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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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encontrar em todas as ten­
dências irracionais e em muitos aspectos das criaturas irracio­
nais, figuras de conceitos não-materiais e poderes singulares 
dos seres celestes.14
MATTHEW: Nessa passagem, notamos uma redenção da palavra "poder”. 
As ordens angélicas recebem seus poderes similares aos de Deus, incluindo 
sua aspiração à bondade, de um poder infinitamente bom. Dionísio celebra 
o poder das criaturas celestiais em aspirar àquele poder incessante.
Mas esse poder não se limita aos anjos. É o mesmo poder que flui nos 
homens, nos animais, nas plantas e na “natureza toda do universo”. Todas as 
coisas estão tomadas por esse poder contínuo. É interessante que todos os 
seres, incluindo os anjos, participem dessa mesma energia ou poder. Desse 
ponto de vista, não somos diferentes dos anjos. Dionísio apresenta a imagem 
do poder como um abraço maternal - aquele que transmite grande seguran­
ça. “Não existe uma única coisa em todo o universo que escape do abraço 
onipotente e da proteção do poder divino”.
O universo está repleto de poder. Todo vento" é um poder, vindo de 
todas as direções. Todos os seres dividem os poderes angélicos, e os anjos 
penetram em tudo. Gosto da frase “alcançando de cima a baixo, das profun­
dezas às alturas”. E os anjos possuem poderes de criação e de vitalização. 
Dionísio vê poderes em todos os lugares da natureza nos quais os anjos 
atuam, inclusive nas características dos animais, como fúria e raiva. Isto é 
interessante porque, em outro lugar, ele insiste na intelectualização desses 
espíritos não-materiais. Aqui ele parece estar atribuindo raiva, resistência e 
desejo - em outras palavras, paixões - aos anjos.
Parece que, para Dionísio, a natureza e os anjos se unem no nível do 
poder. Talvez tenhamos outros nomes para isso, como energia ou força. Mas 
ele tem um grande senso cósmico da onipresença do poder divino expresso
Dionísio, o Areop agita 75
ele próprio por meio dos anjos e de todas as outras criaturas. O poder divi­
no atua em todos esses campos. É um poder único, mas age sob diferentes 
formas, incluindo as espécies angélicas.
RUPERT: Sim. E ele parece inferir que cada tipo de organização na natu­
reza, incluindo a luz, o fogo, o vento e a vida dos animais, é cingida pela 
consciência; não uma consciência divina indistinta ou transcendente, mas 
uma consciência diferenciada, apropriada para cada tipo de organização.
A natureza está organizada em campos, e esses campos são os reinos da 
atividade que une e ordena a energia ou o poder. Se o poder divino flui por 
e para todas as coisas, se é a energia de tudo, e se é canalizado por meio dos 
anjos, então os campos que possibilitam a esse poder assumir suas formas 
diferenciadas estão associados à consciência e à inteligência. Os anjos são a 
consciência dos campos operando em todos os níveis da natureza, como no 
fluxo dos ventos e nos poderes dos seres vivos, como os animais. Os poderes 
criadores da natureza estão associados à inteligência.
Dionísio nos oferce uma imagem da natureza viva permeada pela inte­
ligência diferenciada, pela consciência, participando no ser divino.
MATTHEW: Você diria que isso é animismo?
RUPERT: Mais que animismo. O animismo diz que a natureza está viva 
e que todos os seres vivos são permeados por almas. Mas as almas não pre­
cisam ser necessariamente conscientes. A alma de uma planta, e mesmo a 
psique vegetativa que organiza o crescimento de um embrião humano, não 
são necessariamente conscientes. A maioria das atividades da alma e da psi­
que é inconsciente ou corriqueira. Até mesmo em nosso caso, a maior parte 
de nossa psique não age conscientemente.
O que Dionísio está dizendo vai além do animismo. Ele não diz sim­
plesmente que toda a natureza está viva e que há almas animadas por toda a 
natureza. Se pensarmos em termos de campos em vez de almas, as suas 
idéias demonstram não apenas que todas as coisas têm poder ou energia 
organizados em campos, mas que participam da consciência e da inteligên­
cia por meio dos anjos e, certamente, por meio dos anjos participam da 
natureza divina. A energia e o poder deles também são participações na na­
tureza divina, mediados pelas hierarquias angélicas não como uma comuni­
cação inconsciente de força, mas sempre guiados pela inteligência.
76 A FÍSICA DOS ANJOS
Acredito que essa visão seja particularmente relevante no contexto mo­
derno, até mais do que na época de Dionísio, quando a natureza era tida 
como fixa - as espécies de animais não mudavam; não havia evolução na 
natureza.
Agora, vemos tudo em um contexto evolucionário. As inteligências as­
sociadas com todos os níveis de organização poderiam ser vistas como de­
sempenhando um papel criativo ou orientador no processo evolucionário.
MATTHEW: Eu diria que isso requer mais inteligência para dar continui­
dade à criação como um processo do que para simplesmente fazê-la aconte­
cer de uma só vez.
RUPERT: Então essas idéias sobre in teligências angélicas assum em um a 
nova e extraordinária relevância à luz da cosm ologia evolucionária.
MATTHEW: Isso lembra o que Erich Jantsch disse: “Deus é a mente do 
universo, que expande e cria sistemas auto-organizadores ou campos”. Isso 
ressalta a imanência da mente e do propósito divinos e, consequentemente, 
do amor, dentro de muitos, muitos campos no quais vivemos, agimos e 
conservamos nossa existência.
São Tomás de Aquino
1
São Tomás de A quino ( 1 2 2 5 - 1 2 7 4 ) é reconhecido como um
gênio intelectual cujo poder de síntese teológica se equiparava à sua profun­
deza de alma e de sentimentos. Aos 5 anos de idade, foi enviado por sua 
família para viver na abadia beneditina de Monte Cassino, na esperança de 
que futuramente viesse a se tornar abade. Ele decepcionou os parentes ao 
ingressar na Universidade de Nápoles ainda adolescente e demonstrar inte­
resse em se ordenar dominicano. Por fim, esse sonho se concretizou e, após 
estudar com Alberto, o Grande, em Colônia, tomou-se mestre em Teologia, 
na Universidade de Paris.
O volume e a qualidade de seus escritos são enormes, contidos em 26 
volumes enciclopédicos que registram sua tentativa de reinterpretar o cris­
tianismo à luz da nova cosmologia de sua era, aquela apreendida de Aristó­
teles, o filósofo grego do século V a.C. Isso causou polêmica tanto entre os 
fundamentalistas da Igreja, de inspiração agostiniana, como entre os aristo- 
télicos progressistas, que buscavam uma versão ateísta de Aristóteles. Assim, 
a vida de São Tomás de Aquino foi caracterizada por imensa luta e contro­
vérsia, e culminou com o último ano de sua vida passado em silêncio. A 
única coisa que disse foi: “Tudo o que escrevi é palha”.
78 A FÍSICA DOS ANJOS
São Tomás de Aquino sintetiza séculos do pensamento tradicional so­
bre os anjos, ao mesmo tempo em que contribuiu com novas linhas de 
questões e insights para o tópico da angelologia. Sua influência na história da 
teologia tem sido enorme, e um dos epítetos com o qual tem sido designado 
é o de Doctor Angeïicus, ou Doutor Angélico.
Anjos e o cosmo
O mundo corpóreo é inteiramente governado por Deus por meio 
dos anjos.1 Os anjos são parte do universo no sentido de não 
constituírem um universo por si mesmos, mas por se combina­
rem com a criação física para formar um mundo único, total.
Isso, de qualquer modo, parece uma inferência provável da rela­
ção de criatura para criatura. Porque o bem total do universo 
consiste do inter-relacionamento das coisas, e nenhuma parte é 
completa e perfeita separada do todo.2
RUPERT: São Tomás de Aquino oferece uma visão de universo regido 
pela inteligência e pela consciência; uma imagem muito diferente daquela 
retratada pela ciência mecânica, de um mundo inconsciente e inanimado.
MATTHEW: E ele enfatiza a onipresença dos anjos - os anjos estão em 
todas as partes, onde quer que haja governo providencial

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