceria o caráter público e não apenas privado da questão em análise segundo a análise formalista (vide seção 1.2). O que resta claro é que a análise comutativa não poderia estabelecer uma compreensão plena da decisão mencionada, pois enquanto estaria acorde com a ausência de sucessão no caso de alienação de ativos da empresa falida, não poderia admitir o fracionamento do crédito trabalhista para fins de classifi cação na ordem de preferência, eis que tal fracionamento e classificação se estabelecem em termos distributivos, objetivando a persecução de fins sociais e coletivos da maioria em detrimento de uma minoria de credores.151 A análise centrada apenas na comutatividade, quanto ao negócio de An tônio e Shylock, seria interessante, pois deveria defender o direito subjetivo de Shylock de executar seu crédito estabelecido de forma livre entre as partes do negócio, mas, ao mesmo tempo, daria ensejo a uma discussão sobre a real intenção das partes quando da fixação da garantia. Estariam, as partes, através de suas intenções racionais, incluindo na garantia somente uma libra de carne e excluindo o sangue de Antônio? Parece que, ao defender os estritos termos do formalismo de Weinrib, não se poderia encontrar, no direito privado, uma forma de salvar Antônio a não ser a aplicada por Pórcia, que utilizou a própria racionalidade do estrito formalismo para interpretar a norma contratual, con cluindo que o sangue de Antônio não tomava parte na garantia. Veja-se que é o próprio Shilock que exige uma análise estritamente formal: PÓRCIA - É certo. Já deixastes a jeito uma balança para pesar a carne? SHYLOCK - À mão tenho uma. PÓRCIA - E um cirurgião, Shylock, contratastes, para evitar que Antônio a morrer venha, por grave hemorragia? SHYLOCK - Estipulado se encontra isso na letra? 1S1 A própria decisão refere que o universo de credores de valores superiores aos 150 salários- -mínimos é de, no máximo, 1% (um por cento) dos credores da massa. Pensando-se acerca do percentual de pessoas nessa condição em relação ao total da população brasileira, essa minoria é praticamente nula. 7 0 Fundamentos do direito privado • Dresch PÓRCIA - Expressamente, não; mas que importa? Fora conveniente que assim fizésseis, só por caridade. SHYLOCK - Não posso achá-lo; isso não há na letra. PÓRCIA - Mercador, tendes algo a declarar?152 Como Shilock evoca a interpretação literal estrita dos termos da garantia, Pórcia aplica o golpe final nas pretensões do credor, usando o mesmo argumento estritamente literal, formal e comutativo: PÓRCIA - Pertence-te uma libra aqui da carne do mercador; a corte o reconhece, porque a lei o permite. SHYLOCK - Oh juiz íntegro! PÓRCIA - E deveis retirá-la justamente do peito dele; a corte o reconhe ce, porque a lei o permite. SH YLO CK- Oh juiz sábio! Isso, sim, que é sentença! Vamos logo; preparai-vos. PÓRCIA - Um momentinho, apenas. Há mais alguma coisa. Pela letra, a sangue jus não tens; nem uma gota. São palavras expressas: 'Uma libra de carne'. Tira, pois, o combinado: tua libra de carne. Mas se acaso derramares, no instante de a cortares, uma gota que seja, só, de sangue cristão, teus bens e tuas terras todas, pelas leis de Veneza, para o Estado passarão por direito. GRACIANO - Oh juiz honesto! Toma nota, judeu: quanto ele é sábio! SH YLO CK - A lei diz isso? PÓRCIA - Podes ver o texto. Reclamaste justiça; fica certo de que terás justiça, talvez mesmo mais do que desejaras.1S3 O puro formalismo, em termos comutativos, pode gerar distorções em termos de justiça, pois a justiça comutativa se apresenta como uma forma de relação justa, cujo conteúdo deve ser previamente definido, como será demonstrado com a análise da justiça social apresentada no Capítulo 3. Antes de enfrentar o argumento central da tese aqui apresentada, no entanto, cumpre analisar as teorias funcionalistas, ressaltando suas conquistas e demonstrando seus vícios. ,S2 SHAKESPEARE, op. tit., Ato IV Cena I. 153 Id., ibid. O direito privado como justiça distributiva "Justiça: mais vale deixar-se roubar do que usar espantalhos; tal é o meu gosto. E é sem pre questão de gosto , nada mais além de questão de gosto ." A G a ia C iê n c ia N ie t z s c h e , F r ied r ic h 7 2 Fundamentos do direito privado • Dresch Como anteriormente apresentado, a visão da comutatividade como a ideia central do direito privado não é aceita por destacadas teorias que se vinculam a uma tentativa de explicitar uma racionalidade para o direito privado. Por estabelecerem uma análise centrada mais nas funções do que na forma, essas análises acabam por determinar uma racionalidade funcional ao direito priva do, ou seja, uma análise que determina uma compreensão do direito privado e de seus institutos em função de finalidades sociais e econômicas que são almejadas. Assim, numa compreensão focada em fins e funções coletivos, o direito privado acaba por ser entendido segundo uma forma distributiva, pela qual direitos e deveres são distribuídos aos sujeitos com base na forma que atenda a esses fins, mais especificamente, na melhor distribuição funcional. 2.1 O surgimento do coletivismo funcionalizante A concepção do funcionalismo do direito privado nas suas diversas ver tentes (social, econômica, entre outras) entende que esse ramo do direito fornece instrumentos a serem utilizados para alcançar, principalmente, fins econômicos e sociais desejáveis numa dada realidade social.1 O contrato, a propriedade, a empresa, a responsabilidade civil serviriam como instrumentos para estabelecer, por exemplo, uma distribuição eficiente de custos de aciden tes (análise econômica do Direito), ou para implementar a redistribuição da riqueza e a proteção aos mais frágeis (Direito Social), dependendo da corrente funcionalista que se está a analisar. O funcionalismo, por conseguinte, sacrifica a estrutura formal própria das relações privatistas, centrada no fim específico de manutenção da igual liberdade, e se direciona a objetivos contingentes (como punição de infratores, proteção ao mais frágil, equilíbrio de poder nas relações, socialização de riscos ou distribuição de custos de acidentes) que podem ser alcançadosatravés da aplicação desses institutos de direito privado nas relações estabelecidas em sociedade. Contudo, antes de adentrar na análise das principais correntes funcionalis- tas, assim como procedido em relação ao formalismo, é mister traçar um breve apanhado histórico, a fim de demonstrar as origens e os fundamentos dessa visão funcional. Com efeito, o surgimento de uma visão moderna coletivista, contraposta à visão do individualismo liberal que dominou os primeiros séculos 1 Vide a análise anterior sobre os fundamentos do funcionalismo: DRESCH, op. cit., p. 68. O direito privado com o justiça distributiva 7 3 da era moderna, surge, principalmente, com correntes do pensamento que se evidenciaram no século XIX; dentre essas correntes da filosofia e sociologia em geral merecem destaque os pensamentos de Hegel, Marx, Comte e Bentham.2 Nesse sentido, importante é a descrição de Wieacker: N o entanto, a partir da segunda metade do séc. XIX, começou a impor-se como pano de fundo a concepção de princípio de que o direito era uma função da realidade. Estas correntes declaram-se já partidárias daquele naturalismo que, no nosso século, haveria de inundar a tradição jurídica. No séc. XIX elas eram em geral tributárias do positivismo naturalista fundado por Comte e que seria transportado para a explicação da vida natural pelas grandes descobertas de Darwin e, para a explicação da vida moral, sobretudo por Nietzsche (p. 652). A crítica filosófica renovada do positivismo jurídico remonta a esta época. [...) Todas estas correntes estavam de acordo apenas nestes pressupostos negati vos, embora se encontrassem em conflito umas com as outras, como sempre acontece, quando são destruídos os fundamentos culturais de uma antiga ima gem de sociedade. Foi na crítica do utilitarismo individualista ao desbotado idealismo e ao realismo conceituai da jurisprudência dominante que se expri miu com mais clareza o novo espírito da época. No entanto, estes rebentos do iluminismo tardio, de Jeremy Bentham até J. Stuart Mill e Jhering, estavam ainda de acordo com o liberalismo, ao serviço do qual também estava ainda a pandectística. Uma segunda corrente, de caráter social autoritário, voltava-se precisamente contra esse liberalismo; ela fundava-se ainda no ponto de vista histórico-metafísico e do arrebatamento nacionalista [...] A crítica socialista do direito, por fim, na sua principal versão marxista e baseada nas formas metodológicas da dialética hegeliana na perspectiva do materialismo histórico, 2 Sobre o surgimento do coletivismo, vale ressalvar a análise de Villey: “No capítulo anterior, censurávamos o sistema individualista por haver falseado o ideal do direito, ao abandonar o ponto de vista que deveria ser o do ju iz (cujo dever é ser imparcial) para adotar o do advogado, que se limita a ver os interesses de uma única causa particular, a do indivíduo que defende. Sob a aparência de aplicar leis gerais e iguais para todos (mas iguais apenas na forma e aparentemen te), o sistema de Locke e do Código Civil beneficiava apenas alguns, os proprietários. Sem dúvida há a este respeito poucas diferenças entre a ideologia burguesa de 1789 e as ideias organicistas, coletivistas ou socialistas que a sucederam; a não ser pelo fato de uma casta de privilegiados ter sido substituída por outra. Eis que agora se subordina o direito ao interesse do Todo. Mas o todo social não sendo tão real como o são os indivíduos, é de se temer que essa operação camufle o serviço a uma oli garquia: aos nobres ou aos altos funcionários nos quais se suporão encarnados os interesses do Estado, à classe militar que defende a honra da nação, aos membros do partido que pretende representar o povo, ou aos tecnocratas da economia [...] cujas políticas servem à cabeça em de trimento dos membros” (VILLEY, op. cit., p. 175). 7 4 Fundamentos do direito privado • Dresch ataca tanto o individualismo liberal, como o formalismo idealista do direito privado dominante. Por outro lado, juntam-se-lhe os teóricos burgueses do socialismo econômico.3 Destarte, nada melhor do que iniciar a análise do funcionalismo e sua racionalidade distributiva com o mais destacado dos filósofos coletivistas mo dernos. Com Hegel, há uma busca da retomada de uma preocupação com o todo, talvez pela admiração pela filosofia clássica, principalmente, pela filosofia aristotélica. Hegel vai contrapor o nominalismo individualista que caracterizou a jusnaturalismo e o jusracionalismo através da recuperação da realidade dos entes coletivos. Contudo, a retomada de Hegel, na sua essência, permanece individualista, na medida em que seu método se mantém moderno. Partindo da análise individual para construir uma síntese total, no todo de Hegel, o ente coletivo, o Estado, surge de um estado inicial em que os homens são vistos de maneira isolada e abstrata. O coletivo surge a partir de um processo dialético.4 Como um moderno, Hegel não consegue se desvencilhar da herança do pensamento sistemático, diferenciando-se dos individualistas liberais pela primazia absoluta do todo, da coletividade, sobre o indivíduo.5 O processo dialético, em relação ao direito, apresenta uma primeira fase - do chamado direito abstrato -, que, segundo Hegel, representa o direito subjetivo da liberdade individual e da consequente propriedade privada.6 O fim do direito, nessa fase, é o de garantir a liberdade do indivíduo. Numa segunda fase, o direito evolui para a consciência dos outros e dos deveres para com os outros, configurando-se na Lei Moral (moralidade), o foco está no alter e nos deveres para com o outro. Na fase de síntese, o direito não é mais direito subjetivo, ou deveres para com os outros apenas, como nas fases 3 WIEACKER, Franz. História do direito privado moderno. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004. p. 513. 4 Conceito de dialética em Hegel: “é produzir e conceber a determinação, não como oposição e limite simplesmente, mas compreender e produzir por si mesma o conteúdo e resultados positi vos, na medida em que, mediante esse processo, unicamente ela é desenvolvimento e progresso imanente. Essa dialética não é [...) senão a alma própria do conteúdo, que faz brotar, organiza- damente, seus ramos e seus frutos” (HEGEL, G. W. F. Os pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 2005. p. 15). 5 V1LLEY, op. cit., p. 166. 6 Sobre uma análise da fundamentação da propriedade privada com base em Hegel e seu primei ro estágio do direito, ver a profunda análise de Jeremy Waldron (WALDRON, Jeremy. The right to private property. Oxford: Oxford University Press, 1990. p. 343-389). O direito privado com o justiça distributiva 75 anteriores, em caráter sintético, o direito é compreendido pelas instituições coletivas.7 Os direitos e deveres, para Hegel, só se realizam plenamente na comunida de social, no Estado.8 O direito do Estado vai sobrepor-se aos direitos e deveres, de forma, inclusive, a garantir a efetiva existência desses direitos e deveres, em virtude da garantia estatal. O indivíduo confunde-se com o Estado e a ele se subordina. No fim do processo dialético, o Estado sacrifica-se em favor da “história universal”, que é o princípio e o fim da história.9 Na visão orgânica 7 “This first phase o f freedom w e shall know as property. This is the sphere o f formal and abstract right, to which belong property in the more developed form o f contract and also the injury o f ri ght, i.e., crime and punishment. The freedom, we have here, we name person, or, in other words, the subject who is free, and indeed free independently, and gives himself a reality in things. But this direct reality is not adequate to freedom, and the negation o f this phase is morality.In morality I am beyond the freedom found directly in this thing, and have a freedom in which this directness is superseded. I am free in myself, i.e., in the subjective. In this sphere w e come upon my insight, intention, and end, and externality is established as indifferent. The good is now the universal end, which is not to remain merely internal to me, but to realize itself. The subjective w ill demands that its inward character, or purpose, shall receive external reality, and also that the good shall be brought to completion in external existence. Morality, like formal right, is also an abstraction, whose truth is reached only in ethical observance. Hence ethical observance is the unity o f the w ill in its conception with the w ill o f the individual or subject. The primary reality o f ethical observance is in its turn natural, taking the form o f love and feeling. This is the family. In it the individual has transcended his prudish personality, and finds himself with his consciousness in a totality. In the next stage is seen the loss o f this peculiar ethical existence and substantive unity. Here the family falls asunder, and the members become independent one o f another, being now held together merely by the bond o f mutual need. This is the stage o f the civic community, which has frequently been taken for the state. But the state does not arise until w e reach the third stage, that stage o f ethical observance or spirit, in which both individual independence and uni versal substantivity are found in gigantic union. The right o f the state is, therefore, higher than that o f the other stages. It is freedom in its most concrete embodiment, which yields to nothing but the highest absolute truth o f the world-spirit” (HEGEL, G. W. F. Philosophy o f right. Trad. S. W. Dyde, Batoche Books, Kitchner, 2001. p. 50-51). 8 Nesse processo dialético, o professor Thadeu Weber bem esclarece: “O Direito Abstrato trata dos direitos mais imediatos dos indivíduos, entre eles, o direito de propriedade. É a primeira par te (figuração) da Filosofia do Direito, completada pela moralidade e eticidade” (WEBER, Thadeu. Ética e filosofia política: Hegel e o formalismo kantiano. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009. p. 121). 9 Quem explica com maestria esse processo, citando o próprio Hegel, é Hannah Arendt: “Hegel encontra a solução para esse problema, isto é, descobre como transformar os círculos em uma linha progressiva, admitindo que existe algo por trás de todos os membros individuais da espécie huma na, e que este algo chamado Humanidade é na verdade a espécie de alguém que ele chamou de ‘Espírito do Mundo’, para ela não uma simples coisa-pensamento, mas uma presença corporificada (encarnada) na Humanidade, assim como o espírito de um homem está encarnado em seu corpo. Esse ‘Espírito do Mundo’ corporificado na Humanidade, em contraposição a diferentes indivíduos e a nações particulares, leva a cabo um movimento retilíneo inerente à sucessão de gerações. Cada 76 Fundamentos do direito privado • Dresch de Hegel, no entanto, ao contrário das de Tomás de Aquino e de Aristóteles, o indivíduo deixa de ser a substância principal,10 o que faz surgir o coletivismo.11 Importante notar que Hegel, mesmo tendo representado a maior influência de um movimento filosófico dominante na sua época, não teve sua filosofia absorvida diretamente pelos jusprivatistas, como bem explica Wieacker.12 Contudo, os paradigmas mudaram a partir de sua profunda análise do caráter histórico do conhecimento. Dentre os pensadores que receberam, em maior ou menor grau, essa influência, cabe destaque a Karl Marx. O pai do comunismo também reserva um espaço importante para o direito no seu pensamento. Ao analisar o processo histórico, Marx constata que o direito serve a uma classe dominante como forma de perpetuação do poder. No seu tempo, a constatação é de que a classe dominante, mais poderosa, portanto, é a classe burguesa, capitalista, que se serve do direito como um instrumento para impor essa dominação de acordo com os seus interesses, principalmente, de natureza econômica (acumulação de riquezas). O direito é um instrumento da classe que detém o poder na sociedade.13 Quando da tomada do Estado e do poder geração nova forma uma ‘nova fase de existência, um novo mundo’, e, assim, ‘tem que começar tudo outra vez’, mas ‘começa em um nível mais alto ’ porque, sendo humana e dotada de espírito, ou seja, de Lembrança ‘conservou a experiência [anterior]’ (grifo nosso)” (ARENDT, Hannah. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2002. p. 222). 10 Rawls bem esclarece essa impossibilidade de o indivíduo ser tido como substância, mas apenas como mero acidente: “Hegel’s view o f freedom is that only a substance can bee fu lly free, and that a rational soial world is a substance. Moreover, individuals can attain the fullest freedom available fo r them, as opposed to the misguided autonomy o f Kant’s ethics, only by becoming self-reflecting and endorsing accidents (as Hegel says) o f a rational social w orl± The term *accidents’ brings out that fo r Hegel, individuals cannot by themselves be substances, can not be free on their own. Rather, they are accidents, as it were, o f a substance - o f a rational social world - and it is through that substance that they achieve their real freedom” (RAWLS, John. Lectures on the history o f moral phi losophy. Cambridge: Harvard University Press, 2003. p. 333). Em sentido contrário à conclusão de Henrique Cláudio de Lima Vaz: “Neles a ideia de Summum Bonum como inacessível ideal da Razão prática segundo Kant e Fichte é substituída pela ideia do Bem concreto, definido pela Liberdade que se quer a si mesma e que o indivíduo deve realizar como seu fim. Desse modo, a substância ética, o indivíduo se submete livremente ao sistema de seus deveres [...] dando a sua ação, ao cumpri-los, a qualidade de virtude (Tligend) e participando, assim, do universo ético dos costumes [...) Tal é o indivíduo ético que será propriamente o sujeito concreto dos momentos da Eticidade” (LIM A VAZ, Henrique Cláudio de. Ética e Direito. São Paulo: Edições Loyola, 2002. p. 124-125). 11 VILLEY, op. cit., p. 169. 12 Vide WIEACKER, op. cit., p. 472-473. 13 Nesse aspecto, Fábio Konder Comparato explica: “Na sociedade burguesa, portanto, a relação entre o Estado e a sociedade civil é o exato oposto daquilo que foi sustentado por Hegel. O Estado O direito privado com o justiça distributiva 7 7 através da revolução - única forma histórica de classes prejudicadas saírem da situação de exploração a classe historicamente prejudicada do proletariado deverá se valer do direito como instrumento contra a reação da burguesia e, consequentemente, para imposição da ditadura do proletariado. Como, para Marx, a classe operária representa o melhor da humanidade, o marxismo entende que essa ditadura do proletariado irá buscar a construção de um futuro de fraternidade e igualdade material plena, em que todos os bens são partilhados entre todos de acordo com suas necessidades, não se fazendo mais necessário, nessa utopia comunista, o direito.14 Como terceiro mestre do coletivismo, surge Auguste Comte, que, de tão coletivista, não admitia sequer a possibilidade de se falar em direitos subjetivos. O indivíduo tem somente deveres, deveres esses para com a Humanidade.15 O “Grande-ser” é a superação do eu, da subjetividade, pelo todo social, a cole tividade. O culto ao “Grande-ser” é combinado com a primazia da sociologia sobre as demais ciências. A primazia do social, por sua vez, vai influenciar as análises sociológicas dos mestres do funcionalismo social: Emilé Durkheim,16 León Duguit e Maurice Hariou.17 Na visãodo socialismo - apesar da multi plicidade de doutrinas consideradas socialistas -, há um elemento comum, a primazia do interesse do grupo sobre o interesse privado, mais especificamente, a primazia do interesse da sociedade sobre o interesse individual. As análises socialistas são acompanhadas da visão de desenvolvimento e progresso da aparenta dirigir ‘de cima’ a sociedade civil, mas ele, na verdade, lhe é subordinado. O Estado os tenta defender o bem comum do povo, mas na verdade, ele protege, por meio da ficção jurídica, o interesse próprio da classe burguesa, a qual já exerce um poder incontrastável na sociedade civil pela apropriação dos instrumentos de produção” (COMPARATO, Fábio Konder. Ética: direito moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia da Letras, 2006. p. 340). 14 Vide WIEACKER, op. cit., p. 521-522. ,s Interessante notar como a Humanidade como ente coletivo maior ganha destaque nas análises coletivistas. A primazia vai da humanidade, passa pelo Estado, pela classe e segue pela maioria, como poderá ser constatado neste capítulo. 16 Exemplares as palavras de Durkheim no prefácio de sua obra De la division du travail social sobre o caráter coletivista de seus solidarismo: “On verra, notamment, comment nous avons étu dié la solidarité sociale à travers le système des règles juridiques; comment, dans la recherche des causes, nous avons écarté tout ce qui se prête trop aux jugements personnels et aux appréciations subjectives, afin d’atteindre certains faits de structure sociale assez profonds pour pouvoir être objets d’ entendement, et, par conséquent, de science” (DURKHEIM, Émile. De la division du travail social Base textuelles Frantext. Paris: Institut Nationale da la Langue Française, [s.d.J. p. XXX/XXXI. 17 Vide análise de VILLEY, op. cit., p. 173. 7 8 Fundamentos do direito privado • Dresch sociedade rumo a uma sociedade mais igualitária e detentora de bem-estar. Ilustrativas, nesse sentido, são as palavras de Comte: De igual modo sob o enfoque prático, o aspecto do futuro social, determinado primeiramente de maneira geral, resultante de um primeiro estudo do passa do, tornar-se-á cada vez mais detalhado na medida em que o conhecimento da marcha anterior da espécie humana se desenvolver cada vez mais. A últi ma perfeição da ciência, que provavelmente nunca será atingida de maneira completa, consistiria, sob o aspecto teórico, em fazer conceber com exatidão, desde a origem, a filiação dos progressos de uma geração a outra, seja para o conjunto do corpo social, seja para cada ciência, para cada arte, para cada parte da organização política; e, sob o aspecto prático, em determinar rigoro samente, em todos os seus detalhes essenciais, o sistema que a marcha natural da civilização deve tornar dominante.18 Ao direito, nessa visão, cumpre a organização racional dessa sociedade, com o objetivo de atingir esse desenvolvimento e progresso coletivo, princi palmente diante de uma realidade de tradição liberal que representava uma situação distante desse ideal de desenvolvimento e progresso social. De forma a ilustrar a guinada coletivista, mesmo nos países de tradição anglo-saxã, surge talvez o mais influente dos coletivistas, Jeremy Bentham. O pensador britânico vai inaugurar uma forte tradição coletivista no pensamen to modemo. Bentham buscou demonstrar que a igualdade somente pode ser respeitada pela consideração igual dos interesses de todos, ou seja, somente atribuindo o mesmo peso aos interesses de todos é possível a todo ser humano o mesmo respeito. A forma pela qual se pode estabelecer essa mesma valora- ção de todos se dá pelo critério de análise das ações e medidas com base na utilidade (maior prazer ou felicidade) que gera para o maior número de indi víduos da comunidade. O critério de correção das ações e medidas humanas é o da utilidade (ou maior felicidade) para o maior número de pessoas. Nesse sentido, interessante destacar as esclarecedoras palavras do próprio autor sobre o critério utilidade: o princípio que estabelece a maior felicidade de todos aqueles cujo interesse está em jogo, como sendo a justa e adequada finalidade da ação humana, e até a única finalidade justa, adequada e universalmente desejável; da ação 18 COMTE, Auguste. Reorganizar a sociedade (Plan de travaux scientifiques nécessires pour ré organiser la société). TTad. Antônio Geraldo da Silva. São Paulo: Editora Escala, [s.d.]. p. 110. O direito privado com o justiça distributiva 79 humana, digo, em qualquer situação ou estado de vida, sobretudo na condi ção de um funcionário ou grupo de funcionários que exercem os poderes de governo. A palavra “ utilidade” não ressalta a ideia de prazer e dor com tanta clareza como o termo “ felicidade” (hapiness, felicity ) ; tampouco o termo nos leva a considerar o número dos interesses afetados; número este que constitui a circunstância que contribui na maior proporção para formar a norma em questão - a norma do reto e do errado, a única que pode capacitar-nos a julgar a retidão da conduta humana, em qualquer situação que seja. Esta falta de conexão suficientemente clara entre as ideias de felicidade e prazer, por uma parte, e a ideia de utilidade, por outra, tem constituído mais de uma vez, para certas pessoas - conforme pude constatar - , um obstáculo para a aceitação do princípio acima, aceitação que, de outra forma, possivelmente não teria encon trado resistência.19 O direito que surge das análises coletivistas, portanto, é um direito não centrado na forma garantidora da igual liberdade nos moldes da construção de um sistema jurídico liberal, codificado durante os séculos XVIII e XIX; surge um direito centrado nas funções que são atribuíveis nessa busca do progresso e bem-estar coletivos. Novamente, relevante a descrição do modelo do fun cionalismo jurídico segundo Castanheira Neves: Já a perspectiva do funcionalismo jurídico é outra. O seu referente não é o indivíduo, mas a sociedade como fenômeno específico, “ fenómeno social glo bal” na fórmula de GURVITCH, ou a pensar não simplesmente como uma as sociação atomística de indivíduos, mas com uma estrutura, componentes e uma dinâmica próprios [...] Trata-se de um sistema funcional ou pensado fun cionalmente que funcionaliza todos os elementos e suas dimensões. E nestas o próprio direito - também ele funcionalizado à estruturação, à regulação e à organização operatória global da sociedade, numa consequente perda de autonomia intencional e material, pois que se converte num instrumento, de particulares características, prescritivas e institucionais, ao serviço das exigên cias provindas das instâncias e das forças políticas ou simplesmente sociais, culturais, econômicas etc.20 Neste trabalho, essa visão funcionalista é apresentada em três vertentes contemporâneas principais, como já mencionado desde a introdução: o funcio nalismo do Direito Social, o funcionalismo da Análise Econômica do Direito e 19 BENTHAM, Jeremy. Uma introdução aos princípios da moral e da legislação, v. XXXIV Coleção Os Pensadores. São Paulo: Ed. Abril, 1974. p. 9. 20 CASTANHEIRA NEVES, op. cit., p. 16-17. 8 0 Fundamentos do direito privado • Dresch o Liberalismo-igualitarista. O direito privado deixa de ser pensado em termos apenas comutativos e passa a ser compreendido com base na justiça distribu tiva, pois passa a ter que atender a fins que estão além da simples manutenção da igual liberdade. A justiça distributiva acaba por estabelecer uma análise funcional, pois acarreta a determinação de um arranjo de distribuição de bens, de forma a atender aos objetivos coletivos idealizados por cada análise funcionalista. Interessante exemplo, nessesentido, foi o ocorrido com o julgamento do Recurso Extraordinário nQ 407.688-8, relatado pelo Ministro Cezar Peluso. Nessa decisão, a maioria dos ministros participantes do julgamento entendeu constitucional, ante o direito fundamental à moradia previsto no art. 6° da Constituição Federal, a regra que permite a penhora do imóvel residencial do fiador nos termos do art. 3Q, inciso VII, da Lei Federal nQ 8.009/90 (conforme alterações estabelecidas pela Lei Federal nQ 8.245/91). O mais ilustrativo da decisão, no que concerne ao exemplo funcionalis ta, é o argumento utilizado pelo Ministro relator Cesar Peluso, pois trata a possibilidade de penhora do bem de família do fiador como uma questão de política pública sobre oferta de moradias por intermédio de contratos de lo cação. Assim, o instrumento da penhora do bem de família é analisado na sua relação com o objetivo de promoção do acesso à moradia pela coletividade. A racionalidade aplicada pelo Ministro Cezar Peluso desenvolve-se exatamente nos moldes funcionalistas, com base na justiça distributiva, pois garante a impenhorabilidade a uns - locatários ou devedores em geral - e não garante a outros - fiadores -, pois, dessa forma de arranjo distributivo, supostamente, o fim de garantia de acesso ao bem “moradia” para a maioria da população estaria sendo promovido.21 Antes de adentrar na análise das principais correntes funcionalistas, cum pre avaliar sucintamente a relação entre a racionalidade funcional e a justiça distributiva.22 O justo meio na tradição aristotélica, no caso das distribuições, é definido pela avaliação sobre méritos, capacidades e necessidades, que irá refletir diretamente no arranjo de repartição. A avaliação dos méritos está, ainda, diretamente vinculada aos bens (ou encargos) e para que servem, ou 21 Vide análise completa da decisão em ZIMMERMANN, Denise; DRESCH, Rafael de Freitas Vàlle. A dignidade da pessoa humana do fiador e a penhora do seu bem de família. Direitos fu n damentais e justiça, ano 3, nfl 7, p. 96-125, abr./jun. 2009. 22 A análise reformula, amplia e altera estudo anterior apresentado em DRESCH, op. cit., p. 42. O direito privado com o justiça distributiva 81 seja, vinculada a qual objetivo é realizada a distribuição, segundo conceitos compartilhados pelo grupo no qual ela se realiza.23 Qualquer distribuição depende de uma dupla avaliação, portanto, uma avaliação dos méritos (desde a análise aristotélica), das capacidades ou ne cessidades (na análise contemporânea) dos sujeitos passivos da distribuição (capacidade contributiva, por exemplo) e uma avaliação da utilidade dos bens ou encargos a serem distribuídos em relação aos fins da coletividade. Se os fins estiverem definidos em termos de valorização do mérito, a distribuição será uma, se os fins estiverem definidos em termos de desenvolvimento econômico, pode ser outra, e assim, também, de forma diversa será a distribuição se o fim for a proteção dos participantes mais frágeis. A informação, tanto sobre as características dos sujeitos passivos da dis tribuição quanto sobre os bens e encargos em relação aos fins objetivados, é de essencial importância para que se defina o justo arranjo distributivo, pois, só através do conhecimento das qualidades/características dos sujeitos e da utilidade dos encargos será possível estabelecer a correspondência entre esses dois fatores (qualidade e utilidade) e assim definir o justo meio e a configuração da igualdade na repartição/distribuição. A justiça distributiva, pelo exposto, está delimitada numa mediana a ser definida entre quatro termos de uma relação, sendo que dois termos são os sujeitos e os outros dois, a máxima e a mínima quantidade de um bem ou encargo a ser distribuído com base na finalidade coletiva a ser promovida.24 Assim, a distribuição será justa quando atentar para a mesma igualdade entre as porções dos encargos (como penhora de bens) e a qualidade dos sujeitos, segundo a finalidade que se busca promover.25 O justo, no sentido distributivo, por conseguinte, está dado pela igualdade na proporção entre os méritos, as capacidades ou necessidades dos sujeitos da relação e a proporção entre os bens a serem distribuídos pelo sujeito ativo da 23 WALZER, Michel. Esferas da justiça: uma defesa do pluralismo e da igualdade. TYad. Jussara Simões, rev. e trad. Cícero Romão Dias de Araújo. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 6. 24 A solução de direito se inscreve na forma de uma equação que manifesta a igualdade, não dos bens distribuídos, mas de duas relações estabelecidas entre pessoas e funções (VILLEY, op. cit., p. 77). 25 “Assim, o justo também envolve quatro termos, no mínimo, e a relação ou proporção entre o primeiro par de termos é idêntica àquela entre o segundo par, pois as duas linhas que represen tam os indivíduos e porções são divididas similarmente” (ARISTÓTELES, op. cit., p. 142). 82 Fundamentos do direito privado • Dresch distribuição - no caso modemo, o Estado, tendo-se em vista o objetivo final da distribuição (eficiência econômica, equilíbrio de poder nas relações, entre outros). O sujeito passivo que tem maior mérito, capacidade ou necessidade - dependendo do critério vinculado ao fim almejado - deve receber a maior parte dos encargos ou bens numa distribuição, para que se atenda ao critério de igualdade. Note-se que igualdade, nesse caso, é vislumbrada como a igual consideração dos interesses de todos, o que legitima distribuições com base no bem da maioria. Como bem classifica William Lucy,26 os argumentos em favor da justiça distributiva como racionalidade primeira do direito privado, basicamente, podem ser classificados como: a) argumentos indiretos: argumento indireto simples, argumento indi reto externo e argumento indireto interno. O argumento simples en tende que, como o direito privado é um sistema de direitos subjeti vos e deveres, então, somente pode ser considerado um sistema de distribuição desses direitos e deveres. O argumento externo analisa o direito privado na sua prática e chega à conclusão de que o direito privado apresenta efeitos distributivos para o próprio direito ou para além dele. Os efeitos distributivos gerados, portanto, determinam que o direito privado deva ser entendido nos termos de uma racionalidade distributiva. O argumento interno, por outro lado, compreende que o direito privado manifesta uma preocupação com questões relativas à equidade, igualdade e má distribuição, o que determina que o direito privado deva envolver uma questão de justiça distributiva; b) argumentos diretos: são aqueles que invocam a justiça distributiva para explicar e justificar tanto a estrutura quanto o conteúdo do di reito privado e seus institutos. Segundo Lucy, são poucos os juris tas que defendem essa visão, sendo possível destacar Ackerman27 e Dworkin28 no sentido de justificar toda a compreensão em termos de uma racionalidade distributiva. 26 LUCY, op. cit., p. 328-329. 27 ACKERMAN, B. Social justice in the liberal State. New Haven: Yale University Press, 1980. 28 “Mesmo que a análise acadêmica da igualdade de recursos deva ser sensível, como víamos sobre as informações sobre a justiça distributiva de riquezas existentes entre um protagonista e alguém que ele sabe que suas atividades vão prejudicar ou pôr em risco, a aplicação prática seria muito menos sensível, caso a caso, a informações desse tipo, e então seria plausível incluir as diferentes doutrinas sobre a razoabilidade, a negligência culposa e outros elementos do direito O direito privado com o justiça distributiva 8 3 Por conseguinte, por qualquer dos argumentos mencionados, simples, indiretos e diretos, exemplificativamente, os fiadores, querecebem um maior encargo no cumprimento das obrigações originadas pelos contratos de locação, deveriam ter uma diferença em relação aos locatários - ou os devedores de maneira geral - que justificasse o maior encargo configurado pela penhorabi- lidade do seu bem de família. A diferença reside no fato de que, segundo uma pressuposição não devidamente comprovada, a penhora dos bens dos fiadores estabeleceria um maior incentivo à locação, pois, em geral, é ineficaz a pe nhora do bem de família do locatário, eis que este dificilmente é proprietário de um bem de família a garantir a relação contratual. Ademais, nos termos da análise fundonalista, essa diferença que impõe um maior encargo deveria ter por consequência um ganho no objetivo de garantir moradia a um maior número de indivíduos (uma maior utilidade geral). Nesse sentido, ilustrativa da análise funcional distributiva é a conclusão do voto do Ministro Cesar Peluso: Não admira, portanto, que, no registro e na modulação concreta do mesmo direito social, se preordene a norma subalterna a tutelar, mediante estímulo do acesso à habitação arrendada - para usar os termos da Constituição lusi tana - , o direito de moradia de uma classe ampla de pessoas (interessadas na locação), em dano de outra de menor espectro (a de fiadores proprietários de um só imóvel, enquanto bem de família, os quais não são obrigados a pres tar fiança). Castrar essa técnica legislativa, que não pré-exclui ações estatais concorrentes de outra ordem, romperia o equilíbrio do mercado, despertando exigências sistemáticas de garantias mais custosas para as locações residen ciais, com consequente desfalque do campo de abrangência do próprio direito constitucional à moradia.29 Como fica claro pelos termos do voto, o bem dos fiadores deve ceder para o bem de uma classe maior dos locatários, em decorrência de suposições econômi cas não comprovadas de que as demais garantias locatícias seriam mais custosas. referentes aos danos que já apresentamos aqui. Um legislador que aplicasse o modelo da igual dade de recursos da responsabilidade pessoal teria boas razões, por exemplo, para não incentivar as pessoas a indagarem se aqueles aos quais podem vir a causar danos têm maior ou menos riqueza do que a igualdade de recursos justificaria que tivessem. Ele pensaria que, em termos gerais, a justiça estaria mais protegida se a redistribuição ficasse a cargo de esquemas legislativos menos caprichosos em seu impacto” (DWORKI, Ronald. O império do direito. TYad. Jefferson Luiz Carmargo. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 370). 29 STF, Recurso Extraordinário nQ 407.668-SR p. 7. 8 4 Fundamentos do direito privado • Dresch A igualdade nas distribuições justas de encargos, por conseguinte, significa a mesma quantidade entre o que cada um é capaz de suportar e o que cada um recebe de encargo, segundo dois princípios: igualdade de consideração e bem da maioria. A relação entre maior capacidade e maior encargo se jus tificaria, em termos funcionais de justiça distributiva, na busca de objetivos públicos, como arrecadação de impostos, por exemplo, que, para tanto, pode determinar a fixação de encargos tributários com base em critérios como a capacidade contributiva. Em comum, ao apresentar análises centradas na função e não na forma, as teorias funcionalistas estabelecem uma migração de racionalidade no direito privado de uma estrutura racional comutativa para uma estrutura racional distributiva. A nova forma das relações ficará mais evidenciada pela análise que segue das principais correntes funcionalistas que dominam o debate ju rídico na atualidade. 2.2 A análise sociológica do Direito Social A compreensão jusprivatista vinculada à busca de finalidades sociais al mejadas, como visto supra, influenciada por análises filosóficas, sociológicas e econômicas antes explicitadas, surge com força na doutrina civilista em mea dos do século XIX, através de três correntes principais que formam a base de um movimento multifacetado, que, neste trabalho, na linha de juristas como Franz Wieacker e Ronaldo Porto Macedo Jr., é denominado de movimento do Direito Social. A primeira dessas três vertentes pode ser, inicialmente, relacionada aos juristas alemães Rudolph von Jhering e Otto Von Gierke. Como precursor da análise funcional em meados do século XIX, na Alemanha, Jhering desenvolve sua trajetória culminando sua análise com a compreensão de que o direito nada mais é do que um meio para o poder e os interesses conflitantes na sociedade. A finalidade e a função social de Jhering estão vinculadas ao poder e aos inte resses, que, por sua vez, são determinados por uma vontade em busca de uma finalidade.30 Nesse contexto, o direito vai servir como meio para conformar esses diversos interesses conflitantes, estabelecendo para tanto uma finalidade 30 ‘Term ino aqui a minha exposição da lei de finalidade, e concluo: Querer, e querer com um fim dado, são termos equivalentes; não existem acções que não tendam a um fim. Se no entanto a língua fala de actos sem fim, ella exprime, não a ausência de um fim em geral, mas a falta de um O direito privado com o justiça distributiva 85 vinculada aos interesses que são considerados preponderantes em cada nor ma. O conteúdo do direito, por conseguinte, é a utilidade refletida em cada interesse. Contudo, a análise centrada nos interesses foi sendo substituída, ao longo do trabalho de Jhering, pela de finalidade prática. O fim, a finalidade, a função social é o princípio definidor do direito. A própria valorização da vida humana está condicionada ao seu valor perante a coletividade: Toda nossa cultura, toda a nossa história repousa na valorização da existência humana individual para os fins da coletividade. Não há vida humana que exis ta meramente para si. Toda ela existe, ao mesmo tempo, em função do mundo. Todo homem atua, na sua posição, ainda que muito limitada, pelos fins cul turais da humanidade. E fosse ele o mais diminuto trabalhador, ainda estaria participando dos fins dela.31 Nesse aspecto, resta latente a relação da análise de Jhering com as teorias coletivistas antes mencionadas de Comte, Bentham e, principalmente, Hegel.32 A explicação do direito se estabelece com base nos fins, pois o agir humano é compreensível somente a partir de suas finalidades, sendo que estas são de terminadas pelas vontades humanas em conflitos de interesses ou, ainda, no conflito de poder na sociedade. Como em Marx, a luta pelo poder é chave na análise de Jhering; a luta determinada por interesses, entretanto, não é uma luta de classes, mas de pessoas, grupos, com uma primazia pela utilidade e pelos interesses coletivos, mediada pelos institutos jurídicos. Na mesma linha de Jhering, Otto Von Gierke apresenta sua concepção “so cial” do direito privado,33 pela qual se opera a descoberta da racionalidade do direito privado a partir de sua função social. Na visão de Gierke, o novo estágio histórico do direito determina uma limitação do egoísmo do indivíduo e do absolutismo do Estado. A superação do individualismo exacerbado e do poder fim razoável” (JHERING, Rudolf von. A evolução do direito. Trad. Abel D’Azevedo. Lisboa: Antiga Casa Bertrand - JOSÉ BASTOS & C.A. Editores, 1963. p. 25-26). 31 Id. A finalidade do direito, v. I. TYad. José Antônio Faria Correa. Rio de Janeiro: Ed. Rio, 1977. p. 42. 32 Nesse sentido, vide a análise de WIEACKER, op. cit., p. 516. 33 A relação entre Jhering e Gierke é referida por este: “ Esto [a ideia do direito orientado a um fim ] constituye el mérito inolvidable de la gran obra de Ihering” (GIERKE, Otto Von. La función social dei derecho privado: la naturaleza de lasasociaciones humanas. TVaducción José M. Navarro de Palencia. Madrid: Soriedad Editorial Espanola, 1907. p. 13). 8 6 Fundamentos do direito privado • Dresch absoluto do Estado é possível através de uma visão orgânica compreendida a partir das associações humanas. Nessas associações, os indivíduos têm sua personalidade suplantada pela primazia da personalidade das associações. A sociedade, nessa senda, é entendida através de uma hierarquia das associações, do indivíduo, para a família, as corporações, os entes administrativos, culmi nando com a maior das associações, o Estado, na qual se supera a separação do público e privado.34 Nesse aspecto, importante é a referência desses precursores do funcio nalismo social por parte da doutrina brasileira. Assim, Cláudia Lima Marques refere-se aos dois juristas supracitados como principais teóricos da análise do Direito Social: No Brasil de hoje, a construção de um Direito Privado com função social, pro posta por Jhering e Gierke, e o futuro da Justiça para os mais fracos nos tri bunais brasileiros está a depender do grau de domínio, que os aplicadores da lei conseguirem alcançar neste momento, sobre o sistema de coexistência do Direito do Consumidor, presente no CDC, e do Direito Civil e Direito Comercial das Obrigações, presente no CC/2002. A tarefa de especialização e de excelên cia no uso das normas de direito do consumidor renova-se.35 Importante destacar que os dois mestres do Direito Social na Alemanha tiveram seus correspondentes franceses, que constituem a segunda corrente de 34 “We are now at the beginning o f the fifth period, from which w e expect the reconciliation o f the age-old opposites in the ideas o f general state citizenship and the representative state. Despite the short duration [II ] o f this period up to now, w e can say that the real creative prin ciple is, and w ill be, the free association in its modem form. In this epoch German fellowship, reawaken after a death-like sleep to more vigorous life, has reached fulfillment. No longer bound by the chains o f the estates, not limited by exclusiveness, infinitely flexible and divisible in its form, equally suitable for the noblest and humblest ends, for the most comprehensive and most isolated purposes, enriched by many o f the merits o f the Roman concepts o f Right, but long since ridiculing the narrow Roman mould itself (into which theory and practice still attempt to force it) - this is the ancient German idea o f fellowship newborn, bringing forth an incalculable wealth o f new forms o f community and giving new substance to the old. It is taking part in the transfor mation o f the German community [Gemeinde] and state, which have only achieved progress in the past and w ill only advance in the future by means o f a return to the root o f fellowship. This alone is creator o f a free form o f association, becoming involved in and transforming all areas o f public and private life; and, although it has already achieved great things, it w ill achieve even more in the near and distant future” (Id. Community in historical perspective. TYad. Mary Fischer. Cambridge: Cambridge University Press, [s.d.]. p. 12). 35 MARQUES, Cláudia Lima. Superação das antinomias pelo diálogo das fontes: o modelo brasi leiro de coexistência entre o Código de Defesa do Consumidor e o Código Civil de 2002. Revista da Esmese, nQ 7, p. 15-54, 2004. O direito privado com o justiça distributiva 87 formação do Direito Social. Como referido inicialmente, a análise sociológica de Émile Durkheim, na França, encontrou eco destacado no meio jurídico, principalmente, nos estudos de Léon Duguit. Nesse sentido, a vinculação entre as duas análises do Direito Social é referida por Judith Martins-Costa: O início do século XX veio traçar uma nova trilha, agora em direção à funcio- nalização do direito subjetivo. São formuladas teorias negativas ao conceito de direito subjetivo, substituindo-o por outras figuras. Entre as mais relevantes estão as de Léon Duguit que, fundado na pretensão cientificista da imparciali dade, quis afastar todo o traço de subjetividade, substituindo a idéia de direito subjetivo pela da existência de posições vantajosas para certas pessoas porque garantidas pelo poder estatal, na medida em que desempenham funções d ig nas dessa garantia; e de Otto von Gierke, sustentando a existência de ‘limites imanentes’ aos direitos, decorrentes da impossibilidade da existência de direi tos sem deveres.36 Sob a influência do coletivismo de Comte e Durkheim, Duguit, Ewald, entre outros, desenvolvem a ideia de Droit Social como um sistema normativo voltado para uma igualdade material, limitando os mais fortes e protegendo os mais fracos. É possível, ainda, a compreensão do Direito Social como a análise funcional do direito focada no equilíbrio do poder nas relações privadas. Para tanto, o valor central deixa de ser a igual liberdade, que caracteriza as análises centrais na justiça comutativa em termos liberais, como analisado no primeiro capítulo, passando a ser a solidariedade, que exige o sacrifício individual em favor do bem coletivo. Duguit chega a tratar de uma concepção solidarista da liberdade, defendendo que a liberdade deve ser entendida precipuamente como um dever e não como um direito.37 36 MARTINS-COSTA, Judith. Reflexões sobre o princípio da função social dos contratos. Revista Direito GV, v. 1, nû 1, p. 41-66, maio 2005. 37 “En quoi consiste la conception solidariste de la liberté? Je la résume d’un mot en disant dans cette conception, la liberté n’est plus un droit, elle est un devoir. La doctrine individualiste partait de cette idée que l’homme naturel est un être individuel et isolé, et que c’est par un acte volontaire que les hommes forment des sociétés. La doctrine solidariste enseigne au contraire que la société est le fait primaire et irréductible, que l’homme est par nature un être social, qu’il ne peut vivre qu’en société et qu’il y a toujours vécu. Elle affirme, en conséquence, qu’on ne peut pas parler de l’homme naturel et isolé ayant des droits en sa seule-qualité d ’homme, des droits qu’il apporte dans la société, qu’on ne peut considérer lTiommé que comme être social, que comme membre de la société. La doctrine solidariste ajoute que, du moment que l’homme fait partie de la société et de ce fait qu’il est un être social, naissent pour lui une série d ’obligations, notamment celle dé développer son activité physique, intellectuelle, morale, et de ne rien faire 8 8 Fundamentos do direito privado • Dresch Em uma abordagem do Direito Social diversa, é necessário mencionar ainda a corrente marxista, ou comunista. Com efeito, Marx, como um crítico do direito privado, não vislumbra qualquer possibilidade de sua fundamentação.38 Nada mais coerente com sua teoria, pois a teoria comunista pregava uma pu- blicização plena das relações privadas. Porém, alguns privatistas influenciados por Marx e pelo socialismo em geral puderam estabelecer uma teoria socialista do direito privado,39 dentre estes, destaca-se Menger (1841-1906). O jurista socialista pôde demonstrar como uma análise absolutamente formal e abstrata como a da pandectística tinha por consequência o favorecimento das classes pioneiras e vencedoras da Revolução Industrial, acarretando a perda de liber dade econômica das classes desfavorecidas. A análise de Menger antecipa um dos temas centrais do debate jusprivatista do século XX: se a igual liberdade almejada pelo direito privado não foi superada ou destruída por se constituir na arma dos mais fortes contra os mais frágeis numa sociedade.40 Mais um exemplo de uma construção teórica funcional que busca conci liar o direito privado com os anseios detransformação social é a de François Ewald. O jurista francês aborda, inicialmente, as características e as falhas de um sistema jurídico estritamente formalista e liberal, para então propor uma política e um direito da seguridade, que tem por objetivo a conciliação qui entrave là développement dé l ’activité dès autres que par conséquent il n’est pas vrai de dire que l’homme a un droit a l’exercice dé son activité, il faut dire qu’il a le devoir de l’exercer, qu’il à le devoir de ne pas entraver l’activité des autres, le devoir de là favoriser et de l’aider dans la mesure où il le peut. Ainsi, dans la conception solidariste, l’idée de liberté-droit disparait pour faire place à l’idée de liberté-devoir, de liberté fonction sociale. Et aujourd’hui, incontestablement, cette conception nous apparaitt dominante dans les idées, dans les mœurs, dans les lois positives. Elle était déjà, il y a plus d’un demi-siècle, exprimée dans une belle page d’Auguste Gomte, incontestablement un des plus puissants esprits du XIX siècle” (DUGUIT, Léon. Souveraineté et liberté: leçons faites. New York: Université Colombia, 1920-1921; Paris: F. Alcan, 1922. p. 141-142. 38 “O direito - quer as leis, quer as proposições doutrinais - , tal como a cultura ou a arte, reflec tiria esse nível fundamental ( “ infra-estructura” ) da organização social, defendendo os interesses e exprimindo os pontos de vista das classes dominantes. Ou seja, o direito não seria algo de natural ou ideal, mas antes uma ordem socialmente comprometida, um instrumento de classe” (HESPANHA, op. cit., p. 220). 39 Nesse ponto, cabe citar também a obra do alemão Karl Renner no início do século XX (RENNER, Karl. The institutions ofprivate Law and their social function. London: Routledge; Bostos: Keagan Paul, 1949), que apresenta uma análise do direito privado com base na teoria marxista e conclui pela necessidade de compreensão dos institutos de direito privado com base na função social. 40 Para a análise mais profunda do tema relativo à influência do marxismo no direito privado, vide WIEACKER, op. cit., p. 521-524. O direito privado com o justiça distributiva 89 do desenvolvimento econômico e social. A busca de progresso econômico e social se constitui como a finalidade coletiva primeira que vincula o direito. O direito é analisado como o grande instrumento para a busca dessa finalidade, devendo, para tanto, garantir a distribuição adequada da propriedade privada, da seguridade pública e da seguridade dos trabalhadores de maneira articulada. Nas palavras de Ewald, o direito da seguridade assim se constitui.41 Com base nessa crítica socialista, é possível ressaltar a importância do Direito Social durante o século XX. O Direito Social, na realidade, como uma forma de resposta aos desafios da industrialização, urbanização, massificação do consumo, entre outros fenômenos sociais que potencializam as desigual dades, busca atacar justamente o problema central de formalismo, que não consegue lidar com essas desigualdades de maneira satisfatória. Assim, numa sociedade desigual em termos de bem-estar e poder, a aplicação estritamente formal do direito privado focada na igual liberdade simples acaba por pre servar e, em alguns casos, realçar tais desigualdades. É nesse sentido que a solidariedade surge como finalidade precípua do Direito Social, pois, através da solidariedade, os objetivos de redistribuição de riquezas, equilíbrio de poder e proteção ao mais fraco poderão ser perseguidos por intermédio dos instru mentos fornecidos pelo direito privado. Nesse sentido, a conclusão de Eugênio Facchini Neto, referindo, também, a posição de José Reinaldo de Lima Lopes: O valor da solidariedade, como visto, está na base da construção do Estado Social, que intervém na economia e na sociedade. Segundo José Reinaldo de Lima Lopes, o objetivo do estado Social residiria em estimular formas obriga tórias de cooperação, de solidariedade social, recorrendo para tanto às normas jurídicas. O Direito que busca promover o Estado Social é necessariamente um Direito Social, que procura criar mecanismos de distribuição dos benefícios sociais da vida comum, gerando justiça social.42 41 “Il s’agit de faire de la sécurité un mécanisme d’encouragement et de provocation du déve loppement industriel. La sécurité et de l’ordre de la tactique: faire de ce qui serait une gêne, un obstacle, une occasion, un pont d ’appui pour un nouveau progrès; faire de ce qui serait une perte d'un profit. Et de la combinaison: il s’agit toujours de combiner, d ’articuler, de renforce mutual- lemente des intérêts - intérêt privé et intérêt public, intérêt patronal et intérêt des ouvriers. Il s’agit de les rendre solidaires, indissociables, de faire que l’intérêt des uns trouve sur appui sur l’intérêt des autres” (EWALD, François. Histoire de l ’État providence: les origines de la solidarité. Paris: Grasset, 1996. p. 80). 42 FACCHINI NETO, Eugênio. A função social do direito privado. Revista da AJURIS, ano XXXIV, n° 105, p. 153-188, mar. 2007. p. 159. 9 0 Fundamentos do direito privado • Dresch Ronaldo Porto Macedo Jr., na mesma linha, apresenta uma análise inte ressante sobre o Direito Social, como o direito das desigualdades, um direito de privilégios positivos, no sentido de dar efetividade à solidariedade e reduzir as desigualdades e os desequilíbrios na sociedade. Para tanto, o indivíduo não mais é considerado apenas como uma pessoa humana de forma abstrata, mas passa a estar sujeito a diferentes regimes jurídicos em decorrência do perten- cimento a uma classe social ou a um grupo, que receberá direitos e deveres decorrentes dessa classificação. Nesse sentido, o jurista brasileiro destaca as características centrais do Direito Social que predomina, como enfatizou Bobbio,43 nos últimos 100 anos: a) restrição da liberdade, de forma a garantir uma maior igualdade de oportunidades no mercado, sendo consideradas ilegais quaisquer discriminações negativas em decorrência de gênero, raça, orientação sexual, entre outras; b) imposição de discriminações positivas com o favorecimento de cer tas classes e grupos considerados em situação de vulnerabilidade so cial, como o consumidor, o idoso, o pobre, o trabalhador, o deficiente físico; c) limitação da liberdade de decidir sobre a participação em relações contratuais ou relações privadas em geral em decorrência da cres cente imposição de obrigações para a satisfação de necessidades de grupos e classes; d) limitação da liberdade de fixação dos termos, do conteúdo dos con tratos através da imposição, pela legislação ou pela regulação, de certos conteúdos obrigatórios e outros tidos como ilícitos.44 Para a efetivação dessas características, o Direito Social se valeria de duas técnicas complementares: normas que considerem a condição da pessoa para a sua proteção e normas que considerem a racionalidade das necessidades de cada parte na relação.45 43 BOBBIO, op. cit., p. 53-54. 44 MACEDO JR., Ronaldo Porto. Contratos relacionais e a defesa do consumidor. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. p. 52-53. 45 Id., ibid, p. 53-54. O direito privado com o justiça distributiva 91 Contudo, cabe, ainda, retomar o problema central da fundonalização so- dal; como Duguit enfatiza, há uma dificuldade essencial de compatibilização da defesa dos direitos humanos e dos direitos fundamentais com uma análise simplesmente funcional, tenha essa análise o caráter sodal ou econômico como preponderante. Duguit, na mesma linha de manifestações de Bentham, Marx e Comte, destacou a dificuldade central de compatibilização dos direitos humanos e de visão funcional.46 A impossibilidade de compatibilizaçãoaqui referida decorre, especifi camente, da primazia do bem coletivo sobre o bem individual. As análises coerentes do puro funcionalismo não podem compreender direitos humanos e fundamentais que, de algum modo, limitem a busca dos objetivos coletivos sociais e econômicos. Como lidar com o direito fundamental que contraria o bem da maioria? Talvez esse seja um dos dilemas centrais do direito privado atual. Em termos puramente funcionais, nos moldes coletivistas dos pais do Direito Social tradicional, não há como o direito de um indivíduo sobrepujar a busca do bem coletivo. Jhering buscou, de alguma forma, construir uma teoria que conformasse os direitos subjetivos com as finalidades sociais, mas, como ressaltado supra, o direito subjetivo acaba por recair numa situação de subordinação às finalidades coletivas. Isso justamente porque os interesses individuais que fundamentam os direitos subjetivos, segundo a concepção de Jhering, devem se sujeitar, ao fim e ao cabo, aos interesses e às finalidades sociais, como conclui Wieacker sobre o pensamento de Jhering: Posteriormente, haveria de fazer pender o prato da balança para os interesses colectivos e de definir o direito como o que é útil para a sociedade ou para os grupos sociais vitoriosos ou, de forma equívoca e demagógica, como a “utilida de comum” ou “o que é útil ao povo” ; e, por fim, como perversão do correcto princípio de que a “justiça é o que é útil ao povo” , no que “o direito é o que é útil ao povo” , em que direito e povo acabam por ser reduzidos a nada.47 46 “Pour lutter contre ces autorités théocratiques, la métaphysique des cinq derniers siècles intro duisit de prétendus droits humains qui ne comportaient qu’un office négatif. Quand on a tenté de leur donner une destination vraiment organique, ils ont bientôt manifesté leur nature antisociale en tendant toujours à consacrer l’individualité. Dans l’état positif qui n’admet pas de titre céleste, l’idée de droit disparaît irrévocablement chacun a dès devoirs et envers tous mais personne n’a aucun droit proprement dit. En d’autres termes, nul ne possède plus d ’autres droits que celui dé toujours faire son devoir” (DUGUIT, op. cit., p. 143). 47 W1EACKER, op. cit., p. 517 9 2 Fundamentos do direito privado • Dresch Um exemplo prático dessa dificuldade é apresentado na mencionada deci são do Supremo Tribunal Federal sobre a questão da inconstitudonalidade do dispositivo da Lei nQ 8.009/90, mais especificamente o art. 3Q, VII, que permite a penhora do bem de família do fiador, mesmo diante da proteção ao direito fundamental à moradia garantido no art. 6Q da Constituição Federal. Qual foi o argumento preponderante? O argumento de que a penhora do bem de família do fiador, apesar de afetar o seu bem fundamental à “moradia”, gera incentivos aos proprietários no sentido de ofertar imóveis para locação, o que, pelo consequente aumento da oferta, acarreta a redução de preço e, dessa feita, facilita o acesso à moradia para a maioria da população que depende de contratos de locação com preços reduzidos para acessar a moradia, atendendo assim a função social do contrato de locação, que é de servir de instrumento para a maioria, mesmo em detrimento do mínimo da minoria. Veja-se o voto condutor da decisão sobre o direito como composição dos interesses em função do interesse da maioria em detrimento de um direito fundamental: O que está em jo go aí são - como sempre - dois interesses relevantes, mas, neste caso, parece-me que a norma, abrindo exceção à inexpropriabilidade do bem de família, é uma das modalidades de conformação do direito de moradia por via normativa, porque permite que uma grande classe de pessoas tenha acesso à locação.48 O exemplo é lapidar dessa dificuldade apresentada pelo Direito Social e será a mesma do da Escola de Direito e Economia, pois não há como levar a sério os direitos fundamentais em termos estritamente funcionais. Como efetuar essa compatibilização dos direitos fundamentais que dão primazia ao indivíduo com os objetivos coletivos? Como preservar o direito à moradia do fiador e a oferta de moradias à classe dos locatários? Assim como a resposta não pôde ser auferida em termos estritamente formalistas, com base na justiça corretiva, como bem ressaltam as críticas apresentadas pelas diversas correntes funcionalistas, também não pode ser encontrada com fundamento em uma análise funcionalista social ou econômica pura (como será demonstrado no ponto seguinte) de caráter estritamente distributivo. A resposta depende de uma compreensão da teoria da justiça para além da racionalidade estritamente comutativa e distributiva, como será explicitado no capítulo final deste estudo, o Capítulo 3. 48 STF, Recurso Extraordinário n° 407.668-SR p. 15. O direito privado com o justiça distributiva 9 3 Contudo, o Direito Social, já no século XX, buscou engendrar uma im portante solução jurídica para esse dilema entre a fundonalização de traços coletivistas e a preservação dos bens individuais. Tal solução foi tentada pelo movimento de constitutionalização do direito privado. A constitudonalização permite inserir valores de preservação do indivíduo como fundantes e mesmo prévios ao direito privado através dos direitos fundamentais prindpalmente. O problema ocorre que, ao inserir valores não fundonalizados socialmente num sistema fundonal polarizado por finalidades coletivistas, o Direito cria dilemas de racionalidade como os apresentados nas dedsões do Supremo Tri bunal Federal sobre a hierarquia dos créditos trabalhistas e sobre a penhora do bem de família do fiador. A fundonalização do direito privado pela via constitudonal define uma incorporação dos institutos de direito privado pela Constituição, retirando-os de seu lugar central na tradição privatista - o código - , de maneira hierarquizada, indusive, pela primazia da norma constitucional sobre a norma codificada.49 Para além da incorporação normativa antes mencionada, o fator prindpal da constitudonalização, entretanto, foi o reconhedmento da força normativa e da interpretação em conformidade com a Constituição, de forma a estabelecer uma verdadeira reordenação do direito privado como um todo.50 Dentro da análise mais ampla do Direito Sotial, a visão do direito dvil-constitudonal elege como objetivos derradeiros a solidariedade e a dignidade da pessoa humana, consubstandadas pelos direitos fundamentais.51 A constitudonalização do direito privado pôde reunir juridicamente va lores decorrentes dos dois grandes momentos da tradição moderna, valores gerados nas transformações oriundas dos movimentos liberais, prindpalmente, as liberdades e os direitos humanos, bem como os valores defendidos pelos movimentos sodalistas, como solidariedade, seguridade, cooperação e garantia 49 FACCHINI NETO, Eugênio. Reflexões histórico-evolutivas sobre a constitucionalização do d i reito privado. In: SARLET, Ingo Wolfgang (O rg.). Constituição, direitos fundamentais e direito privado. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2003, p. 36. 50 NEGREIROS, Teresa. Teoria do contrato: novos paradigmas. Rio de Janeiro: Renovar, 2002. p. 51. 51 Nesse sentido, cabe citar, entre outros: MARTINS-COSTA, Judith. Introdução. In: MARTINS- COSTA, Judith. A reconstrução do direto privado: reflexos dos princípios, diretrizes e direitos fundamentais constitucionais no direito privado. São Paulo: Revista dos TYibunais, 2002; e NEGREIROS, op. cit., p. 61. 9 4 Fundamentos do direito privado • Dresch de direitos sociais. Sobre esse papel da Constituição, veja-se o que ensina José Reinaldo de Lima Lopes: Uma característica importante deste constitucionalismo foi incorporar comodireitos fundamentais, e sob a linguagem de direitos, as pretensões e expec tativas dos trabalhadores (do campo e da cidade) caídos nas guerras de so brevivência dos mercados. Os que caem em desgraça, ou que não alcançam participar do mercado, quando todas as outras formas de sustento de si e de sua família foram eliminadas (caridade religiosa, solidariedade familiar, etc.), devem ainda ser mantidos vivos por fundos públicos arrecadados e administra dos pelo Estado? Devem ser mantidos vivos por fundos privados obrigatoria mente constituídos por determinação legal? Creio que foram estas as perguntas que as constituições e sistemas políticos deram uma resposta afirmativa. As respostas afirmativas geraram então a ideia de que a pretensão a manter-se vivo não era apenas uma expectativa, um interesse protegido, mas um direito propriamente dito. No sentido tradicional, uma cota, uma parte devida a todos e cada um que se encontrasse na situação prevista; no sentido moderno, um poder, uma faculdade de exigir essa mesma cota.s2 O constitucionalismo há um século iniciou a construção de uma válvula de escape para o coletivismo do Direito Social primitivo, ao introduzir as pretensões relativas à liberdade e ao bem-estar como fundantes da ordem jurídica. Contudo, desde o período pós-Primeira Guerra Mundial, a inserção desses direitos, que inicialmente eram apenas garantidores das conquistas do primitivo Direito Social no campo do direito do trabalho, da seguridade, entre outras matérias, aos poucos, para além da proteção dos grupos vulneráveis, passou a incorporar o caráter da universalidade,53 estendendo-se a todos os cidadãos, vulneráveis ou não, construindo o já reconhecido estado do bem- -estar social (Welfare State) . 54 S2 LOPES, José Reinaldo de Lima. Em tom o da “reserva do possível” . In: SARLET, Ingo Wolfang; TIM M , Luciano Benetti (O rg.). Direitos fundamentais, orçamento e “reserva do possível”. 2. ed. rev. e ampl. Porto Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2010. p. 155-173. » LOPES, op. cit., p. 153. 54 Para uma análise detalhada das implicações recíprocas entre o Direito e o Welfare State, vide WILHELMSSOM, Thomas. The philosophy o f welfarism and its emergence in the modem English Law o f contracts. In: BROWNSWORD, Roger; HOWELLS, Gerain; WILHELMSSOM, Thomas (Ed.). Welfarism in contract law. Great Britain: Dartmouth Publishing Company, 1994. O direito privado com o justiça distributiva 9 5 Nas últimas décadas do século XX, o Welfare State55 dá lugar a um novo modelo de Estado, o modelo regulador, pois o Estado, premido pelo proble ma da hiperinflação das obrigações estatais e pela limitação de recursos para prover tamanha gama de direitos fundamentais indistintamente para todos, vulneráveis ou não, desiguais ou não, passa a se organizar de forma a reduzir suas obrigações sociais. Nesse sentido, reacende-se o dilema entre fins sociais coletivos e direitos fundamentais, principalmente sociais, sem que o consti tucionalismo ou o próprio direito privado tenham apresentado uma solução satisfatória para a compreensão dos casos difíceis envolvendo a conformação de funções sociais coletivas e direitos individuais fundamentais. Sobre o problema no seu aspecto político, cabe referir a análise de Henrique Cláudio de Lima Vaz: Por sua vez a irrupção do ‘social’ como campo de confronto dos interesses tanto individuais como classistas no campo político da origem à esfera da socieda de civil no sentido moderno da expressão, obedecendo a uma forma própria de racionalidade que deve ser incorporada na concepção global da sociedade política. O mais grave desafio que se defronta a democracia no mundo atual é representado, provavelmente, pela integração do ‘social’ no ‘político’. A evolu ção recente das sociedades de tipo ocidental tenta uma resposta a esse desafio ss Não se pode dizer que há apenas uma abordagem do direito privado no Welfare State, po dendo a compreensão das implicações de bem-estar se apresentar de diversas formas, como Donal Nolan esclarece ao revisar a obra Welfarism in contract law by Roger Brownsword; Geraint Howells; Thomas Wilhelmsson. The Modem Law Review, v. 59, nQ 2, Blackwell Publishing, mar. 1996, p. 325-329. Disponível em: < http://www.jstor.org/stable/1097426> . Acesso em: 18 mar. 2010: “ The firs t is the classical law o f contract, which confines its intervention in the market to the upholding o f agreements voluntarily entered into. Secondly, there is ‘M inim al Welfarism’, which corresponds most closely with the ideology o f the Welfare State. M inim al welfarism imposes m i nimum standards o f competence on contractors and seeks to prevent contractual outcomes from forcing market participants below a minimum standard o f material well-being. Brownsword sees glimmers o f this ideal-type in English contract cases where the courts have come to the aid o f the least well-off, o r those threatened with penury by a disadvantageous transaction, and gives as exam ples Cresswell v Potter (1978 ) and Lloyds Bank v Bundy (1974). The third contract ideal-type is ‘Maximal Welfarism' in which inequalities o f bargaining power are redressed, and contract terms resulting from such inequalities struck down. Maximal welfarism is reflected in the significance accorded by English courts to inequality o f bargaining power in decisions on the reasonableness o f exclusion clauses and in the nascent doctrine o f economic duress. The fina l contract paradigm is ‘Personal Welfarism’; in this vision, contract is transformed from a competitive self-regarding institution into a co-operative venture in which the parties look after each others’ interests as much as their own. Contract becomes, as Brownsword puts it, ‘an instrument o f social solidarity (p 36). Personal welfarism would involve duties o f disclosure and good fa ith negotiation not yet to be found in English contract law, and Brownsword is surely correct to conclude that (w ith the possible excep tion o f employment contracts) self-interest, rather than altruism, remains the order o f the day fo r those engaged in market transactions.” 96 Fundamentos do direito privado • Dresch sob a forma de Estado-Providência ou, mais amplamente, Welfare State. Mas essa resposta começa a mostrar-se insatisfatória na medida em que rejeita a um segundo plano a democracia política, fundada no exercício dos direitos e na efetiva partilha do poder entre os cidadãos, e promove a democracia social, fundada na satisfação das necessidades mas compatível, por outro lado, com o centralismo do poder e obedecendo a uma lógica de concentração das instân cias decisórias nas mãos das tecnoburocracias. A história das sociedades políticas no Ocidente mostra, assim, que a correlação entre democracia e dignidade humana permanece uma norma à espera das condições que permitam seu efetivo cumprimento na prática política e uma proposição teórica à espera de convincente demonstração.56 Diante desse dilema, cabe referir que as hipóteses concorrentes mais des tacadas na busca da solução desses impasses foram apresentadas pela Análise Econômica do Direito e pelo Liberalismo-igualitário, que serão analisados nos pontos subsequentes. 2.3 O modelo da Análise Econômica do Direito A corrente do pensamento jurídico denominada de Análise Econômica do Direito ou de Direito e Economia surge na segunda metade do século XX, ape sar de o estudo da relação entre direito e economia ter mais de dois séculos. Adam Smith, por exemplo, era professor de Jurisprudence (Teoria do Direito) na Escócia, Reino Unido. Os precursores mais destacados dessa metodologia de análise jurídica foram Ronald Coase e Guido Calabresi, com publicações seminaisdo início da década 1960.57 Mesmo estando inicialmente vinculada ao estudo do direito concorrencial, direito da empresa e direito obrigacional, com o passar do tempo, passou a analisar todos os ramos do direito. A característica diferencial de Direito e Economia58 reside na sua metodolo gia, que se fundamenta na metodologia da ciência econômica. A metodologia 56 U M A VAZ, op. cit., p. 359. 57 COASE, Ronald. The problem o f social cost. Journal o f Law and Economics, v. 3, 1960. CALABRESI, Guido. Some thoughts on risk distribution in the law o f torts. Yale Law Journal, n° 70, 1961, p. 490. ^ A corrente Direito e Economia não necessariamente diverge, por exemplo, sobre a possibilida de de favorecimento dos mais pobres. Diverge, entretanto, das demais teorias fiincionalizantes sobre como proceder a tal redistribuição, pois entende que os institutos jurídicos não constituem O direito privado com o justiça distributiva 9 7 econômica baseia-se em três premissas basilares: da escolha racional, do equilíbrio e da eficiência.S9 Tais premissas são aplicadas na busca da compreen são das escolhas racionais frente ao problema da escassez de bens (condição decorrente da realidade de limitação de recursos) e à necessidade ilimitada de recursos por parte dos seres humanos. A premissa da escolha racional determina uma visão pela qual cada agente econômico busca maximizar o seu bem-estar, sua utilidade individual, sendo que, para essa maximização ocorrer, o agente irá racionalmente optar por todas as ações que estabeleçam um ganho, um benefício, maior que a perda, ou o custo.60 Sob a premissa acima destacada, num mercado em que as condições são ideias em termos de comércio, os agentes, na busca de seus interesses - da máxima utilidade - , deverão gerar um equilíbrio em relação à demanda e à oferta, pois o mercado deverá determinar um preço em que a quantidade de produtos demandados será a mesma quantidade de produtos ofertados.61 o instrumento mais adequado. A arrecadação de impostos e a provisão de benefícios aos menos favorecidos seria um instrumento mais adequado, por ser mais eficiente. Kaplow e Shavell assim explicam: “There is, however, a basic problem with the view that legal rules should be modified to favor the poor: society can instead use the income tax system (here interpreted to include programs that transfer income to the poor) to redistribute income. The availability o f this simple but cen tral alternative instrument fo r redistributing income has been ignored by many analysts who have addressed the question whether legal rules should be selected on distributive grounds. Moreover, the income tax system possesses several clear advantages over legal rules as a means o f redistribution. Notably, the income tax system affects the entire population and, by its nature, treats individuals on the basis o f their income. By contrast, the influence o f legal rules often is confined to the small fraction o f individuab who find themselves involved in legal disputes. Abo, legal rules often are very imprecise to o b fo r redbtribution because there tends to be substantial income variation within groups o f plaintiffs and groups o f defendants (so that much redbtribution will be in the wrong di rection). Additionally, many legal rules - such as those o f contract, corporate, and commercial law - often leave the dbtribution o f income essentially unchanged because price adjustments negate the dbtributive effects o f the legal rules” (KAPLOW, Louis; SHAVELL, Steven. Should legal rules favor the poor? Clarifying the role o f legal rules and the income tax in redistributing income. Harvard Journal o f Legal Studies, v. 29, ntt 2, June 2000. p. 7-8. Disponível em: < www.law.harvard.edu/ programs/olin_center> . Acesso em: 15 dez. 2010). 59 Vide a análise de RODRIGUES, \fesco. Análbe econômica do direito: uma introdução. Coimbra: Almedina, 2007. p. 11-12. 60 “Under welfare economics, normative evaluations are based on the well-being o f individuals. Economists often use the term ‘utility* to refer to the well-being o f an individual, and, when there is uncertainty about the future events, economists use an ex ante measurement o f well-being, ‘ex pected utility*.” KAPLOW, Louis; SHAVELL, Steven. Fairness versus welfare. Harvard Law Review, v. 114, nQ 4, p. 961-1388, Feb. 2001. p. 979. 61 RODRIGUES, op. cit., p. 19-33. 9 8 Fundamentos do direito privado • Dresch As premissas da escolha racional e do equilíbrio acarretam, ainda, uma consequente constatação: agentes buscando estabelecer escolhas racionais, num mercado condicionado pelo princípio do equilíbrio, terão suas condutas sujeitas a incentivos. Se o preço cair, o consumidor, sempre em busca da maximização de bem-estar, será incentivado à escolha racional do aumento do consumo; este, por sua vez, poderá gerar uma maior escassez desse bem, o que deverá acarretar o aumento do preço e, assim, um incentivo ao produtor a aumentar a oferta. O nível de escassez (a condição de realidade de limitação de recursos), portanto, é um dos fatores determinantes do ponto de equilíbrio.62 Quanto ao princípio da eficiência econômica, pode-se dizer que ele de fine o critério de avaliação fundamental da Economia e, consequentemente, da Análise Econômica do Direito em geral. O direito privado, na concepção funcionalista da Análise Econômica do Direito, é entendido, seja descritiva ou prescritivamente, sob a condição instrumental para a obtenção de eficiência econômica63 ou a partir de suas consequências econômicas.64 Por conseguinte, a principal característica do estudo do movimento de Direito e Economia é a de descrever ou de prescrever o direito e, mais especificamente, o direito privado, como uma ferramenta em função da economia. Dentro da análise dos argumentos distributivos acima alinhados, o Di reito e a Economia, em geral, se utilizam do argumento distributivo indireto externo, ou seja, o direito privado é compreendido em termos funcionais e distributivos, porque apresenta efeitos distributivos externos ao direito, no caso, 62 Sobre os conceitos essenciais da Análise Econômica do Direito, ver SALAMA, Bruno Meyerhof. O que é a pesquisa em direito e economia? Cadernos Direito GV, v. 5, n° 2, mar. 2008. 63 Os critérios em geral apresentados, como antes referido, são nominados em homenagem aos seus descobridores. São eles: o Ótimo de Pareto (desenvolvido pelo sociólogo Vilfredo Pareto) e o Kaldor-Hicks (definido por Kaldor e Hicks). O critério mais aplicado nas análises econômicas em geral é o Kaldor-Hicks, pelo qual o ganho dos favorecidos com uma ação, medida ou regra deve ser superior à perda dos prejudicados, de modo que os primeiros possam compensar os prejudica dos. O Ótimo de Pareto estabelece que os recursos econômicos somente podem ser alocados por uma ação, medida ou regra que favoreça, pelo menos, um indivíduo, desde que não haja nenhum prejudicado. Diante das comparações baseadas no Ótimo de Pareto, o melhor estado de coisas, em termos de ganhos de favorecidos, sem perdas para os prejudicados, é qualificado como Ótimo de Pareto, podendo se falar então de uma qualidade denominada de Superioridade de Pareto. 64 “ We conduded that this result, combined with other considerations going outside our model, sug gests that normative economic analysis o f legal rules should focus on their efficiency” (KAPLOW, Louis; SHAVELL, Steven. Should legal rules favor the poor? Clarifying the role o f legal rules and the inco me tax in redistributing income. Harvard Journal o f Legal Studies, June 2000. p. 7-8. Disponível em: < www.law.harvard.edu/programs/olin_center> . Acesso em: 15 dez. 2010. p. 821-835). O direito privado com o justiçadistributiva 9 9 efeitos distributivos econômicos. Como esses efeitos que definem a finalida de polarizadora da análise são externos e independentes do direito privado, é gerado um método pelo qual o direito privado não tem o alcance sobre a fixação, ou mesmo compreensão plena, de seu fim de eficiência econômica (seja um fim determinado apenas com o objetivo meramente descritivo, seja um fim prescrito ao direito). Como já dito em outras oportunidades,65 o direito privado, quando condi cionado ao método econômico, se toma um conhecimento subsidiário, alterável e, por vezes, descartável, pois a compreensão do que é eficiência econômica, equilíbrio econômico, incentivos, escassez e escolhas racionais em busca de maximização de bem-estar está situada para além do estudo e da prática do direito privado.66 Nessa esteira, o caráter instrumental, funcional, é evidente na medida em que o conhecimento jusprivatista é secundário em relação ao conheci mento econômico. A economia estuda e define o que é eficiência econômica e seus métodos, e o instrumental direito privado e seus institutos devem ser reduzidos, explicados, analisados, estruturados ou fundados de maneira a al cançar essa eficiência. Nesse sentido, exemplificativamente, os professores de Harvard, Shavell e Kaplow, que representam uma vertente das mais radicais dessa funcionalização econômica, centram toda análise do direito em termos de bem-estar econômico.67 Com efeito, a Análise Econômica do Direito, nitidamente, como já referido em outros trabalhos,68 tem por origem principal, ao lado do pragmatismo, o utilitaris mo fundado por destacados pensadores, como David Hume,69 Jeremy Bentham 65 DRESCH, Rafael de Freitas Valle. Análise econômica do Direito: uma análise exclusiva ou com plementar? In: Direito e Economia. 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 193-202. 66 Nesse sentido, o importante estudo de POSNER, Richard. Overcoming Law. Cambrigde: Mass., Harvard University Press, [s.d.]. 67 “Our argument for basing the evaluation o f legal rules entirely on welfare economics, giving no weight to notions o f faimess, derives from the fundamental characteristic o f fairness-based assessment: such assessment does not depend exclusively on the effects o f legal rules on indivi duals’ well-being. As a consequence, satisfying notions o f faimess can make individuals worse off, that is, reduce social welfare” (KAPLOW, Louis; SHAVELL, Steven. Faimess versus welfare. Harvard Law Review, v. 114, nQ 4, p. 961-1388, Feb. 2001). 63 Vide DRESCH, op. cit., p. 195. 69 Vide HUME, David. Uma investigação sobre os princípios da moral. Tradução José Oscar de Almeida Marques. Campinas, SP: UNICAMR 1995. p. 41-42: “ Portanto, as regras da equidade 1 0 0 Fundamentos do direito privado • Dresch (destacado no início deste capítulo), Sidgwick70 e John Stuart Mill, o qual assim apresenta o utilitarismo ao definir a riqueza como objetivo maior da política: Primeiro, pelo que diz respeito à noção vulgar de natureza e objeto da econo mia política, não estaremos longe do marco se o enunciarmos ser alguma coisa com o seguinte resultado: que a ciência política é uma ciência que ensina ou professa ensinar de que maneira uma nação pode ser tomada rica.71 Contudo, a análise econômica do direito também pode receber sua funda mentação diversa, pode estar vinculada, segundo alguns dos seus defensores, a uma análise kantiana72 ou, ainda, a alguma forma de pragmatismo.73 e da justiça dependem inteiramente do estado e situação particulares em que os homens se encontram, e devem sua origem e existência à utilidade que proporcionam ao público pela sua observância estrita e regular.” 70 Quanto à evolução do utilitarismo, ver a análise de MACINTYRE, Alasdair. Depois da virtude. TYadução Jussara Simões. Bauru, SP: EDUSC, 2001. p. 115-121. 71 STUART MILL, John. Da definição de economia política e do método de investigação próprio a ela. Trad. Pablo Rubén Mariconda, Coleção Os Pensadores, v. XXXIV São Paulo: Editora Abril, 1974. p. 293. Cumpre ressalvar que um dos propósitos do utilitarismo de Mill foi a busca de uma conciliação com a noção de justiça, na verdade, todo o seu quinto capítulo da obra Utilitarismo (referência) se traduz num esforço nesse sentido. Contudo, após uma análise das diversas con cepções de justiça, M ill chega à conclusão de que a ideia central da noção de justiça é a confor midade com a lei, não necessariamente, mas ideal. Além disso, a justiça não se estabelece apenas pela avaliação do correto e do incorreto, mas em termos de direitos pessoais, que permitem a exigência de determinadas ações em relação ao outro; a ideia de direito vincula-se à de interesse e, consequentemente, de utilidade, primando a utilidade geral sobre a utilidade individual. Nesse sentido, vide a análise de CARVALHO, Maria Cecília M. John Stuart Mill: sobre as conexões entre justiça e direito. In: OLIVEIRA, Nythamar Fernandes de; SOUZA, Draiton Gonzaga de (Org.). Justiça e Política: homenagem a Otfried Hõffe. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. p. 97-121. 72 No sentido da fundamentação kantiana da análise econômica do direito, veja-se: POSNER, Richard. The Ethical and Political Basis o f the Efficiency Norm. Common Law Adjudication, 8 Hofstra 1. Rev. 1980. p. 488-497. Posner entende que se a eficiência fosse tomada nos termos da Superioridade de Pareto, ela seria sempre a solução racional, pois ninguém é prejudicado e, pelo menos, uma pessoa é favorecida, devendo, por conseguinte, ser compreendida como o conteúdo da vontade autônoma kantiana e, assim, objeto da participação de todo ser racional. 73 Quanto às vantagens práticas do Direito e Economia, relevantes as palavras de Luciano Timm: “ Por que o Direito deveria dialogar e se aproximar da Economia? Brevemente, em primeiro lugar, porque a Economia é a ciência que descreve de maneira suficientemente adequada o com portamento dos seres humanos em interação no mercado, que é tão importante para a vida real em sociedade. Em segundo lugar, porque a Economia é uma ciência comportamental que atingiu respeitável e considerável padrão científico, sendo hoje uma das grandes estrelas dentre as ciências sociais aplicadas pelo grau de comprovação matemático e econométrico dos seus modelos. Em terceiro lugar, a Ciência Econômica preocupa-se com a eficiência no manejo dos O direito privado com o justiça distributiva 1 0 1 Necessário destacar, ainda, que a escola de Direito e Economia não se apresenta como uma abordagem uniforme por parte de seus defensores. Seria demasiado simplista, por exemplo, apresentar todos os analistas econômicos como defensores da ideia de que o Direito deva ser completamente estrutu rado em função da persecução de objetivos econômicos, pois grande parte da Análise Econômica do Direito não se preocupa em prescrever e compreender o direito estritamente pela metodologia econômica. Nesse compasso, dentre as várias vertentes do movimento, destacam-se a Escola de Chicago, a Teoria das Escolhas Públicas, a Teoria Institucional e a Teoria Neoinstitudonal.74 É possí vel estabelecer uma divisão essencial entre essas: as positivas/descritivas e as normativas/prescritivas. Bruno Salama sintetiza adequadamente tal dicotomia: É comum destacar duas dimensões, ou dois níveis epistemológicos, da disciplina de Direito e Economia: a dimensão positiva (ou descritiva) e a dimensão norma tiva (ou prescritiva). À primeira dá-se o nome de Direito e Economia Positivo, e à segunda de Direito e Economia Normativo. São duas dimensões distintas e independentes. O Direito e Economia Positivo se ocupa das repercussões do Direito sobre o mundo real dos fatos; o Direito e Economia Normativo se ocupa de estudar se, e como,noções de justiça se comunicam com os conceitos de eficiência econômica, maximização da riqueza e maximização de bem-estar.75 Cumpre referir que cada uma das espécies descritiva e prescritiva, ainda, pode ser subdividida. Nessa subdivisão, a escola positiva seria composta pelas seguintes vertentes: a) reducionista - entende que o Direito pode ser todo compreendido com base na economia e que os conceitos jurídicos podem ser ampla mente substituídos pelos conceitos econômicos; recursos sociais escassos para atender ilimitadas necessidades humanas - que é um problema- -chave quando se fala de direitos sociais ou mais genericamente fundamentais” (TIM M , Luciano Benetti. Qual a maneira mais eficiente de prover direitos fundamentais: uma perspectiva de direito e economia? Direitos fundamentais, orçamentos e “ reserva do possível” . 2. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. p. 53). 74 Sobre as correntes do movimento de Direito e Economia, é de relevo o estudo de MERCURO e MEDEMA, op. cit. n SALAMA, Bruno Meyerhoh. O que é direito e economia? Direito e Economia. In: TIMM, Luciano Benetti (Org.). 2. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008. p. 49-61. 1 0 2 Fundamentos do direito privado • Dresch b) explicativa - entende que a economia pode fornecer uma teoria ex plicativa do sistema jurídico, como o resultado das escolhas em busca da maximização de preferências dos agentes diante do problema da escassez; e c) preditiva - entende que a economia serve como instrumento na pre visão das consequências das normas jurídicas, antecipando os possí veis efeitos das normas nas condutas dos agentes.76 Quanto às vertentes normativistas ou prescritivas, a divisão pode ser compreendida pelas seguintes visões: a) fundacional - entende que as instituições jurídicas devem ser com preendidas com base na busca da maximização da riqueza, sendo o sistema jurídico, na verdade, um sistema de incentivos às condutas dessa maximização da riqueza. Um dos teóricos mais destacados da análise econômica, Richard Posner, exemplificativamente, ao abordar o instituto da responsabilidade civil, afirma que o método do direito busca determinar responsabilidades entre as pessoas participantes de interações, de modo a maximizar o valor total de bens e serviços77 e só de tal maneira o direito pode ser considerado justo.78 Posner es clarece seu conceito de “wealth maximization”79 como o objetivo de tentar maximizar o valor80 de todos os bens e serviços colocados ou não no mercado. Nesse contexto, o instituto da responsabilidade ci vil, por exemplo, tem por finalidade a distribuição eficiente dos cus tos decorrentes dos prejuízos oriundos de um acidente, dos custos de 76 Vide COOTER, Robert. Law and the imperialism o f economics: an introduction to the econo mic analysis o f law review o f the Major Books. UCLA Law Review, v. 29,1982. p. 1260. 77 POSNER, Richard A. Economic analysis o f law. 2. ed. Boston: Little Brown, 1977. p. 181. 78 Salienta Tom Campbell um ponto importante ao destacar que a tese de Posner defende a visão de que o critério para determinar se certos atos são justos ou bons está em saber se maximizam a riqueza da sociedade (CAMPBELL, Tom. La justicia: los principales debates contemporâneos. TYadução Silvina Álvarez. Barcelona: Gedisa, 2002. p. 141). 79 POSNER, Richard A. Wealth maximization and tort law: a philosophical inquiry. In: PHILOSOPHICAL foundations o f tort law. New York: Oxford Press, 2001. p. 99, assim ensina: “ Wealth is the total value o f all economic and non-economic goods and services and is maximizated when all goods and services are, so fa r as is feasible, allocated to their most valuable uses”. 80 Id., ibid., p. 99, determina o que entende por valor: “ Value is determined by what the owner o f the good o r service would demands to part with it o r what a non-owner would be willing to pay to obtain it.” O direito privado com o justiça distributiva 1 0 3 prevenção e dos custos com processos, para determinar esses custos. O princípio geral da responsabilidade civil, nessa análise, portanto, é de que os custos sejam suportados pela parte que poderia evitar ou minimizar os riscos dos referidos acidentes, sempre com vistas a ma ximizar o valor comum de bens e serviços, ou seja, garantir eficiência econômica.81 Nesse sentido, também, a acima destacada compreen são de dois dos mais destacados representantes contemporâneos da corrente Direito e Economia, Louis Kaplow e Steven Shavell. b) pragmática - vertente que teria sido objeto de aderência de Posner a partir da década de 1990, talvez seja a de um funcionalismo mais amplo, pois, por essa visão, o sistema jurídico é compreendido em função de fins sociais contingentes, sem fins e estruturas permanen tes com base na lógica, não havendo finalidades fixas definidoras, mas várias finalidades sociais avaliadas de maneira pragmática.82 c) regulatória - liderada por Guido Calabresi, entende que a análise econômica do direito tem por objeto: (a) justificar economicamente as escolhas públicas; (b ) avaliar, com base nas consequências reais, o sistema e as instituições; (e c) definir e compreender a posição dos tribunais diante das escolhas públicas.83 Contudo, Guido Calabresi, apesar de, nos termos da vertente regulatória, ressalvar a justiça ( fa ir )84 entende que, por exemplo, o objetivo da responsa bilidade civil seria o de reduzir a soma dos custos dos acidentes mais os custos de precaução, a fim de reduzir: (I ) quantidade e gravidade dos acidentes; (II) custos sociais desses acidentes; e (III) custos com a administração dos acidentes. Assim ensina um dos precursores da análise econômica: “Además de la justicia, el objectivo principal dei derecho de los accidentes es reducir la suma dei costo de los accidentes más el costo de evitarlos”.85 81 POSNER, op. cit., p. 100. 82 Ver POSNER, Richard A. Problemas de Filosofia do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 83 MERCURO e MEDEMA, op. dt., p. 79-81. 84 CALABRESI, Guido. The costs o f accidents: a legal and economic analysis. New Haven: Yale University Press, 1970. p. 24: “What then, are the principal goals o f any system o f accident law? First, it must be just or fair; second, it must reduce the costs o f acddents.” Apesar da ressalva referente à importânda da justiça, Calabresi não demonstra em que termos a eficiênda estaria reladonada à justiça, desenvolvendo toda sua teoria com foco na eficiência econômica. 85 Vide CALABRESI, Guido. El costo de los acddentes. In: ROSENKRANTZ. Carlos F. (O rg.). La Responsabilidad extracontractual. Barcelona: Gedisa Editorial, 2005. p. 88-89. 1 0 4 Fundamentos do direito privado • Dresch Para esclarecer essa visão centrada no bem-estar econômico, característica da Análise Econômica do Direito e de sua contraposição à análise centrada na forma de justiça corretiva, é importante destacar a visão de Kaplow e Shavell, os quais, numa abordagem fundacional, como contraponto radical, entendem que a avaliação das normas jurídicas deve ser feita totalmente baseada no bem-estar econômico, eis que a análise centrada na justiça corretiva ou de forma mais ampla, em faimess, não depende dos efeitos que as regras jurídicas têm sobre o bem-estar dos indivíduos, o que acarreta uma redução de bem-estar social.86 Por conseguinte, mesmo com as flexibilizações possíveis em decorrência da admissão da existência de outros valores sociais, como justiça, direitos fundamentais, equidade, entre outros, a Análise Econômica do Direito deixa bastante claro que, com o direito privado e seus institutos, como a responsa bilidade civil, os contratos, a empresa, objetiva-se ou, ao menos, analisa-se com base na maximização de bem-estar ou eficiência econômica.87 Com efeito, tantouma teoria descritiva implica uma prescrição subsidiária, quanto uma teoria prescritiva implica uma descrição subsidiária quando se trata de um saber deontológico como o jurídico.88 86 “Our argument for basing the evaluation o f legal rules entirely on welfare economics, giving no weight to notions o f faimess, derives from the fundamental characteristic o f fairness-based assessment: such assessment does not depend exclusively on the effects o f legal rules on indivi duals’ well-being. As a consequence, satisfying notions o f faimess can make individuals worse off, that is, reduce social welfare” (KAPLOW, Louis; SHAVELL, Steven. Faimess versus W elfare Havard Law Review, v. 114, n° 4, fev. 2001, p. 1011). 87 Interessante referir a sinceridade de Robert Cooter e Thomas Ulen sobre a teoria de Direito e Economia como redutora da análise do direito ao método econômico: “A economia proporcionou uma teoria científica para prever os efeitos das sanções legais sobre os comportamentos. Para os economistas as sanções se assemelham a preços, e, presumivelmente, as pessoas reagem às sanções, em grande parte, da mesma maneira que reagem a preços. As pessoas reagem a preços mais altos consumindo menos do produto mais caro; assim, supostamente, elas reagem às san ções legais mais duras praticando menos as da atividade sancionada. A economia tem teorias matematicamente precisas (teoria do preço e teoria dos jogos) e métodos empiricamente sólidos (estatística e econometria) de análise dos efeitos dos preços sobre o comportamento” (COOTER, Robert; ULEN, Thomas. Direito e economia. TYad. Luis Marcos Sander, Francisco Araújo da Costa. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2010. p. 25). 88 Nesse sentido, é a ressalva de Fletcher, ao tratar das teorias sobre a responsabilidade civil: “Ali four approaches contain both normative and interpretative dimensions, though, o f course, the relative weight o f these dimensions varies from author to author. A pure commitment to either positive or normative theory might be ideal, but the tension between the two, particularly in legal theory, seems inescapable. Normative claims must draw on interpretations o f the legal ma terials: interpretations trade on their normative plausibility” (FLETCHER, George P The Search for Synthesis in Tort Theory. Law and Philosophy, Springer, v. 2, n° 1, Values in the Law o f Tort: O direito privado com o justiça distributiva 1 0 5 No exemplo da responsabilidade civil, essa eficiência econômica seria obtida pela distribuição dos custos dos acidentes de maneira a atingir o maior bem-estar econômico coletivo. Ou seja, na verdade, conceitos como nexo causal, culpa e a própria ilicitude passam a não mais constituir ele mentos necessários para a responsabilização, haja vista que a distribuição focada na eficiência econômica, compreendida em termos de incentivos e escolhas racionais, acaba por construir estruturas de distribuição que, fun damentalmente, abandonam valores como preservação da igual liberdade e da dignidade da pessoa humana. Quando esses valores de justiça particular ou justiça geral estão em jogo, a Análise Econômica do Direito tem pouco a dizer, o pouco que tem se circunscreve ao valor bem-estar econômico.89 Sobre a dificuldade de se pensar a conciliação da justiça com a eficiência econômica apenas com base nos princípios econômicos, relevantes os ensi namentos de Cláudio Michelon: Princípios de economia não resolverão o problema de como integrar esses dois bens, justiça e eficiência, mas podem oferecer um guia para entender as eficiêndas ou ineficiêndas produtivas de certas estruturas institudonais que são desenhadas com o objetivo primário de estabelecer uma alocação de bens distributiva ou corretivamente justa. A decisão sobre o quanto de inefidência econômica deve ser incorrido para que se viva em uma sociedade igualitária Part II, Apr., p. 63-88, 1983).” No mesmo sentido: “Although distinct, normative, positive and predictive approaches are all interconnected,one needs to have positive and predictive analyses in order to make any normative assessments and vice versa. Yet normative analysis is fundamental and in some ways prior to predictive and positive analysis” (DENEULIN, Séverine; SHAHANI, Lila Shahani. An Introduction to the Human Development and Capability Approach. London: Earthscan, 2009. p. 4-5). 89 Em sentido diverso do aqui apresentado, assim se manifesta COÛTER: “By cooperating with each other, people can increase their productivity. Creating a cooperative surplus requires coordi nation, which mostly occurs through social norms. Social norms ideally direct people to cooperate in efficient ways and divides the resulting production fairly. The fa ir division o f the product from cooperation follows principles described in theories o f corrective justice. The efficient organization o f production is analyzed in economics. Thus fairness and efficiency converge in the concept o f the social norm. Modem society is fa r too complex fo r people to coordinate prim arily through form al law. Instead people coordinate through social norms. When the law aligns with social norms, pe ople mostly know how to act by consulting their moral intuitions. Acting this way is a lo t cheaper than consulting a lawyer. When people social norms evolve under competitive pressure, and law follows social norms, efficiency and fairness align in morality and law. This fact explains the fe r tility o f the confluence o f law and economics” (COOTER, Robert. The Confluence o f Justice and Efficiency. Economics Analysis o f Law. Berkeley: The Selected Works o f Robert Cooter, 2003. p. 25. Disponível em: < http://www.bepress.com> . Acesso em: 20 dez. 2010). 1 0 6 Fundamentos do direito privado • Dresch não pode ser resolvida por meio desses princípios econômicos, mas sim por meio de argumentos sobre o valor relativo de igualdade e da eficiência em cer tos contextos. Um dos traços mais irritantes do debate político contemporâneo é a assunção de que ineficiência econômica não pode ser aceita em nenhum nível, mesmo que o benefício em termos de outros valores (e. g. igualdade) seja imenso. Essa crença é um dos pilares sob os quais se sustenta a escola do Law and Economics, movimento que dominou a teoria do direito norte-americana nos últimos anos. A escolha, todavia, não é de modo algum óbvia e depende de uma avaliação cuidadosa dos bens envolvidos.90 Nesse sentido, a função de argumentos econômicos na fundamentação do direito privado é relevante, mas subsidiária em relação aos argumentos gerais sobre a justiça e sobre o valor relativo da maximização de riqueza em um determinado grupo social. Os argumentos sobre eficiência econômica servem para avaliar os impactos das normas de direito privado em relação ao valor eficiência e ajudam a compreender, através da análise dos incentivos, os impactos de certas normas e políticas públicas na busca de bens sociais, como, por exemplo, a proteção do consumidor. Destarte, apresentada a característica essencial de Direito e Economia como sendo a investigação dos institutos jurídicos com vistas à obtenção, ou com base no critério eficiência econômica, no ponto seguinte, serão investigadas as análises igualitaristas sobre o direito privado. 2.4 A s teorias igualitaristas As teorias igualitaristas podem fornecer uma terceira concepção atual fun- cionalista do direito privado. Para a apresentação da concepção igualitarista, se faz necessário compreender o que constitui o Liberalismo-igualitarista através de seus dois principais expoentes: John Rawls e Ronald Dworkin. Contudo, desde já, fica estabelecida a ressalva de que as teorias igualitaristas são de uma complexidade que não se poderia esgotarnuma obra como a presente, a qual não se propõe a uma análise do igualitarismo per se, mas tão somente de sua possível influência na compreensão do direito privado. Assim, serão breves as linhas de apresentação. 90 MICHELON, Cláudio. Fundamentos econômicos e não econômicos da defesa do consumidor. Working papers, University o f Edinburgh, School o f Law, series n“ 2.010/2.011, 2010, p. 12. O direito privado com o justiça distributiva 1 0 7 O estudo da análise liberal-igualitarista de Rawls deve ter por foco a sua principal obra, Uma Teoria da Justiça,91 e sua versão final, Justiça como Equidade,92 nas quais o filósofo político tem por objetivo apresentar a sua visão sobre uma teoria da justiça abrangente que estruture as diversas intuições assistemáticas sobre a justiça numa sociedade contemporânea, de maneira a superar as deficiências do utilitarismo. Para essa estruturação teórica das in tuições sobre a justiça, Rawls inicia a busca de princípios de justiça através de uma estrutura básica que determine esses princípios, examinando os deveres e as obrigações que eles originam. A teoria de Rawls é basicamente uma teo ria contratualista. A sociedade seria fundada numa espécie de contrato social constituído sobre certas condições, quais sejam: a existência de um consenso sobreposto, a premissa do pluralismo razoável em relação às concepções de justiça, a democracia e a cooperação entre os participantes. Sobre tais pressu postos seriam escolhidos os princípios básicos de justiça através de um proce dimento com condições específicas. Primeiro, teria de se pensar que a escolha racional dos princípios básicos de justiça somente poderia ser feita numa dada situação que Rawls denomina de Posição Original, posição em que os indivíduos autointeressados devem escolher os primeiros princípios que irão regrar a sociedade (o que configura a sua opção pela primazia da justiça sobre o bem). Nessa posição original, ademais, para a escolha racional dos princípios básicos de justiça, os indivíduos deveriam estar sujeitos ao Véu da Ignorância, que se constitui numa situação de ignorância quanto às qualidades e características pessoais que os indivíduos terão na sociedade. Tal condição de ignorância é essencial quando da escolha dos princípios na posição original, para que se possibilite uma escolha neutra em relação aos princípios básicos da justiça.93 Destarte, sob tais pressupostos e condições, Rawls afirma que os indiví duos irão querer escolher racionalmente dois princípios básicos de justiça:94 (a) Princípio da Igual Liberdade - conjunto das liberdades básicas garantidas igualmente a todos os indivíduos; (b) Princípio da Diferença - que determina: I) a possibilidade de desigualdades, desde que proveitosas e acessíveis a todos 91 RAWLS, John. Uma teoria da justiça. Tradução Alm iro Pisetta e Lenita M. R. Esteves. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 92 Id. Justiça como equidade: uma reformulação. In: KELLY, Erin (O rg.). TYad. Cláudia Berlinier e Álvaro De Vita. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 93 Id., ibid., p. 7-53. 94 Id., ibid., p. 55-112. 1 0 8 Fundamentos do direito privado • Dresch os indivíduos em condição de igualdade de oportunidades; II) o benefício máximo aos menos favorecidos.9S Nesse sentido, cabe salientar a exata for mulação de Rawls: (a ) cada pessoa tem o mesmo direito irrevogável a um esquema plenamente adequado de liberdades básicas iguais que seja compatível com o mesmo es quema de liberdades para todos; e (b ) as desigualdades sociais e econômicas devem satisfazer duas condições: primeiro, devem estar vinculadas a cargos e posições acessíveis a todos em condições de igualdade equitativa de oportunidades; e, em segundo lugar, têm de beneficiar ao máximo os membros menos favorecidos da sociedade (o prin cípio da diferença).96 Consideradas as condições de realização do contrato social, Rawls com preende que são necessárias três espécies de juízos para simplificar a aplicação dos dois princípios: (a) avaliar a justiça da legislação e das políticas sociais; (b) como os primeiros juízos podem divergir, avaliar quais dispositivos consti tucionais são justos para compatibilizar opiniões conflitantes (ex.: domínio da maioria limitado em decorrência da proteção das minorias); (c) determinação de limites às obrigações e aos deveres políticos (limites às leis da maioria). Com base nessas premissas, Rawls propõe um arranjo institucional composto por quatro estágios. O primeiro estágio é constituído pela adoção dos princí pios de justiça na posição original supracitada, na qual ocorre a celebração do contrato social, quando pessoas racionais, numa situação inicial de igualdade (posição original), escolhem seus princípios básicos da justiça sem levar em conta informações quanto às circunstâncias pessoais (véu da ignorância). O segundo estágio seria o da Convenção Constituinte. Tendo sido estabelecida consensualmente uma concepção de justiça no primeiro estágio, o véu da ig norância começa a ser retirado, escolhendo-se as regras de uma Constituição que satisfaça e concilie os princípios da justiça e seja a mais bem projetada para promover uma legislação eficaz e justa, tendo presente a preponderân cia do primeiro princípio da igual liberdade sobre o segundo, da diferença. * Para uma análise mais detalhada do princípio distributivo da diferença, vide NEDEL, José. O princípio da diferença na teoria da justiça de John Rawls. In: OLIVEIRA, Nythamar Fernandes de; SOUZA, Draiton Gonzaga de (O rg.). Justiça e Política: homenagem a Otfried Höffe. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. p. 359-372. 96 RAWLS, op. cit., p. 60. O direito privado com o justiça distributiva 1 0 9 O terceiro estágio é o da legislação ordinária. Os projetos de lei são julgados do ponto de vista de um legislador que não conhece os dados particulares sobre si mesmo, mas pode se valer de uma maior carga de informação sobre a sociedade. Nesse estágio, começa a preponderar o segundo princípio, que busca maximizar as expectativas de igualdade de oportunidades e favored- mento dos mais fragilizados. Finalmente, no quarto estágio, tem-se a atuação preponderante do poder executivo e do poder jurisdidonal, pelos quais se concebe a aplicação das regras a casos particulares, por parte do judidário, do executivo e dos ddadãos. Nesse caso, o administrador, o juiz e o cidadão têm pleno conhecimento das circunstâncias.97 Com base na análise de Will Kymlicka, é possível determinar que os dois argumentos centrais baseados da ideia de Rawls são o da posição original e do contrato social. Como adma descrito, o objetivo do argumento referente à posição original é o da possibilidade de produção dos princípios básicos de justiça que seriam aceitáveis intuitivamente, ou seja, a posição original deve se moldar à ideia de que as pessoas são iguais moralmente. O argumento do contrato social, por sua vez, não seria independente, pois outro arranjo diverso da posição original poderia ser admitido, caso se adequasse às intuições sobre a justiça. Assim, a concepção contratualista pressupõe essa possibilidade de adequação às intuições pessoais sobre a justiça. Nesse contexto, o argumento do contrato social tem uma utilidade na sua teoria, pois a posição original viabiliza as intuições básicas sobre a justiça, podendo auxiliar na precisão dessas intuições e proporcionar uma perspectiva a partir da qual é possível avaliar posições opostas ante a situação de imparcialidade gerada pela posição original, que afasta os indivíduos da posição parcial concreta a qual assumem na sociedade.98 Quanto à teoria igualitarista de Dworkin, cabe referir sua aderência ao princípio distributivoestabelecido por Rawls através de seu princípio da di ferença. Apesar dessa concordância basilar, Dworkin entende que um melhor arranjo deve ser feito para a conformação dessa racionalidade distributiva. Com efeito, a teoria de Dworkin tem um objetivo bem mais ambicioso, o de pensar uma teoria estrutural de valores e da possibilidade da verdade 97 RAWLS, John. Uma teoria da justiça. TYadução Alm iro Pisetta e Lenita M. R. Esteves. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 93 KYMLICKA, Will. Filosofia política contemporânea: uma introdução. TYad. Luís Carlos Borges. Rev. Marilene Pinto Michael. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 85-90. 1 1 0 Fundamentos do direito privado • Dresch objetiva. Sua pretensão já era anunciada quando da obra A virtude sobera na: a teoria e a prática da igualdade." Tal teoria abrangente, entretanto, somente seria possível numa obra por ele considerada definitiva, que viria a ser publicada. Mesmo tendo sido antecipada em Seminários anteriores, a publicação definitiva ocorreu somente no ano de 2011, a derradeira Justice fo r hedgehogs100 (Justiça para Ouriços), mesmo que o presente objetivo seja apenas o de apresentar a análise distributiva de Dworkin e sua possível re lação com o direito privado. Dworkin parte de uma fábula grega que refere que as raposas sabem muitas coisas, mas os ouriços sabem uma grande coisa, a verdade. A verdade, a vida, a moralidade, a justiça, os valores devem ser preservados em relação ao ceticismo. Diante da incerteza, Dworkin busca demonstrar que é possível buscar esse grande conhecimento da verdade e dos valores pela interpretação de conceitos como razão, dignidade, liberdade, responsabilidade, justiça, honra, decência, entre outros. Interpretar esses conceitos significa extrair a mais coerente teoria moral para justificá-los uns em relação aos outros, bem como as regras e os princípios decorrentes dessa teoria, de forma a determinar a verdade moral objetiva. Por conseguinte, parece restar claro que o objetivo dessa obra recente de Dworkin, apesar de sua discordância nesse sentido, afasta sua análise do pluralismo procedimental de Rawls e, de alguma forma, aproxima Dworkin de uma visão comunitarista, ou mes mo aristotélica, pois compreende a possibilidade de existência da verdade, do bem e da justiça objetivamente, não lançando mão de uma construção hipotética consensualista, como o contrato social ou a posição original, para daí derivar seus primeiros princípios.101 Contudo, cumpre aqui a retomada da questão mais simples referente ao arranjo básico de Dworkin sobre a igualdade e a racionalidade distributiva. Para Dworkin, o arranjo distributivo envolve duas construções essenciais: o leilão e o seguro. Para a compreensão da importância do leilão, segundo Dworkin, é necessário imaginar que todos os recursos da sociedade estão à venda em um 99 DWORKIN, Ronald. A virtude soberana: a teoria e a prática da igualdade. Trad. Jussara Simões. Rev. e trad. Cícero Araújo. São Paulo: Martins Fontes, 2005. p. XIV 100 DWORKIN, Ronald. Justice fo r hedgehogs. New York: Belknap Press, 2011. 101 Sobre a ambiguidade entre o contratualismo e o aristotelismo na teoria das capacidades de Martha Nussbaum, vide FERREIRA NETO, Arthur Maria. Justiça como realização das capa cidades humanas básicas: é viável uma teoria de justiça aristotélica-rawlsiana? Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009. p. 113-126. O direito privado com o justiça distributiva 1 1 1 leilão de que todos os membros da sociedade participam. Nessa condição, todos devem ter o mesmo poder de compra, nos termos da igualdade de pontos de partida, e devem estar aptos a apresentar lances pelos recursos escassos que atendem aos seus planos de vida. Com o funcionamento do leilão, todos realizam os seus respectivos planos de vida e, portanto, atingem a felicidade com o resultado obtido. Nesse caso, se todos não preferirem o pacote de bens dos outros ao seu próprio, haverá 100% (cem por cento) de êxito no chamado teste da inveja (cada pessoa pre ferirá o seu pacote de bens em relação aos pacotes dos outros), assim, atinge- -se o objetivo de igual consideração tão relevante para o igualitarismo, pois as diferenças entre as pessoas irão decorrer dos seus diferentes projetos de vida, o que estabelece a responsabilidade de cada pessoa pelas suas escolhas, instituindo um arranjo que atende ao valor “igualdade de consideração” e ao valor “responsabilidade pessoal”, ao mesmo tempo que preserva a autonomia decorrente da liberdade de escolha. Veja-se a explanação do esquema de dis tribuição por Dworkin: Suponhamos que o responsável pela distribuição entregue a cada imigrante um número grande e igual de conchas de mariscos, que são suficientemente numerosas e sem valor intrínseco para ninguém, para usarem como fichas em um mercado do seguinte tipo. Cada objeto da ilha (sem incluir os próprios imigrantes) é enumerado como lote a ser vendido, a não ser que alguém avise ao leiloeiro (o responsável pela divisão) de seu desejo de fazer um lance por alguma parte de um objeto, por exemplo, uma parte de determinado terreno e, nesse caso, tal parte se tom a um lote independente. O leiloeiro propõe, então, um conjunto de preços para cada lote e descobre se tal conjunto de preços se adapta a todos os mercados, isto é, se haverá apenas um comprador por aquele preço, e todos os lotes serão vendidos. Caso contrário, o leiloeiro ajusta os preços até alcançar um conjunto que se adapte a todos os mercados. Mas o processo não para porque os imigrantes continuam livres para alterar seus lances, mesmo quando já tiver alcançado um preço inicial aceitável, ou para propor lotes diferentes. Contudo supondo que, com o tempo, até esse processo lento chegue ao fim, todos se declarem satisfeitos e, consequentemente, os bens sejam distribuídos.102 102 DWORKIN, Ronald. A virtude soberana: a teoria e a prática da igualdade. TYad. Jussara Simões. Rev. e trad. Cícero Araújo, [s.e.]: [s.l.]. 2005. p. 83-84. 1 1 2 Fundamentos do direito privado • Dresch A ideia do teste da cobiça (ou da inveja),103 portanto, segundo Kymlicka,104 reflete a visão igualitarista sobre a justiça mais plausível, pois, com ela, os três principais objetivos de Rawls podem ser alcançados: (a) a concretização de um esquema distributivo que respeite a igualdade moral das pessoas, igualdade de consideração; (b ) a atenuação dos efeitos de desvantagens moralmente arbitrárias, pela igualdade dos pontos de partida; e (c) a determinação da responsabilidade dos indivíduos por suas escolhas. O arranjo distributivo de Dworkin, entretanto, não pode parar nesse ponto em relação ao teste da inveja, pois a suposição de que não existem pessoas em desvantagem em relação aos bens naturais é irreal. Como existem essas desvantagens, as diferenças não serão compreendidas apenas como de correntes das escolhas de cada pessoa. Assim, para compensar desvantagens naturais, Dworkin apresenta o esquema distributivo de seguro. O seguro seria necessário antes do leilão, de maneira a garantir aos desfavorecidos bens sociais suficientes para compensá-los por sua desigualdade não escolhida de bens naturais. Considerando que a igualdade completa de circunstâncias se mostra impossível no plano real, já que nem todos os recursos podem ser suficientes para colocar as pessoas com desvantagens severas em uma situação de vida tão satisfatória quanto à dos demais, Dworkin defende o comprometimento com a busca da maior igualdade possível de recursos como segunda melhor alternativa em termos de distribuição, visto que a compensação plena das desvantagens naturais é impossível. Dworkin detalha o esquema do seguro assim: Para completaro leilão, agora eles criam um mercado hipotético de seguros que instalam por meio de seguros compulsórios para todos a preço fixo, confor me as especulações sobre o que o imigrante normal compraria como seguro, se os riscos antecedentes de diversas deficiências tivessem sido os mesmos (Isto é, escolhemos por eles uma das formas mais simples possíveis de instituir o mercado hipotético de seguros. Veremos, ao discutir o problema das habilida des, que podem muito bem escolher um esquema mais complexo, do tipo aqui discutido.).10S 103 Segundo Dworkin, o teste da cobiça consiste na aceitação de todos de que “nenhuma divisão de recursos será uma divisão igualitária se, depois de feita a divisão, qualquer imigrante preferir o quinhão de outrem a seu próprio quinhão” (DWORKIN, op. cit., p. 81). w Ver KYMLICKA, op. cit., p. 99. 105 DWORKIN, op. cit., p. 101. O direito privado com o justiça distributiva 1 1 3 A aplicação do esquema de seguro é sugerida como uma forma de um imposto sobre renda, que recolheria os prêmios que seriam hipoteticamente aceitos e utilizados nas coberturas securitárias estruturadas em arranjos de dis tribuição de bem-estar social, assistência médica, seguro-desemprego, de forma a compensar as desvantagens naturais cobertas pelo seguro. O problema, no mundo real, para a implementação de arranjos distributivos através de tributos e redistribuição, é que algumas pessoas escolhem desenvolver seus talentos e outras não. Assim, além das diferenças decorrentes das desvantagens naturais, existem diferenças que não merecem compensação, pois resultantes da opção pessoal pelo não desenvolvimento de seus talentos. Tal situação difere de uma similar: ausência de talentos naturais. Nesse caso, haveria a necessidade de compensação, pois a desigualdade resultante não decorreria da responsabili dade pelas próprias escolhas em termos de autonomia. A dificuldade central é verificar em que situações existem desvantagens naturais e diferenciar das situações em que as desigualdades são resultantes de escolhas pessoais. Outra dificuldade seria a da impossibilidade de determinação prévia ao leilão do que é considerado desvantagem natural.106 Pelas análises apresentadas, parece evidentemente claro que o igualitaris- mo de Rawls e Dworkin pressupõe arranjos nos termos de uma racionalidade distributiva, sobretudo, nas ideias refletidas no princípio da diferença de Rawls e no seguro de Dworkin. Como a presente obra está delimitada pelos fundamentos constitucionais do direito privado, cabe agora apresentar algumas concepções de direito privado ou de institutos de direito privado que são, ou buscam ser, construídas sobre as premissas igualitaristas. Nesse sentido, a análise de Arthur Ripstein107 pode ser considerada a mais bem elaborada nessa busca igualitarista. Desde já, entretanto, é necessário sa lientar que a preocupação de Ripstein é a da superação de uma visão funcional que, segundo ele, caracteriza tanto as abordagens do utilitarismo quanto as do igualitarismo. Sua tentativa reside na insistência sobre um possível funda mento kantiano à teoria da justiça de Rawls, pelo qual se poderia solucionar uma antinomia entre as visões. Nesses termos, haveria uma primeira visão que entende que o direito privado seria um sistema de direitos organizado para determinação de incentivos em busca da prosperidade (Utilitarista/ 106 Sobre uma análise mais detalhada do esquema distributivo de Dworkin, ver KYMLICKA, op. cit., p. 98-118. 107 RIPSTEIN, op. cit., p. 1391-1438. 1 1 4 Fundamentos do direito privado • Dresch Igualitarista) e, a segunda visão, de que esses direitos são aplicados apenas como um exercício do poder político através dos quais a sociedade como um todo deve se responsabilizar (denominada Lockeana, por vinculação à teoria de John Locke).108 Para empreender tal análise e solucionar a possível antinomia entre a visão funcionalista e a lockeana, Ripstein busca apresentar a visão kantiana sobre uma ordem privada centrada na liberdade e usar essa ordem privada kantiana para explicar o que Rawls denomina de “divisão de responsabilidades” entre sociedade e indivíduos. Como acima demonstrado, a análise de Rawls, assim como a de Dworkin, busca prover um arranjo adequado de direitos e oportunidades para os cidadãos. Por outro lado, cada cidadão é responsável pelo que faz de sua vida, suas escolhas em termos de aplicação dos recursos e oportunidades distribuídas. Diante dessa condição, Ripstein defende que o direito privado é o sistema de interações pelo qual uma pluralidade de pessoas pode assumir a responsabilidade pelas suas escolhas e seus projetos de vida de maneira consistente com a mesma liberdade e responsabilidade dos outros membros da sociedade.109 Na visão de Ripstein, o direito privado é um sistema recíproco de limites jurídicos gerais, sendo que o Estado de Direito é um pré-requisito para a efe tivação dos direitos de maneira consistente com a liberdade individual e com a pluralidade de indivíduos livres. Com Rawls e, possivelmente, com Dworkin, Ripstein defende que a previsão adequada de direitos e oportunidades é, ao 108 “In this case, the source o f the difficulty is that both the Lockean and utilitarian/egalitarian theories are based on the broader premise that law is an instrument for achieving moral ends that could, in a happier world, have been achieved without it. Both positions go wrong by supposing that the basic demands o f political morality make no reference to institutions. The Lockean view regards law as a remedy for the ‘inconveniences’ o f a state o f nature; the utilitarian and egalita rian typically regard it as a remedy for some combination o f imperfect information, selfishness, and high transaction costs” (RIPSTEIN, op. cit., p. 1392-1393). 109 Assim explicita Ripstein: “/ will articulate Kant’s account o f the nature and significance o fp r i vate ordering in relation to freedom. I will use this Kantian idea ofprivate ordering to explain the place o f private law in what Rawls has described as the \division o f responsibility" between society and the individual. According to Rawls, society has a responsibility to provide citizens with adequate rights and opportunities; each citizen, in turn, is responsible fo r what he o r she makes o f his o r her own life in light o f those resources and opportunities. I will argue that private law is the fo rm o f interaction through which a plurality o f separate persons can each take up this special responsibility fo r their own lives, setting and pursuing their own conceptions o f the good in a way consistent with the freedom o f others to do the same” (Id., ibid., p. 1393). O direito privado com o justiça distributiva 1 1 5 mesmo tempo, a condição para a efetividade desses direitos e requisito moral de uma esfera pública compartilhada.110 Contudo, como já referido acima, quando da análise da teoria de Cole man e sua aproximação com Ripstein (seção 1.3), essa interpretação da teoria igualitarista parece se afastar de algumas análises mais comprometidas com os arranjos de distribuição em termos de busca de maximização de igualdade de oportunidades. Com efeito, a combinação da maximização da justiça distributi va com a justiça corretiva parece inconsistente com o Liberalismo-igualitarista, mesmo considerando a defendida conjugação da análise kantiana com a teoria da justiça de Rawls.111 Uma dificuldade central em relação à análise de Ripstein é a de que sua teoria compreende que o esquema de justiça corretiva deve ser preservado dentro do arranjo distributivo, principalmente, diante do primeiro princípio básico da justiça, o da igual liberdade,pois a independência da justiça corretiva é necessária na preservação dos valores liberdade, autonomia e responsabili dade. Kordana e Tabachnick compreendem que o arranjo de Rawls é definitivo nos termos de sua justiça procedimental construída nas condições da posição original, não sendo possível acrescer a justiça corretiva como um adendo fundadonal necessário nesse arranjo distributivo, como quer Ripstein, pois 110 “I w ill argue that private law is only a system o f reciprocal limits on freedom, provided that those limits are general in the right way. Specifically, although the rule o f law is often presented as a sort o f instrumental good that provides various benefits, either to persons or societies, I w ill argue that it is more than that. I w ill argue that the rule o f law is a prerequisite both to enforce able rights being consistent with individual freedom and, more broadly, to a reconciliation o f in dividual freedom among a plurality o f persons. The use o f force subjects one person to the choice o f another, unless its use issues from a public standpoint that all can share. Tlim ing once more to Rawls, I w ill argue that the best w ay to think about his emphasis on public provision o f adequate rights and opportunities is in parallel terms: they are essential conditions to the very possibility o f enforceable rights, because they are the moral prerequisites for a shared public sphere. The account I w ill develop draws out the implications o f these Kantian and Rawlsian ideas, but its details are not explicitly developed in either o f them” (RIPSTEIN, op. tit., p. 1395). 1,1 Nesse sentido, é a opinião de Kevin A. Kordana e David H. Tabachnick: “Recent scholarship has argued that post-institutional theories o f distributive justice, specifically Rawlsianism, are compatible with a principled commitment to corrective justice. We argue that, however attractive on independent or pre-institutional moral grounds a principled commitment to corrective justice and its corresponding model o f tort law may be, it is misleading to think that the Rawlsian post- -institutional conception o f distributive justice is, at the level o f principle, consistent with such an independent commitment. Specifically, w e argue that holding the truth o f a maximizing theory o f distributive justice in conjunction with a principled commitment to corrective justice is incon sistent” (KORDANA e TABACHNICK, op. tit., p. 1280). 116 Fundamentos do direito privado • Dresch diverge da compreensão de Rawls sobre o direito privado e sobre a relação entre justiça corretiva e distributiva.112 A separação entre o direito público e o direito privado não está, necessariamente, prevista na base da teoria da justiça de Rawls com fundamento na justiça corretiva, podendo apenas ser derivada da construção democrática dos arranjos institucionais, de forma que não pode estar contida no primeiro princípio básico da justiça rawlsiano.113 Como fica claro pela crítica de Kordana e Tabachnick, a efetivação do direito privado, nos termos da justiça corretiva, não é um dado substancial prévio à estrutura construída democraticamente, ou seja, a estrutura e as ins tituições não pressupõem, necessariamente, um direito privado concentrado na justiça corretiva, mas apenas que a justiça corretiva se apresenta como uma das possibilidades de esquema para o direito privado, visto que o propósito é de maximização das liberdades e da igualdade de oportunidades com base na justiça distributiva.114 Kordana e Tabachnick, ainda, direcionam suas críticas à abordagem dita rawlsiana de Stephen Ferry.115 Segundo Ferry,116 a justiça corretiva está fundada na compreensão da concepção de “responsabilidade-resultado” . A responsa- bilidade-resultado surge quando um agente está casualmente vinculado a um dano que poderia ter evitado, tendo agido culposamente ou não tendo evitado riscos anormais à vítima. Perry defende a independência da justiça corretiva e a não prioridade da justiça distributiva, uma vez que o papel da justiça cor retiva não pode ser explicado apenas como a manutenção de distribuições, 1,2 KORDANA e TABACHNICK, op. cit., p. 1285-1286. 113 “Rawls is clear that the basic liberties are constitutionally guaranteed; all other aspects o f social life, however, are subject to the w ill o f the democratic process. ‘Private space’ for Rawls is the set o f ‘basic’ or constitutionally guaranteed liberties. Private space, then, is constructed by the principles o f justice to protect such liberties which are themselves-in an important sense- -within the basic structure. All other matters governed by rules, values, and precepts drawn from outside the basic structure (whatever that might mean) are subject to the democratic process and cannot serve as the grounds o f a matter o f such great importance for Rawls as the private realm. In other words, part o f the function o f the basic structure is to guarantee the pri vate realm-the rules that govern and construct the private realm are inside the basic structure” (Id., ibid., p. 1291-1292). 114 Id., ibid., p. 1294. ns PERRY, Stephen R. On the Relationship between Corrective and Distributive Justice. In: HORDER, Jeremy (Ed.). Oxford essays in jurisprudence 237. 4. ed. [s.l.]: [s.e.], 2000. 116 Para análise da proximidade entre as concepções de Ripstein e Perry, vide: PERRY, Stephen; RIPSTEIN, Arthur. Rawls and responsibility, Fordham Law Review na 72, 2004, p. 1845-1848. O direito privado com o justiça distributiva 1 1 7 pois, em termos distributivos, a preservação da justa distribuição independe de conceitos como culpa e causalidade, podendo, inclusive, a justiça corretiva violar a justa distribuição.117 Mesmo considerando que a justiça distributiva de Rawls é dinâmica, não estática, Perry entende que é possível compreender a justiça corretiva como parte do princípio básico de justiça e não como parte do arranjo distributivo do igualitarismo.118 Para Perry, como o esquema distributivo é indeterminado e não dá con ta completamente das relações pessoais, o princípio da justiça corretiva se revela como necessário.119 Contudo, Kordana e Tabachnick discordam dessa indeterminação do esquema distributivo de Rawls, pois nada impede que o esquema construído democraticamente sob as condições da posição original e dos princípios básicos da justiça se apresente como um esquema completo de maximização de autonomia e liberdade, o que denota o caráter supérfluo da justiça corretiva nos arranjos distributivos igualitaristas.120 A avaliação crítica de Kordana e Tabachnick parece acertada, pois as sim como é possível compreender que, nos arranjos distributivos de Rawls e Dworkin, seja com fundamentos nos princípios básicos de justiça ou no sistema de leilão e seguro, se estabeleça a possibilidade de aplicação da responsabilidade civil nos termos da justiça corretiva, nada impede que arranjos distributivos completos supram a ausência da justiça corretiva em um eventual esquema distributivo totalizante, pois, em nenhuma das teorias igualitaristas, há um comprometimento fundacional com a racionalidade corretiva. O comprometimento funcional é com a maximização de igualdade de oportunidades e liberdades. Nesse compasso, avaliado o funcionalismo centrado na justiça distributiva que caracteriza o Liberalismo-igualitarista de Rawls e Dworkin, cabe avaliar as correntes funcionalistas do Direito Social, de Direito e Economia e do Liberalismo-igualitarista como teorias fundantes da racionalidade do direito privado contemporâneo. 117 PERRY, op. cit., p. 243-244. 118 “Corrective justice should be conceived as an independent moral principle that operates w i thin the context o f distributivejustice, but not as a part o f it” (Id., ibid., p. 247). 1,9 Id., ibid., p. 260-261. 120 KORDANA e TABACHNICK, op. cit., p. 1297. 1 1 8 Fundamentos do direito privado • Dresch 2.5 Análise distributiva das questões centrais propostas O funcionalismo tem o que acrescentar sobre os casos propostos na intro dução do presente trabalho. A análise da decisão do Supremo Tribunal Federal, bem como a interpretação do caso do Mercador de Veneza, podem receber uma abordagem totalmente diversa daquela apresentada pelas análises formalistas explicitadas na seção 1.5. Iniciando com o julgado da constitucionalidade dos dispositivos da Lei Falimentar, nos três aspectos centrais da decisão, cumpre referir que, quanto à necessidade de lei complementar para fins de disciplina das matérias relativas aos direitos trabalhistas, a abordagem da Análise Econômica do Direito e a do Liberalismo-igualitarista parecem ter pouco a dizer, pois essa reserva se presta principalmente para fins de proteção de garantias aos bens considerados de maior relevância, como, por exemplo, a proteção ao trabalhador. Nesse aspecto procedimental justificado pela primazia do valor “trabalho”, o Direito Social poderia considerar como importante, pois destinado a garantir a proteção do mais fraco ou o equilíbrio de poder nas relações sociais. A Análise Econômica do Direito poderia considerar esse procedimento como não eficiente, eis que inibidor de políticas voltadas para a eficiência econômica. O Liberalismo-igua litarista talvez pudesse compreender, conforme Rawls, que, no segundo estágio das instituições (da Convenção Constituinte), no qual o véu da ignorância começa a cair, seria cabível uma norma constitucional, no sentido de garantir a proteção àqueles menos favorecidos na sociedade através da exigência de uma lei qualificada para fins de alteração de esquemas de distribuição em favor dos vulneráveis na sociedade. Contudo, como a decisão claramente demons tra, a reserva da matéria à lei complementar, definida constitucionalmente, restringe-se à matéria referente às despedidas arbitrárias e por justa causa.121 As divergências mais agudas, no entanto, surgem quando da análise dos outros dois pontos relevantes da decisão. Sobre os dispositivos que estabele cem a não sucessão dos débitos em relação ao adquirente de bens da massa,122 121 “Art. 7a São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: I - relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos; [...].” 122 “Art. 60. Se o plano de recuperação judicial aprovado envolver alienação judicial de filiais ou de unidades produtivas isoladas do devedor, o ju iz ordenará a sua realização, observado o disposto no art. 142 desta Lei. O direito privado com o justiça distributiva 1 1 9 as conclusões das correntes acima explanadas deveriam ser absolutamente opostas. O Direito Social, visando à proteção do mais frágil e ao equilíbrio de poder, jamais poderia admitir a não sucessão, que estaria sendo prejudicial aos trabalhadores, justamente o grupo de envolvidos mais prejudicado na oca sião das falências. A corrente de Direito e Economia, de outra banda, estaria plenamente de acordo com a decisão e os argumentos da maioria, no sentido de que a não sucessão é a saída mais eficiente em termos econômicos, pois cria incentivos à aquisição de bens da massa ou da empresa em recuperação, o que garantiria a continuidade da empresa ou um maior patrimônio a ser dividido entre os credores, inclusive, os detentores de créditos trabalhistas. Contudo, a afirmação de que, com essa decisão, todos sairiam ganhando ou, pelo menos, não perdendo, nos moldes delineados pelo critério de eficiência de Pareto e ou de Kaldor-Hicks, é falaciosa, pois é perfeitamente viável conce ber que os trabalhadores poderiam ser favorecidos se, em caso de aquisição, pudessem buscar o patrimônio dos adquirentes sucessores, seja na recuperação da empresa ou na sua extinção pela falência. Mesmo a alegação de que, sem essa regra, não haveria adquirentes e, portanto, sucessores, é frágil em termos consequendalistas, pois se trata de apenas uma suposição. As avaliações de aquisição dependem de vários fatores que extrapolam a existência ou não da regra de sucessão. O que a interpretação dada pelo Supremo Tribunal Federal cria, evidentemente, é um incentivo a mais para possíveis adquirentes, mas não pode determinar se, com a imposição da regra de sucessão, não ocorreriam Parágrafo único. O objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematante nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, observado o dis posto no § I o do art. 141 desta Lei. Art. 83. A classificação dos créditos na falência obedece à seguinte ordem: I - os créditos derivados da legislação do trabalho, limitados a 150 (cento e cinquenta) salários-mínimos por credor, e os decorrentes de acidentes de trabalho; [...) VI - créditos quirografários, a saber: [...) c) os saldos dos créditos derivados da legislação do trabalho que excederem o limite estabe lecido no inciso I do caput deste artigo; [ . . . ] Art. 141. Na alienação conjunta ou separada de ativos, inclusive da empresa ou de suas filiais, promovida sob qualquer das modalidades de que trata este artigo: [...) II - o objeto da alienação estará livre de qualquer ônus e não haverá sucessão do arrematan te nas obrigações do devedor, inclusive as de natureza tributária, as derivadas da legislação do trabalho e as decorrentes de acidentes de trabalho. 1 2 0 Fundamentos do direito privado • Dresch alienações de patrimônio da massa ou da empresa em processos de recupe ração ou falência. O liberalismo-igualitarista também tenderia a não aceitar a interpretação favorável à sucessão com base na premissa da primazia de direitos subjetivos sobre argumentos de utilidade, como os presentes na análise econômica men cionada. Se os direitos trabalhistas se enquadram nos direitos gerados pelos princípios da justiça ou pelo esquema leilão-seguro de Dworkin, é crível que argumentos centrados em utilidade não poderiam afetar a garantia de direitos individuais, ainda mais se fossem enquadrados como pertencentes aos bens primários, conforme conceituados por Rawls. Contudo, a divergência das análises funcionalistas deveria se acentuar quanto à possibilidade de classificação dos créditos trabalhistas, em parte, como créditos preferenciais (no montante de até 150 salários-mínimos) e, em parte, como quirografários (no montante excedente ao patamar de 150 salá rios), conforme preceitua o art. 83 da Lei Falimentar Brasileira. A análise de Direito Social não pode aceitar esse enfraquecimento do poder da classe dos trabalhadores. Com base nos critérios “solidariedade, fragilidade e equilíbrio de poder”, parece claro que a interpretação pela constitucionalidade viola os objetivos centrais que norteiam o Direito Social. Limitar os privilégios dos créditos trabalhistas acarreta o enfraquecimento dessa qualidade de credo res, inclusive, nas questões de gestão da recuperação ou da falência. Outra é a análise centrada na eficiência econômica. A escola de Direito e Economia tenderia a aceitar como constitucional a regra que cinde o crédito trabalhista, pois, numa análise em abstrato - que é uma dificuldade para o utilitarismo - , reduzir o privilégio de créditos trabalhistas aumenta a possibilidade de satisfa ção de créditos bancários, exemplificativamente, o que acaba por, diminuindo os riscos, reduzir os custos para a obtenção de capitale, portanto, o favored- mento das atividades produtivas. Contudo, poder-se-ia ir além nessa abordagem econômica e compreender que a regra que efetivamente atenderia à busca de eficiência econômica seria a do fim do privilégio dos créditos trabalhistas, o que, provavelmente, criaria ainda mais incentivos aos ofertantes de capital no mercado e, assim, uma maior redução dos custos das atividades empresariais. A corrente funcionalista que tenderia a concordar integralmente com a interpretação dada nesse aspecto da classificação dos créditos é a Igualitarista, pois, ao mesmo tempo em que se garantiriam os direitos subjetivos, atendendo aos denominados bens primários, considerando o caráter alimentar referido na decisão, seriam possíveis regras de diferença em favor de todos, ou seja, O direito privado com o justiça distributiva 1 2 1 os direitos subjetivos seriam respeitados, sobretudo, pela garantia de bens primários, e medidas tendentes a favorecer a todos, inclusive os “menos favo recidos”, estariam sendo admitidas. As diferentes abordagens mencionadas surgem exatamente pela diferença de finalidades eleitas por cada corrente fíincionalista. Se o Direito Social, focado no equilíbrio de poder, na proteção ao mais frágil e na solidariedade, tendesse a discordar de todas as interpretações dadas pelo Supremo Tribunal Federal, justamente invocando as funções sociais tão defendidas pelos filiados a esse entendimento, a Análise Econômica do Direito, focada na eficiência econômica, concordaria com todas as interpretações da maioria, talvez ressalvando que regras mais eficientes ainda pudessem ser institucionalizadas (como o fim integral do privilégio dos créditos trabalhistas). O Liberalismo-igualitarista, centrado na maximização de direitos e oportunidades, como mencionado, comportaria o entendimento de que não há necessidade de lei complementar para a finalidade de disposição sobre direitos trabalhistas; aceitaria a diferença de classificação de hierarquia dos créditos trabalhistas pela presrvação dos bens primários, mas não poderia aceitar a não sucessão dos adquirentes em relação às obrigações da empresa em recuperação ou da massa, que são justificadas tão somente em argumentos utilitaristas, alijando os argumentos centrados nos direitos subjetivos. Quanto ao universal exemplo da literatura mundial - o negócio celebrado entre Shylock e Antônio - , as soluções funcionalistas também divergiriam. O Direito Social, diante da vulnerabilidade de Antônio, que se encontra em situação falimentar em decorrência da perda de todas as suas embarcações, e considerando a necessária imposição da solidariedade, iria inviabilizar a exe cução da garantia de titularidade de Shylock, sem, inclusive, precisar recorrer ao estratagema de Pórcia. A corrente de Direito e Economia provavelmente teria uma resposta diversa; Shylock teria que ver reconhecida juridicamente sua garantia, de forma a manter a segurança nas relações negociais, para fins de manutenção dos incentivos à realização de contratos de empréstimos e ao cumprimento dessas obrigações consequentes, eis que configuram as escolhas racionais em termos de maximização da eficiência econômica. O próprio An tônio, o mercador, ressalta a importância da efetivação da garantia em termos de eficiência econômica: SALARINO - Tenho quase a certeza de que o doge não deixará vingar esse contrato. 1 2 2 Fundamentos do direito privado • Dresch ANTÔNIO - Poder não tem o doge para o curso da lei deter. Se fossem denegados aos estrangeiros todos os direitos que em Veneza desfrutam, abalada ficaria a justiça da república, pois o lucro e o comércio da cidade se baseiam só neles. Pois que seja! As perdas e os desgostos de tal modo me abateram, que mui dificil mente ficarei amanhã com uma libra de carne, para resgatar a conta de meu feroz credor. Sigamos, guarda! Se Deus fizesse que Bassânio viesse ver-me no instante de pagar-lhe a dívida, tudo o mais me seria indiferente.123 O Liberalismo-igualitarista não poderia concordar com a execução da garantia por Shylock, pois a medida violaria o bem individual (direito à inte gridade física e à vida) que todos iriam querer estipular no estágio de justiça procedimental (Posição Original) em que se daria a escolha dos princípios bá sicos da justiça. Os direitos à integridade física e à vida seriam racionalmente escolhidos como parte do primeiro princípio rawlsiano. Por conseguinte, nenhuma das teorias funcionalistas pode aceitar e explicar integralmente os aspectos das decisões dadas nos casos da análise da constitu- cionalidade dos créditos trabalhistas na legislação falimentar e da garantia de uma libra de carne do corpo do Mercador de Veneza. Assim, no Capítulo 3, será apresentada uma compreensão do direito privado que perceba e fundamente cada aspecto das decisões que estão sendo abordadas. 123 SHAKESPEARE, op. cit., Ato III, Cena III. O direito privado na divisão complexa da justiça Quando alguém com preende que é contrário a sua dignidade de homem obedecer a leis injustas, nenhuma tirania pode escravizá-lo. G a n d h i, M o h a n d a s 1 2 4 Fundamentos do direito privado • Dresch Na introdução deste estudo, foi apresentada uma hipótese para o pro blema da dicotomia entre fundamentos de racionalidade centrados na justiça comutativa e na justiça distributiva. Como foi possível observar nos capítulos anteriores, enquanto uma visão construída pela Escola do Direito Natural de Grócio, Pufendorf, dentre outros, desenvolvida, sobretudo, pela Escola Histórica do Direito de Savigny e Puchta e retomada por formalistas contemporâneos como Weinrib, acabou por sistematizar o direito privado e suas normas pensadas fundamentalmente pelos romanos, nos termos de uma racionalidade formalista, basicamente de justiça comutativa; em meados do século XDÍ, outra visão surge na tradição de direito privado, que vai se caracterizar por uma racionalidade não mais formalista e comutativa, mas uma racionalidade funcional direciona da a objetivos sociais, principalmente coletivos, possíveis através de arranjos distributivos. O funcionalismo apresentou diversas vertentes, também aqui exploradas: o Direito Social, a Análise Econômica do Direito e o Liberalismo- -Igualitarista, que desenvolveram uma compreensão da racionalidade do direito privado nos termos da justiça distributiva, seja concentrando o direito privado na redução das desigualdades sociais, na maximização da riqueza ou na maximização de igualdade de direitos e oportunidades; o direito privado passou a ser entendido como uma ferramenta para obtenção de fins coletivos, muitas vezes, conflitantes e cerceadores dos direitos individuais. Diante da retomada do formalismo, em termos contemporâneos, com pensadores como Ernest Weinrib - que, na realidade, objetiva um resgate das características que seriam especiais do direito privado - , o debate se acirrou. Hoje, o estudo do direito privado se encontra nessa condição de crise de racionalidade, de identidade, de especificidade, que desafia todos aqueles que entendem que o direito privado se constitui num ramo destacado do direito, detentor de uma racionalidade própria que lhe define e lhe relaciona complementarmente com o direito público. A crise pode ser considerada tão relevante que alguns privatistas abandonaram a tentativa de encontrar uma compreensão total, um mapa da racionalidade do direito privado, concluindo que o direito privado pode ser entendido a partir de diversas racionalidades e princípios não necessariamente passíveis de uma compreensão totalizante. Nesse sentido, cabe referir a compreensão de Waddams sobre essa complexi dade de racionalidadesque permeia o direito privado na atualidade.1 1 “T\vo consequences fo llow on these complexities: it has not been possible to explain Anglo- American private law in terms o f any single concept, nor has any map, scheme, or diagram proved satisfactory in which the concepts are separated from each other, as on a two-dimensional plane. O direito privado na divisão com plexa da justiça 1 2 5 Diante da complexidade de esquemas de racionalidade2 que se apresentam como aparentemente incomensuráveis entre si, abrem-se duas possibilidades. A primeira é a de tomar essa complexidade de forma assistemática, como pro põe Waddams,3 aceitando que vários princípios e dimensões, aparentemente aleatórios, fornecem as bases de racionalidade jurídica4 ou, de alguma forma, é necessária a compreensão de uma ordem para além das teorias rivais em conflito. A hipótese, aqui defendida, para a superação dessa complexidade refletida, sobretudo, na inviabilidade de compatibilização das teorias forma- listas, fundonalistas sociais e funcionalistas econômicas acima expostas, está centrada em um elemento compartilhado por todas elas: a teoria da justiça. O problema central identificado é justamente decorrente da perda da relação do direito com a teoria da justiça ocorrido a partir da Escola do Direito Natu ral, pois, para se desvincular da metafísica da Antiguidade, o jusnaturalismo moderno operou gradativamente uma desconexão que afetou toda a teoria da justiça, mas, de forma mais decisiva, praticamente erradicou o sentido primeiro de justiça, a justiça geral, das análises jusprivatistas. A estratégia The idea o f mapping can not be entirely discarded, and it owes its attraction partly to the fact that it is understood in many different ways, some o f which are essential to the organization o f thought. But in so far as it implies a separation o f legal concepts from each other, or the assign ment o f each legal issue to one concept alone, it is apt to distort an understanding o f the past, and consequently also o f the present.” WADDAMS, Stephen. Dimensions o f private law: categories and concepts in anglo-american legal reasoning. New York: Cambridge University Press, 2003. p. 226. 2 Sobre a visão pluridimensional de Waddams cabe consultar as seguintes revisões críticas: SAMUEL, Geoffrey. Can the Common Law be Mapped? The University o f Toronto Law Journal, v. 55, n° 2, Spring, p. 271-297, 2005; BEEVER, Allan; RICKETT, Charles. Interpretive legal theory and the Academic Lawyer. The Modem Law Review, v. 68, n° 2, p. 320-337, Mar. 2005. 3 N o mesmo senddo de Waddams parece ser a posição mais recente de George Fletcher: “In this paper, I address some o f the difficulties o f reducing tort law to a few basic principles. I shall sidestep economic approaches to law and concentrate on claims o f principle inspired by considerations o f fairness both to the victim and to the injuring defendant. The exposition reflects the more general tension between normative and interpretative argument. A t times I shall be addressing arguments fo r reforming the law; at times, principles and perspectives implicit in the common law. In the course o f the discussion, I shall criticize both Epstein’s and my own p rio r work and, in general, stress the im pediments that mark the pursuit o f order and coherence in to rt theory” (FLETCHER, op. cit., p. 64). 4 Poder-se-ia referir que a posição de Waddams tem um fundamento histórico, pois, como é sabido, o direito romano e o direito medieval não indagavam de uma sistematização racionalista do direito, que a sistematização totalizante seria uma obsessão moderna. Contudo, cabe lembrar que, apesar de os romanos não buscarem uma sistematização do direito, sempre o relacionaram com o seu fundamento de justiça e esta, sim, era compreendida nos termos primeiramente aris- totélicos, estoicos e, posteriormente, cristãos, visto que, na ordem da polis e da cidade de Deus, a ordem prévia da justiça geral tem caráter fundamental. 1 2 6 Fundamentos do direito privado • Dresch aqui aplicada, por conseguinte, busca trabalhar com um dado esquecido, mas importante, da teoria da justiça que, reitera-se, apresenta uma racionalidade tratada pelas diversas correntes do formalismo e do funcionalismo, como foi possível demonstrar nos capítulos anteriores. A análise da teoria da justiça, entretanto, é apresentada de forma mais complexa do que as análises formalistas ou funcionalistas que vêm sendo apresentadas pelos defensores das correntes rivais, pois busca a retomada da importância da justiça geral até sua conformação atual em justiça social. A vi são complexa da teoria da justiça, para além da dicotomia justiça comutativa e justiça distributiva, visa justamente a resgatar um sentido de justiça que articula os seus diversos sentidos, que agrega substância e não apenas forma ao direito privado. A justiça distributiva e a justiça comutativa, na realidade, fornecem apenas formas de racionalidade para o justo nas relações, não dizem nada so bre o conteúdo diretamente. É possível engendrar racionalidades distributivas e comutativas em sistemas absolutamente injustos. Nesse compasso, agora se revela o momento de retomar as indagações iniciais apresentadas na introdução. Novamente, imagine aquele exemplo hipotético de um dado Estado que institui como critério de distribuição de direitos de propriedade sobre bens imóveis o pertencimento a uma etnia; imagine que todos aceitem ou se calem frente a essa distribuição, que é aplicada com total eficiência. A racionalidade distributiva estaria satisfeita! Mas e a justiça distributiva? Agora, novamente, retome o outro exemplo hipotético. Um Estado define uma liberdade plena de disposição sobre o corpo. Contratos são celebrados para aquisição de órgãos humanos, de rins, córneas e corações. As prestações são cumpridas com perfeição - dinheiro por rim. A racionalidade comutativa teria sido efetivada plenamente! E a justiça comutativa? O problema com a distribuição e a comutação que salta aos olhos nos exemplos propostos reside no caráter formal das espécies de justiça particular sem a prévia fundação da justiça geral. Com efeito, fundamentos de justiça substantiva não são fornecidos primordialmente pelas formas de justiça particular, pois esta é complementar, ela estrutura racionalmente a matéria consubstanciada pela justiça geral.5 A justiça geral, como será demonstrado 5 Esclarecedora é a explicação de Michelon sobre o aspecto formal da justiça particular e a conferência de substância pela ordem legal positiva: “Jt informs law form ally i f it lends models o f intelligibility without which law could not be appropriately understood. 5 In this form al informa tion ' conception, particular justice does not lend any substance to law; instead, positive law is the O direito privado na divisão com plexa da justiça 1 2 7 abaixo, é a que apreende o bem primeiramente e define a estrutura legal, conformando a justiça particular. A proibição de alienação de órgãos é um dado prévio, ao qual as comutações devem se adequar; assim como é a justiça geral que define o princípio da isonomia, vedando tratamento desigual com base no critério “etnia” ou “raça” para a obtenção de um direito de proprieda de, o que determina o caráter injusto da distribuição acima citada. Tais bens que integram o bem público a ser estruturado pelas leis na forma da justiça geral são, nos sistemas jurídicos contemporâneos, fixados pela Constituição. A Constituição, portanto, é na atualidade o instrumento principal de ordenação da justiça geral, visto que a lei moral e a lei religiosa perderam muito de seu caráter ordenador do bem público na modernidade.6 Nesse sentido,Cláudio Michelon salienta o caráter formal, não substancial, da justiça distributiva e da justiça comutativa, ao tratar da aplicação desses sentidos de justiça no direito do consumidor: Não se acredita que o fundamento do direito do consumidor possa ser redu zido a um desses dois aspectos da justiça particular. Justiça corretiva e jus tiça distributiva não são concepções completas de justiça, ou seja, não são princípios que regulam certas relações sociais. As formas de justiça particular são dois esquemas interpretativos, irredutíveis um ao outro, e essenciais para a compreensão das decisões de uma comunidade política, em particular do direito dessa comunidade política. Do esquema interpretativo que denomina mos ‘justiça distributiva, por exemplo, não se pode derivar nenhum esquema de alocação de recursos. Para que isso seja possível são necessários argumen tos sobre os critérios de distribuição, ou seja, o ‘mérito’ de Aristóteles, que devem ser aplicados a cada tipo de relação social, sobre o escopo da justiça substance to which the classes o f particular justice apply. In that sense, law is not simply positive law, but positive lawunder the classes o f particular justice. According to this view this is the conceptual connection between law and justice; as fo rm and substance are conceptually interdependent, and can only be analytically separated, so would law and the classes o f particular justice be” (MICHELON, Claudio. The Virtuous Circularity between Positive Law and Particular Justice. Working Paper Series, University o f Edinburgh, School o f Law, n° 2.011/11, 2010. p. 5. Disponível em: chttp:// ssm.com/abstract=1791807>. Acesso em: 18 nov. 2010). 6 Nesse contexto, vide a análise da secularização por Taylor: “Democracy and human rights are conceived as inseparable from a view o f humans as innocent o r fundamentally good by nature. The proper political order can only thrive i f it acknowledges and celebrates this nature, and the virtues which belong to it. Religion, particularly the Christian doctrine o f original sin, cannot but under mine it, sap its foundations. The free society must inculcate a philosophy, and build an imaginary, which is grounded in exclusive humanism” (TAYLOR, Charles. The secular age. Kindle’s Edition. Massachusetts and London: The Belknap Press o f Harvard University Press Cambridge, 2007. Location: 6.602). 1 2 8 Fundamentos do direito privado • Dresch distributiva. Todavia, o conceito de justiça distributiva ajuda a compreender esses princípios substantivos de justiça presentes nas decisões de uma comu nidade política como uma unidade de sentido. Sem o esquema interpretativo da justiça distributiva, algumas decisões alocativas na comunidade política não seriam propriamente compreendidas. O mesmo vale para o esquema interpre tativo da justiça corretiva. Mas essas decisões não são fundadas em qualquer das formas de justiça particular.7 Como a justiça geral se transforma em justiça social e é incorporada às constituições de forma a consubstanciar a justiça particular, é o primeiro tema a ser enfrentado. Posteriormente, se faz necessário analisar o problema central abordado: a maneira pela qual a justiça social constitucional estrutura o bem público, fornecendo o conteúdo conformador da justiça particular e estrutu- rante do direito privado. 3.1 A justiça geral e legal como antecedentes da justiça social na teoria da justiça De forma sucinta, em função da extrema complexidade e abrangência do tema, será apresentada a origem da justiça social a partir da justiça geral. Com base num esquema próximo ao traçado por Barzotto,8 a compreensão dessa transformação passa por caminho com as seguintes etapas: a primeira, da justiça geral em Aristóteles: a segunda, da justiça legal de Tomás de Aquino; e a terceira, da justiça social moderna da igual dignidade e reconhecimento. No livro V da Ética a Nicômaco, o primeiro sentido descrito por Aristóteles é o da justiça geral, definido com base no critério ‘legalidade” . Segundo Aristó teles, a lei pode ser de dois tipos: a lei comum, que tem caráter universal, e a lei particular decorrente da polis.9 A atividade política tem por fim a percepção do bem comum e a conformação das leis, de maneira a direcionar a ação de cada 7 MICHELON, Cláudio. Fundamentos econômicos e não econômicos da defesa do consumidor. Working papers, University o f Edinburgh, School o f Law, series n° 2.010/11, 2010, p. 6. 8 BARZOTTO, Luis Fernando. Filosofia do D ire ito : os conceitos fundamentais e a tradição jusna- turalista. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. Em especial, p. 81-88. 9 “Entendemos por cometer injustiça causar dano voluntariamente em violação da lei. Ora a lei ou é particular ou comum. Chamo particular à lei escrita pela qual se rege cada cidade; e comuns, às leis não escritas, sobre as quais parece haver um acordo unânime entre todos” (ARISTÓTELES. Retórica. TYadução Manuel Alexandre Júnior. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1998. p. 80). O direito privado na divisão com plexa da justiça 1 2 9 cidadão ao bem. A justiça geral será compreendida como a virtude plena,10 pois ela se configura justamente pelo respeito a essa ordem legal estruturada, de forma a alcançar o bem comum. Considerando que o bem comum é, ao mesmo tempo, o bem de todos e o bem de cada um, as ações que se coadunam com essa ordem legal definida em decorrência do bem são ações virtuosas, eis que direcionadas ao bem individual e ao bem da comunidade. Aristóteles refere, ainda, a existência de uma lei comum e de uma lei particular, mencionando que a lei particular tem primazia sobre a lei comum, a justiça, portanto, seria em parte decorrente da natureza humana e, em parte, decorrente do contexto político.11 Assim, para Aristóteles a justiça legal estabelece uma ordem mutá vel, mas essa mutabilidade é também relativa, pois existem regras de justiça que não são meramente convencionais, uma vez que decorrem da referida lei comum (natural às relações humanas): Algumas pessoas pensam que as regras de justiça são meramente convencio nais porque enquanto uma lei da natureza é imutável e tem a mesma valida de em todos os lugares, como o fogo que queima tanto aqui como na Pérsia, observa-se que as regras de justiça variam. Afirmar que as regras de justiça variam não é verdadeiro em termos absolutos, mas apenas com a presença de [certas] qualificações. Com efeito, talvez entre os deuses seja verdadeiro de modo algum; mas em nosso mundo, embora haja isto que chamamos de justiça natural, todas as regras de justiça são variáveis.12 A justiça geral, nessas condições, não representa a finalidade em si, mas apenas um meio para a realização do bem de todos os participantes da comu nidade, de modo que ela deve se estruturar de forma a lidar com as ações e a natureza humanas. A justiça geral, assim, pode ser efetivada com a presença dos seguintes elementos: (1) percepção do bem da comunidade (definição do fim ); (2) 10 É importante destacar que há uma diferença entre a virtude e a justiça, pois a justiça é a disposição da alma praticada especificamente em relação ao próximo e a virtude é a disposição da alma irrestrita. Nesses termos: “ [...] a justiça é a virtude perfeita por ser ela a prática da vir tude perfeita, além do que é perfeita num grau especial porque seu possuidor pode praticar sua virtude dirigindo-a aos outros e não apenas sozinho, pois há muitos que são capazes de praticar a virtude nos seus próprios assuntos privados, mas não são capazes de fazê-lo em suas relações com outrem [...]” (Id. Ética a Nicômaco. Livro V ponto 1, p. 13). 11 Id., ibid., Livro y ponto 7, p. 151-152. 12 ARISTÓTELES, op. cit.,