Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

EDUCAÇÃO EM DIREITOS 
HUMANOS: ELEMENTOS 
EDUCACIONAIS E CULTURAIS 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Altieres Edemar Frei 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
O debate sobre Direitos Humanos é cada vez mais intenso e atual. No 
contexto político brasileiro e no cenário internacional, são cada vez mais 
frequentes e eloquentes os posicionamentos que aludem aos Direitos 
Humanos – ou mesmo que problematizam sua existência. Seria um mero 
acaso? 
Como pretendemos ver ao longo deste curso, há convergências e 
divergências de saberes e posicionamentos no que tange ao tema dos Direitos 
Humanos – e tudo tem sua razão de ecoar na atualidade por diversos motivos. 
Tentaremos examinar alguns desses fenômenos considerando tanto a matriz 
histórica e conceitual dos Direitos Humanos quanto seus aspectos 
socioculturais. 
Começaremos por uma breve introdução sobre o que são os Direitos 
Humanos. Embora este conteúdo não seja voltado às aulas de História, 
entendemos que a contextualização sobre o projeto de sujeito iluminista que 
vigorava à época da Revolução Francesa, da Declaração de Independência 
Estadunidense – especialmente do contexto pós-guerra – e da devastação 
ética do Holocausto são fundamentais para alicerçar nosso debate e os 
diferentes lugares de fala que emergem quando se trata dessa temática. 
A introdução aos conceitos e às distinções entre direitos fundamentais e 
direitos sociais ganha outro corpo em tempos da mundialização da economia, 
tempos em que a história recente da humanidade experimenta processos 
díspares, ora utópicos, de integração continental, ora despóticos, apontando 
para sectarismos e nacionalismos. Eis o ponto importante de examinar as 
diferentes tensões e de desdobrar os lugares de fala dos porta-vozes dos 
discursos de ódio presentes em ideais como “Direitos Humanos para humanos 
direitos”. Trata-se da tensão entre humano e não humano, e procuraremos 
apresentar alguns tópicos a esse respeito no quarto tema. 
O último tema propõe uma breve introdução (desenvolvida em outros 
momentos do curso sob outros aspectos) quanto aos “Direitos Humanos à 
brasileira”: Como um país com histórico de uma elite extrativista e de 
populações escravizadas pode absorver ou se tornar impermeável aos 
aspectos universais dos Direitos Humanos? 
 
 
3 
São questões que, de imediato, convocam exercícios de transposição da 
realidade para a análise, principalmente por meio das notícias de violação de 
Direitos Humanos que acompanhamos recentemente pela mídia. Trataremos 
de um case na seção “Na prática”. 
Que seja produtivo e transformador! 
TEMA 1 – O QUE SÃO DIREITOS HUMANOS? 
Há uma definição clássica e até pueril do termo “direito”, significando 
aquilo que é reto, correto ou justo – e, por conseguinte, opondo-se ao que é 
“torto”. 
Quando se traz esse debate para a lógica dos Direitos Humanos, não 
raro falácias do tipo “só é possível Direitos Humanos para humanos direitos” 
podem aparecer no discurso. Nessa perspectiva, a primeira questão a 
considerar é que não se trata de um direito só de quem “é correto” ou “merece” 
Direitos Humanos, pois a concepção dos Direitos Humanos, como a própria 
declaração de 1948 ilustra, é universal. 
Direitos não são favores, súplicas ou gentilezas. Não se pede um direito, 
luta-se por ele. A luta pelos Direitos Humanos é, sob essa perspectiva, uma 
luta pela própria humanidade em sentido estrito. Mas cada direito corresponde 
a um dever – e isso não significa dizer que os Direitos Humanos têm sua 
eficácia por produzirem deveres, mas sim por produzirem efeitos concretos na 
realidade. 
Em uma definição geral, um direito é a possibilidade de agir ou de poder 
exigir uma conduta dos outros – tanto uma ação quanto uma omissão. Cada 
direito corresponde a um dever. E isso não garante sua eficácia. Nesse 
sentido, me parece adequada a proposição de Genro e Zitkoski, que afirmam: 
Os seres humanos, embora sejam bastante diferentes entre si nos 
seus modos de viver e de ser, bem como quanto às condições 
materiais e de sobrevivência que possuem, estão em condição de 
igualdade em relação ao fato de que partilham a fragilidade humana. 
Somos todos sujeitos a limites físicos, psíquicos e de outras 
naturezas, limites esses que, quando ultrapassados, causam algum 
tipo de dor e/ou sofrimento. Portanto, ter dignidade ou exercer a 
dignidade está diretamente vinculado a ter e exercer direitos que são 
humanos e que se vinculam à tolerância e ao respeito humano. 
(Genro; Zitkoski, 2014, p. 39) 
Portanto, a noção de dignidade da pessoa humana e de universalidade 
podem ser anunciadas como questões fundamentais na concepção dos 
 
 
4 
Direitos Humanos, como desdobraremos mais adiante. Os Direitos Humanos 
advêm de ideias profundamente revolucionárias: direitos correspondentes à 
dignidade dos seres humanos. 
Os três primeiros artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos 
sintetizam o que se considera fundamental para a humanidade: 
 Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos, são 
dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras 
com espírito de fraternidade. 
 Toda pessoa tem capacidade para exercer os direitos e as liberdades 
estabelecidos na Declaração, sem distinção de qualquer espécie (raça, 
cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de qualquer natureza, 
origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra 
condição). 
 Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. 
TEMA 2 – QUAL A ORIGEM DOS DIREITOS HUMANOS 
Não é nosso foco o profundo estudo histórico das propostas iluministas e 
socialistas que culminaram a concepção dos Direitos Humanos, especialmente 
com respeito às noções de liberdade e igualdade, deveras complexas. Mas é 
importante situar o(a) acadêmico(a) com relação a alguns marcos, conforme 
tópicos a seguir. 
2.1 Direitos Humanos de primeira geração: liberdade 
Essa fase tem relação com as tentativas de limitação do absolutismo, 
comum à contestação iluminista, ou seja, as tentativas de limitação do poder do 
Estado (soberano). John Locke é o teórico iluminista que defendia a 
propriedade privada como direito alienável, e que nutria, com o liberalismo, a 
ideia de que os homens não estavam condenados à imobilidade social por 
determinação do nascimento. A Revolução Francesa (1789) e a Revolução 
Norte-Americana (1776) são marcos históricos fundamentais da liberdade 
enquanto bandeira. 
A questão é que, por serem “direitos negativos”, constituem-se na 
prática como uma abstenção do Estado, conferindo aos indivíduos, por um 
lado, um poder até então inédito de oposição contra sua atuação. Mas, por 
 
 
5 
outro lado, não há atuações do Estado para a promoção dos direitos. Essa é 
uma tecnologia que só será acoplada em outro período histórico, como 
veremos. 
2.2 Direitos Humanos de segunda geração (igualdade) 
A Revolução Industrial foi o marco dos Direitos Humanos de segunda 
geração, graças à atuação da recém-formada classe dos trabalhadores, 
exigindo direitos sociais que consolidassem o respeito à dignidade, 
assegurando a igualdade entre os seres humanos. 
O foco, portanto, é a igualdade material, e não a igualdade entre seres 
humanos. Para isso, é necessária uma atuação estatal na direção de diminuir 
(ou extinguir) as desigualdades sociais. Seus marcos são a Constituição 
Mexicana de 1917, a Revolução Russa de 1917 e a República de Weimar 
(1890). 
2.3 Direitos Humanos de terceira geração (fraternidade) 
São chamados também de direitos difusos e coletivos. Temas como 
meio ambiente, proteção da infância e juventude, defesa do consumidore 
outras questões passam a emergir como categorias interligadas à condição 
humana nas sociedades. 
Com isso, a noção de titularidade comum aos direitos civis e políticos na 
forma de indivíduos passa a ser atravessada por outra lógica, a de 
coletividades, reconhecendo-se os diferentes graus de desenvolvimento das 
populações em diferentes contextos. 
É nessa base conceitual que noções como a de solidariedade aparecem 
– daí a alusão ao termo “fraternidade”. Seus marcos são a Declaração 
Universal dos Direitos Humanos e a Declaração dos Direitos Humanos de 
Viena, 1993. 
TEMA 3 – VERTENTES DOS DIREITOS HUMANOS 
No contexto pós-Segunda Guerra Mundial, com o objetivo inicial de, 
estabelecida a paz, regulamentar a situação de pessoas que buscavam asilo 
ou refúgio em outros países, iniciam-se as discussões sobre a possibilidade de 
uma Declaração Universal dos Direitos Humanos. 
 
 
6 
Segundo o pesquisador Régis Coppini Lima (citado por Castilho, 2012), 
considera-se os Direitos Humanos em duas categorias: lato sensu – aqueles 
garantidos em tempo de paz, e stricto sensu – além dos direitos fundamentais 
(vida, liberdade, igualdade e segurança pessoal), o direito ao asilo, o direito dos 
refugiados e o direito humanitário, precursores esses do complexo sistema 
internacional de proteção do ser humano, e por isso considerados vertentes 
dos Direitos Humanos. Pensamos ser útil aprofundar cada um deles. 
3.1 Direito de asilo: primeira vertente 
Divide-se em duas categorias: asilo territorial e asilo diplomático. Na 
América Latina, o documento que rege as condições para concessão de asilo é 
a Convenção sobre Asilo Diplomático, de Caracas (1954). 
A principal condição é a de que o solicitante seja perseguido por motivos 
políticos e não tenha cometidos crimes contra a paz, crimes de guerra ou 
crimes contra a humanidade. O asilo é temporário e, no Brasil, o tema é tratado 
no chamado Estatuto do Estrangeiro, arts. 28 e 29 (Castilho, 2012, p. 18). 
3.2 Direito dos refugiados: segunda vertente 
Trata-se de outro desdobramento dos resquícios bélicos pós-Segunda 
Guerra Mundial, cujo documento basilar é a Convenção que trata do Estatuto 
dos Refugiados, promulgada pela Organização das Nações Unidas em 1951. A 
ideia central era que os países fossem levados a acolher e proteger pessoas 
que em sua terra de origem fossem perseguidas em virtude de raça, religião, 
nacionalidade, filiação a certo grupo social ou opiniões políticas (Castilho, 
2012, p. 18). 
3.3 Direito humanitário: terceira vertente 
Tem como marco a Convenção de Genebra, de 1949, mas suas raízes 
podem ser encontradas nas preocupações pós-Primeira Guerra Mundial. Versa 
sobre o tratamento de prisioneiros de guerra e da população civil dos países 
em conflito; na prática, representa, segundo Castilho (2012), uma clara 
regulamentação do emprego da violência no âmbito internacional. 
 
 
7 
TEMA 4 – TENSÕES FUNDAMENTAIS 
Você costuma pensar sobre as pessoas que foram escravizadas no 
Brasil colonial? Você costuma pensar sobre como as pessoas que não eram 
escravizadas lidavam com as pessoas que eram escravizadas? 
Hannah Arendt, ao propor uma genealogia do que ela chamava de 
“banalização do mal”, pensou algo nesse sentido com relação ao cidadão da 
Alemanha, de classe média, que trucidava judeus em uma câmara de gás e 
depois rezava antes de jantar com a família, como se seu dia tivesse 
acontecido sem qualquer intercorrência. 
Para a autora, havia algo de projeto cultural no entendimento de que 
aquele sujeito, o judeu, era uma espécie de sub-humano, de vida-animal. Por 
isso, nenhuma crise existencial ou ética parecia assolar esse sujeito de classe 
média. Talvez esse aspecto estivesse presente nos capatazes do Brasil 
Colônia, mesmo os capatazes negros. Dizemos que, por isso, a tensão entre o 
humano e o não humano é algo que atravessa as discussões sobre Direitos 
Humanos. 
4.1 Tensão entre o humano e o não humano 
Decorre do reconhecimento de que o próprio conceito do que é ser 
humano varia de época para época e de cultura para cultura. Segundo Genro e 
Zitkoski: 
O conceito de humano, presente na tradição moderna, ocidental, 
colonial e capitalista exclui um grande contingente de seres humanos, 
considerados sub-humanos, produtos de políticas colonialistas 
historicamente construídas. Outra dimensão desta tensão diz respeito 
à questão da natureza, considerada como um recurso a ser explorado 
infinitamente, inserido num modelo extrativista na relação do ser 
humano com a natureza. Existem outras epistemologias, diferentes 
culturas em que a natureza está conectada com a humanidade e 
vice-versa. (Genro; Zitkoski, 2014, p. 241) 
Tal excerto ilustra a importância de debater projetos de sujeito e de 
humanidade que sustentam cada conversa sobre Direitos Humanos: se não é 
universal, se não se pauta no respeito à dignidade, pode haver projetos 
civilizatórios que “naturalizem” a exploração do próximo como efeito colateral 
do progresso. Qualquer discurso sobre liberdade parece mera cortina de 
fumaça nesse contexto. 
 
 
8 
4.2 Tensão entre igualdade e diferença 
Trata-se de outro ponto que, não raro, assola as discussões sobre 
Direitos Humanos: a relação entre igualdade e diferença. Quando a conversa 
se dá no âmbito de um aspecto muito generalista em torno da universalização, 
pode-se deixar escapar demandas culturais (como as de gênero, etnia, 
orientação sexual) ou demandas singulares de grupos e de comunidades que 
podem ser silenciadas. 
Segundo Genro e Zitkoski, é aí que a luta pelo reconhecimento e 
respeito às diferenças aparece como o fiel da balança: 
As lutas pela redução das desigualdades sociais e econômicas 
precisam ser ampliadas para um combate às diferentes formas de 
discriminação e exclusão. Neste sentido, a transformação cultural e 
institucional se constrói por um processo educativo de um pensar e 
atuar ao encontro da luta pelo reconhecimento e respeito às 
diferenças. (Genro; Zitkoski, 2014, p. 240) 
É por essas razões que o debate sobre Direitos Humanos deve 
considerar as demandas das minorias e a relativização dos valores de cada 
cultura: não se combate uma cultura de machistas que violam os direitos das 
mulheres criando um tipo de mulher que se coloca acima dos homens e 
reproduz a mesma relação de violência de gênero, mas com polos invertidos. 
Da mesma forma, não se pode deixar de relativizar o que uma sociedade 
pensa de fato da emancipação feminina quando os representantes dos quadros 
de direção pública, ou mesmo privada, pertencem ao universo hetoronormativo 
e pratriarcal. O nível que esse corpo de direção terá para acompanhar o debate 
sobre a mulher assediada no contexto do trabalho, ou ainda sobre a 
profissional do sexo violada em sua dignidade por um policial corrupto, por 
exemplo, será certamente diferente se essas minorias puderem se fazer 
presentes. 
TEMA 5 – DIREITOS HUMANOS À BRASILEIRA 
Como foi possível perceber pelo debate proporcionado à luz dos temas 
apresentados, promover a discussão sobre Direitos Humanos no Brasil é muito 
diferente de fazer isso, por exemplo, na Holanda (país tradicionalmente 
progressita), na Alemanha ou na comunidade judaica (por todas as questões 
que a envolvem diretamente no Holocausto) ou em países africanos. 
 
 
9 
Novamente as questões de interculturalidade, igualdade e diferença e 
contexto sociocultural de cada grupo social precisam ser consideradas. Nesse 
sentido, o debate sobre Direitos Humanos no Brasil é atravessado por 
questões muito profundas: o extermínio e a aculturação dos povos ameríndios 
nativos, a escravização de populações ameríndias, sobretudo africanas,a 
tolerância com a cultura coronelista expressa no “Você sabe com quem você 
está falando?”, tudo isso eleva o debate a outras proporções. 
5.1 O debate sobre Direitos Humanos impulsionado por Jessé de Souza 
Embora não se debruce especificamente sobre essa questão (a 
implantação dos Direitos Humanos no processo sociocultural brasileiro), a obra 
do sociólogo Jessé de Souza faz eco a essas discussões sobre a singularidade 
do tema no Brasil, especialmente pela constatação, por parte do autor, de um 
tipo de produção de elites extrativistas e predatórias. 
Jessé levanta pontos interessantes sobre a trama da autonomia possível 
em um país cuja 
construção de uma elite toda-poderosa que habitaria o Estado só 
existe, na realidade, para que não vejamos a elite real, que está fora 
do Estado, ainda que a captura do Estado seja fundamental para 
seus fins. É uma ideia que nos imbeciliza, já que se desloca e 
distorce toda a origem do poder real. Nesse sentido, se fizermos uma 
analogia com o narcotráfico, os políticos são os “aviõezinhos” do 
esquema e ficam com as sobras do saque realizado na riqueza social 
de todos em proveito de uma meia dúzia. (Souza, 2017) 
Tais “naturalizações” corroboram com a cisão de classes sociais e com a 
segregação urbana. Algumas questões daí decorrem: Como trabalhar 
perspectivas socioculturais da educação em Direitos Humanos sem promover 
estratégias de afirmação e luta por direitos das populações da base da 
pirâmide social? Em qual vida vale a pena investir sob a lógica apontada por 
Jessé de Souza: a de uma população indígena ou a de uma massa de 
consumidores de mercadorias, espetáculos e serviços? 
NA PRÁTICA 
No âmbito do que se convencionou chamar de “instâncias de controle 
social”, há possibilidade de participação direta do cidadão nas esferas que 
acompanham a execução das políticas públicas em diferentes níveis: 
municipais, estaduais e federal. 
 
 
10 
Os Conselhos de Direitos Humanos, além de acompanharem a 
execução de políticas públicas, têm papel de incidir sobre pautas da área no 
Legislativo, seja por meio de consultas públicas, de grupos de trabalho ou de 
comissões temáticas dessas instâncias. E, tão importante quanto, os 
Conselhos de Direitos Humanos constituem-se equipamentos para vocalização 
das violações de Direitos Humanos. 
Exemplo disso é o caso dos movimentos sociais de pessoas gays, 
lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros, que traz à pauta violações de 
pontos cruciais nos Direitos Humanos, especialmente ataques contra honra, 
dignidade e liberdade de escolha, culminando, em casos mais extremos, nos 
crimes de homofobia. 
Você conhece o Conselho Municipal de Direitos Humanos do seu 
município? Ele existe desde quando? Você sabe as principais pautas das 
últimas reuniões? Se não souber, não se sinta constrangido(a). Não saber é 
uma evidência do quanto estamos distantes de envolvermo-nos enquanto 
sociedade em defesa de temas tão cruciais. Na psicanálise, diríamos que se 
trata de um sintoma social. 
Debatendo o assunto, poderíamos saber melhor sobre os Conselhos. A 
proposta é que você faça uma pesquisa, considerando a consulta às atas das 
últimas reuniões – se não estiverem disponíveis, sugiro que faça contato 
telefônico com a secretaria do respectivo conselho. Se em seu município essa 
instância não estiver consolidada, procure saber do Conselho Estadual de 
Direitos Humanos. Se não o localizar, certamente encontrará algo sobre o 
Conselho Nacional de Direitos Humanos, órgão cada vez mais atuante na 
promoção e na garantia dos Direitos Humanos. Quem sabe dá até para dar 
uma passadinha em uma das reuniões! 
FINALIZANDO 
Pudemos, em um breve percurso, trazer alguns aspectos para reflexão 
sobre o conceito de Direitos Humanos: suas origens epistemológicas e o peso 
do Iluminismo e de movimentos sociais (como Revolução Francesa, 
movimentos sindicais durante a Revolução Industrial ou Revolução Russa) 
para esse processo. 
As vertentes dos Direitos Humanos puderam ser tratadas em um tema 
específico, assim como noções importantes a respeito das tensões e ameaças 
 
 
11 
aos Direitos Humanos na atualidade. Para isso, conceitos fundamentais da 
chamada “tensão entre humanos e não humanos” e da tensão entre igualdade 
e diferença puderam ser introduzidos. 
Finalizamos este estudo com uma questão provocativa que, certamente, 
terá outros ecos no decorrer do curso: Como pensar os Direitos Humanos no 
Brasil? Trata-se de uma questão disparadora, pois não é objetivo nosso 
alcançar suas amplitudes – certamente complexas e vastas. Mas a questão 
posta, com base em autores como Jessé de Souza, refere-se a em que medida 
o imaginário de um processo de escravização ainda reluzente e de uma 
concepção de elite extrativista e predatória assola a implantação – e o 
processo sociocultural – dos Direitos Humanos. 
 
 
 
12 
REFERÊNCIAS 
ARENDT, H. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Ed. Forense 
Universitária, 2000. 
CASTILHO, R. Direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2012. 
GENRO, M; ZITKOSKI, J. Educação e Direitos Humanos numa perspectiva 
intercultural. Revista da Faeeba – Educação e Contemporaneidade, 
Salvador, v. 23, n. 41, p. 237-245, jan/jun. 2014. 
SOUZA, J. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. São Paulo: Leya, 
2017.

Mais conteúdos dessa disciplina