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ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 1 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Coordenação de Ensino FAMART http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 2 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 3 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação SUMÁRIO Fundamentos éticos do Serviço Social .......................... .............................................4 Os fundamentos ontológicos e sociais da ética ........................................................... 6 Moral e vida cotidiana ................................................................................................. 9 A ação ética e as objetivações genéricas ................................................................. 11 Ética profissional: determinações históricas e particularidades ................................. 13 A natureza da ética profissional ................................................................................ 13 Ética profissional e conjuntura: tendências e desafios .............................................. 16 DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL ............................................................... 20 DIREITOS SOCIAIS E FORMAÇÃO PROFISSIONAL ............................................. 22 Dilemas para o exercício profissional ........................................................................ 25 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 32 http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 4 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Fundamentos éticos do Serviço Social Há cerca de duas décadas ocorre com a ética um fenômeno inédito: sua discussão, em geral restrita ao campo filosófico, amplia‐se para diferentes áreas do saber, incidindo em amplos setores da vida social. Ao invadir o espaço da cotidianidade, ocupando‐se em geral de prescrições moralistas, apresenta‐se como alternativa social conservadora, incentivando o senso comum a preservar os seus preconceitos, o que tende a se renovar no contexto de violência estrutural da sociedade brasileira. Parte significativa das produções éticas contemporâneas se afasta, progressivamente, da crítica, da objetividade, da universalidade, isto é, dos referenciais éticos da modernidade e de autores clássicos como Aristóteles, Kant e Hegel. Ao favorecer a ideologia dominante e o irracionalismo, contribuem para obscurecer os nexos da realidade; ao naturalizar o presente, negam a possibilidade de intervenção do homem na história: fundamento de uma ética orientada pela práxis. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 5 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação A moralização da vida social, comportamento pautado em preconceitos, ganha legitimidade ao ser incorporada socialmente como estratégia de enfrentamento das expressões da “questão social”. Ao mesmo tempo, a constante presença de discursos e produções teóricas no campo da ética não significa – necessariamente – o debate entre diferentes teorias e projetos, nem tampouco a explicitação de seus fundamentos. Quando abstraídos de seu conteúdo histórico e de sua fundação teórica, os discursos se confundem. É o que ocorre quando diferentes sujeitos políticos falam em nome da “justiça” e “dos direitos humanos”, embora, em muitos casos, para justificar a sua violação. A reprodução abstrata das categorias éticas também propicia a sua idealização, transformando‐as em “entidades” com poder de “autoexplicação”. Ideologicamente, a burguesia é idealista “com a mesma naturalidade com que respira”, já dizia Simone de Beauvoir: “separado de todo o contato com a matéria, por causa de seu trabalho e pelo seu gênero de vida, protegido contra a necessidade, o burguês ignora as resistências do mundo real [...]. Tudo o estimula a desenvolver sistematicamente essa tendência em que se reflete, de imediato, a sua situação: fundamentalmente interessado em negar a luta de classes, ele não pode desmenti‐la senão recusando em bloco a realidade. Por isso, tende a substituí‐la por Idéias cuja compreensão e extensão delimita, arbitrariamente, segundo seus interesses (BEAUVOIR, 1972, p. 6)”. A sociabilidade burguesa funda sua ética no princípio liberal segundo o qual a liberdade de cada indivíduo é o limite para a liberdade do outro. Dadas as condições objetivas favorecedoras da reprodução do modo de vida mercantil, valorizador da posse material e subjetiva de objetos de consumo, cria‐se, na prática, uma ética individualista, orientada pela ideia de que o “outro” é um “estorvo” à liberdade, entendida como a incessante busca de vantagens e acúmulo de bens cuja duração é tão efêmera quanto às relações que lhes dão sustentação. O repetitivo discurso moralizante presente na mídia, em certos meios de comunicação de massa, ao incentivar direta ou indiretamente o ethos liberal burguês, a violência, a abstração, o moralismo e o conservadorismo, fortalece a descrença na política, em sua forma democrática, reforçando apelos à ordem, a medidas repressivas, a soluções morais para a crise social. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 6 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Torna‐se relevante a compreensão crítica dos fundamentos éticos da vida social e do Serviço Social: para que a importância da ética seja revelada e para o esclarecimento de seus limites na sociedade burguesa. Pois, se a superação dos antagonismos da sociedade burguesa supõe a ruptura da totalidade desta formação social, isso não significa negar a importância das ações éticas nessa direção. Embora limitada, a ética se faz cotidianamente através de atos morais singulares, mais ou menos conscientes e livres; pode se objetivar através de ações motivadas por valores e teleologias dirigidas à realização de direitos e conquistas coletivas; pode ser capaz de efetuar a crítica radical da moral do seu tempo, oferecendo elementos para a compreensão das possibilidades éticas e morais do futuro. Embora momentânea, pode se estabelecer como mediação entre a singularidade de indivíduo moral e a sua dimensão humano‐genérica, objetivandose como parte da práxis social. Os fundamentos ontológicos e sociais da ética É pela apropriação do processo de constituição histórica do ser social que uma ética fundada ontologicamente pode ser compreendida. Trata‐se aqui de apresentá‐ lo – ainda que sumariamente – tendo por base os pressupostos ontológicos fundamentais de Marx. Na gênese do ser social, estão dadas as bases de sua constituição ontológica: o ser social se humanizou em face da natureza orgânica e inorgânica, transformando‐a para atender necessidades de reprodução da sua existência e nesse processo passa a se constituir como ser específico, diferente de outros seres existentes. É o trabalho que instaura esse novo ser, na medida em que rompe com o padrão imediatodas atividades puramente naturais, estruturando uma atividade de caráter prático‐social: uma práxis que transforma a natureza e produzindo um resultado antes inexistente: um produto material que responde a necessidades sociais e as recria em condições históricas determinadas. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 7 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Como práxis, o trabalho é a base ontológica primária da vida social; mediação que efetiva objetiva e subjetivamente o intercâmbio entre os homens e a natureza, pondo em movimento um processo incessante de (re) criação de novas necessidades; ampliando os sentidos humanos, instaurando atributos e potencialidades especificamente humanas. Ao criar novas alternativas para o seu desenvolvimento, o ser social se afasta de suas “barreiras naturais”, amplia sua natureza social e consciente, estabelece a possibilidade de uma existência social aberta para o novo, para o diverso, para o amanhã, instaurando objetivações que permitem autoconstrução do ser social como um ser livre e universal. Sociabilidade é imanente à totalidade das suas objetivações: para transformar a natureza reproduzindo a sua existência através do trabalho, é necessário agir em cooperação, estabelecendo formas de comunicação, como a linguagem, os modos de intercâmbio e de reciprocidade social, que tornam possível o reconhecimento dos homens entre si, como seres de uma mesma espécie, que partilham uma mesma atividade e dependem uns dos outros para realizar determinadas finalidades. O agir consciente supõe a capacidade de transformar respostas em novas perguntas e as necessidades em novas formas de satisfação. Só o homem é capaz de agir teleologicamente, projetando a sua ação com base em escolhas de valor, de modo que o produto de sua ação possa materializar sua autoconsciência como sujeito da práxis. Ao desenvolver sua consciência, o homem evidencia o caráter decisório de sua natureza racional. Como diz Lukács, todas as atividades sociais e individuais exigem escolhas e decisões: “todo indivíduo singular, sempre que faz algo, deve decidir se o faz ou não. Todo ato social, portanto, surge de uma decisão entre alternativas acerca de posições teleológicas futuras” (LUKÁCS,1978, p. 6). As escolhas são baseadas em juízos de valor: os objetos e as ações são avaliados como úteis, inúteis, válidas ou não válidas, corretas ou incorretas. O fato de toda ação consciente conter uma posição de valor e um momento de decisão propicia o entendimento de que a gênese do valor e das alternativas seja dada somente pela avaliação subjetiva dos indivíduos. Valor e alternativas, no entanto, são http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 8 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação categorias objetivas, pois são objetivações do ser social, produtos concretos de sua atividade. Liberdade, valor, consciência e alternativas estão articulados. Com o desenvolvimento do trabalho e da sociabilidade, a escolha entre alternativas não se restringe à escolha entre duas possibilidades, mas entre o que possui e o que não possui valor e como esses valores podem ser praticamente objetivados (LUKÁCS, 1981). Vê‐se, pois, que estamos diante de um ser capaz de agir eticamente, quer dizer, dotado de capacidades que lhe conferem possibilidades de escolher racional e conscientemente entre alternativas de valor, de projetar teleologicamente tais escolhas, de agir de modo a objetivá‐las, buscando interferir na realidade social em termos valorativos, de acordo com princípios, valores e projetos éticos e políticos, em condições sócio‐históricas determinadas. Para o método de Marx “a ética é uma parte, um momento da práxis humana em seu conjunto” (LUKÁCS, 2007, p. 72). Como tal, a ética dirige‐se à transformação dos homens entre si, de seus valores, exigindo posicionamentos, escolhas, motivações que envolvem e mobilizam a consciência, as formas de sociabilidade, a capacidade teleológica dos indivíduos, objetivando a liberdade, a universalidade e a emancipação do gênero humano. Observa‐se que a práxis não se esgota no trabalho embora ele seja a sua forma primária: “quanto mais se desenvolve o ser social, mais as suas objetivações transcendem o espaço ligado diretamente ao trabalho” (NETTO; BRAZ; 2006). Portanto, é certo que façamos uma distinção entre as formas de práxis dirigidas à transformação da natureza (o trabalho) e aquelas voltadas à transformação das ideias, dos valores, do comportamento e da ação dos homens, onde se insere a ação ético‐ moral (Idem). Na sociedade capitalista, organizada a partir da propriedade privada dos meios de produção e das classes sociais, da divisão social do trabalho e da exploração do homem pelo homem, a objetivação histórica da ética é limitada e desigual, convivendo com sua negação, o que evidencia o fenômeno da alienação, que expressa o antagonismo entre o desenvolvimento do gênero humano – em termos do que a http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 9 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação humanidade produziu material e espiritualmente – e sua apropriação pela totalidade dos indivíduos. À totalidade das objetivações genéricas – materiais e espirituais – produzidas pela humanidade ao longo de seu desenvolvimento histórico, representando conquistas no sentido de ampliação da sociabilidade, da consciência, da liberdade e da universalidade do gênero, Marx (1971, I) denomina “riqueza humana”. No contexto da alienação, a riqueza humana não é apropriada pela totalidade dos indivíduos; na ordem capitalista, a coexistência entre a miséria e a pobreza (material e espiritual) é pressuposto fundamental para a (re)produção do sistema, donde o processo de coexistência contraditória, de tensão permanente e não linear, de afirmação e negação das capacidades éticas do ser social. Moral e vida cotidiana Ontologicamente considerada, a moral não pertence a nenhuma esfera particular: é uma mediação entre as relações sociais; uma mediação entre o indivíduo singular e sua dimensão humano‐genérica (HELLER, 2000). Sua origem atende a necessidades práticas de regulamentação do comportamento dos indivíduos, cumprindo uma função social no processo de reprodução das relações sociais: contribui para a formação dos costumes que se estruturam pelo hábito, orientando a conduta dos indivíduos, em termos de normas e deveres. A moral se desenvolve quando os homens já adquiriram um certo grau de consciência, no momento em que foi superada a sua condição natural e instintiva; quando o homem já vivia em comunidade, como membro de uma coletividade, tendo desenvolvido a fabricação de instrumentos de trabalho e conquistado um determinado nível de conhecimento e de domínio sobre a natureza (VAZQUEZ, 1984). A moral é histórica e mutável: são os homens que criam as normas e os valores, mas a autonomia dos indivíduos em face das escolhas morais é relativa às condições de cada contexto histórico. Mesmo nas sociedades onde ainda não existe o domínio de classe, a coesão em torno de um único código de valor não significa a inexistência de tensões. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 10 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação O ato moral supõe a adesão consciente e voluntária do indivíduo aos valores éticos e às normas morais, ou seja, implica a convicção íntima do sujeito em face dos valores e normas, pois se entende que só assim as mesmas serãointernalizadas como deveres. Dependendo da esfera e das condições sociais nas quais a moral se objetiva, surgem maiores ou menores possibilidades dela se realizar apenas no âmbito da singularidade voltada ao “eu” – âmbito da vida cotidiana – ou em ações que podem atingir a coletividade e a dimensão humanogenérica dos indivíduos. Todavia, cumpre distinguir consciência e subjetividade. Na vida cotidiana, a moral não tende a ser interiorizada de forma crítica. Na medida em que, nesse âmbito, os valores se reproduzem pelos costumes, pela repetição, tendem a se tornar hábitos, cuja adesão não significa, necessariamente, uma aceitação consciente. Na cotidianidade, as normas podem ser aceitas interiormente, defendidas socialmente sem que, no entanto, possamos afirmar que essa aceitação tenha ocorrido de maneira livre, pois esta supõe a existência de alternativas e seu conhecimento crítico. Logo, a consciência supõe a subjetividade, mas esta pode “legitimar” normas e valores sem, no entanto, ter conhecimento de outras alternativas e sem se responsabilizar por tais escolhas, isto é, sem assumir “por inteiro”, de modo consciente, as implicações dessa adesão. Na sociedade burguesa, a moral desempenha uma função ideológica: ainda que não diretamente, mas através de mediações complexas, reproduz os interesses de classe, contribuindo para o controle social, através da difusão de valores que visam a adequação dos indivíduos ao ethos dominante. O âmbito da vida social mais propenso à internalização dos costumes e valores formadores do ethos dominante é a vida cotidiana: onde os indivíduos se reproduzem enquanto seres singulares, espaço da ultrageneralização, do pragmatismo, do imediatismo da superficialidade e da heterogeneidade. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 11 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Na cotidianidade, a moral tende a se objetivar de modo alienado, reproduzindo julgamentos de valor baseados em juízos provisórios, respondendo às necessidades mais imediatas e superficiais da singularidade individual. Ao repetir comportamentos orientados por estereótipos e preconceitos, o indivíduo se empobrece moralmente, abrindo caminho para o moralismo e para a adesão acrítica ao ethos dominante. Conforme Heller (2000, p. 54), a maioria dos preconceitos são produzidos pelas classes dominantes, tendo em vista sua busca de coesão em torno de seus interesses. Isso é favorecido pelo conservadorismo, comodismo, e conformismo, e também pelos interesses imediatos, “que rebatem nas condições de vida dos indivíduos singulares, tornando‐os vulneráveis à mobilização contra os interesses de sua própria classe”. A ação ética e as objetivações genéricas A moral não responde apenas às necessidades da singularidade voltadas exclusivamente ao “eu”, ou a formas de ser reprodutoras da alienação. É possível que a motivação moral que envolve escolhas e decisões exigidas pelo ato moral seja intensa e se alargue de modo a se afastar momentaneamente da cotidianidade, permitindo que o indivíduo se eleve à sua dimensão humano‐genérica, como esclarece Heller: “quanto maior é a importância da moralidade, do compromisso pessoal, da individualidade e do risco (que vão sempre juntos) na decisão acerca de uma alternativa dada, tanto mais uma decisão eleva‐se acima da cotidianidade” (HELLER, 2000, p. 24). Porém, ao se afastar – ainda que por um tempo determinado – de sua singularidade e de suas motivações efêmeras, seja através de ações práticas ou de reflexões teóricas, o sujeito moral atinge um outro patamar de objetivações, que o elevam à sua dimensão particular e à sua condição de sujeito ético. Segundo Tertulian, é esse o entendimento de Lukács sobre a ética: http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 12 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação A ação ética é um processo de ‘generalização’, de mediação progressiva entre o primeiro impulso e as determinações externas; a moralidade torna‐se ação ética no momento em que nasce uma convergência entre o eu e a alteridade, entre a singularidade individual e a totalidade social. O campo da particularidade exprime justamente esta zona de mediações onde se inscreve a ação ética (TERTULIAN, 1999, p. 134). Fonte:www.de-seguranca.com.br/etica-e-moral-diferencas-e-semelhancas/ Portanto, quando o indivíduo, determinado por condições sociais que convergem na direção de sua intervenção na realidade, e motivado por valores emancipatórios, pode ter possibilidade de estabelecer mediações com a sua particularidade, ascendendo à condição de sujeito ético, revela‐se toda a importância da reflexão ética, capaz de realizar a crítica da vida cotidiana, em sua dimensão moral, ampliando as possibilidades de realização de escolhas conscientes, voltadas ao gênero humano, às suas conquistas emancipatórias, à desmistificação do preconceito, do individualismo e do egoísmo, propiciando a valorização e o exercício da liberdade e do compromisso com projetos coletivos. Mas, principalmente, fica claro que a ética não é apenas a ciência da moral, ou o seu conhecimento: apreendida como parte da práxis, a ética é trazida para o conjunto das práticas conscientes do ser social, dirigidas para a intervenção na realidade e na direção da conquista da liberdade e da universalidade, tendo como parâmetro a emancipação humana. Como já dissemos anteriormente, essa é a perspectiva de Lukács, quando afirma a ética como parte e momento “da práxis humana em seu conjunto” (LUKÁCS, 2007, p. 72). http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br http://www.de-seguranca.com.br/etica-e-moral-diferencas-e-semelhancas/ http://www.de-seguranca.com.br/etica-e-moral-diferencas-e-semelhancas/ ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 13 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação As categorias éticas são categorias de valor que se referem à particularidade da ação ética do indivíduo, fornecendo elementos para a sua valoração e/ou o seu julgamento de valor. Por exemplo, a responsabilidade do sujeito em relação à sua ação. Ou seja, a responsabilidade não é apenas um valor: é uma categoria ética, pois expressa uma relação social que decorre de uma ação e que se complexifica na medida em que estabelece conexões sociais com outros sujeitos e escolhas. Ética profissional: determinações históricas e particularidades A natureza da ética profissional A ética profissional é uma dimensão específica do Serviço Social, suas determinações são mediadas pelo conjunto de necessidades e possibilidades, de demandas e respostas que legitimam a profissão na divisão social do trabalho da sociedade capitalista, marcando a sua origem e a sua trajetória histórica. A ética profissional se objetiva como ação moral, através da prática profissional, como normatização de deveres e valores, através do código de Ética Profissional, como teorização ética, através das filosofias e teorias que fundamentam sua intervenção e reflexão e como ação ético•política. Cabe destacar que essas não são formas puras e/ou absolutas e que sua realização depende de uma série de http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 14 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação determinações, não se constituindo na mera reprodução da intenção dos seus sujeitos. A moral profissional diz respeito à relação entre a ação profissional do indivíduo singular (derivada de determinado comportamento prático objetivador de decisões, escolhas,juízos e ações de valor moral), os sujeitos nela envolvidos (usuários, colegas, etc.) e o produto concreto da intervenção profissional (avaliado em função de suas consequências éticas, da responsabilidade profissional, tendo por parâmetros valores e referenciais dados pela categoria profissional, como o Código de Ética, etc.). A moral é reveladora de uma dada consciência moral ou moralidade que se objetiva através das exigências do ato moral: escolha entre alternativas, julgamentos com base em valores, posicionamentos que signifiquem defesa, negação, valorização de direitos, necessidades e atividades que interfiram e/ou tragam consequências sociais, éticas e políticas para a vida de outros indivíduos. A moralidade é parte de uma educação moral anterior à formação profissional, que inclusive a influencia, pois pertence ao processo de socialização primária, onde tende a reproduzir tendências morais dominantes que se repõem cotidianamente através das relações sociais. O processo de socialização, através da participação cultural, política, religiosa, pode reforçar ou contrapor valores incorporados anteriormente, o mesmo ocorrendo com a inserção profissional. Assim, a adesão a um determinado projeto profissional – e as suas dimensões éticas e políticas – supõe decisões de valor inscritas na totalidade dos papeis e atividades que legitimam a relação entre o indivíduo e a sociedade. Nem sempre os papeis sociais e as atividades desempenhadas pelos indivíduos estão em concordância, formando um todo coerente. Quando não estão, instituem conflitos morais – que ocorrem quando os valores podem ser reavaliados, negados ou reafirmados. O que dá materialidade e organicidade à consciência ética dos profissionais é o pertencimento a um projeto profissional que possa responder aos seus ideais, projeções profissionais e societárias, enquanto profissionais, cidadãos e categoria organizada. Os profissionais participam eticamente de um projeto profissional quando assumem individual e coletivamente a sua construção, sentindo‐se responsáveis pela http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 15 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação sua existência, como parte integrante do mesmo. Historicamente, a ética profissional busca na filosofia e/ou em teorias sociais o suporte para fundamentar a sua reflexão e teorização éticas, necessárias à compreensão e sistematização da ética profissional, fornecendo a concepção de homem e a fundamentação para os valores, dando elementos para a intervenção profissional nas situações em que se colocam questões morais e éticas. A formação profissional, onde se adquire um dado conhecimento capaz de fundamentar as escolhas éticas, não é o único referencial profissional. Somam‐se a ela – ou a ela se contrapõem – as visões de mundo incorporadas socialmente pela educação formal e informal, pelos meios de comunicação, pelas religiões, pelo senso comum. É o conjunto de tais manifestações culturais e conhecimentos que forma os hábitos e costumes que a educação formal pode consolidar ou não. A sociedade burguesa tende a suprimir e/ou negligenciar as abordagens críticas, humanistas e universalistas, donde a desvalorização do conhecimento filosófico, o apelo ao conhecimento instrumental, ao utilitarismo ético, ao relativismo cultural e político. A reflexão filosófica, base de fundamentação da ética profissional, incorpora referenciais que nem sempre permitem um conhecimento crítico, o que coloca contradições entre a dinâmica social e sua apreensão profissional. A ética também se objetiva através de um Código de Ética: conjunto de valores e princípios, normas morais, direitos, deveres e sanções, orientador do comportamento individual dos profissionais, dirigido à regulamentação de suas relações éticas com a instituição de trabalho, com outros profissionais, com os usuários e com as entidades da categoria profissional. Nenhuma profissão pode garantir a legitimação de sua ética a partir de seu código, o que seria afirmar uma concepção ética legalista e formal. Trata‐se de uma questão de consciência ética e política cuja ampliação requer estratégias da categoria profissional, no sentido de mobilização, de incentivo à participação, à capacitação, de ampliação do debate e de acesso à informação. Na sociedade capitalista, a ação política se objetiva como luta pela hegemonia realizada no espaço público, entre projetos vinculados a interesses de classe, em um contexto estrutural onde as relações sociais, em geral, e as políticas, em especial, são determinadas predominantemente pelo comando do capital. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 16 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Com isso, a política, que já é um campo onde os critérios de decisão são dados hegemonicamente pelos interesses, e não por valores éticos, tende a reproduzir uma lógica que atualiza uma ética específica, resultado da relação entre as exigências éticas das ações e as necessidades materiais reproduzidas socialmente. Porém, a consciência política de seus limites na ordem burguesa não deve levar à sua negação enquanto estratégia de construção de uma contra hegemonia e de prática social consciente articulada a projetos de superação da ordem capitalista. Como produto histórico da sociedade burguesa, no contexto da coexistência entre o maior desenvolvimento das forças essenciais do ser social e de sua negação, a materialização da ética ocorre na relação entre limites e possibilidades que não dependem apenas da intenção de seus agentes. Nesse sentido, a ética profissional não é isenta dos processos de alienação, mas isso é absoluto. Pode, favorecida por condições sociais e diante de motivações coletivas, ser direcionada a uma intervenção consciente realizadora de direitos, necessidades e valores que respondam às necessidades dos usuários. Intervenção que se articula, em termos de projeto social, a uma práxis política motivada pela ultrapassagem dos limites à plena expansão da liberdade. Ética profissional e conjuntura: tendências e desafios Historicamente, desde a sua origem, o Serviço Social se configura como uma profissão fortemente influenciada pelo conservadorismo moral e político. No Brasil, os Códigos de Ética profissionais bem exemplificam este dado: entre 1947 (data do primeiro Código) e 1986 (quando é rompida a concepção tradicional), passaram‐se trinta e oito anos de vigência de Códigos pautados na perspectiva ética tradicional conservadora. A negação histórica dessa herança coloca‐se como finalidade do projeto profissional, que se caracteriza pela busca de ruptura com o conservadorismo em suas várias dimensões e configurações: o projeto de “intenção de ruptura” (NETTO, 1992), hoje denominado projeto ético‐político. Sua construção é um processo inscrito no conjunto de determinações sócio‐históricas que – propiciando a renovação do Serviço Social brasileiro, nos marcos da autocracia burguesa – viabiliza os suportes http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 17 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação históricos para a erosão do Serviço Social tradicional, tornando possível a existência de um pluralismo profissional, entre outros aspectos (NETTO, idem, p. 131‐137). Na década de oitenta, a construção do projeto profissional foi fortalecida pelas lutas democráticas e pela reorganização política dos trabalhadores e dos movimentos sociais organizados. Favorecendo a participação cívica e política dos profissionais, ampliando sua consciência, esse contexto também propicia o confrontoteórico e ideológico entre tendências e a luta pela hegemonia entre diferentes projetos societários e profissionais. Os anos oitenta, sinalizam a maturidade teórica e política do projeto profissional evidenciada na organização político‐sindical da categoria, na produção teórica, em sua capacidade crítica de interlocução com outras áreas do conhecimento, em seu desenvolvimento na área da pesquisa, em sua incorporação “de vertentes críticas com destaque para as inspiradas na tradição marxista” (NETTO, 1999, p. 102). Nesse processo, se construiu um novo ethos, marcado pelo posicionamento de negação do conservadorismo e de afirmação da liberdade. Valores e princípios foram se reafirmando na vida cotidiana através da participação cívica e política, do trabalho, da vivência e enfrentamento de novas necessidades, escolhas e posicionamentos de valor, da recusa de papeis tradicionais, da incorporação de novos referenciais ético‐ morais, entre outros aspectos. É assim que o compromisso com as classes trabalhadoras desponta como valor ético•político central, orientando o posicionamento dos setores organizados da categoria, no III Congresso Brasileiro de Assistentes Sociais, marco ético e político apropriado no processo de reformulação do Código de Ética, em 1986: o primeiro a romper com o histórico conservadorismo dos códigos de ética brasileiros. O Código de 1986 não foi suficientemente desenvolvido em sua parte operacional e em seus pressupostos teóricos, orientados pelo marxismo. Com o objetivo de ampliá‐los, foi feita a reformulação de 1993, em um contexto muito diverso daquele que em 1980 favoreceu a construção do projeto de ruptura profissional. O Código de 1993 afirma a centralidade do trabalho na constituição do homem: sujeito das ações éticas e da criação dos valores. Revelada em sua densidade histórica, a sua concepção ética está articulada a valores ético‐políticos, como a http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 18 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação liberdade, a justiça social e a democracia, e ao conjunto de direitos humanos (civis, políticos, sociais, culturais e econômicos) defendidos pelas classes trabalhadoras, pelos segmentos sociais excluídos e pelos movimentos emancipatórios ao longo da história. A partir da década de noventa, as consequências socioeconômicas e ideopolíticas das profundas transformações operadas pelo capitalismo mundial no mundo do trabalho e nas instituições burguesas, tendo por finalidade a sua reestruturação nos moldes neoliberais, descortinam um cenário perverso, em termos dos direitos humanos e das possibilidades de objetivação ética. Trata‐se de um contexto de perda de direitos historicamente conquistados e de um processo de desumanização, no qual as condições para assegurar a manutenção da vida humana não estão sendo garantidas para grande parte da humanidade, em vários aspectos, materiais e subjetivos. O desemprego, a pobreza, a desregulamentação do trabalho e da proteção social, o aprofundamento da exclusão e da exploração, a violência, a degradação ambiental, a dependência político‐ econômica de centenas de países pobres em face da dívida externa, entre outros, evidenciam o abismo entre o desenvolvimento do gênero humano e a pobreza da maioria da humanidade. Em face desse cenário, a profissão vive, na entrada do novo século, um momento de resistência política. As precárias condições de existência social da população usuária se revelam cotidianamente nas instituições, exigindo respostas dos profissionais que, em grande medida, não dispõem de condições objetivas para viabilizá‐las. Além disso, o agravamento da “questão social” também rebate em sua vida de trabalhadores assalariados – que enfrentam em níveis diversos – os mesmos problemas da população usuária. Portanto, sob o ponto de vista da ética profissional, esse contexto motiva ações de resistência, politicamente direcionadas ao enfrentamento dos limites postos à viabilização dos direitos e dos valores que orientam a ação profissional, o que implica diferentes estratégias e espaços de objetivação. A crítica às novas configurações do conservadorismo, isto é, à ideologia neoliberal conservadora, base de sustentação do imaginário social da atualidade, se apresenta, neste momento, como um grande desafio posto ao Serviço Social. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 19 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Fundado na privatização do público e na afirmação do mercado como única instituição autorreguladora, o totalitarismo neoliberal (OLIVEIRA, 1999) promove o individualismo, a negação da política e da ética, nos termos aqui tratados. Produto histórico das reformas e transformações do capitalismo, o neoliberalismo justifica ideologicamente o presente, ou seja, a fragmentação, a dispersão, a insegurança, o efêmero (CHAUÍ, 1999), negando todos os valores afirmados pela sociedade moderna e pelas forças progressistas: a universalidade dos valores, a racionalidade do homem, a liberdade como capacidade sócio‐histórica de transformar a realidade. Nesse contexto adverso ao neoconservadorismo, são dadas as condições ideológicas para a reprodução de valores pautados na defesa de relações autoritárias e de instituições adequadas à sua reprodução, com destaque para a família tradicional, para as instituições religiosas, policiais, e seus representantes nas figuras das autoridades constituídas. O Serviço Social, por várias razões, é uma das profissões vulneráveis à incorporação e/ou ao enfrentamento de relações conservadoras. Por exemplo, por sua histórica vinculação ao conservadorismo moral, pode estar vulnerável à sua reatualização; por sua inserção em campos institucionais propícios ao estabelecimento de relações hierarquizadas, tais como as prisões, o sistema judiciário, etc., pode enfrentar ou assimilar tais relações. O seu enfrentamento requer uma análise crítica da realidade, donde a importância de um referencial teórico‐metodológico que efetivamente forneça o suporte para o desvelamento do real, de sua essência histórica. Esse conhecimento implica em uma reflexão constante, isto é, em uma capacitação continuada: outro desafio a ser buscado no enfrentamento do neoconservadorismo, do pensamento pós‐moderno, com seu irracionalismo, seus preconceitos, suas formas morais. Para se realizar como atividade teórica universalizante, é preciso que a ética apreenda criticamente os fundamentos dos conflitos morais e desvele o sentido e as determinações de suas formas alienadas; a relação entre a singularidade e a universalidade dos atos ético‐morais, respondendo aos conflitos sociais, resgatando os valores genéricos e ampliando a capacidade de escolha consciente dos indivíduos; sobretudo, que possibilite a indagação radical sobre as possibilidades de realização da liberdade, seu principal fundamento. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 20 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação Vê‐se que a responsabilidade ética profissional, em suas várias formas de expressão, exige a participação ativa dos sujeitos coletivos, que – em graus variados, com diversas medidas e possibilidades de engajamento – são os protagonistas de escolhas e posicionamentos de valor. Assim, o nível de exigência dessas escolhas e as mediações que elas encerram variam qualitativamente, de acordo com determinações historicamente condicionadas. Nesse sentido, os valores contidos no Código de Ética Profissional são orientadores das opções, escolhas, dos posicionamentos e julgamentos de valorrealizados cotidianamente. Todavia, para que se materializem, é preciso que ganhem efetividade na transformação da realidade, na prática social concreta, seja ela na direção de um atendimento realizado, de uma necessidade respondida, de um direito adquirido. Na relação com os usuários, nos limites da sociedade burguesa, a ética profissional se objetiva através de ações conscientes e críticas, do alargamento do espaço profissional, quando ele é politizado – o que implica no compartilhamento coletivo com outros profissionais e no respaldo das entidades e dos movimentos sociais organizados. Isso torna possível uma ação ético‐política articulada ao projeto coletivo, adquirindo maiores possibilidades de respaldo nos momentos de enfretamento e de resistência. DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL Os direitos sociais podem ser definidos como aqueles fundamentados na igualdade social, econômica e cultural entre os cidadãos, visando à estabilidade social com melhor qualidade de vida e igualdade social entre classes, de modo que cada um http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 21 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação tenha direito à saúde, educação, moradia, lazer, assistência social etc., ocorrendo à efetivação dos mesmos por meio de instituições prestadoras desses serviços. De acordo com Telles (1999), a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos, da Organização das Nações Unidas – ONU, de 1948, reconhece que tais direitos, associados aos direitos civis e políticos, têm status de direitos humanos, na medida em que a vida com plena dignidade não pode ser dissociada do usufruto deste conjunto de direitos, o que nos remete à definição clássica de cidadania, apresentada por Thomas Marshall (1967). Marshall (1967) entende a cidadania como a conjugação de três elementos básicos, os quais ele chama de elemento civil, elemento político e elemento social. Podemos dirigir-nos a estes elementos como direitos, onde o direito civil é referente à liberdade individual como o direito de ir e vir, da propriedade privada, da justiça, dentre outros. Já o direito político denota a participação política e ativa do cidadão, como eleitor dos seus representantes ou responsável e/ou participante de instituições políticas. Por fim, os direitos sociais, colocados em evidência, referem-se a um direito mínimo de bem-estar abrangendo também o “(...) econômico e segurança ao direito de participar, por completo, na herança social e levar a vida de um ser civilizado de acordo com os padrões que prevalecem na sociedade” (MARSHALL, 1967, p. 63-64). Portanto, os direitos sociais devem possibilitar o suprimento das carências sociais, viabilizando as necessidades básicas a fim de promover uma vivência saudável da população. A vigência desses direitos remete-nos ao início da formação de uma sociedade justa e igualitária, em que todos os cidadãos têm acesso a um conjunto de direitos. Aliás, é válido ressaltar que o Serviço Social, enquanto profissão inscrita na divisão sócio técnica do trabalho, se faz socialmente necessário na medida em que medeia a relação capital e trabalho e se compromete com a defesa intransigente dos direitos humanos. Dentre os princípios fundamentais que norteiam a profissão de assistente social, podemos mencionar a “ampliação e consolidação da cidadania, considerada tarefa primordial de toda sociedade, com vistas à garantia dos direitos civis sociais e políticos das classes trabalhadoras” (CFESS, 1993). http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 22 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação O Serviço Social possui uma grande responsabilidade para a emancipação das classes sociais, tendo em vista o disposto em seu código de ética. Esse trabalho inclui o atendimento direto aos usuários nas instituições, o posicionamento sociopolítico em favor do direito e da justiça, bem como o apoio e participação dos movimentos sociais e organizações populares, buscando a democracia e direitos de cidadania. Nos diferentes espaços sócio-ocupacionais, o assistente social lida com direitos e trabalha planejando, executando e avaliando políticas sociais, as quais são uma forma de materialização desses direitos. Por isso, a atuação profissional se faz extremamente necessária para que os usuários conheçam e tenham acesso aos bens e serviços sociais. As orientações, encaminhamentos, contatos internos e externos, são meios de viabilização desse acesso. A atuação comprometida e propositiva deste profissional tende a contribuir para a “qualidade do espaço público, para o controle social e, em última instância, para a construção de uma nova ordem social” (VASCONCELOS, 2001, p. 244). O assistente social atua como um grande articulador, ao passo em que seu conhecimento da gama de direitos sociais, das instituições e dos caminhos necessários faz com que o usuário usufrua da herança social, como postula Marshall (1967). DIREITOS SOCIAIS E FORMAÇÃO PROFISSIONAL http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 23 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação A simbiose entre Serviço Social e direitos sociais é patente, na medida em que a profissão ganha legitimidade na sociedade ao viabilizar direitos, por meio de planos, programas e projetos sociais. Conforme as Diretrizes Curriculares para o Curso de Serviço Social (ABEPSS, 2002), “a formação profissional deverá desenvolver a capacidade de orientar a população na identificação de recursos para atendimento e defesa de seus direitos”. Dessa forma, o conhecimento dos direitos sociais para o assistente social é imprescindível, tendo em vista que se faz um dos instrumentos de trabalho mais importantes, pois, a partir desse conhecimento, o profissional irá interagir com o usuário, viabilizando as políticas sociais necessárias à satisfação de suas necessidades. O futuro profissional deve estar disposto a reconhecer a importância das políticas sociais, apresentadas por Pastorini (2011, p. 71) como “ações que orientam o esforço social para a obtenção de um aumento nos níveis e qualidade de vida da população, contribuindo, dessa forma, para a diminuição das desigualdades sociais”. Para conhecer e atuar neste campo, o acadêmico precisa receber uma formação profissional que o instrumentalize para tanto. É nesse espírito que a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (1996) propõe a formação alicerçada em três núcleos. De acordo com Iamamoto (2006), os núcleos temáticos são indissociáveis, complementam-se e relacionam-se, fornecendo conhecimentos e habilidades necessários para uma formação de qualidade dos assistentes sociais. O primeiro núcleo é o de Fundamentos Teórico-Metodológicos da Vida Social, e aponta que o Assistente Social precisa dominar um conjunto de fundamentos teórico metodológicos e ético-políticos para compreender o ser social e a vida em sociedade, analisando o desenvolvimento da vida social na sociedade burguesa. O conhecimento sobre a formação e o desenvolvimento da sociedade burguesa permite que o profissional em construção compreenda toda a conjuntura, para que seja possível o entendimento de como se originou a realidade atual da sociedade, sua dinamicidade na sociedade como um todo, a fim de que seja possível a visualização de possibilidades de intervenção coerentes ao contexto social, http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 24 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação objetivandoque a compreensão de que os direitos sociais não são uma dádiva, mas fruto de um processo histórico marcado por lutas sociais. Podendo também ser aqui acrescentado que as abordagens ontológicas e teleológicas sobre o mundo do trabalho, a partir dos conceitos de Marx, permitem o contraste entre o que deve ser o trabalho e como ele tem sido retratado na realidade em que nos encontramos, dando espaço para maiores análises sobre o mundo do trabalho e os direitos sociais, entre várias outros questionamentos que são possibilitados por este núcleo. O segundo núcleo é o de Fundamentos da Formação Sócio-Histórica da sociedade brasileira e se refere ao conhecimento da formação e desenvolvimento da área econômica, social, política e cultural da sociedade brasileira, a relação entre Estado e sociedade, o tratamento das políticas públicas, o desenvolvimento do processo capitalista, a análise da questão social e suas origens, entre outros. Transitar pela história brasileira, a construção de seu sistema de proteção social, possibilita a compreensão sobre os avanços e retrocessos existentes no trato da questão social no Brasil. As políticas sociais nem sempre são marcadas pela lógica do direito, permeadas por distorções: assistencialismo, clientelismo e paternalismo. Entender como os direitos se consolidaram e quais os aparatos legais de cada direito, permite que o assistente social, além de conhecer e compreender as particularidades da realidade social brasileira e seu desenvolvimento influenciado pelos ideais capitalistas e neoliberais, seja capaz de planejar intervenções e ter a perspectiva crítica aguçada para as situações subjetivas que surgem não só no espaço sócio- ocupacional, mas na realidade brasileira em geral. O terceiro núcleo é o de Fundamentos do Trabalho Profissional e é composto pela abordagem da trajetória histórica, teórica, metodológica e profissional do Serviço Social, a abordagem da ética da profissão, etc., para que situe e capacite o profissional em formação. As abordagens oriundas deste núcleo permitem o entendimento de como o serviço social se inseriu na divisão sóciotécnica do trabalho, com quais propósitos, e como ele foi se reatualizando com objetivo de atender as demandas que iam surgindo. Aborda também a consolidação do projeto ético-político, as transformações do código de ética profissional que define os direitos e deveres do assistente social, e põe em http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 25 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação relevo a relação entre teoria e prática, reconhecendo que formação e trabalho profissional estão irmanados. Os meios potencializadores da formação são o estágio em serviço social, a construção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre direitos e/ou políticas, os projetos de intervenção voltados para o fortalecimento dos direitos, a discussão sobre as estratégias de atuação, e o acesso à pesquisa e à extensão, assim como em outras áreas de formação, que permitem ao discente a ampliação das discussões sobre os temas referentes ao serviço social. Então, é impossível pensar a formação profissional sem direitos sociais, visto que a viabilização dos direitos é o principal objetivo da profissão, utilizando, para isto, toda a reflexão teórica que é proporcionada, o planejamento e gestão de planos, programas e projetos, os direcionamentos do projeto ético-político, ou seja, os direitos permeiam toda a práxis do Serviço Social. Dilemas para o exercício profissional A ética, entendida como um “modo de ser do ser socialmente determinado”, tem sua origem na autoconstrução deste que se desenvolve como um ser consciente, universal e livre, capaz de reproduzir-se sem que esteja atrelado apenas às necessidades físicas. Essa proposição, em Marx, refere-se às capacidades desenvolvidas pelo trabalho, em que o gênero humano ao transformar a natureza, produz e se reproduz enquanto tal. Dessa forma, o homem carece de uma necessidade natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre si e a natureza para manter a vida humana (Marx, 1980, apud, Barroco, 2008, p 21). Ao criar novas alternativas, o homem vai em busca de novas respostas para suas interrogações. Com essa busca incessante, ele se recria, renova-se e suas relações sociais se complexificam e criam novas possibilidades, a ponto da generalidade humana exigir meios mais sofisticados para supressão de novos carecimentos. O homem conseguiu ultrapassar as barreiras da natureza meramente física e se transpôs para uma existência social e aberta às novas possibilidades. Portanto, ao romper com as necessidades meramente objetivas, ele se autoconstrói enquanto ser genérico (Barroco, 2009). http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 26 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação A autora destaca, ainda, que a sociabilidade é mediação imanente da objetivação humana, uma vez que é por meio da cooperação que o indivíduo reproduz sua existência genérico-humana. Com isso, entende-se que a essência do gênero humano está intercambiada pela reciprocidade, pelo reconhecimento dos homens entre si como seres de uma mesma espécie, dependentes uns dos outros, partilhando da mesma atividade para se alcançar determinados objetivos (Barroco, 2009). Barroco diz ainda que: “A interação entre o indivíduo e a sociedade se faz de modo tal que a consciência do ‘eu’ e a do ‘nós’ não se constituem em antíteses; isto porque as motivações do ‘eu’ são sociais; sempre se referem a um grupo, a um quadro de valores socialmente legitimados...” (Barroco, 2008, p 38). A liberdade como um princípio ético permite ao homem escolher entre as possibilidades de valor ético ou não, ou seja, o homem é capaz de agir eticamente, podendo anteriormente, refletir sobre suas ações, com a consciência de que suas escolhas podem ou não estar baseadas em fundamentos éticos. Tais escolhas são direcionadas para finalidades eleitas pelo próprio homem, que para alcançá-las, objetivar-se-á na realidade social, de acordo com seus princípios, valores e motivações que envolvem a consciência, as formas de sociabilidade e as suas capacidades teleológicas (objetivos). É importante destacar também que “a gênese das escolhas e alternativas de valor são indissociáveis da práxis, por isso são categorias objetivas e históricas” (Barroco, 2008, p 30). Sendo assim, entende-se que a ética é uma categoria histórica e social, que em relação às formas diferenciadas de cultura e princípios valorativos de épocas e grupos sociais diferentes, efetiva-se segundo o conjunto de valores e princípios éticos diferenciados. A práxis, como categoria da sociabilidade humana, também se configura enquanto elemento produzido histórico e socialmente. A ação ético-política do gênero humano constitui-se de determinações que estão fora do âmbito intencional subjetivo, mas esta é motivada pela moralidade objetiva, constituída com bases valorativas distintas. No caso da sociedade capitalista, têm-se como fundamentos éticos a acumulação de capital e expropriação de mão-de-obra. Em tal lógica, não há espaço para se desenvolver uma práxis que objetive a emancipação do indivíduo enquanto ser social, uma vez que é necessária uma sociabilidade que leve em consideração a promoção desse indivíduo enquanto ser genérico. Logo é impensável, http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 27 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação na sociedade capitalista, em que as relações sociais estão alicerçadas na acumulação da riqueza, na exploração da força de trabalho e nareificação da mercadoria, que haja condições favoráveis para tal emancipação. A ação humana deve estar pautada por princípios éticos e morais que busquem emancipar o gênero humano, logo, a liberdade, a universalidade e a dignidade do homem devem iluminar as reflexões, os projetos e a própria práxis humana. Essa deve configurar-se não só pelo aspecto objetivo de transformação da natureza por meio do trabalho, mas também pelos aspectos valorativos do comportamento singular e social do gênero humano (Barroco, 2009). A ética permite compreender a singularidade do indivíduo e sua dimensão social. Sendo assim, o campo dos projetos coletivos, nos quais se vinculam as ações e práticas dos atores sociais, correspondem às finalidades de grupos sociopolíticos diferenciados. Pode-se afirmar, então, que as práticas e atividades do gênero humano correspondem a interesses diversos e conflituosos, e por isso elas possuem um caráter político, uma vez que para atender a esses interesses, reproduzem-se enquanto processo transformador ou de alienação do gênero humano (Teixeira, 2009). Se as necessidades humanas são desenvolvidas ao longo do desenvolvimento sócio-histórico do homem, a constituição desse mundo prático material-ideal permite visualizar como o desenvolvimento do ser social transcende a esfera das objetivações materiais, a qual se autonomiza para as esferas do valor, da ética, da arte, da ciência e etc. “Desta forma, temos diversas formas de prática: prática política, prática artística, prática produtiva e as diversas formas de prática profissional” (Teixeira, 2009, p 3). Esta se materializa com a instituição de um projeto profissional que se concretiza no exercício da profissão, os ideais e os princípios éticos da categoria, além disso, a “materialidade e organicidade” da consciência ética dos profissionais não se objetiva apenas no plano legal. O Código de Ética Profissional direciona o exercício do profissional, dirige as relações deste no espaço sócio-ocupacional e orienta sua postura, logo trata-se de uma questão de consciência ético-política motivada pela categoria profissional, no sentido de mobilizar a participação, a capacitação e a ampliação do debate acerca da postura profissional, segundo os princípios éticos e políticos da profissão (Teixeira, 2009). http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 28 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação A objetivação do ser social opera-se nas relações materiais, num processo mais abrangente de reprodução da vida em sociedade, em que relações mais ou menos complexas são produzidas e reproduzidas para supressão de necessidades sociais concretas. Assim, dá-se a incessante dinâmica histórico-social de um projeto profissional, cujos produtos resultantes de uma práxis que ao se objetivarem, materialmente e espiritualmente, consigam desenvolver sujeitos individuais e coletivos. Nesse caso, o projeto ético-político profissional intervém nessa dinâmica para corresponder a interesses coletivos diversos, ou seja, ele afirma-se pelos valores, diretrizes profissionais que expressam as dimensões coletivas e interesses de segmentos distintos (Teixeira, 2009). Numa sociedade hierarquizada, ele carrega em sua dimensão política, as contradições de uma sociedade marcada por relações antagônicas entre classes distintas. Nesse sentido, a prática profissional, definida na divisão sociotécnica do trabalho é determinada por uma direção sociopolítica que baliza as ações sócio profissionais em favor de um projeto societário mais amplo, qual seja a transformação ou a perpetuação de uma dada ordem social (Teixeira, 2009). O projeto ético-político do Serviço Social brasileiro está balizado por uma concepção societária mais ampla, que se pauta pela transformação social, pela garantia dos direitos sociais e pela emancipação do indivíduo. No entanto, ele sofre influências dos movimentos contraditórios que se operam na sociedade e suas ações favorecem a um ou a outro projeto. Isso significa que as ações e intervenções profissionais nos espaços sócio-ocupacionais são determinadas por valores específicos de reconhecimento da liberdade como valor ético central, quais sejam: o compromisso com a autonomia, a emancipação e a plena expansão dos indivíduos enquanto seres humanos genéricos. Em outros termos, o nosso projeto ético-político se propõe à construção de uma nova ordem social, sem dominação e sem exploração de uma classe sobre a outra (Teixeira, 2009). Mas, também, ele é marcado constantemente pelos desafios do cotidiano que aliena o exercício profissional, desvia a atenção para questões corriqueiras e para viabilização de projetos contrários àquilo que defendemos. Nesta perspectiva, Amaral destaca que “a alienação produzida na vida cotidiana atinge os/as assistentes sociais nos seus processos de trabalho”. Sendo http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 29 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação assim, é importante pensar o processo de alienação no espaço sócio-ocupacional; as rotinas institucionais são profundamente alienantes, muitas vezes acabam por esgotar a disposição política do profissional que precisa do vínculo empregatício e sofre, cotidianamente, o controle institucional acerca dos prazos e metas de produção, o que reflete inevitavelmente em sua capacidade teleológica (reflexão do Fórum da Unidade II, em 28/06/2009). Frente a essas reflexões, Teixeira (2009), afirma que o projeto ético-político não se efetiva integralmente na sociedade, ou seja, não há uma relação entre o que planejamos e o que executamos efetivamente, isso se dá principalmente porque as incidências objetivas desse projeto não dependem exclusivamente de nossas ações, mas da relação com um projeto societário mais amplo, cujas expectativas deverão ser correspondidas via práticas socioprofissionais. Além do mais, devem-se levar em consideração as transformações das condicionantes da esfera social, dos elementos que a constitui, dos interesses e dos movimentos que movem toda a sua dinâmica. Todavia, cabe ao assistente social dar ao projeto profissional um caráter transformador e não de mantenedor da ordem burguesa. Planejar e desenvolver esse projeto exige desse profissional atuar e intervir eticamente para que o usuário possa trazer até ao atendimento seus anseios e problemas, na certeza do seu compromisso ético. No âmbito do atendimento, explicitar ao usuário os valores ético-políticos da nossa profissão é o primeiro passo para efetivação e eficácia deste projeto profissional; como explicitar isso é outro passo a ser desenvolvido através de metodologias. A construção desse projeto na luta de classes exige comunicação, mobilização e esforços coletivos dos atores sociais (Assistente Social, Usuário)” (reflexão de Davylane Valéria da Silva no Fórum da Unidade II, em 03/07/2009). Todos esses aspectos determinam a profissão e sua dimensão prática e política. Por isso, o profissional, ao transitar num ambiente frágil e marcado por tensões, deve firmar a democracia e a liberdade como pressupostos definidores dos rumos da atuação profissional. Escolher caminhos, construir estratégias político- profissionais demarcadas por compromissos claros e princípios coerentes com o projeto ético-político, para não cair no assistencialismo, filantropismo e no fatalismo, mas que essas escolhas profissionais possam colidir com a estrutura social http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 30 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação estabelecida pela lógica capitalista no cotidiano detrabalho, em meio ao imediatismo e à alienação, e assim mesmo diante dessas adversidades, sustentar a possibilidade de que um novo projeto social e mais justo é possível. Afinal, como diz Barroco: “Na relação com os usuários, nos limites da sociedade burguesa, a ética profissional se objetiva através de ações conscientes e críticas, do alargamento do espaço profissional, quando ele é politizado - o que implica no compartilhamento coletivo com outros profissionais e no respaldo das entidades e dos movimentos sociais organizados. Isso torna possível uma ação ético-política articulada ao projeto coletivo, adquirindo maiores possibilidades de respaldo nos momentos de enfrentamento e de resistência” (p. 21). Tivemos, a partir da década de 1990, mudanças sociais na esfera produtiva, cuja lógica mercantil vem suplantando o papel do Estado na condução das políticas sociais e na regulação do mercado. Este se torna a força viva que determina as novas formas de relação de trabalho, em favor da hegemonia do capital, atentando contra o trabalhador (Koike, 2009). O mercado passa a exigir um trabalhador multiprofissional que pense e viva, segundo a nova lógica a qual transfere para esse trabalhador a responsabilidade pela sua manutenção no mercado de trabalho. Portanto, são estabelecidos critérios preferenciais de aferição da empregabilidade e do desempenho profissional que devem ser adquiridos individualmente como autoinvestimento e aferidos por mecanismos de controle de qualidade como os exames de proficiência (Koike, 2009, p 4). Essa nova dinâmica referencia também a reforma educacional, com a lógica de que o mercado democratiza o acesso ao ensino de qualidade em todos os níveis, assegurando dessa forma a inserção social. Para o assistente social, a concepção de que o mercado vem requerer do profissional, capacidades para realizar práticas meramente tecnicistas, desvaloriza a busca pelo rigor científico, trivializa a teoria, fixando-se o aprender no mero praticismo, sem fundamentação teórico-metodológica, ético-política e crítico-reflexiva. A identidade profissional submete-se às características meramente funcionais ao capital: o pragmatismo; a polivalência; a competitividade; o empreendedorismo; a adaptabilidade e ao individualismo, reforçando assim, a prática predatória da força de trabalho. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 31 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação O contexto, em que se proliferam os cursos com finalidades mercantis, tem incentivado as universidades de ensino superior a adequarem seus currículos, para simplificar e acelerar o processo formativo. Em decorrência disso, as dimensões que potencializam a formação de nível superior, como interlocução com a teoria social crítica, as práticas investigativas, a pesquisa e a supervisão de estágio ficam comprometidas. Sem uma formação crítica e qualificada, o profissional vai reproduzir modelos conservadores, despolitizados das relações sociais e incidentes no exercício profissional também despolitizado, o que naturaliza e reforça os processos contraditórios da sociedade, como destaca Koike (2009) ao mencionar as dissimulações do discurso ideológico que obscurecem mais do que revelam essas contradições. A discussão da ética no âmbito do serviço social, levando-se em consideração os seus aspectos ontológicos, políticos e sociais, nos leva a acreditar que este debate é essencial para pensar e materializar o projeto profissional dos assistentes sociais, bem como os desafios impostos, que muitas vezes dificultam sua execução. Portanto, o projeto ético-político do Serviço Social constitui-se no pilar fundamental da categoria profissional, uma vez que ele preserva os princípios emancipatórios do gênero humano, carrega a luta histórica dos movimentos sociais, os quais deram condições sociopolíticas que permitiram o profissional de Serviço Social estruturar um projeto profissional crítico que buscou romper com suas matrizes conservadoras. O marco legal da profissão e as diretrizes curriculares são baluartes desse projeto e constituem-se na essência da profissão, bem como nossos órgãos representativos (ABEPSS, CFESS/CRESS e ENESSO) que têm o compromisso com o rigor acadêmico e teórico, balizados nos princípios éticos e políticos e nos fundamentos teóricos e metodológicos como expressão do avanço profissional, frente a uma conjuntura desfavorável e adversa. http://www.famart.edu.br/ mailto:atendimento@famart.edu.br ÉTICA, DIREITOS SOCIAIS E SERVIÇO SOCIAL 32 www.famart.edu.br | atendimento@famart.edu.br | +55 (37) 3241-2864 | Grupo Famart de Educação REFERÊNCIAS ABRAMIDES, Maria Beatriz; CABRAL, Maria do Socorro. O novo sindicalismo e o Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1995. BARROCO, Maria Lucia S. Ética e Serviço Social: fundamentos ontológicos. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2006. . Ética e Sociedade (Curso de capacitação ética para agentes multiplicadores). 2. ed. Brasília: Conselho Federal d Serveiço Social, 2007. . 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