Prévia do material em texto
1 Área 01, Aula 01 Apresentação 1ª Edição Junho de 2018 CONASEMS - Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde ProEpi - Associação Brasileira de Profissionais de Epidemiologia de Campo Copyright © 2018, Associação Brasileira de Profissionais de Epidemiologia de Campo. Todos os direitos reservados. A cópia total ou parcial, sem autorização expressa do(s) autor(es) ou com o intuito de lucro, constitui crime contra a propriedade intelectual, conforme estipulado na Lei nº 9.610/1998 (Lei de Direitos Autorais), com sanções previstas no Código Penal, artigo 184, parágrafos 1° ao 3°, sem prejuízo das sanções cabíveis à espécie. Expediente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde - CONASEMS Quadro Geral da Organização DIRETORIA EXECUTIVA Presidente – Mauro Guimarães Junqueira Vice-Presidente – Charles Cezar Tocantins Vice-Presidente – Wilames Freire Bezerra Diretora Administrativo – Cristiane Martins Pantaleão Diretora administrativo- Adjunto- Silva Regina Cremonez Sirena Diretor Financeiro – Hisham Mohamad Hamida Diretora Financeiro-Adjunto – Iolete Soares de Arruda Diretor de Comunicação Social – Diego Espindola de Ávila Diretora de Comunicação Social–Adjunto – Maria Célia Valladares Vasconcelos Diretora de Descentralização e Regionalização – Stela dos Santos Souza Diretora de Descentralização e Regionalização–Adjunto – Soraya Galdino de Araújo Lucena Diretor de Relações Institucionais e Parlamentares – Carmino Antônio de Souza Diretor de Relações Institucionais e Parlamentares- Adjunto- Erno Harzheim Diretor de Municípios de Pequeno Porte - Murilo Porto de Andrade Diretora de Municípios de Pequeno Porte–Adjunto – Débora Costa dos Santos Diretor de Municípios com Populações Ribeirinhas e em Situação de Vulnerabilidade – Vanio Rodrigues de Souza Diretor de Municípios com Populações Ribeirinhas e em Situação de Vulnerabilidade – Adjunto – Afonso Emerick Dutra 2º Vice-Presidente Regional - Região Centro Oeste – André Luiz Dias Mattos 1º Vice-Presidente Regional - Região Nordeste – Normanda da Silva Santiago 2º Vice-Presidente Regional - Região Nordeste – Orlando Jorge Pereira de Andrade de Lima 1º Vice-Presidente Regional - Região Norte – Januário Carneiro Neto 1º Vice-Presidente Regional - Região Sudeste – Luiz Carlos Reblin 2º Vice-Presidente Regional - Região Sudeste – Geovani Ferreira Guimarães 2° Vice-Presidente Regional – Região Sul - Rubens Griep Conselho Fiscal 1º Membro – Região Norte – Oteniel Almeida dos Santos Conselho Fiscal 1º Membro – Região Nordeste – Leopoldina Cipriano Feitosa Conselho Fiscal 2º Membro – Região Nordeste - Angela Maria Lira de Jesus Garrote Conselho Fiscal 1º Membro - Região Centro-Oeste –Aparecida Clestiane de Costa Souza Conselho Fiscal 2º Membro - Região Centro-Oeste–Maria Angélica Benetasso Conselho Fiscal 1º Membro - Região Sudeste - José Carlos Canciglieri Conselho Fiscal 2° Membro – Região Sudeste - Tereza Cristina Abrahão Fernandes Conselho Fiscal 1º Membro - Região Sul - João Carlos Strassacapa Conselho Fiscal 2º Membro – Região Sul- Sidnei Bellé Representantes no Conselho Nacional de Saúde – Arilson da Silva Cardoso e José Eri Borges de Medeiros RELAÇÃO NACIONAL DOS COSEMS COSEMS - AC - Tel: (68) 3212-4123 Daniel Herculano da Silva Filho COSEMS - AL - Tel: (82) 3326-5859 Izabelle Monteiro Alcântara Pereira COSEMS - AM - Tel: (92) 3643-6338 / 6300 Januário Carneiro da Cunha Neto COSEMS - AP - Tel: (96) 3271-1390 Maria de Jesus Sousa Caldas COSEMS - BA - Tel: (71) 3115-5915 / 3115-5946 Stela Santos Souza COSEMS - CE - Tel: (85) 3101-5444 / 3219-9099 Josete Malheiros Tavares COSEMS - ES - Tel: (27) 3026-2287 Andréia Passamani Barbosa Corteletti COSEMS - GO - Tel: (62) 3201-3412 Gercilene Ferreira COSEMS - MA - Tel: (98) 3256-1543 / 3236-6985 Domingos Vinicius de Araújo Santos COSEMS - MG - Tels: (31) 3287-3220 / 5815 Eduardo Luiz da Silva COSEMS - MS - Tel: (67) 3312-1110 / 1108 Wilson Braga COSEMS - MT - Tel: (65) 3644-2406 Silvia Regina Cremonez Sirena COSEMS - PA - Tel: (091) 3223-0271 / 3224-2333 Charles César Tocantins de Souza COSEMS - PB - Tel: (83) 3218-7366 Soraya Galdino de Araújo Lucena COSEMS - PE - Tel: (81) 3221-5162 / 3181-6256 Orlando Jorge Pereira de Andrade Lima COSEMS - PI - Tel: (86) 3211-0511 Leopoldina Cipriano Feitosa COSEMS - PR - Tel: (44) 3330-4417 Cristiane Martins Pantaleão COSEMS - RJ - Tel: (21) 2240-3763 Maria da Conceição de Souza Rocha COSEMS - RN - Tel: (84) 3222-8996 Débora Costa dos Santos COSEMS - RO - Tel: (69) 3216-5371 Afonso Emerick Dutra COSEMS - RR - Tel: (95) 3623-0817 Helenilson José Soares COSEMS - RS - Tel: (51) 3231-3833 Diego Espíndola de Ávila COSEMS - SC - Tel: (48) 3221-2385 / 3221-2242 Sidnei Belle COSEMS - SE - Tel: (79) 3214-6277 / 3346-1960 Enock Luiz Ribeiro COSEMS - SP - Tel: (11) 3066-8259 / 8146 Carmino Antonio de Souza COSEMS - TO - Tel: (63) 3218-1782 Vânio Rodrigues de Souza Equipes do Projeto EQUIPE TÉCNICA Alessandro Aldrin Pinheiro Chagas Elton da Silva Chaves José Fernando Casquel Monti Kandice de Melo Falcão Márcia Cristina Marques Pinheiro Marema de Deus Patrício Nilo Bretas Júnior EQUIPE TÉCNICO-OPERACIONAL Alessandro Aldrin Pinheiro Chagas Catarina Batista da Silva Moreira Cristiane Martins Pantaleão Fábio Ferreira Mazza Hisham Mohamad Hamida Jônatas David Gonçalves Lima José Fernando Casquel Monti Joselisses Abel Ferreira Kandice de Melo Falcão Luiz Filipe Barcelos Murilo Porto de Andrade Nilo Bretas Júnior Sandro Haruyuki Terabe Wilames Freire Bezerra Sobre o CONASEMS Fazendo jus ao tamanho e à diversidade do Brasil, o Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde representa a heterogeneidade dos milhares de municípios brasileiros. Historicamente comprometido com a descentralização da gestão pública de saúde, o CONASEMS defende o protagonismo dos municípios no debate e formulação de políticas públicas e contribui para o aumento da eficiência, o intercâmbio de informações e a cooperação entre os sistemas de saúde do país. Conheça nossas três décadas de atuação acessando www.conasems.org.br. Equipe Técnica da Associação Brasileira de Profissionais de Epidemiologia de Campo - ProEpi Supervisão Érika Valeska Rossetto Coordenação Sara Ferraz Coordenação Pedagógica Hirla Arruda Gestão Pedagógica e de Tecnologia da Informação Renato Lima Conteudista Gabriela Carvalho Apoio Técnico ao Núcleo Pedagógico Danielly Xavier Evellyn Dutra Revisão Rodrigo Gurgel Sara Ferraz Carlois Campelo Ilustração Guilherme Duarte Mauricio Maciel Diagramação Mauricio Maciel Design Instrucional Guilherme Duarte Colaboradores Fernanda Bruzadelli Faculdade de Ciências da Saúde – Universidade de Brasília Supervisão Jonas Brant Sobre a ProEpi Fundada em 2014, a Associação Brasileira de Profissionais de Epidemiologia de Campo une pessoas comprometidas com a saúde pública e estimula a troca de ideias e o aperfeiçoamento profissional entre elas. Ofertando dezenas de horas de conteúdo profissionalizante em nossa plataforma de ensino a distância, curadoria de notícias, treinamentos presenciais e a mediação de oportunidades de trabalho nacionais e internacionais, a ProEpi busca contribuir para o aprimoramento da saúde pública noBrasil e no mundo. Apenas nos últimos dois anos, 5 materiais de ensino a distância já alcançaram mais de 3.000 pessoas pelo Brasil e países parceiros, como Moçambique, Paraguai e Chile, e mais de 30 treinamentos levaram os temas mais relevantes para profissionais de saúde pública, como comunicação de risco e investigação de surtos. Além do público capacitado com nossos conteúdos educacionais, unimos 10.000 seguidores no Facebook e impactamos semanalmente cerca de 30.000 com nossa curadoria de notícias. A ProEpi também atua na resposta a emergências de saúde pública ao redor do mundo. Foram mais de duas dezenas de profissionais de saúde enviados para missões em Angola, Bangladesh e África do Sul que contribuíram para o bem estar da população local e vivenciaram experiências de trabalho transformadoras. Você pode fazer parte dessa evolução ao tornar-se membro de nossa rede: converse conosco escrevendo para contato@proepi.org.br. Sobre a ferramenta EAD autoinstrutiva em Entomologia Aplicada à Saúde Pública Os insetos são os animais mais bem-sucedidos do planeta e encontram no Brasil condições muito favoráveis para sua multiplicação. Em nosso clima quente e, em geral, úmido, eles encontram as circunstâncias ideias para sobreviver, se reproduzir e transmitir doenças. Como consequência, são motivo de preocupações cada vez maiores por parte da população e dos profissionais de saúde de todo o país. Pensando em preparar estes profissionais para os desafios do enfrentamento das doenças transmitidas pelos insetos - em especial por Aedes aegypti - o CONASEMS desenvolveu em parceria com a ProEpi, via TRPJ nº 0125/2017, a ferramenta EAD autoinstrutiva em Entomologia Aplicada à Saúde Pública. Neste material, serão apresentados conceitos fundamentais para a identificação das espécies de maior importância médica, informações sobre seu comportamento, ciclo de vida e as doenças transmitidas por elas. Temas como a importância da Vigilância Epidemiológica, os métodos de captura, transporte e armazenamento de insetos e os indicadores entomológicos para as principais espécies também serão abordados. Por fim, temas de aplicação prática como os métodos de controle vetorial, o manejo integrado de vetores e os conceitos de segurança no trabalho serão discutidos. As aulas estão cheias de convites para que o profissional reflita sobre sua realidade local e interaja com seus colegas, além de exercícios que destacam e promovem a fixação dos conceitos mais fundamentais de cada tema. O objetivo é que o profissional se sinta preparado para aplicar em seu município as técnicas aprendidas aqui. Sucesso! Sumário Aula 1 - Conhecendo a História da Entomologia .............................................. 12 1 - Entomologia Médica ................................................................................ 14 2 - Vigilância Epidemiológica ........................................................................ 19 3 - Vigilância Ambiental ................................................................................ 20 4 - Vigilância Entomológica ........................................................................... 21 Vamos relembrar? ........................................................................................ 24 12 Aula 1 - Conhecendo a História da Entomologia Olá Estudante, Bem-vindo ao curso de Entomologia aplicada à Saúde Pública. Nesta aula, você aprenderá o que é e como surgiu a entomologia. Você conhecerá os principais pesquisadores que deram origem à entomologia, fatos históricos que contribuíram para a descoberta de patógenos e o porquê da importância de nós, profissionais da saúde, avançarmos nesse estudo. Ao final desta aula, você será capaz de: • Conhecer o significado e os principais pesquisadores da entomologia; • Conhecer fatos históricos relacionados à entomologia; • Identificar insetos causadores de doenças; • Compreender os avanços da entomologia; • Compreender o papel das vigilâncias na saúde pública. 13 O que significa Entomologia? A palavra Entomologia é de origem grega, em que ÉNTOMON significa inseto e é derivado do radical "éntomos", que significa "cortado, dividido"; a maioria dos insetos tem o corpo segmentado. Já LOGIA, significa estudo. Ou seja, a Entomologia é a área da ciência que se preocupa em estudar os insetos e sua relação com o ambiente. Há registros de que Aristóteles (384-322 a.C.), na Grécia Antiga, deu início aos primeiros estudos com insetos, a partir disso, a entomologia foi ganhando contribuições significativas auxiliadas por outras descobertas nas áreas de comportamento, fisiologia, reprodução, sistemática e taxonomia dos insetos, com contribuições de diversos estudiosos, como Latreille, Malpighi, Linnaeus e Darwin. Carlos Linnaeus (Carl Nilsson Linnæus), naturalista Sueco e pai da taxonomia, no ano de 1758, propôs em seu livro o ordenamento dos Reinos (Vegetal, Animal e Mineral) e suas divisões secundárias de classes, ordens, gêneros e espécies baseado na forma externa dos animais. Disponível no link abaixo. Aristóteles - Fonte: Desconhecida (Licença CC0) Origem da palavra “entomologia” - Fonte: Própria, 2018 Capa do Systema Naturae, 10ª edição, reimpressão de 1760 - Fonte: CARL LINNAEUS (Domínio Público) Clique aqui bit.ly/Systema_natvrae_INSECTA 14 William Kirby foi um entomologista inglês e membro fundador da Linnean Society of London. Em 1815, juntamente com William Spence, escreveram “An Introduction to Entomology” (“Uma Introdução à Entomologia”, em tradução livre), uma obra de grande contribuição à entomologia mundial. No Brasil, a entomologia ganhou espaço a partir do século XIX, com investigações de Adolfo Lutz, Emílio Goeldi, Vital Brasil e Emilio Ribas. Os pesquisadores ficaram conhecidos pela luta nacional contra a Febre Amarela. Os estudos de Adolfo Lutz conseguiram confirmar a transmissão da Febre Amarela por Aedes aegypti. No início do século XX, temos o brasileiro Carlos Chagas, primeiro e único cientista a descrever completamente uma doença infecciosa, desde o patógeno (protozoário Trypanosoma cruzi), o vetor (Triatominae), os hospedeiros (o homem) e as manifestações clínicas. Atualmente, a entomologia é uma área que contribui muito ao desenvolvimento científico nacional e internacional, preocupando-se com todas as formas de relação dos insetos com os animais, o meio ambiente, as plantas e o homem. Dentre as subáreas da entomologia, destaca-se a entomologia médica, que se preocupa com a influência dos insetos vetores (possíveis transmissores de doenças) na saúde humana. Esta ciência é amplamente utilizada na confirmação da autoctonia de casos e mensuração do risco de transmissão de doenças de transmissão vetorial como doença de Chagas, malária, leishmaniose visceral, leishmaniose tegumentar, dentre outras; definição do local provável de infecção (LPI); bem como avaliação da distribuição, frequência e comportamento de vetores, buscando entender que tipo de interação estes podem desenvolver com a população humana. Retrato litográfico do reverendo William Kirby, entomologista britânico - Fonte: T.H. Maguire, 1851 (Licença CC3) 15 1 - Entomologia Médica Desde o início das civilizações, os insetos já eram relacionados com a vida dos humanos. Registros históricos mostram gravuras de insetos desenhadas em manuscritos egípcios antes mesmo do nascimento de Cristo. O surgimento da entomologia médica está relacionadaao estudo dos insetos associados à transmissão de patógenos a humanos e outros grupos de vertebrados. Dessa forma, é importante identificar corretamente as espécies vetoras para entender os ciclos naturais de transmissão dos patógenos causadores de doenças. O conhecimento da ecologia do vetor também é de extrema importância para estabelecer estratégias de monitoramento, controle ou eliminação de uma espécie nociva. Por exemplo, sabendo que os anofelinos têm o comportamento de repousar nas paredes após a alimentação, recomenda-se a borrifação das paredes com inseticidas de alto poder residual, garantindo a intoxicação e viabilizando a morte deste tipo de inseto. Atualmente, novas áreas de estudos e ferramentas estão sendo incluídas no campo da entomologia médica. Os avanços da área da biologia molecular e genética tem contribuído para a descoberta de novas espécies ou complexos de espécies; na investigação dos mecanismos de defesa e análise da resistência de alguns insetos a determinados inseticidas, auxiliando na criação de novos campos de atuação e conhecimento científico sobre insetos vetores. Vetor é todo ser vivo que pode transmitir potenciais patógenos aos seres humanos ou para outros organismos. Neste sentido, os vetores podem ser classificados como biológicos: são aqueles que albergam parte do ciclo de vida do agente etiológico e dessa forma são fundamentais Pintura de um gafanhoto do Egito antigo - Fonte: The Yorck Project, 2002 (Domínio Público) Inseto vetor - Fonte: WikiImages (Licença CC0) 16 para o desenvolvimento e multiplicação do agente; ou mecânicos, são aqueles que carreiam o agente etiológico de um hospedeiro a outro sem que o agente sofra qualquer tipo de modificação. Exemplo: Aedes aegypti é um inseto vetor que transmite o vírus da dengue para os humanos, sendo considerado um vetor biológico. Já baratas, muitas vezes, são considerados vetores mecânicos, podendo carrear o vírus da hepatite A. 1.1 - História da entomologia médica No final do século XIX, o cientista escocês Patrick Manson demonstrou pela primeira vez que mosquitos fêmeas conseguiam se infectar com larvas de vermes (causadores da doença popularmente conhecida como elefantíase) presentes no sangue durante a realização da hematofagia. Essa foi a primeira observação feita que comprovou a associação entre insetos e parasitos que causam doenças em seres humanos. Assim, pesquisadores de várias partes do mundo foram descobrindo microrganismos causadores de diversas enfermidades como: da malária, febre amarela, dengue, entre outras doenças transmitidas por mosquitos. Na tentativa de encontrar melhores soluções para bloquear a transmissão dessas doenças, surgiu a necessidade de aprofundar as pesquisas sobre a biologia dos mosquitos e outros insetos hematófagos. Patrick Manson e a associação de mosquitos com a transmissão de elefantíase - Fonte: Desconhecida (Licença CC4); CDC, 1962 (Domínio Público) Mosquito analisado sob microscópio - Fonte: Cody H. Ramirez, 2016 (Domínio Público) 17 Em meados de 1841, o médico cubano Carlos Finlay, apresentou sua teoria, consolidada décadas mais tarde, segundo a qual o vírus causador da febre amarela era transmitido por mosquitos vetores. No meio urbano é transmitida principalmente por Aedes aegypti enquanto no meio silvestre este vírus é transmitido por mosquitos do gênero Sabethes e Haemagogus. Em 1898, o pesquisador inglês Ronald Ross demonstrou o papel de mosquitos na transmissão da malária aviária em pardais coletados na Índia. No mesmo ano, foi descrito o desenvolvimento do protozoário da malária em mosquitos do gênero Anopheles. Estas descobertas fizeram que Ronald Ross recebesse o Nobel de Medicina em 1902. Em 1901, temos a primeira campanha bem-sucedida contra o mosquito Aedes aegypti, realizada pelo General William C. Gorgas (1854-1920) em Havana. Com o avanço no interesse pela área da entomologia médica no começo do século XX, já eram conhecidas mais de 250 descrições de espécies de mosquitos, fato que teve grande contribuição para o conhecimento da diversidade mundial de insetos. Na década de 1930, houve um avanço também nas pesquisas relacionadas à epidemiologia de diversos vírus causadores de doenças em humanos e outros animais vertebrados. A febre amarela é um exemplo de doença que afeta vários animais, incluindo seres humanos. Essa doença é causada por um vírus do gênero Flavivírus transmitido pelo mosquito vetor. Na febre amarela silvestre, o ciclo de transmissão acontece do macaco infectado para o mosquito vetor (principalmente Haemagogus e Sabethes) que transmite para o macaco sadio, e eventualmente para humanos. O ciclo urbano ocorre pela transmissão do vírus de um humano para o vetor urbano (mosquito Aedes aegypti) e deste para outro humano. Material de campanha contra febre amarela - Fonte: Desconhecida 18 Vale ressaltar que o responsável em transmitir o vírus é o mosquito e não o macaco. Nessa história, o ser humano entrou acidentalmente no ciclo de transmissão, sendo picado por um mosquito infectado. Outras importantes descobertas foram realizadas durante o início do século XX, estreitando a relação de patógenos com diversos insetos vetores. Uma das grandes contribuições de pesquisadores brasileiros para a entomologia médica mundial foi a realizada por Carlos Chagas, em 1909, que identificou um protozoário e o denominou Trypanosoma cruzi em homenagem ao cientista brasileiro Oswaldo Cruz. Descobriu-se que esse protozoário ocasionava a doença de Chagas e era transmitido por insetos triatomíneos da espécie Panstrongylus megistus. Carlos Chagas - Fonte: J. Pinto, 2007 (Domínio Público) Ciclos de transmissão da febre amarela - Fonte: Ministério da Saúde, 2018 19 Com os avanços tecnológicos durante todo o desenvolvimento da ciência, a área da entomologia médica se propõe a estudar a relação entre insetos, agentes infecciosos, humanos e como eles interagem no meio ambiente. Com o surgimento e crescimento de doenças ligadas aos insetos vetores, criou- se algumas vigilâncias com o objetivo de investigar, monitorar, propor medidas de intervenção e verificar fatores de riscos à saúde humana. • Vigilância Epidemiológica; • Vigilância Entomológica; • Vigilância Ambiental. A seguir você vai conhecer o papel de cada vigilância e sua importância. 2 - Vigilância Epidemiológica O conceito de vigilância como um instrumento auxiliador na saúde pública surgiu ao final do século XIX juntamente com as descobertas dos patógenos infecciosos e seus meios de transmissão. Com o tempo, esse conceito foi sendo aprimorado e se tornando cada vez mais eficiente para conhecer, detectar e prevenir qualquer alteração nos fatores determinantes da saúde. A vigilância tem como principal objetivo coletar e analisar dados para subsidiar medidas eficazes no controle e combate a diversas doenças que podem acometer a saúde da população. Para isso, a vigilância baseia se teoricamente nos estudos sobre a ecologia do agente etiológico, dos vetores e formas de transmissão. Atualmente, a vigilância é uma ferramenta extremamente importante para a prevenção e controle de doenças que interferem na saúde da população. E a epidemiologia estuda a frequência, modo de distribuição e evolução das Mecanismo de transmissão de doenças por insetos - Fonte: Própria, 2018 20 doenças. Dessa maneira, a vigilância epidemiológica realiza ações ou estratégias com base técnico científica, para o combate ou controle de qualquer doença ouagravo. Existe a Portaria nº 204 de 17 de fevereiro de 2016 do Ministério da Saúde que institui a lista de agravos de notificação obrigatória, isto é, o registro de atendimento aos agravos considerados relevantes para a Saúde Pública. A notificação é uma das formas de coleta de dados, permitindo quantificar o número de casos existentes e caracterizá-los. É importante que os profissionais de saúde reconheçam o papel da vigilância epidemiológica no sistema de saúde. Sendo necessários programas de treinamento e capacitação contínua, objetivando uma melhor compreensão e desenvolvimento do trabalho a ser realizado. Não esqueça! O objetivo da vigilância epidemiológica é coletar e processar dados para indicar medidas eficazes no controle de diversas doenças ou agravos. 3 - Vigilância Ambiental Além da vigilância epidemiológica, existe a vigilância ambiental, responsável em monitorar os desequilíbrios do meio ambiente que expõem o ser humano a fatores de risco que interferem em sua saúde. Portanto, adotar medidas de prevenção e controle no ambiente é fundamental para combater as principais doenças vetoriais e ou transmitidas por animais peçonhentos, além dos agravos de relevância ambiental, como por exemplo intoxicações por pesticidas ou desastres ambientais. As vigilâncias precisam ser integradas e caminhar juntas para oferecer uma resposta oportuna aos agravos e doenças. As principais fontes de informações da vigilância ambiental são os fatores de riscos (físicos, químicos, biológicos, mecânicos, ergonômicos ou psicossociais) e as características especiais do ambiente que interferem no padrão de saúde da população. 21 Existem duas grandes áreas de atuação da vigilância ambiental: fatores biológicos e não biológicos. A partir do enfoque na entomologia, os vetores se tornam objeto de estudo. Vetores são organismos transmissores de doenças, os mais conhecidos são os mosquitos. O controle de vetores é realizado principalmente por meio da vigilância entomológica, verificando as características, presença, índice de infestação e avaliação da eficácia dos métodos de controle. 4 - Vigilância Entomológica Estudar insetos de interesse em saúde pública colabora para o entendimento e conhecimento da biodiversidade, distribuição geográfica, ecologia e comportamento de determinadas espécies. A vigilância entomológica visa reduzir os danos à saúde humana na tentativa de conter ou controlar os insetos. Assim é definida como a contínua observação e análise de informações obtidas das características biológicas e ecológicas de espécies vetoras, analisando as interações com hospedeiros humanos e reservatórios sob a influência do ambiente onde eles estão inseridos. Agente de vigilância ambiental em saúde - Fonte: Secretaria de Saúde - DF 22 Com isso, o objetivo é esclarecer e gerar conhecimentos para detecção de qualquer mudança no perfil de transmissão de patógenos, gerando assim, recomendações úteis para a prevenção e controle dos agravos. O entendimento da ecologia do vetor é a chave central para o sucesso das atividades de vigilância entomológica, onde pode-se estabelecer e gerar estratégias direcionadas. Dentre as funções da vigilância entomológica, faz-se crucial a identificação das espécies existentes, caracterização e avaliação ambiental, climática e social da região. Estes fatores, a depender, podem favorecer o aumento de espécies vetoras e a disseminação de patógenos, além de visar a detecção de espécies novas ou nativas. É desse modo que se identifica os indicadores e fatores de riscos epidemiológicos associados a vetores, para que se possa intervir e estruturar as equipes atuantes na vigilância, na tentativa de bloquear ou antecipar possíveis surtos. Você aprendeu que a entomologia estuda os insetos. Já a entomologia médica se concentra na associação entre insetos e agentes que causam doenças em seres humanos. Também conheceu as diferentes vigilâncias: epidemiológica, ambiental e entomológica. No que diz respeito a doenças vetoriais, elas visam o monitoramento de fatores ligados ao risco de adoecimento, a fim de preveni-los ou controlá-los. Caixa entomológica - Fonte: Internet Archive Book Images, 1969 (Domínio Público) 23 Assim, as vigilâncias precisam ser integradas e caminhar juntas para oferecer uma resposta oportuna aos agravos. Marque verdadeiro ou falso. ( ) A entomologia estuda todos os tipos de animais e se preocupa com as relações do animal com o meio ambiente, as plantas e os homens. ( ) O surgimento da entomologia médica está relacionado ao estudo dos insetos associados à transmissão de patógenos aos humanos e a outros grupos de vertebrados. ( ) A febre amarela é um exemplo de doença que afeta animais, incluindo os seres humanos. ( ) O controle de vetores é realizado principalmente por meio da vigilância epidemiológica, verificando as características, presença, taxa de infestação e avaliação da eficácia dos métodos de controle. ( ) A vigilância é uma ferramenta para a prevenção e controle de doenças e agravos que interferem à saúde da população. ( ) As vigilâncias epidemiológica, ambiental e entomológica compreendem áreas diferentes e não precisam de uma atuação integrada. *respostas ao fim da apostila Você sabia que Oswaldo Cruz foi um renomado epidemiologista brasileiro que fundou o Instituto Soroterápico Federal em 1900 com o objetivo de fabricar soros e vacinas contra peste. Posteriormente, a instituição recebeu o nome de Fundação Oswaldo Cruz, mais conhecida como Fiocruz e tornou-se uma referência em pesquisa em Saúde Pública. Se você ficou interessado com o histórico da Fiocruz, conheça a linha do tempo da instituição: Logo da Fundação Oswaldo Cruz - Fonte: Fiocruz Clique aqui bit.ly/linha_do_tempo_fiocruz 24 Vamos relembrar? Nesta aula você conheceu os principais estudiosos da área da entomologia, bem como suas influências para o avanço desta ciência. O texto apresentou fatos históricos, onde descobrimos que a entomologia vem pesquisando, identificando vetores, criando medidas para prevenir a população de contaminação por esses insetos vetores. Aprendeu que os profissionais precisam estar se atualizando para que o combate seja eficaz. Até a próxima aula! 25 Ajude o conhecimento a chegar mais longe! Se você foi beneficiado(a) por este conteúdo, considere contribuir para que ele alcance mais pessoas. Fazendo uma doação para a ProEpi, você viabiliza o desenvolvimento e a tradução para outros idiomas de mais recursos educacionais como esse, ajudando colegas a se capacitarem e protegerem melhor a saúde da população. Mais de 3.000 pessoas já foram beneficiadas por nossos cursos a distância e outras centenas participaram de nossos treinamentos presenciais em áreas como Investigação de Surto, Comunicação de Risco e Gestão de Projetos de Vigilância em Saúde. Torne-se um membro da nossa rede: Faça uma doação: ou acesse proepi.org.br/doação 26 Referências ARREAZA, Antonio Luis Vicente; MORAES, José Cássio de. Vigilância da saúde: fundamentos, interfaces e tendências. Ciênc. saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 15, n. 4, p.2215-2228, July 2010. Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413- 81232010000400036&lng=en&nrm=iso>. access on 01 Apr. 2018. http://dx.doi.org/10.1590/S1413-81232010000400036. Consoli, AGBR; Lourenço de Oliveira, R.1994. Principais mosquitos de importância sanitária no Brasil. Editora Fiocruz.Gomes, A.C. 2002. Vigilância Entomológica. Informe Epidemiológico do SUS 11: 78-90. ldridge, B. F., and Edman, J. D., eds. 2000. Medical Entomology: A Textbook on Public Health and Veterinary Problems Caused by Arthropods. Kluwer Academic Publishers. Mullen, G.R; Durden, L.A. Medical and Veterinary Entomology. 2ªed. Elservier, USA, 2009. Peru, Ministerio de Salud. Direccion general de la salud ambiental (DIGESA). Manual de campo para la vigilância entomológica. Lima: DIGESA, 2002. Brasil. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Vigilância Ambiental em Saúde. Brasília, novembro, 2002. MAGALHÃES, RCS. A erradicação do Aedes aegypti: febre amarela, Fred Soper e saúde pública nas Américas (1918-1968) [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2016. História e Saúde collection, 413 p. 27 Créditos das imagens 1. Origem da palavra “entomologia” - Fonte: Própria, 2018 2. Aristóteles - Fonte: Desconhecida (Licença CC0) Disponível em: https://www.emaze.com/@AITLQILL 3. Capa do Systema Naturae, 10ª edição, reimpressão de 1760 - Fonte: CARL LINNAEUS (Domínio Público) Disponível em: https://archive.org/details/cbarchive_53979_linnaeus1758systemanaturae1758 4. Retrato litográfico do reverendo William Kirby, entomologista britânico - Fonte: T.H. Maguire, 1851 (Licença CC3) Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kirby_William_1759- 1850.jpg 5. Pintura de um gafanhoto do Egito antigo - Fonte: The Yorck Project, 2002 (Domínio Público) Fonte: The Yorck Project, 2002 Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Maler_der_Grabkammer_des_Horemh ab_002.jpg 6. Aedes aegypti, vetor transmissor do vírus da dengue - Fonte: WikiImages (Licença CC0) Disponível em: https://pixabay.com/en/tiger-mosquito-mosquito-49141/ 7. Patrick Manson e a associação de mosquitos com a transmissão de elefantíase - Fonte: Desconhecida (Licença CC4); CDC, 1962 (Domínio Público) Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Patrick_Manson3.jpg; https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Elephantiasis.jpg 28 8. Mosquito analisado sob microscópio - Fonte: Cody H. Ramirez, 2016 (Domínio Público) Disponível em: http://www.yokota.af.mil/News/Photos/igphoto/2001575904/ 9. Material de campanha contra febre amarela - Fonte: Desconhecida Disponível em: http://www.guararema.sp.gov.br/35/secretarias/saude/noticias/2416/guararema +vacina+12+mil+pessoas+contra+febre+amarela 10. Ciclos de transmissão da febre amarela - Fonte: Ministério da Saúde, 2018 Disponível em: http://www.blog.saude.gov.br/index.php/perguntas-e- respostas/52216-faqms-perguntas-e-respostas-sobre-a-febre-amarela 11. Carlos Chagas - Fonte: J. Pinto, 2007 (Domínio Público) Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Carlos_chagas_2.jpg 12. Mecanismo de transmissão de doenças por insetos - Fonte: Própria, 2018 13. Agente de vigilância ambiental em saúde - Fonte: Secretaria de Saúde - DF Disponível em: http://blog.concursosdasaude.com.br/artigo-sistema-nacional- de-vigilancia-epidemiologica/ 14. Caixa entomológica - Fonte: Internet Archive Book Images, 1969 (Domínio Público) Disponível em: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Frederick_H._Rindge,_entomologist.jpg 15. Logo da Fundação Oswaldo Cruz - Fonte: Fiocruz Disponível em: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/logomarcas/ 29 Respostas dos exercícios (em ordem de aparição) 1 - Marque verdadeiro ou falso. ( F ) A entomologia estuda todos os tipos de animais e se preocupa com as relações do animal com o meio ambiente, as plantas e os homens. ( V ) O surgimento da entomologia médica está relacionado ao estudo dos insetos associados à transmissão de patógenos aos humanos e a outros grupos de vertebrados. ( V ) A febre amarela é um exemplo de doença que afeta animais, incluindo os seres humanos. ( F ) O controle de vetores é realizado principalmente por meio da vigilância epidemiológica, verificando as características, presença, taxa de infestação e avaliação da eficácia dos métodos de controle. ( V ) A vigilância é uma ferramenta para a prevenção e controle de doenças e agravos que interferem à saúde da população. ( F ) As vigilâncias epidemiológica, ambiental e entomológica compreendem áreas diferentes e não precisam de uma atuação integrada. Aula 1 - Conhecendo a História da Entomologia 1 - Entomologia Médica 1.1 - História da entomologia médica 2 - Vigilância Epidemiológica 3 - Vigilância Ambiental 4 - Vigilância Entomológica Vamos relembrar?