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Documento não controlado - AN03FREV001 66 PROGRAMA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA A DISTÂNCIA Portal Educação CURSO DE Gestalt-terapia Aluno: EaD - Educação a Distância Portal Educação Documento não controlado - AN03FREV001 67 CURSO DE Gestalt-terapia MÓDULO III Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada. É proibida qualquer forma de comercialização ou distribuição do mesmo sem a autorização expressa do Portal Educação. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos nas Referências Bibliográficas. Documento não controlado - AN03FREV001 68 MÓDULO III Contato e Resistência 12 FRONTEIRAS DE CONTATO No útero tínhamos tudo pronto. Tudo que tínhamos que fazer era nadar no ambiente benevolente. A armadilha além de certo limite punha um fim ao arrendamento; tínhamos de sair e, querendo ou não, aprender a abrir nosso próprio caminho num mundo menos solícito (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 111). Até o corte do nosso cordão umbilical, vivíamos fusionados. Não havia separação entre o corpo do bebê e o da mãe. Com o nascimento, nos tornamos seres separados, buscando a união do que é diferente de nós. Não voltaremos mais a este ambiente simbiótico, sem discriminação eu-mundo. Passamos a viver em busca da união com outros organismos, pessoas. No entanto, esta união pressupõe uma separação a posteriori. Unirmo-nos e nos separarmos parece ser o paradoxo de nossa existência: como estar junto e separado? A noção de contato pressupõe a união e a separação. Contatar-se significa, ao mesmo tempo, estar consciente de si como um ser separado e delimitado e, em união com o outro que é diferente e separado de mim. Precisamos do contato com o outro, mas também tememos este contato como a invasão de nossa fronteira. É importante que tenhamos muito claro as nossas fronteiras de conato, para que possamos ser nossos próprios ‘senhores’, onde o outro pode ser convidado a entrar, ou não. Porém, se lutarmos ferozmente pelo nosso ‘território’ podemos desperdiçar contatos vigorosos e nutritivos para o nosso organismo. É a partir do contato que atingimos o crescimento ou que nos movimentamos em sua direção; é a partir do contato que nos transformamos e transformamos as experiências que vivenciamos. Segundo Polster e Polster (2001), a mudança é a consequência inevitável do contato, já que assimilar o que é assimilável nas experiências de troca com o mundo Documento não controlado - AN03FREV001 69 ou rejeitar aquilo que é inassimilável levará à mudança, inevitavelmente. Em qualquer experiência que tenhamos, nos modificamos e realizamos novas configurações de nós mesmos, uma vez que o contato é incompatível com permanecer o mesmo. Não é necessário querer mudar a partir do contato; ele simplesmente acontece. Polster e Polster (2001, p. 114) afirmam que “o que distingue o contato da intimidade ou união é que o contato acontece numa fronteira em que é mantido um senso de separação para que a união não ameace sobrecarregar a pessoa”. A fronteira se encontra exatamente no espaço entre o eu e o não-eu. É aí que o ego começa a existir, a partir da noção de discriminação. É importante, no entanto, que compreendamos que embora o contato sugira uma relação com o diferente, também temos a capacidade de contatarmos a nós mesmos. Inclusive, é em função de um contato genuíno conosco que conseguimos obter um contato mais autêntico com o outro. Por outro lado, a fronteira também nos protege e nos possibilita a delimitação de nosso espaço: geográfico, corporal, moral, expressivo, etc. Quanto mais diversificadas as nossas experiências, mais nossas fronteiras permitirão novas experiências. Portanto, somos capazes de permitir determinadas ampliações de limites de acordo com as experiências que temos em nossa relação com o mundo. Se alguém está acostumado a lidar com situações adversas, uma humilhação, provavelmente provocará desconforto, porém algo que não afetará suas fronteiras se comparado a uma humilhação que tivesse ocorrido com alguém na qual esta experiência fosse insuportável, ou totalmente nova. Esta pessoa poderia reagir com bloqueios psicológicos ou, lapsos de memória, nas situações mais críticas. A seletividade no contato, determinada pela fronteira do eu do indivíduo, governará a vida do indivíduo, orientando a escolha dos amigos, do trabalho, da fantasia, do sexo e todas as experiências que poderiam ser consideradas relevantes em sua existência. A rigidez na delimitação das fronteiras, ou seja, o que o indivíduo suporta experienciar, está relacionada com o temor que ele tenha em expandir as próprias fronteiras e as consequências disso para si; o indivíduo pode vivenciar isto como risco de sobrecarga. Documento não controlado - AN03FREV001 70 Para Polster e Polster (2001, p. 123) “o paradoxo surge porque a ameaça às fronteiras do eu do indivíduo ativa as reações de emergência que têm o objetivo de preservar a fronteira”. É muito difícil conhecer aquilo que podemos entrar em contato e em quais circunstâncias, tornando o desenvolvimento das fronteiras bastante imprevisível. As pessoas precisam desenvolver certa habilidade em avaliar as possibilidades daquilo que desejam e necessitam dos outros. A experiência da fronteira do eu pode ser descrita a partir de distintas perspectivas: fronteiras corporais; fronteiras de valores; fronteiras de familiaridade; fronteiras expressivas e fronteiras de exposição. A seguir, vejamos brevemente o que significam. - Fronteiras do corpo: Muitas pessoas não integram determinadas partes do corpo em suas fronteiras do eu. Estas pessoas permanecem fora de contato com partes importantes de si mesmas. É importante que, como terapeutas, possamos expandir estas fronteiras e integrando aquelas partes alienadas, em busca de uma expansão de certas fronteiras corporais. - Fronteiras de valor: Muitas vezes, estamos tão apegados a determinados valores que impedimos novas experiências de contato. Mantemo-nos com determinados valores, evitando a confrontação, pois acreditamos que este confronto possa neutralizar quem somos. No entanto, estas fronteiras muito rígidas, embora possam nos proteger de uma ‘desintegração’ nos impedem de viver experiências que estejam em consonância com nossas necessidades. Buscar a ampliação – mas não a confrontação – destas fronteiras ajuda para que a pessoa se ‘lance’ em novas e transformadoras experiências. - Fronteiras de familiaridade: Tendemos a contatar somente aquilo que nos é familiar; o medo do desconhecido e do imprevisível estabelece nossa fronteira de familiaridade. É claro que existem limites impostos pelas oportunidades que podem impedir a ampliação de nossas fronteiras familiares, mas havendo oportunidade e não explorá-la pode significar uma rigidez na fronteira de familiaridade por medo do desconhecido. “(...) A fronteira que estabelecemos como linha de demarcação entre nós e o desconhecido, que nos recusamos a contatar, mesmo que haja oportunidade, é um limite que colocamos em nós mesmos” (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 131). Documento não controlado - AN03FREV001 71 - Fronteiras expressivas: Desde cedo aprendemos a conter nossas expressões mais naturais e observamos isso com as consignas: não toque, não incomode, não se masturbe, não chore, não urine e assim são delimitadasnossas fronteiras de expressão. Embora, as cenas infantis não existam mais, as fronteiras permanecem e somente os detalhes mudam. É assustador empurrar as fronteiras que estabelecemos para nós mesmos. A ameaça é perder nossa identidade, e em certo sentido isso é verdadeiro, pois inevitavelmente perdemos a identidade que costumávamos ter. Precisamos descobrir a identidade em evolução. O self não é uma estrutura, é um processo. No ato de derrubar as velhas fronteiras expressivas é possível expandir-se para um senso expandido de self (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 134). - Fronteiras de exposição: Expor-se é um ato que requer coragem para se expandir. Dependendo dos inputs que recebemos do meio desde que nascemos estas fronteiras podem ser mais expandidas ou retraídas. É comum, entretanto, que nos resguardemos para evitarmos um desprazer, uma humilhação. Porém, é importante que no início da caminhada para a expansão destas fronteiras, o terapeuta saiba reconhecer os pequenos passos iniciados pelo cliente rumo a uma maior exposição e, consequentemente, a uma maior possibilidade de vivenciar as experiências de contato. Reconhecer que o caminho para uma exposição autêntica requer pequenos passos, leva o terapeuta a respeitar os degraus de cada um, incentivando e comemorando cada centímetro da ampliação na fronteira de contato. 13 FUNÇÕES DE CONTATO O que vocês experienciam quando leem a palavra contato? É provável que relacionemos ao toque; à experiência física. Não podemos, no entanto, deixar de considerar que olhar, cheirar, degustar, falar, escutar também é ser tocado: pela luz, pelo gosto ou cheiro de produtos químicos, pelas ondas sonoras, etc. Documento não controlado - AN03FREV001 72 Pouco tempo, entretanto, temos despendido para de fato contatar. Contatamos com o que nos é interessante em determinado momento, o que podemos chamar de contato evidencial. A partir do contato evidencial, tornamos a vida prática: olhamos para quê ou por quê. Embora possamos estar bem equipados para o contato evidencial, estamos cegos ao contato por si mesmo, isto é, em ver por ver, já que em nossa sociedade não há espaço para este contato sem um propósito específico. Não há tempo para isso. Porém, a falta de contato por si mesmo pode interferir no contato evidencial. Todas as funções precisam existir por si mesmas, além de servir a propósitos meramente práticos. Assim, aqueles que sentem prazer em ver têm maior probabilidade de ser mais alertas e sensíveis também quando se trata de ver evidencialmente (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 144). Polster e Polster (2001) assinalam, por outro lado, que nem sempre ver é fonte de prazer puro. Muitas vezes, os sentimentos que acompanham o ver, por exemplo, podem ser insuportáveis, caso a pessoa não possa assimilar aquilo que ela está vendo. É exatamente neste momento que podem aparecer as disfunções de contato: olho, mas não vejo; escuto, mas não ouço; falo e não percebo, entre outros. Podemos, pois, elencar sete principais funções de contato: olhar, escutar, cheirar, degustar, tocar, falar e movimentar-se. Muitas pessoas estão cristalizadas em suas formas de contatar. Entendemos que o contato ‘descongela’ na medida em que estamos aware da função envolvida naquele contato com o mundo. Um cliente que polariza entre um olhar fixo ou uma ‘fuga’ do olhar, precisa recuperar a sua capacidade de contatar. Uma das formas que pode ser sugerida seria pedir ao cliente que se torne consciente de sua visão, de seus olhos. Podemos solicitar que o cliente olhe de um lado para o outro, sem mover a cabeça. Uma das formas de cegueira de contato é o que Polster e Polster chamaram de ‘visão de túnel’, na qual conseguimos ver somente aquilo que está diretamente a nossa frente. Aqui podemos lembrar a relação figura-fundo: olhar ao redor (fundo) é fundamental para a compreensão daquilo que está à frente (figura). Polster e Polster (2001, p. 147) nos dizem que “o contexto dá dimensão e ressonância à experiência, Documento não controlado - AN03FREV001 73 expandindo-a para aquilo que aconteceu antes e o que pode se seguir à cena presente”. Podemos solicitar também que o cliente arregale os olhos e em seguida feche-os firmemente; os olhos relaxaram, o que poderia ser suficiente para ativá-los. Estamos estimulando-o a contatar consigo, a partir do seu processo de olhar. Utilizar a situação terapêutica para exercitar o contato visual, constitui potente instrumento para o cliente provar as suas possibilidades visuais. A escuta também constitui uma função de contato extremamente importante, mas da mesma forma extremamente interrompida. Percebemos a tamanha indisponibilidade das pessoas nos dias de hoje para a escuta. Parecem escutar, mas não em contato com os processos envolvidos na questão, mas aguardando a sua vez de falar. Neste ponto, o contato já não existe mais, ou pelo menos fica sobremaneira limitado. Precisamos reativar estas funções, pois fará com que provemos o mundo de outra forma. O ouvinte que faz contato está atento ao que está sendo dito, mas também penetra em si mesmo; assim ouve mais do que apenas palavras. Ele ouve o que significa algo para si é afetado por aquilo que ouve. Quando o ouvinte ouve, ele sabe que está num bom contato, e quando a pessoa que fala sabe que está sendo ouvida, seu contato também é avivado (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 152). A forma mais conhecida e óbvia de fazer contato é pelo toque. Desde cedo as crianças aprendem o que devem e o que não devem tocar; os pais costumam ser cautelosos quanto a esta exploração de mundo feita pelas crianças. Em diferentes culturas temos também fronteiras ao toque mais permissivas ou não. Há lugares onde encostar, tocar ao cumprimentar alguém não é admissível, já entre outras culturas o toque faz parte das formas de comunicação daquele povo. De outro lado, está o tocar como um artifício e não como algo amadurecido; o tocar exibicionista. Neste caso, pode haver constrangimento por parte daquele que é tocado por julgar não estar pronto para ser tocado por aquela pessoa. Precisamos, pois, treinar, experienciar o tocar e ser tocado com sensibilidade, em busca de um contato autêntico; do bom contato e não em virtude de uma nova ordem estabelecida. Documento não controlado - AN03FREV001 74 No processo terapêutico, a restauração do toque pode ser uma poderosa ferramenta para completar situações inacabadas. Em grupo, principalmente, pode- se experimentar in locu esta restauração, solicitando, por exemplo, a uma cliente que percebeu nunca ter se sentido próxima a um homem, que pudesse tocar os homens presentes no grupo e perceber o que acontece com ela neste momento. O toque, no entanto, não é o resultado inevitável de um contato afetivo. Mas, se há intenso temor da pessoa quanto a isso, as experiências catastróficas surtirão seu efeito de amortecer o contato autêntico. Quando alguém diz não ao toque e significa não ao toque, isto não é um problema neurótico, embora isso possa certamente provocar atritos nas relações pessoais. Mas, quando uma pessoa deseja estar perto de outra, mas tem medo, pois isto poderia levar ao toque, ela está criando uma separação entre o que ela é e o que ela poderia ser (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 154-155) Como função de contato, podemos identificar duas dimensões no falar: a voz e a linguagem. A voz pode ampliar ou limitar nosso contato com o mundo. Ela pode ter um tom inexpressivo, monótono, o que influirá bastante sobre as formas de contato estabelecidas entre o eu e o mundo. É bem provável que o mundo reaja com faltade atenção, de afeto a uma voz monótona ou sem vida. É provável também que aquele que a expressa não esteja aware de como faz. Mais uma vez, o trabalho é no sentido de torná-lo consciente do que faz e do como faz. A partir daí, as chances para experimentar uma voz eloquente e viva aumentam. A linguagem verbal é a forma de comunicação mais utilizada em nossa cultura. Com a linguagem, podemos mostrar um contato imenso com o mundo, ou pelo contrário, podemos utilizá-la para fugir do contato, ‘enchendo linguiça’. Discursos extremamente elaborados que gastam o tempo de uma sessão, com a nítida função de não entrar em contato com. Muitos pacientes evitando o desconforto de se dar conta de algum sentimento, passam a explicar, a se enrolar na busca de evitar o inevitável: a consciência de si, e sentimentos subjacentes a tal consciência como vergonha, raiva, medo, etc. Documento não controlado - AN03FREV001 75 Outros podem ter tanta necessidade de estarem certos, terem sempre uma resposta para tudo e, no momento de uma pergunta que possa não ser respondida de imediato, eles busquem incessantemente uma explicação, embora o que precisassem era estar disponível para manter um contato inacabado. Dizer o que queremos é ao mesmo tempo tão simples e tão complicado; dizer o que se quer dizer, segundo Polster e Polster, é um magnífico ato de criação. Jargões, chavões, repetições, circunlóquios, superexplicações, perguntar ao invés de afirmar são formas de evitação de contato. Outra importante função de contato é o movimento. Ao observarmos uma pessoa, podemos identificar sua postura, maneira de andar e sentar, onde ela se apoia, onde há mais flexibilidade e mais rigidez, como é a flexibilidade das partes móveis (pescoço, ombros, pulsos, cotovelos, queixos, olhos). Esta observação nos dará preciosas informações a respeito desta função de contato: se ela está desenvolvida ou ‘atrofiada’. O trabalho do terapeuta pode ser guiado por três princípios: • Levar o cliente a experienciar os seus movimentos na forma que eles têm presentemente, já que colocar o foco naquilo que está acontecendo constitui uma base para a mudança. • Guiar a consciência e as ações do indivíduo por meio da sucessão de bloqueios a um pleno exercício de movimento que estamos focalizando. • Procurar pelas fontes de apoio que estão disponíveis no corpo do indivíduo. É importante notar onde e como o indivíduo se sustenta. Em algumas pessoas parece haver uma sustentação fraca com pobre apoio, ou sustentações rígidas que comprometem o movimento do corpo e o relacionar-se com a vida. As pessoas que são incapazes de desenvolverem fontes de sustentação confiáveis e nutridoras estão fadadas a uma condenação perpétua, em um mundo solitário. Para Polster e Polster (2001), a flexibilidade é fundamental para o contato, pois as coisas que são mantidas por muito tempo num foco direto e imutável, tornam-se mortas. As pessoas que não se movimentam permanecem fora de contato. O cheiro e o gosto parecem ter funções mais secundárias, extremamente reforçadas pelo modus operandi da nossa sociedade. Cada vez menos temos tempo de cheirar e degustar uma comida, por exemplo. Cada vez menos podemos exalar Documento não controlado - AN03FREV001 76 odores, cada vez mais nos distanciamos da nossa existência enquanto seres da natureza. Ao observarmos os animais, vemos o quanto o olfato é uma função das mais importantes de contato deles com o mundo. O odor dos outros animais, das comidas próprias para o consumo ou não, das plantas venenosas ou não, são informações imprescindíveis para a sobrevivência e para a sua relação com o mundo. Os seres humanos pouco têm tempo para degustar um alimento, sentir, a partir das papilas gustativas, as diferenças no paladar, sentir o cheiro das comidas, das flores, das pessoas! Recuperar estas funções de contato, certamente, tornará a vida mais viva, as cores mais fortes, as comidas mais saborosas e o cheiro mais peculiar! 14 CICLO DE CONTATO O ciclo de contato também pode ser chamado de ciclo de autorregulação, ciclo de experiência, ciclo de satisfação das necessidades, ciclo de Gestalt, já que diferentes autores denominam e descrevem de forma distinta o processo de contato eu-mundo. Na verdade, podemos considerar o ciclo de contato como a maneira que o organismo tem de estabelecer trocas com o ambiente, visando à satisfação de alguma necessidade emergente, ou melhor, dizendo o fechamento de uma figura. Diante disso, foram identificadas algumas etapas no ciclo que se inicia com uma sensação e termina com o retraimento. Lembrando que embora existam diferentes leituras e etapas de acordo com o autor escolhido, aqui utilizaremos o modelo proposto por Zinker, o qual representa o ciclo de autorregulação da seguinte maneira: Documento não controlado - AN03FREV001 77 FIGURA 51 Compreende-se que o caminho que a energia presente na necessidade rumo à sua realização passa necessariamente por uma consciência de si, uma consciência do mundo, alcançando, então, a satisfação. No entanto, sabemos que as necessidades não são tão ‘obedientes’ ou lineares assim. Muitas vezes, temos várias figuras abertas e precisamos escolher aquelas que podem ser fechadas; nas quais iremos colocar energia prioritariamente e poderemos ajustar às possibilidades ou impossibilidades do meio. O acúmulo de figuras abertas, isto é de situações inacabadas, o que ocorre em razão das disfunções no contato (contato eu-eu e eu-mundo), nos impede de contatar genuinamente com o momento presente. Parte de nossa energia fica ‘fixada’ em determinadas figuras que clamam por fechamento, para que possam se juntar ao fundo. Mas, em virtude de exigências externas que internalizamos, adiamos ou suprimimos determinadas realizações de necessidades, em outros casos não conseguimos perceber nossas necessidades; estamos tão longe de nós mesmos que sequer sabemos o que queremos! De qualquer maneira, o ciclo de autorregulação nos mostra que uma relação saudável com o mundo inicia-se com um ‘dar-se conta’ de uma necessidade do organismo, a partir de uma sensação ou sentimento. A partir da consciência (aware) 1 FONTE: Acervo pessoal com base em Zinker (2007). Sensação Retração Awareness Mobilização de energia Ação Contato Retração Documento não controlado - AN03FREV001 78 da necessidade (ou figura) emergente, precisamos mobilizar energia visando à satisfação ou contato satisfatório daquela figura. Após este momento vamos para a ação para enfim obtermos satisfação e retornarmos ao estado de retração, no qual a energia se recolhe até o aparecimento de outras figuras. Uma figura aberta desequilibra o organismo e este tende a buscar a ‘re-equilibração’. Precisamos estar muito aware para que possamos escolher dentre tantas figuras aquelas que merecem prioridade em determinada ocasião. Ilustremos com um exemplo: Uma cliente relata um estado de desconcentração, após uma discussão com a mãe. Ao pedir para que entre em contato com o que está sentindo ela descreve sensações corporais compatíveis com o sentimento de raiva. Solicitando que fique em contato com a raiva ela chega à mágoa por não ser compreendida ou ser criticada sempre pela mãe, embora nunca tenha exposto isto a ela. Ao avaliar a necessidade no momento, ela expõe que precisa colocar a raiva para fora e fazemos um exercício neste sentido. Após este momento, a figura emergente é de compartilhar com a mãe como se sente em relação aos seus comentários. Passa a mobilizar energia neste sentido,buscando o momento para conversar com a mãe. Após a ação (partilhar seus sentimentos com a mãe), a mãe surpreende-se com sua atitude, o que, com certeza, confere uma nova configuração a esta relação. A cliente sente que sua concentração retorna ao ‘normal’ (retraimento). Não temos garantias das consequências de uma nova atitude, mas o compromisso neste momento é seguir o fluxo do nosso organismo, com consciência do quê, do como e do para quê estamos fazendo. Ao estarmos aware deste processo, com certeza será mais fácil lidar com as surpresas do meio. É importante que assumamos aquilo que somos. Ao nos aceitarmos como somos, será mais fácil que o mundo nos respeite e estaremos mais perto de uma relação harmoniosa com ele. Muitas vezes, porém, a nossa existência parece estar subjugada à aceitação do outro. Tentamos ser para o outro e, neste momento, podem surgir o que chamamos de disfunções de contato. Estas disfunções estão relacionadas a determinadas interrupções no ciclo de autorregulação, conforme veremos a seguir. Qualquer interrupção no ciclo de contato pode envolver psicopatologias, ou mesmo, mecanismos de defesa. A Gestalt-terapia interessa-se por desfazer estas Documento não controlado - AN03FREV001 79 interrupções no ciclo awareness-excitação-contato, embora nesta abordagem entendemos que os “sintomas” não são itens discretos, e sim estreitamentos de âmbito de determinado conjunto de funções. Todo contato é ajustamento criativo do organismo e ambiente. Um organismo vive em seu ambiente por meio da manutenção de sua diferença e da assimilação do ambiente à sua diferença. O que é selecionado e assimilado é sempre o novo. Por isso, todo contato é criativo e dinâmico. Segundo Zinker (2007), a psicologia ‘anormal’ é o estudo da interrupção, inibição ou outros acidentes no decorrer do ajustamento. • Interrupção entre a retração e a sensação Podemos dizer que a interrupção neste ponto do ciclo inclui pessoas que não parecem responder aos dados sensoriais que o corpo envia. Podendo não ouvir pessoas nem reagir a elas, incluindo os estados semicomatosos, transes hipnóticos ou um estado de dissociação. Romper esta interrupção é um processo demorado, mas o terapeuta deve se inserir na parte da experiência do indivíduo que continua viva e animada, ensinando-o a se ancorar no ambiente. A Gestalt-terapia integra as declarações verbais com a expressão muscular e a atividade. Ela penetra nos domínios da terapia comportamental, da análise reichiana e da bioenergética. Assim, ela convida a colocar em ato aquilo que está só parcialmente formulado com base em um entendimento histórico e em insights conceituais. • Interrupção entre sensação e awareness Pessoas com interrupções nesta etapa registram algumas sensações, mas não entendem o que querem dizer. Os sinais do corpo são estranhos e até assustadores. É possível entrar em contato com os sentimentos por meio de sensações musculares. Documento não controlado - AN03FREV001 80 Em uma situação de estresse, a hiperventilação e a taquicardia, por exemplo, podem ser interpretadas como um infarto; o cliente não faz conexão entre o que sinto e a consciência sobre o que sinto, logicamente respeitando as circunstâncias do campo em que estão envolvidas estas sensações. Podemos ter uma awareness empobrecida, em função de alto grau de repressão na expressão de seus sentimentos, levando a interpretações errôneas do sentir, ou levando-nos a não entrar em contato com o que está, de fato, por trás daquela sensação. Como terapeutas, nossa tarefa está em focalizar estas sensações, fazendo com que o cliente contate-se consigo e possa integrar sensações organísmicas como o restante do corpo e do self. • Interrupção entre awareness e mobilização de energia Esta interrupção é comum em intelectuais e obsessivo-compulsivos. Eles podem ser cientes do que precisam fazer, mas não são capazes de desenvolver ímpeto suficiente para isso. É muito comum ser uma pessoa que retroflete, quer dizer, que em vez de se conectar com o mundo, se sabota e não expressa seus sentimentos de forma saudável. Suas recompensas são: a independência e a autoconfiança, a privacidade e o desenvolvimento de suas capacidades e talentos. Segundo Zinker (2007, p. 119), “na maioria das vezes a energia fica bloqueada por medo da excitação ou das emoções mais intensas que incluem sexualidade e raiva, assim como expressões de virtudes, valor pessoal, assertividade, ternura e amor”. Algumas pessoas não permitem a expressão destes sentimentos pela fantasia catastrófica de destruição do mundo; se deixando levar pela sexualidade podem se tornar perversos e maníacos; se demonstrarem amor e ternura invadirão a outra pessoa. O bloqueio fisiológico associado ao medo da excitação afeta a respiração. O autor faz uma relação com este tipo de comportamento e os deprimidos: Penso em toda a multidão de deprimidos que se queixam de fadiga, inquietação e desânimo. Muitas vezes, a pessoa deprimida retroflete suas manifestações, pois teme expressar aos que ama sua insatisfação ou raiva. Em vez disso, deixam que penetrem em seu ser críticas que os outros Documento não controlado - AN03FREV001 81 fazem e, então, padecem das insatisfações, reclamações e ódio deles. No lugar de se conectar com o mundo da energia, sabota a própria ‘seiva existencial’ (ZINKER, 2007, p. 120). • Interrupção entre mobilização de energia e ação Neste caso, a pessoa não consegue usar a energia a serviço da atividade que lhe proporcionaria aquilo que quer, ou seja, é incapaz de agir com base nos impulsos, muitas vezes, por medo do fracasso, do ridículo, da decepção ou da desaprovação. O terapeuta deverá criar experimentos nos quais essas ações podem ser exploradas na relativa segurança do consultório. A tarefa do terapeuta está em levar o cliente, dentro de suas possibilidades e mesmo que de forma mínima, a expressar a energia que vivencia em seu interior. É bom lembrar que a pessoa tem bons motivos para se conter e esta expressão deve ocorrer em um nível confortável para o cliente. • Interrupção entre ação e contato Esta interrupção acontece com pessoas que são consideradas “histéricas”. Tem sentimentos difusos, fala muito e realiza diversas atividades, sem conseguir assimilar suas experiências. Não é capaz de agir pontualmente, deixando sua energia espalhar por todo o seu corpo, é distraída. Muitas vezes, experienciando esvaziamento e superficialidade com sua vida interior. Costuma tentar compensar sua sensação de vazio abusando de sexo, comida ou drogas. Para Zinker (2007, p. 126), o histérico precisa: (...) de ajuda para se tornar totalmente consciente de pequenas partes do comportamento e suas consequências. O objetivo do terapeuta consiste em ajudar esse cliente a localizar sua energia interior, prestar atenção nela e impedir que seja lançada prematuramente no ambiente. (...) pode-se pedir a essa cliente que caminhe pela sala e se permita experienciar plenamente este ato, sem se apressar nem se distrair. Documento não controlado - AN03FREV001 82 • Interrupções entre contato e retração, retração e sensação e perturbações do ritmo De uma forma geral, a pessoa aprende a prestar atenção em suas próprias necessidades, em como tentar satisfazê-las e depois, retrair-se e descansar. Há um ritmo entre contato e retração. Estar constantemente mobilizado também é uma espécie de doença. É preciso deixar que todo o processo siga em frente quando a experiência alcança o auge ou o clímax, difícil para estes tipos de pessoasque se negam a sensação de fadiga e se agarram além do ponto ideal de retorno. Ele também tem dificuldade em dosar a intensidade do contato e não sabe o quanto dar ou receber – tende a não ouvir as mensagens dos outros. É muito importante trabalhar este tipo de interrupção, uma vez que um dos objetivos da terapia é tornar clara a variedade de ritmos que existem na vida. Ela nos expõe à riqueza do silêncio e à necessidade do descanso. 15 RESISTÊNCIA E DISFUNÇÕES DE CONTATO A resistência na compreensão gestáltica, não pode ser considerada como uma barreira que impede o crescimento, estática, e que precisa ser removida. Precisamos ir além e compreendê-la como uma força criativa para administrar um mundo difícil. Podemos afirmar que todas as pessoas usam sua energia para obter um bom contato com o meio ambiente ou para evitar/resistir ao contato. Se sentirmos que o ambiente em que estamos, será capaz de satisfazer os nossos esforços em direção ao bom contato, iremos confrontar o ambiente com vontade, confiança e até alguma ousadia. Mas se nossos esforços na direção do contato satisfatório não forem recompensados, entramos num impasse com uma vasta lista de sentimentos perturbadores: raiva, confusão, futilidade, ressentimento, impotência, etc. Estes sentimentos geram uma energia que precisa ser redirecionada, embora com uma redução da interação plena com a realidade. Estamos falando da Documento não controlado - AN03FREV001 83 interação resistente com a realidade que pode ser compreendida como uma disfunção no contato. Uma criança aprende a conter seu próprio choro quando ele provoca uma reação antagônica de seus pais. Como sua área de ação está restrita ao ambiente em que ela pode se mover, aceita as condições conforme as encontra e faz o melhor com aquilo que tem. Mais tarde, ela se torna menos limitada, podendo se afastar de casa, desenvolvendo um novo senso de liberdade e poder. Então, se ela mantém a imagem da infância sobre as consequências impressionantes das lágrimas, sem dúvida está presa no passado e será necessária uma nova força para soltá-la (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 68). Segundo Polster (2001), existem cinco formas de interação resistente ou disfunções de contato: • Introjeção; • Retroflexão; • Projeção; • Deflexão; • Confluência. O introjetivo incorpora passivamente aquilo que o ambiente proporciona, sem ‘degustar’ aquilo que é incorporado. Literalmente, engole e não mastiga. A criança tem fome. Inicialmente, alimenta-se pelo leite materno, aquilo que lhe é oferecido é por ela assimilado de forma a satisfazer suas necessidades. Ela confia no que aquele ambiente novo e desconhecido lhe oferece. Mais adiante seu organismo não mais se satisfaz com o leite e é necessária a introdução de papinhas, sucos, alimentos pastosos, frutas amassadas, etc. E ela continua engolindo aquilo que lhe é oferecido, mostrando a importância que o ambiente tem em seu desenvolvimento e satisfação de necessidades. Ainda não é capaz de mastigar e transformar aquilo que lhe é oferecido em uma substância mais adequada à assimilação do seu organismo. O meio ‘mastiga’ para ela. Documento não controlado - AN03FREV001 84 Quando ela pode mastigar, aprende a reestruturar aquilo que entra em seu sistema. Entretanto, antes disso, ela engole confiantemente o alimento que lhe é proporcionado – e de um modo similar, engole também as impressões da natureza de seu mundo (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 86). Se o ambiente no qual a criança se desenvolve é confiável, isto é, mais confiável do que frustrador, o material que ela recebe será nutritivo e assimilável. Mas, a este material assimilável, se juntam os valores e normas de uma dada sociedade e da família. E, a partir da aquisição da linguagem, a criança, inicialmente é tolhida de suas necessidades, de seu pleno desenvolvimento, para atender às exigências do meio... Você não deve falar isso! É sujo e feio evacuar! Você não pode ‘soltar’ gazes! É falta de educação! Fique quieto que não vai doer nada! Esta criança não tem jeito! Você não deve falar alto! A confiança da criança é esvaída pelos julgamentos e exigências externas que começam a impedi-la de satisfazer as suas necessidades. Dessa forma, a criança e, mais tarde o adulto, passa a ser orientado por este ‘corpo estranho’ que não corresponde de fato às suas exigências, mas às exigências do outro. Este ‘corpo’ carregado de valores assimilados sem a devida mastigação costuma orientar aquelas pessoas em que o mecanismo de contato com o mundo é realizado, ou melhor, muito pouco realizado em função das introjeções realizadas. Pessoas que utilizam este mecanismo em demasia continuam até os dias de hoje engolindo sem mastigar e sem poder cuspir e, possivelmente, sofrendo de uma tremenda indigestão! As introjeções na fase infantil caracterizam-se por uma relação com o meio de pouco contato, poucas trocas, mas de muita imposição e pouca possibilidade de diferenciação, embora a introjeção caracterize-se como uma forma genérica de aprendizagem. As pessoas que utilizam este mecanismo abriram mão de seu senso Documento não controlado - AN03FREV001 85 de escolha livre na relação com o mundo. As escolhas passam a ser orientadas não pelo que sou – pois pouco sei do que sou – mas pelo que me disseram de como eu DEVERIA ser. Polster e Polster (2001, p. 89) explicam que “a tarefa primária ao desfazer a introjeção é focar-se em estabelecer dentro do indivíduo um senso de escolhas disponíveis para ele, e estabelecer seu poder para diferenciar ‘eu’ e ‘eles’’’. No entanto, para desfazer a introjeção, muitas vezes, a rebelião é necessária, já que a pessoa passou uma boa parte da vida passivamente assimilando aquilo que o mundo lhe dá de forma mastigada e manipulando-o de forma a obter aquilo a que está acostumado a receber. A mudança, pois, pode ocorrer de forma pouco ordenada, mas enquanto mudança pressupõe uma reativação energética do próprio organismo para que ele possa voltar a ‘provar’ o mundo, degluti-lo ou vomitá-lo. Vomitar significa a descarga “dos indesejáveis corpos estranhos que precisam ser expelidos, mesmo que com o passar dos anos a pessoa sinta como se eles fossem próprios dela” (POLSTER, 2001, p. 92). Portanto, para que possamos contatar o mundo de forma plena e autêntica, o nosso primeiro passo é termos consciência do que está acontecendo conosco aqui e agora. Ao identificarmos obstáculos ao nosso crescimento, estamos, no mínimo, iniciando um caminho para retomá-lo! Já o retroflexivo costuma voltar contra si a energia que gostaria de colocar no mundo; fazer a si aquilo que gostaria de fazer aos outros; ou ainda fazer a si aquilo que gostariam que os outros fizessem. É claro que um mínimo de retroflexão é necessário evitando uma expressão ‘selvagem’ das tendências agressivas ou de todos os desejos eróticos de uma pessoa; é conveniente, no entanto, que modere seus desejos e sua agressividade de acordo com o meio em que se encontra. A retroflexão crônica estará na origem, principalmente das somatizações diversas: gastrites, úlceras, problemas dermatológicos e até o câncer; resultado de emoções não expressadas no momento apropriado e acumuladas ao longo da existência. A terapia consistirá em amplificar estas emoções e expressá-las e, em último caso, promover uma catarse libertadora que na situação terapêutica poderia ser evidenciada na escolha de um ‘objeto transicional’ que represente aquela pessoa Documento não controlado - AN03FREV001 86 para a qual os sentimentos não foram expressos,levando o cliente a experienciar o compartilhar destes sentimentos. Vale ressaltar que muito dos comportamentos retroflexivos estão ligados à Culpa. Perls define a projeção como o inverso da introjeção, explicando que enquanto a introjeção atribui responsabilidade a si daquilo que cabe ao meio, na projeção atribui-se ao meio a responsabilidade por aquilo (sentimentos, crenças) que pertence a nós mesmos. “Enquanto que na introjeção o self é invadido pelo mundo exterior, na projeção é, pelo contrário, o self que transborda e invade o mundo exterior” (GINGER, 1995, p.135). Porém, também a projeção é necessária até como forma de facilitar o contato com o outro. Dificilmente conseguimos compreender o que se passa no outro se não formos capazes de nos colocarmos de certa forma em seu lugar, o que nos leva a crer que a empatia se alimenta da projeção. A projeção patológica é demonstrada ao atribuirmos, habitualmente, ao outro aquilo que acontece em nosso interior. É comum que isto se manifeste na relação terapêutica quando o cliente atribui ao terapeuta certas características que lhe são estranhas. Porém, aqui, diferente da neurose de transferência, este comportamento não é estimulado, mas assinalado, à medida que suas manifestações aparecem, confrontando a fantasia com a situação atual perceptível. Na confluência, o self não pode ser discriminado em função da ausência da fronteira de contato. A criança está em confluência normal com sua mãe, assim como os namorados encontra-se em confluência. Porém, para que o contato aconteça é necessário este enlace e também o desenlace; aí podemos dizer que houve contato e não simbiose. Eu existo com você, mas existo também sem você. O confluente não existe sem o outro; ele é um prolongamento do outro. Quando esta separação se torna dificultada, então, podemos caracterizar este comportamento de patológico. Por outro lado, toda a ruptura brutal da confluência provoca uma intensa ansiedade que, em muitos casos, leva à culpa, quase insuportável, podendo até chegar à decomposição psicótica. Documento não controlado - AN03FREV001 87 Para Ginger (1995, p. 133): A atitude terapêutica consistirá especialmente em trabalhar nas fronteiras do self, no ‘território’ de cada um, com sua especificidade, com os limites temporais, com fluidez nas relações (...). Isso implicará um clima de confiança e de segurança suficiente, autorizando o ‘confluente’ a se emancipar sem o temor de se sentir abandonado ou ‘dissolvido’. Por fim, a deflexão constitui uma resistência caracterizada pela fuga, pela evitação do contato direto, com vistas à proteção do ego pelo contato com uma situação desagradável. Em alguns momentos, a deflexão pode ser um mecanismo de adaptação a uma situação nova e aparentemente ameaçadora, compatível com o mecanismo de negação proposto por Freud. Porém, a deflexão sistemática impede o contato verdadeiro e pode, em casos limites, evocar a psicose. 16 O EU-NEURÓTICO A autorregulação organísmica é a consciência espontânea da necessidade dominante e sua organização das funções de contato. Numa situação de perigo, quando a tensão se inicia a partir de fora, a cautela e a deliberação são similarmente espontâneas. A ação autorreguladora é mais vívida, mais intensa e mais sagaz, o que parece espontaneamente importante de fato organiza realmente a maior parte da energia do comportamento. Já o neurótico não se permite ser aware de, não permite que suas necessidades verdadeiras organizem seu comportamento; em vez do entusiasmo ir total e criativamente para cada necessidade, ele se interrompe. Porém, a experiência neurótica é também autorreguladora e se caracteriza por excesso de deliberação, fixação da atenção e músculos preparados para uma resposta específica. O self fica impossibilitado de passar de uma energia para outra, a energia fica presa a uma tarefa que não pode ser completada. Mas o neurótico tem uma Documento não controlado - AN03FREV001 88 sensibilidade ao perigo extremamente aguçada, ou seja, ele é cauteloso quando poderia relaxar com segurança. O que ocorre em situações de emergência é que fica clara a hierarquia subjacente e, assim, descobre-se “o que um homem é”. Podemos concluir que a autorregulação ocupa uma posição ética privilegiada, porque só ela guia a awareness mais vívida e a força mais vigorosa, qualquer outro tipo de avaliação tem de atuar com energia reduzida. Segundo Yontef (1998, p. 224), “o neurótico não consegue abraçar inteiramente o Eu-Tu, pois seu caráter é rígido, seu autossuporte reduzido e ele, normalmente acredita que é incapaz de superar o seu padrão de comportamento repetitivo e insatisfatório”. O neurótico encontra-se dividido e é autorrejeitador. Ele só consegue manter-se dividido em função de uma awareness reduzida. Se sua awareness pudesse ser ampliada, estas partes rejeitadas poderiam ser contatadas e, então, integradas. Essa autorrejeição e falta de awareness reduz o autossuporte. O neurótico acredita que não pode ser autorregulado e autossuportado, manipulando o mundo para que lhe dê o que quer, que lhe diga o que fazer, e é isso que acontece com a psicoterapia; o neurótico solicita que o terapeuta lhe diga o que ele deve fazer, como ele deve ser, já que o neurótico julga não ter o suporte necessário para realizar mudanças; o outro deve fazê-lo. O neurótico transforma a relação terapêutica na repetição de uma situação antiga: alguém lhe diz como ser e ele resiste ou concorda; se o terapeuta é seduzido por esta demanda temos um problema maior ainda. Não procuramos a adoção desta ou daquela forma de ser, mas a ampliação da awareness do comportamento do cliente pelo cliente, de modo que ele possa usar sua força para autossustentar-se e não para se interromper. O terapeuta precisa aceitar as verdadeiras necessidades do cliente e dar-lhe atenção autêntica e desprovida de exigência, mas também precisa frustrar a sutis manipulações neuróticas, forçando-o assim, “a direcionar todas as suas habilidades manipulativas na direção da satisfação das suas verdadeiras necessidades” (PERLS apud YONTEF, 1998, p. 225). Documento não controlado - AN03FREV001 89 O principal papel do terapeuta, portanto, não é julgar o que é certo ou errado, como se existisse um eu-ideal onde se pretende chegar. O que temos a fazer é assumirmos a responsabilidade pelo que somos e sentimos, ensinando, pois, que esta também é a meta da terapia: o cliente precisa ter consciência daquilo que é, do que faz, de como faz, responsabilizar-se por isso de acordo com a disponibilidade de suporte que possui. Não custa lembrar que o funcionamento organísmico neurótico está sobremaneira influenciado pelas fronteiras de contato, pelo desenvolvimento de nossas funções de contato, pelo estilo que imprimimos no nosso ciclo de autorregulação, pelas resistências que construímos para nos proteger de um mundo pouco facilitador; por aquilo que engolimos sem mastigarmos, pois não tínhamos dentes, mas que ‘esquecemos’ de devolver ao mundo num momento posterior, aqueles que nos causaram mal-digestão! A função da terapia é ampliar a awareness e, consequentemente, as funções de contato, ‘flexibilizando’ as fronteiras de contato, principalmente aquelas muito rígidas. Estar mais cônscio de si produz menos ansiedade e maior autonomia. Os caminhos, as estradas e o ponto de chegada que percorreremos é imprevisível. Mas o objetivo desta viagem precisa estar bem claro desde o início, senão, para ambos os viajantes, pelo menos para o terapeuta, corremos o risco de naufrágio. FIMDO MÓDULO III