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SEMINÁRIO PRESBITERIANO DO SUL 
 
 
THIAGO MACHADO SILVA 
 
 
 
 
 
 
 
LEI E GRAÇA: A PERSPECTIVA DE PAULO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Campinas 
2012 
	
  
	
   2 
THIAGO MACHADO SILVA 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
LEI E GRAÇA: A PERSPECTIVA DE PAULO 
 
 
Monografia entregue ao Seminário 
Presbiteriano do Sul como parte do requisito 
para a obtenção do grau de Bacharel em 
Teologia. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Campinas 
2012 
	
  
	
   3 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
 
 Si38L SILVA, Thiago Machado 
 Lei e Graça: A perspectiva de Paulo / Thiago 
Machado. – Campinas, 2012. – 60 f. 
 
 Monografia – Seminário Presbiteriano do Sul. 
Graduação. Curso de Teologia. 
Orientador: Prof. Ms. Carlos Henrique Machado 
 
 1. Teologia Moral – Leis e bases da moralidade 2. 
Salvação – graça - justificação I. Título 
 CDD 241.2 
 234.7 
 
 
 
 
	
  
	
   4 
AGRADECIMENTOS 
 
À Deus por ter escolhido desde o ventre de minha mãe para ser um discípulo de 
Jesus Cristo, por ter me chamado para o ministério da Palavra e me sustentado durante 
os quatro anos no seminário. 
À minha esposa, Lidia, que é o meu braço direito e tem me dado toda a força no 
desempenho do ministério para o qual fui chamado. 
Aos meus pais, Alceu e Flávia, por terem me ensinado o caminho em que devo 
andar e me educado no evangelho de Jesus Cristo. 
Ao meu tutor, Rev. Misael, com quem tenho aprendido muito sobre o ministério 
pastoral e a vida da igreja, e que muito me auxiliou e me encorajou no desenvolvimento 
deste trabalho. 
Ao meu orientador, Rev. Carlos Henrique Machado, por ter me orientado com 
toda paciência durante este ano, tanto no desenvolvimento da monografia quanto nos 
meus planos e projetos de ministério. 
Á Cláudia, que tem acompanhado todo o meu processo de formação e que foi a 
revisora deste trabalho. 
Aos meus amigos de seminário: Ricardo, Will e Eun (koreano) que me 
proporcionaram, nestes quatro anos, momentos de aprendizagem, amizade, boas 
experiências e muita alegria. 
E por último, mas não menos importante, a todos os meus professores do 
Seminário Presbiteriano do Sul, que foram aqueles que contribuíram para o meu preparo 
teológico e que me deram os recursos necessários para o desenvolvimento do chamado 
que Deus colocou sobre a minha vida. 
A todos vocês, o meu muito obrigado! 
 
	
  
	
   5 
 
RESUMO 
 
Com base no capítulo XIX da Confissão de Fé de Westminster, aborda o tema 
Lei e Graça: A perspectiva de Paulo. Faz uma análise da carta de Paulo aos gálatas, 
baseado em João Calvino e Martinho Lutero observando a teologia paulina sobre Lei e 
Graça e como nós, reformados, interpretamos esta doutrina. Aborda a “Nova 
Perspectiva de Paulo” baseado em Dunn e Sanders, para ver o que eles tem ensinado e 
quais são os pontos de divergência entre a perspectiva tradicional e esta nova 
perspectiva. Procura responder biblicamente aos pontos fracos desta Nova Perspectiva 
de Paulo. Propõe-se a responder a pergunta: Para quê serve a lei se vivemos na era da 
graça? De acordo com a teologia reformada e de uma maneira prática, mostra qual a 
maneira correta de lidarmos com a lei. 
Palavras-chave: Lei. Graça. Gálatas. Paulo. Nova Perspectiva de Paulo 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
	
  
	
   6 
ABSTRACT 
 
Based on chapter XIX of Westminster Confession of Faith, it approaches the 
theme: Law and Grace: The Perspective of Paulo. Makes an analysis of Paul's letter to 
the Galatians, based on John Calvin and Martin Luther observing the Pauline theology 
on Law and Grace, and how the reformed people can interpret this doctrine. Discusses 
the "New Perspective of Paul" based on Dunn and Sanders to see what they have taught 
and what are the divergence points between the traditional perspective and this new 
perspective. It seeks to respond biblically to the weaknesses points of this New 
Perspective of Paul. It is proposed to answer the question: Is the law useful in an age of 
grace? According to Reformed theology and In a practical way, it shows the proper way 
to deal with the law. 
Keywords: Law. Grace. Galatians. Paul. The New Perspective on Paul. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
	
  
	
   7 
SUMÁRIO 
 
Introdução ......................................................................................................... 09 
 Base Confessional ............................................................................................... 11 
1. Lei e Graça: uma abordagem baseada em Gálatas ................................... 16 
 1.1 O contexto ..................................................................................................... 16 
 1.2 Gálatas 1 e 2 ................................................................................................. 18 
 1.3 Gálatas 3 ....................................................................................................... 22 
 1.4 Gálatas 4 ....................................................................................................... 25 
 1.5 Gálatas 5 ....................................................................................................... 26 
 1.6 Gálatas 6 ....................................................................................................... 28 
 1.7 Conclusões de Lutero e Calvino ................................................................... 30 
2. A Nova Perspectiva de Paulo ........................................................................ 34 
 2.1 Os principais expoentes ................................................................................ 34 
 2.1.1 E. P. Sanders ................................................................................................ 35 
 2.1.2 James Dunn .................................................................................................. 37 
 2.2 Gálatas 2.16 .................................................................................................. 38 
 2.3 “Obras da lei” ............................................................................................... 40 
 2.4 As fraquezas da Nova Perspectiva de Paulo ................................................. 44 
3. A importância da lei na era da graça ......................................................... 48 
 3.1 O tríplice uso da lei ....................................................................................... 48 
 3.2 Dois perigos que devemos evitar .................................................................. 50 
 3.2.1 Legalismo .................................................................................................... 50 
 3.2.2 Antinomismo ............................................................................................... 51 
 3.3 O ponto de equilíbrio .................................................................................... 53 
 3.4 A graça nos capacita a cumprir a lei ............................................................. 54 
 3.5 A lei de Cristo ............................................................................................... 57 
4. Considerações finais ......................................................................................63 
Referências ......................................................................................................... 69 
 
 
 
	
  
	
   8 
PREFÁCIO 
 
Escrevo este prefácio com alegria e profundo senso de privilégio. 
O Thiago é um autêntico servo de Cristo, irmão e amigo cuja vida tem 
abençoado a Igreja Presbiteriana Central de São José do Rio Preto. Seu trabalho sobre a 
doutrina bíblica da Lei e da Graça é uma contribuição muito bem-vinda, especialmente 
por enquadrar, sob a verdadeira perspectiva do apóstolo Paulo, a chamada "Nova 
Perspectiva". Thiago mostra que é falsa a pressuposição da Nova Perspectiva, de que os 
estudiosos, desde a Reforma, leem Gálatas (e Romanos) com as lentes de Calvino e 
Lutero. Sua monografia demonstra, com acuidade, que a teologia dos escritos paulinos 
acomoda a ênfase tradicional da justificação articulada pelos pais reformadores. 
Minha oração é que Deus continue usando o Thiago como ministro fiel do 
evangelho, que é o anúncio transformador de Deus alcançando seus eleitos somente pela 
graça. 
Rev. Misael Batista do Nascimento, D.Min. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
	
  
	
   9 
Introdução 
 
Escreveu o apóstolo João: “Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a 
graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo” (João 1.17). Na economia 
de Deus, a lei foi exposta em primeiro lugar e a graça posteriormente. O 
Antigo Testamento é dominado pela grande realidade da lei de Deus, tal 
como o Novo Testamento é dominado pela graça de Deus. Porém, como 
relacionar a graça com a lei, visto que a lei veio antes da graça?16 
 
 
Esta monografia tem como título “Lei e Graça: A perspectiva de Paulo”; ao 
enfatizar a natureza do trabalho, busca-se compreender a doutrina da lei e graça, tendo 
como fonte a Palavra de Deus, e mais especificamente o apóstolo Paulo, que foi quem 
mais escreveu e teceu interpretações acerca desta doutrina. 
A doutrina da lei e graça tem sido alvo de debates entre teólogos, e através dos 
anos têm surgido movimentos para tentar explicar o assunto. Alguns afirmam a lei em 
detrimento da graça e tornam-se legalistas17, outros desprezam a lei em função da graça, 
tornando-se antinomistas18. Nosso objetivo é dar uma interpretação bíblica acerca da lei 
e graça. 
O legalismo estava tomando conta da religião judaica na época de Paulo, e por 
esta causa veio a advertência aos gálatas que começaram a pensar que precisavam 
acrescentar coisas à fé em Cristo, como a circuncisão: “De Cristo vos desligastes, vós 
que procurais justificar-vos na lei, da graça decaístes.” (Gálatas 5.4). O legalismo 
contradiz a graça de Deus, porque busca aceitação e retidão mediante a religiosidade e 
as obras da lei. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
16 PACKER, J. I. Vocábulos de Deus. São José dos Campos: Editora Fiel, 1994, p. 93. 
17 O principal grupo de legalistas é o dos fariseus, e podemos ver em Mateus 23.1-36 Jesus indo contra o 
legalismo deste grupo religioso. Hoje existem movimentos como a Igreja Adventista do Sétimo Dia que 
caíram no perigo do legalismo. 
18 “O antinomismo foi endossado por alguns gnósticos na Igreja Primitiva, por alguns sectários na Idade 
Média e na época da Reforma, pelos anabatistas [...] Apareceu posteriormente em algumas seitas na 
Inglaterra e continua sendo advogada por alguns grupos sectários nos Estados Unidos.” TENNEY, 
Merrill [org]. Enciclopédia da Bíblia: Cultura Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, vol.1, 2008, p. 338. 
	
  
	
   10 
J. I. Packer afirma que confiar nas próprias obras, juntamente com a obra de 
Cristo para a salvação, desonra-o, deturpa a graça e priva a pessoa da vida eterna.19 
“Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que morreu 
Cristo em vão.” (Gálatas 2.21). 
Por outro lado, é necessário tomar cuidado para não desprezar totalmente a lei 
em função da graça, privando-nos de uma leitura de oposição entre elas. Dizer que o 
cristão vive na era da graça e, por isso, não tem qualquer relação com a lei é uma falácia. 
Dessa maneira, podemos cair em uma heresia denominada antinomismo20, que é a 
negação da lei em função da graça. O antinomismo, em oposição ao legalismo, afirma 
que a lei não tem nenhum papel a desempenhar na vida do cristão, e enquanto o 
legalismo exalta de tal maneira a lei, que chega a excluir a graça, o antinomismo exalta 
de tal maneira a graça a ponto de perder de vista a lei, como uma regra de vida. 
No séc. XVI, os reformadores foram acusados pelos católicos de antinomistas, 
pois eram vistos como contrários à lei de Deus. Martinho Lutero, que deu uma ênfase 
muito grande à graça de Deus, foi contra as obras da lei praticadas pela Igreja Católica e 
com isso, foi mal interpretado.21 Desde a época da Reforma, têm surgido movimentos 
tentando explicar a questão da lei e graça, mas sempre enfatizando um ou outro, de 
forma excludente. 
No séc. XIX, surgiu um movimento chamado dispensacionalismo, que 
caracterizava a lei como a forma de salvação no período de Moisés, no Antigo 
Testamento, e o evangelho (a graça), como forma de salvação na dispensação da igreja, 
no Novo Testamento. Este movimento continua a influenciar cristãos até os dias de 
hoje.22 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
19 PACKER, 1994, p. 93. 
20 Ibid. 
21 MEISTER, Mauro. Lei e Graça. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 73. 
22 Ibid., p. 74. 
	
  
	
   11 
Recentemente, tem surgido um movimento denominado “Nova Perspectiva de 
Paulo”, que faz uma crítica e discorda da visão reformada de como o apóstolo Paulo 
interpretava essa doutrina para o judaísmo do séc. I. Qual será a validade da lei na época 
da graça? 
Mauro Meister afirma que “as implicações da forma como entendemos a relação 
entre lei e graça vão muito além do aspecto puramente intelectual. Esse entendimento 
vai, na verdade, determinar toda a forma como alguém enxerga a vida cristã e que tipo 
de ética esse cristão irá assumir em sua caminhada.”23 Por isso, o objetivo geral do 
trabalho é trazer uma maior compreensão sobre a maneira como lidamos com a lei de 
Deus na era da graça, e como interpretamos o apóstolo Paulo, principalmente quando 
lemos Gálatas, para que possamos assumir uma postura correta em nossa caminhada 
como cristãos. 
 
Base Confessional 
 
O capítulo da Confissão de Fé de Westminster (CFW) que tomaremos como 
base é o XIX – Da Lei de Deus, uma vez que este traz um panorama geral dos usos e 
costumes da lei escrita dada por Moisés: leis cerimonial, civil e moral. Encerraremos 
com o parágrafo VII que diz que os “usos da lei não são contrários à graça do 
Evangelho...”24 
Antes de mais nada, é necessário compreender o que a CFW chama de pacto das 
obras e pacto da graça. O pacto das obras foi o pacto que Deus fez com Adão, e nos 
termos da CFW, capítulo XIX, parágrafo I, “por este pacto, Deus o obrigou, bem como 
toda sua posteridade, a uma obediência pessoal, inteira, exata e perpétua; promete-lhe a 
vida sob a condição dele cumprir a lei e o ameaçou com a morte no caso dele violá-la; e23 MEISTER, 2003, p. 26. 
24 Símbolos de fé: Confissão de Fé, Catecismo Maior e Breve / Assembléia de Westminster. São Paulo: 
Cultura Cristã, 2005. 
	
  
	
   12 
dotou-o com o poder e capacidade de guardá-la.”. No entanto, esse é o pacto que operou 
antes da Queda de Adão e Eva, em Gênesis 3. 
Berkhof25 aponta algumas diferenças entre o pacto das obras e o pacto da graça, 
e dentre elas destacamos: 
1. O pacto das obras dependia da incerta obediência do ser humano, enquanto o 
pacto da graça repousa na obediência de Cristo como Mediador; 
2. No pacto das obras a guarda da lei é o caminho para a vida, no pacto da graça 
o caminho para a vida está na fé em Jesus Cristo; 
3. No pacto das obras, o homem comparece diante de Deus como criatura, e não 
há um mediador, ao passo que no pacto da graça, o homem comparece diante de Deus 
como um pecador, mas esse comparecimento se dá mediante um mediador, que é Cristo. 
Adão e Eva viveram originalmente sob o pacto das obras e dependiam da 
obediência à lei dada por Deus em Gênesis 2.17 (“Mas da árvore do conhecimento do 
bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”) 
Quando desobedeceram à lei, incorreram na maldição do pacto das obras, a morte. A 
partir disso, entra em ação o pacto da graça, que é a “manifestação graciosa e 
misericordiosa de Deus, aplicando a maldição do Pacto das obras à pessoa de seu Filho, 
Jesus Cristo, fazendo com que parte da sua criação, primeiramente representada em 
Adão, e agora representada por Cristo, pudesse ser redimida.”26 
É interessante notar que a lei, antes da Queda, não se resumia apenas à ordem de 
não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Existem outras leis, 
como a que lemos em Gênesis 1.28 (“E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, 
multiplicai-vos, enchei a terra e sujeita-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves 
dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra.”). 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
25 BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Trad. Odayr Olivetti. 3 Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, 
p. 253. 
26 MEISTER, 2003, p. 31. 
	
  
	
   13 
A revelação da lei de Deus expressa de forma objetiva foi dada nos tempos de 
Moisés, e a CFW divide os muitos aspectos da lei de Deus em três tipos de leis: lei 
moral, civil e cerimonial. É importante entendermos essas divisões para sabermos o 
contexto em que cada lei é dada e em que tipo de lei estamos pensando, quando falamos 
em Lei. 
1. A lei moral representa a vontade de Deus para a humanidade, no que diz 
respeito ao comportamento e aos seus principais deveres. Tem a finalidade de deixar 
claro ao ser humano quais são seus deveres, auxiliando-o a discernir entre o que é bom e 
o que é mau.27 Nos parágrafos II e III do capítulo XIX da CFW, afirma-se que a lei 
moral aponta para os dez mandamentos dados a Moisés. Ao contrário do que os 
antinomistas afirmam, negando qualquer tipo de obediência à lei moral, a CFW nos 
ensina que a lei moral, ao contrário da civil e cerimonial, não tem tempo e nem lugar e 
ainda é válida como um orientador para a vida. 
Observe o que o Catecismo Maior de Westminster entende por lei moral 
(pergunta 95): 
“Qual é o uso da lei moral para todos os homens?” 
 
Resposta: A lei moral é de uso para todos os homens, para informá-los sobre 
a natureza santa de Deus e sua vontade, e de sua tarefa, constrangendo-os a 
andarem conformemente; para convencê-los da sua incapacidade em guardá-
la e da poluição pecaminosa de sua natureza, de seus corações e vidas; para 
humilhá-los no sentido de seu pecado e miséria e, desse modo, guiá-los para 
uma visão mais clara da necessidade de Cristo e da perfeição de sua 
obediência.” 
 
 
2. A lei civil representa a legislação dada à nação de Israel, definindo, por 
exemplo, o que é crime e o que não é. Seu objetivo é regular a sociedade civil do estado 
teocrático de Israel, apresentando os direitos e deveres de cada cidadão. Como a própria 
CFW afirma no parágrafo IV do capítulo XIX, a Lei Civil terminou com aquela 
nacionalidade. Como exemplo da lei civil temos o relato de Números 35.6-12: 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
27 MEISTER, 2003, p. 54. 
	
  
	
   14 
Das cidades, pois, que dareis aos levitas, seis haverá de refúgio, as quais 
dareis para que, nelas, se acolha o homicida; além destas, lhes darei quarenta 
e duas cidades [...] Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando passardes o 
Jordão para a terra de Canaã, escolhei para vós outros cidades que vos sirvam 
de refúgio, para que, nelas, se acolha o homicida que matar alguém 
involuntariamente. Estas cidades vos serão para refúgio do vingador do 
sangue, para que o homicida não morra antes de ser apresentado perante a 
congregação para julgamento. 
 
 
3. E lei cerimonial ou religiosa28, representa a legislação levítica do Antigo 
Testamento, como os sacrifícios e os simbolismos religiosos. Ela é cercada de símbolos, 
sinais e rituais que distinguiam o povo escolhido de Deus dos outros povos. Sua 
finalidade era imprimir no homem a santidade de Deus e apontar para Cristo.29 Sendo 
assim, a lei cerimonial foi cumprida com a vinda de Jesus Cristo no Novo Testamento. 
O parágrafo III do capítulo XIX da CFW, afirma que as leis cerimoniais “estão todas 
abrogadas sob o Novo Testamento.” 
Podemos dizer, portanto, que quando Paulo critica os que estão vivendo sob a lei 
no Novo Testamento, ele está lutando, na verdade, contra aqueles que ainda praticavam 
principalmente as leis cerimoniais como a circuncisão, sacrifícios, ritos religiosos, que 
foram encerradas com a vinda de Cristo. Também contra aqueles que se submetiam à lei 
moral dos dez mandamentos como forma de obter salvação, negando assim a suficiência 
da morte substitutiva de Jesus Cristo. 
Para quê serve, pois, a lei, se vivemos na era da graça? É o que vamos buscar 
entender e responder no decorrer deste trabalho. No capítulo 1, faremos uma análise da 
carta de Paulo aos Gálatas e procuraremos compreender como João Calvino e Martinho 
Lutero interpretaram essa carta no que diz respeito ao legalismo presente no judaísmo 
do séc. I. Também procuraremos entender como Paulo enxergava as obras da lei e o 
evangelho da graça de Jesus Cristo. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
28 Toda a lei cerimonial pode ser encontrada nos livros de Êxodo, Levítico e Deuteronômio, sendo 
Levítico o principal manual para os israelitas. 
29 MEISTER, 2003, p. 46.	
  
	
  
	
   15 
No capítulo 2, voltaremos nossos olhos para a “Nova Perspectiva de Paulo”, 
baseada em Sanders e Dunn. Procuraremos entender o que é, o que tem ensinado e quais 
os pontos de divergência entre a mesma e a perspectiva tradicional, no que diz respeito 
ao tema “Lei e Graça”. Procuraremos, então, responder biblicamente aos pontos fracos 
desta nova perspectiva. 
Finalmente, no terceiro e último capítulo, nossa proposta é buscar responder à 
pergunta: “Para quê serve então a lei, se vivemos na era da graça?”, de acordo com a 
teologiareformada, enfatizando o último parágrafo (VII), do capítulo XIX da CFW que 
diz: “os supracitados usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas 
suavemente condizem com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do 
homem a fazer livre e alegremente aquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer 
se faça.” 
Como conclusão do trabalho, procuramos resumir o que foi tratado ao longo dos 
três capítulos, e de um modo prático, aplicar a doutrina da Lei e Graça na vida 
eclesiástica, sempre tendo o cuidado de não cair no legalismo ou no antinomismo, mas 
atraídos pela graça, nos comprometendo com a lei de Deus, com seus mandamentos 
prescritos nas Sagradas Escrituras, e que nos levam a amar a Deus sobre todas as coisas 
e ao próximo como a nós mesmos. 
De acordo com Packer, “a doutrina paulina da graça gratuita e soberana tanto 
humilha a soberba dos legalistas, que são justos aos seus próprios olhos, como condena 
a lassidão preguiçosa e irresponsável dos antinomianos. Entendido corretamente, esse 
ensino gera uma jubilosa segurança e uma incansável energia no serviço de nosso 
Salvador.”30 É esta “doutrina paulina” que passaremos a analisar daqui em diante. 
 
 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
30 PACKER, 1994, p. 95. 
	
  
	
   16 
 
 
1. Lei e Graça: Uma abordagem baseada em Gálatas 
 
 Neste capítulo, faremos um estudo da carta de Paulo aos Gálatas, na qual ele 
trata da lei31 e do evangelho da graça de Jesus Cristo. Ao usar a palavra νοµος 32 vezes 
em Gálatas, podemos dizer que esta é a carta magna da liberdade cristã - a liberdade que 
nos toma pela mão e nos conduz à prática do amor. 
 A todos aqueles que desejam levar Deus a sério e entender um pouco sobre lei e 
graça, Gálatas mostra o caminho em direção à verdadeira liberdade: a liberdade de ser 
escravo de Cristo, e não do legalismo. “Se Paulo tivesse se rendido ao legalismo, o 
Cristianismo teria sido conhecido como nada mais do que um Judaísmo modificado, 
que de forma alguma teria conquistado o mundo. Os gentios o teriam rejeitado.”32 
 
 1.1 O contexto 
 
 Nos dias de Paulo, os gálatas encontravam-se sob o domínio do Império 
Romano. Eles haviam sido fielmente instruídos pelo Apóstolo no verdadeiro evangelho, 
mas, em sua ausência, falsos apóstolos insidiosamente se infiltraram entre os gálatas e 
corromperam o genuíno evangelho por meio de dogmas e doutrinas falsas. As igrejas da 
Galácia haviam sido invadidas por falsos mestres judaizantes logo após a primeira 
viagem missionária de Paulo e um ensino legalista estava pervertendo o evangelho 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
31 Paulo usa a palavra “lei” (νόµος) para referir-se ao “corpo de regulamentos dados por Deus a Israel 
mediante Moisés no Sinai, e como tal ela é abordada pelo apóstolo nessa carta, não em sua função social 
e nacional como emblema do judaísmo, mas como o conjunto de requisitos legais de Deus em relação aos 
judeus, os quais os oponentes de Paulo queriam impor aos gentios.” LOPES, Augustus Nicodemus. A 
Nova Perspectiva sobre Paulo: um estudo sobre as “obras da lei” em Gálatas. In: Fides Reformata XI, 
nº1, 2006, p. 89. 
32 HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento: Gálatas. Trad. Valter Graciano Martins. 
São Paulo: Cultura Cristã, 1999, p. 11. 
	
  
	
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pregado e ensinado por este anteriormente. Esses novos ensinamentos pregavam que os 
gentios deveriam ser circuncidados bem como deveriam observar a lei de Moisés a fim 
de alcançarem a salvação. Afirmavam que a lei de Moisés precisava complementar a 
obra de Cristo, negando assim a suficiência da graça de Deus para a salvação. Na visão 
daqueles homens, as obras eram condição, juntamente com a fé, para que alguém fosse 
aceito por Deus. Era imperativo guardar também a lei, pois a fé em Cristo não era 
suficiente para a salvação.33 Estavam interpretando erroneamente tanto a lei quanto a 
graça de Deus. 
Quando Paulo quando fica sabendo de tudo isso, escreve a carta aos Gálatas, a 
fim de levá-los de volta ao verdadeiro evangelho, bem como esclarecer o entendimento 
dos crentes da Galácia sobre lei e graça. Para o apóstolo, “a função da lei não é salvar, 
mas revelar o pecado. A função da lei não é levar o homem para o céu, mas conduzi-lo 
ao Salvador.”34 A carta aos Gálatas é, na verdade, um grito de alerta a todos os cristãos 
que se deixam seduzir por uma falsa doutrina semelhante a essa. É o estandarte de 
liberdade para uma igreja que está caminhando mais uma vez para a escravidão da qual 
um dia foram libertos pelo sangue de Cristo. 
Paulo luta por essa tese como por um artigo fundamental da fé cristã. E na 
verdade o é, pois nem o mal mais aparentemente inofensivo não haverá de 
extinguir o resplendor do evangelho, armar cilada às consciências e remover 
a distinção entre a antiga e a nova aliança. Ele percebeu que tais erros 
estavam também relacionados com uma opinião ímpia e destrutiva sobre o 
merecimento de justiça. E essa é a razão por que ele batalha com tamanho 
vigor e veemência. Quando tivermos compreendido quão significativa e séria 
é a natureza desta controvérsia, então haveremos de estuda-la com uma 
atenção muito mais aguçada.35 
 
 
O propósito de Paulo ao escrever esta carta era o de convencer os gálatas de que 
nenhum gentio precisava aceitar a circuncisão a fim de pertencer ao povo da aliança 
divina. A salvação e a verdade do evangelho vêm através da fé em Cristo, portanto, 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
33 LOPES, Hernandes Dias. Gálatas: A carta da liberdade cristã. São Paulo: Hagnos, 2011, p. 07 
34 Ibid., p. 08. 
35 CALVINO, João. Gálatas, Efésios, Filipenses e Colossenses: Série Comentários Bíblicos. Trad. 
Valter Graciano Martins. São José dos Campos: Editora Fiel, 2010, p. 22-23. 
	
  
	
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qualquer que busque violar a esfera sagrada da fé, adicionando leis, regras e novas 
exigências, estará adulterando o evangelho e deve ser confrontado. 
 
 1.2 Gálatas 1 e 2 
 
 Paulo escreve às igrejas da Galácia (Gl 1.1-2) 36, que antes haviam recebido o 
verdadeiro evangelho da graça de Cristo, mas o haviam abandonado para viver um 
outro evangelho baseado em ritos e leis: “Admiro-me de que vocês estejam 
abandonando tão rapidamente aquele que os chamou pela graça de Cristo, para 
seguirem outro evangelho.” (1.6) 
 Nesta carta nós encontramos Paulo muito preocupado com aqueles crentes, e o 
desejo dele é que as igrejas da Galácia voltem para o verdadeiro evangelho, baseado na 
graça de Cristo. Talvez seja por essa preocupação que encontramos a palavra "graça" 
(χάρις) sete vezes, e "evangelho" (ευαγγέλιον) onze vezes por toda a carta, segundo o 
GNT37. Paulo então, já no começo da carta, reapresenta bem rapidamente o verdadeiro 
evangelho que os gálatas estavam se esquecendo: “A vocês, graça e paz da parte de 
Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo, que se entregou a si mesmo por nossos 
pecados a fim de nos resgatar desta presente era perversa, segundo a vontade de nosso 
Deus e Pai, a quem seja a glória para todoo sempre. Amém.” (1.3-5) 
 “Segundo a vontade de Deus e Pai” (1.4) e não de acordo com os méritos 
humanos e os nossos esforços em cumprir leis e rituais. Paulo quer que os gálatas 
entendam exatamente isso. Algumas pessoas tinham pervertido o evangelho da graça, 
inserindo elementos judaicos, certos rituais, tradições e leis, como se a graça de Cristo 
não fosse suficiente. Esse evangelho que eles estão ensinando, na realidade, não é o 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
36 De agora em diante, quando as referencias não vierem acompanhadas das iniciais, significa que elas são 
referencias tiradas da carta aos Gálatas. 
37 NESTLE-ALAND. O Novo Testamento Grego. 4.ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009. 
	
  
	
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evangelho. O que ocorre é que algumas pessoas os estão perturbando, querendo 
perverter o evangelho de Cristo. “Mas ainda que nós ou um anjo dos céus pregue um 
evangelho diferente daquele que lhes pregamos, que seja amaldiçoado!” (1.7-8) 
 Paulo agora luta para manter a pureza do evangelho e a suficiência de Cristo 
para nossa salvação. Nesse intuito, ele ilustra com sua própria história, como Cristo 
havia revelado sua graça a ele, e como ele passou do judaísmo para o cristianismo, do 
outro evangelho pervertido para o verdadeiro evangelho da graça de Deus (1.11-2.21), 
da escravidão da lei para a liberdade em Cristo. 
 Os elementos dessa história são comuns e podem muito bem parecer com nossa 
própria história também: Paulo primeiramente apresenta sua vida sem Cristo, quando 
perseguia implacavelmente a igreja de Deus, procurando destruí-la. No judaísmo, Paulo 
superava a maioria dos judeus, e era extremamente zeloso das tradições dos seus 
antepassados (1.13-14). 
 Em segundo lugar, Paulo mostra o seu encontro com Cristo. Ele diz que Deus o 
havia separado desde o ventre materno e o havia chamado pela Graça (1.15-16). Depois 
disso, ele foi levado para a Arábia, e passou um tempo de solidão, sendo formado pelo 
próprio Deus (1.17). 
 Após esse tempo, Paulo começa a compartilhar sua história e a sua fé em Cristo 
(Gl. 1.18-20). Relata, então, sua missão no mundo, indo pelas muitas regiões da Síria e 
Cilícia, pelas igrejas da Judéia, pregando e anunciando a graça de Cristo (1.21-24). A 
partir do capítulo 2, o apóstolo relata a transformação que ocorreu em seus 
relacionamentos com amigos e inimigos (2.1-10). 
 Finalmente, após contar toda sua história, Paulo chega à grande conclusão que 
vai desmoronar toda a crença que os gálatas estavam abraçando: “Ninguém é justificado 
pela prática da lei, mas mediante a fé em Jesus Cristo” (2.16). 
	
  
	
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 De acordo com o RIENECKER e ROGERS, o verbo “justificar” (δικαιόω) 
aparece três vezes em Gálatas 2.16, e todas elas se encontram na voz passiva, que 
“aponta ao fato que ninguém se justifica, mas é declarado justo por outra pessoa.” 38 
Portanto, “ser justificado” deve ser definido como aquele ato gracioso de Deus pelo 
qual, tão-somente com base na obra mediadora que Cristo consumou, ele declara o 
pecador como justo, e este aceita tal benefício com um coração crente.39 Paulo desvenda 
a doutrina da justificação pela fé, que é a doutrina central do cristianismo, e que foi 
restabelecida pela Reforma. O meio necessário para a justificação é a fé em Jesus como 
Salvador crucificado e como Senhor ressurreto. A fé é necessária porque o mérito de 
nossa justificação não está em nós, mas em Cristo. 
 Segundo John Stott, esses capítulos nos apresentam quatro verdades cristãs: (1) 
“a maior necessidade do homem é a justificação, ou a aceitação de Deus”. (2) “A 
justificação não é pelas obras da lei, mas pela fé em Cristo. O trabalho da lei é me dizer 
o que eu devo fazer, mas eu preciso dar ouvidos ao evangelho, que me ensina o que 
Cristo já fez por mim”. (3) “Não confiar em Jesus Cristo por causa da confiança em si 
mesmo é um insulto à graça de Deus e à cruz de Cristo, pois é dizer que são 
desnecessárias”. (4) “Confiar em Jesus Cristo, sendo assim unido a ele, é começar uma 
nova vida”.40 
 Quando Paulo nos diz que somos justificados por meio da fé, visto não 
podermos ser justificados por meio das obras, ele tem certeza daquilo que é verdadeiro, 
ou seja, “não podemos ser justificados pela justiça de Cristo, a menos que sejamos 
pobres e destituídos de nossa própria justiça”41. Sendo assim, temos que atribuir tudo ou 
nada à fé ou às obras. 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
38 RIENECKER, Fritz, ROGERS, Cleon. Chave Linguística do Novo Testamento Grego. Trad.: 
Gordon Chown e Júlio Zabatiero. São Paulo: Vida Nova, 1995, p. 374. 
39 HENDRIKSEN, 1999, p. 143. 
40 STOTT, John. A mensagem de Gálatas. Trad. Yolanda Mirdsa Krievin. São Paulo: ABU Editora, 
1989, p. 64. 
41 CALVINO, 2010, p. 79. 
	
  
	
   21 
 Paulo tentou ser justo e obedecer a um grande número de leis e regras para 
agradar a Deus, mas não funcionou. E assim como Paulo, nós precisamos desistir de ser 
"homens da lei" para sermos "homens de Deus", que creem na graça de Deus e não em 
nossas próprias forças. Nosso ego precisa morrer, para que a vida de Cristo possa ser 
viva em nós. Para viver a vida de Cristo não é preciso obedecer e seguir a leis e rituais, 
pois tudo o que precisava ser feito, Cristo já fez na cruz do calvário, quando ele se 
entregou por nossos pecados. Deus se agrada de nós, quando nós confiamos e vivemos a 
vida de Cristo. Deus nos ama através de Cristo e este amor não é baseado pelo número 
de leis que seguimos. 
 Martinho Lutero, no Debate de Heidelberg, diz que “o ser humano que crê 
querer chegar à graça fazendo o que está em si acrescenta pecado sobre pecado, de sorte 
que se torna duplamente réu”42, ou seja, o ser humano precisa se ajoelhar e pedir graça, 
colocando toda a esperança em Cristo, no qual está nossa salvação, vida e ressurreição. 
 Quando Paulo declara em Gálatas 2.19: “morri para a lei...”, podemos afirmar, 
baseado em Calvino que, morrer para a lei é renunciá-la e libertar-se de seu domínio, de 
modo que não mais confiamos nela e ela não mais nos mantém cativos sob o jugo da 
escravidão. E então Paulo contrasta a morte para a lei com a morte vivificante da cruz 
de Cristo. Estar crucificado juntamente com Cristo é sinal de vida, “porque eu, mediante 
a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus” (2.19). Em suma, Paulo nos diz 
que essa morte (para a lei) não é o fim, e sim o início de uma vida melhor, porque Deus 
nos resgata do naufrágio da lei e, mediante sua graça, nos restaura para uma nova vida. 
“Nada direi a respeito das outras interpretações. Este me parece ser o verdadeiro 
significado do apóstolo.” afirma Calvino43. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
42 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: Os primórdios escritos de 1517 a 1519. São Leopoldo: 
Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, vol.1, 1987, p. 48. 
43 CALVINO, 2010, p. 83. 
	
  
	
   22 
 A observância da lei não desempenha qualquer papel na justificação, esta se 
realiza exclusivamente pela fé, pois acha-se somente em Cristoe através dele, e 
somente pela graça. 
 A justiça de Deus não é adquirida através de atos frequentemente repetidos, mas 
é infundida pela fé. A graça e a fé são infundidas, e as obras são uma consequência 
dessa realidade. São obras de Deus, operadas através de Cristo. Assim, pela fé Cristo 
está em nós e é ele quem cumpre toda a lei de Deus, “razão pela qual também nós 
cumprimos toda ela, através de Cristo, uma vez que (Cristo) se tornou nosso pela fé.”44 
A lei é diferente da fé porque exige as obras para justificar o homem, enquanto a fé não 
as exige. Aquele que é justificado pela fé é justificado sem nenhum mérito, pois a fé 
recebe a justiça que a graça oferece, que se encontra unicamente em Cristo. 
 
 1.3 Gálatas 3 
 
 Depois de mostrar aos gálatas com sua própria história que ninguém é 
justificado pela prática da lei, mas somente mediante a fé em Jesus Cristo, no capítulo 3, 
Paulo passa a questioná-los, sendo que nos cinco primeiros versículos, faz cinco 
perguntas muito pessoais e incisivas: 
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi 
Jesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: 
recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assim 
insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos 
aperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, na 
verdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que opera 
milagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação da 
fé? (3.1-5) 
 
 
Paulo começa a confrontar os gálatas quanto aos novos ensinamentos do "outro 
evangelho" que estava sendo ensinado: Como começou a nova vida de vocês? Será que 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
44 LUTERO, 1987, v.1, p. 52-53. 
	
  
	
   23 
foi resultado de esforço para agradar a Deus? Para Paulo, é preciso perder o juízo para 
pensar que é possível completar o que foi iniciado por Deus por esforço próprio. 
 E então, o apóstolo começa a citar o Antigo Testamento, mais especificamente, a 
experiência de Abraão em Gênesis 15, a fim de mostrar que Abraão foi considerado 
justo não por ter cumprido regras e leis, mas porque creu em Deus. Pela fé em Deus, 
Abraão foi feito justo, e agora, pela fé, nós também fazemos parte da bênção de Abraão: 
"Em ti, serão abençoados todos os povos" (3.8). Isso nos mostra que todo o que tentar 
viver a justiça por esforço próprio, independentemente de Deus, está destinado ao 
fracasso. O apóstolo, então, continua citando Deuteronômio 27.26; 21.23, e Gênesis 
12.7, a fim de mostrar que o Espírito de Deus que habita em nós vem pela pregação da 
fé e não pela prática da lei. É graça e não mérito nosso, e isso já vem sendo ensinado 
desde os tempos antigos. Era verdade para Abraão, era verdade para os gálatas, e 
continua sendo verdade para nós hoje! O argumento de Paulo é que ninguém é capaz de 
guardar a lei na sua totalidade. Calvino afirma que nunca houve tal pessoa que 
cumprisse plenamente a lei, e jamais haverá. Sendo assim, todo homem está 
condenado.45 
 Mas então, se ninguém é capaz de cumprir plenamente a lei, qual é o objetivo 
dela? Paulo vai explicar isso a partir do versículo 19. O propósito da lei era preservar 
um povo pecador na história da salvação até que "o descendente" viesse, herdando as 
promessas e concedendo-as também para nós. Paulo afirma que a lei era como os 
tutores gregos, que conduziam as crianças à escola e as protegiam de perigos ou 
distrações, certificando-se de que chegariam onde deveriam. Lutero diz que: 
a lei dá a conhecer o pecado, para que, sendo conhecido o pecado, se procure 
e se obtenha a graça. [...]. A lei humilha, a graça exalta. A lei opera o temor e 
a ira; a graça opera a esperança e a misericórdia. Pois pela lei é adquirido o 
conhecimento do pecado; pelo conhecimento do pecado, porém, a humildade; 
e pela humildade, a graça. Desta forma, a obra estranha de Deus realiza, por 
fim, a sua obra própria, fazendo um pecador para torná-lo justo.46 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
45 CALVINO, 2010, p. 99. 
46 LUTERO, 1987, v.1, p. 48. 
	
  
	
   24 
 
 A lei nos serve de "aio" para nos conduzir até Cristo, para que sejamos 
justificados pela fé nele. Segundo Calvino, um aio não era designado para toda a vida de 
uma pessoa, somente para a infância. O objetivo era preparar a criança, por meio de 
instruções, para as coisas mais excelentes. Assim, a autoridade da lei se limitava a 
determinada época, e seu propósito era preparar seus alunos de tal modo que, ao 
findarem as instruções elementares, eles fariam progressos dignos da maturidade. A lei, 
ao revelar a justiça de Deus, convenceu os homens de sua própria injustiça, e ela não 
lhes dava descanso, enquanto não fossem constrangidos a buscar a graça de Cristo. 
 Paulo, em se tratando do objetivo da lei, afirma que ela foi promulgada para 
tornar conhecidas as transgressões e compelir o homem a reconhecer sua culpa,47 “até 
que viesse o descendente” (3.19) – O descendente mencionado é aquele sobre qual a 
bênção foi pronunciada, e então Calvino conclui que a lei tinha que ocupar não a 
posição mais elevada, mas sim uma posição subordinada. “Ela foi promulgada para 
estimular os homens a esperarem por Cristo.”48 
 Com a vinda de Cristo, temos livre acesso a Deus Pai, bem como um 
relacionamento direto com Deus, não havendo necessidade da lei para nos conduzir até 
ele, mesmo porque nós nunca conseguiríamos obedecer toda a lei para nos justificarmos 
diante do Pai e agradá-lo. Apenas Cristo é capaz de cumprir toda a lei, e ele fez isso por 
nós, para que a justiça de Cristo fosse imputada a nós, e então pudéssemos ser aceitos 
por Deus, e justificados unicamente pela fé nele. 
 Não é a nossa performance que nos faz aceitáveis diante de Deus, mas é a fé 
naquele que já fez tudo o que tinha que ser feito para que pudéssemos ser aceitos: Jesus 
Cristo. É isso que agrada a Deus! 
Quando, pois, [a pessoa] aprendeu sua impotência por meio dos preceitos e já 
ficou ansiosa quanto a como satisfazer a lei [...] então, realmente humilhada e 
reduzida a nada a seus olhos, não encontra em si mesma aquilo pelo qual 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
47 CALVINO, 2010, p. 110. 
48 Ibid. p. 111. 
	
  
	
   25 
possa ser justificada e salva. Neste ponto se faz presente a outra parte da 
Escritura – as promissões de Deus, que anunciam a glória de Deus e dizem: 
“Se queres cumprir a lei, não cobiçar, como exige a lei, crê em Cristo no qual 
te são prometidas a graça, justiça, paz, liberdade, e tudo; se creres, terás; se 
não creres, ficarás sem.” Pois o que te é impossível em todas as obras da lei, 
que são muitas, e, assim mesmo, inúteis, isso cumprirás de modo fácil e 
resumido pela fé. [...] Só ele (Deus) dá preceitos, só ele os cumpre.49 
 
 1.4 Gálatas 4 
 
 “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de 
mulher, nascido debaixo da lei, a fim de redimir os que estavam sob a lei, para que 
recebêssemos a adoção de filhos.”(Gl 4:4-5) 
 Após Paulo questionar os gálatas quanto às obras da lei e a fé em Cristo, e 
chegar à conclusão de que absolutamente ninguém é justificado pela prática da lei, no 
capítulo 4, o apóstolo nos relata as implicações de tudo o que ele disse anteriormente 
sobre as obras da lei e a fé em Cristo. Ele começa fazendo uma comparação entre 
escravos e livres. Como escravos, dependíamos dos dominadores deste mundo, sem 
autoridade sobre a própria vida, pois ainda não havíamos sido emancipados; os escravos 
vivem sob a lei. Porém, quando chegou o tempo estabelecido por Deus, o próprio Deus 
enviou seu Filho, Jesus Cristo, nascido de mulher, sob as condições da lei, para redimir 
os que estavam escravizados, sob o domínio da lei. “Ainda que sem pecado, Cristo 
nasceu sob a lei, não somente com a obrigação de cumprir toda a lei, mas identificando-
se com os pecadores, os quais estão debaixo da maldição da lei”.50 
A morte de Cristo nos libertou dessa maldição. Quando o apóstolo Paulo diz em 
Gálatas 4.4 que Deus enviou seu Filho, nascido sob a lei, significa que o Filho de Deus, 
que por direito era isento de toda sujeição à lei, tornou-se sujeito a ela. Ele fez isso em 
nosso lugar, com o objetivo de obter a liberdade para nós. Cristo decidiu tornar-se 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
49 LUTERO, Martinho. Obras Selecionadas: O Programa da Reforma Escritos de 1520. São Leopoldo: 
Editora Sinodal, Porto Alegre: Concórdia Editora, vol.2, 1989, p. 440.	
  
50 BÍBLIA de Estudo de Genebra. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paulo: Cultura Cristã, 
1999, p. 1394. 
	
  
	
   26 
obrigado a cumprir a lei, a fim de obter isenção para nós. Do contrário, ele teria se 
submetido ao jugo da lei inutilmente. Mas temos que observar que a isenção da lei que 
Cristo conquistou para nós, não significa que não devamos mais obediência ao ensino 
da lei, pois, segundo Calvino, a lei é a norma eterna de uma vida agradável e santa. 
Paulo está se referindo à lei com todos os seus apêndices.51 
 Assim, ele nos libertou da escravidão da lei para sermos não mais escravos, mas 
filhos que têm direito à herança. Uma vez libertos, fomos adotados como filhos. O filho 
não é escravo, mas livre do domínio da lei. A lei de Cristo e a justiça de Cristo é que 
têm domínio sob aqueles que são filhos. A intimidade com Deus é para aqueles que são 
filhos, não para os escravos. 
 E Paulo, mais uma vez preocupado com a situação dos gálatas, questiona: agora 
que vocês conhecem o Deus verdadeiro, como podem se sujeitar novamente às tradições 
e superstições? (4.9). A preocupação do apóstolo é tão grande, que ele afirma que está 
sofrendo como uma mãe em dores de parto, e o maior desejo dele é que Jesus Cristo 
seja formado nos gálatas, ou seja, que Cristo seja uma realidade na vida deles. Para 
ilustrar tudo isso, novamente Paulo se volta para Gênesis, e cita Abraão (Gênesis 16, 
21). O Patriarca teve dois filhos: um da escrava e outra da livre. O filho da escrava 
nasceu por iniciativa humana, mas o filho da livre nasceu pela promessa de Deus. Dois 
modos de relacionamento com Deus. O primeiro filho da escrava fala de uma vida 
escrava que produz escravos como descendentes. O segundo filho fala da Jerusalém 
invisível, uma Jerusalém livre. 
 
 1.5 Gálatas 5 
 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
51 CALVINO, 2010, p. 136. 
	
  
	
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 Após fazer comparações com Abraão e afirmar que nós, filhos da promessa 
como Isaque, não somos escravos, mas livres, Paulo passa a explicar de quê somos 
livres, e como viver essa liberdade que Cristo veio nos trazer. Ele começa o capítulo 5 
afirmando que "Para a liberdade foi que Cristo nos libertou." É muito comum ouvirmos 
esse versículo fora de contexto, dando margens para uma interpretação errada da 
liberdade que Cristo nos oferece. De quê fomos, então, libertos? 
 Em primeiro lugar, Cristo nos libertou da lei como sistema de salvação. No v.3 
Paulo afirma que quem aceita o sistema da circuncisão ou qualquer outro sistema de 
regras, troca a maravilhosa vida de liberdade em Cristo pelas obrigações da vida de 
escravo da lei, ou seja, o dom da liberdade que Cristo conquistou com sofrimento, se 
entregando na cruz, acaba sendo desperdiçado. Calvino diz que a liberdade que Paulo 
falava é a isenção de cerimônias da lei, cuja observância era exigida, como necessária, 
pelos falsos apóstolos.52 
 Em segundo lugar, Cristo nos libertou do domínio do pecado. No v.13 Paulo diz 
que nós fomos chamados para a liberdade, mas não devemos usar essa liberdade para 
dar ocasião à carne, ou seja, não podemos usar essa liberdade como desculpa para fazer 
o que bem entendemos, pois agindo assim, destruiremos essa liberdade. 
 Após falar sobre a liberdade que temos em Cristo, em Gálatas 5.3 (“Testifico a 
todo homem que se deixa circuncidar, que está obrigado a guardar toda a lei”) entende-
se que os pregadores da circuncisão não fizeram tal exigência; e em 6.13 Paulo diz: 
“Eles mesmos não observam a lei”. De acordo com Paulo, cumprir toda a lei significa 
cumprir a lei na abrangência e com o rigor como ele o fez como judeu e fariseu, 
segundo a norma da interpretação farisaica da lei. O que Paulo está querendo dizer em 
5.3 é que se os cristãos optarem pela circuncisão, que também se sujeitem ao 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
52 CALVINO, 2010, p. 159. 
	
  
	
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cumprimento da lei em toda a sua abrangência e rigor. Percebemos aqui que o legalismo 
tinha de fato sido compreendido como caminho para a salvação.53 
 O apóstolo, então, diz que existe uma guerra dentro de cada um de nós. Há uma 
raiz de egoísmo que guerreia contra a liberdade do Espírito que Cristo nos concedeu; a 
nossa carne milita contra o Espírito (v.17). Ele faz uma lista de coisas que as pessoas 
que vivem sob o domínio do pecado fazem: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, 
feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, 
bebedices, glutonarias, e cousas semelhantes a estas (vs.19-20). Paulo nos ensina que 
devemos usar nossa liberdade com moderação, para não darmos liberdade à carne, “que 
deve, antes, ser mantida sob jugo; mas a liberdade é um benefício espiritual que 
somente os espíritos piedosos são capazes de desfrutar.”54 
 Em seguida, Paulo passa a falar da vida com Deus. Quando recebemos o fruto 
do Espírito: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, 
mansidão e domínio próprio, passamos a viver no caminho de Deus e contra essas 
coisas não há lei (vs.22-23). Como podemos, então, usufruir dessa liberdade 
conquistada por Cristo na cruz? Encontramos a resposta nos vs. 6 e 14: "Porque, em 
Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua 
pelo amor" e: "Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: 'Amarás o teu 
próximo como a ti mesmo'". 
 Em Cristo, nem nossa religião, nem nossa indiferença quanto às obrigações 
religiosas significam alguma coisa. O que importa é a fé queatua pelo amor. (Gl. 5.6) 
 
 1.6 Gálatas 6 
 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
53 VIELHAUER, Philipp. História da Literatura Cristã Primitiva: Introdução ao Novo Testamento, 
aos Apócrifos e aos Pais Apostólicos. Trad. Ilson Kayser. Santo André: Editora Academia Cristã, 2005, p. 
144. 
54 CALVINO, 2010, p. 171. 
	
  
	
   29 
 Finalizando a abordagem da carta de Paulo aos Gálatas, o apóstolo vai dizer 
como nós podemos cumprir a lei de Cristo, e que a única coisa que nós temos que nos 
gloriar, não é em nossa performance, nem em nossos méritos, mas na cruz de Cristo. 
 O capítulo começa tratando da importância de nos auxiliarmos uns aos outros, 
de tomarmos responsabilidade para com o nosso próximo. Para Paulo essa é a maneira 
de cumprirmos a lei de Cristo, uma forma concreta da “fé que atua pelo amor” que ele 
afirma no capítulo 5, versículo 6. “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a 
lei de Cristo.” (Gl. 6.2). Isto é, se alguém cair em pecado, restaurem essa pessoa com 
perdão. Ajam com misericórdia e estendam a mão aos que precisam de ajuda. Fazendo 
isso, estaremos cumprindo a lei de Cristo. 
 Calvino dá a seguinte interpretação a Gálatas 6.2: “Se vocês têm um grande 
desejo de guardar uma lei, Cristo lhes recomenda uma lei que vocês preferirão a todas 
as outras, qual seja: exercer benevolência uns para com os outros”.55 Lutero diz que 
é cristão cuidar do corpo, para que por meio do seu vigor e bem-estar, 
possamos trabalhar, adquirir bens e preservá-los para o subsídio daqueles que 
têm carência, para que assim o membro robusto sirva ao membro fraco, e 
sejamos filhos de Deus, um preocupado e trabalhando pelo outro, carregando 
os fardos uns dos outros e assim cumprindo a lei de Cristo.56 
 
 
Paulo novamente volta ao assunto da circuncisão e da vida centrada em regras, e 
ensina que de nada vale tudo isso, só levam a uma vida de orgulho; uma vida baseada 
em leis e regras leva apenas ao egoísmo e à soberba. É por isso que a partir do v. 14 
Paulo diz: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus 
Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo.” 
 João Calvino, sobre esse versículo, diz que Paulo está contrastando as tramas 
dos falsos apóstolos com sua própria sinceridade, como se estivesse dizendo: “Para não 
serem compelidos a levar a cruz, então negam a cruz de Cristo, adquirem os aplausos 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
55 CALVINO, 2010, p. 186. 
56 LUTERO, 1989, v. 2, p. 452. 
	
  
	
   30 
dos homens com o preço de vossa carne e terminam conduzindo-vos em triunfo. Meu 
triunfo e minha glória, porém, se encontram na cruz do Filho de Deus”57 
Finalmente, no último versículo, Paulo despede-se dizendo: "Que a graça de 
Cristo seja com o vosso espírito." Calvino diz que Paulo ora não para que a graça fosse 
derramada sobre eles gratuitamente, mas para que pudessem ter em sua mente um 
sentimento correto sobre ela. Realmente, ela só é usufruída por nós quando atinge o 
nosso espírito. Devemos, pois, pedir a Deus que prepare nossa alma para ser uma 
habitação de sua graça.58 
 
 1.7 Conclusões de Lutero e Calvino 
 
 Lutero, em suas teses debatidas em Heidelberg, conclui que “a lei de Deus, mui 
salutar doutrina da vida, não pode levar o ser humano à justiça; antes, o impede”; e essa 
mesma lei, “provoca a ira de Deus, mata, maldiz, acusa, julga e condena tudo o que não 
está em Cristo”.59 É por isso que nós precisamos seguir o que ele chama de Teologia da 
Cruz, pois a lei, em si, não é má, e nós não devemos fugir dela. “A lei é santa e toda 
dádiva de Deus é boa. Entretanto, quem ainda não foi destruído, reduzido a nada pela 
cruz e pelo sofrimento, atribui as obras a si mesmo e não a Deus.”60 Quem foi atingido 
pelo sofrimento e pela cruz de Cristo, sabe que é Deus quem nele opera e tudo realiza, e 
então entende que a lei só pode ser cumprida através de Cristo, diferente da teologia da 
glória, onde as pessoas ignoram Cristo e seu sofrimento e buscam encontrar Deus nas 
boas obras e no cumprimento de regras, na glória e no poder, tornando-se egoístas e 
inimigas da cruz de Cristo. Portanto, é necessário olhar para a lei, com humildade, e 
reconhecer que é impossível cumpri-la sem a ajuda de Cristo. 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
57 CALVINO, 2010, p. 197. 
58 CALVINO, 2010, p. 202. 
59 LUTERO, 1987, v. 1, p. 38-39. 
60 Ibid, p. 51-52. 
	
  
	
   31 
 João Calvino diz que “a lei nos foi dada pelo Senhor para nos ensinar a justiça 
perfeita, e que nela nenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos manda 
regrar-nos pela vontade de Deus e conformar-nos a ela”61 Portanto, a vida do homem 
deve ser regrada pela lei, não somente por uma honestidade externa, mas também para a 
justiça interna e espiritual. O reformador ainda afirma que Cristo não foi um segundo 
Moisés, que deu uma segunda lei para suprir o que faltava na lei mosaica. Cristo não fez 
acréscimos à lei, mas a restabeleceu em sua inteireza, limpou-a das mentiras dos 
fariseus com as quais a tinham obscurecido.62 Contudo, se o espírito da graça for 
retirado, a lei só servirá para acusar e matar. 
A lei de Deus é letra morta e mata os que a seguem, quando está 
desvinculada da graça de Cristo e somente soa nos ouvidos, mas não toca o 
coração. Mas se o Espírito a imprime de fato na sede da vontade, e se ele nos 
comunica Jesus Cristo, a Escritura é de fato a Palavra da vida, converte almas 
e “dá sabedoria aos símplices (Salmos 19.7).63 
 
 
Ao olhar para a carta aos Gálatas, o que podemos perceber, é que a lei de Deus 
nos ensina o caminho da justiça divina, mas ela também nos recrimina, tanto por nossa 
natureza pecaminosa como por nossa injustiça. A lei de Deus nos revela o quanto somos 
perversos e avessos à justiça de Deus, e estamos muito longe de sermos capazes de 
cumpri-la perfeitamente. 
 Podemos aprender que a lei de Deus expressa a vontade de Deus para nossas 
vidas, mas sozinhos, somos incapazes de observá-la. Olhando para dentro de nós, 
percebemos que não satisfazemos a vontade de Deus, e portanto, somos indignos de 
manter nosso lugar entre as criaturas. Sendo assim, existe a necessidade de olharmos 
para Cristo, que é o único que cumpriu perfeitamente a vontade de Deus, e nos tornou 
aceitáveis diante do Pai. Sem Cristo, a lei somente nos acusa e mata, mas com Cristo, a 
lei nos revela a perfeita vontade de Deus. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
61 CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Trad. Odayr Olivetti. São Paulo: Cultura Cristã, 
vol.1, 2006, p. 167. 
62 CALVINO, 2006, v.1, p. 168. 
63 Ibid. p. 77. 
	
  
	
   32 
 Quando temos plena convicção da nossa imperfeição e total dependência de 
Cristo, somos libertos do jugo da lei, e essa liberdade faz com quenossa consciência 
busque obedecer a lei, não como constrangidos ou forçados a tal tarefa, para conseguir a 
justificação própria e ser aceitos por Deus, mas livremente, como resposta ao que Cristo 
já fez por nós. O fim dessa liberdade que Cristo conquistou para nós é incentivar-nos à 
prática do bem. 
 Precisamos, portanto, apegar-nos mais à graça de Deus, que nos supre do que 
falta à lei, e amar a misericórdia divina, pela qual a graça nos é concedida, porque 
quando estamos debaixo da graça de Deus, a lei não exerce todo o seu rigor 
pressionando-nos até o fim, de modo a só ficar satisfeita se cumprirmos tudo o que ela 
manda. Em vez disso, ela nos exorta à perfeição para a qual nos chama, e nos mostra a 
meta que devemos buscar durante a nossa vida. “Quando chegarmos ao fim, o Senhor 
nos fará o benefício de levar-nos a alcançar a meta, a qual ainda estaremos buscando, 
embora distantes dela.”64 
 Concluindo este primeiro capítulo, apresentaremos três verdades compreendidas 
até aqui: Em primeiro lugar, quando Paulo usa a expressão “obras da lei”, em sua carta 
aos Gálatas, ele se refere aos atos de obediência às leis cerimoniais como a circuncisão, 
e à lei moral de Moisés realizados pelos judeus de sua época, com a intenção de serem 
aceitos por Deus. Em segundo lugar, nunca foi propósito de Deus que a lei servisse de 
caminho para a salvação. E em terceiro e último lugar, o homem é totalmente 
corrompido, devido ao pecado, e, portanto, não é capaz de cumprir o que a lei ordena. 
Ninguém pode se justificar pela lei simplesmente porque ninguém é capaz de fazer tudo 
o que a lei exige. Dependemos de Cristo para sermos aceitos e justificados por Deus. A 
guarda da lei não vale a pena fora de Cristo. 
Eis o resumo disso tudo: se buscarmos a salvação em nossas obras, é-nos 
necessário guardar os mandamentos, os quais nos instruem sobre a justiça 
perfeita. Mas não devemos parar aqui, se não quisermos desfalecer no meio 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
64 CALVINO, 2006, v.1, p. 228. 
	
  
	
   33 
do caminho, porque nenhum de nós é capaz de os guardar. Assim, depois de 
termos sido excluídos da justiça da lei, precisamos de outro retiro e socorro, 
qual seja, a fé em Jesus Cristo. Portanto, assim como o Senhor Jesus nessa 
passagem (Mateus 19.17) remete de volta à lei o doutor dela, sabendo que ele 
estava inchado de vã confiança em suas obras, e o fez para que ele se 
reconhecesse pobre pecador e sujeito à condenação, assim também noutro 
lugar ele consola com a promessa de sua graça os que se humilham por 
aquele reconhecimento, e os consola sem fazer menção da lei. “Vinde a 
mim”, diz ele, “todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” 
(Mateus 11.28)65 	
  
2. A Nova Perspectiva de Paulo 
 
 Depois de abordarmos a carta aos Gálatas baseados nos comentários de Lutero e 
Calvino, e mostrarmos a Teologia Bíblica de Paulo, neste segundo capítulo, 
examinaremos um tipo de interpretação mais recente da teologia de Paulo que tem feito 
oposição à teologia reformada, e que é chamada de “Nova Perspectiva de Paulo”. Ao 
final, tentaremos responder a seguinte pergunta: É a Nova Perspectiva de Paulo, bíblica 
e confiável? 
Nosso objetivo com este capítulo é mostrar quem são os principais expoentes da 
Nova Perspectiva, o que ela tem proposto e no que ela diverge da perspectiva 
tradicional e bíblica que vem sendo adotada pelos cristãos de teologia reformada. 
 
 2.1 Os principais expoentes 
 
 A interpretação tradicional que dominou os estudos paulinos por muito tempo 
passou a ser contestada por estudiosos, dentre eles, destacaremos E. P. Sanders e James 
Dunn. Eles dizem que “a teologia de Paulo tem sido mal compreendida porque tem sido 
interpretada pelas lentes de Lutero e da Reforma”66. Essa é a maior crítica dos 
defensores da Nova Perspectiva. O ponto fundamental não diz respeito à pessoa de 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
65 CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã. Trad. Odayr Olivetti. São Paulo: Cultura Cristã, 
vol2, 2006, p. 264-265. 
66 STUHLMACHER, Peter, Lei e Graça em Paulo: uma resposta à polêmica em torno da doutrina da 
justificação. Trad. Lucy Yamakami. São Paulo: Vida Nova, 2002, p. 98. 
	
  
	
   34 
Paulo, mas à natureza do judaísmo do primeiro século, como Paulo e o judaísmo 
enxergavam a questão da lei e graça. 
Estes teólogos não concordaram com a perspectiva tradicional que vinha sendo 
adotada, principalmente pelos cristãos reformados, pois acreditavam que a teologia de 
Paulo estava sendo interpretada de acordo com a visão e interpretação que Lutero fez na 
época da Reforma Protestante. Sendo assim, eles propuseram uma nova interpretação da 
teologia paulina, sem as lentes da Reforma, ou seja, uma nova maneira de enxergar os 
escritos de Paulo, um novo jeito de interpretar as Escrituras e o judaísmo do primeiro 
século. Nasce então a Nova Perspectiva de Paulo. 
 
2.1.1 E. P. Sanders 
 
Sanders é um especialista em Novo Testamento e um dos principais proponentes 
da Nova Perspectiva de Paulo. Seu campo de interesse é o judaísmo e o cristianismo no 
mundo greco-romano. Muito citado por James Dunn, E. P. Sanders afirma que o 
judaísmo palestinense do primeiro século, não era uma religião de obras feitas para a 
obtenção da aprovação por Deus e entrada no pacto.67 Em uma de suas principais 
obras68, ele propõe uma reavaliação do pensamento paulino, de forma que seja possível 
perceber mais do que simples oposições e refutações à lei. 
Em suas conclusões, Sanders afirma que o judaísmo da época de Paulo entendia 
a salvação como eleição e pacto, onde Deus escolhe Israel. Ele dizia que a lei observada 
pelos judeus era praticada não para entrarem na aliança, mas para se manterem nela. A 
isto, Sanders dá o nome de “nomismo da aliança”. Dunn, citando Sanders define 
“nomismo da aliança” como: 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
67 DUNN, James D. G., A nova perspectiva sobre Paulo. Trad. Monika Ottermann. Santo André: 
Academia Cristã, 2011, p. 19. 
68 SANDERS Ed Parish, Paulo, a lei e o povo judeu. Trad. José Raimundo Vidigal. São Paulo: 
Academia Cristã, Paulus, 2009. 
	
  
	
   35 
A ideia de que o nosso lugar no plano de Deus está estabelecido com base na 
aliança e que a aliança exige como resposta apropriada do homem sua 
obediência aos mandamentos, fornecendo meios de expiação das 
transgressões [...] A obediência mantém nossa posição na aliança, mas não 
merece a graça de Deus como tal [...] Justiça no judaísmo é termo que 
implica a manutenção do status entre o grupo dos eleitos.69 
 
 
Sanders entendia que os fariseus da época de Paulo, já nasciam dentro da graça e 
da aliança. Eles praticavam as “obras da lei” não por legalismo ou para conseguir a 
aprovação de Deus, mas para se manter dentro do pacto. Afirma-se, então, que o 
judaísmo não é uma religião legalista, mas baseada na graça de Deus revelada nas 
alianças com Israel. A Nova Perspectiva veio para confrontar toda a teologia tradicional 
de Paulo que era sustentada principalmentepor Lutero e Calvino. Para Sanders, Paulo 
adotava a tese corrente da época, de que pertencer ao grupo de cristãos implicava 
procedimento correto, ou seja, observar a lei.70 
Sanders nos ofereceu uma oportunidade inédita de olhar para Paulo com 
novos olhos, de mudar nossa perspectiva do séc. XVI para o séc. I, de fazer 
algo que todo verdadeiro exegeta quer fazer – a saber, ver Paulo 
apropriadamente dentro de seu próprio contexto, ouvir Paulo nos termos de 
seu próprio tempo, deixar Paulo ser ele mesmo.71 
 
 
Em resumo, o argumento fundamental de Sanders é que o judaísmo não era uma 
religião de obras mas da graça e misericórdia de Deus. A partir de um estudo 
aprofundado da maior parte da literatura judaica do primeiro século, Sanders tentou 
mostrar que a relação de aliança que Israel tinha com Deus era básica para o sentimento 
de nacionalidade do judeu e para sua compreensão da religião. Ele afirma que Deus 
escolheu Israel para ser seu povo, para desfrutar de um relacionamento especial. A lei 
então foi dada como uma expressão dessa aliança, “para regular e preservar o 
relacionamento estabelecido pela aliança.”72 
Isso significa que, no judaísmo, a obediência à Lei nunca foi pensada como 
um meio de entrar na aliança, de conseguir um relacionamento especial com 
Deus; era antes a questão de manter o relacionamento da aliança com Deus. 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
69 DUNN, James D. G. A teologia de Paulo. Trad. Edwino Royer. São Paulo: Editora Paulus, 2003, p. 
391. 
70 SANDERS, 2009, p. 132. 
71 DUNN, 2011, p. 161 
72 Ibid, p. 160. 
	
  
	
   36 
A partir disso, Sanders elabora sua expressão chave para caracterizar o 
judaísmo palestinense do primeiro século, “nomismo da aliança”.73 
 
 
Um outro ponto importante na Nova Perspectiva é sobre a justificação pela fé, 
que na visão reformada, é o centro da teologia de Paulo, mas que agora é vista por 
Sanders e outros teólogos da Nova Perspectiva como uma tática pragmática para 
facilitar a missão aos gentios. Para Albert Schweitzer, que é um dos teólogos da Nova 
Perspectiva, citado na obra de Stuhlmacher: “a doutrina da justificação pela fé é uma 
cratera secundária, formada dentro da cratera principal, a doutrina mística da redenção 
por meio do ‘estar em Cristo’”74 
 
2.1.2 James Dunn 
 
Além de Sanders, outro teólogo escocês, que tem contribuído para a Nova 
Perspectiva é James Dunn, autor de uma das principais obras sobre esta corrente 
teológica, e que tem como título “A Nova Perspectiva sobre Paulo”. Ele percorre linhas 
um pouco diferentes, e apesar de sofrer influência da apresentação do judaísmo feita por 
Sanders, apresenta algumas discordâncias do retrato que este faz de Paulo. 
Dunn sustenta duas ideias básicas: (1) O judaísmo não é uma religião legalista, 
que prega a justificação pelas obras, mas uma religião de graça. (2) O ensino de Paulo 
sobre a justificação independente das obras da lei é baseado na igualdade entre judeus e 
gentios diante de Deus. O que Paulo deseja é mostrar aos dois grupos (gentios e judeus) 
que Deus se inclina de maneira graciosa em direção a eles e os aceita.75 
Em seu artigo sobre a Nova Perspectiva, falando sobre James Dunn, Augustus 
Nicodemus diz: 
Sua abordagem sociológica tem recebido vasta aceitação. Para ele, Paulo 
ataca as “obras da lei” não porque elas expressam algum desejo de alcançar 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
73 Ibid. 
74 STUHLMACHER, 2002, p. 96. 
75 Ibid., p. 47. 
	
  
	
   37 
mérito por parte dos judeus, mas porque entende que elas fazem uma 
distinção entre os judeus, o povo de Deus da antiga dispensação, e os gentios, 
a quem o evangelho está sendo oferecido. As “obras da lei”, que Paulo 
identifica como restritas à circuncisão, às leis sobre alimentos puros e 
impuros (kashrut) e aos dias especiais do calendário judaico, são emblemas 
que caracterizam o judaísmo e devem ser rejeitadas porque enfatizam a 
separação entre judeus e não-judeus, a qual Cristo veio abolir76 
 
A partir de agora então, o Judaísmo não é mais visto como uma religião legalista, 
mas como “nomismo da aliança”, ou seja, a lei depende da graça, vem depois da graça e 
o observar a lei é compreendido como a resposta de Israel à graça de Deus. A Nova 
Perspectiva de Paulo entende que o legalismo é uma distorção do Judaísmo e não o 
próprio Judaísmo, e que as “obras da lei” são a marca principal da identidade judaica. O 
que faz de um judeu, um verdadeiro judeu é a prática das “obras da lei” que o diferencia 
do gentio: a circuncisão, a guarda do sábado, as regras sobre alimentação entre outros 
rituais. 
 
2.2 Gálatas 2.16 
 
Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante a 
fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos 
justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém 
será justificado.” (Gálatas 2.16) 
 
 
Um dos pontos chaves da Nova Perspectiva de Paulo é quando Paulo fala sobre 
justificação em Gálatas 2.16. Justificação é uma palavra tomada emprestada dos 
tribunais, e é exatamente o oposto de condenação. Como vimos no primeiro capítulo 
sobre este texto, a palavra “justificar” é um verbo que se encontra na voz passiva pois é 
ato exclusivo e gracioso de Deus que torna justo o pecador injusto. James Dunn, por sua 
vez, entende que quando Paulo se refere ao “ser justificado”, não é um ato 
distintivamente iniciatório de Deus, mas é o reconhecimento divino de que alguém está 
dentro da aliança. E Paulo não está falando aqui para cristãos que coincidentemente são 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
76 LOPES, 2006, p. 86. 
	
  
	
   38 
judeus, mas para judeus cuja fé cristã é um extensão da fé judaica em um Deus que 
escolhe e sustenta pela graça.77 
Dunn afirma que 
Em Gálatas 2.16, Paulo lida de fato, com o judaísmo como sabemos ter sido 
no primeiro século – um sistema de religião consciente de seu 
relacionamento especial com Deus e sensível a suas obrigações peculiares 
dentro de tal relacionamento. As críticas a Paulo por sua falha no 
entendimento do judaísmo, portanto, envolvem uma falha dupla de 
perspectiva. O que os eruditos no judaísmo rejeitaram como falha de 
entendimento de Paulo é uma falha no entendimento sobre Paulo, baseada na 
(re-) leitura protestante padrão pelas lentes da Reforma. Quando tiramos 
essas lentes, Paulo não parece estar tão fora de contato com seu contexto do 
primeiro século como até mesmo Sanders imagina. Sanders, de fato, libertou 
a exegese paulina de seus faróis do século dezesseis, mas ele ainda nos 
deixou com um Paulo que teria feito pouco sentido para seus contemporâneos 
judeus e com uma disposição para observar a lei em alguns momentos (1 Co 
9.19-23) que teria soado com a mais espetacular contradição.78 
 
 
Os reformados sempre afirmaram, com base principalmente em Gálatas e 
Romanos, que a mensagem central das cartas de Paulo é que os pecadores podem ser 
justificados mediante a fé em Jesus Cristo, sem obras pessoais e meritórias. E que estajustificação consiste em Deus nos imputar – isto é, atribuir – a própria justiça de Cristo. 
Entendemos que a justiça de Cristo imputada ao ser humano injusto é a doutrina central 
da teologia paulina. O rev. Hernandes Dias Lopes chega a afirmar que “quando a igreja 
caminhou na verdade, essa doutrina (justificação pela fé) foi sustentada. Sempre que 
entrou em declínio, foi esquecida”.79 Somos justificados com uma justiça alheia, a de 
Cristo, e não com uma justiça nossa, que procede de nossa obediência à lei de Deus 
(obras da lei). Lutero e os demais reformadores entenderam que esse era exatamente o 
ponto de discussão entre Paulo e os judaizantes, que à sua época queriam exigir que os 
crentes não judeus guardassem a lei de Moisés para poderem ser salvos. 
Já James Dunn entende que a justificação pela fé não é contrária à justificação 
pelas “obras”, mas é a marca da identidade dos cristãos em contraste com os judeus e 
gentios. Para Dunn, a justificação não significa que Deus transfere a sua própria justiça 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
77 DUNN, 2011, p. 167. 
78 DUNN, 2011, p. 181 
79 LOPES, 2011, p. 114. 
	
  
	
   39 
ao pecador, como ensina a doutrina reformada da imputação; Deus, à semelhança do 
que se faz num tribunal, considera vindicado o pecador, sem, todavia, imputar-lhe a sua 
própria justiça. A conclusão é que Paulo nunca ensinou a doutrina da imputação da 
justiça. Não é isso o que Paulo entende por justificação. Deus absolve o pecador por 
causa de sua fidelidade ao pacto, à aliança. É isso que significa a sua justiça. 
Então, o que Paulo estava atacando ao excluir a ideia de ser justificado pelas 
“obras da lei”? – Entendemos que Paulo está querendo dizer que não somos justificados 
pelas nossas obras, ou por aquilo que fazemos para Deus, mas sim, por aquilo que Deus 
já fez por nós. O que o apóstolo Paulo está dizendo é que a única obra que Deus aceita 
como base de nossa justificação é a expiação de seu filho Jesus Cristo na cruz do 
Calvário. Hernandes afirma que “somos justificados em virtude da sua morte em nosso 
lugar e em nosso favor”.80 
Quando Paulo afirma que “por obras da lei, ninguém será justificado”, a palavra 
“ninguém” também pode ser traduzida como “carne”, ou seja, nenhuma carne será 
justificada. A palavra “carne” foi sugerida ao apóstolo Paulo não só pela natureza física 
das circuncisões que os adversários queriam realizar nos gálatas, mas também para 
indicar a fraqueza humana, o pecado humano, em textos como Gênesis 6.3,12 e Isaías 
40.6. “Elevar as ‘obras da lei’ ao nível de requisito para viver em harmoniosa relação de 
aliança com Deus, diz Paulo, é colocar tal relação fora do alcance de todos, não importa 
se judeus ou gentios, porque a inclinação humana a desobedecer a Deus impede toda 
‘carne’ de obedecer à lei completamente (Gálatas 2.16).”81 
Para John Stott, precisamos entender duas coisas: A primeira é que Deus é justo; 
a segunda é que nós não somos. E estas duas realidades colocadas juntas, explicam 
nossa difícil situação. Algo está errado entre nós e Deus. Em vez de harmonia, há atrito, 
estamos sob juízo de Deus, e então Paulo, através deste versículo nos mostra como pode 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
80 LOPES, 2011, p. 116. 
81 HAWTHORNE, Gerald F., MARTIN, Ralph P., REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas cartas. 
Trad. Barbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulus, Vida Nova, Loyola, 2008, p. 791. 
	
  
	
   40 
um pecador condenado ser considerado justo: através da justificação pela fé. Sem a 
justificação pela fé exposta neste versículo, não existe nenhuma outra maneira de o 
homem ser considerado justo perante Deus.82 
 
 2.3 “Obras da lei” 
 
Os teólogos da Nova Perspectiva (Sanders e Dunn) afirmam que Paulo nunca foi 
contra as “obras da lei” como um caminho de salvação. Já Lutero, Calvino e outros 
reformadores sustentavam o contrário, que as “obras da lei” eram um caminho falso de 
salvação. Portanto, a Nova Perspectiva entende que a lei, as “obras da lei” e o judaísmo 
precisam ser interpretados de maneira diferente. 
A teologia reformada entende “obras da lei” em Gálatas como aqueles atos 
praticados pelos judeus em obediência aos mais estritos preceitos da lei de Moisés. Lei 
são os mandamentos dados a Moisés, e “obras da lei” são as obras que fazemos em 
observância à lei, cumprindo e obedecendo-a. 
Eles procuravam guardar tais preceitos visando acumular méritos diante de Deus. 
Guardavam certos preceitos, praticavam boas obras, a fim de serem aceitos por Deus e 
conseguir então entrar na aliança. Mas, James Dunn, em especial, argumentou que as 
“obras da lei”, às quais Paulo se refere em Gálatas eram a circuncisão, a guarda do 
calendário religioso e as leis sobre os alimentos, que eram sinais que mostravam a 
identidade judaica no século I. 
Paulo era contra estas coisas porque elas separavam judeus dos gentios e 
impediam que gentios convertidos se sentassem à mesa com judeus convertidos. Ou 
seja, a polêmica de Paulo não era contra o legalismo dos judaizantes, mas contra a 
insistência deles em manter os gentios distantes. Segundo os teólogos da Nova 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
82 STOTT, 1989, p. 58. 
	
  
	
   41 
Perspectiva, a Reforma havia perdido este ponto de vista por causa de Lutero e 
Agostinho. 
Por três vezes num único versículo (Gálatas 2.16) Paulo repete a expressão “... 
não pelas obras da lei”, e de acordo com Dunn83, o apóstolo estava pensando nas obras 
da aliança, num sentido mais restrito, obras relacionadas à aliança, e praticadas em 
obediência à lei da aliança. Como o debate que estava acontecendo em Jerusalém era 
por causa da circuncisão, e em Antioquia por causa das leis alimentares, Dunn afirma 
que por “obras da lei” Paulo estava tratando sobre determinadas observâncias da lei 
como circuncisão e leis alimentares praticadas por aqueles que já pertenciam à aliança, 
para manter o status nela. 
Podemos, então, observar dois pontos fundamentais dos ensinamentos de James 
Dunn: (1) “Obras da lei” não são entendidas pelos judeus ou pelo próprio Paulo como 
obras que conseguem o favor de Deus; são simplesmente o que a condição de membro 
da aliança envolve, o que marca judeus como povo de Deus. Servem para demonstrar o 
status da aliança. (2) “Obras da lei”, diferente da exegese da Reforma, não significam 
“boas obras” em geral. A expressão “obras da lei” em Gálatas 2.16 se refere àqueles 
regulamentos prescritos pela lei que qualquer bom judeu simplesmente teria que seguir. 
Portanto, esta expressão, para a Nova Perspectiva, faz distinção entre judeus e gentios. 
A lei possuía uma função social e servia para delimitar e até separar Israel das 
outras nações. Ou seja, as “obras da lei” podiam funcionar como marcadores de 
fronteiras, práticas e rituais que diferenciavam Israel dos outros povos. Por isso também 
foi que Paulo combateu as “obras da lei”, pois elas deixavam os gentios de fora, e só 
privilegiavam os judeus. Ou então os gentios tinham que judaizar-se, oque não agradou 
nem um pouco ao apóstolo Paulo. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
83 DUNN, 2011, p. 168 
	
  
	
   42 
Contudo, nós entendemos que é mais provável que Paulo use a expressão “obras 
da lei”, principalmente em Gálatas 2.16, num sentido mais amplo, ou seja, “boas obras” 
com a finalidade de conseguir a aprovação de Deus. Entendemos “obras da lei”, 
conforme explica Longenecker, como “todo complexo legalista de ideias relacionadas 
com o adquirir do favor divino pelo acúmulo de méritos mediante a observância da 
Torá”.84 
 Augustus Nicodemus85 afirma que a expressão “obras da lei” implica em 
cumprir toda a lei, e não apenas os mandamentos sobre circuncisão, alimentos e dias 
santos como afirma a Nova Perspectiva. Ao contrastar “obras da lei” com “fé em Cristo 
Jesus” em Gálatas 2.16, diferentemente do que ensinam Sanders e Dunn86, entendemos 
que Paulo estava abrangendo judeus e gentios, não para manter o status, mas para entrar 
na aliança. 
Ou seja, o que ele estava dizendo é que não é por praticar as obras requeridas 
pela lei que alguém (judeu ou gentio) é salvo, ou consegue entrar na aliança, mas única 
e exclusivamente pela dependência de Deus e de Jesus Cristo como Senhor e Salvador. 
Os judaizantes acreditavam que somente através do trabalho duro, ou seja, das 
boas obras, é que o homem consegue ser justificado. Eles ensinavam que é necessário 
observar toda a lei, mas essa interpretação é falsa, pois a lei exige perfeição, e como 
vemos na própria Palavra de Deus, ninguém é perfeito, a não ser um, que é Cristo. O 
único que obedeceu completamente a lei e viveu sem pecado nenhum. 
Os judeus e judaizantes, segundo John Stott, afirmavam que 
É preciso amar e servir ao Deus vivo, e não ter outros deuses ou substitutos. 
É preciso reverenciar o seu nome e o seu dia, e honrar os pais. É preciso 
evitar o adultério, o homicídio e o roubo. Nunca devemos dar falso 
testemunho contra o nosso próximo nem cobiçar alguma coisa que lhe 
pertença. Mas não era só isso. Além da lei moral, temos a lei cerimonial, à 
qual é preciso obedecer. É preciso levar a religião a sério, examinando as 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
84 LONGENECKER, Richard N. Galatians. In: Word Biblical Commentary. Dallas: Word Books, 1990, 
p. 86. 
85 LOPES, 2006, p. 90. 
86 Para Sanders e Dunn, “obras da lei” são somente para os bons judeus que seguiam para manter o status 
da aliança. 
	
  
	
   43 
Escrituras em particular e frequentando os cultos públicos. É preciso jejuar, 
orar e dar esmolas. E, se fizer tudo isso, sem falhar em nada, ter-se-á 
alcançado o sucesso e a aceitação de Deus sendo então justificado “pelas 
obras da lei”87 
 
Portanto, Paulo rejeita as “obras da lei” porque o propósito de Deus nunca foi 
que a lei servisse de caminho para a salvação, e pelo fato do homem ser totalmente 
corrompido pelo pecado, ele é incapaz de cumprir o que a lei ordena. Diante disto, a 
teologia reformada sustenta que ninguém pode se justificar pelas “obras da lei” porque 
ninguém é capaz de obedecer e seguir tudo o que a lei exige. 
 
2.4 As fraquezas da Nova Perspectiva de Paulo 
 
A Nova Perspectiva, por diversas vezes, coloca em dúvida o judaísmo descrito 
por Paulo, e chega até a afirmar que o apóstolo era contraditório em suas postulações. 
Ela admite que autores bíblicos podem ter cometido erros históricos ou entrado em 
contradições, ou seja, os teólogos da Nova Perspectiva acabam atacando a autoridade e 
inerrância das Escrituras Sagradas, adotando práticas de interpretação liberal. Afirmar 
que Paulo pode ter falhado em algum momento ou entrado em contradição consigo 
mesmo é colocar em dúvida a inspiração do Espírito Santo sobre os autores bíblicos e 
dizer que a Palavra de Deus contêm erros. 
Para eles, a Bíblia pode ser tratada como um livro de religião qualquer, cujos 
autores poderiam ter cometido erros históricos, fornecido alguma informação falsa ou 
equivocada e até mesmo caído em contradições. Um exemplo se encontra na obra de 
Sanders, quando ele afirma: “Não obstante, Romanos 2 fica sendo o exemplo no qual 
Paulo ultrapassa a incoerência ou a variedade de tema e de explicação para chegar à 
verdadeira contradição consigo mesmo.”88 Além disso, Sanders usa fontes do século III 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
87 STOTT, 1989, p. 59. 
88 SANDERS, 2009, p. 179. 
	
  
	
   44 
e IV como Talmud, Mishna e Midrashes para reconstruir o pensamento judaico do 
século I. 
Segundo Augustus Nicodemus em seu artigo sobre a Nova Perspectiva de 
Paulo89, Sanders apresenta algumas fraquezas. Em primeiro lugar, algumas coisas 
permanecem sem explicação, como a distinção que ele faz entre “ser justificado diante 
de Deus” (que para ele não era a preocupação de Paulo nem dos judeus) e “entrar no 
povo de Deus”. Em segundo lugar, Sanders omitiu das informações rabínicas as 
evidências de que o judaísmo palestino era legalista. C. K. Barrett afirma ironicamente 
sobre Sanders: “Ele é um homem presunçoso que supõe compreender o judaísmo do 
primeiro século melhor do que Paulo”.90 Tanto é assim, que em sua obra “Paulo, a lei e 
o povo judeu”, Sanders afirma categoricamente que quando Paulo diz em Gálatas que a 
lei se cumpre no preceito de “amar o próximo”, ele está diminuindo a lei, mesmo não 
admitindo que a tenha reduzido.91 
Outro ponto estranho é a maneira como a Nova Perspectiva interpreta Gálatas 
2.16, dizendo que Paulo queria simplesmente corrigir a ideia judaica de que a 
justificação pode ser recebida somente pelos que estão na aliança, que se distinguem 
dos gentios pela circuncisão, pela observância das leis alimentares, das normas de 
pureza e do sábado. 
Dizem eles que Paulo queria tornar a justificação acessível também aos gentios 
que não observavam as “obras da lei”, que era observada apenas pelos judeus que já 
estavam na aliança, para manter o status e a condição de verdadeiro judeu diante de 
Deus. No entanto, o que Paulo está realmente dizendo é que ninguém (nem judeu, nem 
gentio) será justificado por Deus com base nas “obras da lei”. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
89 LOPES, 2006, p. 83-94. 
90 BARRET, C. K. Paul: An introduction to His thought. Louisville: Wesminster John Knox, 1994, p. 78. 
Tradução nossa. 
91 SANDERS, op. cit., p. 130. 
	
  
	
   45 
Todas as tentativas de alguém confiar na própria justiça derivada da lei são 
inúteis, pois a justificação acontecerá pela fé em Cristo Jesus.92 O próprio apóstolo 
Paulo afirma: “Não anulo a graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se 
que morreu Cristo em vão” (Gálatas 2.21). 
Outra fraqueza que encontramos é sobre o “nomismo da aliança”, que diz que os 
judeus observavam as leis como forma de manter o status dentro do pacto. Sobre isso, 
Stuhlmachercita Morna Hooker: 
É evidente que não podemos falar aqui de um “nomismo da aliança” no caso 
de Paulo, já que iria na contramão da disputa básica de Paulo com a Lei. O 
ponto é que, para Paulo, a Lei foi substituída por Cristo – ou, antes, já que a 
Lei era uma medida interina, mostra-se em seu verdadeiro caráter de 
substituto, agora que chegou a realidade. As perguntas “quem pertence à 
aliança?” e “como a pessoa reage à aliança?” são respondidas por Paulo em 
termos de Cristo; pelo judaísmo, em termos da Lei93 
 
 
Enquanto o judaísmo é nomocêntrico, Paulo é cristocêntrico. Enquanto o 
judaísmo prega a salvação pelas obras, Paulo prega a salvação pela fé em Jesus Cristo. 
O judaísmo crê na justificação pela lei, o apóstolo crê na justificação pela fé, e isso não 
vem de nós, é dom de Deus (Efésios 2.8). Em Gálatas 3.1-5 ele rompe de maneira 
fundamental com a lei e, assim, com o judaísmo. 
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi 
Jesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: 
recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assim 
insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos 
aperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, na 
verdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que opera 
milagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação da 
fé? (Gálatas 3.1-5) 
 
 
O que vemos neste versículo é o argumento de que é insensatez alguém ter 
começado no Espírito, e agora completar-se “na carne”, ou seja, é ridículo uma pessoa 
ter começado no evangelho e voltar à lei, como se ela complementasse o evangelho. O 
apóstolo Paulo, ao contrário do que afirmam Sanders e Dunn, não está atacando apenas 
uma parte do judaísmo que se tornou legalista, mas o judaísmo como um sistema 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
92 STUHLMACHER, 2002, p. 52. 
93 STUHLMACHER, 2002, p. 124. 
	
  
	
   46 
legalista, que o mesmo apóstolo afirma no versículo supracitado ser uma religião da 
carne (“... aperfeiçoando na carne”), onde a salvação e a entrada na aliança de Deus 
depende do homem e suas boas obras. 
Por último, podemos concluir dizendo que não há unanimidade nem mesmo 
entre os proponentes da Nova Perspectiva, pois vemos muitas vezes James Dunn, 
principalmente em sua principal obra “A Nova Perspectiva sobre Paulo”, criticando 
alguns aspectos dos escritos de Sanders. Dunn chega a dizer: “De fato, ao colocar as 
coisas em seu devido lugar, à medida que se referiam ao judaísmo confrontado por 
Paulo, Sanders apenas complicou o quebra-cabeça.”.94 
Portanto, a Nova Perspectiva de Paulo deve ser encarada com cuidado e com 
restrições, e entendemos que a perspectiva tradicional é a perspectiva bíblica e a que 
melhor interpreta a teologia de Paulo. Biblicamente, não há como enxergarmos o 
judaísmo como uma religião da graça. Diante das Escrituras, só podemos interpretar o 
judaísmo como um sistema legalista e uma religião de méritos para entrar na aliança, o 
que vem em oposição ao evangelho da graça revelado em Jesus Cristo, e que Paulo 
tanto lutou para viver e pregar. 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
94 DUNN, 2011, p. 36. 
	
  
	
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3. A importância da lei na era da graça 
 
A lei nos foi dada pelo Senhor para nos ensinar a justiça perfeita, e que nela 
nenhuma outra justiça nos é ensinada, senão a que nos manda regrar-nos pela 
vontade de Deus e conformar-nos a ela. Assim, inutilmente imaginamos 
novas formas de obras para obter a graça de Deus, sendo que o único serviço 
legítimo que se lhe pode prestar é a obediência.95 
 
 
Diante do que vimos até aqui, após olharmos para a carta aos Gálatas na 
perspectiva de Calvino e Lutero, e então, no segundo capítulo, conhecermos um pouco 
da Nova Perspectiva de Paulo, neste terceiro capítulo pretendemos olhar para a teologia 
paulina, no que diz respeito à doutrina da lei e graça e de uma maneira prática, 
responder à pergunta feita na introdução: “Para quê serve então a lei, se vivemos na era 
da graça?” 
 
 3.1 O tríplice uso da lei 
 
As Escrituras nos mostram que Deus ordenou sua lei para funcionar de três 
formas, o que João Calvino, de uma forma clássica e para o auxílio da igreja, 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
95 CALVINO, 2006, p.167. 
	
  
	
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sistematizou e chamou de “o tríplice uso da lei”.96 O termo é apresentado também na 
Teologia Concisa de J.I. Packer.97 
 A primeira função da lei é ser um espelho que reflete tanto a justiça e a vontade 
perfeita de Deus como nossa própria pecaminosidade: “pois aquele a quem falta a 
capacidade para seguir a justiça, este está de modo absoluto atolado em um lamaçal de 
pecados.”98 A lei serve para mostrar o perigo da condenação do pecado e também nossa 
necessidade de perdão. Segundo Gálatas 3.24, a lei destina-se também a conduzir-nos 
em arrependimento e fé a Cristo, a fim de que fôssemos justificados. 
Portanto, uma vez que somos todos comprovadamente seus transgressores, 
quanto mais claramente revela ela a justiça de Deus, tanto mais desvenda, em 
contrário, nossa iniquidade; quanto mais explicitamente confirma o galardão 
da vida e da salvação como dependente da justiça, tanto mais confirma a 
perdição dos iníquos. Portanto, estas ponderações longe estão de ser 
injuriosas à lei; ao contrário, são valiosas para uma recomendação mais 
excelente da beneficência divina.99 
 
 
A segunda função da lei é restringir o mal. Embora a lei por si só não tenha 
poder para mudar o coração, ela pode inibir a ilegalidade por suas ameaças de 
julgamento ou punições. Calvino diz que "esta justiça forçada e compulsória, é 
necessária à sociedade comum dos homens, a cuja tranquilidade esta se vota, enquanto 
se vela para que todas as coisas não se misturem em confusão, o que aconteceria, se a 
todos tudo se permitisse."100 
Desse modo, ela garante alguma ordem civil, e de certo modo, protege o justo do 
injusto. Podemos ver essa realidade em Romanos 13.4 que diz: “visto que a autoridade é 
ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem 
motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que 
pratica o mal.” 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
96 Id. As Institutas da Religião Cristã: edição clássica. Trad. Waldir Carvalho Luz. 2.ed. São Paulo: 
Cultura Cristã, vol2, 2006, p. 118-123. 
97 PACKER, J.I. Teologia Concisa: síntese dos fundamentos históricos da fé cristã. Trad. Rubens 
Castilho. Campinas: Luz Para o Caminho, 1998, p. 88-89. 
98 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 118. 
99 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 119. 
100 Ibid., p. 121. 
	
  
	
   49 
Ora,até mesmo aos filhos de Deus é útil que sejam exercitados por esta tutela, 
por quanto tempo, antes da sua vocação, destituídos do Espírito de 
santificação, se esbaldem na insensatez da carne. Pois, enquanto pelo temor 
da vingança divina se retraem pelo menos ao desregramento exterior e, de 
qualquer forma, ainda não quebrantados no espírito, façam pouco progresso 
no presente, contudo, ao levarem o jugo da justiça, são, por outro lado, 
acostumados, de modo que, quando forem chamados, não sejam inteiramente 
inexperientes e noviços em relação à disciplina ou coisa desconhecida.101 
 
 
A terceira função da lei é expressar a vontade de Deus, aquilo que lhe agrada, e 
assim, guiar os regenerados a fazer a vontade do Pai, ou seja, levá-los às boas obras que 
Deus já havia planejado para eles. Esta terceira função, que “não só é a principal, mas 
ainda contempla mais de perto ao próprio fim da lei, tem lugar em relação aos fiéis, em 
cujo coração já vigora e reina o Espírito de Deus.”102 E quando Jesus Cristo disse que 
todos os que tornam seus discípulos devem guardar a lei e fazer tudo o que ela ordena, é 
deste terceiro uso que ele estava falando. 
“Entretanto, isto permanece sempre incontestável: nada se deve detrair da 
autoridade da lei, e que ela deve ser sempre tomada por nós com a mesma veneração e 
obediência.”103 E em se tratando de obediência à lei de Deus, existem dois perigos que 
nós precisamos tomar muito cuidado para não cairmos neles: o legalismo e o 
antinomismo. 
 
 
3.2 Dois perigos que devemos evitar 
 
3.2.1 Legalismo 
Como já vimos na introdução, o legalismo contradiz a graça de Deus, porque 
busca aceitação e retidão mediante a religiosidade e as obras da lei. O legalismo foca 
toda sua atenção no comportamento. Russell Shedd diz que “frequentemente deparamos 
com a ferrugem que desvirtua a graça de Deus, na forma de uma lista de supostos 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
101 Ibid. 
102 Ibid., p. 122. 
103 CALVINO, edição clássica, 2006, p. 125. 
	
  
	
   50 
‘pecados’ que o crente tem de evitar para gozar a salvação.”104 Uma pessoa se torna 
legalista quando enfatiza demais a lei em detrimento da graça, ou seja, ela segue uma 
lista de regras e mandamentos a fim de ser aceita por Deus. 
Esse perigo estava rondando e ameaçando “a verdade do evangelho” nas igrejas 
da Galácia. Podemos comprovar isso em Gálatas 2.14, quando o apóstolo escreve à 
igreja dizendo: “vi que não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho...” 
O legalismo estava tomando conta das igrejas gálatas, e isto estava incomodando tanto o 
apóstolo Paulo que ele chega a afirmar em Gálatas 2.21 que “se a justiça é mediante a 
lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” O problema não é o apenas guardar a lei, mas 
o guardar a lei como caminho para a salvação. 
O legalismo requer que o homem se esforce para cumprir a lei, e portanto, tudo 
depende do esforço do homem na autodisciplina. Sendo assim, a prática legalista leva a 
um outro perigo, que é o orgulho. A partir do momento que o homem segue práticas 
legalistas e começa a achar que sua aceitação diante de Deus é resultado do seu esforço 
em seguir uma lista de regras, ele vai se tornando orgulhoso, arrogante e cai na ilusão de 
achar que tudo depende dele. “Quem é mais disciplinado, ou tem gostos mais 
condizentes com as práticas das “leis” eclesiásticas, conclui que é mais santo.”105 
Sendo assim, devemos tomar cuidado para não cair no legalismo, pois ele não 
pode evitar os pecados íntimos que mais ofendem a Deus, que é o orgulho e a 
hipocrisia.106 Devemos portanto nos lembrar sempre que vivemos para o Senhor e não 
para nós mesmos, e sem sua graça, nós nunca seremos capazes de conquistar sua 
aceitação, mesmo que sejamos capazes de observar todas as leis. 
A resposta ao legalismo não é a crença fácil, o evangelismo sem a 
necessidade de arrependimento, a busca de uma segunda bênção mística do 
Espírito, ou uma vida cristã destituída de instrução e orientação corretas. O 
legalismo deve ser combatido com um entendimento bíblico da verdadeira 
‘vida no Espírito’. Em tal viver, o Espírito de Deus é o autor gracioso da 
nova vida, que nos convence do nosso pecado e da miséria contra a lei 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
104 SHEDD, Russell. Lei, graça e santificação. São Paulo: Vida Nova. 2008, p. 45. 
105 SHEDD, 2008, p. 52. 
106 Ibid. 
	
  
	
   51 
violada de Deus, que nos une a Cristo na salvação para que possamos 
participar de Sua vida santa, que nos capacita a entender a orientação dada 
pela palavra de Deus, e que nos faz crescer pela graça de Deus, tornando-nos 
pessoas que obedecem aos mandamentos de Deus.107 
 
 
3.2.2 Antinomismo 
Se devemos tomar cuidado com o legalismo, a fim de não excluir a graça de 
Deus, também existe um outro perigo que precisamos ter o mesmo cuidado. Esse perigo 
é chamado de antinomismo, que é a negação da lei em função da graça. O antinomismo, 
em oposição ao legalismo, afirma que a lei não tem nenhum papel a desempenhar na 
vida do cristão. Enquanto o legalismo exalta de tal maneira a lei que chega a excluir a 
graça, o antinomismo exalta de tal maneira a graça ao ponto de perder de vista a lei, 
como uma regra de vida.108 
O termo antinomismo vem do grego “anti” (contra) e “nomos” (lei), e é 
sinônimo do vocábulo “libertinagem”, portanto, trata-se daqueles que pensam que a 
graça é tão abrangente que todo esforço para fazer o que Deus manda é desnecessário. 
Paulo sabia sobre esse perigo quando escreve aos Romanos: “Que diremos, 
pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante” (Romanos 
6.1). Para os antinomistas, quando a graça nos alcança, já não é mais necessário nenhum 
tipo de lei. “Mas crer que a recepção de tão estupendo presente, como é o perdão dos 
pecados, não cria qualquer obrigação, é esquecer que a aliança que Deus faz com suas 
criaturas sempre traz consigo sua exigência.”109 
Para não cair nesse perigo, é preciso entender que juntamente com a graça de 
Deus, vem a exigência e a obrigação. O arrependimento é necessário, uma vida que 
obedece às vontades de Deus é necessária, pois uma teologia que nos oferece graça sem 
arrependimento é uma teologia falsa. Shedd afirma que 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
107 CLARK, Gordon. Legalism. In Baker’s Dictionary of Christian Ethics. Grand Rapids: Baker Book 
House. 1973, p. 385, tradução nossa. 
108 Veja na pág.8, acima. 
109 SHEDD, 2008, p. 29. 
	
  
	
   52 
Não achamos que o cristianismo verdadeiro possa existir com base numa 
graça tão leviana que o cristão não a valorize. Quando a salvação não passa 
de uma assinatura num cartão de decisão ou um braço levantado num reunião 
de evangelização, torna-se inevitável o desprezo desse dom de infinito valor. 
[...] Acontece que, se os pecadores não têm nenhuma ideia da majestade e 
santidade de Deus, nem do inconcebível inferno para o qual caminham, a 
graça perde sua força transformadora.110 
 
 
A graça dos antinomistas é uma graça barata111, que não exige nada. Mas a graçade Deus é transformadora e motiva o cristão a buscar o reino de Deus e a desejar 
cumprir sua vontade prescrita na lei. Ciente destes dois perigos, não podemos nem 
abraçar a lei de tal modo a diminuir a graça de Deus, e nem abraçar a graça excluindo 
por completo a lei de Deus. É necessário encontrar o ponto de equilíbrio. 
 
3.3 O ponto de equilíbrio 
 
 Diante destas verdades, podemos afirmar que todos aqueles que receberam o 
evangelho de Jesus Cristo não estão mais debaixo da lei como um pacto de vida, mas 
estão agora debaixo da graça. No entanto, isso não significa que a lei se tornou 
desprezível, mas ainda hoje, na era da graça, a lei tem utilidade para nós. 
O parágrafo VII, do capítulo XIX da CFW afirma: “os supracitados usos da lei 
não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente condiz com ela, pois o 
Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer livre e alegremente 
aquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que se faça.” 
 O apóstolo Paulo entendia isso quando escreveu: “É, porventura, a lei contrária 
às promessas de Deus? De modo nenhum! Porque, se fosse promulgada uma lei que 
pudesse dar vida, a justiça, na verdade, seria procedente da lei.” (Gálatas 3.21) 
 Apesar de não sermos salvos pela observação da lei, uma vez que somos salvos 
pela graça de Deus, a lei continua sendo indispensável na obra de santificação. A lei 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
110 Ibid. p. 33. 
111 D. Bonhoeffer tornou esta expressão famosa em seu livro “Discipulado” em meados de 1930. 
	
  
	
   53 
continua sendo um padrão de justiça que serve para regrar nossas vidas; ela nos mostra 
a extensão de nossas obrigações para com Cristo e através da ação do Espírito Santo, 
nos tornamos convictos do pecado, do arrependimento e da fé.112 
 Pela graça de Deus somos capacitados a cumprir a vontade de Deus e então, “a 
lei de Deus soberanamente se torna a espontânea lei de nossos espíritos, e daí aquela 
real lei da liberdade” 113 da qual fala Tiago 1.25: “Mas aquele que considera, 
atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte 
negligente, mas operoso praticante, esse será bem aventurado no que realizar.” 
O cristão, portanto, é livre da lei como um sistema de salvação para conquistar a 
aceitação de Deus, mas está sob a lei de Cristo, como uma regra de vida. O problema é 
que, por si só, o homem nunca será capaz de cumpri-la corretamente, é necessário algo 
mais: a graça. Como diz Packer, a ideia da graça é a chave que abre o Novo Testamento 
e nós não poderemos penetrar em seu verdadeiro significado enquanto não conhecermos 
algo acerca do que é a graça.114 
De acordo com Packer: 
A palavra “graça” expressa a ideia de que Deus age por bondade espontânea 
para salvar os pecadores: Deus amando o não-amável, fazendo uma aliança 
com eles, perdoando-lhes os pecados, aceitando-os, revelando-se a eles, 
comovendo-os a uma resposta, levando-os finalmente ao pleno conhecimento 
e gozo de si mesmo e derrubando todos os obstáculos que surgem a cada 
estágio ao cumprimento desse propósito. A graça é o amor eletivo mais o 
amor pactuante, uma escolha gratuita, resultando numa obra soberana. A 
graça salva do pecado e de todo o mal; a graça traz homens ímpios à 
verdadeira felicidade, que consiste em conhecer o Criador. Esse é o conceito 
de “graça”, com o qual escreveram os autores do Novo Testamento.115 
 
 
 Depois, então, de nos fazer lembrar de nossa fraqueza e impureza através da lei, 
Deus nos conforta através da sua graça e misericórdia. E é através de Cristo que ele faz 
isso. Segundo Calvino, em Cristo, a face de Deus brilha cheia de graça e bondade até 
mesmo para os pecadores miseráveis e indignos. “Ele deu este admirável exemplo do 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
112 HODGE, A.A. Confissão de Fé de Westminster comentada. Trad. Valter Graciano Martins. São 
Paulo: Editora Os Puritanos, 1999, p. 348-349. 
113 Ibid., p. 349. 
114 PACKER, 1994, p. 86. 
115 Ibid. p. 88. 
	
  
	
   54 
seu infinito amor quando expôs seu próprio filho por nós, e nele nos abriu todo o 
tesouro da sua clemência e bondade.”116 
 
3.4 A graça nos capacita a cumprir a lei 
 
A fé reformada tem, ao longo dos séculos, lutado por ensinar e viver a 
verdade do evangelho e da lei mantendo o equilíbrio entre a lei e a liberdade, 
evitando a imoralidade gerada pelo antinomismo e a prisão do legalismo. 
Tanto um quanto o outro podem gerar resultados caóticos para a vida do 
cristão e da sociedade. Ninguém melhor do que o Senhor da Igreja para nos 
mostrar qual o mais excelente caminho para interpretarmos a lei.117 
 
 A visão e o conceito que Paulo tem da lei é determinado pela cruz de Jesus 
Cristo, ou seja, ele sempre interpreta a lei com os óculos da morte e ressurreição de 
Cristo. “Por esse motivo, nós vemos nos seus escritos que ele tanto nega como confirma 
a lei.”118 Mas por que isso? A negação da lei é afirmada em Gálatas 2.21: “Não anulo a 
graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a lei, segue-se que Cristo morreu em vão.” 
Aqui nós vemos Paulo negando a lei como base para a justificação, ou seja, por causa 
da queda, a partir de Gênesis 3, o homem é incapaz de guardá-la. O apóstolo nega a lei 
como meio de conseguir a aceitação de Deus. 
 Ao confirmar a lei, o apóstolo nos ensina que esta proíbe o pecado, ou seja, ele 
enfatiza o caráter negativo da lei, afirmando que ela é a Palavra de Deus dirigida contra 
o pecado, como podemos observar em Romanos 3.19: “Ora, sabemos que tudo o que a 
lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja 
culpável perante Deus.” Através da lei, o poder do pecado é exposto, e ela conduz o 
homem caído a Cristo, ainda que este seja incapaz de observá-la por completo sem a 
ação do Espírito Santo. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
116 CALVINO, João. Instrução na Fé: princípios para a vida cristã. Trad. Denise Meister. Goiânia: 
Editora Logos, 2003, p. 35. 
117 MEISTER, 2003, p. 82. 
118 TENNEY, Merrill [org]. Enciclopédia da Bíblia: Cultura Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, vol. 
3, p. 896. 
	
  
	
   55 
 No versículo 19 do capítulo 3 de Gálatas, quando Paulo nos diz que a “lei nos 
serviu de aio para nos conduzir a Cristo”, não significa que a lei, por causa de seus 
sacrifícios, sacerdotes e prescrições de purificação ofereceu um esboço de Cristo. A 
função da lei pretendida aqui não é de, num sentido positivo, conduzir gradualmente 
aqueles que estão debaixo dela a Cristo, mas sim de “prepará-los para a redenção que 
manifestou-se em Cristo como libertação desse cativeiro.”119 
Segundo Gálatas 3.22: “Mas a Escritura encerrou tudo sob o pecado, para que, 
mediante a fé em Jesus Cristo, fosse a promessa concedida aos que creem”, ou seja, o 
homem é encerrado sob o pecado pela lei, e quando de fato entendemos a função da lei, 
a mesma lei previne o homem de tentar ser justo diante de Deus por qualquer outro 
modo que não a fé em Jesus Cristo e sua obra. 
Embora o cristãonão esteja sob a lei como um meio de aceitação por Deus, ele 
busca obedecer a vontade de Deus em conformidade com o padrão estabelecido na lei. 
O dom da justificação leva ao reconhecimento da tarefa da obediência.120 Primeiro, o 
cristão é justificado por Cristo, e então ele é habilitado para cumprir a lei de Deus. 
A lei de Moisés [...] foi introduzida, para que a pecaminosidade latente no ser 
humano fosse trazida à tona, expressando-se visivelmente em transgressões 
concretas de mandamentos específicos. Foi, realmente, isso que aconteceu; a 
lei causou um aumento do pecado; “mas onde abundou o pecado, 
superabundou a graça”121 
 
 
Quando a graça de Deus nos alcança, entramos numa nova vida e o pecado não 
tem mais qualquer autoridade sobre nós, pois passamos a pertencer a Deus, que nos 
libertou da escravidão anterior. Deus concede ao seu povo o presente gratuito da vida 
eterna em Cristo, e então, unido a Cristo, o cristão que vive em pecado se torna uma 
contradição de termos. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
119 RIDDERBOS, Herman. A Teologia do Apóstolo Paulo: A obra definitiva sobre o pensamento do 
apóstolo aos gentios. Trad. Suzana Klassen. São Paulo: Cultura Cristã. 2004, p. 159. 
120 TENNEY, 2008, p. 896. 
121 BRUCE, F.F. Paulo: o apóstolo da graça, sua vida, cartas e teologia. Trad. Hans Udo Fuchs. São 
Paulo: Shedd Publicações, 2003, p. 321. 
	
  
	
   56 
Essa mudança só a graça é capaz de fazer. A lei podia declarar a vontade de 
Deus, mas não podia conceder poder para fazer essa vontade. A lei podia mostrar a 
pecaminosidade do ser humano, mas não podia libertar o homem da escravidão desse 
pecado. É por isso que a pessoa podia estar sob a lei, reconhecer sua autoridade, e 
mesmo assim estar sob o controle do pecado. 
Como Bruce afirma, “a graça de Deus liberta os que estão presos pelo pecado, o 
que a lei jamais poderá fazer; paradoxalmente, a lei pode servir para fechar com mais 
força as correntes do pecado em torno do pecador.”122 E quando a graça de Deus liberta 
os que estão presos pelo pecado, um novo poder interior é concedido a essas pessoas, 
capacitando-as a cumprir o que não podiam antes. Ou seja, sem a graça, é impossível se 
cumprir os mandamentos de Deus que existem na lei. 
A diferença é que antes de recebermos a graça de Deus, a lei, ou seja, a vontade 
de Deus, estava registrada em tábuas de pedra, e a partir do momento em que recebemos 
a graça, o próprio Deus grava sua vontade em nossos corações.123 Um impulso interior 
realiza o que a compulsão exterior não conseguia.124 Este impulso interior é realizado 
pela graça de Deus que nos capacita a cumprir plenamente a vontade dele, ou seja, “a 
história da graça de Deus é centrada exatamente nisto, que essa obediência que o 
homem decaído é incapaz de prestar, outro prestou em seu lugar.”125 Paulo tinha essa 
realidade em mente quando escreveu Romanos 5.19: “Porque, como pela desobediência 
de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência 
de um só, muitos se tornarão justos.” 
 
3.5 A lei de Cristo 
 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
122 Ibid., p. 231. 
123 Cf. Ezequiel 36.27 e Hebreus 8.10. 
124 BRUCE, 2003, p. 193. 
125 TENNEY, 2008, p. 896. 
	
  
	
   57 
Embora não possamos ser aceitos por guardar a lei, depois que somos aceitos 
continuamos guardando a lei por causa do amor que temos a Deus, que nos 
aceitou e nos deu o seu Espírito para nos capacitar a guarda-la. Na 
terminologia do Novo Testamento, embora a nossa justificação não dependa 
da lei mas de Cristo crucificado, a nossa santificação consiste no 
cumprimento da lei.126 
 
 
Cristo foi aquele que viveu e cumpriu cabalmente todos os aspectos da lei de 
Deus. Ele nunca quebrou a lei civil e foi o cumprimento da lei cerimonial, viveu a lei 
moral perfeitamente, sem nunca ter cometido um pecado sequer.127 Assim, Cristo 
morreu sem merecer ser morto para que seu povo pudesse ser salvo e para que fosse 
imputada sua justiça sobre os eleitos. 
Cristo nos libertou do jugo da lei, e quando Paulo adverte alguns membros das 
igrejas gálatas a não usarem essa liberdade para darem ocasião à carne, a correção que 
ele aplica é: “Sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gálatas 5.13), fazendo uso 
da prescrição de Levítico 19.18: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” Quando a 
lei é usada dessa maneira, ela não pode ser entendida legalmente. 
A lei do amor é incapaz de ser imposta ou obrigada por autoridade externa. 
Antes, é o princípio espontâneo de pensamento e ação em uma vida 
controlada pelo Espírito de Cristo; é aceita e praticada por vontade própria. 
Paulo estava convicto de que a liberdade do Espírito era um incentivo mais 
forte à boa vida do que todos os mandamentos ou decretos do mundo.128 
 
 
 Paulo fazia parte do grupo religioso dos fariseus, um grupo legalista que 
conhecia a lei como ninguém. Ele relata em Filipenses 3.5-6: “circuncidado ao oitavo 
dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, 
fariseu, quando ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na lei, 
irrepreensível.” No entanto, Jesus lhe apareceu no caminho para Damasco (Atos 9) 
como o Messias, e passou a realizar em Paulo e através dele algo que ia além do que a 
lei era capaz de fazer. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
126 STOTT, 1989, p. 131. 
127 Cf. carta aos Hebreus que é um tratado bem detalhado de como Cristo cumpriu a lei cerimonial. 
128 BRUCE, 2003, p. 181. 
	
  
	
   58 
 Enquanto a lei o estava levando para longe de Deus, sua nova fé em Jesus o 
trouxe, consciente, para uma condição de justiça perante Deus e de paz com ele.129 Seu 
zelo pela lei era cego, ele ignorava a justiça de Deus e tentava estabelecer sua própria 
justiça, mas a partir do momento em que ele recebe a graça de Deus, ele percebe que o 
“fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” (Romanos 10.2-4). 
 Agora, através de Jesus Cristo, somos capacitados a cumprir a lei, não para 
conquistar a aceitação de Deus, mas como resultado dessa aceitação. Para Paulo, fazer a 
vontade de Deus “não é uma questão de conformidade a regras exteriores, mas de dar 
expressão ao amor interior, gerado pelo Espírito.”130 
 Portanto, a lei de Cristo é também chamada de lei do amor, pois quando Paulo 
escreve em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de 
Cristo”, ele está pensando na lei que Cristo exemplificou, ou seja, que o próprio Jesus 
disse que toda a lei e os profetas dependiam dos mandamentos gêmeos de amar a Deus 
e amar o próximo (Mateus 22.40). Paulo havia entendido a mensagem de Jesus quando 
escreveu que “toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo 
com a ti mesmo.” (Gálatas 5.14). 
 A lei de Cristo, ou lei do amor é totalmente diferente da lei da escravidão. “O 
amor é gerado por uma espontaneidade interior e não pode ser forçado por sanções 
penais.”131 Portanto, a graça de Deus tem o poder de gerar em nós o desejo de cumprir a 
lei deDeus, não com o objetivo de conseguir a salvação, mas porque esta é a vontade de 
Deus e é isto que agrada a Deus. A lei do amor resume e engloba toda a lei de Moisés, e 
é por isso que Paulo fala que o cumprimento da lei é o amor (Romanos 13.10). 
 Mas como a lei do amor resume e engloba os dez mandamentos dados à Moisés? 
Ao olharmos para os dez mandamentos, vemos que o primeiro grande mandamento de 
amar a Deus sobre todas as coisas diz respeito aos quatro primeiros mandamentos 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
129 Ibid., p. 185. 
130 Ibid., p. 193. 
131 BRUCE, 2003, p. 194. 
	
  
	
   59 
registrados em Êxodo 20.3-11: (1) “Não terás outros deuses diante de mim”, (2) “Não 
farás para ti imagem de escultura”, (3) “Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em 
vão”, (4) “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar”. 
 O segundo grande mandamento de amar o próximo com a ti mesmo diz respeito 
aos últimos seis mandamentos que se encontram em Êxodo 20.12-17: (5) “Honra teu pai 
e tua mãe...”, (6) “Não matarás”, (7) “Não adulterarás”, (8) “Não furtarás”, (9) “Não 
dirás falso testemunho contra teu próximo”, (10) “Não cobiçarás...”. É por isso que 
Cristo perfeitamente resume a lei com o amor, e fazendo isso, estaremos cumprindo 
perfeitamente a lei de Deus. “Essa, para Paulo, é a lei de Cristo, porque assim é que 
Cristo vivia. E dessa maneira, para Paulo, o propósito divino que subjaz à lei de Moisés, 
é evidenciado e concretizado.”132 
 Sem a graça somos apenas escravos do pecado e inutilmente tentamos cumprir a 
lei por obrigação ou na tentativa de conquistar a Deus e fazer justiça com nossas 
próprias mãos, mas quando recebemos a graça de Deus, Cristo nos liberta do pecado e 
do peso da lei como meio de salvação. “Se somos cristãos, não é por nossos próprios 
méritos, mas pela vocação graciosa de Deus.”133 
 A liberdade que agora temos não é para satisfazer a carne, nem explorar o 
próximo e nem para ignorar a lei. Todos os que foram libertados por Jesus Cristo e 
receberam a graça expressam sua liberdade de três maneiras134; Paulo no-las ensina na 
sua carta aos Gálatas: (1) no domínio próprio, (2) no amor e no serviço ao próximo e (3) 
na obediência à lei de Deus. Paulo nos encoraja a permanecermos firmes nessa 
liberdade com a qual “Cristo nos libertou” (Gálatas 5.1) e para a qual fomos 
“chamados” (Gálatas 5.13), sem cair novamente na escravidão. 
 Assim, podemos perceber que a lei de Cristo que Paulo nos fala diz respeito a 
amar aos outros como Cristo nos ama. “Amar ao próximo”, “levar os fardos uns dos 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
132 BRUCE, 2003, p. 195. 
133 STOTT, 1989, p. 130. 
134 Ibid., p. 131. 
	
  
	
   60 
outros” e “cumprir a lei” para Paulo são expressões equivalentes que nos indicam que 
amar os outros como Cristo nos amou é a maneira de obedecermos a vontade de Deus. 
Segundo John Stott135, carregar os fardos uns dos outros é o grande ministério. É uma 
coisa que todo cristão deveria fazer. É uma consequência natural do andar no Espírito. É 
por isso que ele escreve em Gálatas 6.2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, 
cumprireis a lei de Cristo”. 
 Ao olhar para esta afirmação de Paulo em Gálatas 6.2 e para a vida de Jesus 
Cristo nos evangelhos, perceberemos que foi exatamente através do amor que Cristo 
cumpriu toda a lei, foi exatamente assim que Cristo viveu neste mundo. Se pegarmos 
como exemplo o sermão do monte, veremos como Jesus interpretou corretamente a lei. 
Cristo reinterpreta a lei sobre o homicídio (Mateus 5.21-26), sobre o adultério (Mateus 
5.27-32), sobre os juramentos (Mateus 5.33-37), sobre a vingança (Mateus 5.38-42) e 
sobre o amor ao próximo (Mateus 5.43-48), e todas as vezes que Jesus fala sobre 
alguma lei, ele usa a expressão: “Ouvistes o que foi dito [...] eu porém vos digo.”, 
trazendo uma interpretação verdadeira e fiel da lei de Deus. E ninguém melhor para 
fazer isso do que o próprio filho de Deus. 
 O teólogo John Frame em seu artigo chamado “Preaching Christ from the 
Decalogue”136 nos mostra como podemos enxergar Cristo ao observamos a lei moral 
dos dez mandamentos. Ele afirma que a lei nos mostra a justiça de Cristo, nossa 
necessidade de Cristo, a justiça de Cristo sendo imputada a nós e como Deus quer que 
demos graças pelo que Cristo fez em nosso favor. Frame sintetiza dessa maneira: 
(a) O primeiro mandamento nos ensina a adorar a Jesus como único Senhor, 
Salvador e mediador (At 4.12; 1 Tm 2.5). 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
135 Ibid., p. 145. 
136 FRAME, John. Preaching Christ from the Decalogue. Disponível em: 
<http://www.thirdmill.org/files/english/html/ot/OT.h.Frame.X.Decalogue.html> Acesso em 02 jun.2012. 
(Tradução nossa). 
	
  
	
   61 
 (b) No segundo mandamento, Jesus é a imagem perfeita de Deus (Cl 1.15; Hb 
1.3). Nossa devoção a ele torna impossível a adoração de qualquer outra imagem. 
(c) No terceiro mandamento, Jesus é o nome de Deus, o nome diante do qual 
todo joelho se dobrará (Fp 2.10,11; cf. Is 45.23) 
(d) No quarto mandamento, Jesus é o nosso descanso sabático. Em sua presença 
nós cessamos os nossos afazeres diários e ouvimos sua voz (Lc 10.38-42) 
(e) No quinto mandamento, nós honramos a Jesus que nos trouxe como seus 
filhos (Hb 2.10) à glória. 
(f) No sexto mandamento nós o honramos como a vida (Jo 10.10; 14.6; Gl 2.20; 
Cl 3.4), Senhor da vida (At 3.14), como aquele que deu a sua vida para que pudéssemos 
viver (Mc 10.45). 
(g) No sétimo mandamento nós o honramos como o noivo que se deu para nos 
lavar, para nos fazer sua noiva pura e sem mancha (Ef 5.22,23). Nós o amamos como 
nenhum outro. 
(h) No oitavo mandamento nós honramos Jesus como nossa herança (Ef 1.11) e 
como aquele que provê para todas as necessidades do seu povo, nesse mundo e além. 
(i) No nono mandamento nós o honramos como a verdade de Deus (Jo 1.17; 
14.6), em quem todas as promessas de Deus são “sim” e “amém” (2Co 1.20). 
(j) No décimo mandamento nós o honramos como nossa completa suficiência 
(2Co 3.5; 12.9) para satisfazer tanto as nossas necessidades externas quanto os desejos 
renovados do nosso coração. 
 Podemos dizer então que a nossa obediência à lei não acontece e nunca poderá 
acontecer fora de Cristo. Tentar submeter-se à lei sem Cristo leva à escravidão, mas 
submeter-se à lei com Cristo, olhando para Cristo e com o auxílio da graça de Deus é 
liberdade e vida. É nesse sentido que o apóstolo Paulo pode afirmar em Romanos 10.4 
que “o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê.” 
	
  
	
   62 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
4. Considerações finais 
 
Com o tema: “Lei e Graça: A perspectiva de Paulo”, propusemos buscar uma 
interpretação fiel de como Paulo lidava com esta doutrina e mostrar que quando temos 
uma interpretação errada de lei e graça, isso pode nos levar a certos perigos que 
prejudicam nossa caminhada cristã. A pergunta que guiou todo o trabalho foi: Para quê 
serve a lei, na era da graça? A maior fonte de pesquisa foi o apóstoloPaulo, e 
principalmente sua carta aos Gálatas, na qual pudemos constatar que lei e graça era um 
tema que gerava muitas preocupações e alvo de constantes correções por parte de Paulo. 
Para o apóstolo Paulo, se a igreja tinha uma intepretação equivocada sobre a 
graça de Deus e as obras da lei, ela corria sérios riscos de perverter o evangelho da 
verdade. Por esse motivo ele insistentemente corrigia, exortava e doutrinava os cristãos 
a não se desviarem do verdadeiro evangelho. Nosso objetivo ao estudar este tema é o 
mesmo do apóstolo Paulo: procuramos entender a doutrina da lei e graça e interpretá-la 
corretamente, a fim de conduzir a igreja de Jesus Cristo sob uma doutrina correta, para 
que não venhamos a perverter o evangelho da verdade. 
	
  
	
   63 
No primeiro capítulo, fizemos uma análise da carta de Paulo aos Gálatas, e de 
acordo com a visão reformada de Lutero e Calvino, sustentamos que através de Cristo 
somos libertos da lei como meio de salvação, pois sendo o homem pecador e impuro, 
ele não consegue, por si só cumprir as exigências da lei. É preciso de um fator externo 
que o auxilie, e este fator externo é a graça de Deus que veio através do Filho de Deus, 
Jesus Cristo. 
Em Gálatas nós vemos Paulo exortando os crentes, muitas vezes com uma certa 
irritação, pois estavam tornando o evangelho de Cristo um evangelho legalista, e o que 
ele nos ensina é que todo aquele que tentar buscar a justiça por esforço próprio 
fracassará. A justiça com que somos justificados é a justiça de Cristo somente. 
Recebemos o Espírito Santo de Deus pela fé no filho de Deus, e isto é feito pela graça e 
não por cumprir a lei. Isto é o que Paulo nos ensina em sua carta aos Gálatas. A lei nos 
serviu como um guia para nos conduzir até Cristo, ou seja, ela nos mostra nosso pecado 
e fraqueza e nos constrange a buscar a Cristo a fim de sermos perdoados e justificados. 
No segundo capítulo, estudamos sobre um movimento que tem surgido para 
confrontar a teologia tradicional da lei e graça. Esse movimento tem sustentado o que 
eles chamam de “A Nova Perspectiva de Paulo”. Sanders e Dunn trazem uma nova 
proposta de interpretação, e afirmam que o judaísmo da época de Paulo não era legalista, 
antes, observava a lei como meio do fiel se manter dentro da aliança. Eles afirmam que 
a observância da lei servia para identificar e distinguir os judeus de todos os outros 
povos da terra. Mas através de uma análise cuidadosa, percebemos falhas nesta “Nova 
Perspectiva”, e em Gálatas 3.1-5 vemos o próprio Paulo rompendo com a lei como meio 
de alcançar aprovação de Deus e assim, rompendo com o judaísmo de sua época: 
Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou a vós outros, ante cujos olhos foi 
Jesus Cristo exposto como crucificado? Quero apenas saber isto de vós: 
recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assim 
insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos 
aperfeiçoando na carne? Terá sido em vão que tantas coisas sofrestes? Se, na 
verdade, foram em vão. Aquele, pois, que vos concede o Espírito e que opera 
	
  
	
   64 
milagres entre vós, porventura, o faz pelas obras da lei ou pela pregação da 
fé? (Gálatas 3.1-5) 
 
 
Não podemos aceitar esta “nova perspectiva” pois ela não interpreta a lei e a 
graça de uma maneira bíblica de acordo com a teologia paulina. Se optarmos por seguir 
Sanders e Dunn, passaremos a enxergar a doutrina da justificação como algo secundário 
e não mais como o coração do evangelho, conforme nos ensina a teologia reformada. 
Afinal de contas, a lei é para os judeus que já estão na aliança, eles que já estão em 
Cristo, e a justificação é somente para declarar que tal pessoa está na família da 
aliança.137 É apenas um reconhecimento deste pertencimento. 
Mas nós cremos que a justificação tem um peso muito maior do que os teólogos 
da Nova Perspectiva nos apresenta. Para nós, a justificação não é simplesmente uma 
declaração de membresia de uma pessoa na aliança. Quando Paulo nos fala de 
justificação, ele fala de uma ação de Deus definitiva que efetua algo novo. Entendemos 
justificação como um ato divino que se aproxima do ato da criação, onde Deus 
determina nossa nova identidade, em vez de apenas reconhecer esta identidade.138 
No terceiro e último capítulo, depois de ver o que o apóstolo Paulo realmente 
pensava sobre a doutrina da lei e graça e como podemos interpretar corretamente esta 
doutrina, de uma maneira prática, respondemos a questão feita no início do trabalho: 
“Para quê serve a lei na era da graça?” 
Compreendemos dois perigos nos quais podemos cair ao lidarmos com a lei: o 
perigo de enfatizar demais a lei em detrimento da graça e sermos chamados de legalistas, 
ou de exaltarmos demais a graça a ponto de excluir totalmente a lei como se ela não 
tivesse nenhuma validade para nós hoje. A isso damos o nome de antinomismo. 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
137 PIPER, John. O futuro da justificação: uma resposta à N. T. Wright. Trad. Jonas Braga. Niterói: 
Tempo de Colheita, 2010, p. 50. 
138 Para mais informações sobre a doutrina da justificação defendida por N.T.Wright, que é um dos 
teólogos da Nova Perspectiva, e rebatida por John Piper, cf. o livro do John Piper: “O futuro da 
justificação: uma resposta à N. T. Wright”, onde ele trata especificamente sobre justificação. 
	
  
	
   65 
Para o legalista, Paulo deixa bem claro em Gálatas 2.21 que “se a justiça é 
mediante a lei, segue-se que morreu Cristo em vão.” Por colocar a ênfase na 
autodisciplina do homem, o legalista corre o risco de cair em dois pecados graves: o 
orgulho e a hipocrisia. Para o antinomista, Paulo escreve em Romanos 6.1: “Que 
diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?”. 
Para o antinomista existe o perigo de pregar uma graça que não traz nenhum exigência 
por parte do crente, e que não corresponde à graça verdadeira de Jesus Cristo. A graça 
de Deus exige sim, arrependimento e obediência à vontade de Deus. 
A melhor maneira de lidarmos com a lei de Deus é entendendo que somos 
pecadores e, consequentemente, somos incapazes de cumprir perfeita e corretamente a 
vontade de Deus. Por esse motivo Deus enviou seu filho Jesus Cristo e toda a lei foi 
perfeitamente cumprida por ele. Sendo a justiça de Deus imputada a nós, pecadores, 
agora somos capacitados a cumprir a lei moral de Deus, pela graça e como resposta ao 
que Cristo já fez por nós na cruz. 
Por isso concordamos com o que a CFW afirma em seu capítulo XIX, parágrafo 
VII que os “usos da lei não são contrários à graça do Evangelho, mas suavemente 
condiz com ela, pois o Espírito de Cristo submete e habilita a vontade do homem a fazer 
livre e alegremente aquilo que a vontade de Deus, revelada na lei, requer que se faça.” 
Pensando na vida eclesiástica, é importante que os cristãos tenham em mente 
que a salvação é obra exclusiva de Deus, mas que a graça não nos isenta de 
observarmos a lei de Deus por amor e em resposta à essa graça que nos capacita para tal 
tarefa. A graça de Deus deve levar a Igreja a se comprometer cada vez mais com a lei 
moral de Deus, a amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo e a carregar os 
fardos uns dos outros. Assim, de acordo com Paulo, estaremos cumprindo a lei de 
Cristo. 
	
  
	
   66 
Quando a famosa frase “A igreja é o único exército que abandona seus feridos 
no campo de batalha”139 se torna uma realidade, é sinal que não estamos cumprindo a 
lei de Cristo de carregaros fardos uns dos outros (Gálatas 6.2), não estamos amando a 
Deus como deveríamos e muito menos amando o nosso próximo. Quando deixamos de 
carregar o fardo uns dos outros, estamos desobedecendo o cerne da lei, o maior 
mandamento, juntamente com amar a Deus sobre todas as coisas, que é amar o próximo. 
Consequentemente, deixamos de cumprir a lei de Cristo e desagradamos a Deus. 
Com este trabalho, buscamos entender melhor a relação entre lei e graça e trazer 
de volta a responsabilidade da igreja de observar a lei de Deus e sair da passividade à 
qual muitas vezes o mal entendimento da graça nos leva. Devemos nos preocupar mais 
com o próximo, demonstrar nosso amor por Deus amando aqueles que nos cercam, 
entender que a vida cristã não é apenas vertical, em direção a Deus, mas é também 
horizontal, em direção ao nosso próximo. O que Paulo nos ensina em Gálatas 6.2 é que 
quando amamos o outro e carregamos os fardos uns dos outros, estamos cumprindo a lei 
de Cristo e agradando a Deus. Este era o papel da igreja de Gálatas e este é o papel da 
Igreja de hoje. 
O campo de estudo é vasto e há vários desdobramentos dentro da teologia. 
Existem vários aspectos que poderíamos trabalhar dentro mesmo da doutrina da 
soteriologia. O próximo passo para uma pesquisa e trabalho posterior seria estabelecer a 
importância da doutrina da lei e graça no processo de santificação do cristão, afinal de 
contas, a obediência à lei é uma resposta pela salvação e justificação recebidas em Jesus 
Cristo, e então, uma vez salvo, o crente entra em um processo de santificação que vai 
durar por toda a sua vida. 
Chegamos ao fim deste trabalho com um sentimento de alegria e muita gratidão 
a Deus por ter nos dado um entendimento maior acerca da doutrina da lei e graça e suas 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
139 Autor desconhecido. 
	
  
	
   67 
consequências na vida cristã. Compreendemos, agora, porque o apóstolo Paulo ficava 
tão preocupado com a interpretação errada e pervertida desta doutrina pois, como vimos, 
a interpretação correta desta doutrina vai determinar a maneira como vivemos a vida 
cristã e que tipo de ética vamos assumir em nossa caminhada. 
Durante todo o desenvolvimento do trabalho, Deus esteve no controle 
conduzindo cada linha e cada parágrafo. As leituras foram feitas com determinação, 
todo o trabalho foi feito debaixo de muita oração e durante todo o processo fomos muito 
enriquecidos no que diz respeito à doutrina da lei e graça. Agora, cientes da nossa 
responsabilidade de ensinar e pastorear os cristãos na doutrina correta, podemos afirmar 
assim como Calvino: 
O cumprimento da lei, assim, não é uma obra que pode ser realizada pelo 
nosso poder; antes, depende do poder do Espírito. Através deste poder do 
Espírito, nossos corações são purificados de sua corrupção e amolecidos para 
obedecerem a sua justiça. Para os cristãos, o uso da lei é completamente 
impossível sem a fé, uma vez que, quando e onde o Senhor gravou em nossos 
corações o amor pela justiça, o ensino externo da lei (que antes apenas nos 
acusava em nossa fraqueza e transgressão) agora torna-se uma lâmpada a 
guiar nossos pés até o fim para que não nos desviemos do caminho certo. Ela 
é, agora, nossa sabedoria pela qual somos formados, instruídos e encorajados 
a toda integridade e a nossa disciplina que não nos permite sofrer por sermos 
dissolutos através de uma licenciosidade má.140 	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
140 CALVINO, 2003, p. 45,46. 
	
  
	
   68 
	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  	
  
Referências 
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