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EDUCAÇÃO EM DIREITOS 
HUMANOS – ELEMENTOS 
EDUCACIONAIS E CULTURAIS 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Altieres Edemar Frei 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Nesta aula espera-se que o(a) acadêmico(a) tenha condições de ampliar 
seu repertório de estudos por meio da apresentação de conceitos e 
formulações importantes no campo dos Direitos Humanos. Nesta aula, tão ou 
mais importante que a apresentação dos conteúdos é tentar situar os diferentes 
lugares de fala que compõem o debate sobre Direitos Humanos na 
contemporaneidade. 
É disso que tratamos como dimensão sociocultural nesta aula, e por isso 
a importância de alguns marcadores históricos e culturais. No primeiro tema da 
aula, abordaremos a questão a partir da construção social em torno do Dia 
Internacional da Mulher e apresentaremos a noção da dimensão intercultural 
dos Direitos Humanos, tal qual proposta por Boaventura de Souza Santos 
(2006). 
Nos temas seguintes, trataremos de semelhanças e distinções entre 
direitos fundamentais e direitos sociais e as diferentes concepções de Direitos 
Humanos das visões idealistas, positivistas e crítico-materialistas. A proposta é 
que o(a) acadêmico(a) tenha maiores subsídios para a leitura crítica dos 
diferentes momentos e concepções dos Direitos Humanos. 
Os dois últimos temas destinam-se à discussão de uma questão 
fundamental: passado o entusiasmo pós-traumático da Declaração 
Internacional dos Direitos Humanos após a Segunda Guerra Mundial, o que foi 
feito? Ou melhor, como foi feito? Como fazer, no caso, para que a discussão 
em relação à soberania ou à autonomia nacional ou étnico-populacional de uns 
não se sobreponha aos interesses coletivos – da própria humanidade? É nesse 
tema que a Organização das Nações Unidas (ONU) – cujo papel é dinâmico e 
com impasses, porém, fundamental para o processo – ganha destaque, por 
meio de assembleias gerais, tratados e conferências, como a ocorrida em 
Viena em 1993. 
Já parou para pensar por que tivemos uma Declaração Universal dos 
Direitos Humanos e não um Tratado Internacional? 
 
 
 
3 
TEMA 1 – A IMPORTÂNCIA DA DIMENSÃO CULTURAL NO ESTUDO DOS 
DIREITOS HUMANOS 
Há um exemplo histórico e trágico para começar a nossa conversa sobre 
a dimensão sociocultural dos Direitos Humanos: em 8 de março de 1857, em 
Nova York, quando mulheres operárias da indústria têxtil fizeram uma greve 
reivindicando melhores condições de trabalho e equiparação salarial com os 
homens (que ganhavam três vezes mais pelo mesmo serviço), a manifestação 
foi brutalmente reprimida, com o trancamento de um centena de mulheres na 
fábrica que, depois, foi incendiada. 
É por conta dessa atrocidade que o dia 8 de março é celebrado como o 
Dia Internacional da Mulher. Não se trata, portanto, de uma data que institui a 
distribuição de rosas e bombons às mulheres – embora algumas possam achá-
los bem-vindos em qualquer tempo. Trata-se de uma data de luta. 
Apesar dessa referência histórica, tal fato passa despercebido por 
milhares de mulheres e homens no dia 8 de março. O aspecto comercial que 
explora a efeméride com publicidade e apelo ao consumo faz crer a muitas 
mulheres que se trata de uma data para rosas e bombons, somente. Mas seria 
essa uma mera questão mercadológica? 
O estudo da dimensão sociocultural do que envolve a concepção dos 
Direitos Humanos é importante também por isso: permite trazer elementos 
outros para o debate, na medida em que, com o exemplo anterior, podemos 
perceber que embora a exploração comercial tenha dado outros sentidos à 
data de luta das mulheres, há um interesse por parte dos agentes que se 
mantêm no poder para que as coisas continuem como estão. Quanto maior o 
número de mulheres ocupadas com rosas e bombons, em vez de com a luta 
por seus direitos, como as operárias o fizeram, melhor para o andamento da 
carruagem – e dos negócios, no caso. 
Esse exemplo ilustra quantas outras lutas e afirmações estão por trás de 
cada concepção de sujeito (seja homem, seja mulher) por trás da afirmação 
dos Direitos Humanos. Literalmente, podemos dizer que foram muitas e muitos 
os que deram seu sangue para que as concepções que hoje nos parecem até 
triviais de liberdade e dignidade humana pudessem ser até mesmo pensadas. 
Afirmar essa memória é o tributo que podemos prestar – ou a luta que 
 
 
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devemos continuar. Essa trincheira é a dimensão sociocultural dos Direitos 
Humanos. 
1.1 A importância da dimensão intercultural dos Direitos Humanos 
Quando debatemos a dimensão cultural dos Direitos Humanos não 
estamos dizendo que há culturas que são mais evoluídas do que outras. 
Tampouco tal debate permite relativizações do tipo: em determinada cultura é 
natural que homens batam em mulheres, e devemos respeitar esse 
contexto cultural. Muito pelo contrário. Fazer o debate sobre a dimensão 
cultural dos Direitos Humanos é, antes de mais nada, reconhecer que se trata 
de um projeto de garantia de direitos que está em construção, de um projeto de 
educação em Direitos Humanos que também está em construção, e, com isso, 
inferir sobre o próprio projeto de tipos de sujeito que se forja. Portanto, trata-se 
de considerar a dimensão intercultural dos Direitos Humanos no esforço para 
que a luta por eles não se torne outra cruzada civilizatória – no caso, que a 
imposição de tipos de sujeito aceitos como ideias em uma cultura não se 
sobreponha aos valores culturais de outras nações ou povos. E, portanto, trata-
se de considerar a dimensão intercultural dos Direitos Humanos no esforço 
para que a luta por eles não se torne outra cruzada civilizatória. 
Essa é uma perspectiva apontada pelo sociólogo português Boaventura 
de Souza Santos (2006), para evitar que perspectivas culturais se 
sobreponham às outras; por isso ele propõe a reconceitualização dos Direitos 
Humanos como interculturais, por conta da perspectiva emancipatória de 
transformação conceitual e de práticas, a qual pressupõe “relação equilibrada e 
mutuamente potenciadora entre a competência local e a legitimidade local” 
(Santos, 2006, p. 442). 
A crítica do autor, tal qual elaborada por Genro e Zitkoski (2014), é no 
sentido de que os tratados e as convenções em voga traduzem as aspirações 
dos agentes dominantes na cultura ocidental, impedindo que sejam a 
expressão universal dos Direitos Humanos. Esses tratados, de conteúdo 
liberal, enfatizam os direitos individuais em detrimento dos direitos coletivos, 
sociais, que envolvem diferentes comunidades e grupos com demandas pela 
igualdade efetiva e pelo direito ao reconhecimento de suas diferenças (Genro; 
Zitkoski, 2014, p. 241). 
Essa crítica faz sentido para você? 
 
 
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TEMA 2 – DIREITOS FUNDAMENTAIS E DIREITOS SOCIAIS 
Partamos de um exemplo polêmico, mas atual, para alcançarmos a 
reflexão sobre a diferença entre os direitos fundamentais e os chamados 
direitos sociais: suponha que, em um determinado país, vender e consumir 
drogas seja uma questão de escolha de cada sujeito, baseada em sua visão de 
mundo e de corpo, e que o Estado deva prover recursos para que, caso esse 
sujeito tenha algum problema decorrente do uso ou do abuso dessas 
substâncias, ele tenha acesso a equipamentos de tratamento e cuidado. 
Esse tipo de política sobre drogas existe em diversos países na 
atualidade: Canadá, Holanda, Suíça, Uruguai e em alguns estados norte-
americanos. Há essa postura pragmática nesses países, que pautam suas 
discussões na ideia de que cabe ao sujeito decidir o que fazer com seu corpo e 
não cabe ao estado intervir nesse processo – seja criminalizando o suicídio, a 
diabetes por obesidade, a anorexia ou o usode drogas. 
Mas suponha que, em determinado país, portar e vender as mesmas 
substâncias seja visto como uma transgressão criminal, em que a pena varie 
de prisão perpétua à pena de morte. Os governantes, inclusive, incitam a 
população a denunciar os possíveis traficantes, o que gera uma onda de 
violência e repressão que se retroalimenta, ou ainda a internar 
compulsoriamente (ou seja, violar a liberdade de escolha ao tratamento) as 
pessoas que fazem uso abusivo dessas substâncias, criando um problema 
social ainda mais complexo do que aqueles decorrentes do uso abusivo de 
álcool e outras drogas. Políticas de tolerância zero como essa têm sido 
praticadas em países como as Filipinas, e derivações desse modelo têm sido 
discutidos em países nos quais a orientação política vem se tornando 
conservadora ou sectária. 
As perguntas que o exemplo promove é: em que medida o preceito da 
dignidade, que há de ser universal, é considerado nesses casos em que as 
pessoas podem vir a ter complicações decorrentes do uso abusivo de 
substâncias psicoativas? Ou mesmo decorrentes de estratégias de inserção 
social e geração de renda, que fazem com que o tráfico de drogas seja uma 
alternativa de inserção econômica e, também, de ascensão social? E em que 
medida esses são debates meramente domésticos, cabendo ao legislador de 
cada país, eleito ou não, administrar sua própria política? 
 
 
6 
Antes de entrar no debate, talvez seja prudente examinarmos com mais 
propriedade a diferenciação entre os chamados direitos fundamentais no 
contexto atual dos estados, por um lado, e a importância da universalidade e 
dos direitos sociais, por outro lado. 
2.1 Os direitos fundamentais no contexto atual dos Estados 
Os chamados direitos fundamentais puderam ser observados desde 
as revoluções burguesas, dois séculos antes da Declaração Universal dos 
Direitos Humanos (1948). Embora abordem aspectos distintos, há 
semelhanças importantes entre eles: ambos afirmam a liberdade como direito 
positivado e supõem a existência de bens universais para humanidade, tais 
como: o direito de expressão, pensamento, credo (desde a Revolução 
Francesa de 1789) e o direito à dignidade humana, desde a Declaração 
Universal dos Direitos Humanos de 1948, “independente de que pessoa se 
trate ou que possível delito tenha cometido” (Genro; Zitkoski, 2014). 
O direito constitucional positivo é aquele que cabe ser determinado 
pelo Estado – daí o termo positivo. O direito constitucional positivo se refere a 
um papel atuante do Estado, ou seja, não está só no fato de o Estado não 
intervir, mas também na convocação para que o Estado, por meio de leis e 
outros dispositivos, garanta a efetividade e a aplicação dos Direitos Humanos. 
É um ponto importante, mas do que uma questão de adjetivos, pois, em uma 
última análise, versa sobre o papel do Estado de criar e executar legislações 
que busquem superar desigualdades e violências direcionadas aos cidadãos. 
Trata-se, portanto, de um conjunto de direitos que estão direcionados ao 
indivíduo, sobretudo. E trata-se, portanto, de um mecanismo que exige um 
Estado voltado para o bem-estar social, independentemente de sua orientação 
econômica. É algo que pode, portanto, ser alterado na medida em que altera-
se o projeto do Estado ou mesmo na medida em que se altera a visão 
econômica de determinado Estado. 
O seguinte impasse pode decorrer: se um governante de um 
determinado país decide imputar penas capitais a traficantes de drogas, por 
exemplo, trata-se de um problema meramente doméstico (do tipo cada Estado 
tem autonomia para suas leis) ou de algo que pode atingir a todos nós como 
categoria humana, por conta de valores que hão de ser universais, como a 
dignidade humana? 
 
 
7 
2.2 Os direitos sociais e a importância da universalidade 
É por questões como a anunciada anteriormente que a discussão em 
torno dos chamados direitos sociais e a importância da universalidade 
precisam ser exploradas no debate sobre Direitos Humanos. Segundo Genro e 
Zitkoski (2014): 
Se os direitos fundamentais são direitos positivos, que garantem 
segurança jurídica por meio de pactos legais, constitucionais, 
existentes nos contextos de estados democráticos, por sua vez os 
direitos humanos são conquistados para além do ordenamento 
jurídico existente […] e constituem-se como unidade indivisível 
porque não dispensam os direitos de outra natureza que o 
precederam historicamente, como, por exemplo, os direitos civis, 
políticos e sociais. (Genro; Zitkoski, 2014, p. 240) 
Os direitos sociais, portanto, transcendem a concepção de uma 
humanidade dividida em quintais ou fronteiras. Tal qual na canção Imagine de 
John Lennon, os direitos sociais convidam a pensar a humanidade como um 
corpo único – e como uma ferida a um corpo por violação da dignidade humana 
como uma ferida a toda humanidade, por conseguinte. 
Tais proposições universalistas, ainda que aparentemente generalistas e 
permeadas também por contradições e disputas de projetos de sujeito, trazem 
consigo um argumento irrefutável: destacam a dignidade humana como o 
preceito a ser defendido, independentemente do país – e de sua etnia – em 
que o código jurídico é acordado. Pessoas escravizadas devem ser aberrações 
em qualquer país, independentemente da legislação trabalhista que possa 
vigorar. Pessoas sentenciadas à pena capital por tráfico de drogas também 
podem ser uma afronta à dignidade humana, especialmente quando a 
sociedade em questão tolera alguns tipos de drogas (álcool, remédios, 
cigarros) consideradas lícitas. Para você, faz sentido esse debate? 
TEMA 3 – CONCEPÇÕES IDEALISTAS, POSITIVISTAS E CRÍTICO-
MATERIALISTAS DOS DIREITOS HUMANOS 
Para que os debates socioculturais sobre Direitos Humanos na 
atualidade possam ser promovidos considerando os diferentes lugares de fala 
que existem – como a de políticas governamentais que cometem atrocidades 
ao passo que seus dirigentes afirmam defender direitos humanos, entre 
tantos outros exemplos –, talvez seja prudente avançarmos às categorias das 
 
 
8 
diferentes concepções de Direitos Humanos das visões idealistas, positivistas e 
crítico materialistas. 
Foi esse percurso que Dornelles (2013) fez em seu estudo introdutório 
sobre Direitos Humanos à guisa de situar o leitor quanto às principais bases 
filosóficas que dão subsídio a cada concepção dos direitos humanos. 
Evidentemente, em um estudo mais aprofundado da temática, vale recorrer aos 
filósofos de cabeceira de cada corrente (de Kant a Comte, passando por Marx). 
3.1 Concepção idealista dos Direitos Humanos 
Trata-se da fundamentação dos Direitos Humanos a partir de uma visão 
metafísica e abstrata. Segundo Dornelles (2013), essa concepção fundamenta 
os Direitos Humanos “identificado os direitos a valores superiores informados 
por uma ordem transcendental, supraestatal, que pode se manifestar na 
vontade divina (como no feudalismo) ou na razão natural humana (a partir do 
século XVII)” (Dornelles, 2013, p. 16). 
É importante tal período, pois, desde então, pôde-se perceber um 
discurso que é irradiado e abastece os lugares de fala no debate sobre 
Direitos Humanos na atualidade, especialmente quando justificam que os 
homens já nascem livres, por exemplo, pela obra e graça do espírito santo ou 
por consequências do chamado naturalismo. Os direitos, em ambos casos, 
advêm de um ideal. 
3.2 Concepção positivista dos Direitos Humanos 
Nessa concepção, os Direitos Humanos são fundamentais e essenciais 
desde que reconhecidos pelo Estado em sua ordem jurídica e positiva. Sob 
essa perspectiva, a visão de que os direitos seriam um bem natural ou dotados 
a partir de uma ordemtranscendental caducam. 
Segundo Dornelles (2013), em seu estudo: “os direitos humanos seriam 
um produto que emana da força do Estado através de seu processo de 
legitimação e reconhecimento legislativo, e não o produto ideal de uma força 
superior ao poder estatal, como Deus ou a razão humana” (Dornelles, 2013, p. 
16). 
 
 
 
9 
3.3 Concepção crítico-materialista dos Direitos Humanos 
É a que se desenvolve durante o século XIX, partindo de uma explicação 
de caráter histórico-estrutural para fundamentar os Direitos Humanos. Trata-se, 
sobretudo, de uma crítica ao pensamento liberal que, segundo Dornelles 
(2013), “entende que os direitos humanos, como estavam enunciados das 
declarações de direitos e nas constituições dos séculos XVIII e XIX, não 
passavam de expressão formal de um processo político-social e ideológico 
realizado por lutas sociais no momento da ascensão burguesa” (Dornelles, 
2013, p. 17). 
A inspiração e a influência das obras de Marx e Engels são 
fundamentais para subsidiar essa crítica que, de certa forma, permanece atual 
e pode ser encontrada em muitos lugares de fala do debate e na concepção 
sociocultural sobre Direitos Humanos: não há projeto humano que possa 
vicejar sem pensar sobre a equalização das desigualdades sociais e de 
concentração de renda no mundo, especialmente no contexto brasileiro. 
TEMA 4 – PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E SUAS 
IMPLICAÇÕES SOCIOCULTURAIS 
Os Direitos Humanos representam, ou até pouco tempo atrás 
representavam, de certa forma, uma última utopia, considerando a 
impossibilidade das utopias até então vislumbradas, como a utopia socialista. 
Mas nos últimos anos a comunidade internacional, assolada por levantes de 
setores conservadores e extremistas, tem assistido a uma depredação 
sistemática da noção dos Direitos Humanos. É como se, socioculturalmente, 
estivéssemos sujeitos a perder a fé nos Direitos Humanos. 
Trata-se de um embate novo e que, portanto, necessita de análises mais 
aprofundadas, mas no processo de discussão para fins educacionais ou 
mesmo cívicos há de se considerar suas consequências sob diversas 
camadas: desde as políticas públicas em vigência até mesmo à percepção das 
pessoas sobre o assunto. 
A atuação de organismos internacionais de proteção aos Direitos 
Humanos é salutar para esses processos de resistência e consolidação desses 
direitos, assim como para o amadurecimento de suas contradições e 
divergências. Trata-se de iniciativas advindas da Organização das Nações 
 
 
10 
Unidas (ONU), que decorrem de contextos históricos de afirmação dos Direitos 
Humanos pós Declaração (e não do Tratado) Internacional dos Direitos 
Humanos (1948) que culminaram na criação dos organismos internacionais e 
seus respectivos relatórios. 
Segundo Dornelles (2013), a ampliação da compreensão mundial dos 
Direitos Humanos (do ponto de vista sociocultural), bem como a tensa 
engenharia entre soberania nacional e ações de órgãos internacionais podem 
ser historicamente construídas por meio dos marcadores que conheceremos a 
seguir. 
4.1 Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (1948) 
Aprovada pela IV Conferência Interamericana reunida na cidade de 
Bogotá entre março e maio de 1948. Foi o primeiro texto elaborado por 
iniciativa dos países das Américas do Sul, Central e do Norte. Consagra 
princípios básicos de tutela dos direitos essenciais no âmbito continental 
(Dornelles, 2013). 
4.2 Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) 
Aprovada pela Assembleia das Nações Unidas em 10 de dezembro de 
1948. Dornelles (2013) frisa que 
mesmo não tendo força de obrigatoriedade para ação dos Estados, a 
Declaração da ONU tem uma importância histórica por marcar a 
derrota dos regimes totalitários nazi-fascistas, além de constituir um 
monumento de natureza moral, servido de referencial para a 
promoção e o respeito efetivo dos direitos humanos em todas as 
partes do mundo. (Dornelles, 2013, p. 41) 
4.3 Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José, 
1969) 
Aprovada na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos 
Humanos, realizada em San José, na Costa Rica, em novembro de 1969. Na 
prática estabelece um texto normativo cujo papel é dar execução à proteção 
dos direitos e garantias que os documentos anteriores não proviam. 
 
 
 
11 
4.4 Declaração Universal dos Direitos dos Povos (1977) 
Aprovada em Argel, no ano de 1977, por dirigentes de movimentos de 
libertação nacional, chefes de Estado, juristas, economistas e políticos de 
diferentes países. Segundo Dornelles (2013), 
Esse documento enuncia princípios referentes aos direitos de todos 
os povos contra a dominação e exploração dos imperialismos 
exercidas pelas grandes potências. A partir disso, expressa a 
necessidade de garantia dos direitos à existência dos povos, à 
autodeterminação política, ao desenvolvimento econômico, à cultura, 
ao meio ambiente, e dos direitos das minorias. E um documento que 
elabora princípios com a preocupação de construir uma nova ordem 
internacional mais solidária e cooperativa. (Dornelles, 2013, p. 18) 
TEMA 5 – CONFERÊNCIA MUNDIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS DE 
VIENA (1993): CONSIDERAÇÕES 
Como discutido no tema anterior, a necessidade de analisar os lugares 
de fala sobre Direitos Humanos se sustenta. É fundamental, para além da 
compreensão histórica do fenômeno — por isso chamamos essa dimensão de 
sociocultural nesse processo, que é sempre complementar, entre produção de 
mundo e produção de sujeitos. 
A Conferência Mundial sobre Direitos Humanos de 1993, em Viena, é 
um marco por diversas razões, especialmente por conta da publicização do 
tema em nível mundial. Uma questão importante para a diplomacia brasileira foi 
a relatoria do documento ficar a cargo do Embaixador Gilberto Vergne Saboia, 
Representante Permanente Adjunto perante as Nações Unidas em Genebra. 
Segundo o também diplomata Lindgren Alves, presente à conferência, 
A reafirmação da universalidade dos direitos humanos constituiu, por 
sinal, uma das conquistas mais difíceis da Declaração de Viena. Não 
havendo participado da elaboração e da aprovação da Declaração 
Universal, e em função de seus sistemas culturais, religiosos e 
ideológicos diferentes daqueles do Ocidente, muitos países asiáticos 
e africanos insurgiram-se, no processo preparatório, contra a própria 
idéia dos direitos humanos que inspirou o texto de 48. Algumas 
delegações chegaram a declarar, no Plenário e nas discussões de 
trabalho da Conferência, que ela correspondia a uma tentativa de 
imposição de valores ocidentais sobre o resto do mundo. Sua 
aceitação de tais direitos seria, pois, sempre condicionada à 
adaptabilidade de cada um desses direitos aos respectivos sistemas. 
Em vista de tais posturas, foi um tento extraordinário da Conferência 
de Viena conseguir superar o relativismo cultural ou religioso ao 
afirmar, no Artigo 1º da Declaração: "A natureza universal de tais 
direitos não admite dúvidas”. (Alves, 1994, p. 172) 
 
 
12 
Tais preceitos são decisivos para evitar que minorias, em nome do 
discurso de proteção à soberania nacional ou de seus valores culturais, 
justifiquem ações que deponham contra a dignidade humana. Daí a 
importância da universalidade indubitável dos Direitos Humanos. 
O próprio Lindgren Alves afirma, em outro momento, que os Direitos 
Humanos talvez tivessem sido a última grande utopia. Para o autor, a 
humanidade perdeu a fé nos Direitos Humanos (Alves, 2005). Essa não é uma 
avaria como outra qualquer do processo histórico, e, mais do que nunca, a 
educação em Direitos Humanos torna-se tarefa imperativa e vital. 
NA PRÁTICA 
Uma notícia publicada nosite da Organização das Nações Unidas 
(ONU) em abril de 2016 diz: 
Dois anos depois de o Boko Haram ter sequestrado 276 meninas na 
Nigéria, especialistas em direitos humanos da ONU e da África 
pediram na terça-feira (12) que o grupo extremista revele 
imediatamente a localização das vítimas e que o governo da Nigéria 
aumente seus esforços para libertar todos os civis sequestrados pelo 
grupo […]. 
Os especialistas das Nações Unidas disseram ainda que, apesar de 
entenderem a importância de medidas de segurança aplicadas pelas 
autoridades – que evitam a divulgação de informações sobre o caso –
, estão preocupados com o fato de o direito básico das famílias de 
serem informadas estar sendo ignorado. 
De acordo com os especialistas, as autoridades nigerianas precisam 
designar um ponto focal para se reunir com as famílias e fornecer 
assistência e informação regular sobre as investigações (disponível 
em: <https://nacoesunidas.org/especialistas-da-onu-pedem-que-
nigeria-amplie-esforcos-para-encontrar-meninas-sequestradas-por-
boko-haram/>). 
Considerando a notícia anterior e seus conhecimentos prévios sobre o 
assunto, em que medida tal fato ilustra a complexa engenharia de 
possibilidades de intervenção de organismos internacionais de proteção aos 
Direitos Humanos em questões que são justificadas, como de soberania 
nacional ou preceitos culturais de minorias étnico-religiosas? Quais elementos 
trabalhados nesta aula dão subsídios para esse debate? 
FINALIZANDO 
Pudemos, em um breve percurso, trazer alguns aspectos socioculturais 
dos Direitos Humanos, bem como alguns de seus impasses. Procuramos 
demonstrar em um capítulo introdutório a importância da dimensão desse 
 
 
13 
debate, assim como pudemos visitar alguns marcos constitutivos tanto no que 
diz respeito aos conceitos (como interculturalidade, direitos sociais e direitos 
fundamentais) quanto no que diz respeito aos fatos históricos que culminaram 
na trama da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. 
E, também à guisa de introdução, pudemos delimitar alguns marcadores 
dos organismos internacionais de proteção, promoção e garantia de Direitos 
Humanos, especialmente no que diz respeito à atuação da Organização das 
Nações Unidas (ONU) à frente de pactos, assembleias internacionais e 
conferências sobre o assunto. 
Finalizamos com um exemplo prático a partir do sequestro de meninas 
praticado pelo Boko Haran na Nigéria e as dificuldades de atuação – e 
resolutividade da questão – por meio de mecanismos, observatórios e demais 
organismos internacionais de proteção aos Direitos Humanos. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
ALVES J. A. L. As conferências sociais da ONU e a irracionalidade 
contemporânea. In: ALVES, J. A. L. et al. Direito e cidadania na pós-
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Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 32, p. 170-180, abr. 1994. 
Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-
64451994000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 3 maio 2019. 
_____. Os direitos humanos na pós-modernidade. São Paulo: Perspectiva, 
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CONVENÇÃO Americana sobre Direitos Humanos de 1969. Comissão 
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Acesso em: 3 maio 2019. 
DECLARAÇÃO Americana dos Direitos e Deveres do Homem de 1948. 
Comissão Interamericana de Direitos Humanos, [S.d.]. Disponível em: 
<https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/b.Declaracao_Americana.htm>. 
Acesso em: 3 maio 2019. 
DECLARAÇÃO Universal dos Direitos Humanos de 1948. United Nations 
Human Rights, 20 jul. 1998. Disponível em: 
<https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por>. 
Acesso em: 3 maio 2019. 
DORNELLES, J. R. W. O que são Direitos Humanos. São Paulo: Brasiliense, 
2013. (Coleção Primeiros Passos). 
ESPECIALISTAS da ONU pedem que Nigéria amplie esforços para encontrar 
meninas sequestradas por Boko Haram. Organização da Nações Unidas 
(ONU), 15 abr. 2016. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/especialistas-
da-onu-pedem-que-nigeria-amplie-esforcos-para-encontrar-meninas-
sequestradas-por-boko-haram/>. Acesso em: 3 maio 2019. 
GENRO, M.; ZITKOSKI, J. Educação e Direitos Humanos numa perspectiva 
intercultural. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, 
Salvador, v. 23, n. 41, p. 237-245, jan./jun. 2014. Disponível em: 
 
 
15 
<https://www.revistas.uneb.br/index.php/faeeba/article/view/840>. Acesso em: 
3 maio 2019. 
SANTOS, B. S. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São 
Paulo: Cortez, 2006.

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