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BREVE HISTÓRIA DA ANESTESIA GERAL Morton – Um dentista abnegado Historicamente, a data de 16 de outubro de 1846 é considerada como a data em que se realizou a primeira intervenção cirúrgica com anestesia geral. Naquele dia, às 10 horas, no anfiteatro cirúrgico do Massachusetts General Hospital, em Boston, o cirurgião John Collins Warren realizou a extirpação de um tumor no pescoço de um jovem de 17 anos, chamado Gilbert Abbot. O paciente foi anestesiado com éter pelo dentista William Thomas Green Morton, que utilizou um aparelho inalador por ele idealizado. A cena deixou de ser documentada fotograficamente porque o fotógrafo sentiu-se mal ao presenciar o ato cirúrgico, porém foi posteriormente imortalizada em um belo quadro do pintor Roberto Hinckley, pintado em 1882. Morton, que praticara com sucesso extrações dentárias sem dor, com inalação de éter, antevira a possibilidade da cirurgia sem dor e obtivera autorização para uma demonstração naquele Hospital. Morton não revelara a natureza química da substância que utilizava, dando-lhe o nome de letheon (esquecimento). Pressionado pela Associação Médica de Boston para que novas intervenções pudessem ser realizadas sem dor, teve de revelar a composição do letheon, que era apenas éter sulfúrico puro. Cirurgias e o Controle da Dor A insensibilidade total durante o ato cirúrgico, até então, era considerada uma utopia nos meios acadêmicos. À exceção da China, onde se usava a milenar acupuntura, os recursos utilizados para amenizar a dor no ato cirúrgico consistiam de extratos de plantas dotadas de ação sedativa e analgésica, além da hipnose e bebidas alcoólicas, o que não dispensava, evidentemente, a contenção do paciente. Na Idade Média empregava-se um método originário da Escola de Alexandria, cuja fórmula foi encontrada no mosteiro de Monte Casino. Trata-se da esponja soporífera, que se preparava com os seguintes componentes: ópio, suco de amoras amargas, suco de eufórbia, suco de meimendro, suco de mandrágora, suco de hera, sementes de bardana, sementes de alface e sementes de cicuta - uma onça de cada (28,7 g). Modo de preparar e de usar: misturar bem, colocar em um recipiente de cobre com uma esponja, ferver até a evaporação total. Para usar, mergulhar a esponja em água quente por uma hora; a seguir colocá-la sob as narinas do paciente até que ele durma. Para despertar o paciente usar outra esponja embebida em vinagre. Os primórdios da Anestesia Geral O primeiro passo para a anestesia geral foi dado por Joseph Priestley, ao descobrir o dióxido de nitrogênio (NO2) em 1773. Coube a Humphry Davy, um aprendiz de farmácia, na pequena cidade de Penzance, na Inglaterra, em 1796, experimentar os efeitos da inalação do NO2. Verificou ele que o gás produzia uma sensação agradável, acompanhada de um desejo incontido de rir (donde o nome de gás hilariante). Certa noite estava com dor de dente e, ao inalar o gás, notou que a dor desaparecera por completo. Deduziu que, se o NO2 suprimia a dor, poderia ser empregado no tratamento de outros tipos de dor. Em um de seus escritos, intitulado Vapores medicinais, sugeriu o emprego do NO2 em cirurgia: Já que o gás hilariante parece possuir a propriedade de acalmar as dores físicas, seria recomendável empregá-lo contra as dores cirúrgicas. A medicina oficial não tomou conhecimento da sugestão. Henry Hill Hickman, médico e cirurgião inglês, experimentara em animais a ação do NO2, tendo verificado que, sob a ação deste gás, podia realizar pequenas operações nos animais, sem que estes demonstrassem o menor sinal de dor. Tentou, sem êxito, obter autorização da Royal Society e da Associação Médica de Londres para repetir suas experiências em seres humanos. Sua petição foi recebida com frieza, a autorização foi negada e ele foi considerado um visionário. Como última tentativa, escreveu ao rei da França, Carlos X, pedindo-lhe para submeter o seu projeto à consideração da Academia de Paris. Em sessão de 28/9/1828, convocada especialmente para esse fim, a Academia deu seu parecer contrário, com um único voto a favor, do cirurgião Dominique Jean Larrey, que servira ao exército de Napoleão e conhecia o horror dos ferimentos de guerra e das amputações. Velpeau, um dos mais eminentes cirurgiões da França, declarou na ocasião que considerava uma quimera a obtenção da insensibilidade dolorosa durante o ato cirúrgico. Desiludido, Hickman faleceu dois anos depois, com apenas 29 anos de idade, sem ver realizado o seu sonho da cirurgia sem dor. Michael Faraday (1791-1867), físico inglês, estudando a liquefação dos gases e os líquidos voláteis, descobrira que os vapores de éter possuíam efeitos inebriantes semelhantes aos do dióxido de nitrogênio. Em uma nota publicada no Journal of Art and Sciences chamou a atenção para o fato da inalação de éter produzir insensibilidade total. Novamente, essa descoberta foi ignorada pelos meios médicos. Gás Hilariante- Desventuras de Horace Wells Nos Estados Unidos, os efeitos inebriantes do NO2 e do éter tornaram-se conhecidos e eram freqüentes os espetáculos públicos de inalação de gás hilariante, assim como reuniões reservadas de inalação de éter, conhecidas como ether parties ou ether frolics. Foi em um desses espetáculos de inalação de gás hilariante que Horace Wells, dentista na cidade de Hartford, tomou conhecimento da propriedade do NO2 de causar insensibilidade. Teve, então, a idéia de utilizá-lo em extrações dentárias. Fez uma experiência em si mesmo, solicitando a um seu colega que lhe extraísse um dente após inalação do NO2. Não somente não sentiu dor, como experimentou uma sensação de euforia e bem-estar. Entusiasmado, dirigiu-se à Boston, onde conseguiu permissão para fazer uma demonstração perante professores e estudantes da Faculdade de Medicina de Harvard. Um estudante se ofereceu como cobaia e a demonstração foi um fracasso. O estudante gritou de dor e Wells foi posto para fora como charlatão e impostor. Ao fazer nova tentativa em sua cidade, administrou quantidade excessiva de gás e o paciente teve parada respiratória e por pouco não morreu. Desanimado, abandonou suas experiências e a profissão de dentista. Thomas Green Morton – outro dentista Outro dentista, de Boston, William Thomas Green Morton, dentista em Boston, perseverou no propósito de obter extrações dentárias sem dor e sem colocar em risco a vida do paciente. Substituiu o NO2 por éter, após consultar seu ex-professor de Química, Charles Thomas Jackson, que lhe recomendou usar somente éter retificado e indicou-lhe o local onde poderia obtê-lo. Os resultados foram surpreendentes e muito superiores aos obtidos com o NO2. Morton anteviu a possibilidade da cirurgia sem dor e obteve permissão para uma demonstração no Massachusetts General Hospital. Assim chegamos ao dia 16 de outubro de 1846. Ao término da histórica operação que mudou o destino da Cirurgia, Warren proferiu as seguintes palavras: Daqui a muitos séculos, os estudantes virão a este Hospital para conhecer o local onde se demonstrou pela primeira vez a mais gloriosa descoberta da ciência. Long – e a anestesia com éter Na realidade, esta não era a primeira intervenção cirúrgica realizada com anestesia geral pelo éter. Na pequena cidade de Jefferson, no Estado da Georgia, nos EUA, em 1841, um jovem médico de nome Crawford Williamson Long tinha o hábito de realizar sessões de ether frolics em sua casa. Long participou de várias sessões e teve sua atenção despertada para a insensibilidade que se produzia durante os efeitos do éter, pois, por mais de uma vez, havia se machucado sem nada sentir. Teve, então, a idéia de utilizar o éter em pequenas intervenções cirúrgicas. O primeiro paciente a ser operado sob a ação do éter foi um seu amigo de nome Venable. Na presença de várias pessoas Long extirpou dois pequenos tumores na nuca do paciente sem que ele nada sentisse. A insensibilidade poderia ser atribuída à hipnose e não ao éter e para obter a prova decisiva, Long aproveitou-se de uma oportunidade ímpar. O filho de um escravo havia queimado a mão enecessitava amputar dois dedos. Long amputou o primeiro deles sob a ação do éter e o segundo depois de cessado o efeito do éter. O rapaz acusou dor somente na segunda amputação. Estava assim demonstrado o poder anestésico do éter. Long chegou a operar 8 casos com anestesia pelo éter, porém acreditava que o método não servisse para grandes intervenções a não ser que o paciente inalasse o éter o tempo todo, o que seria arriscado. Circularam rumores na cidade de que o médico estava pondo em risco a vida dos pacientes e certo dia uma Comissão constituída das autoridades locais foi ao seu Consultório pedir para que ele renunciasse a essas práticas audaciosas, pois, se um doente morresse ele poderia ser linchado em conseqüência da revolta da população, costume que era freqüente na época. Long abandonou o uso do éter e as suas experiências pioneiras só se tornaram conhecidas muitos anos depois. Morton e Wells – injustiçados em vida, reconhecidos após a morte Com o sucesso de Morton, Jackson, que gozava de prestígio internacional, reivindicou para si, nos países europeus, a prioridade da descoberta, acusando Morton de desonestidade. Wells, desgostoso e amargurado com o seu fracasso, cometeu desatinos, foi preso e suicidou-se na prisão aos 33 anos de idade. Morton, empobrecido, desacreditado por Jackson, faleceu subitamente em uma via pública aos 49 anos de idade. Com sua morte, houve um despertar da consciência norte- americano a seu favor e, no local de sua sepultura foi erigido um monumento com o seguinte epitáfio: Aqui jaz W.T.G. MORTON, o descobridor e inventor da anestesia. Antes dele, a cirurgia era sinônimo de agonia. Por ele foram vencidas e aniquiladas as dores do bisturi. Depois dele a ciência é senhora da dor. Erigido pelos cidadãos reconhecidos de Boston. Jackson, ao tomar conhecimento deste epitáfio, sentiu-se finalmente derrotado, tornou-se alcoólatra e terminou seus dias em um Hospício, onde morreu em 1880, aos 75 anos de idade. Long viveu o resto de sua vida arrependido por não ter divulgado sua descoberta, realizada em 1842, portanto, quatro anos antes de Morton, e faleceu subitamente aos 63 anos de idade. Como escreveu Fülöp Muller, dir-se-ia que uma estranha maldição pairava sobre todos os que consagraram sua vida e sua obra a lutar contra a dor. Embora Crawford Long tenha sido o primeiro médico a utilizar-se da anestesia geral pelo éter, o mérito e a glória da sua revelação para o mundo cabe, inegavelmente, a William Thomas Green Morton. Nos anos seguintes à sua descoberta, foram introduzidos novos agentes anestésicos. Outros Agentes Anestésicos Ao NO2 e ao éter seguiu-se o clorofórmio, utilizado pela primeira vez em 1847, no trabalho de parto, pelo médico inglês James Simpson. Em 1930 foi introduzido o ciclopropano e em 1956, o halotano. Paralelamente à anestesia geral por inalação, desenvolveram-se outros métodos de se obter a analgesia, como a anestesia local, venosa, raquianestesia, etc. O termo anestesia (do grego an, privado de + ai1sqhsij, sensação) foi sugerido pelo médico e poeta norte-americano Oliver Wendel Holmes. A palavra, entretanto, já existia na língua grega, tendo sido empregada no sentido de insensibilidade dolorosa, pela primeira vez, por Dioscórides, no século I dC. Em 1902, Seifert criou o termo anestesiologia, que define, atualmente, uma das mais importantes especialidades médicas. A Anestesia Geral no Brasil A anestesia geral chegou ao Brasil em 1847. Segundo informa Lycurgo Santos Filho, em sua História geral da medicina brasileira, a primeira anestesia geral pelo éter foi praticada no Hospital Militar do Rio de Janeiro pelo médico Roberto Jorge Haddock Lobo, em 25 de maio de 1847. Uma semana após foi utilizada por Domingos Marinho de Azevedo Americano em dois soldados, tendo sido anestesista o médico Leslie Castro, recém-chegado da Europa e que trazia consigo o anestésico e o aparelho de "eterização". Um dos soldados foi operado com sucesso, sem dor, de osteomielite fistulizada da mastóide; o outro era acoólatra e a anestesia não produziu insensibilidade. O éter foi logo substituído pelo clorofórmio que havia sido introduzido como anestésico na Inglaterra por James Simpson, em 1847. A primeira anestesia geral com o clorofórmio foi empregada pelo Prof. Manuel Feliciano Pereira de Carvalho, na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, em 18 de fevereiro de 1848 e noticiada pelo Jornal do Comércio em 22 do mesmo mês, com base em anotações fornecidas pelo Prof. Luís da Cunha Freijó, que assistira à operação, uma amputação da coxa em um rapaz de 15 anos de idade, por "tumor branco do joelho". A partir de então o uso do clorofórmio se generalizou, suplantando o éter, até que novos agentes anestésicos foram descobertos e introduzidos na prática médica. Joffre M. de Rezende Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás e-mail: jmrezende@mail.cultura.com.br http://usuarios.cultura.com.br/jmrezende nov/2000 Em 11 de dezembro foi dado o primeiro grande passo para a anestesia. Em 11 de dezembro de 1844 foi dado um grande passo em benefício da humanidade. O jovem dentista norte americano Horace Wells, 28 anos, usou gás como anestésico (óxido nitroso) para remover seu dente molar. Após recobrar os sentidos disse: “Uma nova era na extração dos dentes. Nada me doeu, foi como a pontada de uma agulha!”. Lutou muito para que as autoridades reconhecessem a sua descoberta, mas foi incompreendido, teve dificuldades financeiras e entrou em depressão, suicidando-se em 24 de janeiro de 1848, aos 33 anos. “O invento não pode ser privilégio de poucos, mas estar ao alcance de todos, livre como o ar que respiramos” - Horace Wells A sociedade médica de Paris o reconheceu como “O primeiro a ter descoberto a anestesia em cirurgia sem ter dor”. Mas já era tarde demais. Questionado por que não patenteou sua descoberta disse: “O invento não pode ser privilégio de poucos, mas estar ao alcance de todos, livre como o ar que respiramos.” A preocupação em suprimir a dor vem de tempos imemoráveis. Na Ilíada, de Homero, já se relatava que durante a guerra de Tróia um guerreiro procurava esfregar na ferida raízes amargas para diminuir a sua dor. Entre os antigos índios peruanos, já era conhecido o hábito de mascar coca e cuspir em cima da ferida, produzindo anestesia, aliviando a dor. O papiro de Ebers de 1.500 a.C., e compilado de 2.500 a.C., cita ingredientes usados com freqüência como incenso, cominho, tâmaras, açafrão, mandrágora e meimendro. Os egípcios costumavam mastigar folhas de “Ivis”, a planta sagrada de Osiris e os gregos usavam o sagrado loureiro de Apolo. Os indianos (600 a.C.) usavam como anestesia o vinho do cânhamo Índico. Em 2.600 a.C. os chineses utilizavam o arsênico. O dentista americano Horace Wells (1815-1848) descobriu o gás hilariante (óxido nitroso) quando pediu ao seu colega Colton que o aplicasse nele e Riggs fez uma extração sem dor com sucesso. Em 1846, Oliver Wendell Holmes (1808-1884) sugeriu o termo “ANAESTHESIA”, do grego AN = sem e AISTHETOS = sensação, para a nova descoberta. Norton (1818-1868) empregou o éter sulfúrico para anestesia geral em 1846 e Simpson (1811-1870) introduziu o clorofórmio em 1847. Na Alemanha, Koller (1857-1944) usou a cocaína como anestésico tópico em 1884. Em 1853, Pravaz (1791-1853) idealizou a primeira seringa. A seringa de vidro e agulha de metal foi fabricada em 1853, por Alexander Wood, para infeção subcutânea. Em 1854, a seringa de Wood foi aperfeiçoada por Luer. Em 1906, Fisher fabricou a primeira seringa específica para uso odontológico, que era rosqueada. Cook, em 1916, concebeu a idéia de seringa carregada com tubetes de vidro, contendo o anestésico local, originando a seringa carpule usada até os dias de hoje. Em 1959, nos Estados Unidos, foi feita a introdução de agulhas descartáveis estéreis só usadas no Brasil 20 anos depois. Paul Reclus (1847-1914) começou a empregar injeções anestésicas de solução diluídasem 1867. Braun (1862-1934) empregou a procaína dando início à anestesia local contemporânea, em 1906. Em 1912, ainda descobriu o uso de adrenalina associada aos anestésicos, aumentando a duração e o poder. Em 1943, Lofregreen e Ludkvist sintetizaram uma amida que é a lidocaína ou xilocaína usada atualmente. Horace Wells Odontólogo Estadunidense (1815 - 1848) Dentista estadunidense nascido em Hartford, Vermont, USA, que começou a pesquisar as propriedades anestésicas do óxido nitroso (1840). Assistindo a uma apresentação pública de um circo, observou que Samuel Cooley, um dos participantes, sob a ação do óxido nitroso, sofrera um ferimento extenso na perna, mas não demonstrara qualquer sinal de dor. Logo depois, o dentista convidou Gardner Colton, o empresário do circo, para realizar uma experiência em seu consultório. No dia seguinte, em 11 de dezembro (1844), pediu a seu colega Riggs, que extraisse um de seus próprios dentes, para mostrar a eficiência do gás como anestésico, após inalar o gás. Depois ele experimentou outros gases para obter efeitos semelhantes, inclusive o éter, porém decidiu-se pela pesquisa com óxido nitroso. Aprendeu a preparar e administrar o protóxido de azoto, e com o seu uso, realizou com sucesso mais de 10 extrações dentárias indolores em seus clientes, na pequena cidade de Hartford. Convicto de sua descoberta, dirigiu-se à Havard Medical School, em Boston, onde trabalhava um seu ex-estudante, William Thomas Green Morton, dentista e matriculado (1841), onde pesquisava substâncias anestésicas, e no Massachusetts General Hospital, onde trabalhava o renomado cirurgião John Collins Warren, apresentou suas idéias (1845). No dia seguinte, no anfiteatro Bullfinch do Massachusetts General Hospital, diante de uma platéia desconfiada, incluindo Warren e Morton, ele iniciou uma anestesia dentária em um estudante de Medicina, porém seu método falhou e o estudante gritou de dor. Talvez ansioso, ele tenha começado a extração sem um nível de anestesia adequado. O certo é que a demonstração foi um fiasco, o dentista foi vaiado e, humilhado, voltou a Hartford onde continuou a usar óxido nitroso, embora com a introdução do éter gradualmente substituindo o seu uso. Ao mesmo tempo, em Boston, William Morton, também continuava sua busca para substâncias anestésicas e demonstrou o sucesso do éter (1846), primeiro em setembro numa extração de dentes e depois em outubro numa operação cirúrgica no Massachusetts General Hospital. O dentista de Vermont foi para New York City, onde continuou suas pesquisas em clorofórmio e em dezembro (1846) reclamou no Hartford Courant a descoberta do efeito anestésico de ambas as substâncias, porém Morton já havia ganho os direitos sobre o éter. Ainda publicou A História da Descoberta da Aplicação do Óxido Nitroso, do Éter e de outros Gases em Cirurgia (1847). Viciado em clorofórmio, após uma prisão por desordem, provavelmente sob efeito de drogas durante suas experiências, cometeu suicídio. História do Controle da Dor e Ansiedade - História da Anestesia A mais antiga referência escrita sobre anestesia que se conhece foi encontrada no tratado de Trinitate de St. Hilaire de Poliers (cerca de 350 A.C), que escreveu: "a alma pode ser levada ao sono por medicamento e, assim, superar à dor e produzir na mente um esquecimento em seu poder de percepção, semelhante à morte". Empregavam-se agentes anestésicos desde os mais antigos tempos. Os egípcios utilizaram largamente a cirurgia e, provavelmente, lançaram mão de narcóticos. Os chineses conheciam o ópio, o haxixe e suas propriedades analgésicas. No início do séc XVIII, Joseph Priestley, despertou sua vocação para química ao observar bolhas de ar que se formavam na fermentação da cerveja, numa fábrica que ficava perto da sua casa. Sem se conformar com as explicações que ouvia sobre os fenômenos químicos, ele descobriu o oxigênio, o ácido carbônico o anidrido sulfuroso, o amoníaco e o flúor, “as diferentes classes de ar”, como denominou. Foi nesta época que, experimentando aquecer limalha de ferro em ácido nítrico, descobriu o óxido nitroso, um gás estranho que ocupará um lugar de destaque na história da do controle de Dor. Depois de verificar que os efeitos produzidos em animais, pelas inalações de seus gases, não eram letais, aspirava-os pessoalmente para assim formular observações verdadeiras. Após concluir os seus ensaios com o oxigênio, Priestley começou a verificar os efeitos do óxido nitroso sobre animais, mas teve que interromper seus estudos, quando foi convocado por sua Igreja para lutar pela renovação, saiu deste intento derrotado, sendo tratado a partir daí como um herege, filho do demônio. Decepcionado, mas não vencido, voltou aos seus experimentos com o óxido nitroso, mas o povo tomado pela fúria oriunda de convicções religiosas, lançou fogo ao seu laboratório, permitindo-lhe, apenas escapar com vida, mas perdeu todas suas anotações, e aparelhos desenvolvidos através de suas descobertas. A França, reconhecendo o seu valor, ofereceu-lhe um laboratório em Paris, aclamando-o “Cidadão da República”. O povo inglês revoltado pediu a sua morte como traidor, e Priestley só encontrou uma forma de sobreviver: fugir para a América, lá tentou mais uma vez recomeçar, mas já estava desiludido e esgotado. Mas ainda descobriu o óxido de carbono, e depois disso veio a falecer em 1804, aos 71 anos. Os gases, recém-descobertos passaram a ser discutidos e ensaiados por estudiosos e leigos na América. Enquanto isso, na Inglaterra, um jovem de 17 anos, chamado Humphry Davy, auxiliar de consultório do Dr. John Bingham Borlase, o maior cirurgião de Penzance, pacífica cidade inglesa, resolveu realizar consigo mesmo experiências químicas. Davy ficava muito entusiasmado com as conversas que ouvia entre os cientistas que freqüentavam a clínica do Dr. Borlase, um destes freqüentadores o Dr. Lantham Mitchell, grande autoridade em química médica, relatou em conversa as descobertas de Priestley, dizendo que não foram conclusivas e ressaltando, em particular o misterioso óxido nitroso - gás venenoso e mortal, que propiciava, segundo ele, a difusão de doenças epidêmicas. Davy era um poeta audacioso, e sonhava ser como Mr. Priestley, um grande homem, e desta forma resolveu concluir os estudos deste famoso químico com o tal gás desconhecido. Começou adquirindo todos os livros de química existentes na cidade, estudou a preparação do gás, fechou-se no laboratório da Clínica do Dr. Borlase e fabricou uma grande quantidade do misterioso gás. Mas, ao invés de experimentá-lo em animais, como recomendava a prática científica, decidiu liricamente, prová-lo em si mesmo. A cada forte inalação, ia sentindo crescer uma agradável sensação de leveza, um profundo bem estar, exaltação auditiva, uma estranha euforia, culminando em uma impulsiva alegria, que o fazia rir e gargalhar espontaneamente. Nesta noite, ele concluiu que se o gás fosse mortal, naquela altura, após consumir uma grande quantidade do gás, ele já estaria morto, logo o famoso Dr. Mitchell estava errado. As noites que se seguiram a esta feliz descoberta, Davy, repetia os seus ensaios com o gás, sempre obtendo os mesmos resultados. Certa ocasião com fortes dores de dente, em função da erupção de um terceiro molar, Davy resolveu tentar inalar o gás a fim de minimizar seu sofrimento, e com surpresa, bastou repetir três vezes o ato para que experimentasse alívio imediato. Mais tarde, em função da freqüência com que Davy manipulava este gás, Dr. Borlase tomou conhecimento, foi convidado pelo mesmo a experimentá-lo, e após a inalação, comprovou os efeitos do gás e se propôs a divulgar esta incrível descoberta, mas a sua intenção teve vida curta, pois a notícia do gás misterioso tomou conta da cidade. A classe Ilustrada reagiu, pois dizia ser este um perigo para a saúde pública, segundo declarações do autorizado cientista Dr. Mitchell. E, temendo entrar na lista dos charlatões, Dr. Borlase, que era respeitado pelo seu trabalho recuou e desistiu domisterioso gás. Sem desistir, Davy montou um laboratório na casa do seu tutor, foi neste período que batizou-o com o nome de "Gás Hilariante", mas um dia, por causa de uma explosão, seu tutor pois fim ao laboratório do jovem químico. Mas neste ínterim Davy recebeu a visita ilustre de um forasteiro, o Dr. Giddy, futuro presidente da Royal Society, que impressionado com as suas experiências, prometeu ajudá-lo. Logo depois, conseguiu um lugar para Davy, com auxiliar no renomado Instituto de Pneumatologia, do Dr. Beddoes, em Clifton, próximo a Bristol. Neste Instituto todos os tratamentos eram feitos à base de adiminsitração de gases, Davy teve o prazer de ver o "seu óxido nitroso" aceito com entusiasmo pelo Dr. Beddoes. Durante sua estada em Clifton, Davy, não só fazia o atendimento aos doentes administrando óxido nitroso, como também, proporcionava as pessoas ilustres, do círculo de amizade do Dr. Beddoes, as agradáveis sensações do gás, vinham poetas, damas da sociedade, escritores, todos manifestavam entusiastas opiniões sobre o gás. No Instituto era utilizado no alívio da asma. A partir do sucesso neste tipo de tratamento, Davy começou a ser convidado a falar sobre o gás milagroso em várias universidades e associações médicas. Mas Davy, sentia que o óxido nitroso estava sendo limitado apenas ao campo terapêutico das doenças do aparelho respiratório, não esquecendo o alívio que teve quando utilizou para a sua dor de dente, a partir daí, escreveu alguns trabalhos, nos quais sugeria o emprego em pequenas cirurgias, mas neste período faltou-lhe tempo para dedicar-se a esta idéia em particular. A medicina pneumática, preocupada apenas com sintomas, esquecendo as causas, entrou em declínio, para depois cair em colapso. Neste período, Dr. Beddoes, mudou de rumo para a medicina geral, temendo também ser conhecido como charlatão, e assim Davy desiludido, derivou para outros caminhos: a física e a eletricidade, com finalidades industriais. Os gases ficaram algum tempo esquecidos, até que Faraday, discípulo de Davy, desenvolveu estudos feitos há séculos atrás, por Paracelso e Frobenius, sobre os efeitos anestésicos dos vapores do Éter. Faraday, químico, chegou a conclusão que o éter misturado ao ar, assim como o óxido nitroso, produzia anestesia, a ponto de inalado em demasia, levar o indivíduo a um estado letárgico, como pode constatar num caso que durou trinta horas. Por ele, ser exclusivamente químico desistiu de prosseguir nesta linha. Vale ressaltar, que se a classe médica tivesse dado mais importância ao trabalho de químicos como: Priestley, Davy e Faraday, a descoberta da anestesia teria sido antecipada em alguns anos, em contra-partida todos eles poderiam hoje, ser considerados descobridores da anestesia, não fossem químicos. Seguindo a temporalidade dos fatos, paralelo a experiência de Davy, citaremos Friedrich Wilhelm Serturner, praticante de farmácia, sob orientação do farmacêutico Cramer, que investigou a dormideira branca, de nome científico Papaver Sonniferum , de cujo suco resultava o ópio comercial. Eram muito freqüentes as observações sobre a falta de um remédio eficaz contra a dor. Como os outros químicos já citados, Sertuner resolveu experimentar o alcalóide, pessoalmente, e no final de algumas experiências conseguiu obter relatos, tais como: "Fomos além do tolerável - intoxicação". Como em algumas experiências com o aumento de dose um sono profundo se instalou, Serturner procurou um nome adequado para o seu maravilhoso alcalóide, no Olimpo, o deus do sono era Morfeu, em função dos efeitos hipnóticos desta substância branca, chamou-a de Morfina - 1803. Mas, foi também em um episódio de dor de dente, semelhante ao que ocorreu com Davy, que Sertuner pode utilizar a morfina em pequenas doses, eliminando a dor no entorpecimento do sono. Serturner teve o seu nome inscrito como "Benfeitor da Humanidade". Mas a inveja, inerente ao espírito humano, se encarregou de derrotá-lo, e em pouco tempo, ele foi classificado como charlatão. Desolado com a ingratidão de muitos, isolou-se e padeceu até o final de seus dias atormentado pela gota, mas para alívio das dores utilizou a morfina, e o estômago não resistiu ao uso continuado da droga, vindo a falecer em 1841. No início do século XIX, o mundo passou por amplas reformulações, mas a dificuldade de comunicação entre os povos a marcha do progresso era retardada. Isto acarretava a repetição de descobertas, pela extensão de tempo que as idéias demoravam a percorrer distâncias. Este é outro fator que explica a lentidão do processo de descobrimento da anestesia. Vale ressaltar, nomes isolados como o do inglês Dr. Hickman, que abraçou a medicina com o firme propósito de aliviar o sofrimento humano, e redescobriu o mundo dos gases pelos mesmos caminhos experimentais. Na França, recebeu o apoio de Carlos X - rei da França, mas a comunidade médica refutou-o, incorformado faleceu prematuramente aos 29 anos. Neste período, a América e a Europa começavam a utilizar os gases no domínio público: estudantes de Medicina, ambulantes, conferencistas, utilizavam os gases químicos como entretenimento. As noitadas com o Gás Hilariante e Éter, começaram a acontecer nos salões elegantes, e estas brincadeiras começaram a acontecer nas feiras-livres, nas salas de espetáculo e apresentações mambembe. O primeiro médico, nesta época, a utilizar o éter em cirurgia foi o Dr. Crawford Williamson Long, obteve sucesso em vários procedimentos cirúrgicos, mas a convicção popular dizia que o Dr. Long estava infringindo as leis naturais do sofrimento, e sua clínica ficou deserta, logo o Dr. Long recuou, voltou a operar com dor, para continuar a viver da sua profissão, sem nunca ter publicado nenhuma de suas experiências. Em 1840, acontece a fundação da primeira escola de odontologia do novo continente - Escola Dentária de Baltimore. Um dos primeiros diplomados neste curso foi o Dr. Horace Wells de Hartford, Connecticut. Durante sua prática clínica, conheceu o jovem Dr. Morton e com ele trabalhou por um período em Boston. Na volta a sua cidade natal, viu anunciado uma exibição pública, na Union Hall, com o Gás Hilariante - óxido nitroso , com um tal Gardner Colton, que prometia um agradável entretenimento. No dia 10 de dezembro, lá estava o Dr. Horace Wells na platéia para assistir o espetáculo. O primeiro convidado a aspirar o gás foi um conhecido caixeiro de drogaria Sr. Samuel Cooley, que passou a fazer a mais grotesca das exibições, provocando gargalhadas, terminando por correr entre as cadeiras atropelando-as até atingir um colega que dele se rira. Cessado o efeito do gás, Cooley, sentou-se ao lado do Dr. Wells, e foi então que apercebeu-se que havia contundido seriamente uma de suas pernas. E afirmava categoricamente, que nada sentira no momento. Wells impressionou-se com o fato e não riu mais durante o espetáculo, acompanhou Cooley até sua residência. Vale lembrar que a cirurgia era nesta época o suplício dos suplícios, o infeliz que era obrigado a submeter-se a uma cirurgia, comportava-se como um verdadeiro condenado à morte, em contra-partida os operadores de grandes cirurgias, possuíam os recursos primários do torniquete e do gelo, já nas cirurgias odontológicas, nada disso havia, e a única forma de aliviar o sofrimento era operar com rapidez. No dia seguinte, foi a procura de Colton. Levou-o ao seu consultório para que lhe aplicasse o gás, após o que, o seu colega, Dr. Riggs, extraiu-lhe um dente sem que nada sentisse. Wells exclamou emocionado : "- Uma nova era na extração de dentes!", relatou a todos que sob os efeitos do gás, a dor era substituída por sensações agradáveis. Wells começou a fazer extrações utilizando o gás obtendo um êxito de 50% nos casos operados. Precocemente, voltou para Boston, procurou seu antigo sócio Dr. Morton e este, após ouvir o relato do colega, achou por bem levá-lo ao abalizado químico Dr. Jackson, para obter do mesmo uma opinião científica. Dr. Jackson manifestou-se dizendo ser o método extremamenteperigoso. Acrescentou que homens de ciência já tinham tentado eliminar a dor com auxílio daquele gás, mas, e, funções de sérias intercorrências tiveram que recuar. Vale lembrar, que nesta época o óxido nitroso era utilizado em bexigas a 100%, logo dependendo do tempo que o paciente inalava, os riscos advinham pela ausência de O2 e não pelos efeitos diretos do óxido nitroso. Wells deixou o laboratório do químico visivelmente incorformado. Sabia, por experiência própria que o gás era eficiente e relativamente sem perigo, pois o tinha inalado e ministrado a um grande número de pacientes sem acidentes dignos de nota. A partir deste raciocínio, resolveu fazer uma apresentação para alunos da Universidade de Harvard, Morton prometeu ajudá-lo no que fosse necessário. No dia da apresentação, apresentou-se voluntariamente, como paciente um jovem estudante, Wells fez a administração do gás, tomou do fórceps e procurou deslocar o dente. Um grito reboou no silêncio, e em seguida vaias e comentários rugiam em exclamações: - Farsante! Charlatão!, E alguns mais exaltados, promoveram a expulsão de Wells do recinto. Horace, verdadeiramente sucumbido, deixou a Faculdade e retornou a Hartford. Sentira a humilhação daquele fracasso, mas sabia intimamente que tudo fora conseqüência da inexperiência e da pressa. O móvel, principal do insucesso não passava da insuficiente administração do gás. Dias depois, procurou retificar o acontecido, fazendo no consultório, um paciente inalar por um período bem maior o óxido nitroso a 100%. O êxito foi absoluto, mas o paciente andou perto da morte. Após isso, o desencanto o dominou completamente. Renunciou, por fim, ao sonho de controlar a dor dos pacientes nos procedimentos cirúrgicos, e abandonou a profissão de dentista. Vamos agora, ressaltar um pouco nesta história como consolidou-se o sucesso no controle de Dor em procedimentos cirúrgicos, segundo o Dr. Martins D'Alvarez em seu livro "A História Trágica da Anestesia", através do Dr. Willian Thomas Green Morton. Morton, nasceu em Massachussetts em 1819, de família humilde, diplomou-se em odontologia, e para adquirir prática, procurou auxílio em um amigo mais experiente, Dr. Horace Wells, instalaram-se em Boston, como já citado, Wells retornou após algum tempo a sua cidade e Morton continuou confiante. Quando Wells retornou com a sua descoberta, Morton imediatamente interessou-se e através de suas conversas com o Dr. Jackson, já tinha obtido informações de que o éter, quando aplicado sobre qualquer parte do organismo, eliminava a sensibilidade, experimentou com relativo sucesso, o éter em incisões, na cavidade oral. Desta forma, a partir da experiência de Wells, embora Jackson achasse arriscado, Morton, começou então a estudar o Éter, porque se suas aplicações tópicas provocavam insensibilidade, quem sabe se inalado não produziria efeitos semelhantes? A partir deste ponto, Dr. Morton contratou Jackson para lhe ministrar um curso de química, e foi acumulando conhecimentos sobre o éter. Por um período de sua vida, Dr. Morton dedicou-se exclusivamente aos ensaios com o éter. Dr. Morton, ao contrário do Dr. Wells, dedicou-se insistemente aos vapores da nova droga, submetendo todos os animais que tinha a seu alcance, e posteriormente passou a experimentá-lo em si mesmo. Em seu consultório, as extrações de dentes sob inalação de Éter, aconteciam com freqüência com total sucesso. Seus pacientes, afirmavam que as extrações eram completamente indolores. Morton, posteriormente, pensou que o seu método necessitava de um aparelho fabricado especialmente para inalação, aperfeiçoando, assim a técnica. Em seguida, Morton solicitou patente para o seu invento. Jackson, ao tomar conhecimento das pretensões do seu ex-aluno, sentiu-se lesado, e exigiu parte da patente com compensações materiais. Embora contrariado, Morton cedeu e disse que lhe repassaria 10% das rendas do mesmo. Dr. Morton, começou a pensar em levar o seu invento à classe médica, mas desconhecido como era, teve algumas dificuldades, mas conseguiu convencer o diretor do Hospital Geral de Massachussetts, Dr. Warren, a conceder-lhe o privilégio de uma demonstração pública. Dr. Warren convocou o dentista Dr. Morton, no dia 16 de outubro de 1846, para fazer a demonstração em um procedimento cirúrgico. Em função da demora para entrega do aparelho para inalação, Dr. Morton atrasou 15 min, em função disto o enorme e seleto grupo que o aguardava , olhava-o com decepção e descrença. Desculpou-se, aproximou-se do paciente Sr. Gilbert Abbot, e com a autorização do Dr. Warren, ministrou-lhe o gás, e disse humildemente: - "Pronto senhor! O paciente está preparado!" Dr. Warren puncionou o braço do enfermo com uma agulha e mesmo não acusou dor, nem a mais leve reação fisionômica. Passou, então, a operar, enucleando, cuidadosamente, o tumor que o maltratava, concluindo, sem pressa, por suturar a ferida. Só depois da conclusão do ato cirúrgico, o paciente voltou a si, manifestando surpresa, por nada sentir. A voz austera e respeitável do Dr. Warren encerrou o milagroso ato: "- Meus senhores, aqui não houve truque nem engano. Assistimos algo da maior importância para a cirurgia. Já não somos artífices do terror!" O sucesso de Morton espalhou-se por todo o país e tomou conta do mundo, neste ínterim, Horace Wells estava ocupado com compra e venda de quadros e gravuras, e nesta etapa ele recebeu um novo convite de Morton, ao qual não aceitou. Mais tarde após vários sucessos no uso do éter pelo Dr. Morton, chegou a Wells a notícia de que os jornais reconheciam Morton como grande descobridor da insensibilidade pelo gás. Wells protestou, dizendo que a descoberta era sua com o óxido nitroso, e que Morton apenas o imitara com o éter. Um amigo de Wells, Brewster incentivou-o a solicitar à Academia de Paris o reconhecimento de sua prioridade, mas isto lhe foi negado, visto que a descoberta tinha sido feita com o éter e Wells não o utilizara. Só que antes de tentar este reconhecimento, Wells divulgou tal intenção amplamente, e agora se perguntava como voltar a sua cidade para o insignificante posto de vendedor de quadros. Foi quando um novo acontecimento deu-lhe uma idéia salvadora, Simpson, na Europa, tinha lançado o Clorofórmio como sucessor do éter nas cirurgias sem dor. O clorofórmio foi preparado independentemente por Von Leibig, Guthrie e Soubeiran em 1831. Apesar de ter sido usado clinicamente como anestésico geral por Holmes Coote em 1847, o clorofórmio foi introduzido na prática clínica pelo obstetra James Simpson, que o administrava às suas pacientes para aliviar a dor do trabalho de parto. O clorofórmio inicialmente superou o éter em popularidade em várias áreas, mas os relatos de arritmias cardíacas e a hepatotoxicidade relacionadas com seu uso fez muitos anestesiologistas o abandonarem em preferência do éter. Mesmo com o advento de outros agentes inalatórios, o éter permaneceu o anestésico geral padrão até o início de 1960. Wells fez em si próprio ensaios com o novo gás. Certo da sua eficácia tentou introduzi-lo na América, com o objetivo de derrotar o éter, gás patenteado pelo seu atual inimigo Dr. Morton. Sua tentativa foi frustrada, pois ninguém ia deixar o conhecido e provado pelo incerto e duvidoso. Com o excesso de inalação do clorofórmio, Wells só encontrava prazer na vida quando estava sobre o seu efeito. Em Nova York, longe da família, rapidamente tornou-se um mísero viciado, começando a perambular nas ruas com ébrios, mendigos e prostitutas. Não tardou a ser preso por lançar um frasco de "vitríolo" terrível corrosivo, na roupa de duas prostitutas. Julgado e encarcerado sentiu que tinha chegado ao fim. À noite, na solidão de sua sela, escreveu uma carta para sua mulher e filhos sobre a sua suprema angústia onde tinha chegado e donde pretendia sair pela única porte aberta à sua dignidade: o suicídio. Inalou intensamente o clorofórmio, abriu com uma navalha a artéria femural, falecendo em seguida. Por ironia três dias após essa tragédia, a viúva de Wells recebia em Hartforduma carta de Paris endereçada ao seu falecido esposo e assinada por Brwster, com a notícia consagradora de que Horace Wells acabava de ser considerado o descobridor da anestesia pelo mais alto cenáculo científico do mundo, a Sociedade Médica de Paris. Continuando a história, Morton estava cogitando um nome para o seu gás e batizou-o como "Letheon" pela semelhança que apresentava com o Letheo, rio mitológico, de águas fantásticas, que apagava por sofrimento de quem nele mergulhava. Mas posteriormente a expressão foi considerada muito literária e pouco científica, e por fim o nome adequado foi "anestésico" criador do estado de "anestesia". Enquanto isso o químico Dr. Jackson continuava a perseguir a vitória do Dr. Morton, conseguindo por fim fazer com que a Sociedade Médica de Massachussetts viesse a proibir o uso do gás enquanto o detentor da patente não revelasse publicamente a sua composição química. Morton, consciente do prejuízo que isso lhe causaria relatou que o seu anestésico era apenas éter sulfúrico retificado. Esta atitude de Morton só fez aumentar o seu sucesso, o que só aumentou a ira do seu inimigo, que conseguiu intervir nos resultados do "Premio Montyn" que a Academia de Ciências da França destinava aos "benfeitores" da humanidade. Esse prêmio foi re estudado e dividido entre Morton e Jackson. Os cinco mil francos que acompanhavam a honraria também foram divididos. Morton desistiu de sua parte e recebeu desta Academia uma medalha de ouro cunhada com os dois mil francos que lhe cabiam. Varias homenagens surgiram em todo o mundo ao reconhecimento do trabalho do Dr. Morton, mais a perseguição do Dr. Jackson era implacável. Nesta perseguição, Jackson conseguiu reverter a patente de Morton e convenceu aos profissionais que adquiriram os aparelhos a exigirem a devolução dos direitos. Morton para evitar escândalos cedeu e praticamente ficou arruinado tendo que voltar ao consultório e recorrer à clinica para pagar os seus credores. Uma sucessão de problemas advindos desta perseguição aconteceu acabando por liquidar com o conceito profissional de Morton. Até os seus assistentes o abandonaram, era a ruína irremediável e total. Morton cansado recolheu-se na sua casa de campo. E certo dia um cidadão bateu-lhe à porta com uma ordem judicial, a sua propriedade rural tinha sido embargada pelos credores. Esta situação comoveu alguns amigos do Hospital Geral que lhe visitaram e orfetaram-lhe uma pequena arca de prata, em cuja a tampa se lia: -"Para William Thomas Green Morton, que empobreceu por uma causa de que o mundo é devedor." Dentro da mesma encontrava-se a importância de mil dólares, isto foi importante para o restabelecimento de Morton. Aconteceu no senado em Washington um projeto para o prêmio de cem mil dólares como gratidão da América ao seu ilustre filho, descobridor da anestesia, bem feitor da humanidade a quem o governo criminosamente condenara à miséria por violação da patente de seu invento. Jackson sempre atento viajou para Washington e conseguiu adiar a votação desta questão. Após consulta aos médicos do Hospital Geral de Massachussets a vitória pendeu para Morton, mas Jackson embora saindo deste embate como impostor, sem perda de tempo procurou a viúva de Horace Wells convencendo-a que o prêmio lhe cabia, nova luta se travou ao senado, com nova vitória de Morton, mas Jackson já estava preparando o nome do Dr. Crawford Long, modesto médico, que em 1842 muito antes de Morton operou com éter, nessa altura muitos outros estados entraram na disputa com candidatos os mais variados possíveis. Desta forma o senado, pois a questão em quarentena. Morton desiludido voltou para o campo, dedicando-se a agricultura e a pecuária. Mais tarde novos acontecimentos no Congresso levaram a opinião pública a definitiva desmoralização do Dr. Morton. Nesse ponto os seus nervos entraram em colapso e passou a ter sucessivos ataques. Mais tarde em função de outra investida do Dr. Jackson, Morton já sem nenhuma condição física voltou a Washington para contestá-lo, mas não teve tempo e faleceu por um colapso cardíaco no dia 15 de Julho de 1868, aos 49 anos de idade. Com o desaparecimento trágico de Morton a glória e o reconhecimento público, como sempre acontece vieram sobre sua memória. Jackson, o seu irredutível inimigo estava vencido pelo álcool, certa manhã ainda alcoolizado, ele se dirigiu ao cemitério da cidade e de repente enfrente ao grande mausoléu, se deparou com o seguinte texto: "William T. G. Morton inventor e revelador da inalação anestésica. Graças a ele, a dor na cirurgia foi prevenida e anulada. Antes dele, a cirurgia era um tormento. Depois dele, a ciência dominou a dor. Erigido pelos cidadãos de Boston. Após seis anos de insanidade, recluso em um asilo faleceu aos 75 anos o químico Dr, Jackson. A partir de 1884, a anestesia local tornou-se possível, com a descoberta de Karl Kooler das propriedades anestésicas da cocaína, oftalmologista da Bohemia, influenciado por Sigmund Freud, instilou cocaína nos olhos dos seus pacientes conseguindo efetuar cirurgias sem dor. William Halstead, em 1885, iniciou o uso da cocaína - o primeiro anestésico local - para realizar um bloqueio de nervo. Já em 1885 Leonard Corning realizou peridural em cachorros, depois Cathelin em 1901. Quincke em 1891 estabeleceu os princípios da raquianestesia, mas foi August Bier o primeiro a fazer uma raque no homem, no já distante 1898. O cirurgião francês Paul Reclus introduziu o método da infiltração; o cirurgião alemão August Bier usou a anestesia intra-espinhal com cocaína em 1899. Vale citar a invenção da agulha por La Fargue, na França, pois até então os fármacos eram administrados por fricção na pele ou através de uma incisão. O irlandês Rynd inventou a agulha metálica, o francês Charles Gabriel Pravaz a seringa hipodérmica em 1851 que foi aperfeiçoada por Alexander Wood em 1854 Sendo assim, como os derivados da cocaína eram anestésicos muito mais potentes que o óxido nitroso, este só voltou a ser utilizado a partir de 1929. A Detroit Pedontic Club e a American Society For the Promotion of Children's Dentistry organizaram-se para chamar a atenção dos dentistas para a necessidade de cuidados com a saúde oral das crianças, especificamente no que concerne à restauração e conservação dos dentes temporários. Embora a odontopediatria não fosse uma especialidade reconhecida, Rister defendeu o uso de óxido nitroso, agora associado ao oxigênio, em odontopediatria. Apesar de enfatizar o uso para extrações, apresentou dois casos de preparo de cavidade e um de pulpotomia. NEVIN &. PUTERBAUCH (1923) descrevem pela primeira vez de maneira completa e detalhada, a técnica de administração da mistura gasosa óxido nitroso (N2O) e oxigênio (O2), com finalidade terapêutica e analgésica em odontologia. Entre os anos de 1930 e 1940, a maioria dos cirurgiões dentistas utilizava uma mistura com a proporção de até 80% de N2O e 20% de O2, nos Estados Unidos da América. Apesar da melhora na pureza dos gases e do desenvolvimento dos misturadores dos gases, a proporção de sucesso com a utilização da técnica ainda era pequena. A partir dos wokshops que aconteceram nos EUA, nos anos de 1970, para controle de Medo e Ansiedade no atendimento odontológico ambulatorial, a analgesia inalatória começou a ser utilizada largamente pelos dentistas em todas as especialidades, em ambiente ambulatorial. As pesquisas no campo da química, no que tange ao atendimento hospitalar, nos fez evoluir da dormideira, da mandrágora, do álcool e de métodos exóticos, como o estrangulamento empregado pelos assírios, a concussão cerebral, o frio intenso e a compressão de nervos para métodos em permanente evolução como a neuroleptoanalgesia, anestesia analgésica, seqüencial, alvo controlada, venosa pura, balanceada, com um índice de segurança e previsibilidade cada vez mais próximo da perfeição. Finalizamos com o seguinte provérbio:" o homem que desdenha do passado esta condenado a repeti-lo. Rio de Janeiro, 08/06/2000 Carla Gonçalves Gamba Luiz AlbertoFerraz de Caldas