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A-Fisica-Dos-Anjos-Sheldrake

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e da verdade. Usamos a 
frase “Acender a luz” — estamos no escuro e, então, uma luz se acende. 
Aquino está dizendo que, para os anjos, com efeito, a luz está sempre acesa; 
eles sempre percebem as conexões básicas entre as coisas facilmente.
Em outra ocasião, Aquino enfatiza que, enquanto o conhecimento hu­
mano surge tanto do raciocínio discursivo como da intuição, os anjos são 
modelos de intuição. Eles devem ser amigos próximos dos artistas e de todos 
aqueles que estão em sintonia com sua intuição.
RUPERT: É certamente verdade que, quando falamos sobre compreensão, 
dificilmente conseguimos evitar o uso da metáfora da luz. E isto é mais que 
uma metáfora: vemos as coisas com um tipo de luz interior. O “olho” de nos­
sas mentes funciona porque nossas mentes são, de certo modo, luminosas.
O problema é que nem todas as nossas intuições ou saltos criativos 
estão, corretos. Por exemplo, uma hipótese cientifica é uma suposição ou 
uma intuição a respeito de como as coisas são. Mas temos de testá-la expe-
rimentahnente para verificar se está certa ou errada. Também é possível 
haver teorias brilhantes que acabam se mostrando enganosas. De acordo 
com o conhecimento de Aquino sobre os anjos, se eles têm teorias brilhan­
tes, elas sempre se revelam corretas; na verdade, são menos teorias do que 
msigfrís diretos para o íntimo da forma como as coisas são.
São Tomás de Aquino 83
Luz cíivina
Deus não é desconhecido por causa da obscuridade, mas por 
conta da abundância de luminosidade, pois a visão de Deus está 
ao lado de sua essência, acima da natureza de qualquer intelecto 
criativo, não apenas humano, mas também angélico.8 A irra- 
diância de Deus é supersubstancial, ou seja, a própria verdade 
divina supera todas as fronteiras e os fins de qualquer conhe­
cimento.9
MATTHEW: Aquino frequentemente enfatiza como os anjos diferem dos 
seres humanos e detêm maior abundância de luz intelectual, mas, apesar 
disso, ele se empenha em demonstrar como os anjos não são perfeitamente 
semelhantes a Deus em seus poderes. Eles também têm limites, pois são 
criaturas. Em que pesem todos os seus imensos poderes de intuição, não 
vêem Deus face a face, por assim dizer; não experimentam a essência do 
divino. Seria bastante parecido com fitarmos o sol diretamente; tornaria nos­
sa visão obscura e danificá-la-ia.
RUPERT: Essa passagem me faz lembrar o Livro tíbetano dos mortos, no 
qual está escrito que, tão logo morremos, deparamo-nos com uma luz 
nossa. Somente aqueles que estão preparados por meio da prática espiri­
tual para encarar essa luz estão habilitados para nela penetrar, e assim são 
libertados.
A maioria das pessoas desencarnadas não a suporta e desvia o olhar; fica 
aterrorizada. Em seguida, essas almas ficam expostas a uma série de luzes 
menos intensas, para as quais também evitam olhar. Gradualmente se voltam 
para um plano existencial, no qual começam tendo fantasias sexuais, tomam-
84 A FÍSICA DOS ANJOS
se voyeurs incorpóreos orbitando em torno de casais em cópula, até serem 
capturadas por um ventre e nascerem novamente em um corpo humano.
MATIHEW: Como você disse, a maneira de entrar nesse reino de beleza, 
luz e terror que o acompanha é a prática espiritual. Isso é o que os místicos 
querem dizer com via negativa, o processo de esvaziamento, a remoção e a 
poda por meio das quais aprendemos a nos soltar e a nos entregar à luz, a 
uma força de amor maior que nós. Sem esse processo de esvaziamento, sem 
esse kenosis, só podemos sobreviver em um mundo tal como o que estamos. 
Neste sentido, escolhemos nosso futuro conforme permitimos a nós mesmos 
que sejamos “aparados” nesta vida.
Mais uma vez voltamos à dialética da luz e da escuridão. Na escuridão, 
nós nos preparamos para a entrada de mais luz. Existem muitas maneiras de 
resistir à escuridão, como os vícios, a negação ou, apenas, o viver uma vida 
superficial. Se nos recusamos a penetrar aquele processo de esvaziamento, 
aquela região obscurecida da alma, então não estamos no caminho para 
despertar a capacidade empenhada em nós para receber uma experiência de 
luz mais completa.
A morte é tanto uma experiência obscura como uma experiência de luz. 
É escuridão porque desconhecida e envolvida em medo e mistério. Mas aque­
les que, de alguma forma, têm adquirido conhecimento sobre o que acontece 
após a morte elevam-se com imagens de luz. Parece que a morte também car­
rega muita claridade e pode muito bem ser um retomo à fonte de toda luz.
Na primeira história da criação, no Gênesis, o primeiro ente criado é a 
luz. A luz está muito próxima do divino, da divindade; estava na mente de 
Deus, a primeira coisa a ser feita. E a atual história da criação começa com 
uma bola de fogo.
R.UPERT: Nos primeiros estágios do Big Bang, na bola de fogo primor­
dial, luz e escuridão não são realmente diferenciadas. O fogo primordial 
transcendeu a luz e a escuridão tal. como as conhecemos. Mas, na medida em 
que o universo se expandiu e resfriou, ocorreu o chamado desacoplamento 
da matéria e da radiação, a separação entre matéria e luz. Em outras palavras, 
na história da criação contemporânea, como no livro do Gênesis, a diferen­
ciação entre luz e escuridão é precedida por um estado que transcende am­
bas, um tipo de fogo que vai além da luz ou da escuridão.
São Tomás de Aquino 85
A natureza da compreensão
O universo estaria incompleto sem as criaturas intelectuais; e, 
visto que a compreensão não pode ser um ato do corpo ou das 
energias corpóreas - o corpo como ser circunscrito ao aqui e ao 
agora —, resulta que um universo completo deve conter alguma 
criatura incorpórea I...] Portanto, as substâncias incorpóreas es­
tão a meio caminho entre Deus e as criaturas corpóreas, e o 
ponto eqüidistante entre extremos parece extremo com respeito 
a ambos; assim o morno, comparado ao quente, parece frio. Por­
tanto, os anjos poderiam ser considerados materiais e corpóreos 
quando comparados a Deus, sem que isso signifique que são 
intrinsecamente assim.10
RUPERT: Essa discussão m e faz lem brar da idéia de D avid B oh m a res­
peito da ordem im plicada. O m u ndo fenomenal, o mundo no qual vivemos, 
é a ordem explicada, a ordem revelada. Atrás ou além dele está a ordem 
implicada, uma ordem abrangente da qual surge o mundo em que vivemos. 
Mas Bohm não discute apenas uma ordem implicada; ele apresenta uma 
série de níveis de ordens que são mais e mais abrangentes. São níveis de 
subentendimento dentro de uma ordem implicada.
Olhando de dentro para fora, do interior da ordem implicada para a 
explicada, o próximo nível parece um corpo porque se encontra no lado cor­
póreo das coisas. Olhando de fora para dentro, o nível mais implicado se as­
semelha à compreensão, à significação ou ao sentido. É mais como uma idéia. 
Bohm chama esse duplo aspecto das coisas de “soma-significância”.
MATTHEW: Acho a idéia de David Bohm empolgante porque coloca nos­
sos processos mentais em um contexto que extrapola a mera epistemologia 
humana. Ele fala sobre os relacionamentos cósmicos aos quais nos subme­
temos como pensadores, como seres que entendem, como seres intelectuais. 
Na medida em que aumenta nosso entendimento, há um desvelamento gra­
dual do implicado para o explicado. Neste sentido, estamos contribuindo 
como espécie para a autoconsciência do universo.
86 A FÍSICA DOS ANJOS
InteCcctos e corpos
A atividade de compreender é totalmente não-material [...]u 
O ato de entender não é uma ação do corpo ou de uma energia 
corporal. Portanto, estar ligado a um corpo não faz parte da es­
sência do ser intelectual [...] nem todos os intelectos estão uni­
dos a corpos; alguns existem separados deles, e a esses chama­
mos anjos.12
MATTHEW: Isso quer dizer que nós, seres humanos, não estamos sós 
como espécie na companhia desses outros seres que, como nós, procuram 
compreensão e têm

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