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Orientação observada unid_1

Material didático EaD sobre Observação Orientada para Serviço Social. Contém unidades sobre observação como produção de conhecimento, instrumentalidade do serviço social, cotidiano (inclui referência à teoria marxista), estágio e planejamento de ações para instituições e comunidades.

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Prévia do material em texto

Autora: Profa. Daniela Emilena Santiago
Colaboradoras: Profa. Amarilis Tudela Nanias
Profa. Maria Francisca S. Vignoli
Observação Orientada
Professora conteudista: Daniela Emilena Santiago
Assistente social graduada pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialista em Violência Doméstica 
contra Crianças e Adolescentes pela Universidade de São Paulo (USP) e mestre em Psicologia pela Universidade Estadual 
Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), campus de Assis - SP. Atualmente, é funcionária pública do município de 
Quatá/SP, atuando como assistente social junto à Secretaria Municipal de Promoção Social. Exerce também a função 
de docente no curso de Serviço Social da Universidade Paulista (UNIP), campus de Assis - SP.
Partindo de sua vinculação à UNIP, como docente do curso de Serviço Social no campus de Assis-SP, emergiu a 
oportunidade de seu atrelamento também ao curso de graduação em Serviço Social na modalidade SEI, prestada pela 
UNIP Interativa, o que lhe proporcionou a oportunidade de ministrar aulas da disciplina de Política Social de Habitação 
nessa modalidade. Além disso, também ministrou, na modalidade SEPI, aulas da disciplina Política Social de Saúde no 
curso de pós-graduação de Gestão em Políticas Sociais, oferecido pela UNIP. O vínculo com essa universidade também 
lhe possibilitou elaborar o presente material.
© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou 
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem 
permissão escrita da Universidade Paulista.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
S235o Santiago, Daniela Emilena 
Observação orientada / Daniela Emilena Santiago. – São Paulo: 
Editora Sol, 2012.
 
104 p., il.
1. Observação orientada. 2. Planejamento das ações. 3. Serviço 
social. I. Título.
CDU 616
Prof. Dr. João Carlos Di Genio
Reitor
Prof. Fábio Romeu de Carvalho
Vice-Reitor de Planejamento, Administração e Finanças
Profa. Melânia Dalla Torre
Vice-Reitora de Unidades Universitárias
Prof. Dr. Yugo Okida
Vice-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa
Profa. Dra. Marília Ancona-Lopez
Vice-Reitora de Graduação
Unip Interativa – EaD
Profa. Elisabete Brihy 
Prof. Marcelo Souza
Profa. Melissa Larrabure
 Material Didático – EaD
 Comissão editorial: 
 Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
 Dr. Cid Santos Gesteira (UFBA)
 Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
 Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
 Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
 Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)
 Apoio:
 Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
 Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos
 Projeto gráfico:
 Prof. Alexandre Ponzetto
 Revisão:
 Geraldo Teixeira Jr.
 Juliana Maria Mendes
 Amanda Casale
Sumário
Observação Orientada
APRESENTAçãO ......................................................................................................................................................7
INTRODUçãO ...........................................................................................................................................................8
Unidade I
1 A OBSERVAçãO COMO POSSIBILIDADE DE PRODUçãO DO CONHECIMENTO
NAS CIêNCIAS SOCIAIS E NO SERVIçO SOCIAL .......................................................................................11
2 A INSTRUMENTALIDADE DO SERVIçO SOCIAL .................................................................................... 22
2.1 O desenvolvimento histórico-social de instrumentos e técnicas do Serviço Social ...........22
2.2 A instrumentalidade em debate no momento atual ............................................................. 27
3 A OBSERVAçãO EM SERVIçO SOCIAL ..................................................................................................... 39
4 O COTIDIANO: ESPAçO PRIVILEGIADO PARA A CONSTRUçãO DO CONHECIMENTO .......... 42
4.1 O cotidiano: algumas concepções provenientes da Teoria Marxista .............................. 44
4.2 O cotidiano e o Serviço Social ........................................................................................................ 47
Unidade II
5 ESTáGIO: MODALIDADES E SUA IMPORTâNCIA PARA A FORMAçãO PROFISSIONAL ........ 55
5.1 Estágio: legislação da Abepss e orientações da UNIP ........................................................... 56
5.2 Estágio: considerações sobre a importância para a formação profissional ................. 62
6 PLANEJAMENTO DAS AçõES: OBSERVANDO A INSTITUIçãO ....................................................... 67
6.1 Orientações para aproximar-se da instituição ......................................................................... 67
6.2 Exemplo de aproximação de uma instituição ...........................................................................71
Unidade III
7 PLANEJAMENTO DAS AçõES: A OBSERVAçãO DA COMUNIDADE ............................................. 80
7.1 Aspectos a adotar para a observação da comunidade ......................................................... 80
7.2 Observação da comunidade: um exemplo ................................................................................. 82
8 PLANEJAMENTO DAS AçõES: A ELABORAçãO DO PROJETO ......................................................... 87
8.1 Os passos necessários ao projeto de integração ..................................................................... 88
8.2 O projeto de integração: exemplo ................................................................................................. 90
7
APrESEntAçãO
A disciplina Observação Orientada foi constituída visando a atender ao disposto no Projeto 
Pedagógico do curso de Serviço Social, o qual é, como sabemos, um documento que destaca todos os 
conteúdos que devem ser trabalhados, tendo em vista uma formação de qualidade a ser prestada pela 
instituição de ensino aos futuros assistentes sociais.
Tal disciplina torna-se, como as demais, extremamente relevante, visto que proporciona aos alunos 
a oportunidade de estabelecer os primeiros contatos com espaços de atuação profissional de assistentes 
sociais já inseridos no mercado de trabalho, mediante uma observação orientada por parâmetros, 
que serão aqui elencados, da prática profissional desenvolvida. Essa experiência é de fundamental 
importância, por possibilitar a você, aluno, estabelecer uma relação entre a teoria até então apreendida 
e a experiência prática, por meio da observação, constituída com base na realidade experimentada pelos 
profissionais já atuantes.
Essa aproximação da realidade laboral proporcionará a você o conhecimento de informações de 
relevância, conforme já mencionado, dentre as quais podemos destacar a experiência prática dos 
assistentes sociais em diversas áreas e campos de atuação, bem como a organização e a dinâmica das 
instituições públicas e privadas, tendo em vista a sua intervenção nos segmentos empobrecidos de 
nossa sociedade e o caráter indispensável dos instrumentais técnico-operativos do assistente social, 
como ferramentas importantes de intervenção, dentre outros aspectos afins. De tal maneira, sua 
perspectiva sobre a prática do assistente social irá se alterar significativamente, podendo até mesmo 
auxiliar em sua escolha de futuros espaços de atuação, dada a amplitude de práticas possíveis a essa 
profissão em diversas áreas.
Constitui objetivo geral da presente disciplina proporcionar a você, aluno, a reflexão sobre a 
prática profissional observada e a compreensão da importância da formação técnico-científica para a 
atuação profissional. Esse objetivo será atingido por meio da leitura e da interpretação de textos; da 
pesquisa bibliográfica; e do desenvolvimento de intervenções que visem à expressão do pensamento 
de forma clara, coerente e concisa,de modo que seja possível ampliar a compreensão geral sobre a 
profissão, para instrumentalizá-lo sobre as diferentes abordagens encontradas nos diversos campos 
de atuação profissional.
Para tanto, você deverá escolher uma instituição para realizar a observação prática. Essa instituição 
pode ser de natureza pública ou privada, sendo necessário apenas que possua, em seu quadro de 
funcionários, um assistente social devidamente registrado no Conselho Regional de Serviço Social 
(Cress).
Partindo dessa constatação, você deverá aproximar-se da instituição e destacar para os envolvidos 
a necessidade de realizar tal atividade. Havendo anuência da instituição, você irá realizar uma 
caracterização desta e da comunidade em que foi constituída. Em seguida, deverá elaborar um projeto 
interventivo e que busque ampliar as relações estabelecidas entre a instituição e a comunidade em que 
ela se encontra.
8
Para isso, instrumentalizaremos você por meio do presente material e ainda por outros mecanismos 
que a instituição oferece. Também serão disponibilizadas orientações posteriores em relação à entrega 
do documento com as informações obtidas.
Por meio desta disciplina, você entrará em contato com a prática profissional, podendo ter acesso 
a várias informações sobre esse assunto. Também será viabilizado o conhecimento sobre a instituição 
onde a prática é desenvolvida e sobre a comunidade com a qual se relaciona. Por fim, será possível fazer 
observações e elaborar um projeto, que é, como sabemos, um instrumento muito utilizado pelo Serviço 
Social.
Na sequência, discorreremos sobre o conteúdo em questão, e você deverá apropriar-se do 
conhecimento disponibilizado.
IntrODUçãO
Tendo em vista os objetivos desta disciplina, conforme elencamos no início deste livro-texto, 
discorreremos, na sequência, sobre diversos conteúdos, com a finalidade de instrumentalizar você, aluno 
de graduação em Serviço Social, no que diz respeito à observação orientada.
Na primeira Unidade, falaremos sobre a observação como meio de produção do conhecimento, 
utilizado em pesquisas científicas, inclusive nas do Serviço Social, para que, na sequência, possamos 
discorrer acerca da observação como uma técnica de pesquisa também usual na produção científica 
dessa área. Poderemos, assim, conhecer a importância que a observação possui na produção do 
conhecimento científico.
Em seguida, ainda na Unidade I, trataremos da observação como uma modalidade de intervenção 
do Serviço Social e uma possibilidade tanto de formação para alunos quanto de educação continuada 
para profissionais atuantes. Para isso, realizaremos uma discussão sobre a questão instrumental da área, 
fazendo uma retrospectiva histórica sobre o desenvolvimento desta no Brasil, ou seja, sobre os métodos 
que foram se desenvolvendo historicamente no decurso de nossa profissão e que orientam nossa 
intervenção profissional. Trataremos também de aspectos contemporâneos afetos à instrumentalidade 
e que precisam ser problematizados. Concluiremos esse conteúdo com o debate sobre a importância do 
cotidiano para o desempenho das atividades profissionais, dentre as quais a observação.
Na segunda Unidade, continuando nossos estudos, realizaremos uma reflexão sobre as possibilidades 
identificadas para que a observação seja colocada em prática no nosso cotidiano. Para a seguinte 
apreensão, discorreremos sobre a importância do estágio para a formação do graduando em Serviço 
Social, posto que essa intervenção deve ser compreendida como a primeira possibilidade que é a você 
oferecida institucionalmente e que com certeza irá se constituir como respaldo a futuros estágios 
que desenvolverá no decurso de sua formação. Note que, nessa primeira aproximação, você já poderá 
realizar suas primeiras observações. Com tal finalidade e para que você já possa se ambientar ao estágio, 
também destacaremos a legislação que regulamenta sua realização em Serviço Social, definida pela 
Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (Abepss), bem como a legislação que orienta 
a realização de estágio junto à UNIP.
9
Entretanto, como você estará realizando um estágio de observação, ofereceremos as informações que 
forem necessárias para orientá-lo a desenvolver a observação e, partindo disso, a elaborar a caracterização 
da entidade e da comunidade, para que isso culmine na elaboração do projeto de intervenção, visando 
a integrar serviço e comunidade. É necessário, no entanto, destacar que, no momento, dada a fase 
vivenciada em sua formação, você não poderá desenvolver estágio de intervenção, pelos motivos que 
também iremos ressaltar e descrever.
Posteriormente a esse conteúdo, na Unidade III, discutiremos sobre o planejamento das ações a 
serem desenvolvidas na comunidade, destacando inclusive um modelo do projeto de integração. 
Nessa unidade, pretendemos destacar exemplos de intervenção profissional que só são possíveis em 
decorrência de observação previamente realizada. Esta é uma técnica que deve ser apreendida desde o 
período de estágio e deve sempre orientar a nossa intervenção.
Este material foi elaborado com recorrência à leitura de diversos textos científicos provenientes de 
livros e artigos produzidos no âmbito do Serviço Social e das Ciências Sociais. Foi realizada também 
recorrência a trabalhos com orientação da Teoria Marxista, com uma compreensão crítica sobre o tema 
aqui tratado.
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ObservaçãO Orientada
Unidade I
A ObSErvAçãO cOmO POSSIbIlIDADE DE PrODUZIr cOnhEcImEntO E 
EnqUAntO técnIcA DE IntErvEnçãO E fOrmAçãO DO SErvIçO SOcIAl
Partindo das colocações arroladas no item introdutório deste livro-texto, buscaremos agora nos 
aprofundar no conhecimento sobre a importância da observação, enquanto possibilidade de produção 
do conhecimento nas pesquisas qualitativas como um todo e nas pesquisas de tal natureza produzidas 
no âmbito do Serviço Social.
Após tais aproximações, orientaremos a nossa compreensão para a importância da observação como 
uma técnica de intervenção do Serviço Social contemporâneo.
1 A ObSErvAçãO cOmO POSSIbIlIDADE DE PrODUçãO DO cOnhEcImEntO 
nAS cIêncIAS SOcIAIS E nO SErvIçO SOcIAl
Iniciamos assim nossas discussões sobre a observação como uma técnica de produção de 
conhecimento científico. Para tal compreensão, será necessário realizar uma recorrência a algumas 
informações sobre o desenvolvimento da pesquisa qualitativa enquanto modalidade de produção do 
conhecimento e da observação nesse contexto.
 Observação
A produção de conhecimento precisa ser compreendida como acessível 
às pessoas, e não como restrita aos meios acadêmicos.
A produção do conhecimento científico não é algo inacessível. Muitas vezes, é percebida como 
situada além das possibilidades do ser humano “comum” e, portanto, restrita a cientistas e, de preferência, 
desenvolvida em grandes laboratórios, ou então estritamente vinculada a universidades ou centros de 
formação.
No entanto, essa percepção acerca da produção do conhecimento precisa ser revista, e essa nova 
forma de compreensão demanda entender o desenvolvimento das formas de pesquisa que foram 
encontradas pelo ser humano ao longo da história da humanidade. Apenas após tal entendimento 
poderemos introduzir a pesquisa em nosso cotidiano e buscar romper com essa forma de compreender 
tais intervenções.
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Unidade i
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 Observação
O objetivo desta disciplina não é aprofundar a discussão sobre a 
compreensão das modalidades de pesquisa científica.
Como não é objetivo desta disciplina discorrer com profundidade sobre as modalidades depesquisa 
científica, tentaremos enfatizar a pesquisa qualitativa,1 por ser nesta que mais fazemos recorrência 
à observação, e também pelo fato de compreendermos que essa modalidade de pesquisa é a mais 
frequentemente adotada pelo Serviço Social, conforme elencaremos na sequência.
Chizzotti (2003) coloca que a pesquisa científica apresentou determinado percurso histórico em 
seu desenvolvimento e que, por meio deste, tornou-se possível compreender a importância que a 
observação passa a assumir na produção de conhecimento. Para o autor, a evolução da pesquisa nos 
leva a compreender o grande desenvolvimento e a ampliação que a pesquisa qualitativa assume a partir 
do século XX.
Sabemos, de acordo com Chizzotti (2003), que a pesquisa qualitativa pode ser definida como uma 
modalidade de produção do conhecimento cuja base não está restrita apenas a números e aspectos 
exatos, que possam ser comprovados. Nesses termos, de acordo com o autor, a produção de conhecimento 
também está relacionada à elaboração de conceitos que, muitas vezes, não podem ser mensurados.
 lembrete
A produção de conhecimento científico se efetiva também por meio 
das práticas profissionais.
Essa é, portanto uma modalidade de produção do conhecimento que se apoiará em outros aspectos, 
além dos quantitativos, para produzir conhecimento; ou, conforme refere Minayo (1994):
A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se 
preocupa, nas Ciências Sociais, com um nível de realidade que não pode ser 
quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo dos significados, motivos, 
aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais 
profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser 
reduzidos à operacionalização de variáveis (MINAYO, 1994, p. 21-2).
Ainda segundo Minayo (1994), tal pesquisa só se constitui por trabalhar aspectos que estão 
relacionados à realidade que afeta os seres humanos em seu viver cotidiano.
1 A pesquisa quantitativa, grosso modo, respalda-se na utilização de dados e informações que podem ser 
quantificados, como a própria nomenclatura sugere. A pesquisa qualitativa possui outras características, sobre as quais 
discorreremos no decurso deste livro-texto.
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ObservaçãO Orientada
 lembrete
A pesquisa qualitativa precisa estar relacionada a aspectos afetos à 
realidade dos seres humanos.
Segundo Chizzotti (2003), essa tendência de pesquisa só se evidencia a partir do século XX, mas tem 
suas raízes históricas a partir de finais do século XIX. Nesse período, segundo o autor, surgiram, na pesquisa 
científica, experiências com foco em estudos da sociedade europeia, da vivência dos seres humanos, Nessa 
época, era usual realizar pesquisas sobre as precárias condições de vida de uma parcela da sociedade da 
Europa, sendo enfatizados, no período, estudos sobre a pobreza. Essas pesquisas eram realizadas por meio 
da observação de determinados segmentos e pelo registro de todas as impressões obtidas.
Chizzotti (2003) ainda coloca que a partir da primeira metade do século XX, essas pesquisas 
começam a receber a influência da Antropologia, da História, da Sociologia e da Educação, recorrendo à 
investigação da vida de alguns agrupamentos no espaço local. Destacam-se para esse tipo de pesquisa 
os estudos etnográficos, que podem ser compreendidos como pautados por um método interpretativo 
da realidade, com base em narrativas. Destacam-se, nesse período, de acordo com o autor, os trabalhos 
produzidos por Malinowski (1976), que realizou uma pesquisa de campo em Nova Guiné e nas Ilhas 
Trobiand, na Melanésia: na ocasião, o pesquisador chegou a conviver com os sujeitos da pesquisa. 
Nessas pesquisas, também era realizada a observação dos sujeitos, sobretudo daqueles pertencentes aos 
segmentos “marginalizados” da sociedade daquele período.
Essa tendência, nos termos de Chizzotti (2003), foi se tornando cada vez mais evidente no campo das 
pesquisas. Depois da Segunda Guerra Mundial, sobretudo até meados da década de 1970, a observação 
de determinados segmentos enquanto técnica de produção de conhecimento tornou-se mais usual. 
Nesse período, além das correntes teóricas de influência, surgiram também a Fenomenologia, a 
Hermenêutica e o marxismo.2 Na sequência, segundo o referido autor, a partir das décadas de 1970 e 
1980, vivenciamos na Europa uma ampliação significativa dos investimentos em pesquisa, colaborando 
assim para a criação de novas técnicas e para um consequente aumento do número de métodos 
destinados ao entendimento da realidade local como expressão condensada do todo. São priorizadas 
técnicas de pesquisa que possibilitem o contato com a realidade.
 Observação
As correntes teóricas são importantes influenciadoras na definição da 
modalidade de pesquisa a ser adotada.
2 Fenomenologia é uma corrente teórica que defende a apreensão do real com base na análise de fenômenos isolados e de 
como esses fatos aparecem à consciência humana, tendo, dentre diversos expoentes, o filósofo Edmund Husserl. A Hermenêutica é uma 
corrente da Filosofia que preconiza a produção do conhecimento com base na análise de textos escritos e de outros signos, possuindo 
como principal teórico o filósofo Heidegger. Por fim, o marxismo é uma corrente teórica que explica os fenômenos sociais relacionando-
os às formas como a sociedade organiza sua produção e seu consumo; tem como principais expoentes Marx e Engels (SODRÉ, 2004). 
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Segundo Chizzotti (2003), tal tendência em pesquisa se faz presente até hoje. A partir da década de 
1990, observou-se que, além dos aspectos tratados, o pesquisador começa a adquirir importância no 
processo de produção do conhecimento. Nesse sentido, o autor destaca que o pesquisador passa a ser 
percebido com um sujeito autônomo, mas que traz para o processo de pesquisa e coleta de dados suas 
impressões e seus conceitos. Anteriormente, era visto como um sujeito que estava além da pesquisa, 
visto que não exercia interferências nesta nem a influenciava. Era o mito da neutralidade do pesquisador 
que, com o tempo, acabou rompido.
A observação de fatos e o registro das informações obtidas ganha destaque no que diz respeito 
à pesquisa científica, à produção de conhecimento científico de modo geral. Seguindo esse percurso, 
é possível concluir que essa técnica também passa a ser utilizada com vistas a uma possibilidade de 
intervenção, sendo essa uma tendência atual tanto na pesquisa científica quanto na intervenção prática 
de algumas profissões, sobretudo no que diz respeito à profissão de assistente social.
Dentre as possibilidades metodológicas a serem utilizadas, no que concerne à pesquisa qualitativa, 
podemos citar os estudos de caso.
É necessário, no entanto, pontuar que o estudo quantitativo, antes hegemônico na produção 
de conhecimento, não cai em descrédito. Os dados que podem ser por ele obtidos, relacionados 
especificamente à quantificação de determinados aspectos, não deixam de ser importantes. O que ganha 
relevância é a análise, que passa a ser realizada a partir das informações conseguidas. Alguns estudos 
acabam mesmo recomendando a utilização combinada dessas duas possibilidades metodológicas.
Para ilustrar essa colocação,vamos fazer a leitura da matéria a seguir:
Para Ipea, redução da desigualdade é frágil
Figura 1
A redução da pobreza e da desigualdade no Brasil ainda se assenta sobre bases 
frágeis, pois foi puxada pela oferta de empregos de baixa remuneração no setor 
de serviços e comércio, aponta estudo divulgado ontem pelo Instituto de PesquisaEconômica Aplicada (Ipea). Segundo o levantamento do órgão federal, dos 2,1 milhões 
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ObservaçãO Orientada
de novos postos de trabalho criados por ano na década de 2000, 95% pagavam até 1,5 
salário mínimo (R$ 817,50). Enquanto isso, a cada ano foram eliminadas 397 mil vagas 
com salário de três mínimos ou mais.
O fenômeno está ligado à mudança na estrutura da produção, afirma o presidente do 
Ipea, Marcio Pochmann. “Não é mais a indústria que comanda, são os setores de serviços”.
Na década, esses setores geraram 2,3 empregos para cada vaga na indústria – a relação 
era de 1,3 nos anos 1970. Serviços e comércio respondem agora por 57,6% da ocupação, 
contra 42,6% nos anos 1980. A proporção da indústria e da construção civil (24%) não 
mudou.
“A sustentação dos êxitos recentes não depende só da qualificação da mão de obra. Para 
o longo prazo, é preciso ampliar a oferta de empregos que sejam de maior remuneração”, 
diz Márcio Pochmann.
O estudo destaca que, em boa parte devido a aumentos reais do mínimo, o crescimento 
do emprego concentrado na base salarial contribuiu para reduzir a fatia de pobres na 
população ativa, de 37,2% em 1995 para 7,2% em 2009.
Na classificação do instituto, a maior parte do contingente de novos assalariados foi 
engrossar o “nível inferior” da população ativa: “Não é mais pobre, mas tampouco de classe 
média”. Enquanto isso, a parcela que o Ipea classifica como de “nível médio” (combinando 
renda a fatores como escolaridade, consumo e moradia) se manteve em 32,2%.
Os que vivem de “rendas da propriedade” (lucro, juros, terras e aluguéis) passaram de 
3,9% para 14,3%. O Ipea vê uma “polarização” entre as “duas pontas” com maior crescimento 
relativo na pirâmide social: “os trabalhadores na base e os detentores de renda derivada da 
propriedade”. Hoje, só 16,4% dos brasileiros empregados ganham três mínimos ou mais, 
contra 28,7% em 2000 e 25,9% em 1990.
Estagnação
Para Pochmann, a estagnação do “nível médio” explica parte da redução no grau 
de desigualdade da distribuição da renda do trabalho, que foi de 10,4% entre 2004 e 
2010 – índice inédito desde os anos 1960 (DIáRIO DO NORDESTE, 2011).
Exemplo de aplicação
Podemos observar que a matéria faz uma série de referências a dados. Por exemplo, destaca, logo 
no início, que partindo de uma pesquisa realizada pelo Ipea, foi constatada uma diminuição nos postos 
de trabalho, apresentando o dado de que foram eliminadas 397 mil vagas de emprego. Na sequência, o 
presidente do Ipea justifica que a queda do número de empregos decorreu da queda de oferta no setor 
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de serviços. Como consequência, podemos concluir que há uma desigualdade na distribuição de renda 
do trabalho.
Reflita sobre as seguintes questões:
• Como sobrevive o contingente populacional que ocupava as 397 mil vagas de trabalho e que foi 
colocado junto ao exército industrial de reserva?
• É possível produzir um conhecimento qualitativo com base em dados quantitativos?
Assistentes sociais devem analisar os dados com base no conhecimento que possuem da realidade, 
observando as informações que podem estar escondidas por trás deles.
No entanto, antes de traçarmos informações sobre os procedimentos a serem adotados pelos 
assistentes sociais para a realização da pesquisa, precisamos voltar nossa compreensão para o 
desenvolvimento das primeiras investigações em Serviço Social.
Para compreender o desenvolvimento sócio-histórico da pesquisa em Serviço Social devemos nos 
reportar à década de 1940, quando, no Brasil, grande parte das escolas destinadas à formação de 
assistentes sociais já estava constituída. Nesse estágio de desenvolvimento da profissão, foi realizada 
recorrência à teoria proveniente das Ciências Sociais, com o objetivo de fundamentar a intervenção 
profissional (ALMEIDA, 1990).
Essa orientação teórica, no entanto, influenciou a produção dos primeiros trabalhos de conclusão 
do período, e esse cenário só veio a ser alterar a partir da década de 1970, com o Movimento de 
Reconceituação. As décadas de 1970 e 1980 destacam-se pelo surgimento de projetos de pesquisa 
em diferentes níveis, como a graduação e a pós-graduação, mas com o objetivo de aproximar-se do 
marxismo. Almeida (1990) destaca como exemplo dessa modalidade de pesquisa o desenvolvimento 
de pesquisas estruturalistas, com foco na realidade econômica, e pesquisas ideopolíticas, em que se 
buscava discutir e ampliar os conteúdos ideológicos trazidos pelo marxismo à profissão.
Surgem nessa época, segundo Almeida (1990), as pesquisas pautadas pela metodologia chamada 
“pesquisa-ação” ou “pesquisa participante”. Tal metodologia tinha como enfoque a apreensão da realidade 
vivenciada por segmentos empobrecidos da nossa população, com base na observação metódica de tal 
realidade e na interação do pesquisador com o objeto da pesquisa.
Notamos um amadurecimento dessas possibilidades de construção do conhecimento a partir de 
1980-1990 no Brasil. Essa possibilidade veio a surgir a partir do Movimento de Reconceituação, 
que emergiu no país a partir da década de 1970, mas que ganhou força somente a partir da década 
de 1980, englobando toda a categoria profissional. A reflexão sobre a prática, sobre a questão 
metodológica, resultou na compreensão da existência de diversas correntes que vinham, até esse 
momento, embasando a ação e a reflexão desses profissionais, resultando, entretanto, em uma 
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adesão ao marxismo como corrente teórica de fundamentação da prática dos assistentes sociais 
(BOURGUIGNON, 2007).
A compreensão da realidade social e econômica partindo de um viés marxista faz os profissionais 
desse período iniciarem uma nova forma de compreensão das expressões da questão social, 
condicionando, assim, nos termos de Bourguignon (2007), o compromisso ético-político de toda a 
categoria.
Igualmente ganham maior visibilidade as diversas formas de expressão 
da questão social, havendo um grande esforço teórico-crítico, no 
sentido de apreendê-las no movimento contraditório da sociedade, 
possibilitando maior consistência à prática profissional no enfrentamento 
destas expressões. No movimento das transformações societárias, e de 
forma inerente no movimento de repensar a profissão, há um processo 
de construção e afirmação de um projeto ético-político comprometido 
com a cidadania e renovador da direção social da formação profissional 
(BOURGUIGNON, 2007, p. 48).
Devemos atentar também para o fato de que a realidade política do país no período favorece o 
surgimento de críticas à realidade econômica, à social e a outras afins, tendo em vista a queda do 
regime ditatorial e os processos de abertura política que começam a ser constituídos. Isso favoreceu 
muito a aceitação das teorias marxistas por um grande estrato da população brasileira mais vinculado 
a movimentos de esquerda.
Também nesse período, segundo Bourguignon (2007), surge a compreensão da necessidade de 
conhecimentos científicos para fortalecer a formação no que concerne a proporcionar competência 
técnica. Segundo essa argumentação, o profissional capacitado é aquele que possui um respaldo teórico 
que o qualificará em uma dimensão técnico-operativa, ou seja, somente será capaz de desenvolver 
uma prática de qualidade aquele profissional que possuir subsídios teóricos. Essa tendência que surge 
naquele período histórico torna-se relevante à formação de futuros assistentessociais e também de 
profissionais já atuantes.
Contemporaneamente, podemos dizer que os subsídios teóricos são dados a partir da produção de 
conhecimento, que deve ser extraído do cotidiano dos profissionais, de sua prática. Assim, o Serviço 
Social precisa ser compreendido como uma profissão essencialmente interventiva e investigativa, que 
possui tanto condições de intervir quanto possibilidades de produzir o conhecimento com base na 
intervenção empreendida via investigação (BOURGUIGNON, 2007).
Teixeira (2006) chama a atenção para o fato de que essa visão investigativa pressupõe também a 
necessidade de a prática ser sistematizada, registrada pelos profissionais. Entretanto, o autor destaca 
que essa sistematização ainda não é algo comum entre os assistentes sociais, dificultando assim as 
formulações teóricas sobre a prática; por isso, a própria elaboração de pesquisas torna-se extremamente 
difícil.
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Moraes, Juncá e Santos (2010), no entanto, chamam a atenção para a necessidade de compreendermos 
a pesquisa e a produção do conhecimento como algo que está ao alcance dos profissionais atuantes. 
Nesse sentido, a produção do conhecimento científico não deve ser compreendida como restrita aos 
ambientes acadêmicos. Segundo esses autores, as pesquisas empreendidas em nosso cotidiano profissional 
devem ser usadas como uma possibilidade de produção do conhecimento, devendo ser tais modalidades 
adotadas pelos assistentes sociais constantemente e fazer parte da rotina profissional. Teixeira (2006), 
partilhando dessa concepção, ainda destaca que é necessário ao assistente social introduzir mecanismos 
que permitam o registro do seu cotidiano diariamente, como algo inerente à prática profissional.
A própria prática, tanto para Moraes, Juncá e Santos (2010) quanto para Bourguignon (2007), traz as 
informações de que necessitamos para produzir conhecimento.
Retomando nosso cotidiano profissional, vemos facilmente como 
colecionamos dados sobre os nossos chamados usuários: sexo, faixa etária, 
profissão, composição familiar, condições habitacionais, escolaridade... 
Dados que classificam, rotulam e correm o risco de ficar isolados em 
cadastros, arquivos ou relatórios. Se é certo que tais dados permitem uma 
primeira identificação dos usuários, propiciando ou não sua inclusão nos 
programas sociais e/ou ações institucionais existentes, é certo também que 
não basta juntar informações sem problematizar suas causas e possíveis 
significados, bem como sem analisar alternativas de ação (MORAES, JUNCá 
e SANTOS, 2010, p. 438).
Entretanto, essas informações precisam ser pinçadas da realidade, sendo também necessário 
conferir-lhes um tratamento, uma análise ou uma problematização, conforme o texto citado 
anteriormente. Caso contrário, não possuirão sentido nem conseguirão motivar ações buscando 
melhorar a vida de nossa população. Fraga (2010) ainda atenta para o fato de que pesquisas só farão 
sentido se, posteriormente à coleta de dados, for realizada uma problematização, uma reflexão sobre 
o que foi observado, constatado.
De tal forma, o conhecimento produzido deverá resultar em melhorias na qualidade de vida 
das populações atendidas pelo Serviço Social, e não apenas servir à formação teórica dos futuros 
profissionais. Bourguignon (2007, p. 52) chama atenção para o fato de que o conhecimento produzido, 
quando orientado pelo compromisso ético-político assumido pelo profissional, deve provocar mudanças 
nas “condições de vida do cidadão”, de nossa população, nosso público-alvo.
Orientado pelo compromisso ético-político, o conhecimento construído 
pelos profissionais precisa ganhar força social e romper com os muros da 
academia e do próprio Serviço Social, para ser capaz de, através de uma 
prática crítica e propositiva, interferir nas condições de vida do cidadão. 
A preocupação com o retorno e o alcance social de nossas produções 
refere-se a uma intenção de fazer o caminho de volta, isto é, retornar à 
realidade que sustentou a produção de conhecimento e mobilizar ações que 
transformem esta realidade, seus sujeitos e a própria profissão, alargando 
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seus horizontes e potencializando seus objetivos, suas competências e 
habilidades profissionais (BOURGUIGNON, 2007, p. 52).
Dizendo de outro modo, conforme colocam Moraes, Juncá e Santos (2010, p. 436), a pesquisa, o 
resultado produzido por essa intervenção, deve ser uma “ferramenta para interferência direta num 
mundo social”, pois de nada adiantará o conhecimento produzido se este não causar resultados na 
realidade concreta. No caso de nossa categoria, podemos acrescentar que de nada adiantará a produção 
do conhecimento se não resultar em mudanças significativas na vivência de nosso público-alvo.
Vejamos o exemplo a seguir:
Tráfico de drogas: um problema de família, diz assistente social
Desagregação familiar versus impotência do Estado. A questão das drogas não se traduz 
apenas em um problema de polícia. Os números são assustadores quando se fala das prisões 
por tráfico. Segundo dados da Polícia Militar de São Paulo, de 2006 a 2010, o número de 
presos por tráfico aumentou 118% e chegou a 86,6 mil. No mesmo período, a população 
carcerária cresceu 37% e passou para 496,2 mil em todo o Estado.
Para a professora de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luciana 
Boiteux, o aumento tem duas razões: a pena mínima por tráfico subiu de três para cinco 
anos e usuários vêm sendo punidos como traficantes, o que infla os presídios. A realidade 
por trás do tema é que existe um número cada vez maior de pessoas envolvidas com drogas. 
Em contrapartida, acompanhamento e cuidado, em especial o familiar, não seguem esse 
passo.
Segundo a assistente social Maria Grizante, que realiza trabalho com moradores de 
rua e travestis, o problema está na estrutura social familiar, ou na ruptura das relações 
familiares. “A família é o principal (e primeiro) grupo a que o indivíduo pertence e aprende 
de si no contexto mais abrangente, o que determinará o seu sim ou não às drogas e a 
todas as ‘belezas e maravilhas’ que elas sedutoramente apresentam, mas na verdade, não 
são. A família tem papel fundamental na formação do jovem, assim como valores que são 
aprendidos na prática diária do espelho. O aprendizado do que se vê, e não do que se teoriza 
[...]. Questão de referencial não só na adolescência, mas para uma vida saudável, plena e 
feliz”, explicou Grizante ao The Christian Post.
Os jovens entre 12 e 18 anos, hoje 15% da população brasileira, formam o principal 
foco desse problema, segundo Grizante. “Não são considerados adultos nem responsáveis, 
até que lhes deleguem algo. São expostos a apelos tão fortes, em especial os do capitalismo 
selvagem, ostentando modismos despertados muitas vezes pela própria mídia, o que gera 
pessoas com dois perfis: aquele que pode consumir e o que (em tese) não pode consumir. 
É exatamente aí que surge o abismo que divide esses dois mundos, trata-se da busca 
desenfreada pela realização desse desejo de consumo ou conquista”, enfatizou a assistente 
social.
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A família precisa, no entendimento de especialistas e pastores, preparar-se para essa 
batalha. “Se a família acolhe, tudo é diferente”, finaliza Grizante (CAVAGNOLLE, 2011).
Nessa matéria, podemos observar que a assistente social prestou informações sobre dependência 
química. Para problematizar otema, a profissional entrevistada destaca a importância da referência familiar 
para minimizar os impactos da utilização de drogas por adolescentes. Na sequência, destaca que além da 
estrutura familiar, também tem influência no consumo de substâncias psicoativas a estrutura econômica 
da sociedade, chegando a ressaltar que a população brasileira é hoje composta por 12% de adolescentes.
Essa matéria demonstra a produção de conhecimento, por uma assistente social, que foi socializada 
e que com certeza poderá resultar em melhorias de vida para a população em geral.
Essas possibilidades de construção do conhecimento, considerada a prática do assistente social, 
devem ser destacadas como alternativas amplas de produção do conhecimento científico, em virtude 
do fato de que nossa profissão possui múltiplas possibilidades de intervenção nos mais variados campos 
e áreas, o que favorece a produção de conhecimento diversificado, em razão da própria natureza da 
prática (FRAGA, 2010).
Teixeira (2006) ainda coloca que a pesquisa por meio de observação ou sistematização da prática, 
além de produzir conhecimento sobre os diversos campos, tem a possibilidade de fazer a prática ser 
socializada entre os profissionais. Dessa forma, intervenções desenvolvidas podem ser divulgadas entre 
os assistentes sociais, colaborando assim para o processo formativo. Essa socialização no entanto, não 
está restrita aos profissionais da área, mas pode ser estendida a outros campos, podendo colaborar com 
o aumento da visibilidade da profissão.
Pode, ainda, nos termos de Teixeira (2006), proporcionar ao profissional uma autoavaliação de sua 
dimensão ética e técnico-operacional, contribuindo assim para a alteração na forma de conduzir e 
orientar sua própria prática.
O esforço de sistematização como um componente central do trabalho 
do assistente social não significa, portanto, apenas a geração de dados e 
informações, mas um processo que envolve a produção, a organização e a 
análise dos mesmos a partir de uma postura crítico-investigativa. Trata-se, 
na verdade, de um esforço crítico, de natureza teórica, sobre a condução da 
atividade profissional, constituindo-se como um esforço problematizador 
sobre suas diferentes dimensões em relação às expressões cotidianas da 
realidade social, mediatizadas pelas políticas sociais, pelos movimentos 
sociais, pela forma de organização do trabalho coletivo nas instituições 
e, sobretudo, pelas disputas societárias. A sistematização no trabalho 
do assistente social é antes de tudo uma estratégia que lhe recobra sua 
dimensão intelectual, posto que põe em marcha uma reflexão teórica, ou 
seja, revitaliza e atualiza o estatuto teórico da profissão, condição social 
e institucionalmente reconhecida para a formação de quadros nesta 
profissão (TEIXEIRA, 2006, p.4-5).
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A pesquisa influencia a prática de diversas formas e ainda tem o potencial de alterar a vivência dos 
sujeitos pesquisados, conforme apontado anteriormente, o que, por si só, já justifica a necessidade de 
sua realização.
Dessa forma, a pesquisa científica é tão relevante à formação dos assistentes sociais que, segundo 
Fraga (2010) chama a atenção, é colocada pela Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço 
Social (Abepss) como uma necessidade a ser trabalhada com os futuros profissionais. A Abepss, a partir 
de 1996, reforça a importância de as “dimensões investigativa e interventiva” serem desenvolvidas 
pelos centros de formação junto a seus alunos (ABEPSS, 1996 apud FRAGA, 2010, p. 50). Dessa forma, a 
nosso ver, essa dimensão pode ser absorvida de modo que seja aprimorada quando tais alunos estiverem 
alocados na prática, enquanto profissionais, ou mesmo enquanto observadores durante o processo 
formativo.
A observação é um instrumental que tende a estimular a produção do conhecimento, a chamada 
dimensão investigativa, sendo largamente utilizada pelo Serviço Social com esse objetivo, bem como 
para a formação de profissionais atuantes e futuros profissionais por diversos centros. Assim, tendo 
em vista a necessidade de mais aprofundamento sobre o tema, discorreremos, na sequência, sobre a 
observação enquanto técnica de intervenção utilizada pelo Serviço Social.
Concluímos propondo uma reflexão sobre a importância de objetivarmos uma leitura da realidade 
sobre a qual iremos interferir, mesmo que em determinados momentos seja extremamente necessário 
recorrermos a dados estatísticos. Em tese, o que influencia a qualidade de determinada pesquisa não é o 
fato de esta se propor a ser qualitativa ou quantitativa, e sim o olhar que é conferido ao que foi extraído 
da realidade. Caso contrário, os indicadores serão percebidos com uma interpretação que nem sempre 
corresponde ao real.
 Saiba mais
Recomendamos que você procure aprofundar o estudo dos conceitos 
tratados até o presente momento. Caso deseje, pode recorrer às indicações 
bibliográficas a seguir, a fim de compreender aspectos relacionados a 
pesquisa qualitativa:
CHIZZOTTI, A. Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais. São Paulo: 
Cortez, 1991.
DEMO, P. Pesquisa e construção de conhecimento. Rio de Janeiro: Tempo 
Brasileiro, 1996.
Você pode também constatar como pesquisas, partindo da observação da 
realidade, mesmo que não sejam científicas, podem nos trazer informações
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sobre a questão social em suas múltiplas formas de expressão. Para isso, 
pode recorrer aos documentários elencados a seguir, que retratam tais 
situações de uma forma visual, mas trazem muitos dados sobre a realidade 
com a qual atuaremos. Ambos mostram como a pobreza afeta a vida das 
pessoas em diferentes regiões do nosso país e proporcionam possibilidades 
de conhecer essa vivência.
ILHA das flores. Direção: Jorge Furtado. Produção: Monica Schmiedt, 
Giba Assis Brasil e Nora Goulart. Porto Alegre: Casa de Cinema de Porto 
Alegre, 1989. 1 bobina cinematográfica (12 min).
O DRAGãO da maldade contra o santo guerreiro. Direção: Glauber Rocha. 
Produção: Glauber Rocha, Zelito Viana, Luiz Carlos Barreto e Claude Antoine. 
Rio de Janeiro: Mapa Filmes, 1969. 1 bobina cinematográfica (95 min).
2 A InStrUmEntAlIDADE DO SErvIçO SOcIAl
Neste item, nos aproximaremos da observação, como uma técnica de intervenção na realidade 
largamente utilizada pelo Serviço Social. Essa técnica é compreendida como um instrumental de 
trabalho que deve ser utilizado pelo profissional que deseja realizar uma aproximação do seu cotidiano, 
para que seja possível conhecer todos os condicionantes da realidade na qual está desenvolvendo sua 
intervenção. Especificamente, essa compreensão deve ser alcançada também por você, aluno, dada a 
capacidade que a observação possui de viabilizar a formação acadêmica e para que assim seja possível 
orientar a atividade prática que deverá ser por você empreendida.
Não compreendemos, no entanto, a observação como uma atividade especulativa, nem como algo 
empreendido com um caráter policialesco. Esse não é o tipo de observação proposto ao Serviço Social, 
quer seja para o profissional, quer seja para o estudante. É importante para você, aluno, compreender 
a importância da observação para o seu processo formativo e intelectivo, além de compreender que 
você será instrumentalizado para empreender tal prática, para recorrer a essa técnica, com o objetivo de 
formação, e não de avaliação do trabalho de outros profissionais.
Dessa forma, discutiremos a noção de instrumentos e técnicas, ou instrumentalidade, como tem sido 
recorrente em nossa profissão. Partiremos, assim, de explicaçõessobre o desenvolvimento histórico do 
instrumental na área, no qual se situa a observação, para que, na sequência possamos discorrer sobre a 
compreensão contemporânea que é dada à questão instrumental e que coloca a observação, a leitura 
de realidade, em um novo patamar.
2.1 O desenvolvimento histórico-social de instrumentos e técnicas do Serviço 
Social
Nesse momento, retomaremos a história do desenvolvimento de instrumentos e técnicas utilizados 
no Serviço Social desde o seu estabelecimento como profissão. Acompanhando esse desenvolvimento, 
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poderemos compreender não só o papel da técnica em nossa área, mas também as visões de mundo que 
os profissionais possuíam, entendendo, no entanto, que essa perspectiva de compreensão da realidade 
era ofertada a tais profissionais pelos centros de formação.
 Observação
A observação também é compreendida como uma técnica de intervenção 
e de pesquisa do Serviço Social.
Pires (2007), realizando uma reaproximação do instrumental da área, coloca que, se considerarmos 
o surgimento da profissão, deveremos compreender que o Serviço Social não possuía instrumentais e 
técnicas próprios, mas sim elaborações adotadas de outras intervenções e correntes de pensamento com 
as quais realizou e realiza parte das suas próprias intervenções.
Segundo Pires (2007), essa adoção deu-se de duas maneiras: recorrência aos métodos já utilizados 
pela caridade, em que as visitadoras sociais vinculadas às igrejas realizavam visitas, entrevistas, ajuda 
material direta e indireta e aconselhamento; e recorrência a técnicas das disciplinas atreladas às Ciências 
Sociais, tais como a Sociologia, a Medicina e o Direito, das quais, por sua vez, foram transplantadas as 
técnicas de pesquisa, prestação de informações e mesmo vacinação e puericultura. Guerra (2007) coloca 
que, atualmente, também percebemos que o Serviço Social ainda recorre a técnicas usadas nas Ciências 
Sociais; porém, na contemporaneidade, é oferecido outro enfoque a essas técnicas.
Pires (2007) coloca que, no tocante ao instrumental da área, partindo da constituição das primeiras 
escolas, no Brasil e na América Latina de modo geral, percebeu-se nítida influência dos métodos de 
intervenção trazidos da Europa e dos Estados Unidos. A recorrência aos métodos norte-americanos teria 
se evidenciada a partir da década de 1940.
De forma geral, estudar o desenvolvimento histórico-social de instrumentos e técnicas do Serviço 
Social nos remete, nos termos de Pires (2007), a compreender os métodos de caso, grupo e comunidade, 
hegemônicos no Serviço Social até o Movimento de Reconceituação da década de 1970.
Nesse sentido, Pires (2007) coloca que a abordagem de caso foi trazida para o Brasil e para a 
América Latina nos primórdios da profissão. Destacam-se como grande expressão dessa modalidade 
de intervenção os trabalhos de Mary Richmond, em que a abordagem individual era sistematicamente 
ensinada aos assistentes sociais. O Serviço Social de Caso recorria à Psicologia como orientação teórica 
e desenvolvia técnicas de apoio, de influência direta, de catarse e de discussão reflexiva sobre a pessoa-
situação (PIRES, 2007).
Aguiar (1995) coloca que, nos centros de formação, as primeiras assistentes sociais eram doutrinadas 
para desempenhar a intervenção de caso, mas essas orientações, apesar de possuírem recorrência à 
Psicologia, também eram fortemente influenciadas pela doutrina social da Igreja Católica. Note-se que 
esta foi a grande responsável pela constituição das primeiras escolas, e tal influência na formação dos 
assistentes sociais tornou-se algo inevitável.
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Assim, além da Psicologia, o Serviço Social de Caso também trazia implícitas as normativas da Igreja 
Católica, sendo relevante, nesse sentido, a fundamentação de recorrência à Filosofia tomista ou de São 
Tomás de Aquino. Tal compreensão auxiliava os assistentes sociais a realizar uma prática focada no 
indivíduo e a encontrar alternativas para diagnosticar os problemas trazidos por este e para realizar o 
tratamento das anomalias apresentadas (AGUIAR, 1995).
Essas normativas da Igreja eram, assim, ensinadas às assistentes sociais e deveriam orientar sua 
intervenção nos segmentos com os quais elas atuavam. Aguiar (1995) nos diz, no entanto, que as 
próprias alunas também eram submetidas à aceitação dessa doutrina. O autor destaca que os professores 
deveriam orientá-las quanto à doutrina social da Igreja e tinham até autonomia para corrigir possíveis 
desvios de caráter.
Lembrando que, de acordo com Iamamoto (1982), as assistentes sociais deveriam ser moças, 
preferencialmente, pertencentes às boas famílias burguesas da época e católicas. Isso era tão importante 
que, segundo a autora, para realizarem as matrículas nos centros de formação, as interessadas deveriam 
apresentar, dentre vários documentos pessoais, a carta de recomendação de uma família. Caso, 
entretanto, houvesse “desvios” no padrão de comportamento esperado, após o ingresso no centro de 
formação, Aguiar (1995) coloca que estes deviam ser corrigidos com orientações individuais ou grupais, 
dependendo do caso, mas sempre com foco na doutrina social da Igreja.
Santos (2004), analisando o currículo dos principais centros de formação desse período, destaca que 
as matérias oferecidas eram organizadas de forma fragmentada, sempre orientando a uma percepção 
setorizada das questões sociais, indicando assim uma fuga da visão da totalidade. Partilhando das 
posturas dos autores citados anteriormente, destaca que os currículos eram perpassados pelos valores 
cristãos, como teoria a que recorriam para orientar as futuras profissionais.
O Serviço Social de Grupo, por sua vez, também recorrerá à Psicologia como matriz teórica, 
incorporando também influências da Pedagogia e da Educação. As técnicas incorporadas desses ramos 
do saber pelo Serviço Social, segundo Pires (2007), são as seguintes: psicodrama, técnicas de grupo, 
técnicas de apoio, técnicas de motivação e incentivo, técnicas de condução do grupo, dinâmica de 
grupo, dramatizações e debates. Aguiar (1995) coloca que o trabalho em grupo foi introduzido por se 
considerar que os seres humanos possuíam dificuldades semelhantes, razão pela qual seria possível 
realizar um trabalho conjunto, de forma articulada, entre os pares.
Algumas alterações são processadas a partir da introdução do método de Desenvolvimento de 
Comunidade. Nesse caso, inicia-se uma interlocução com a Sociologia. Como procedimentos técnicos, 
Pires (2007) destaca o uso de observação, enquetes, atividades para o desenvolvimento de liderança, 
além de técnicas de motivação, conscientização, participação e mobilização. Aguiar (1995) chama a 
atenção para o fato de que a conscientização, a participação e a mobilização deveriam ser monitoradas 
pelo assistente social, ou seja, trata-se de um período em que esse profissional deveria controlar a 
população e orientar a prática, sendo a participação das pessoas algo extremamente restrito.
O desenvolvimento de comunidade fora trazido dos Estados Unidos na década de 1940, partindo da 
constituição da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945. Note-se que a ONU foi, inicialmente, 
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organizada para atender aos países acometidos pela guerra e, com o tempo, começou a realizar 
intervenções para promover o desenvolvimento de alguns destes, oferecendo-lhes ajuda financeirae 
outros subsídios.
Em razão disso, o Método de Desenvolvimento de Comunidade foi largamente utilizado pelos 
assistentes sociais, posto que, segundo Aguiar (1995), estes passaram a ser requisitados para organizar 
os processos de desenvolvimento nos âmbitos urbano e rural, acarretando grande aumento da procura 
de profissionais para o trabalho.
O período Pós-Guerra foi marcado por orientações com relação à necessidade de adaptação dos seres 
humanos, evitando assim o confronto e manifestações contrárias da parte da população. A ameaça que 
deveria ser contida pelos profissionais era o avanço dos ideais comunistas no interior do movimento 
operário, que começava a ganhar força no Brasil (AGUIAR, 1995). Por isso, o currículo dessas unidades de 
ensino estava totalmente orientado ao ensino de processo com foco na adaptação dos seres humanos. 
Para tal intento, os profissionais deveriam aprender, com acuidade, a desenvolver os métodos de caso, 
grupo e desenvolvimento de comunidade, sendo essa tendência observada na profissão até a década de 
1950 (SANTOS, 2004).
A partir daí, percebemos que a formação dos assistentes sociais não vivenciou profundas alterações, 
mas o currículo a ser ensinado pelos profissionais junto às faculdades passou a enfatizar a importância 
do planejamento social, do desenvolvimento de comunidade. Nesse período ainda eram utilizados os 
métodos de caso, grupo e comunidade, porém com ênfase no desenvolvimento de comunidade, ou 
desenvolvimentismo, como diz Santos (2004).
Devemos ainda considerar o momento político vivido pelo nosso país: conforme sabemos, o Brasil 
já vivenciava um processo de governos militares sucessivos e de busca constante de minimizar a 
participação popular. Sabemos também que, de certa forma, esses métodos usados pelo Serviço Social 
(caso, grupo e comunidade) acabavam por ser funcionais para o controle necessário ao sistema capitalista 
da época e também para a organização política adotada no Brasil e em alguns países da América Latina. 
Apenas com a constituição dos movimentos sociais de luta pela abertura política e de requisição por 
melhores condições de vida, torna-se possível um redimensionamento da questão operacional da área, 
sendo esse reordenamento pensado inicialmente a partir do Movimento de Reconceituação. Apesar 
de haver no currículo das universidades uma grande tendência ao tecnocratismo, ao burocratismo da 
prática na busca por procedimentos técnicos que dessem “respostas” às questões sociais que estavam 
se agudizando cada vez mais, nesse período começam as orientações para uma postura crítica por parte 
da profissão (SANTOS, 2004).
Partindo do Movimento de Reconceituação da área, a questão instrumental assume determinado 
tratamento nas produções teóricas. Pires (2007) identifica três momentos, os quais passaremos a 
descrever.
O primeiro momento tem seu início a partir da década de 1960. Nesse período, algumas produções 
teóricas analisadas por Pires (2007) tecem considerações sobre a questão instrumental. Assim, as técnicas 
eram consideradas definidores da profissão como uma modalidade de intervenção social. Eram, ainda, 
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consideradas como um meio que o assistente social deveria utilizar para atingir um fim específico e 
previamente determinado. Por isso, considera Pires (2007) que a técnica, no estágio em questão, era tida 
como algo de suma importância ao fazer profissional.
 Observação
Precisamos sempre ter em mente o desenvolvimento histórico de nossa 
área profissional, compreendendo sua influência nos instrumentais.
Possivelmente em razão disso, surgiram colocações sobre a necessidade de que o instrumental técnico 
do Serviço Social fosse mais bem-estudado, elaborado e, assim, fosse possível oferecer uma orientação 
mais sistemática e una aos profissionais. Derivando em parte dessa necessária orientação a ser conferida 
aos assistentes sociais, começam a se esboçar algumas propostas pela unificação dos métodos. Nesse 
momento, no entanto, ainda não se concretizam essas propostas, havendo o predomínio de orientações 
para cada tipo de abordagem, sendo estas ainda os métodos tradicionais de caso, grupo e comunidade, 
ganhando grande assento e colaborando para a minimização das propostas de orientação do Serviço 
Social de Caso (PIRES, 2007).
O segundo momento que evidencia Pires (2007) tem início na década de 1970 e caracteriza-se 
por uma severa crítica ao instrumental até então utilizado pela profissão. Para a autora, essa crítica 
decorreu da aproximação do Serviço Social da tradição marxista. Derivando dessa aproximação, alguns 
profissionais passaram a compreender o instrumental como uma forma de controlar a população e, 
assim, servir aos ideais burgueses. A autora ainda nos diz que, apesar de realizar essa crítica, autores 
que representam essa forma de compreensão não apresentam outras propostas para a intervenção 
profissional, e o assistente social acaba ficando sem alternativas para a sua prática.
O terceiro momento, por sua vez, teria se iniciado, nos termos de Pires (2007), a partir de meados da 
década de 1980. A autora coloca que se inicia uma nova aproximação da questão instrumental, agora 
considerada como algo relevante e imprescindível à formação profissional, sem, para tanto, deixar de 
reforçar a importância de combater o tecnicismo, compreendido como a prática guiada apenas pela 
execução de técnicas, sem reflexão. Nesse momento, começam também as propostas de utilização do 
método único de intervenção.
Nesse momento, surgiu uma tendência profissional que hoje se constitui uma necessidade: 
compreender a importância da técnica de forma estritamente relacionada à teoria, propondo, de tal 
forma, a prática reflexiva, desenvolvida cotidianamente. No entanto, essa posição não é hegemônica na 
categoria profissional, havendo ainda um predomínio da tecnificação em muitos profissionais.
No entanto, essa tendência veio ancorada na primeira reforma curricular de monta processada pelo 
Serviço Social, na qual se tornou latente a compreensão da necessidade de crítica ao sistema capitalista, 
proporcionando também uma maior aproximação, pela categoria, da Teoria Marxista, acontecida na 
década de 1980, já no momento de abertura política e de democratização do país. Essa revisão curricular 
foi retomada na década de 1990, quando a categoria repensou mais uma vez sua teoria e sua prática e 
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definiu que a profissão deve ser orientada pela compreensão marxista da realidade, tendo como foco o 
entendimento da questão social, de seus principais eixos fundantes e das formas de intervenção junto 
a essas expressões (SANTOS, 2004).
 Observação
O método único caracteriza-se também por uma compreensão 
diferenciada sobre o ser humano, buscando romper com a influência 
positivista na profissão.
Atualmente, como método, não há mais essa distinção entre caso, grupo e comunidade, e a 
intervenção é desenvolvida com base no chamado método único. Além da importância da questão 
instrumental, nota-se também a importância da teoria de orientação, dentre outros e diversos aspectos 
que perpassam a questão instrumental da área.
Na sequência, discorreremos sobre alguns aspectos acerca do instrumental da área, porém refletindo 
sobre conceitos relevantes e que necessitam ser debatidos pela nossa profissão, considerando a sociedade 
contemporânea.
2.2 A instrumentalidade em debate no momento atual
Neste tópico, discorreremos acerca das compreensões contemporâneas e que vigoram em 
nossa profissão acerca da instrumentalidade. Mais que uma mudança determos, o conceito de 
instrumentalidade nos remete a outras formas de compreensão da nossa atividade profissional, no que 
tange à metodologia de ação, bem como a instrumentos e técnicas que foram sendo desenvolvidos pelo 
Serviço Social a partir de seu estabelecimento como profissão.
Esse termo passou a vigorar na nossa área a partir da década de 1990, quando Yolanda Guerra 
passou a discutir a questão instrumental sob um novo enfoque. Antes das contribuições dessa autora, 
eram raros os trabalhos que se dedicavam a compreender essa questão de uma forma diferenciada, e 
esta acabava restrita à noção de instrumentos e técnicas usados pelo assistente social, encontrando-se 
tal ideia desprendida da relação necessária entre teoria e prática.
Para que possamos discutir esse conceito, que faz referência a uma postura a ser assumida pelo 
profissional em relação a teoria e prática, precisamos compreender o Serviço Social como uma profissão 
que está inscrita nas relações de trabalho.
 lembrete
Precisamos sempre compreender o Serviço Social como parte integrante 
de um processo de trabalho.
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Nesse sentido, iniciaremos pela afirmação de que o Serviço Social deve ser compreendido como um 
trabalho, o que, por sua vez, remete-nos a pensar: O que é trabalho? Como podemos compreender essa 
categoria? Como esta vem sendo compreendida em relação ao Serviço Social? Partindo da resposta a 
essas questões, poderemos compreender a nossa profissão como inserida em um processo de trabalho e 
também a importância que adquirem a questão instrumental e a ampliação de nosso entendimento do 
conceito de instrumentalidade.
Assim, o trabalho é concebido como toda ação humana desenvolvida para satisfazer uma dada 
necessidade. Esse é o gesto mais antigo do gênero humano e tem orientado a humanidade para atingir 
níveis cada vez mais elevados de desenvolvimento. A Teoria Marxista diz que o ser humano vivenciou 
um lento processo de desenvolvimento, que orientou a apuração dos órgãos dos sentidos do antigo 
Homo sapiens até chegar ao homem desenvolvido atualmente, o que Guerra (2010) descreve como o 
chamado processo de hominização. Ou seja, partindo da atenção a determinadas necessidades, o ser 
humano, durante o seu desenvolvimento, passou a trabalhar. As formas iniciais de trabalho demandaram 
uma especialização das funções mentais e dos órgãos dos sentidos, tornando o homem cada vez mais 
“humanizado”.
Para compreender o trabalho, segundo Iamamoto (2001), que recorre à perspectiva marxista de 
compreensão da realidade, faz-se necessário entender tal ação como algo inerente ao ser humano, 
visto que demanda um certo grau de desenvolvimento intelectivo, independentemente de se tratar de 
trabalho físico, artístico ou intelectual. Assim, devemos compreender que outros gêneros que possuem o 
intelecto menos desenvolvido, os animais, por exemplo, não têm as condições mínimas para o trabalho 
tal como nós podemos experienciar.
Devemos ainda considerar, partindo de Iamamoto (2001), que tal ato provocará alterações tanto no 
objeto sobre o qual incide a ação quanto no homem que as executa: no objeto, pelo fato de receber 
o ato empreendido; e no homem, por despender esforços, inclusive no plano subjetivo, para que o 
trabalho seja realizado. Assim, as ações influenciam tanto o objeto sobre o qual foram empreendidas 
quanto o homem que as desenvolveu, sendo esse um processo contínuo, que acontece sempre que o 
trabalho é colocado em prática. Isso ocorre mesmo que, muitas vezes, não percebamos a influência que 
o trabalho exerce, dado o fato de frequentemente nos alienarmos nesse processo.
Iamamoto (2001) ainda aponta que compreender o trabalho demanda a concepção deste como 
um processo e, como tal, composto por elementos básicos: a matéria-prima ou o objeto, os meios ou 
instrumentos de trabalho e o próprio trabalho ou atividade, contidos no trabalho físico, no intelectual 
e no artístico.
Assim, por meio desses parágrafos, mesmo com um tratamento subliminar, visto que esse conceito 
é mais bem-detalhado em outras disciplinas, como em Teoria Geral, torna-se possível discutir algumas 
das peculiaridades do que pode ser compreendido como trabalho, conforme elencado nas questões 
anteriores. Não poderemos nos ater com tanta dedicação ao assunto posto não tratar-se do objeto 
deste estudo. Entretanto, é um assunto que precisava ser introduzido para que possamos discutir a 
questão instrumental, e, por isso, seguiremos com essa discussão.
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Assim, retomando a última questão, “Como essa categoria vem sendo compreendida em relação ao 
Serviço Social?”, a pergunta é “respondida” pela própria Iamamoto (2001), quando reforça a compreensão 
de que o Serviço Social deve ser interpretado como um trabalho composto por todos os elementos que 
formam o chamado processo de trabalho: a matéria-prima, a atividade e os instrumentos ou meios de 
trabalho.
Iamamoto (2001) coloca que a matéria-prima de nossa profissão serão as múltiplas formas de 
expressão da questão social, a atividade será a própria ação e os instrumentos ou meios de trabalho 
deverão ser compreendidos além da utilização de técnicas. A autora diz que os instrumentos ou meios 
de trabalho do Serviço Social correspondem à utilização das técnicas com recorrência a uma bagagem 
teórica que as sustente e oriente o profissional a fazer uma leitura da realidade. Acrescenta ainda, a essa 
bagagem teórica, os recursos, que oscilam desde os técnicos até os financeiros e demais que se fazem 
necessários para a prática do profissional e que, muitas, vezes não estão sob o controle deste.
Sintetizando, isso equivale a dizer que o Serviço Social é, de fato, um trabalho, e mais, destaca a 
relevância de compreender os instrumentos e as técnicas, além de entender que estes não devem ser 
utilizados de forma indiscriminada, como procedimentos automáticos e repetitivos, sem reflexão.
Essa noção é partilhada por Guerra (2010), que desenvolve uma ideia diferenciada no que se refere 
à metodologia de ação. A autora passa a utilizar o termo instrumentalidade, atualmente usual e 
recorrente em nossa profissão, tanto entre profissionais atuantes quanto entre escritores e estudiosos. 
Guerra (2010) também parte de uma análise marxista da realidade, inclusive da profissão e da própria 
instrumentalidade, apontando-nos diversos conceitos sobre os quais precisamos pensar e repensar 
constantemente em nossa construção dialética do conhecimento a respeito da nossa profissão.
Antes de seguirmos com a análise dos conceitos tratados pela autora, faz-se necessário descrever 
com a maior riqueza de detalhes possível o que significa o termo instrumentalidade ao qual a autora 
se refere. Segundo Guerra (2007), o sufixo idade acrescido ao termo instrumental faz referência a 
capacidade, qualidade e propriedade de algo, o que nos leva a concluir que ao instrumental do 
Serviço Social, em sua execução, são acrescidos esses valores como indispensáveis. Trata-se de uma dada 
capacidade, de uma qualidade que precisa ser desenvolvida pelos profissionais para “fugirem” da prática 
pautada pela supremacia da técnica.
Com isso podemos afirmar que a instrumentalidade no exercício 
profissional refere-se não ao conjunto de instrumentos e técnicas (neste 
caso, a instrumentalidade técnica), mas a uma determinada capacidade ou 
propriedade constitutiva da profissão, construída e reconstruída no processo 
sócio-histórico (GUERRA, 2007, p. 1).
Como podemos observar no item anteriormente estudado neste livro-texto, esse instrumental, 
durante o desenvolvimentohistórico-social da profissão, foi assumindo uma posição de destaque, como 
se fosse o único fator relevante à formação do assistente social. Guerra (2007) reforça a necessidade 
desse instrumental para a profissão, mas destaca que há outros aspectos que devem ser também 
considerados como constituintes desta, como a importância da teorização.
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Com isso queremos afirmar que reconhecer e atender às requisições 
técnico-instrumentais da profissão não significa ser funcional à 
manutenção da ordem do projeto burguês. Isto pode vir a ocorrer quando 
se reduz a intervenção profissional à sua dimensão instrumental. Esta é 
necessária para garantir a eficácia e a eficiência operatória da profissão. 
Porém, reduzir o fazer profissional à sua dimensão técnico-instrumental 
significa tornar o Serviço Social meio para o alcance de qualquer finalidade. 
Significa também limitar as demandas profissionais às exigências do 
mercado de trabalho. É também equivocado pensar que para realizá-las 
o profissional possa prescindir de referências teóricas e ético-políticas 
(GUERRA, 2007, p.11).
Dessa forma, ações imediatas fazem-se necessárias ao assistente social, ou seja, nunca se deve 
perder o foco com relação às referências teóricas e ético-pollíticas, mas as ações imediatas são essenciais 
a fim de viabilizar o acesso a determinados bens e serviços para a população com a qual atuamos, 
posto não possuírem outros meios para terem acesso a estes. Isso não significa que o profissional 
esteja colaborando com a ordem dominante, desde que esteja atrelado ao compromisso ético-político 
assumido pela categoria profissional (GUERRA, 2007).
Guerra (2007) diz ainda que os instrumentais são importantes também ao passo que auxiliam no 
reconhecimento social da profissão, demonstrando assim sua necessidade e reconhecendo a profissão 
socialmente. Além disso, permitem que o profissional oriente sua intervenção a um fim específico, 
partindo da realidade concreta.
Guerra (2010) também realiza uma análise de relevância sobre o tema racionalismo 
formal-abstrato, fundamental para a compreensão do conceito de instrumentalidade.
O racionalismo é descrito por Guerra (2010) como uma concepção da importância da razão no 
processo de produção do conhecimento, constituindo-se em uma modalidade de primado da razão. 
Já o racionalismo formal-abstrato, partindo ainda das definições de Guerra (2010), é uma forma de 
compreender a produção do conhecimento que surge na contemporaneidade, partindo do segundo 
Pós-Guerra, especificamente a partir da década de 1960, e que, de certa forma, inverte a concepção 
de supremacia da razão. Nesse sentido, vivenciamos o surgimento de diversas teorias que negam as 
possibilidades da razão na sociedade moderna.
Há uma crise da cultura, dos paradigmas antes estabelecidos, evidenciando-se uma negação dos 
conhecimentos pautados pela compreensão da constituição ontológica da totalidade com base no real, 
ou seja, negam-se os conhecimentos que privilegiam a totalidade e passam a ser valorizados aqueles 
produzidos com base no focal, no local, sem estabelecer uma relação com o todo e com a realidade, 
que passa a ser compreendida como algo que provém essencialmente da vivência de cada ser humano 
(GUERRA, 2010).
O chamado racionalismo formal-abstrato, nos termos de Guerra (2010), destaca ainda o fim 
das grandes narrativas, que seriam aquelas histórias que privilegiam a noção de continuidade, de 
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desenvolvimento do gênero humano, sendo mais uma vez assumida a importância da cultura local e de 
cada população específica (GUERRA, 2010).
No campo político-ideológico, Guerra (2010) aponta também para a suspensão de algumas 
“concepções” tidas como supremas até então, como o marxismo, o comunismo, dentre outras formas de 
compreensão da realidade.
Essa forma de produção do conhecimento traz, no entanto, implicações para a constituição e o 
desenvolvimento das profissões, posto que temos de considerar que essas mudanças estão diretamente 
relacionadas com o modo de produção capitalista na idade dos monopólios. Nesse sentido, Guerra 
(2010) coloca que, diante da fluidez das formas de produção do conhecimento, passam a ser exigidos 
profissionais cada vez mais versáteis. Agora, estes precisam saber desempenhar todas as atividades 
necessárias ao desenvolvimento do processo produtivo, e não é dada tanta importância ao profissional 
que domina com profundidade determinado conhecimento. É a demanda pelo profissional polivalente, 
sempre disposto a desempenhar qualquer função para a qual seja designado em nome do lucro e da 
mais-valia.
De tantas atividades a desempenhar, o que é usual nessa nova forma de compreensão do trabalho, 
surge o profissional que tenta seguir uma tendência generalista, mas que nem sempre consegue canalizar 
a sua intervenção a um fim específico: o profissional polivalente.
No entanto, nem sempre polivalência é sinônimo de competência, de desenvolvimento efetivo das 
atividades propostas. A polivalência pode até significar a ausência de um saber profundo em determinada 
área.
Essa nova forma de pensar a produção de conhecimento e as posturas que são esperadas 
para os novos profissionais também traz rebatimentos à forma como o Serviço Social passa a ser 
compreendido e, respectivamente, condiciona a ação dos profissionais. Também o assistente social 
passa a ser requisitado como um profissional polivalente, versátil. Segundo Guerra (2010), no caso do 
assistente social, tanta versatilidade pode resultar em um profissional que não sabe certamente o que 
faz, o que deve fazer, ou, conforme a autora coloca, em um profissional que não consegue encontrar 
a sua especificidade.
Souza e Azevedo (2004), partindo da análise das novas exigências feitas à profissão, destaca a noção 
de competência que passa a ser esperada do Serviço Social. Competência que, a partir de então, não estará 
mais “restrita” às capacidades técnicas do profissional, mas que passará a demandar que este desenvolva 
outras habilidades, tais como a flexibilidade, a transferibilidade, a polivalência e a empregabilidade. Os 
autores nos falam ainda de um “pacote de competências” que passa a ser exigido do profissional que 
deseje permanecer no mercado de trabalho.
Essas situações tornam-se mais agudas ao passo que assistimos o adeus ao trabalho formal, cada vez 
mais substituído pelo subemprego ou pelo desemprego. A flexibilização das formas de produção conduz 
à flexibilização também das formas de trabalho, reforçando assim a “necessidade” de o profissional ser 
polivalente (GUERRA, 2010). A nosso ver, essa concepção está traduzida na sentença: “Caso você não 
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desempenhe uma série de atividades, fugindo de sua especificidade, poderá ser demitido”. Além disso, a 
estabilidade acaba sendo rechaçada na maioria dos empregos.
Guerra (2010) atenta para o fato de que, a partir desses condicionantes, surge no bojo da profissão 
a chamada racionalidade instrumental, que corresponde à utilização de instrumentos e técnicas pelo 
profissional de modo que resolva os problemas que lhes são postos, chamada também, pela autora, de 
ideologia da tecnificação. Segundo Guerra (2010), a profissão é perpassada pela ideia de que, por 
meio da utilização da técnica correta e contando com as habilidades profissionais, será possível resolver 
os problemas sociais que são apresentados ao assistente social. Essatendência começa a consolidar-se 
no Brasil a partir das décadas de 1960 e 1970, apesar de ser latente em nossa profissão desde as suas 
protoformas, e ainda hoje exerce influência na área.
O que Guerra (2010) critica, entretanto, é que essa utilização das técnicas acaba colaborando para 
camuflar a percepção da realidade pelos assistentes sociais, ou, como coloca a autora, colabora para o 
processo de “fetiche” das contradições sociais. Dito de outra forma, os problemas sociais com os quais 
atuamos, as expressões da questão social nas quais despendemos nossa ação são concebidas como 
fenômenos que poderão ser solucionados partindo da intervenção correta, e não como expressões da 
organização econômica que tem constituído a nossa sociedade.
De tal forma, a nosso ver, os profissionais acabam percebendo, por exemplo, que um dado 
problema social não pode ser resolvido totalmente. No entanto, alguns acabam “acreditando” 
que a sua “não solução” se dá, digamos assim, por não terem utilizado a abordagem correta. O 
profissional acaba se sentindo responsabilizado por problemas que têm seu cerne na estrutura 
da sociedade. Pense, nesse sentido, sobre a pobreza, que é uma das expressões da questão social 
mais latentes e com a qual certamente você irá se deparar. Nesse caso, por mais corretas que 
sejam as intervenções empreendidas, será impossível dissipá-la totalmente enquanto estivermos 
assentados no modo de produção capitalista, por exemplo. Nossa ação, entretanto, acaba por 
ser desenvolvida com vistas a minimizá-la e a buscar construir outros conceitos com foco na 
emancipação dos usuários.
No entanto, segundo Guerra (2010), as técnicas e os instrumentos são de suma importância, desde 
que sejam desenvolvidos com recorrência a uma bagagem teórica, como foi apontado por Iamamoto 
(2001) e destacado no início deste livro-texto. Sem essa bagagem teórica, a profissão acaba por 
desenvolver-se de forma utilitarista, tecnocrática e instrumental, apenas como um solucionador 
de problemas de forma imediata e pontual e sem nenhuma reflexão sobre estes, ocorrendo assim uma 
aplicação indiscriminada de técnicas.
Essa ausência de reflexão, segundo a autora, provém de uma forma de estruturar o processo 
produtivo no sistema capitalista em que há uma diferenciação entre o trabalho manual e o intelectual. 
Guerra (2010) coloca que essa cisão também se expressa no Serviço Social: em nossa profissão, aparece 
sob a aparente dicotomia entre teoria e prática, como se ambos não possuíssem nenhuma relação, ou 
como se, a partir da inserção do profissional no mercado de trabalho, não fosse a ele mais necessária a 
teorização, a reflexão.
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Entretanto, Guerra (2010) salienta ainda que muitas produções teóricas no Serviço Social também 
acabam reforçando essa postura essencialmente tecnocrática e instrumental, colaborando, portanto, 
com a manutenção dessa prática, além da desconsideração, pelos profissionais, do significado social e 
político da área.
Ora, há que se questionar a filiação teórico-metodológica, epistemológica 
e ideológica das teorias de médio alcance das quais os assistentes sociais 
tentam extrair modelos de intervenção profissional; os pressupostos 
contidos na noção de modelo ou paradigma explicativo da sociedade e, 
ainda, o substrato do pensamento que apreende a realidade sob uma forma 
fixa, cristalizada, e se reproduz pela repetição e pelo costume, podendo, por 
isso, reivindicar modelos de intervenção (GUERRA, 2010, p. 150).
Essa tendência profissional encontra assento na forma fragmentada como o Estado enfrenta os 
problemas sociais. Assim, segundo Guerra (2010), o próprio Estado, por meio das políticas sociais e 
dos programas e projetos a elas atrelados, realiza uma intervenção segmentada das questões sociais, 
fortalecendo assim a compreensão de que o enfrentamento setorizado e de acordo com intervenções 
específicas será capaz de resolver todos os problemas sociais.
Ao fragmentar as questões sociais numa pluralidade de modalidades e 
setores constituídos em “campos” nos quais serão tratadas as “anomalias” 
da sociedade “tipificadas em políticas sociais” [...] (GUERRA, 2010, p. 135).
Acompanhando a história de nossa área, podemos concluir que o assistente social assume grande 
destaque no tocante a enfrentar tais expressões, o que garante a constituição do espaço sócio-ocupacional 
de nosso campo de atuação.
Segundo a autora, o fato de o Serviço Social encontrar assento no mercado de trabalho 
contemporâneo decorre do fato de que, ao passo que estabelece uma relação de compra e venda de sua 
força de trabalho, está vendendo um conjunto de procedimentos e habilidades que são reconhecidos 
histórica e socialmente como capazes de produzir determinados resultados. Iamamoto (2001) introduz 
essa discussão no mesmo sentido que Guerra (2010), porém destaca que o Serviço Social só é contratado 
porque pode também produzir algo por meio de sua intervenção. Ambas as autoras, partindo do 
entendimento da profissão como processo de trabalho, defendem que o Serviço Social, por meio de 
uma metodologia específica, tem condições de resultar em um produto.
No entanto, para Guerra (2010), a metodologia, a instrumentalidade do Serviço Social pode assumir 
dois caminhos: o conservadorismo ou a emancipação. O conservadorismo faz referência à manutenção 
de práticas já desenvolvidas sem que a respeito delas seja realizada uma reflexão, ao passo que a 
emancipação consiste em buscar, por meio da práxis, superar a ação pautada exclusivamente pelo 
tecnicismo. Disso deriva a requisição de um profissional que seja “culturalmente versado e atento ao 
tempo histórico”, conforme nos coloca Iamamoto (2001, p. 144), mas que tenha também pleno domínio 
da metodologia de sua intervenção.
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A nosso ver, somente a partir da relação equilibrada entre a utilização de instrumentos e técnicas, a 
teoria e o cotidiano é que será possível ao assistente social desenvolver uma prática condizente com o 
projeto ético-político de sua categoria e assim colaborar para o fortalecimento dos segmentos menos 
favorecidos de nossa sociedade.
Guerra (2010) ainda nos diz que quando o profissional consegue estabelecer uma prática em que 
privilegie tanto a questão instrumental quanto a reflexão teórica, ele está fazendo a mediação entre 
esses dois aspectos importantes e necessários à formação profissional. Somente por meio dessa mediação 
torna-se possível que o “movimento teórico” explique a prática.
Por isso, a Abepss, órgão responsável por delimitar aspectos mínimos que precisam ser trabalhados pelos 
centros de formação de assistentes sociais, reforça a necessidade da compreensão teórico-metodológica, 
dentre outros aspectos. Assim, segundo as Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social, publicadas em 
1997, pela Abepss, e que devem ser utilizadas como referência para a formação dos futuros profissionais 
por todas as unidades de ensino, em todo o território nacional, essa compreensão teórico-metodológica 
mostra-se importante, mas não é o único fator a ser observado. O documento destaca ainda a importância 
da compreensão ético-política, da técnico-política e da investigativa (SANTOS, 2004).
Assim, a dimensão teórico-metodológica faz referência à compreensão da importância do 
desenvolvimento sócio-histórico da profissão, tendo em vista, no entanto, a necessidade de tal 
compreensão ser baseada na totalidade desse processo. Também faz acepção, nos termos de Sousa 
(2008), ao rigor metodológico, partindo da interlocução com a teoria. A compreensão ético-políticafaz referência à necessária consolidação dos valores éticos que são apresentados pelo Código de Ética 
da categoria e pelo projeto ético-político assumido pela nossa profissão, e significa que o profissional 
precisa ter um posicionamento político, não como partidário, mas tendo como foco a defesa dos direitos, 
conforme também sinalizado por Sousa (2008).
A dimensão técnico-operativa, por sua vez, faz alusão à necessidade de instrumentalização operacional 
para o desempenho das funções, sem desprezar, nesse processo, a importância dos compromissos políticos de 
nossa profissão; é descrita também por Sousa (2008) como necessária habilidade técnica. Por fim, a dimensão 
investigativa, como o próprio nome sugere, faz referência ao estímulo à pesquisa, tendo, entretanto, como 
foco a realidade brasileira e a intervenção profissional feita nessa realidade (SANTOS, 2004).
Essas dimensões podem ser compreendidas a partir do momento em que são estabelecidas as 
mediações entre teoria e prática. A mediação articula as dimensões como um todo que viabilizará a 
formação e conduzirá o processo formativo dos assistentes sociais. Por isso, é urgente e necessário que 
o profissional e o futuro profissional tenham contato com a realidade, para que iniciem esse exercício 
de correlacionar conteúdos teóricos com a realidade que observam e na qual também estão inseridos 
(GUERRA, 2010).
Mediações que fazem referência a toda a cultura que envolve a nossa categoria profissional, a qual 
é uma construção coletiva, de profissionais e futuros profissionais (GUERRA, 2010), são, a nosso ver, 
uma forma de compreensão acerca da importância da conjugação entre teoria e prática, o que deve ser 
introjetado por toda a categoria.
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Iamamoto (2001) também chama a atenção para a necessidade de o profissional enveredar pelo 
caminho da pesquisa, sendo essa uma possibilidade de aproximar-se da realidade. Para a autora, 
o profissional esperado para os novos tempos deve realizar pesquisas, com base na realidade, 
considerando-a como algo que está em movimento, criação e constituição constantes. Assim, a autora 
fala de um compromisso com a pesquisa a ser assumido pelo profissional. Esse seria, nos termos da 
autora, o profissional propositivo. Tal perfil deve ser formado, nos termos de Iamamoto (2001), por uma 
atualização constante, que é necessária aos profissionais, ou uma qualificação permanente, culminando 
assim no perfil propositivo. Tal concepção vem ao encontro do que fora apontado por Santos (2004) e 
ao que é colocado pela Abepss no que diz respeito à dimensão investigativa como peça-chave para o 
processo formativo e constitutivo dos assistentes sociais.
 Saiba mais
Para uma compreensão do trabalho na contemporaneidade, realize a 
leitura do texto:
FREIRE, M. L. B. A desestruturação social do trabalho no Brasil e a globalização 
da resistência. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE ASSISTENTES SOCIAIS, 10., 2001, 
Rio de Janeiro. Anais eletrônicos... Disponível em: <http://www.ts.ucr.ac.cr/
eventos/br-cbass-con-10-po-14.htm>. Acesso em: 26 mar. 2012.
Observe que essas dimensões estão diretamente relacionadas, e todas devem colaborar para o 
processo formativo, conforme ilustra a figura a seguir:
Técnico-
operativa
Ético-politica
Teórico-
metodológica
Formação
Figura 2 – Ilustração acerca das dimensões que é necessário trabalhar no processo formativo do assistente social
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A Abepss coloca que, para que essas dimensões sejam contempladas pelos centros de formação, 
faz-se necessário eleger como metas a capacitação constante dos docentes e a interlocução com 
o mercado de trabalho, fazendo os alunos atuarem por meio de diversas modalidades de estágio 
(ABEPSS, 1999 apud SANTOS, 2004), ou seja, a nosso ver, para que essas dimensões sejam alcançadas, 
é necessário que os docentes dos centros de formação estejam em um processo constante de 
formação continuada e que possibilitem, além da base teórica, a introdução dos alunos nos campos 
de trabalho já constituídos, favorecendo assim a constituição das diversas modalidades de estágio 
citadas anteriormente.
A relevância da inserção dos alunos nos campos de trabalho é trazida pelos núcleos de 
fundamentação presentes no documento da Abepss (1999 apud SANTOS, 2004) e que devem ser 
adotados pelas faculdades de graduação em Serviço Social. Esses núcleos de fundamentos podem 
ser compreendidos como eixos básicos que devem orientar todas as disciplinas oferecidas pelo 
Serviço Social, com vistas à formação. Segundo as Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social, 
são destacados três núcleos, a saber: núcleo de fundamentos teórico-metodológicos da vida social, 
núcleo de fundamentos e particularidades da formação sócio-histórica da sociedade brasileira e 
núcleo de fundamentos do trabalho profissional (SANTOS, 2004).
O núcleo de fundamentos teórico-metodológicos propõe a realização de atividades e a 
constituição de conteúdos que proporcionem ao aluno a compreensão das particularidades 
histórico-sociais da realidade brasileira e da profissão nesse decurso, ao passo que o núcleo de 
fundamentos teórico-metodológicos da vida social deve possibilitar a compreensão da realidade 
social contemporânea sobre a qual deverão atuar. O núcleo de fundamentos do trabalho profissional, 
por sua vez, pretende orientar quanto aos aspectos técnico-operativos da profissão. Esse núcleo é 
considerado por Santos (2004) como central na formação, desde que devidamente amparado pelos 
demais. Assim, todos os núcleos são importantes e devem constituir-se de forma complementar e 
dialética, a fim de viabilizar a formação.
É necessário, nesse sentido, dar aos alunos condições de conhecer os procedimentos a serem 
executados pelo assistente social.
Em outros termos, há uma indicação de que o “ensino da prática” deve 
ocorrer necessariamente nos três eixos, entretanto, considero que em níveis 
diferenciados, uma vez que compreender o significado social da profissão 
é fundamental para a ação, mas essa compreensão é de âmbito da teoria 
e não leva, de imediato, à materialização da prática. Para isso, exige-se 
também um outro tipo de conhecimento, o conhecimento procedimental 
(SANTOS, 2004, p. 227).
Isso porque, apesar de complementares e indissociáveis, esse núcleos não desenvolvem as mesmas 
capacidades, ou seja, não trabalham as mesmas dimensões com os alunos.
A instrumentalidade é tão relevante que volta a ser reafirmada no Currículo Mínimo: Novos 
Subsídios para o Debate, também documento da Abepss e que foi publicado no ano de 1996. 
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ObservaçãO Orientada
Nesse documento, a Abepss reforça que a formação instrumental é de suma importância e deve 
partir de conhecimentos das experiências profissionais já acumuladas pelo Serviço Social em seu 
desenvolvimento histórico, considerando ainda as práticas desenvolvidas na contemporaneidade 
(ABEPSS, 1999 apud SANTOS, 2004).
Santos (2004) coloca que os centros de formação devem orientar os alunos, buscando responder às 
questões:
• O que fazer?
• Por que fazer?
• Como fazer?
• Para que fazer?
As respostas conferidas a essas questões poderão proporcionar a formação dos alunos quanto à 
esfera operacional. Tal competência, segundo o documento da Abepss (1999 apud SANTOS, 2004), 
pode ser viabilizada por meio da constituição de disciplinas, da realização de seminários temáticos, 
de oficinas e laboratóriose de atividades complementares. O documento destaca, ainda, como 
relevante, a introdução de modalidades de estágio para os alunos, a fim de que tal competência 
seja desenvolvida.
A disciplina Observação Orientada não foi incluída no currículo de seu curso ao acaso. Foi 
inserida justamente para que a questão instrumental fosse inicialmente trabalhada, atendendo 
assim às orientações da própria Abepss e que mostram-se extremamente relevantes em seu 
processo formativo.
Especificamente, com relação ao método, é hoje consensual na profissão, conforme já 
referimos, a recorrência ao chamado método único de intervenção. Entretanto, há um número 
de instrumentais que pode ser utilizado pelo assistente social em seu cotidiano. Sousa (2008) 
realiza uma distinção destes, agrupando-os em instrumentais de trabalho diretos ou face a face 
e instrumentais de trabalho indiretos ou por escrito. Para o autor, esses instrumentais funcionam 
como mediadores da intervenção do assistente social, mas todos são orientados pelo principal 
instrumento, que é a linguagem, a possibilidade de comunicação de nossa área. Essa concepção foi 
extraída de Iamamoto (2001), que defende como principal instrumento de ação do Serviço Social 
a linguagem, recurso básico de nossa intervenção.
Partindo assim do que é destacado por Sousa (2008), os instrumentos de trabalho face a face ou 
diretos são aqueles em que há interação do profissional com o meio no momento de sua utilização. 
O autor destaca que parte desses instrumentos vem sendo usada ao longo do desenvolvimento 
do Serviço Social como profissão, mas que, na atualidade, estes não são adotados com o mesmo 
objetivo com o qual foram utilizados anteriormente. São exemplos desses instrumentos: a observação 
participante, a entrevista individual e a grupal, a dinâmica de grupo, a reunião, a mobilização da 
comunidade e a visita institucional.
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Já os instrumentos de trabalho indiretos ou por escrito são aqueles constituídos após a realização 
da abordagem direta ou face a face. Sousa (2008) cita como exemplos desses instrumentos as atas de 
reunião, os livros de registro, o diário de campo, o relatório social e o parecer social, destacando ainda 
que, no caso destes instrumentais, é necessário que o profissional tenha domínio da escrita.
Na sequência, realizaremos um estudo sobre a observação no Serviço Social e poderemos ver 
que essa técnica tanto é importante a fim de colaborar para a compreensão da realidade quanto 
se mostra relevante para suscitar questões que precisam ser mais bem-compreendidas pelos 
profissionais. Esse fato pode, assim, contribuir na busca, pelos profissionais, de teorias sobre os 
fenômenos observados, fazendo, dessa forma, a técnica utilizada em nossa prática cotidiana assumir 
um viés diferenciado, evitando assim que o profissional adote posturas baseadas meramente na 
técnica pela técnica.
No entanto, desejamos destacar que todas essa habilidades não são inatas, ou seja, não nascemos 
com elas. Portanto, auxiliaremos você, aluno, para que possa instrumentalizar-se nesse sentido.
 Saiba mais
Caso seja possível, sugerimos a você aprofundar os seus estudos 
sobre a constituição do sistema capitalista no Brasil e sua influência no 
desenvolvimento da questão social. Os livros a seguir indicados trabalham 
de forma aprofundada as questões do fim do trabalho e da flexibilização 
das relações de produção e trabalho, por nós discutidas.
Consulte:
ADORNO, T. W. Capitalismo tardio ou sociedade industrial. In: COHN, 
G. (Org.). Theodor W. Adorno: grandes cientistas sociais. São Paulo: ática, 
1986. p. 6275.
ANTUNES, R. O caracol e sua concha: ensaios sobre a nova morfologia 
do trabalho.São Paulo: Boitempo, 2005. (Mundo do Trabalho).
ANTUNES, R.; ALVES, G. As mutações no mundo do trabalho na era da 
mundialização do capital. Educação & Sociedade, Campinas, v. 25, n. 87, 
p.335-51, maio/ago. 2004. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/es/
v25n87/21460.pdf>. Acesso em: 13 jul. 2012.
A realidade capitalista também se mostra retratada no documentário a 
seguir, que ilustra as faces antagônicas e perversas do modo de produção, 
tomando como referência a realidade norte-americana:
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ObservaçãO Orientada
CAPITALISMO: uma história de amor. Direção: Michael Moore. Produção: 
Kathleen Glynn e Michael Moore. EUA: Dog Eat Dog Films, Overture Films e 
Paramount Vantage, 2009. 1 DVD (127 min).
3 A ObSErvAçãO Em SErvIçO SOcIAl
A observação dos fatos do cotidiano é algo tão antigo quanto o desenvolvimento do gênero humano. 
Quando criança, o ser humano vai conhecendo o mundo e apropriando-se dele por meio da observação, 
a qual passa a ser inerente ao seu desenvolvimento. Assim, podemos afirmar que a observação é uma 
forma utilizada para conhecer o mundo e dele se apropriar.
Nos itens anteriores deste livro-texto, vimos que a observação é utilizada como uma forma de 
produção de conhecimento científico, mas também com outras possibilidades. De tal forma, também 
vem sendo usada por diversas disciplinas profissionais como uma técnica de intervenção, dentre as 
quais podemos citar a Psicologia, a Psicopedagogia e a Terapia Ocupacional. A observação tem, ainda, 
encontrado espaço entre os assistentes sociais, que recorrem a essa técnica como uma possibilidade 
de produção de conhecimento, de sistematização da prática e de aproximação da realidade na qual 
atuam.
A observação é ainda largamente utilizada pelos centros de formação em Serviço Social, posto que 
por tal abordagem o aluno começa a estabelecer relações com as áreas de intervenção do assistente 
social e também a familiarizar-se com essa modalidade de pesquisa e de intervenção do profissional. Por 
meio do estímulo a atividades em que o aluno utilize essa técnica, desde os anos iniciais da formação, 
estaremos incentivando a dimensão investigativa, que é proposta pela Abepss, conforme indicamos no 
item anteriormente trabalhado.
A observação comporta de tal forma um caráter dual que pode ser compreendida como uma 
técnica de intervenção, quando é utilizada pelo profissional para aproximar-se da realidade em que 
está inserido, mas também incorpora a característica de possibilitar a produção de conhecimento, a 
pesquisa, posto que, partindo da observação da realidade, podem ser colhidos dados e informações que 
poderão ser sistematizados com esse objetivo. Por isso a observação ganha tanto destaque e merece 
tanta atenção da parte de todos os profissionais e estudantes em Serviço Social. Assim, segundo 
Portes e Portes (2009), a observação pode ser considerada como uma possibilidade de formação e de 
intervenção.
Neste item, buscaremos conceituar algumas das formas de compreender a observação: sistemática, 
direta, estruturada e participante, para citar as mais correntes no Serviço Social. Também discorreremos 
sobre outros aspectos relacionados a essa técnica.
Portes e Portes (2009) colocam que a observação colabora na realização do processo de trabalho do 
assistente social, sendo considerada como um meio de execução do trabalho que combina atividades 
intelectuais, de formação do profissional, com as técnicas desenvolvidas por ele.
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A observação deve ser algo planejado pelo profissional que deseje desempenhá-la. Para Portes e 
Portes (2009), ao organizar sua observação, o técnico deve orientar-se pelas seguintes perguntas:
• Aonde quer chegar?
• O que pretende fazer?• O que precisa conhecer?
Partindo dessas questões, o profissional poderá orientar o processo de observação, direcionando-o a 
um fim específico e com objetivos a serem alcançados.
Essa forma de orientar a observação conduz o profissional a uma apreensão da realidade que o 
cerca e possibilita ao assistente social ir além das aparências. Permite-lhe ainda o rompimento com 
a prática repetitiva, mecânica e sem reflexão, posto que ao se aproximar da realidade, o profissional 
começa a conhecê-la, bem como passa a analisar a sua própria postura no trabalho, demandando assim 
que os assistentes sociais introduzam a observação em seu cotidiano e a realizem com base em uma 
perspectiva crítica de compreensão do real e da própria prática.
Para tanto é preciso que os profissionais tenham uma formação orientada em 
uma perspectiva crítica, que permita apreender o processo de constituição 
da realidade social na sua totalidade, bem como desvelar nexos causais 
presentes nessa mesma realidade (PORTES e PORTES, 2009, p. 32).
Isso porque essa habilidade não é inata, precisa ser desenvolvida e, portanto, profissionais e futuros 
profissionais precisam de orientação para alcançar esse objetivo.
 lembrete
A observação precisa ser compreendida como uma possibilidade de 
aproximação da realidade.
Por meio da observação, segundo Portes e Portes (2009), torna-se possível que o assistente social, 
partindo da sua aproximação da realidade, identifique aspectos que estão submersos, escondidos nesta, 
conforme já referimos. Para as autoras, a observação tem o potencial de desvelar o indizível, fazendo 
referência a conteúdos que não são expressos verbalmente, mas que podem ser captados de outra 
maneira. No caso em questão, devemos ter em mente que, muitas vezes, precisamos realizar várias 
abordagens com esse intuito, e que nós, como assistentes sociais, não devemos nos saciar apenas com 
o que está aparente, ao alcance da vista, mas buscar captar outras formas de expressão do real. Nesse 
processo, compete ao profissional articular o não dito, o indizível, com o dito, o exposto, e assim 
compor o diagnóstico da realidade.
Esse processo de observação torna-se um momento de mediação entre o assistente social e a situação 
observada, ou os sujeitos observados. Para Portes e Portes (2009), isso torna o processo relevante no que 
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ObservaçãO Orientada
concerne a proporcionar o crescimento e o conhecimento de ambos os atores, ou seja, do observador e 
do sujeito observado.
Portes e Portes (2009) sinalizam que essa aproximação pode acontecer como um processo acolhedor. 
No caso, este é considerado importante pelas autoras pelo fato de proporcionar uma aproximação entre 
o assistente social e os sujeitos da pesquisa, a qual deve ser baseada no acolhimento e na escuta. As 
autoras ainda colocam que, partindo de uma análise de nosso público-alvo, é possível concluir que, 
muitas vezes, somos os mais próximos do universo dele, no que se refere à escuta. Como tais, vemos as 
situações, os problemas vivenciados por eles, e devemos acurar nossa percepção de forma diferenciada.
Marsiglia (2006) considera também que os assistentes sociais devem incorporar a observação ao 
seu cotidiano. A autora qualifica a observação, com possibilidade de constituir-se em sistemática e 
assistemática. Segundo ela, a assistemática é a observação do cotidiano, mas sem uma orientação 
específica, ao passo que a sistemática é a observação desenvolvida com uma referência e que deve ser 
incorporada pelos assistentes sociais.
Tal modalidade de observação demanda, assim, a elaboração de um projeto, onde serão indicados os 
objetivos das abordagens. Além disso, é fundamental fazer um registro detalhado de todas as informações 
obtidas. Também é extremamente necessário realizar uma produção sobre a prática, socializando as 
informações obtidas e ainda buscando formular propostas de intervenção sobre os sujeitos pesquisados, 
para buscar, assim, melhorar as condições de vida destes.
A observação sistemática é, dessa forma, importante para profissionais em seu cotidiano, mas é 
relevante para docentes e pesquisadores, e fundamental para estudantes, os quais Marsiglia (2006) 
denomina de estagiários, pelo fato de essa técnica colaborar com a formação continuada de profissionais 
já graduados e com a formação básica dos futuros profissionais.
A observação é ainda compreendida por Barbosa (1999) por meio da terminologia observação direta, 
que, por sua vez, é tida como a técnica que deve ser desenvolvida com uma orientação específica, quase 
similar ao conceito de observação sistemática que é trabalhado por Marsiglia (2006). Essa orientação 
é necessária, nos termos de Barbosa (1999), porque a observação demanda treinamento por parte 
dos observadores. Segundo o autor, no processo de estágio, esse treinamento deve ser fornecido pelo 
processo de supervisão constante.
De tal forma, Barbosa (1999) destaca ainda que, para a observação ser considerada direta, é necessária 
a elaboração de um projeto para a atividade. Nesse projeto deverão ser pontuados os objetivos de 
desenvolvimento das intervenções, além de outros aspectos pertinentes e que devem ser considerados 
durante o processo de observação. Além desse projeto de orientação, Barbosa (1999) destaca que é 
necessário, ao observador, o desenvolvimento da atenção aos fenômenos sobre os quais irá se debruçar, 
além de uma apuração dos órgãos dos sentidos que permitem o contato com o fenômeno estudado.
A essa modalidade de observação, alguns autores aplicam a terminologia observação estruturada, 
como destacado por Buy (2002). Refere a autora que a observação estruturada deve ser compreendida 
como aquela em que o observador elabora um roteiro prévio à sua inserção no processo.
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A observação sistemática pressupõe também o registro dos dados obtidos. Considerando o âmbito 
do estágio em Serviço Social, o usual é que a observação seja registrada em diário de campo.
No entanto, é também frequente no Serviço Social a organização de estágios e a realização de 
pesquisas com base na observação participante. Lima, Almeida e Lima (1999) dizem que a observação 
participante surgiu da Antropologia, inicialmente, apenas como uma técnica de pesquisa. Para essas 
autoras, a observação participante é uma modalidade que torna possível a apreensão da realidade 
empírica; em razão disso, segundo elas, essa modalidade torna-se extremamente relevante ao passo que 
possibilita ao observador apreender as experiências diárias vivenciadas pelos seres humanos, atribuindo 
a elas um significado.
Segundo pontuam Lima, Almeida e Lima (1999), essa modalidade de observação pode ser realizada 
com a inserção do pesquisador próximo do que está sendo observado. Essa inserção, segundo as autoras, 
resulta na subdivisão da observação participante em outros quatro tipos: participante total, participante 
como observador, observador como participantes e observador total.
O participante total faz referência a uma modalidade de observação em que o observador age 
como se fosse um membro do grupo em que realiza a participação, integrando-o ao longo de todas as 
atividades desenvolvidas. O participante como observador faz acepção àquele que se limita à observação 
durante o período em que acontece o trabalho de campo. No tipo observador como participante, a 
observação acontece por meio de relações breves e formais. Por fim, o observador total faz referência 
a uma modalidade de observação em que não há interação do observador com o fenômeno. Essa 
modalidade pode ser complementada pela utilizaçãode outras técnicas.
Partindo dessas definições, optamos por orientar você, aluno, a realizar uma modalidade de 
observação sistemática. Nesse sentido, a observação deverá conter um roteiro previamente elaborado, 
o qual será visto com destaque no decurso deste livro-texto. Também demonstraremos as opções de 
registro e sistematização de dados para a elaboração de um relatório posterior à observação.
Na sequência, trataremos da importância do cotidiano profissional, posto ser esse o espaço 
privilegiado em que a observação deverá acontecer.
4 O cOtIDIAnO: ESPAçO PrIvIlEgIADO PArA A cOnStrUçãO DO 
cOnhEcImEntO
Vamos iniciar nossa reflexão sobre o cotidiano tomando como referência a belíssima canção de 
Chico Buarque.
Cotidiano
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
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ObservaçãO Orientada
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã (HOLLANDA, 1971).
O cotidiano incorpora ações desenvolvidas pelos seres humanos tendo em vista a satisfação das suas 
necessidades. Partindo da música e da análise de nossa realidade, podemos destacar: o levantar-se todos 
os dias, o trabalho, o café, o retorno para o lar às seis da tarde, o jantar, o amor, dentre outras ações 
e situações com as quais nos deparamos. Em razão disso, o cotidiano é muitas vezes percebido como 
o espaço das ações rotineiras, repetitivas e desprovidas de certa significação. Entretanto, incorpora 
também os momentos de insubordinação às situações vivenciadas, em momentos como os descritos 
pelo autor, em que “só penso em poder parar”, em mudar, “em dizer não”.
O cotidiano é, portanto, o locus privilegiado de reflexão sobre as situações que vivenciamos todos os 
dias. Para o caso de nossa análise, devemos compreender o cotidiano profissional como um espaço rico 
de possibilidades, as quais nos permitirão conhecer com maior propriedade nossos usuários, bem como 
os serviços e campos de atuação em que trabalhamos, em que expressamos nosso fazer profissional. 
É no nosso cotidiano profissional que estão expressas também as vontades, os desejos, os anseios da 
população com a qual atuamos e as possibilidades de enfrentamento das situações econômico-sociais 
que tanto os condicionam.
Portanto, quando falamos, no início deste livro-texto, sobre a importância da pesquisa com base 
no real e de nos apropriarmos do conceito de instrumentalidade, estávamos nos referindo à necessária 
aproximação do cotidiano.
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De tal forma, realizaremos uma aproximação dos conceitos que tentam explicar a importância que 
o cotidiano assume para as formas de compreensão da realidade, bem como destacaremos algumas 
contribuições, que se originaram no seio da profissão, acerca da importância do cotidiano do profissional 
da nossa área.
4.1 O cotidiano: algumas concepções provenientes da teoria marxista
Também dissemos que o referencial teórico a ser utilizado neste material tem influência da Teoria 
Marxista, que é, segundo a Abepss e conforme já destacamos neste livro-texto, o referencial teórico a ser 
adotado por todos os centros de formação em Serviço Social. Em razão disso, buscaremos aqui apontar a 
compreensão de dois teóricos marxistas que muito vêm influenciando o Serviço Social na compreensão 
acerca da importância do cotidiano: Agnes Heller e György Lukács. Desejamos, entretanto, destacar que 
serão realizadas apenas algumas colocações, posto que a teoria de ambos os autores é muito complexa 
e não pode ser resumida apenas no que iremos destacar.
 Observação
O conceito de cotidiano é extremamente relevante ao Serviço Social, já 
que nele se efetiva a possibilidade de observação.
Assim, é necessário pontuar que Agnes Heller nasceu em Budapeste em 1929 e que suas produções 
derivadas do marxismo encontram-se vinculadas à Escola de Budapeste, fundamental na disseminação 
de conceitos sobre a Teoria Social de Marx.
Figura 3 – Agnes Heller
Heller identificou que a Teoria Social de Marx, apesar de realizar uma análise profunda das questões 
econômicas, acabou negligenciando a compreensão do cotidiano (HELLER, 1982a apud PATTO, 1993).
Para Heller, isso teria sido um descuido de Marx, posto que, segundo as suas compreensões, o 
cotidiano expressa a realidade que é vivenciada por grande parte da população: uma realidade de 
subordinação aos interesses do capital. Heller demonstra que a compreensão do cotidiano nos remete 
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ObservaçãO Orientada
a pensá-lo como possuidor de todas as peculiaridades que podem conduzir o homem à alienação ou 
então fomentar processos de busca pela transformação da realidade na qual está inserido (HELLER, 
1982a apud PATTO, 1993).
Portanto, o cotidiano não é visto como um momento focal e isolado do viver humano, mas sim 
como expressão da realidade circundante, da totalidade dos fenômenos econômicos, sociais e históricos 
(HELLER, 1982a apud PATTO, 1993). Araldi (2007, p. 64), partindo da teoria de Heller, aponta que o cotidiano 
é determinado pelas: “[...] relações determinantes e determinadas pela economia, sociabilidade, cultura, 
arte, formação familiar, religiosa, moral, sexo, etnia, ciência, mídia, escola, comunidade, sensações e 
ações, em diferentes medidas em cada indivíduo [...]”. Essas relações influenciam os seres humanos de 
forma diferenciada, mas os colocam em contato com a realidade de todo o gênero humano.
No sentido expresso, cada ser humano possuirá uma apreensão do real que, por sua vez, estará 
relacionada à sua realidade concreta. É essa apreensão que o coloca em contato com a humanidade, de 
modo geral. Dessa forma, a cotidianidade é, para Heller (1982a apud PATTO, 1993), o espaço em que a 
heterogeneidade se manifesta.
Assim, segundo Heller, o cotidiano tem o potencial de colaborar no processo de humanização das 
pessoas, pois é por meio dele que o ser humano vai estabelecendo relações sociais com outros homens 
e, desse modo, vai sendo formada também a sua subjetividade. Portanto, concordando com a Teoria 
Marxista, Heller parte do princípio de que a realidade concreta determina a subjetividade dos seres 
humanos (HELLER, 1982a apud PATTO, 1993).
Heller diz ainda que o cotidiano é o espaço em que estão expressas as respostas imediatas e mediatas 
que os seres humanos oferecem às suas necessidades. Tais necessidades provêm da realidade concreta. 
Portanto, para a autora, o cotidiano é também resultado da construção do gênero humano (HELLER, 
1996 apud ARALDI, 2007).
Como instância de atenção das necessidades, o cotidiano também pode ser compreendido como 
o espaço da repetitividade, da rotina e da previsibilidade, posto que muitas das nossas ações 
cotidianamente desenvolvidas são repetitivas, seguem uma rotina estabelecida e parte delas é previsível.Por isso, de certa forma, a nosso ver, torna-se difícil uma compreensão crítica acerca do nosso cotidiano, 
por desenvolvermos ações repetitivas, rotineiras e algumas delas previsíveis (ARALDI, 2007).
Entretanto, essa é uma instância insuprimível, ou seja, imprescindível ao desenvolvimento humano, 
e nunca será possível ao ser humano, por mais crítico que seja, conseguir desvencilhar-se totalmente do 
desempenho de ações rotineiras em seu cotidiano. Como também não há um ser humano que sobreviva 
apenas desempenhando ações rotineiras e sem desenvolver nenhuma reflexão, mesmo mínima, sobre 
elas.
A vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem, sem nenhuma 
exceção, qualquer que seja seu posto na divisão do trabalho intelectual e 
físico. Ninguém consegue identificar-se com sua atividade humano-genérica 
a ponto de poder desligar-se inteiramente da cotidianidade. E, ao contrário, 
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não há nenhum homem, por mais “insubstancial” que seja, que viva tão 
somente na cotidianidade, embora essa o absorva preponderantemente 
(HELLER, 1972, p. 17 apud ARALDI, 2007, p. 63).
Quando desempenhamos nossas ações em nosso cotidiano, mesmo inconscientemente, agimos 
com base em uma hierarquia. Esta consiste em atribuirmos valores determinados às nossas ações, 
hierarquizando-as de forma que sejam priorizadas as que julgamos mais relevantes. Esse também é um 
processo rotineiro e que passa muitas vezes despercebido por nós (ARALDI, 2007).
Essa teoria de Agnes Heller vem encontrando grande aceitação entre teóricos do Serviço Social, posto 
que dela têm sido extraídas muitas contribuições valiosas para orientar nossa prática e nossa relação 
estabelecida com o cotidiano, inclusive o profissional. Realizaremos também uma aproximação de outra 
fonte de compreensão do cotidiano, conforme elencado no início deste item, e que tem exercido grande 
influência no Serviço Social: a compreensão de Lukács.
 Observação
Lukács é um teórico relevante para o Serviço Social, bem como Agnes 
Heller.
Lukács, nascido também em Budapeste, apresenta uma forma de compreensão do cotidiano similar 
à de Agnes Heller.
Esse estudioso exerceu e exerce grande influência no Serviço Social, e suas concepções são trazidas 
para o seio da profissão por diversos autores, dentre os quais o teórico José Paulo Netto. Esse autor 
conseguiu aplicar a concepção de cotidiano trazida por Lukács à prática do Serviço Social.
Para Lukács, o cotidiano se organiza pelas necessidades do dia a dia, postas para que o ser humano 
consiga sobreviver. Segundo essa concepção, a vida cotidiana é insuprimível, ou seja, é impossível ao 
homem viver e sobreviver sem a ela. É a atenção a essas necessidades que garante, nos termos de Lukács, 
a reprodução direta dos indivíduos, e, por conseguinte, a reprodução indireta de toda a sociedade, ou 
seja, o indivíduo consegue sobreviver, reproduzir-se, e, de tal maneira, a sociedade em geral acaba 
também se reproduzindo (LUKáCS, 1980 apud SILVA, 2008).
Segundo Lukács, o cotidiano representa e expressa o “começo e o fim de toda ação humana” 
(LUKáCS, 1980 apud FREDERICO, 2000, p. 303) e pode ter momentos em que prevalece o senso comum 
e momentos em que florescem “formas superiores de consciência” (LUKáCS, 1980 apud FREDERICO, 
2000, p. 303). Essas “formas superiores de consciência” podem ser desenvolvidas partindo do cotidiano, 
desde que este seja observado sob a ótica da totalidade, reconhecendo o privilégio do desenvolvimento 
histórico-social da humanidade no sentido em questão (LUKáCS, 1980 apud SILVA, 2008).
Isso corresponderia, a nosso ver, a compreender o cotidiano como expressão do desenvolvimento 
por que passou o gênero humano, e não como um fato isolado. Assim, apesar de o cotidiano ser, nos 
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temos de Lukács (1980 apud SILVA, 2008), dotado de ações espontâneas, devemos compreender que 
essas ações possuem relação com os aspectos globais, de desenvolvimento econômico, social e histórico.
O ser humano deve, no entanto, ser concebido, segundo Lukács (1980 apud SILVA, 2008), como ser 
singular e genérico. Singular porque faz referência à vida do indivíduo. No entanto, esse indivíduo nasce 
e se desenvolve dentro de uma sociedade, composta por relações sociais, que trazem influência à vida 
cotidiana, à singularidade do indivíduo.
Lukács (1980 apud SILVA, 2008) descreve, ainda, que o cotidiano é formado por três componentes 
ontológicos: a heterogeneidade, a imediaticidade e a superficialidade extensiva.
A heterogeneidade seria compreender o cotidiano como expressão da diferença de cada ser 
humano, ou seja, cada indivíduo vivencia um processo de constituição, o qual resulta em diferenças 
entre os seres humanos, também descritas pelo termo diferencialidade. A imediaticidade, por 
sua vez, faz referência a determinados atos que o ser humano precisa desenvolver para responder 
ativamente às suas necessidades, sendo compreendida como a conduta imediata do ser humano. 
Por fim, a superficialidade extensiva faz referência ao fato de que é impossível ao ser humano 
refletir sobre todos os seus atos, sendo alguns destes compreendidos por ele de forma “superficial” 
(LUKáCS, 1980 apud SILVA, 2008).
Para Lukács (1980 apud FREDERICO, 2000, p. 302), o próprio cotidiano incorpora a possibilidade 
de ascendermos do conhecimento do senso comum para “formas de elevação” de consciência, sendo, 
assim, como em Heller (1972 apud FREDERICO, 2000), compreendido como de suma importância para 
a superação das desigualdades sociais. Lukács (1980 apud FREDERICO, 2000) denomina essas formas 
superiores de consciência com a terminologia consciência humano-genérica.
Essas reflexões, em grande parte, explicam por que o cotidiano profissional pode, em certa 
medida, deixar de ser por nós observado: pelo fato de que muitas vezes, em nossa vivência e em nossa 
prática profissional, realizamos ações repetitivas, corriqueiras, buscando oferecer respostas imediatas 
aos problemas que enfrentamos. Para que possamos, no entanto, ascender a uma nova forma de 
compreensão de nosso cotidiano profissional, precisamos nos aproximar dele, revendo-o sob uma nova 
perspectiva, uma nova forma de olhar e de compreender, segundo os princípios teóricos; caso contrário, 
permaneceremos no senso comum. Por isso, dedicamos este item do livro-texto para que você possa 
compreender com outro significado o cotidiano profissional e a observação deste; e que esses conceitos 
possam orientar o desenvolvimento das atividades propostas por esta disciplina.
Arroladas essas colocações, na sequência destacaremos a compreensão de teóricos e profissionais do 
Serviço Social sobre o cotidiano.
4.2 O cotidiano e o Serviço Social
Partindo das definições de Heller e Lukács, podemos concluir que o cotidiano é um espaço privilegiado 
para a aproximação da realidade; em virtude de tal aproximação, torna-se também possível colaborar 
para o processo formativo de profissionais e futuros profissionais.
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De tal forma, o primeiro passo para apropriar-se do cotidiano, segundo Souza e Azevedo (2004), é 
aproximar-se dele, aproximar-se da realidade, desvelando-a. Para realizar esse desvelamento da realidade 
e assim romper com posturas apenas respaldadas no senso comum, é fundamental a capacidade de 
interrogar, de afastar-se do cotidiano da prática profissional e de olhar para esse cotidiano com certo 
estranhamento.
Precisamostomar distância de nosso mundo costumeiro, por meio de nosso 
pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se 
não o conhecêssemos a cada momento, no sentido de refletir para poder 
ressignificar nossa prática cotidianamente (SOUZA e AZEVEDO, 2004, p. 55).
Assim, são necessárias duas posturas diferenciadas, as quais os autores do texto destacam tratar-se 
de uma necessidade imperativa de negar o senso comum, o aparente e os preconceitos, bem como 
de questionar o que são determinados fenômenos e o porquê da ocorrência destes, transcendendo 
assim o que é apresentado à primeira vista. Partindo dessa apropriação da realidade, devemos nos 
conscientizar também da necessidade de que nossa prática seja conduzida de forma coerente com o 
projeto ético-político assumido por toda a categoria profissional.
Netto e Carvalho (2000) destacam esse processo por meio da expressão suspender a cotidianidade, 
fazendo, assim, referência a essa necessidade de perceber o cotidiano de uma forma diferenciada. A 
suspensão é tida pelos autores como um novo olhar que é conferido aos fenômenos com os quais nos 
deparamos em nosso dia a dia, com o nosso cotidiano. Caso contrário, a nosso ver, estaremos apenas 
desenvolvendo a prática pela prática, sem uma reflexão e sem que as dimensões necessárias à nossa 
formação sejam desenvolvidas por nós.
Partindo dessa aproximação, ou suspensão, que vai nos trazer informações sobre a realidade 
circundante e também sobre a nossa prática profissional, poderemos nos apropriar do cotidiano, 
desvelar suas particularidades, suas singularidades, mas sempre relacionando-o com a realidade geral, na 
perspectiva da totalidade. Isso porque, se não o relacionarmos com a realidade, a nosso ver, poderemos 
incorrer na tendência, muitas vezes reproduzida em nossa categoria profissional, a compreender os 
fenômenos sociais como resultados de situações focais, locais, sem relação com o todo.
Souza e Azevedo (2004) colocam, assim, que o cotidiano é o locus privilegiado em que os profissionais 
objetivam sua ação, ou seja, em que desempenham atividades que modificam os seres humanos com 
os quais atuam; entretanto, nesse processo, os próprios profissionais também são modificados. Essa 
aproximação do cotidiano provoca, assim, mudanças em nosso público-alvo, mas também no próprio 
profissional, podendo ser assim compreendida a objetivação do profissional. Por meio da aproximação 
do cotidiano, é possível pensar em uma nova forma de compreender a profissão, a ação e mesmo a 
metodologia utilizada.
A ação cotidiana dos assistentes sociais precisa, ainda, ser compreendida como um espaço em 
que as heterogeneidades, as diferenças, ganham destaque. No caso, emergem tanto as diferenças de 
classe quanto as de vivência, de organização da vida, dentre outras (SOUZA e AZEVEDO, 2004). Nessa 
diversidade em que estamos inseridos e sobre a qual atuaremos, são expressas inúmeras dimensões, 
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situações, que afetam e condicionam o ser humano. Essa aproximação, portanto, produzirá em nós, 
profissionais e futuros profissionais, a reconsideração de nossos valores, de nossas compreensões sobre 
o mundo.
Essa apropriação do cotidiano de nossa prática profissional pode e deve, segundo Souza e Azevedo 
(2004), basear-se em três perspectivas convergentes: a busca do real ou da realidade, a centralidade 
do vivido e a totalidade. Podemos compreender que a busca do real ou da realidade só se dá por 
meio da aproximação desta ao cotidiano que vivenciamos em nossa prática e que é experimentado por 
nossos usuários. A centralidade do vivido refere-se às experiências que vivenciamos como profissionais 
e também às vivências dos sujeitos com os quais atuamos. A totalidade, por sua vez, faz acepção à 
compreensão de todos esse fenômenos, que não estão isolados de um contexto amplo, total, que define 
a vida em sociedade e tem estreita relação com o modo de produção capitalista.
As autoras ainda apontam que essa aproximação da realidade deve acontecer de forma vinculada à 
utilização de um instrumental pertinente, mas deve ser embasada em uma reflexão teórica que tenha 
como norte o projeto ético-político assumido pela profissão.
É interessante atentar para o fato de que não nos apropriamos apenas das particularidades de nossa 
prática profissional, mas também das particularidades da vida dos sujeitos com os quais atuamos. Assim, 
a aproximação do cotidiano incorpora também a compreensão da realidade de nosso usuário (NETTO e 
CARVALHO, 2000).
O cotidiano é o espaço privilegiado em que realizamos a observação dos fatos e, assim, empreendemos 
a reflexão sobre a prática por meio da mediação entre esta e a teoria apreendida.
Na próxima Unidade, ofereceremos a você, aluno, os parâmetros necessários para que realize uma 
observação da prática desenvolvida no cotidiano profissional. Demonstraremos, ainda, possibilidades de 
construção de instrumentais com os quais você poderá caracterizar a instituição em que desenvolverá 
a abordagem, bem como a comunidade em que ela está inserida. Orientaremos também sobre como 
elaborar um projeto de integração.
Gostaríamos de lembrá-lo de que, ao final desta Unidade, destacaremos também exercícios para que 
você busque resolvê-los e, assim, possa testar os conhecimentos até agora obtidos.
 Saiba mais
Para que possa estudar com maiores detalhes as compreensões sobre 
o cotidiano, partindo da Teoria Marxista, que tem influenciado o Serviço 
Social no Brasil, você pode recorrer à fonte:
HELLER, A. Cotidiano e História. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
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 resumo
Nesta Unidade, iniciamos as discussões sobre a importância da 
observação na prática do assistente social. Para atingir tal objetivo, 
começamos demonstrando que tal técnica, atualmente utilizada como 
um instrumento de prática de nossa profissão, foi constituída a partir 
da pesquisa científica. Essa modalidade de pesquisa que visa à produção 
de conhecimento sobre a realidade vivenciada por alguns segmentos 
populacionais começa a desenvolver-se no século XIX, tendo como 
referência inicial a observação das condições de vida de alguns segmentos 
da população. Assim, esse processo inaugura o uso da observação como 
uma técnica de produção de conhecimento científico.
No que diz respeito ao Serviço Social, especificamente, devemos 
destacar que a produção do conhecimento é recente em nossa profissão, 
ganhando relevância a partir da década de 1980. Atualmente, é consensual 
que a produção do conhecimento em Serviço Social deve ser orientada pela 
pesquisa, e uma modalidade relevante é a pesquisa com base na coleta de 
informações extraídas da própria prática profissional, do próprio cotidiano, 
por meio de observação, sistematização e análise dos dados obtidos. Por 
meio dessas abordagens, torna-se possível colaborar com a produção 
de conhecimento; este deverá servir tanto para a formação profissional 
quanto para oferecer possibilidades de mudança da vida das populações 
pesquisadas.
Entretanto, a observação também se constitui como uma técnica 
de intervenção do assistente social. Para isso, faz-se necessário realizar 
uma abordagem histórico-social em que seja possível discutir aspectos 
relacionados à instrumentalidade da profissão, desde o desenvolvimento 
das primeiras abordagens metodológicas até as concepções atuais e 
recorrentes em nossa área.
Foi possível observar que o Serviço Social teve sua metodologia 
fortemente influenciada pela Psicologia, pela Sociologia e até mesmo pela 
Medicina. Estudamos que no período da décadade 1930 até meados da 
década de 1960, foram influentes métodos provenientes desses ramos do 
saber, e suas expressões se deram por meio das intervenções de caso, grupo 
e comunidade. Essas possibilidades metodológicas só foram repensadas a 
partir das décadas de 1960 e 1970, com o Movimento de Reconceituação, 
em que foi proposto o rompimento com essas abordagens em favor da 
constituição do método único, além da elaboração de uma metodologia 
respaldada pela Teoria Marxista.
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Tais abordagens metodológicas que foram se desenvolvendo 
historicamente auxiliaram na constituição do Serviço Social como 
profissão. Hoje, no entanto, a questão instrumental recebe as influências 
da sociedade capitalista madura e consolidada e dos modos de produção 
sobre os quais esta se encontra assentada. Segundo o que estudamos, há 
a exigência de um profissional que tenha pleno domínio das técnicas, que 
seja polivalente e, partindo da ótica burguesa, que não questione nem 
leve seus usuários a questionar a estrutura social constituída. Espera-se 
um profissional que produza resultados e que possa, assim, colaborar com 
a sociedade burguesa estabelecida, requisitando-se, para isso, apenas um 
profissional competente.
Esse predomínio das técnicas em detrimento da prática reflexiva, 
ou práxis, é um fator com o qual nossa profissão precisa romper. Esse 
rompimento só se torna possível por meio da observação e da aproximação, 
pelos profissionais, da realidade sobre a qual deverão atuar, com recorrência 
a uma bagagem teórica específica que, segundo a Abepss é o marxismo.
O rompimento com a ideia de profissão essencialmente técnica também 
foi objeto de nosso estudo: reforçamos a importância de uma nova noção, 
que corresponde à compreensão da instrumentalidade, uma forma de 
entender a utilização do instrumental técnico com base na teoria e nos 
princípios ético-políticos que orientam a nossa profissão.
Como parte desse processo se dá por meio da observação, também 
estudamos nesta Unidade a importância que tal técnica possui para o 
Serviço Social. Procurarmos demonstrar que a observação tanto pode ser 
utilizada como técnica de pesquisa (e, por conseguinte, de produção do 
conhecimento científico) quanto pode colaborar no processo formativo 
de futuros assistentes sociais e ainda contribuir na formação continuada 
de profissionais já atuantes no mercado de trabalho. Para tal, necessita 
transcender da forma assistemática para a sistemática.
Partindo da inserção dos alunos em processos de observação, estaremos 
também colaborando para estimular o desenvolvimento de duas habilidades 
exigidas pela Abepss para o Serviço Social: a interventiva e a investigativa. 
Essa aproximação dos campos de trabalho permitirá o entendimento 
acerca da intervenção durante o processo investigativo. A observação será 
desenvolvida no cotidiano das práticas profissionais.
Foi possível constatar que o cotidiano incorpora aspectos, situações 
e fenômenos aos quais deveremos nos ater e dos quais deveremos nos 
aproximar. Teremos de ver esses aspectos com um outro olhar. Essa 
aproximação nos permitirá extrair, do cotidiano, informações relevantes 
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sobre a nossa prática profissional, sobre o público com o qual atuamos e 
sobre outros fenômenos que influenciam e condicionam a nossa profissão.
A síntese desse processo equivale a compreender que a observação é 
uma necessidade da profissão, se esta pretende, de fato, colocar a noção 
de instrumentalidade em prática e, assim, colaborar com a qualificação 
de nossa atividade profissional e com a qualidade dos serviços por nós 
prestados.
 Exercícios
Questão 1 (FCC – MPE-SE 2009 – Adaptada). Ao situar a particularidade da profissão na divisão 
sociotécnica do trabalho, essa forma de compreender o surgimento do Serviço Social contribui para a 
apreensão do significado sócio-histórico da profissão e de sua instrumentalidade. Permite apreender a 
instrumentalidade da profissão como:
A) Expressão da interconexão das racionalidades formal-abstrata e instrumental, sendo o Serviço 
Social considerado como uma técnica social com vistas a tornar-se uma ciência social aplicada.
B) O uso de meios e instrumentos imprescindíveis ao agir profissional, por meio dos quais os assistentes 
sociais podem passar da mera intencionalidade para a efetivação de ações profissionais.
C) Razão instrumental, subordinada ao alcance dos fins particulares, dos resultados imediatos e 
funcional às estruturas.
D) Razão substantiva, voltada para os fins universalistas, para valores sociocêntricos, preocupando-se 
com as implicações das escolhas dos meios e no estabelecimento de finalidades.
E) Um conjunto de condições que a profissão cria e recria no exercício profissional e que se diversifica 
em função de um conjunto de variáveis.
Resposta correta: alternativa E.
Análise das alternativas:
A) Alternativa incorreta.
Justificativa: a profissão vivencia as influências da racionalidade formal-abstrata expressa na 
solicitação de determinados perfis profissionais, sendo estes o profissional polivalente e o trabalho 
setorizado, dentre outros tantos perfis que foram destacados neste livro-texto. De certa forma, essa 
colocação está correta, posto que a racionalidade formal-abstrata traz influências à instrumentalidade 
da profissão, mas tal instrumentalidade não pode ser compreendida como resultado apenas desse 
fenômeno. Além disso, o Serviço Social já se encontra compreendido como uma ciência social aplicada, 
portanto não virá a se tornar algo que já é.
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B) Alternativa incorreta.
Justificativa: a instrumentalidade não pode ser compreendida apenas como o uso de meios e 
instrumentos. Conforme observamos, instrumentalidade incorpora outros aspectos além das técnicas, 
tais como a capacidade do profissional e a qualidade do serviço, sendo de suma importância a adoção de 
um referencial teórico. Além disso, nessa alternativa são usados os termos meios e instrumentos, que 
possuem o mesmo significado na teoria estudada. Os meios de trabalho fazem referência às técnicas, 
aos instrumentos e à bagagem teórica adotada pelo profissional.
C) Alternativa incorreta.
Justificativa: a instrumentalidade busca romper com essa conotação de razão instrumental, 
sem recorrência teórica e, sobretudo, com a concepção do instrumental do Serviço Social como um 
mecanismo de manutenção da estrutura social atualmente constituída.
D) Alternativa incorreta.
Justificativa: a instrumentalidade não pode ser compreendida como razão substantiva, posto que 
esse termo faz referência a uma forma de compreender o mundo com base no bem comum, nem pode 
ser entendida como orientada apenas a valores sociocêntricos para a construção de uma sociedade. 
Isso porque faz referência à capacidade de um profissional e à qualidade do seu serviço, tomando como 
base determinados valores. A alternativa dá a entender que a instrumentalidade do assistente social 
é a responsável por alcançar uma mudança social, o que, como sabemos, é uma visão messiânica do 
instrumental e da própria profissão.
E) Alternativa correta.
Justificativa: a instrumentalidade é condicionada por uma série de situações – econômicas, sociais 
e políticas – que influenciam a sua constituição, ou, conforme descrito nessa alternativa, “um conjunto 
de condições”, as quais possibilitam ao Serviço Social sempre reformularseus conceitos, fazendo a 
instrumentalidade ser “criada e recriada” pela categoria profissional.
Questão 2 (UFAC 2010 – Adaptada). Acerca da instrumentalidade do Serviço Social, julgue os 
itens a seguir:
I – Os objetivos da profissão são construídos a partir de uma reflexão teórica, ética e política, que 
define os instrumentos e as técnicas de intervenção. Conclui-se que essas metodologias de ação 
não estão prontas e acabadas.
II – Os instrumentos e as técnicas de intervenção são mais importantes que os objetivos da ação 
profissional.
III – Cabe ao assistente social ter habilidade técnica de manusear determinado instrumento de 
trabalho na sua prática e adaptar tal instrumento às necessidades a que precisa responder no seu 
cotidiano.
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IV – É necessário compreender a dinâmica da realidade e quais mudanças são essas para que o 
instrumental utilizado seja o mais eficaz possível e, de fato, possa produzir as mudanças desejadas 
pelo assistente social – ou chegar o mais próximo possível disso.
Assinale a alternativa correta:
A) Estão corretas as afirmativas I e II.
B) Estão corretas as afirmativas I, III e IV.
C) Estão corretas as afirmativas I e IV.
D) Todas as afirmativas estão corretas.
E) Todas as afirmativas estão incorretas.
Resposta correta: alternativa B.
Análise das alternativas:
I - Afirmativa correta.
Justificativa: de fato, os instrumentos e as técnicas do assistente social estão em constante construção, 
a qual é resultado da reflexão processada nos âmbitos teórico, ético e político, representando assim o 
conceito de instrumentalidade defendido por Guerra (2007, 2010).
II - Afirmativa incorreta.
Justificativa: os instrumentos e as técnicas não são, para Guerra (2007, 2010), mais importantes que 
os objetivos a serem alcançados pela profissão, mas são complementares.
III - Afirmativa correta.
Justificativa: segundo estudamos, a habilidade técnica é importante para proporcionar a intervenção 
no cotidiano. Nesses termos, a realidade é dialética, está em constante construção e por isso se altera. 
Para intervir nesse cenário, o domínio das técnicas é fundamental, mas tal habilidade técnica deve vir 
também instrumentalizada pela reflexão teórica.
IV - Afirmativa correta.
Justificativa: está correta pelo fato de fazer referência à necessidade de o profissional compreender a 
realidade que o cerca e sobre a qual irá atuar; somente a partir dessa leitura de realidade, associando-se 
à compreensão teórica, é que o profissional poderá atingir o conceito de instrumentalidade.

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