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Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) Movimento Dentário A aula de hoje fala sobre a base que precisamos ter para a movimentação dos dentes, que irá conduzi-los para a posição correta. Movimento dentário fisiológico Começa muito cedo, desde a formação dos dentes (fase intraóssea do movimento dentário) com seu movimento de erupção (a partir do estágio 6 de Nolla, com a formação completa da coroa dentária). Essa movimentação não termina, pois, mesmo após o dente entrar em contato com seu antagonista, continua tendo pequenos movimentos que são chamados movimentos compensatórios. Durante a juventude, compensam o crescimento da maxila e da mandíbula durante o surto de crescimento puberal) – equilíbrio oclusal juvenil. Durante a fase adulta, passa a ter um movimento eruptivo ainda mais lento, mas está presente para compensar os desgastes oclusais e interproximais decorrentes da atrição funcional – equilíbrio oclusal adulto. Esses movimentos são de erupção passiva. Outro tipo de movimento fisiológico é aquele causado por migrações patológicas (parece contraditório, mas o que quer dizer é: a migração é recorrente por ausência de dentes, pontos de contato (situações patológicas de um dente), mas o movimento não foi causado por nenhuma força externa. O próprio organismo causa o movimento. Então, migrações patológicas configuram um movimento fisiológico. São alguns exemplos de migrações patológicas: • Migração mesial/distal • Desvio axial • Extrusão Movimento dentário ortodôntico Proporcionamos forças ortodônticas progressivamente impostas para causar a movimentação. De modo geral: A força ortodôntica é aplicada ao dente e, através do ligamento periodontal, a força é transmitida ao osso alveolar, cuja alta plasticidade é uma das principais características. Essa força promove reações tissulares que resultarão em movimento. Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) Tecidos de suporte Pra entender melhor, vamos ver como cada tecido reage às forças aplicadas. Os tecidos envolvidos são: • Tecidos dentários o Polpa dentária o Dentina o Cemento o Esmalte • Tecidos periodontais o Periodonto de proteção (tecido gengival) o Periodonto de inserção (ligamento periodontal, osso alveolar e cemento) Todos esses tecidos participam de alguma etapa do movimento ortodôntico. o Polpa dentária ▪ Forças leves Leve hiperemia de tecidos pulpares Leve sensibilidade a alterações térmicas Normalmente se assemelha a um quadro transitório de pulpite. ▪ Forças pesadas Degeneração parcial ou total do tecido pulpar Redução da sensibilidade a estímulos elétricos o Dentina ▪ Forças leves (normalmente a dentina não apresenta alterações, somente em forças pesadas) ▪ Forças pesadas Perda de continuidade da matriz cementoide e cemento (levando à exposição da dentina que, se continuada, também será reabsorvida) Reabsorção do tecido dentinário Reparo com tecido cementoide Normalmente, a área da dentina mais suscetível à reabsorção é a de ápice radicular (o que não impede de haver reabsorção nas laterais radiculares) Obs: quando temos reabsorção nos ápices, não há regeneração; quando temos reabsorção lateral, temos reparo da dentina com tecido cementóide. o Cemento Áreas de reabsorção semi-lunar (no início da ação de células plásticas sobre o cemento) ▪ Forças intermitentes (que não são contínuas – agem por um tempo e são abruptamente interrompidas, como em aparelhos móveis) As cavidades reabsortivas são preenchidas por tecido cementóide (não é cemento original) o Esmalte Nenhuma alteração é observada no esmalte decorrente do movimento dentário propriamente dito; o que podemos observar são áreas de descalcificação (manchas brancas) ao redor das superfícies da aparelhagem ortodôntica quando a higienização foi precária. Devemos evitar forças pesadas Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) o Periodonto de proteção Gengiva livre (mais próxima da cervical do dente): importante para observar a saúde periodontal antes de iniciar o tratamento ortodôntico; Gengiva inserida (grande inserção de fibras gengivais): limita alguns tipos de movimento. Quando o paciente tem bastante gengiva inserida, significa que ele tem uma boa inserção, o que nos permite mais movimentos sem comprometer a saúde periodontal do paciente; Mucosa alveolar (maleável, permite movimentação) Fibras transeptais: do septo alveolar de um dente até o seu adjacente São significantes pelo seu período de remodelação ser longo (232 dias), ao contrário das fibras periodontais que são de 28 dias. São as responsáveis pela recidiva ortodôntica. O movimento deve ser mantido por mais tempo para evitar a recidiva – manter o aparelho ou confeccionar contenções. o Ligamento periodontal (periodonto de inserção) Rico em fibras colágenas e células mesenquimais indiferenciadas (osteoblastos – células formadoras, osteoclastos – células absortivas e fibroblastos – manutenção do ligamento periodontal) Vasos sanguíneos (aporte de oxigênio e nutriente – vitalidade do ligamento) Terminações nervosas (nocicepção – medida protetiva) Fluidos teciduais (amortecimento das forças atuantes) o Osso alveolar (periodonto de inserção) Formado por duas lâminas de osso cortical e osso medular no seu interior Possui alta plasticidade (muito capaz de responder às forças atuantes sobre ele) e é constantemente remodelado em resposta às demandas funcionais Resposta à função normal São forças intermitentes, isso é, agem por um período e são abruptamente interrompidas. Podem variar de 0,5 a 50kg/1s (normalmente, cada ciclo de mastigação dura 1 segundo) Periodonto em repouso → Força promovendo desorganização das fibras/intrusão momentânea do dente/escape de fluido do ligamento periodontal para os espaços medulares → Remoção da força/retorno à posição inicial do dente/fluidos retornam ao ligamento periodontal/retorno à homeostase. Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) Resposta à força ortodôntica O início da resposta à função normal e à força ortodôntica é muito semelhante. A diferença é: o a força ortodôntica é intensa o mobiliza número maior de células o promovem movimento dentário mais rápido o causam sensação dolorosa (semelhante à pericementite – lembrar que em condições normais, em função, não sentimos dor) que dura, normalmente, de 2 a 3 dias após a aplicação da força. Então o que causa essa diferença é o tempo de ação da força. A formação de um vetor, direcionando a força aplicada no dente dentro do alvéolo, promove a criação de duas zonas (ou lados): o Lado de pressão Corresponde ao lado do sentido ao qual essa força é aplicada Força Ótima: ocorre reabsorção frontal Força Pesada: ocorre reabsorção à distância o Lado de tensão Lado oposto ao qual a força é direcionada Força ótima ou pesada: ocorre aposição óssea para reestabelecer as dimensões do ligamento periodontal Então, o tipo de força aplicada é importante para as consequências no lado de pressão Mecanismos do movimento dentários São hipóteses que tentam explicar como o movimento dentário acontece. A medida em que as pesquisas evoluíram, atualmente, acreditamos muito mais que existe a complementação dos mecanismos do que a ação de apenas um deles. Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) o Mecanismo da deformação óssea e da piezoeletricidadeO colágeno e a hidroxiapatita se apresentam em estado cristalino no osso alveolar e esses cristais apresentam propriedades piezoelétricas (capacidade de produzir elétrons -corrente elétrica- quando são deformados). ▪ Alteração da permeabilidade das membranas celulares; ▪ Alterações celulares; ▪ Liberação de mediadores químicos capazes de atrair células que vão promover absorção ou aposição óssea. o Mecanismo do fluxo sanguíneo No lado de pressão, teremos os vasos sanguíneos ocluídos (redução da luz dos vasos). Em consequência, dá-se a diminuição do aporte de nutrientes e oxigênio para o tecido. No lado de tensão, temos o aumento da luz dos vasos sanguíneos e, consequentemente, o aumento do aporte de oxigênio e nutrientes e da concentração celular. Muito complementar do próximo mecanismo, que é de reação inflamatória. o Mecanismo da pressão e tensão O organismo vai reagir de forma diferente na zona de tensão e na zona de pressão mediante a ação da força. ▪ Lado de pressão (mediante a uma força ótima) REABSORÇÃO FRONTAL OU DIRETA - Diminuição do espaço do ligamento periodontal - Extravasamento do fluido tecidual para os espaços medulares - Fibras colágenas parcialmente comprimidas - Vasos parcialmente comprimidos Células promovendo absorção (osteoclastos) Células promovendo aposição (osteoblastos) Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) - Células mecanicamente deformadas - Diminuição do metabolismo celular - Liberação de prostaglandinas As prostaglandinas são mediadores químicos de uma reação inflamatórias que vão promover o aumento da permeabilidade vascular, ativação das células inflamatórias e vão provocar a diferenciação celular das células mesenquimais indiferenciadas do ligamento periodontal. Essas células vão sofrer diferenciação em osteoclastos → reabsorção óssea Na figura, podemos perceber o lado de pressão sofrendo reabsorção frontal (pois as células foram recrutadas diretamente do ligamento periodontal). Essa cascata de acontecimentos ocorre para o reestabelecimento das dimensões do ligamento periodontal, antes comprimido. ▪ Lado de tensão O mecanismo é exatamente o inverso do anterior. - Aumento do espaço do ligamento periodontal - Fibras tensionadas - Vasos sanguíneos dilatados - Aumento do fluxo sanguíneo - Aporte de oxigênio e nutrientes - Proliferação celular Mediante a esse ambiente químico, temos estímulo das células mesenquimais indiferenciadas sofrerem diferenciação em osteoblastos → aposição óssea Os osteoblastos formam matriz osteóide que, posteriormente, serão calcificadas e, com o amadurecimento, é formado o osso lamelar. O objetivo desse mecanismo é de reestabelecer as dimensões do ligamento periodontal, que antes estava tensionado/estirado. Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) ▪ Lado de pressão (mediante a uma força pesada) REABSORÇÃO A DISTÂNCIA - Ampla redução do espaço do ligamento periodontal - Intensa compressão das fibras - Vasos sanguíneos ocluídos - Bloqueio do suprimento sanguíneo - Hipóxia - Necrose estéril (inviabilidade que leva à morte celular, mas sem ação de bactéria) - Ausência de metabolismo celular - Áreas de hialinização Se não temos célula no local, o organismo terá de recrutar células indiferenciadas do espaço medular (por isso o nome “à distância”). Isso levará muito mais tempo que uma reabsorção frontal. De 3 a 5 dias: diferenciação das células nos espaços medulares; as células vão se diferenciar em macrófagos que vão digerir a área hialinizada, para, posteriormente, haver diferenciação em osteoclastos. De 7 a 14 dias: diferenciação em osteoclastos; aumento das dimensões do alvéolo; mobilidade dentária decorrente da rápida movimentação. Áreas de hialinização Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) Obs: devemos tentar minimizar, sempre que possível, a ação de forças pesadas. o Mecanismo inflamatório Reúne todos os mecanismos que já tivemos. A força ortodôntica causa uma deformação mecânica, que leva à formação de citocinas (mediadores inflamatórios), principalmente prostaglandinas, que vão causar o aumento da permeabilidade vascular. Com o aumento da permeabilidade vascular, temos o aumento de AMPcíclico (segundo mensageiro – promove a diferenciação celular). Com isso, há a diferenciação dos osteoclastos. A liberação do AMPc leva de 4 a 8 horas, aqui está a diferença entre a força da função para a força ortodôntica. A força de função não tem tempo de liberar AMPc. Obs: Aqui entra também a questão dos aparelhos removíveis. São completamente dependentes da colaboração do paciente. Se o paciente não usar pelo tempo necessário, o aparelho não vai promover a movimentação esperada. Fases do movimento dentário o Fase I: Período inicial / Movimento dentário imediato. Fase em que se coloca o arco, tem-se o pequeno deslocamento correspondente ao espaço do ligamento periodontal. Movimento rápido e pequeno. o Fase H: Período de hialinização. Sem células, logo, não há movimentação. Essa fase é longa e corresponde um platô na movimentação ortodôntica. o Fase M: Período secundário / Movimento dentário rápido Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) Após a eliminação das áreas de hialinização pelos macrófagos, os osteoclastos agem produzindo o movimento de forma rápida e efetiva. Percebemos que a fase M dura até o 21º dia e é por isso que não se deve ativar o aparelho antes desse período. Mais seguramente, esperamos completar 28 dias. Também não conseguimos prever o quanto de hialinização iremos provocar, assim, devemos trabalhar sempre dentro da margem de segurança. Por isso as consultas de retorno ao ortodontista são feitas mensalmente. Devemos respeitar o ciclo biológico. Não temos como acelerar esse processo. Fatores que interferem na resposta ortodôntica o Magnitude de forças Força ótima: aquela força mais leve capaz de mover um dente até a posição desejada, no menor tempo possível, sem causar efeitos deletérios. Teoricamente, temos a magnitude de forças ótimas referentes a cada dente. Porém, só saberemos se foi ótima ou não quando o paciente retornar e verificarmos se a força atingiu o desejado. o Duração das forças Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) Em forças contínuas, temos a ativação e a força decai progressivamente até a nova ativação. Em forças interrompidas, temos o ápice na ativação e decai a zero progressivamente até a nova ativação. É o caso dos fios de aço. Em forças intermitentes, temos a ação da força e, quando o paciente remove o aparelho, a força vai a zero abruptamente. o Condições anatômicas Volume radicular Altura da crista óssea alveolar Pacientes com perda óssea têm o centro de resistência deslocado para a área de inserção. Características do ligamento periodontal Pacientes jovens costumam apresentar fibras mais delgadas, permeadas por maior quantidade de células, tendo maior capacidade proliferativa. Os pacientes idosos também respondem ao tratamento, mas não na mesma taxa que um paciente jovem. Densidade óssea alveolar Espaços medulares reduzidos Corticais densas maior chance de zonashialinizadas e movimento mais lento e difícil. Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) o Condições sistêmicas e uso de medicamentos Diabetes Mellitus → retardo na cicatrização tecidual (normalmente espaçamos mais as consultas). Deficiências nutricionais → paciente com deficiência de vit.C, que está diretamente ligada à produção de colágeno, é ideal que indique reposição pra movimentação melhorar; paciente com deficiência de vit.D, terá problemas com a reabsorção de cálcio (processo de remodelação). Medicamentos que inibem a síntese de prostaglandinas → mediadores responsáveis pela resposta inflamatória e aumento da permeabilidade vascular. Por isso não se deve tomar anti-inflamatórios em tratamento ortodôntico, apenas analgésicos. Ex: a nimesulida não deve ser tomada para aliviar a dor pois irá parar a resposta inflamatória, impedindo a movimentação dentária. Progesterona e estrógenos → afetam diretamente a produção de prostaglandinas. Paratormônio → ativam os osteoclastos / aceleração da movimentação. Efeitos indesejados do movimento ortodôntico o Reabsorção radicular Leve arredondamento do ápice radicular dos incisivos é aceito como normal ao final de um tratamento ortodôntico (1 a 2mm de tecido no ápice radicular = 6 a 9% do volume da raiz), sem prejuízo à inserção dos dentes. Nessa primeira imagem, temos a microtomografia mostrando a reabsorção radicular (essas áreas de reabsorção são aquelas que serão posteriormente preenchidas pelo material cementóide) Os fatores determinantes da reabsorção radicular são: - Susceptibilidade individual; - Vulnerabilidade dos dentes ILS, ICS, II (dentes mais frágeis e delicados, mais afetados); - Morfologia radicular (dentes com dilaceração podem ser mais afetados); - Traumatismo (antes ou durante o tratamento – pode levar o dente a perda de estrutura severa por reabsorção radicular); - Presença de reabsorção antes do tratamento; - Sexo feminino (questões hormonais); - Fatores mecânicos: tempo de tratamento, extensão e tipo de movimento e magnitude de força. Obs: como controle, radiografar os ICS a cada 6 meses / dentes traumatizados: a cada 3 meses. Se fugir do controle, a movimentação deve ser interrompida (o fim da atividade plástica ocorre, normalmente, após uma semana da interrupção e, dentro de 1 mês, não tem mais risco de aumento da reabsorção daquele dente). o Efeitos sobre a polpa Voltando ao que já foi falado inicialmente: ▪ Forças leves Leve hiperemia de tecidos pulpares Leve sensibilidade a alterações térmicas Normalmente se assemelha a um quadro transitório de pulpite. Paolla Barboza Ortodontia Aula 5 - Bloco 2 (2019.1) ▪ Forças pesadas Degeneração parcial ou total do tecido pulpar (pode haver calcificação pulpar como reação) Redução da sensibilidade a estímulos elétricos o Perda de inserção periodontal A perda de altura da crista óssea alveolar durante o tratamento ortodôntico costuma apresentar pequena extensão em pacientes periodontalmente saudáveis, sendo em torno de 0,5 a 1,0mm. Se o paciente já tem perda de inserção, devemos ter muito cuidado com a força de movimentação. o Mobilidade e dor Leve sensação dolorosa (tá relacionada às áreas de hialinização) Semelhante à pericementite Duração de 2 a 4 dias Conclusão O cirurgião-dentista que se propõe a trabalhar com movimentação ortodôntica deve ter conhecimento da anatomia e histologia local, conhecer e respeitar as condições individuais de cada paciente e monitorar as reações teciduais através das respostas clínicas observadas, como velocidade de movimentação, dor e mobilidade, assim como realizar radiografias de acompanhamento. Só assim o tratamento será eficiente e seguro.