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EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS – ELEMENTOS EDUCACIONAIS E CULTURAIS AULA 2 Prof. Altieres Edemar Frei 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula espera-se que o(a) acadêmico(a) tenha condições de ampliar seu repertório de estudos por meio da apresentação de conceitos e formulações importantes no campo dos Direitos Humanos. Nesta aula, tão ou mais importante que a apresentação dos conteúdos é tentar situar os diferentes lugares de fala que compõem o debate sobre Direitos Humanos na contemporaneidade. É disso que tratamos como dimensão sociocultural nesta aula, e por isso a importância de alguns marcadores históricos e culturais. No primeiro tema da aula, abordaremos a questão a partir da construção social em torno do Dia Internacional da Mulher e apresentaremos a noção da dimensão intercultural dos Direitos Humanos, tal qual proposta por Boaventura de Souza Santos (2006). Nos temas seguintes, trataremos de semelhanças e distinções entre direitos fundamentais e direitos sociais e as diferentes concepções de Direitos Humanos das visões idealistas, positivistas e crítico-materialistas. A proposta é que o(a) acadêmico(a) tenha maiores subsídios para a leitura crítica dos diferentes momentos e concepções dos Direitos Humanos. Os dois últimos temas destinam-se à discussão de uma questão fundamental: passado o entusiasmo pós-traumático da Declaração Internacional dos Direitos Humanos após a Segunda Guerra Mundial, o que foi feito? Ou melhor, como foi feito? Como fazer, no caso, para que a discussão em relação à soberania ou à autonomia nacional ou étnico-populacional de uns não se sobreponha aos interesses coletivos – da própria humanidade? É nesse tema que a Organização das Nações Unidas (ONU) – cujo papel é dinâmico e com impasses, porém, fundamental para o processo – ganha destaque, por meio de assembleias gerais, tratados e conferências, como a ocorrida em Viena em 1993. Já parou para pensar por que tivemos uma Declaração Universal dos Direitos Humanos e não um Tratado Internacional? 3 TEMA 1 – A IMPORTÂNCIA DA DIMENSÃO CULTURAL NO ESTUDO DOS DIREITOS HUMANOS Há um exemplo histórico e trágico para começar a nossa conversa sobre a dimensão sociocultural dos Direitos Humanos: em 8 de março de 1857, em Nova York, quando mulheres operárias da indústria têxtil fizeram uma greve reivindicando melhores condições de trabalho e equiparação salarial com os homens (que ganhavam três vezes mais pelo mesmo serviço), a manifestação foi brutalmente reprimida, com o trancamento de um centena de mulheres na fábrica que, depois, foi incendiada. É por conta dessa atrocidade que o dia 8 de março é celebrado como o Dia Internacional da Mulher. Não se trata, portanto, de uma data que institui a distribuição de rosas e bombons às mulheres – embora algumas possam achá- los bem-vindos em qualquer tempo. Trata-se de uma data de luta. Apesar dessa referência histórica, tal fato passa despercebido por milhares de mulheres e homens no dia 8 de março. O aspecto comercial que explora a efeméride com publicidade e apelo ao consumo faz crer a muitas mulheres que se trata de uma data para rosas e bombons, somente. Mas seria essa uma mera questão mercadológica? O estudo da dimensão sociocultural do que envolve a concepção dos Direitos Humanos é importante também por isso: permite trazer elementos outros para o debate, na medida em que, com o exemplo anterior, podemos perceber que embora a exploração comercial tenha dado outros sentidos à data de luta das mulheres, há um interesse por parte dos agentes que se mantêm no poder para que as coisas continuem como estão. Quanto maior o número de mulheres ocupadas com rosas e bombons, em vez de com a luta por seus direitos, como as operárias o fizeram, melhor para o andamento da carruagem – e dos negócios, no caso. Esse exemplo ilustra quantas outras lutas e afirmações estão por trás de cada concepção de sujeito (seja homem, seja mulher) por trás da afirmação dos Direitos Humanos. Literalmente, podemos dizer que foram muitas e muitos os que deram seu sangue para que as concepções que hoje nos parecem até triviais de liberdade e dignidade humana pudessem ser até mesmo pensadas. Afirmar essa memória é o tributo que podemos prestar – ou a luta que 4 devemos continuar. Essa trincheira é a dimensão sociocultural dos Direitos Humanos. 1.1 A importância da dimensão intercultural dos Direitos Humanos Quando debatemos a dimensão cultural dos Direitos Humanos não estamos dizendo que há culturas que são mais evoluídas do que outras. Tampouco tal debate permite relativizações do tipo: em determinada cultura é natural que homens batam em mulheres, e devemos respeitar esse contexto cultural. Muito pelo contrário. Fazer o debate sobre a dimensão cultural dos Direitos Humanos é, antes de mais nada, reconhecer que se trata de um projeto de garantia de direitos que está em construção, de um projeto de educação em Direitos Humanos que também está em construção, e, com isso, inferir sobre o próprio projeto de tipos de sujeito que se forja. Portanto, trata-se de considerar a dimensão intercultural dos Direitos Humanos no esforço para que a luta por eles não se torne outra cruzada civilizatória – no caso, que a imposição de tipos de sujeito aceitos como ideias em uma cultura não se sobreponha aos valores culturais de outras nações ou povos. E, portanto, trata- se de considerar a dimensão intercultural dos Direitos Humanos no esforço para que a luta por eles não se torne outra cruzada civilizatória. Essa é uma perspectiva apontada pelo sociólogo português Boaventura de Souza Santos (2006), para evitar que perspectivas culturais se sobreponham às outras; por isso ele propõe a reconceitualização dos Direitos Humanos como interculturais, por conta da perspectiva emancipatória de transformação conceitual e de práticas, a qual pressupõe “relação equilibrada e mutuamente potenciadora entre a competência local e a legitimidade local” (Santos, 2006, p. 442). A crítica do autor, tal qual elaborada por Genro e Zitkoski (2014), é no sentido de que os tratados e as convenções em voga traduzem as aspirações dos agentes dominantes na cultura ocidental, impedindo que sejam a expressão universal dos Direitos Humanos. Esses tratados, de conteúdo liberal, enfatizam os direitos individuais em detrimento dos direitos coletivos, sociais, que envolvem diferentes comunidades e grupos com demandas pela igualdade efetiva e pelo direito ao reconhecimento de suas diferenças (Genro; Zitkoski, 2014, p. 241). Essa crítica faz sentido para você? 5 TEMA 2 – DIREITOS FUNDAMENTAIS E DIREITOS SOCIAIS Partamos de um exemplo polêmico, mas atual, para alcançarmos a reflexão sobre a diferença entre os direitos fundamentais e os chamados direitos sociais: suponha que, em um determinado país, vender e consumir drogas seja uma questão de escolha de cada sujeito, baseada em sua visão de mundo e de corpo, e que o Estado deva prover recursos para que, caso esse sujeito tenha algum problema decorrente do uso ou do abuso dessas substâncias, ele tenha acesso a equipamentos de tratamento e cuidado. Esse tipo de política sobre drogas existe em diversos países na atualidade: Canadá, Holanda, Suíça, Uruguai e em alguns estados norte- americanos. Há essa postura pragmática nesses países, que pautam suas discussões na ideia de que cabe ao sujeito decidir o que fazer com seu corpo e não cabe ao estado intervir nesse processo – seja criminalizando o suicídio, a diabetes por obesidade, a anorexia ou o usode drogas. Mas suponha que, em determinado país, portar e vender as mesmas substâncias seja visto como uma transgressão criminal, em que a pena varie de prisão perpétua à pena de morte. Os governantes, inclusive, incitam a população a denunciar os possíveis traficantes, o que gera uma onda de violência e repressão que se retroalimenta, ou ainda a internar compulsoriamente (ou seja, violar a liberdade de escolha ao tratamento) as pessoas que fazem uso abusivo dessas substâncias, criando um problema social ainda mais complexo do que aqueles decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas. Políticas de tolerância zero como essa têm sido praticadas em países como as Filipinas, e derivações desse modelo têm sido discutidos em países nos quais a orientação política vem se tornando conservadora ou sectária. As perguntas que o exemplo promove é: em que medida o preceito da dignidade, que há de ser universal, é considerado nesses casos em que as pessoas podem vir a ter complicações decorrentes do uso abusivo de substâncias psicoativas? Ou mesmo decorrentes de estratégias de inserção social e geração de renda, que fazem com que o tráfico de drogas seja uma alternativa de inserção econômica e, também, de ascensão social? E em que medida esses são debates meramente domésticos, cabendo ao legislador de cada país, eleito ou não, administrar sua própria política? 6 Antes de entrar no debate, talvez seja prudente examinarmos com mais propriedade a diferenciação entre os chamados direitos fundamentais no contexto atual dos estados, por um lado, e a importância da universalidade e dos direitos sociais, por outro lado. 2.1 Os direitos fundamentais no contexto atual dos Estados Os chamados direitos fundamentais puderam ser observados desde as revoluções burguesas, dois séculos antes da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Embora abordem aspectos distintos, há semelhanças importantes entre eles: ambos afirmam a liberdade como direito positivado e supõem a existência de bens universais para humanidade, tais como: o direito de expressão, pensamento, credo (desde a Revolução Francesa de 1789) e o direito à dignidade humana, desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, “independente de que pessoa se trate ou que possível delito tenha cometido” (Genro; Zitkoski, 2014). O direito constitucional positivo é aquele que cabe ser determinado pelo Estado – daí o termo positivo. O direito constitucional positivo se refere a um papel atuante do Estado, ou seja, não está só no fato de o Estado não intervir, mas também na convocação para que o Estado, por meio de leis e outros dispositivos, garanta a efetividade e a aplicação dos Direitos Humanos. É um ponto importante, mas do que uma questão de adjetivos, pois, em uma última análise, versa sobre o papel do Estado de criar e executar legislações que busquem superar desigualdades e violências direcionadas aos cidadãos. Trata-se, portanto, de um conjunto de direitos que estão direcionados ao indivíduo, sobretudo. E trata-se, portanto, de um mecanismo que exige um Estado voltado para o bem-estar social, independentemente de sua orientação econômica. É algo que pode, portanto, ser alterado na medida em que altera- se o projeto do Estado ou mesmo na medida em que se altera a visão econômica de determinado Estado. O seguinte impasse pode decorrer: se um governante de um determinado país decide imputar penas capitais a traficantes de drogas, por exemplo, trata-se de um problema meramente doméstico (do tipo cada Estado tem autonomia para suas leis) ou de algo que pode atingir a todos nós como categoria humana, por conta de valores que hão de ser universais, como a dignidade humana? 7 2.2 Os direitos sociais e a importância da universalidade É por questões como a anunciada anteriormente que a discussão em torno dos chamados direitos sociais e a importância da universalidade precisam ser exploradas no debate sobre Direitos Humanos. Segundo Genro e Zitkoski (2014): Se os direitos fundamentais são direitos positivos, que garantem segurança jurídica por meio de pactos legais, constitucionais, existentes nos contextos de estados democráticos, por sua vez os direitos humanos são conquistados para além do ordenamento jurídico existente […] e constituem-se como unidade indivisível porque não dispensam os direitos de outra natureza que o precederam historicamente, como, por exemplo, os direitos civis, políticos e sociais. (Genro; Zitkoski, 2014, p. 240) Os direitos sociais, portanto, transcendem a concepção de uma humanidade dividida em quintais ou fronteiras. Tal qual na canção Imagine de John Lennon, os direitos sociais convidam a pensar a humanidade como um corpo único – e como uma ferida a um corpo por violação da dignidade humana como uma ferida a toda humanidade, por conseguinte. Tais proposições universalistas, ainda que aparentemente generalistas e permeadas também por contradições e disputas de projetos de sujeito, trazem consigo um argumento irrefutável: destacam a dignidade humana como o preceito a ser defendido, independentemente do país – e de sua etnia – em que o código jurídico é acordado. Pessoas escravizadas devem ser aberrações em qualquer país, independentemente da legislação trabalhista que possa vigorar. Pessoas sentenciadas à pena capital por tráfico de drogas também podem ser uma afronta à dignidade humana, especialmente quando a sociedade em questão tolera alguns tipos de drogas (álcool, remédios, cigarros) consideradas lícitas. Para você, faz sentido esse debate? TEMA 3 – CONCEPÇÕES IDEALISTAS, POSITIVISTAS E CRÍTICO- MATERIALISTAS DOS DIREITOS HUMANOS Para que os debates socioculturais sobre Direitos Humanos na atualidade possam ser promovidos considerando os diferentes lugares de fala que existem – como a de políticas governamentais que cometem atrocidades ao passo que seus dirigentes afirmam defender direitos humanos, entre tantos outros exemplos –, talvez seja prudente avançarmos às categorias das 8 diferentes concepções de Direitos Humanos das visões idealistas, positivistas e crítico materialistas. Foi esse percurso que Dornelles (2013) fez em seu estudo introdutório sobre Direitos Humanos à guisa de situar o leitor quanto às principais bases filosóficas que dão subsídio a cada concepção dos direitos humanos. Evidentemente, em um estudo mais aprofundado da temática, vale recorrer aos filósofos de cabeceira de cada corrente (de Kant a Comte, passando por Marx). 3.1 Concepção idealista dos Direitos Humanos Trata-se da fundamentação dos Direitos Humanos a partir de uma visão metafísica e abstrata. Segundo Dornelles (2013), essa concepção fundamenta os Direitos Humanos “identificado os direitos a valores superiores informados por uma ordem transcendental, supraestatal, que pode se manifestar na vontade divina (como no feudalismo) ou na razão natural humana (a partir do século XVII)” (Dornelles, 2013, p. 16). É importante tal período, pois, desde então, pôde-se perceber um discurso que é irradiado e abastece os lugares de fala no debate sobre Direitos Humanos na atualidade, especialmente quando justificam que os homens já nascem livres, por exemplo, pela obra e graça do espírito santo ou por consequências do chamado naturalismo. Os direitos, em ambos casos, advêm de um ideal. 3.2 Concepção positivista dos Direitos Humanos Nessa concepção, os Direitos Humanos são fundamentais e essenciais desde que reconhecidos pelo Estado em sua ordem jurídica e positiva. Sob essa perspectiva, a visão de que os direitos seriam um bem natural ou dotados a partir de uma ordemtranscendental caducam. Segundo Dornelles (2013), em seu estudo: “os direitos humanos seriam um produto que emana da força do Estado através de seu processo de legitimação e reconhecimento legislativo, e não o produto ideal de uma força superior ao poder estatal, como Deus ou a razão humana” (Dornelles, 2013, p. 16). 9 3.3 Concepção crítico-materialista dos Direitos Humanos É a que se desenvolve durante o século XIX, partindo de uma explicação de caráter histórico-estrutural para fundamentar os Direitos Humanos. Trata-se, sobretudo, de uma crítica ao pensamento liberal que, segundo Dornelles (2013), “entende que os direitos humanos, como estavam enunciados das declarações de direitos e nas constituições dos séculos XVIII e XIX, não passavam de expressão formal de um processo político-social e ideológico realizado por lutas sociais no momento da ascensão burguesa” (Dornelles, 2013, p. 17). A inspiração e a influência das obras de Marx e Engels são fundamentais para subsidiar essa crítica que, de certa forma, permanece atual e pode ser encontrada em muitos lugares de fala do debate e na concepção sociocultural sobre Direitos Humanos: não há projeto humano que possa vicejar sem pensar sobre a equalização das desigualdades sociais e de concentração de renda no mundo, especialmente no contexto brasileiro. TEMA 4 – PROTEÇÃO INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS E SUAS IMPLICAÇÕES SOCIOCULTURAIS Os Direitos Humanos representam, ou até pouco tempo atrás representavam, de certa forma, uma última utopia, considerando a impossibilidade das utopias até então vislumbradas, como a utopia socialista. Mas nos últimos anos a comunidade internacional, assolada por levantes de setores conservadores e extremistas, tem assistido a uma depredação sistemática da noção dos Direitos Humanos. É como se, socioculturalmente, estivéssemos sujeitos a perder a fé nos Direitos Humanos. Trata-se de um embate novo e que, portanto, necessita de análises mais aprofundadas, mas no processo de discussão para fins educacionais ou mesmo cívicos há de se considerar suas consequências sob diversas camadas: desde as políticas públicas em vigência até mesmo à percepção das pessoas sobre o assunto. A atuação de organismos internacionais de proteção aos Direitos Humanos é salutar para esses processos de resistência e consolidação desses direitos, assim como para o amadurecimento de suas contradições e divergências. Trata-se de iniciativas advindas da Organização das Nações 10 Unidas (ONU), que decorrem de contextos históricos de afirmação dos Direitos Humanos pós Declaração (e não do Tratado) Internacional dos Direitos Humanos (1948) que culminaram na criação dos organismos internacionais e seus respectivos relatórios. Segundo Dornelles (2013), a ampliação da compreensão mundial dos Direitos Humanos (do ponto de vista sociocultural), bem como a tensa engenharia entre soberania nacional e ações de órgãos internacionais podem ser historicamente construídas por meio dos marcadores que conheceremos a seguir. 4.1 Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem (1948) Aprovada pela IV Conferência Interamericana reunida na cidade de Bogotá entre março e maio de 1948. Foi o primeiro texto elaborado por iniciativa dos países das Américas do Sul, Central e do Norte. Consagra princípios básicos de tutela dos direitos essenciais no âmbito continental (Dornelles, 2013). 4.2 Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) Aprovada pela Assembleia das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Dornelles (2013) frisa que mesmo não tendo força de obrigatoriedade para ação dos Estados, a Declaração da ONU tem uma importância histórica por marcar a derrota dos regimes totalitários nazi-fascistas, além de constituir um monumento de natureza moral, servido de referencial para a promoção e o respeito efetivo dos direitos humanos em todas as partes do mundo. (Dornelles, 2013, p. 41) 4.3 Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de San José, 1969) Aprovada na Conferência Especializada Interamericana sobre Direitos Humanos, realizada em San José, na Costa Rica, em novembro de 1969. Na prática estabelece um texto normativo cujo papel é dar execução à proteção dos direitos e garantias que os documentos anteriores não proviam. 11 4.4 Declaração Universal dos Direitos dos Povos (1977) Aprovada em Argel, no ano de 1977, por dirigentes de movimentos de libertação nacional, chefes de Estado, juristas, economistas e políticos de diferentes países. Segundo Dornelles (2013), Esse documento enuncia princípios referentes aos direitos de todos os povos contra a dominação e exploração dos imperialismos exercidas pelas grandes potências. A partir disso, expressa a necessidade de garantia dos direitos à existência dos povos, à autodeterminação política, ao desenvolvimento econômico, à cultura, ao meio ambiente, e dos direitos das minorias. E um documento que elabora princípios com a preocupação de construir uma nova ordem internacional mais solidária e cooperativa. (Dornelles, 2013, p. 18) TEMA 5 – CONFERÊNCIA MUNDIAL SOBRE DIREITOS HUMANOS DE VIENA (1993): CONSIDERAÇÕES Como discutido no tema anterior, a necessidade de analisar os lugares de fala sobre Direitos Humanos se sustenta. É fundamental, para além da compreensão histórica do fenômeno — por isso chamamos essa dimensão de sociocultural nesse processo, que é sempre complementar, entre produção de mundo e produção de sujeitos. A Conferência Mundial sobre Direitos Humanos de 1993, em Viena, é um marco por diversas razões, especialmente por conta da publicização do tema em nível mundial. Uma questão importante para a diplomacia brasileira foi a relatoria do documento ficar a cargo do Embaixador Gilberto Vergne Saboia, Representante Permanente Adjunto perante as Nações Unidas em Genebra. Segundo o também diplomata Lindgren Alves, presente à conferência, A reafirmação da universalidade dos direitos humanos constituiu, por sinal, uma das conquistas mais difíceis da Declaração de Viena. Não havendo participado da elaboração e da aprovação da Declaração Universal, e em função de seus sistemas culturais, religiosos e ideológicos diferentes daqueles do Ocidente, muitos países asiáticos e africanos insurgiram-se, no processo preparatório, contra a própria idéia dos direitos humanos que inspirou o texto de 48. Algumas delegações chegaram a declarar, no Plenário e nas discussões de trabalho da Conferência, que ela correspondia a uma tentativa de imposição de valores ocidentais sobre o resto do mundo. Sua aceitação de tais direitos seria, pois, sempre condicionada à adaptabilidade de cada um desses direitos aos respectivos sistemas. Em vista de tais posturas, foi um tento extraordinário da Conferência de Viena conseguir superar o relativismo cultural ou religioso ao afirmar, no Artigo 1º da Declaração: "A natureza universal de tais direitos não admite dúvidas”. (Alves, 1994, p. 172) 12 Tais preceitos são decisivos para evitar que minorias, em nome do discurso de proteção à soberania nacional ou de seus valores culturais, justifiquem ações que deponham contra a dignidade humana. Daí a importância da universalidade indubitável dos Direitos Humanos. O próprio Lindgren Alves afirma, em outro momento, que os Direitos Humanos talvez tivessem sido a última grande utopia. Para o autor, a humanidade perdeu a fé nos Direitos Humanos (Alves, 2005). Essa não é uma avaria como outra qualquer do processo histórico, e, mais do que nunca, a educação em Direitos Humanos torna-se tarefa imperativa e vital. NA PRÁTICA Uma notícia publicada nosite da Organização das Nações Unidas (ONU) em abril de 2016 diz: Dois anos depois de o Boko Haram ter sequestrado 276 meninas na Nigéria, especialistas em direitos humanos da ONU e da África pediram na terça-feira (12) que o grupo extremista revele imediatamente a localização das vítimas e que o governo da Nigéria aumente seus esforços para libertar todos os civis sequestrados pelo grupo […]. Os especialistas das Nações Unidas disseram ainda que, apesar de entenderem a importância de medidas de segurança aplicadas pelas autoridades – que evitam a divulgação de informações sobre o caso – , estão preocupados com o fato de o direito básico das famílias de serem informadas estar sendo ignorado. De acordo com os especialistas, as autoridades nigerianas precisam designar um ponto focal para se reunir com as famílias e fornecer assistência e informação regular sobre as investigações (disponível em: <https://nacoesunidas.org/especialistas-da-onu-pedem-que- nigeria-amplie-esforcos-para-encontrar-meninas-sequestradas-por- boko-haram/>). Considerando a notícia anterior e seus conhecimentos prévios sobre o assunto, em que medida tal fato ilustra a complexa engenharia de possibilidades de intervenção de organismos internacionais de proteção aos Direitos Humanos em questões que são justificadas, como de soberania nacional ou preceitos culturais de minorias étnico-religiosas? Quais elementos trabalhados nesta aula dão subsídios para esse debate? FINALIZANDO Pudemos, em um breve percurso, trazer alguns aspectos socioculturais dos Direitos Humanos, bem como alguns de seus impasses. Procuramos demonstrar em um capítulo introdutório a importância da dimensão desse 13 debate, assim como pudemos visitar alguns marcos constitutivos tanto no que diz respeito aos conceitos (como interculturalidade, direitos sociais e direitos fundamentais) quanto no que diz respeito aos fatos históricos que culminaram na trama da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. E, também à guisa de introdução, pudemos delimitar alguns marcadores dos organismos internacionais de proteção, promoção e garantia de Direitos Humanos, especialmente no que diz respeito à atuação da Organização das Nações Unidas (ONU) à frente de pactos, assembleias internacionais e conferências sobre o assunto. Finalizamos com um exemplo prático a partir do sequestro de meninas praticado pelo Boko Haran na Nigéria e as dificuldades de atuação – e resolutividade da questão – por meio de mecanismos, observatórios e demais organismos internacionais de proteção aos Direitos Humanos. 14 REFERÊNCIAS ALVES J. A. L. As conferências sociais da ONU e a irracionalidade contemporânea. In: ALVES, J. A. L. et al. Direito e cidadania na pós- modernidade. Piracicaba: Unimep, 2002. _____. Direitos humanos: o significado político da conferência de Viena. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, São Paulo, n. 32, p. 170-180, abr. 1994. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102- 64451994000100009&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 3 maio 2019. _____. Os direitos humanos na pós-modernidade. São Paulo: Perspectiva, 2005. CONVENÇÃO Americana sobre Direitos Humanos de 1969. Comissão Interamericana de Direitos Humanos, [S.d.]. Disponível em: <https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/c.convencao_americana.htm>. Acesso em: 3 maio 2019. DECLARAÇÃO Americana dos Direitos e Deveres do Homem de 1948. Comissão Interamericana de Direitos Humanos, [S.d.]. Disponível em: <https://www.cidh.oas.org/basicos/portugues/b.Declaracao_Americana.htm>. Acesso em: 3 maio 2019. DECLARAÇÃO Universal dos Direitos Humanos de 1948. United Nations Human Rights, 20 jul. 1998. Disponível em: <https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por>. Acesso em: 3 maio 2019. DORNELLES, J. R. W. O que são Direitos Humanos. São Paulo: Brasiliense, 2013. (Coleção Primeiros Passos). ESPECIALISTAS da ONU pedem que Nigéria amplie esforços para encontrar meninas sequestradas por Boko Haram. Organização da Nações Unidas (ONU), 15 abr. 2016. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/especialistas- da-onu-pedem-que-nigeria-amplie-esforcos-para-encontrar-meninas- sequestradas-por-boko-haram/>. Acesso em: 3 maio 2019. GENRO, M.; ZITKOSKI, J. Educação e Direitos Humanos numa perspectiva intercultural. Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 23, n. 41, p. 237-245, jan./jun. 2014. Disponível em: 15 <https://www.revistas.uneb.br/index.php/faeeba/article/view/840>. Acesso em: 3 maio 2019. SANTOS, B. S. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.