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ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 
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SUMÁRIO 
 
 
Fundamentos éticos do Serviço Social .......................... .............................................4 
Os fundamentos ontológicos e sociais da ética ........................................................... 6 
Moral e vida cotidiana ................................................................................................. 9 
A ação ética e as objetivações genéricas ................................................................. 11 
Ética profissional: determinações históricas e particularidades ................................. 13 
A natureza da ética profissional ................................................................................ 13 
Ética profissional e conjuntura: tendências e desafios .............................................. 16 
DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL ............................................................... 20 
DIREITOS SOCIAIS E FORMAÇÃO PROFISSIONAL ............................................. 22 
Dilemas para o exercício profissional ........................................................................ 25 
REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 32 
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Fundamentos éticos do Serviço Social 
 
 
 
 
Há cerca de duas décadas ocorre com a ética um fenômeno inédito: sua 
discussão, em geral restrita ao campo filosófico, amplia‐se para diferentes áreas do 
saber, incidindo em amplos setores da vida social. Ao invadir o espaço da 
cotidianidade, ocupando‐se em geral de prescrições moralistas, apresenta‐se como 
alternativa social conservadora, incentivando o senso comum a preservar os seus 
preconceitos, o que tende a se renovar no contexto de violência estrutural da 
sociedade brasileira. 
Parte significativa das produções éticas contemporâneas se afasta, 
progressivamente, da crítica, da objetividade, da universalidade, isto é, dos 
referenciais éticos da modernidade e de autores clássicos como Aristóteles, Kant e 
Hegel. Ao favorecer a ideologia dominante e o irracionalismo, contribuem para 
obscurecer os nexos da realidade; ao naturalizar o presente, negam a possibilidade 
de intervenção do homem na história: fundamento de uma ética orientada pela práxis. 
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A moralização da vida social, comportamento pautado em preconceitos, ganha 
legitimidade ao ser incorporada socialmente como estratégia de enfrentamento das 
expressões da “questão social”. Ao mesmo tempo, a constante presença de discursos 
e produções teóricas no campo da ética não significa – necessariamente – o debate 
entre diferentes teorias e projetos, nem tampouco a explicitação de seus fundamentos. 
Quando abstraídos de seu conteúdo histórico e de sua fundação teórica, os 
discursos se confundem. É o que ocorre quando diferentes sujeitos políticos falam em 
nome da “justiça” e “dos direitos humanos”, embora, em muitos casos, para justificar 
a sua violação. A reprodução abstrata das categorias éticas também propicia a sua 
idealização, transformando‐as em “entidades” com poder de “autoexplicação”. 
Ideologicamente, a burguesia é idealista “com a mesma naturalidade com que 
respira”, já dizia Simone de Beauvoir: “separado de todo o contato com a matéria, por 
causa de seu trabalho e pelo seu gênero de vida, protegido contra a necessidade, o 
burguês ignora as resistências do mundo real [...]. Tudo o estimula a desenvolver 
sistematicamente essa tendência em que se reflete, de imediato, a sua situação: 
fundamentalmente interessado em negar a luta de classes, ele não pode desmenti‐la 
senão recusando em bloco a realidade. Por isso, tende a substituí‐la por Idéias cuja 
compreensão e extensão delimita, arbitrariamente, segundo seus interesses 
(BEAUVOIR, 1972, p. 6)”. 
A sociabilidade burguesa funda sua ética no princípio liberal segundo o qual a 
liberdade de cada indivíduo é o limite para a liberdade do outro. Dadas as condições 
objetivas favorecedoras da reprodução do modo de vida mercantil, valorizador da 
posse material e subjetiva de objetos de consumo, cria‐se, na prática, uma ética 
individualista, orientada pela ideia de que o “outro” é um “estorvo” à liberdade, 
entendida como a incessante busca de vantagens e acúmulo de bens cuja duração é 
tão efêmera quanto às relações que lhes dão sustentação. 
O repetitivo discurso moralizante presente na mídia, em certos meios de 
comunicação de massa, ao incentivar direta ou indiretamente o ethos liberal burguês, 
a violência, a abstração, o moralismo e o conservadorismo, fortalece a descrença na 
política, em sua forma democrática, reforçando apelos à ordem, a medidas 
repressivas, a soluções morais para a crise social. 
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Torna‐se relevante a compreensão crítica dos fundamentos éticos da vida 
social e do Serviço Social: para que a importância da ética seja revelada e para o 
esclarecimento de seus limites na sociedade burguesa. Pois, se a superação dos 
antagonismos da sociedade burguesa supõe a ruptura da totalidade desta formação 
social, isso não significa negar a importância das ações éticas nessa direção. 
Embora limitada, a ética se faz cotidianamente através de atos morais 
singulares, mais ou menos conscientes e livres; pode se objetivar através de ações 
motivadas por valores e teleologias dirigidas à realização de direitos e conquistas 
coletivas; pode ser capaz de efetuar a crítica radical da moral do seu tempo, 
oferecendo elementos para a compreensão das possibilidades éticas e morais do 
futuro. Embora momentânea, pode se estabelecer como mediação entre a 
singularidade de indivíduo moral e a sua dimensão humano‐genérica, objetivandose 
como parte da práxis social. 
 
Os fundamentos ontológicos e sociais da ética 
 
 
É pela apropriação do processo de constituição histórica do ser social que uma 
ética fundada ontologicamente pode ser compreendida. Trata‐se aqui de apresentá‐ 
lo – ainda que sumariamente – tendo por base os pressupostos ontológicos 
fundamentais de Marx. 
Na gênese do ser social, estão dadas as bases de 
sua constituição ontológica: o ser social se humanizou em 
face da natureza orgânica e inorgânica, transformando‐a 
para atender necessidades de reprodução da sua 
existência e nesse processo passa a se constituir como ser 
específico, diferente de outros seres existentes. 
É o trabalho que instaura esse novo ser, na medida 
em que rompe com o padrão imediatodas atividades 
puramente naturais, estruturando uma atividade de caráter prático‐social: uma práxis 
que transforma a natureza e produzindo um resultado antes inexistente: um produto 
material que responde a necessidades sociais e as recria em condições históricas 
determinadas. 
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Como práxis, o trabalho é a base ontológica primária da vida social; mediação 
que efetiva objetiva e subjetivamente o intercâmbio entre os homens e a natureza, 
pondo em movimento um processo incessante de (re) criação de novas necessidades; 
ampliando os sentidos humanos, instaurando atributos e potencialidades 
especificamente humanas. 
Ao criar novas alternativas para o seu desenvolvimento, o ser social se afasta 
de suas “barreiras naturais”, amplia sua natureza social e consciente, estabelece a 
possibilidade de uma existência social aberta para o novo, para o diverso, para o 
amanhã, instaurando objetivações que permitem autoconstrução do ser social como 
um ser livre e universal. 
Sociabilidade é imanente à totalidade das suas objetivações: para transformar 
a natureza reproduzindo a sua existência através do trabalho, é necessário agir em 
cooperação, estabelecendo formas de comunicação, como a linguagem, os modos de 
intercâmbio e de reciprocidade social, que tornam possível o reconhecimento dos 
homens entre si, como seres de uma mesma espécie, que partilham uma mesma 
atividade e dependem uns dos outros para realizar determinadas finalidades. 
O agir consciente supõe a capacidade de transformar respostas em novas 
perguntas e as necessidades em novas formas de satisfação. Só o homem é capaz 
de agir teleologicamente, projetando a sua ação com base em escolhas de valor, de 
modo que o produto de sua ação possa materializar sua autoconsciência como sujeito 
da práxis. 
Ao desenvolver sua consciência, o homem evidencia o caráter decisório de 
sua natureza racional. Como diz Lukács, todas as atividades sociais e individuais 
exigem escolhas e decisões: “todo indivíduo singular, sempre que faz algo, deve 
decidir se o faz ou não. Todo ato social, portanto, surge de uma decisão entre 
alternativas acerca de posições teleológicas futuras” (LUKÁCS,1978, p. 6). 
As escolhas são baseadas em juízos de valor: os objetos e as ações são 
avaliados como úteis, inúteis, válidas ou não válidas, corretas ou incorretas. O fato 
de toda ação consciente conter uma posição de valor e um momento de decisão 
propicia o entendimento de que a gênese do valor e das alternativas seja dada 
somente pela avaliação subjetiva dos indivíduos. Valor e alternativas, no entanto, são 
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categorias objetivas, pois são objetivações do ser social, produtos concretos de sua 
atividade. 
Liberdade, valor, consciência e alternativas estão articulados. Com o 
desenvolvimento do trabalho e da sociabilidade, a escolha entre alternativas não se 
restringe à escolha entre duas possibilidades, mas entre o que possui e o que não 
possui valor e como esses valores podem ser praticamente objetivados (LUKÁCS, 
1981). 
Vê‐se, pois, que estamos diante de um ser capaz de agir eticamente, quer 
dizer, dotado de capacidades que lhe conferem possibilidades de escolher racional e 
conscientemente entre alternativas de valor, de projetar teleologicamente tais 
escolhas, de agir de modo a objetivá‐las, buscando interferir na realidade social em 
termos valorativos, de acordo com princípios, valores e projetos éticos e políticos, em 
condições sócio‐históricas determinadas. 
Para o método de Marx “a ética é uma parte, um momento da práxis humana 
em seu conjunto” (LUKÁCS, 2007, p. 72). Como tal, a ética dirige‐se à transformação 
dos homens entre si, de seus valores, exigindo posicionamentos, escolhas, 
motivações que envolvem e mobilizam a consciência, as formas de sociabilidade, a 
capacidade teleológica dos indivíduos, objetivando a liberdade, a universalidade e a 
emancipação do gênero humano. 
Observa‐se que a práxis não se esgota no trabalho embora ele seja a sua forma 
primária: “quanto mais se desenvolve o ser social, mais as suas objetivações 
transcendem o espaço ligado diretamente ao trabalho” (NETTO; BRAZ; 2006). 
Portanto, é certo que façamos uma distinção entre as formas de práxis dirigidas à 
transformação da natureza (o trabalho) e aquelas voltadas à transformação das ideias, 
dos valores, do comportamento e da ação dos homens, onde se insere a ação ético‐ 
moral (Idem). 
Na sociedade capitalista, organizada a partir da propriedade privada dos meios 
de produção e das classes sociais, da divisão social do trabalho e da exploração do 
homem pelo homem, a objetivação histórica da ética é limitada e desigual, convivendo 
com sua negação, o que evidencia o fenômeno da alienação, que expressa o 
antagonismo entre o desenvolvimento do gênero humano – em termos do que a 
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humanidade produziu material e espiritualmente – e sua apropriação pela totalidade 
dos indivíduos. 
À totalidade das objetivações genéricas – materiais e espirituais – produzidas 
pela humanidade ao longo de seu desenvolvimento histórico, representando 
conquistas no sentido de ampliação da sociabilidade, da consciência, da liberdade e 
da universalidade do gênero, Marx (1971, I) denomina “riqueza humana”. No contexto 
da alienação, a riqueza humana não é apropriada pela totalidade dos indivíduos; na 
ordem capitalista, a coexistência entre a miséria e a pobreza (material e espiritual) é 
pressuposto fundamental para a (re)produção do sistema, donde o processo de 
coexistência contraditória, de tensão permanente e não linear, de afirmação e 
negação das capacidades éticas do ser social. 
 
Moral e vida cotidiana 
 
 
Ontologicamente considerada, a moral não pertence a nenhuma esfera 
particular: é uma mediação entre as relações sociais; uma mediação entre o indivíduo 
singular e sua dimensão humano‐genérica (HELLER, 2000). 
Sua origem atende a necessidades práticas de regulamentação do 
comportamento dos indivíduos, cumprindo uma função social no processo de 
reprodução das relações sociais: contribui para a formação dos costumes que se 
estruturam pelo hábito, orientando a conduta dos indivíduos, em termos de normas e 
deveres. 
A moral se desenvolve quando os homens já adquiriram um certo grau de 
consciência, no momento em que foi superada a sua condição natural e instintiva; 
quando o homem já vivia em comunidade, como membro de uma coletividade, tendo 
desenvolvido a fabricação de instrumentos de trabalho e conquistado um determinado 
nível de conhecimento e de domínio sobre a natureza (VAZQUEZ, 1984). 
A moral é histórica e mutável: são os homens que criam as normas e os valores, 
mas a autonomia dos indivíduos em face das escolhas morais é relativa às condições 
de cada contexto histórico. Mesmo nas sociedades onde ainda não existe o domínio 
de classe, a coesão em torno de um único código de valor não significa a inexistência 
de tensões. 
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O ato moral supõe a adesão consciente e voluntária do indivíduo aos valores 
éticos e às normas morais, ou seja, implica a convicção íntima do sujeito em face dos 
valores e normas, pois se entende que só assim as mesmas serãointernalizadas 
como deveres. Dependendo da esfera e das condições sociais nas quais a moral se 
objetiva, surgem maiores ou menores possibilidades dela se realizar apenas no 
âmbito da singularidade voltada ao “eu” – âmbito da vida cotidiana – ou em ações que 
podem atingir a coletividade e a dimensão humanogenérica dos indivíduos. 
Todavia, cumpre distinguir consciência e subjetividade. Na vida cotidiana, a 
moral não tende a ser interiorizada de forma crítica. Na medida em que, nesse âmbito, 
os valores se reproduzem pelos costumes, pela repetição, tendem a se tornar hábitos, 
cuja adesão não significa, necessariamente, uma aceitação consciente. Na 
cotidianidade, as normas podem ser aceitas interiormente, defendidas socialmente 
sem que, no entanto, possamos afirmar que essa aceitação tenha ocorrido de maneira 
livre, pois esta supõe a existência de alternativas e seu conhecimento crítico. Logo, a 
consciência supõe a subjetividade, mas esta pode “legitimar” normas e valores sem, 
no entanto, ter conhecimento de outras alternativas e sem se responsabilizar por tais 
escolhas, isto é, sem assumir “por inteiro”, de modo consciente, as implicações dessa 
adesão. 
Na sociedade burguesa, a moral desempenha uma função ideológica: ainda 
que não diretamente, mas através de mediações complexas, reproduz os interesses 
de classe, contribuindo para o controle social, através da difusão de valores que visam 
a adequação dos indivíduos ao ethos dominante. 
O âmbito da vida social mais propenso à internalização dos costumes e valores 
formadores do ethos dominante é a vida cotidiana: onde os indivíduos se reproduzem 
enquanto seres singulares, espaço da ultrageneralização, do pragmatismo, do 
imediatismo da superficialidade e da heterogeneidade. 
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Na cotidianidade, a moral tende a se objetivar de modo alienado, reproduzindo 
julgamentos de valor baseados em juízos provisórios, respondendo às necessidades 
mais imediatas e superficiais da singularidade individual. Ao repetir comportamentos 
orientados por estereótipos e preconceitos, o indivíduo se empobrece moralmente, 
abrindo caminho para o moralismo e para a adesão acrítica ao ethos dominante. 
Conforme Heller (2000, p. 54), a maioria dos 
preconceitos são produzidos pelas classes 
dominantes, tendo em vista sua busca de coesão em 
torno de seus interesses. Isso é favorecido pelo 
conservadorismo, comodismo, e conformismo, e 
também pelos interesses imediatos, “que rebatem nas 
condições de vida dos indivíduos singulares, tornando‐os 
vulneráveis à mobilização contra os interesses de sua 
própria classe”. 
 
 
A ação ética e as objetivações genéricas 
 
 
A moral não responde apenas às necessidades da singularidade voltadas 
exclusivamente ao “eu”, ou a formas de ser reprodutoras da alienação. É possível que 
a motivação moral que envolve escolhas e decisões exigidas pelo ato moral seja 
intensa e se alargue de modo a se afastar momentaneamente da cotidianidade, 
permitindo que o indivíduo se eleve à sua dimensão humano‐genérica, como 
esclarece Heller: “quanto maior é a importância da moralidade, do compromisso 
pessoal, da individualidade e do risco (que vão sempre juntos) na decisão acerca de 
uma alternativa dada, tanto mais uma decisão eleva‐se acima da cotidianidade” 
(HELLER, 2000, p. 24). 
Porém, ao se afastar – ainda que por um tempo determinado – de sua 
singularidade e de suas motivações efêmeras, seja através de ações práticas ou de 
reflexões teóricas, o sujeito moral atinge um outro patamar de objetivações, que o 
elevam à sua dimensão particular e à sua condição de sujeito ético. Segundo 
Tertulian, é esse o entendimento de Lukács sobre a ética: 
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A ação ética é um processo de ‘generalização’, de mediação progressiva entre 
o primeiro impulso e as determinações externas; a moralidade torna‐se ação ética no 
momento em que nasce uma convergência entre o eu e a alteridade, entre a 
singularidade individual e a totalidade social. O campo da particularidade exprime 
justamente esta zona de mediações onde se inscreve a ação ética (TERTULIAN, 
1999, p. 134). 
 
Fonte:www.de-seguranca.com.br/etica-e-moral-diferencas-e-semelhancas/ 
 
 
Portanto, quando o indivíduo, determinado por condições sociais que 
convergem na direção de sua intervenção na realidade, e motivado por valores 
emancipatórios, pode ter possibilidade de estabelecer mediações com a sua 
particularidade, ascendendo à condição de sujeito ético, revela‐se toda a importância 
da reflexão ética, capaz de realizar a crítica da vida cotidiana, em sua dimensão moral, 
ampliando as possibilidades de realização de escolhas conscientes, voltadas ao 
gênero humano, às suas conquistas emancipatórias, à desmistificação do 
preconceito, do individualismo e do egoísmo, propiciando a valorização e o exercício 
da liberdade e do compromisso com projetos coletivos. 
Mas, principalmente, fica claro que a ética não é apenas a ciência da moral, 
ou o seu conhecimento: apreendida como parte da práxis, a ética é trazida para o 
conjunto das práticas conscientes do ser social, dirigidas para a intervenção na 
realidade e na direção da conquista da liberdade e da universalidade, tendo como 
parâmetro a emancipação humana. Como já dissemos anteriormente, essa é a 
perspectiva de Lukács, quando afirma a ética como parte e momento “da práxis 
humana em seu conjunto” (LUKÁCS, 2007, p. 72). 
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As categorias éticas são categorias de valor que se referem à particularidade 
da ação ética do indivíduo, fornecendo elementos para a sua valoração e/ou o seu 
julgamento de valor. Por exemplo, a responsabilidade do sujeito em relação à sua 
ação. Ou seja, a responsabilidade não é apenas um valor: é uma categoria ética, pois 
expressa uma relação social que decorre de uma ação e que se complexifica na 
medida em que estabelece conexões sociais com outros sujeitos e escolhas. 
 
Ética profissional: determinações históricas e particularidades 
A natureza da ética profissional 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A ética profissional é uma dimensão específica do Serviço Social, suas 
determinações são mediadas pelo conjunto de necessidades e possibilidades, de 
demandas e respostas que legitimam a profissão na divisão social do trabalho da 
sociedade capitalista, marcando a sua origem e a sua trajetória histórica. 
A ética profissional se objetiva como ação moral, através da prática 
profissional, como normatização de deveres e valores, através do código de Ética 
Profissional, como teorização ética, através das filosofias e teorias que fundamentam 
sua intervenção e reflexão e como ação ético•política. Cabe destacar que essas não 
são formas puras e/ou absolutas e que sua realização depende de uma série de 
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determinações, não se constituindo na mera reprodução da intenção dos seus 
sujeitos. 
A moral profissional diz respeito à relação entre a ação profissional do 
indivíduo singular (derivada de determinado comportamento prático objetivador de 
decisões, escolhas,juízos e ações de valor moral), os sujeitos nela envolvidos 
(usuários, colegas, etc.) e o produto concreto da intervenção profissional (avaliado em 
função de suas consequências éticas, da responsabilidade profissional, tendo por 
parâmetros valores e referenciais dados pela categoria profissional, como o Código 
de Ética, etc.). 
A moral é reveladora de uma dada consciência moral ou moralidade que se 
objetiva através das exigências do ato moral: escolha entre alternativas, julgamentos 
com base em valores, posicionamentos que signifiquem defesa, negação, valorização 
de direitos, necessidades e atividades que interfiram e/ou tragam consequências 
sociais, éticas e políticas para a vida de outros indivíduos. 
A moralidade é parte de uma educação moral anterior à formação profissional, 
que inclusive a influencia, pois pertence ao processo de socialização primária, onde 
tende a reproduzir tendências morais dominantes que se repõem cotidianamente 
através das relações sociais. O processo de socialização, através da participação 
cultural, política, religiosa, pode reforçar ou contrapor valores incorporados 
anteriormente, o mesmo ocorrendo com a inserção profissional. 
Assim, a adesão a um determinado projeto profissional – e as suas dimensões 
éticas e políticas – supõe decisões de valor inscritas na totalidade dos papeis e 
atividades que legitimam a relação entre o indivíduo e a sociedade. Nem sempre os 
papeis sociais e as atividades desempenhadas pelos indivíduos estão em 
concordância, formando um todo coerente. Quando não estão, instituem conflitos 
morais – que ocorrem quando os valores podem ser reavaliados, negados ou 
reafirmados. 
O que dá materialidade e organicidade à consciência ética dos profissionais é 
o pertencimento a um projeto profissional que possa responder aos seus ideais, 
projeções profissionais e societárias, enquanto profissionais, cidadãos e categoria 
organizada. Os profissionais participam eticamente de um projeto profissional quando 
assumem individual e coletivamente a sua construção, sentindo‐se responsáveis pela 
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sua existência, como parte integrante do mesmo. Historicamente, a ética profissional 
busca na filosofia e/ou em teorias sociais o suporte para fundamentar a sua reflexão 
e teorização éticas, necessárias à compreensão e sistematização da ética 
profissional, fornecendo a concepção de homem e a fundamentação para os valores, 
dando elementos para a intervenção profissional nas situações em que se colocam 
questões morais e éticas. 
A formação profissional, onde se adquire um dado conhecimento capaz de 
fundamentar as escolhas éticas, não é o único referencial profissional. Somam‐se a 
ela – ou a ela se contrapõem – as visões de mundo incorporadas socialmente pela 
educação formal e informal, pelos meios de comunicação, pelas religiões, pelo senso 
comum. É o conjunto de tais manifestações culturais e conhecimentos que forma os 
hábitos e costumes que a educação formal pode consolidar ou não. 
A sociedade burguesa tende a suprimir e/ou negligenciar as abordagens 
críticas, humanistas e universalistas, donde a desvalorização do conhecimento 
filosófico, o apelo ao conhecimento instrumental, ao utilitarismo ético, ao relativismo 
cultural e político. A reflexão filosófica, base de fundamentação da ética profissional, 
incorpora referenciais que nem sempre permitem um conhecimento crítico, o que 
coloca contradições entre a dinâmica social e sua apreensão profissional. 
A ética também se objetiva através de um Código de Ética: conjunto de valores 
e princípios, normas morais, direitos, deveres e sanções, orientador do 
comportamento individual dos profissionais, dirigido à regulamentação de suas 
relações éticas com a instituição de trabalho, com outros profissionais, com os 
usuários e com as entidades da categoria profissional. 
Nenhuma profissão pode garantir a legitimação de sua ética a partir de seu 
código, o que seria afirmar uma concepção ética legalista e formal. Trata‐se de uma 
questão de consciência ética e política cuja ampliação requer estratégias da categoria 
profissional, no sentido de mobilização, de incentivo à participação, à capacitação, de 
ampliação do debate e de acesso à informação. 
Na sociedade capitalista, a ação política se objetiva como luta pela hegemonia 
realizada no espaço público, entre projetos vinculados a interesses de classe, em um 
contexto estrutural onde as relações sociais, em geral, e as políticas, em especial, são 
determinadas predominantemente pelo comando do capital. 
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Com isso, a política, que já é um campo onde os critérios de decisão são dados 
hegemonicamente pelos interesses, e não por valores éticos, tende a reproduzir uma 
lógica que atualiza uma ética específica, resultado da relação entre as exigências 
éticas das ações e as necessidades materiais reproduzidas socialmente. Porém, a 
consciência política de seus limites na ordem burguesa não deve levar à sua negação 
enquanto estratégia de construção de uma contra hegemonia e de prática social 
consciente articulada a projetos de superação da ordem capitalista. 
Como produto histórico da sociedade burguesa, no contexto da coexistência 
entre o maior desenvolvimento das forças essenciais do ser social e de sua negação, 
a materialização da ética ocorre na relação entre limites e possibilidades que não 
dependem apenas da intenção de seus agentes. 
Nesse sentido, a ética profissional não é isenta dos processos de alienação, 
mas isso é absoluto. Pode, favorecida por condições sociais e diante de motivações 
coletivas, ser direcionada a uma intervenção consciente realizadora de direitos, 
necessidades e valores que respondam às necessidades dos usuários. Intervenção 
que se articula, em termos de projeto social, a uma práxis política motivada pela 
ultrapassagem dos limites à plena expansão da liberdade. 
 
Ética profissional e conjuntura: tendências e desafios 
 
 
Historicamente, desde a sua origem, o Serviço Social se configura como uma 
profissão fortemente influenciada pelo conservadorismo moral e político. No Brasil, os 
Códigos de Ética profissionais bem exemplificam este dado: entre 1947 (data do 
primeiro Código) e 1986 (quando é rompida a concepção tradicional), passaram‐se 
trinta e oito anos de vigência de Códigos pautados na perspectiva ética tradicional 
conservadora. 
A negação histórica dessa herança coloca‐se como finalidade do projeto 
profissional, que se caracteriza pela busca de ruptura com o conservadorismo em 
suas várias dimensões e configurações: o projeto de “intenção de ruptura” (NETTO, 
1992), hoje denominado projeto ético‐político. Sua construção é um processo inscrito 
no conjunto de determinações sócio‐históricas que – propiciando a renovação do 
Serviço Social brasileiro, nos marcos da autocracia burguesa – viabiliza os suportes 
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históricos para a erosão do Serviço Social tradicional, tornando possível a existência 
de um pluralismo profissional, entre outros aspectos (NETTO, idem, p. 131‐137). 
Na década de oitenta, a construção do projeto profissional foi fortalecida pelas 
lutas democráticas e pela reorganização política dos trabalhadores e dos movimentos 
sociais organizados. Favorecendo a participação cívica e política dos profissionais, 
ampliando sua consciência, esse contexto também propicia o confrontoteórico e 
ideológico entre tendências e a luta pela hegemonia entre diferentes projetos 
societários e profissionais. 
Os anos oitenta, sinalizam a maturidade teórica e política do projeto 
profissional evidenciada na organização político‐sindical da categoria, na produção 
teórica, em sua capacidade crítica de interlocução com outras áreas do conhecimento, 
em seu desenvolvimento na área da pesquisa, em sua incorporação “de vertentes 
críticas com destaque para as inspiradas na tradição marxista” (NETTO, 1999, p. 102). 
Nesse processo, se construiu um novo ethos, marcado pelo posicionamento de 
negação do conservadorismo e de afirmação da liberdade. Valores e princípios foram 
se reafirmando na vida cotidiana através da participação cívica e política, do trabalho, 
da vivência e enfrentamento de novas necessidades, escolhas e posicionamentos de 
valor, da recusa de papeis tradicionais, da incorporação de novos referenciais ético‐ 
morais, entre outros aspectos. 
É assim que o compromisso com as classes trabalhadoras desponta como 
valor ético•político central, orientando o posicionamento dos setores organizados da 
categoria, no III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, marco ético e político 
apropriado no processo de reformulação do Código de Ética, em 1986: o primeiro a 
romper com o histórico conservadorismo dos códigos de ética brasileiros. 
O Código de 1986 não foi suficientemente desenvolvido em sua parte 
operacional e em seus pressupostos teóricos, orientados pelo marxismo. Com o 
objetivo de ampliá‐los, foi feita a reformulação de 1993, em um contexto muito diverso 
daquele que em 1980 favoreceu a construção do projeto de ruptura 
profissional. 
O Código de 1993 afirma a centralidade do trabalho na constituição do homem: 
sujeito das ações éticas e da criação dos valores. Revelada em sua densidade 
histórica, a sua concepção ética está articulada a valores ético‐políticos, como a 
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liberdade, a justiça social e a democracia, e ao conjunto de direitos humanos (civis, 
políticos, sociais, culturais e econômicos) defendidos pelas classes trabalhadoras, 
pelos segmentos sociais excluídos e pelos movimentos emancipatórios ao longo da 
história. 
A partir da década de noventa, as consequências socioeconômicas e 
ideopolíticas das profundas transformações operadas pelo capitalismo mundial no 
mundo do trabalho e nas instituições burguesas, tendo por finalidade a sua 
reestruturação nos moldes neoliberais, descortinam um cenário perverso, em termos 
dos direitos humanos e das possibilidades de objetivação ética. 
Trata‐se de um contexto de perda de direitos historicamente conquistados e de 
um processo de desumanização, no qual as condições para assegurar a manutenção 
da vida humana não estão sendo garantidas para grande parte da humanidade, em 
vários aspectos, materiais e subjetivos. O desemprego, a pobreza, a 
desregulamentação do trabalho e da proteção social, o aprofundamento da exclusão 
e da exploração, a violência, a degradação ambiental, a dependência político‐ 
econômica de centenas de países pobres em face da dívida externa, entre outros, 
evidenciam o abismo entre o desenvolvimento do gênero humano e a pobreza da 
maioria da humanidade. 
Em face desse cenário, a profissão vive, na entrada do novo século, um 
momento de resistência política. As precárias condições de existência social da 
população usuária se revelam cotidianamente nas instituições, exigindo respostas dos 
profissionais que, em grande medida, não dispõem de condições objetivas para 
viabilizá‐las. Além disso, o agravamento da “questão social” também rebate em sua 
vida de trabalhadores assalariados – que enfrentam em níveis diversos – os mesmos 
problemas da população usuária. 
Portanto, sob o ponto de vista da ética profissional, esse contexto motiva ações 
de resistência, politicamente direcionadas ao enfrentamento dos limites postos à 
viabilização dos direitos e dos valores que orientam a ação profissional, o que implica 
diferentes estratégias e espaços de objetivação. 
A crítica às novas configurações do conservadorismo, isto é, à ideologia 
neoliberal conservadora, base de sustentação do imaginário social da atualidade, se 
apresenta, neste momento, como um grande desafio posto ao Serviço Social. 
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Fundado na privatização do público e na afirmação do mercado como única instituição 
autorreguladora, o totalitarismo neoliberal (OLIVEIRA, 1999) promove o 
individualismo, a negação da política e da ética, nos termos aqui tratados. Produto 
histórico das reformas e transformações do capitalismo, o neoliberalismo justifica 
ideologicamente o presente, ou seja, a fragmentação, a dispersão, a insegurança, o 
efêmero (CHAUÍ, 1999), negando todos os valores afirmados pela sociedade moderna 
e pelas forças progressistas: a universalidade dos valores, a racionalidade do homem, 
a liberdade como capacidade sócio‐histórica de transformar a realidade. 
Nesse contexto adverso ao neoconservadorismo, são dadas as condições 
ideológicas para a reprodução de valores pautados na defesa de relações autoritárias 
e de instituições adequadas à sua reprodução, com destaque para a família 
tradicional, para as instituições religiosas, policiais, e seus representantes nas figuras 
das autoridades constituídas. O Serviço Social, por várias razões, é uma das 
profissões vulneráveis à incorporação e/ou ao enfrentamento de relações 
conservadoras. Por exemplo, por sua histórica vinculação ao conservadorismo moral, 
pode estar vulnerável à sua reatualização; por sua inserção em campos institucionais 
propícios ao estabelecimento de relações hierarquizadas, tais como as prisões, o 
sistema judiciário, etc., pode enfrentar ou assimilar tais relações. 
O seu enfrentamento requer uma análise crítica da realidade, donde a 
importância de um referencial teórico‐metodológico que efetivamente forneça o 
suporte para o desvelamento do real, de sua essência histórica. Esse conhecimento 
implica em uma reflexão constante, isto é, em uma capacitação continuada: outro 
desafio a ser buscado no enfrentamento do neoconservadorismo, do pensamento 
pós‐moderno, com seu irracionalismo, seus preconceitos, suas formas morais. 
Para se realizar como atividade teórica universalizante, é preciso que a ética 
apreenda criticamente os fundamentos dos conflitos morais e desvele o sentido e as 
determinações de suas formas alienadas; a relação entre a singularidade e a 
universalidade dos atos ético‐morais, respondendo aos conflitos sociais, resgatando 
os valores genéricos e ampliando a capacidade de escolha consciente dos indivíduos; 
sobretudo, que possibilite a indagação radical sobre as possibilidades de realização 
da liberdade, seu principal fundamento. 
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Vê‐se que a responsabilidade ética profissional, em suas várias formas de 
expressão, exige a participação ativa dos sujeitos coletivos, que – em graus variados, 
com diversas medidas e possibilidades de engajamento – são os protagonistas de 
escolhas e posicionamentos de valor. Assim, o nível de exigência dessas escolhas e 
as mediações que elas encerram variam qualitativamente, de acordo com 
determinações historicamente condicionadas. 
Nesse sentido, os valores contidos no Código de Ética Profissional são 
orientadores das opções, escolhas, dos posicionamentos e julgamentos de valorrealizados cotidianamente. Todavia, para que se materializem, é preciso que ganhem 
efetividade na transformação da realidade, na prática social concreta, seja ela na 
direção de um atendimento realizado, de uma necessidade respondida, de um direito 
adquirido. 
Na relação com os usuários, nos limites da sociedade burguesa, a ética 
profissional se objetiva através de ações conscientes e críticas, do alargamento do 
espaço profissional, quando ele é politizado – o que implica no compartilhamento 
coletivo com outros profissionais e no respaldo das entidades e dos movimentos 
sociais organizados. Isso torna possível uma ação ético‐política articulada ao projeto 
coletivo, adquirindo maiores possibilidades de respaldo nos momentos de 
enfretamento e de resistência. 
 
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Os direitos sociais podem ser definidos como aqueles fundamentados na 
igualdade social, econômica e cultural entre os cidadãos, visando à estabilidade social 
com melhor qualidade de vida e igualdade social entre classes, de modo que cada um 
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tenha direito à saúde, educação, moradia, lazer, assistência social etc., ocorrendo à 
efetivação dos mesmos por meio de instituições prestadoras desses serviços. 
De acordo com Telles (1999), a própria Declaração Universal dos Direitos 
Humanos, da Organização das Nações Unidas – ONU, de 1948, reconhece que tais 
direitos, associados aos direitos civis e políticos, têm status de direitos humanos, na 
medida em que a vida com plena dignidade não pode ser dissociada do usufruto deste 
conjunto de direitos, o que nos remete à definição clássica de cidadania, apresentada 
por Thomas Marshall (1967). 
Marshall (1967) entende a cidadania como a conjugação de três elementos 
básicos, os quais ele chama de elemento civil, elemento político e elemento social. 
Podemos dirigir-nos a estes elementos como direitos, onde o direito civil é referente à 
liberdade individual como o direito de ir e vir, da propriedade privada, da justiça, dentre 
outros. Já o direito político denota a participação política e ativa do cidadão, como 
eleitor dos seus representantes ou responsável e/ou participante de instituições 
políticas. 
Por fim, os direitos sociais, colocados em evidência, referem-se a um direito 
mínimo de bem-estar abrangendo também o “(...) econômico e segurança ao direito 
de participar, por completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado de 
acordo com os padrões que prevalecem na sociedade” (MARSHALL, 1967, p. 63-64). 
Portanto, os direitos sociais devem possibilitar o suprimento das carências sociais, 
viabilizando as necessidades básicas a fim de promover uma vivência saudável da 
população. 
A vigência desses direitos remete-nos ao início da formação de uma sociedade 
justa e igualitária, em que todos os cidadãos têm acesso a um conjunto de direitos. 
Aliás, é válido ressaltar que o Serviço Social, enquanto profissão inscrita na divisão 
sócio técnica do trabalho, se faz socialmente necessário na medida em que medeia a 
relação capital e trabalho e se compromete com a defesa intransigente dos direitos 
humanos. Dentre os princípios fundamentais que norteiam a profissão de assistente 
social, podemos mencionar a “ampliação e consolidação da cidadania, considerada 
tarefa primordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e 
políticos das classes trabalhadoras” (CFESS, 1993). 
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O Serviço Social possui uma grande responsabilidade para a emancipação 
das classes sociais, tendo em vista o disposto em seu código de ética. Esse trabalho 
inclui o atendimento direto aos usuários nas instituições, o posicionamento 
sociopolítico em favor do direito e da justiça, bem como o apoio e participação dos 
movimentos sociais e organizações populares, buscando a democracia e direitos de 
cidadania. 
Nos diferentes espaços sócio-ocupacionais, o assistente social lida com 
direitos e trabalha planejando, executando e avaliando políticas sociais, as quais são 
uma forma de materialização desses direitos. Por isso, a atuação profissional se faz 
extremamente necessária para que os usuários conheçam e tenham acesso aos bens 
e serviços sociais. 
As orientações, encaminhamentos, contatos internos e externos, são meios de 
viabilização desse acesso. 
A atuação comprometida e propositiva deste profissional tende a contribuir 
para a “qualidade do espaço público, para o controle social e, em última instância, 
para a construção de uma nova ordem social” (VASCONCELOS, 2001, p. 244). O 
assistente social atua como um grande articulador, ao passo em que seu 
conhecimento da gama de direitos sociais, das instituições e dos caminhos 
necessários faz com que o usuário usufrua da herança social, como postula Marshall 
(1967). 
 
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A simbiose entre Serviço Social e direitos sociais é patente, na medida em que 
a profissão ganha legitimidade na sociedade ao viabilizar direitos, por meio de planos, 
programas e projetos sociais. Conforme as Diretrizes Curriculares para o Curso de 
Serviço 
Social (ABEPSS, 2002), “a formação profissional deverá desenvolver a 
capacidade de orientar a população na identificação de recursos para atendimento e 
defesa de seus direitos”. 
Dessa forma, o conhecimento dos direitos sociais para o assistente social é 
imprescindível, tendo em vista que se faz um dos instrumentos de trabalho mais 
importantes, pois, a partir desse conhecimento, o profissional irá interagir com o 
usuário, viabilizando as políticas sociais necessárias à satisfação de suas 
necessidades. 
O futuro profissional deve estar disposto a reconhecer a importância das 
políticas sociais, apresentadas por Pastorini (2011, p. 71) como “ações que orientam 
o esforço social para a obtenção de um aumento nos níveis e qualidade de vida da 
população, contribuindo, dessa forma, para a diminuição das desigualdades sociais”. 
Para conhecer e atuar neste campo, o acadêmico precisa receber uma formação 
profissional que o instrumentalize para tanto. É nesse espírito que a Associação 
Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (1996) propõe a formação 
alicerçada em três núcleos. De acordo com Iamamoto (2006), os núcleos temáticos
 são indissociáveis, complementam-se e relacionam-se, fornecendo 
conhecimentos e habilidades necessários para uma formação de qualidade dos 
assistentes sociais. 
O primeiro núcleo é o de Fundamentos Teórico-Metodológicos da Vida Social, 
e aponta que o Assistente Social precisa dominar um conjunto de fundamentos teórico 
metodológicos e ético-políticos para compreender o ser social e a vida em sociedade, 
analisando o desenvolvimento da vida social na sociedade burguesa. 
O conhecimento sobre a formação e o desenvolvimento da sociedade 
burguesa permite que o profissional em construção compreenda toda a conjuntura, 
para que seja possível o entendimento de como se originou a realidade atual da 
sociedade, sua dinamicidade na sociedade como um todo, a fim de que seja possível 
a visualização de possibilidades de intervenção coerentes ao contexto social, 
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objetivandoque a compreensão de que os direitos sociais não são uma dádiva, mas 
fruto de um processo histórico marcado por lutas sociais. Podendo também ser aqui 
acrescentado que as abordagens ontológicas e teleológicas sobre o mundo do 
trabalho, a partir dos conceitos de Marx, permitem o contraste entre o que deve ser o 
trabalho e como ele tem sido retratado na realidade em que nos encontramos, dando 
espaço para maiores análises sobre o mundo do trabalho e os direitos sociais, entre 
várias outros questionamentos que são possibilitados por este núcleo. O segundo 
núcleo é o de Fundamentos da Formação Sócio-Histórica da sociedade brasileira e 
se refere ao conhecimento da formação e desenvolvimento da área econômica, social, 
política e cultural da sociedade brasileira, a relação entre Estado e sociedade, o 
tratamento das políticas públicas, o desenvolvimento do processo capitalista, a análise 
da questão social e suas origens, entre outros. 
Transitar pela história brasileira, a construção de seu sistema de proteção 
social, possibilita a compreensão sobre os avanços e retrocessos existentes no trato 
da questão social no Brasil. As políticas sociais nem sempre são marcadas pela lógica 
do direito, permeadas por distorções: assistencialismo, clientelismo e paternalismo. 
Entender como os direitos se consolidaram e quais os aparatos legais de cada direito, 
permite que o assistente social, além de conhecer e compreender as particularidades 
da realidade social brasileira e seu desenvolvimento influenciado pelos ideais 
capitalistas e neoliberais, seja capaz de planejar intervenções e ter a perspectiva 
crítica aguçada para as situações subjetivas que surgem não só no espaço sócio- 
ocupacional, mas na realidade brasileira em geral. 
O terceiro núcleo é o de Fundamentos do Trabalho Profissional e é composto 
pela abordagem da trajetória histórica, teórica, metodológica e profissional do Serviço 
Social, a abordagem da ética da profissão, etc., para que situe e capacite o profissional 
em formação. 
As abordagens oriundas deste núcleo permitem o entendimento de como o 
serviço social se inseriu na divisão sóciotécnica do trabalho, com quais propósitos, e 
como ele foi se reatualizando com objetivo de atender as demandas que iam surgindo. 
Aborda também a consolidação do projeto ético-político, as transformações do código 
de ética profissional que define os direitos e deveres do assistente social, e põe em 
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relevo a relação entre teoria e prática, reconhecendo que formação e trabalho 
profissional estão irmanados. 
Os meios potencializadores da formação são o estágio em serviço social, a 
construção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre direitos e/ou políticas, 
os projetos de intervenção voltados para o fortalecimento dos direitos, a discussão 
sobre as estratégias de atuação, e o acesso à pesquisa e à extensão, assim como em 
outras áreas de formação, que permitem ao discente a ampliação das discussões 
sobre os temas referentes ao serviço social. 
Então, é impossível pensar a formação profissional sem direitos sociais, visto 
que a viabilização dos direitos é o principal objetivo da profissão, utilizando, para isto, 
toda a reflexão teórica que é proporcionada, o planejamento e gestão de planos, 
programas e projetos, os direcionamentos do projeto ético-político, ou seja, os direitos 
permeiam toda a práxis do Serviço Social. 
 
Dilemas para o exercício profissional 
 
 
A ética, entendida como um “modo de ser do ser socialmente determinado”, 
tem sua origem na autoconstrução deste que se desenvolve como um ser consciente, 
universal e livre, capaz de reproduzir-se sem que esteja atrelado apenas às 
necessidades físicas. Essa proposição, em Marx, refere-se às capacidades 
desenvolvidas pelo trabalho, em que o gênero humano ao transformar a natureza, 
produz e se reproduz enquanto tal. Dessa forma, o homem carece de uma 
necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre si e a natureza 
para manter a vida humana (Marx, 1980, apud, Barroco, 2008, p 21). 
Ao criar novas alternativas, o homem vai em busca de novas respostas para 
suas interrogações. Com essa busca incessante, ele se recria, renova-se e suas 
relações sociais se complexificam e criam novas possibilidades, a ponto da 
generalidade humana exigir meios mais sofisticados para supressão de novos 
carecimentos. O homem conseguiu ultrapassar as barreiras da natureza meramente 
física e se transpôs para uma existência social e aberta às novas possibilidades. 
Portanto, ao romper com as necessidades meramente objetivas, ele se autoconstrói 
enquanto ser genérico (Barroco, 2009). 
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A autora destaca, ainda, que a sociabilidade é mediação imanente da 
objetivação humana, uma vez que é por meio da cooperação que o indivíduo reproduz 
sua existência genérico-humana. Com isso, entende-se que a essência do gênero 
humano está intercambiada pela reciprocidade, pelo reconhecimento dos homens 
entre si como seres de uma mesma espécie, dependentes uns dos outros, partilhando 
da mesma atividade para se alcançar determinados objetivos (Barroco, 2009). 
Barroco diz ainda que: “A interação entre o indivíduo e a sociedade se faz de 
modo tal que a consciência do ‘eu’ e a do ‘nós’ não se constituem em antíteses; isto 
porque as motivações do ‘eu’ são sociais; sempre se referem a um grupo, a um quadro 
de valores socialmente legitimados...” (Barroco, 2008, p 38). 
A liberdade como um princípio ético permite ao homem escolher entre as 
possibilidades de valor ético ou não, ou seja, o homem é capaz de agir eticamente, 
podendo anteriormente, refletir sobre suas ações, com a consciência de que suas 
escolhas podem ou não estar baseadas em fundamentos éticos. Tais escolhas são 
direcionadas para finalidades eleitas pelo próprio homem, que para alcançá-las, 
objetivar-se-á na realidade social, de acordo com seus princípios, valores e 
motivações que envolvem a consciência, as formas de sociabilidade e as suas 
capacidades teleológicas (objetivos). É importante destacar também que “a gênese 
das escolhas e alternativas de valor são indissociáveis da práxis, por isso são 
categorias objetivas e históricas” (Barroco, 2008, p 30). 
Sendo assim, entende-se que a ética é uma categoria histórica e social, que 
em relação às formas diferenciadas de cultura e princípios valorativos de épocas e 
grupos sociais diferentes, efetiva-se segundo o conjunto de valores e princípios éticos 
diferenciados. A práxis, como categoria da sociabilidade humana, também se 
configura enquanto elemento produzido histórico e socialmente. A ação ético-política 
do gênero humano constitui-se de determinações que estão fora do âmbito intencional 
subjetivo, mas esta é motivada pela moralidade objetiva, constituída com bases 
valorativas distintas. No caso da sociedade capitalista, têm-se como fundamentos 
éticos a acumulação de capital e expropriação de mão-de-obra. Em tal lógica, não há 
espaço para se desenvolver uma práxis que objetive a emancipação do indivíduo 
enquanto ser social, uma vez que é necessária uma sociabilidade que leve em 
consideração a promoção desse indivíduo enquanto ser genérico. Logo é impensável, 
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na sociedade capitalista, em que as relações sociais estão alicerçadas na acumulação 
da riqueza, na exploração da força de trabalho e nareificação da mercadoria, que haja 
condições favoráveis para tal emancipação. 
A ação humana deve estar pautada por princípios éticos e morais que busquem 
emancipar o gênero humano, logo, a liberdade, a universalidade e a dignidade do 
homem devem iluminar as reflexões, os projetos e a própria práxis humana. Essa deve 
configurar-se não só pelo aspecto objetivo de transformação da natureza por meio do 
trabalho, mas também pelos aspectos valorativos do comportamento singular e social 
do gênero humano (Barroco, 2009). 
A ética permite compreender a singularidade do indivíduo e sua dimensão 
social. Sendo assim, o campo dos projetos coletivos, nos quais se vinculam as ações 
e práticas dos atores sociais, correspondem às finalidades de grupos sociopolíticos 
diferenciados. Pode-se afirmar, então, que as práticas e atividades do gênero humano 
correspondem a interesses diversos e conflituosos, e por isso elas possuem um 
caráter político, uma vez que para atender a esses interesses, reproduzem-se 
enquanto processo transformador ou de alienação do gênero humano (Teixeira, 
2009). Se as necessidades humanas são desenvolvidas ao longo do desenvolvimento 
sócio-histórico do homem, a constituição desse mundo prático material-ideal permite 
visualizar como o desenvolvimento do ser social transcende a esfera das objetivações 
materiais, a qual se autonomiza para as esferas do valor, da ética, da arte, da ciência 
e etc. “Desta forma, temos diversas formas de prática: prática política, prática artística, 
prática produtiva e as diversas formas de prática profissional” (Teixeira, 2009, p 3). 
Esta se materializa com a instituição de um projeto profissional que se 
concretiza no exercício da profissão, os ideais e os princípios éticos da categoria, além 
disso, a “materialidade e organicidade” da consciência ética dos profissionais não se 
objetiva apenas no plano legal. O Código de Ética Profissional direciona o exercício 
do profissional, dirige as relações deste no espaço sócio-ocupacional e orienta sua 
postura, logo trata-se de uma questão de consciência ético-política motivada pela 
categoria profissional, no sentido de mobilizar a participação, a capacitação e a 
ampliação do debate acerca da postura profissional, segundo os princípios éticos e 
políticos da profissão (Teixeira, 2009). 
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A objetivação do ser social opera-se nas relações materiais, num processo 
mais abrangente de reprodução da vida em sociedade, em que relações mais ou 
menos complexas são produzidas e reproduzidas para supressão de necessidades 
sociais concretas. Assim, dá-se a incessante dinâmica histórico-social de um projeto 
profissional, cujos produtos resultantes de uma práxis que ao se objetivarem, 
materialmente e espiritualmente, consigam desenvolver sujeitos individuais e 
coletivos. Nesse caso, o projeto ético-político profissional intervém nessa dinâmica 
para corresponder a interesses coletivos diversos, ou seja, ele afirma-se pelos 
valores, diretrizes profissionais que expressam as dimensões coletivas e interesses 
de segmentos distintos (Teixeira, 2009). 
Numa sociedade hierarquizada, ele carrega em sua dimensão política, as 
contradições de uma sociedade marcada por relações antagônicas entre classes 
distintas. Nesse sentido, a prática profissional, definida na divisão sociotécnica do 
trabalho é determinada por uma direção sociopolítica que baliza as ações sócio 
profissionais em favor de um projeto societário mais amplo, qual seja a transformação 
ou a perpetuação de uma dada ordem social (Teixeira, 2009). 
O projeto ético-político do Serviço Social brasileiro está balizado por uma 
concepção societária mais ampla, que se pauta pela transformação social, pela 
garantia dos direitos sociais e pela emancipação do indivíduo. No entanto, ele sofre 
influências dos movimentos contraditórios que se operam na sociedade e suas ações 
favorecem a um ou a outro projeto. Isso significa que as ações e intervenções 
profissionais nos espaços sócio-ocupacionais são determinadas por valores 
específicos de reconhecimento da liberdade como valor ético central, quais sejam: o 
compromisso com a autonomia, a emancipação e a plena expansão dos indivíduos 
enquanto seres humanos genéricos. Em outros termos, o nosso projeto ético-político 
se propõe à construção de uma nova ordem social, sem dominação e sem exploração 
de uma classe sobre a outra (Teixeira, 2009). Mas, também, ele é marcado 
constantemente pelos desafios do cotidiano que aliena o exercício profissional, desvia 
a atenção para questões corriqueiras e para viabilização de projetos contrários àquilo 
que defendemos. 
Nesta perspectiva, Amaral destaca que “a alienação produzida na vida 
cotidiana atinge os/as assistentes sociais nos seus processos de trabalho”. Sendo 
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assim, é importante pensar o processo de alienação no espaço sócio-ocupacional; as 
rotinas institucionais são profundamente alienantes, muitas vezes acabam por esgotar 
a disposição política do profissional que precisa do vínculo empregatício e sofre, 
cotidianamente, o controle institucional acerca dos prazos e metas de produção, o que 
reflete inevitavelmente em sua capacidade teleológica (reflexão do Fórum da Unidade 
II, em 28/06/2009). 
Frente a essas reflexões, Teixeira (2009), afirma que o projeto ético-político não 
se efetiva integralmente na sociedade, ou seja, não há uma relação entre o que 
planejamos e o que executamos efetivamente, isso se dá principalmente porque as 
incidências objetivas desse projeto não dependem exclusivamente de nossas ações, 
mas da relação com um projeto societário mais amplo, cujas expectativas deverão ser 
correspondidas via práticas socioprofissionais. Além do mais, devem-se levar em 
consideração as transformações das condicionantes da esfera social, dos elementos 
que a constitui, dos interesses e dos movimentos que movem toda a sua dinâmica. 
Todavia, cabe ao assistente social dar ao projeto profissional um caráter 
transformador e não de mantenedor da ordem burguesa. Planejar e desenvolver esse 
projeto exige desse profissional atuar e intervir eticamente para que o usuário possa 
trazer até ao atendimento seus anseios e problemas, na certeza do seu compromisso 
ético. 
No âmbito do atendimento, explicitar ao usuário os valores ético-políticos da 
nossa profissão é o primeiro passo para efetivação e eficácia deste projeto 
profissional; como explicitar isso é outro passo a ser desenvolvido através de 
metodologias. A construção desse projeto na luta de classes exige comunicação, 
mobilização e esforços coletivos dos atores sociais (Assistente Social, Usuário)” 
(reflexão de Davylane Valéria da Silva no Fórum da Unidade II, em 03/07/2009). 
Todos esses aspectos determinam a profissão e sua dimensão prática e 
política. Por isso, o profissional, ao transitar num ambiente frágil e marcado por 
tensões, deve firmar a democracia e a liberdade como pressupostos definidores dos 
rumos da atuação profissional. Escolher caminhos, construir estratégias político- 
profissionais demarcadas por compromissos claros e princípios coerentes com o 
projeto ético-político, para não cair no assistencialismo, filantropismo e no fatalismo, 
mas que essas escolhas profissionais possam colidir com a estrutura social 
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estabelecida pela lógica capitalista no cotidiano detrabalho, em meio ao imediatismo 
e à alienação, e assim mesmo diante dessas adversidades, sustentar a possibilidade 
de que um novo projeto social e mais justo é possível. Afinal, como diz Barroco: “Na 
relação com os usuários, nos limites da sociedade burguesa, a ética profissional se 
objetiva através de ações conscientes e críticas, do alargamento do espaço 
profissional, quando ele é politizado - o que implica no compartilhamento coletivo com 
outros profissionais e no respaldo das entidades e dos movimentos sociais 
organizados. Isso torna possível uma ação ético-política articulada ao projeto coletivo, 
adquirindo maiores possibilidades de respaldo nos momentos de enfrentamento e de 
resistência” (p. 21). 
Tivemos, a partir da década de 1990, mudanças sociais na esfera produtiva, 
cuja lógica mercantil vem suplantando o papel do Estado na condução das políticas 
sociais e na regulação do mercado. Este se torna a força viva que determina as novas 
formas de relação de trabalho, em favor da hegemonia do capital, atentando contra o 
trabalhador (Koike, 2009). 
O mercado passa a exigir um trabalhador multiprofissional que pense e viva, 
segundo a nova lógica a qual transfere para esse trabalhador a responsabilidade pela 
sua manutenção no mercado de trabalho. Portanto, são estabelecidos critérios 
preferenciais de aferição da empregabilidade e do desempenho profissional que 
devem ser adquiridos individualmente como autoinvestimento e aferidos por 
mecanismos de controle de qualidade como os exames de proficiência (Koike, 2009, 
p 4). 
Essa nova dinâmica referencia também a reforma educacional, com a lógica de 
que o mercado democratiza o acesso ao ensino de qualidade em todos os níveis, 
assegurando dessa forma a inserção social. Para o assistente social, a concepção de 
que o mercado vem requerer do profissional, capacidades para realizar práticas 
meramente tecnicistas, desvaloriza a busca pelo rigor científico, trivializa a teoria, 
fixando-se o aprender no mero praticismo, sem fundamentação teórico-metodológica, 
ético-política e crítico-reflexiva. A identidade profissional submete-se às 
características meramente funcionais ao capital: o pragmatismo; a polivalência; a 
competitividade; o empreendedorismo; a adaptabilidade e ao individualismo, 
reforçando assim, a prática predatória da força de trabalho. 
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O contexto, em que se proliferam os cursos com finalidades mercantis, tem 
incentivado as universidades de ensino superior a adequarem seus currículos, para 
simplificar e acelerar o processo formativo. Em decorrência disso, as dimensões que 
potencializam a formação de nível superior, como interlocução com a teoria social 
crítica, as práticas investigativas, a pesquisa e a supervisão de estágio ficam 
comprometidas. Sem uma formação crítica e qualificada, o profissional vai reproduzir 
modelos conservadores, despolitizados das relações sociais e incidentes no exercício 
profissional também despolitizado, o que naturaliza e reforça os processos 
contraditórios da sociedade, como destaca Koike (2009) ao mencionar as 
dissimulações do discurso ideológico que obscurecem mais do que revelam essas 
contradições. 
A discussão da ética no âmbito do serviço social, levando-se em consideração 
os seus aspectos ontológicos, políticos e sociais, nos leva a acreditar que este debate 
é essencial para pensar e materializar o projeto profissional dos assistentes sociais, 
bem como os desafios impostos, que muitas vezes dificultam sua execução. Portanto, 
o projeto ético-político do Serviço Social constitui-se no pilar fundamental da categoria 
profissional, uma vez que ele preserva os princípios emancipatórios do gênero 
humano, carrega a luta histórica dos movimentos sociais, os quais deram condições 
sociopolíticas que permitiram o profissional de Serviço Social estruturar um projeto 
profissional crítico que buscou romper com suas matrizes conservadoras. O marco 
legal da profissão e as diretrizes curriculares são baluartes desse projeto e 
constituem-se na essência da profissão, bem como nossos órgãos representativos 
(ABEPSS, CFESS/CRESS e ENESSO) que têm o compromisso com o rigor 
acadêmico e teórico, balizados nos princípios éticos e políticos e nos fundamentos 
teóricos e metodológicos como expressão do avanço profissional, frente a uma 
conjuntura desfavorável e adversa. 
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