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UNIVERSIDADE PAULISTA DIREITOS DAS COISAS Profª. Ma. MÁRCIA SANTANA SOARES mssoares38@gmail.com 1. DIREITO DAS COISAS “Se me roubas a bolsa, não me levas senão lixo. Se me roubas o nome, roubas minha maior riqueza”. (William Shakespeare) 1.1. Conceito “É o conjunto de normas que estabelece a relação potestativa entre a pessoa e os bens; é o estudo da dinâmica da propriedade (o cerne do direito real é a propriedade)”. Segundo a definição clássica de Clóvis Beviláqua, direito das coisas “é o complexo de normas reguladoras das relações jurídicas referentes às coisas suscetíveis de apropriação pelo homem”. Segundo Lafayette, é “o conjunto das disposições que formam a oganização da propriedade em cada país, reduzida a um corpo de doutrina sistemático”. De um lado estudam-se os direitos reais sobre coisas alheias; de outro, estuda-se a posse (não é direito real e, sim, uma situação de fato, protegida, por se enxergar no possuidor a pretensão da propriedade); e, no meio, estuda-se a propriedade. 1.2- Evolução histórica O direito das coisas constitui o ramo do direito civil mais influenciado pelo direito romano. Coube ao direito romano estabelecer a estrutura da propriedade. A concepção de propriedade foi marcada, inicialmente, pelo aspecto nitidamente individualista. No sistema feudal havia um sistema hereditário que garantia que o domínio permanecesse numa dada família de tal forma que esta não perdesse o seu poder no contexto do sistema político. Com a revolução francesa, instala-se, nos sistemas jurídicos, uma propriedade com características fiéis à tradição romana e aos princípios individualistas. A partir da encíclica do quadragésimo ano, na qual Pio XII sustenta a socialização da propriedade, sendo que acabou impregnando tal idéia no séc. XX, influenciando a concepção da função social da propriedade ( art.5º, XXIII; art. 170 da C.F; art. 1228,par. 1º do C.C.). 1.3 – Conteúdo fsilvaduarte Realce O C.C. regula os direitos reais no Livro III da parte especial. Trata primeiramente da posse e, em seguida, dos direitos reais (propriedade, direitos reais sobre coisa alheia) 1.4- Distinção entre os direitos reais e pessoais É importante estabelecer a distinção entre os direitos reais e pessoais ou obrigacionais, ou de crédito, para delimitar e precisar o objeto do direito das coisas. As expressões jus ad rem e jus in re são empregada, desde o direito canônico, para distinguir os direitos pessoais dos direitos reais. A teoria unitária realista (Saleilles) procura unificar os direitos reais e pessoais a partir do critério do patrimônio. Já a teoria dualista ou clássica consagra a distinção entre direitos reais e pessoais. 1.4.1- Caracteres distintivos “Os direitos patrimoniais consistem no conjunto de bens, direitos e obrigações de uma pessoa natural ou jurídica, sendo suscetíveis de estimação pecuniária, dividindo-se em reais e pessoais”. a) Em relação ao sujeito de direito Direitos pessoais - existe credor e devedor (sempre dois sujeitos). Direitos reais - existe um sujeito e uma coisa. Sílvio Rodrigues: “Diz-se real o direito que recai diretamente sobre a coisa”. “Diz-se pessoal, o que depende de uma prestação do devedor, isto é, o que implica, necessariamente, a colaboração de um sujeito passivo”. Lafayette: “O direito real é o que afeta a coisa direta e indiretamente, sob todos ou certos respeitos, e a segue em poder de quem quer que o detenha”. b) Quanto à ação - art. 1.228 C.C. Direitos reais - causa efeitos erga omnes contra todos, ou seja, o direito real, ligando a coisa a seu titular, permite que este a busque onde quer que se encontre, nas mãos de quem que, injustamente a detenha, a fim de sobre ela exercer seu direito. Direitos pessoais - não há efeito erga omnes. O efeito é relativo. c) Quanto ao objeto No direito real – coisa corpórea ou incorpórea No direito pessoal – a prestação de dar, fazer ou não fazer alguma coisa. d) Em relação ao limite: Direitos pessoais - figuras ilimitadas, amparadas por lei, e podem variar de região de acordo com as constituições estaduais e leis e normas municipais, regulamentos, contratos (nominados e inominados), etc. Direitos reais – está leimitado e regulado expressamente por noma jurídica – numerus clausus ( art. 1.225 do C.C.) e) Quanto ao modo de gozar direitos: Direitos reais (art. 1.228 C.C. –O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa...) - podemos usar e gozar das coisas da maneira que nos convier fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce (claro que atendendo ao princípio da ordem pública e não contrariando o ordenamento jurídico). Supõe o exercício direto pelo titular do direito sobre a coisa. Direitos pessoais - não podemos dispor da maneira que nos convier, podemos sofrer sanções. Exige sempre um intermediário. f) Extinção Direitos reais – conservam-se até que se constitua uma situação contrária em proveito de outro titular. Direitos pessoais - extingue-se com a quitação, pagamento ou perdão da dívida, sub-rogação. g) Quanto ao abandono Direitos reais - pode-se abandonar a coisa. Direitos pessoais - não se pode abandonar o débito, sob pena de sofrer sanções. h) Quanto à posse Direitos pessoais - não acontece posse. Direitos reais - acontece a posse por ser a exteriorização do domínio. i) Quanto ao usucapião É modo aquisitivo de direito real e não de direito pessoal. j) Quanto ao direito de preferência Direitos pessoais - não é regra, mas acontece. Ex.: o inquilino em um contrato de locação registrado, tem prioridade se por acaso o proprietário vai vender o imóvel. Direitos reais - em regra são de direitos reais. Ex: 2 hipotecas sobre o mesmo imóvel. l) Quanto à seqüela Direitos reais – O direito real segue seu objeto onde quer que se encontre, devido à sua eficácia absoluta. O direito de seqüela é a prerrogativa concedida ao titular do direito real de pôr em movimento o exercício de seu direito sobre a coisa a ele vinculada, contra todo aquele que a possua injustamente, ou seja, o seu detentor¨. Direitos pessoais – Não há nos direitos pessoais devido o efeito relativo das obrigações. 1.5. Características e princípios 1.4.1- Eficácia erga omnes O direito real pode gerar efeitos contra todos, tendo em vista ser o sujeito passivo indeterminado e haver publicidade dos atos processuais. * princípio do absolutismo- os direitos reais se exercem erga omnes. fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce 1.5.2. Direito de seqüela( jus persequendi) É o vínculo de subordinação da coisa e da pessoa. Esse vínculo vem alicerçado em dois princípios: princípio da aderência,especialização ou inerência: é o princípio segundo o qual o titular do direito real pode ir atrás do bem aonde quer que ele se encontre (princípio positivo);(art. 1.228 C.C.) princípio da ambulatoriedade: é o princípio segundo o qual todos os ônus da coisa– como tributos, despesas condominiais etc.– acompanham a coisa, aonde quer que ela vá (princípio negativo). 1.5.3- Princípio da publicidade ou visibilidade Os imóveis – registro no Cartório de registrode imóveis e bens móveis – tradição. O princípio da publicidade é condição de operabilidade do princípio do absolutismo. (art.1.227 C.C.) 1.5.4 – Princípio da taxatividade ou numerus clausus Art. 1225 do C.C. 1.5.5- Princípio da tipicidade Os direitos reais estão de acordo com os tipos legais. 1.5.6 – Princípio da perpetuidade O direito de propriedade somente se perde pelos meios e formas legais: desapropriação, usucapião, renúncia, abandono, etc. 1.5.7. Ação real Os direitos reais e a posse têm uma tutela diferenciada pela teoria do processo, tendo em vista a garantia da celeridade dentro do sistema. As duas principais características da ação possessória são: fungibilidade: o pedido é fungível, ou seja, nas relações jurídicas da ação possessória, o pedido poderá ser mudado, se houver mudança da situação de fato; duplicidade: não há reconvenção, é um pedido contraposto. 1.5.8. Exclusividade Não existem dois titulares com direitos reais análogos, ou seja, duas pessoas não podem exercer o mesmo direito real sobre a mesma coisa. No caso de condomínios, fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce esses não ferem a exclusividade, tendo em vista que cada condômino exerce o seu direito real sobre parte ideal. 1.5.9. Privilégio O crédito real não se submete à divisão, tendo em vista a existência de uma ordem entre os credores, estabelecida por meio do princípio cronológico, ou seja, aquele que primeiro apresentar o crédito em cartório será o credor privilegiado. 1.5.10. Abandono O abandono do direito real é a perda de efeitos jurídicos devido à disponibilidade material da coisa. O abandono e a renúncia, no campo dos efeitos, fazem cessar os efeitos jurídicos. A renúncia, no entanto, difere do abandono, visto que a obrigação cessa pela prerrogativa que o titular tem conferida por norma jurídica (resilição). Renúncia: extinção da obrigação por ato unilateral voluntário. Abandono: extinção da obrigação por ato unilateral material. 1.5.11. Prescrição aquisitiva Somente no direito real a passagem do tempo poderá gerar aquisição de direitos. Não basta, no entanto, somente a passagem do tempo, deverá haver um ato da outra parte (por exemplo: um sujeito possui um imóvel e passa 20 anos sem ir até ele; a simples passagem do tempo não prescreve o direito de propriedade; no entanto, se terceira pessoa toma posse do imóvel, a passagem do tempo, combinada com o ato de posse dessa pessoa, faz com que o sujeito “perca” o seu direito à propriedade). 1.5.12. O bem deve ser certo, determinado e existente fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce Em decorrência do princípio da veracidade de registro, o bem deve ter as características de certo, determinado e existente. 1.6. Classificação O direito real, segundo o disposto no artigo 1.225 do Código Civil, classifica-se em: direito real sobre coisa própria e direito real sobre coisa alheia. 1.6.1. Direito real sobre coisa própria O único direito real sobre coisa própria é a propriedade, que confere o título de dono ou domínio. Normalmente, a propriedade é ilimitada ou plena, conferindo poderes de uso, gozo, posse, reivindicação e disposição. 1.6.2. Direito real sobre coisa alheia É o desmembramento do direito real sobre coisa própria. Poderá somente ser temporário, visto que, dentro do princípio da elasticidade, a coisa tende a voltar à situação original, que é a propriedade plena. Divide-se em três grupos: Direito real de fruição: é o desmembramento em relação ao uso da coisa. Pode ser enfiteuse, servidão, usufruto, uso e habitação. Direito real de garantia: é o desmembramento em relação à disposição da coisa (limita o direito de disposição). Se não cumprida a obrigação principal, o credor irá dispor da coisa. Pode ser hipoteca, penhor e anticrese. Direito real de aquisição: é o desmembramento do direito de aquisição. O titular transmite a propriedade para terceiros, paulatinamente. Pode ser compromisso irretratável de compra e venda, e alienação fiduciária em garantia. Segundo alguns doutrinadores é visto como uma categoria de direito real que não é sobre coisa alheia e nem de garantia. Para alguns autores, essa classificação é exemplificativa. Majoritariamente, no entanto, os autores entendem que a classificação é taxativa, tendo em vista que o direito real é um direito público, que deve ser registrado e, ainda, porque não se pode limitar fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce fsilvaduarte Realce direitos de terceiros, a não ser por expressa criação legal. Não há, portanto, de se falar em elaboração de novos direito reais por particulares. Esse rol do artigo 1.225 é taxativo, mas é rol não exaustivo, visto que os direitos reais de aquisição foram criados por normas especiais, adotando-se o princípio da taxatividade. 2- Figuras jurídicas híbridas ou intermédias As figuras jurídicas híbridas ou intermédias, se situam entre o direito pessoal e o real. Elas figuram como propter rem ou ob rem, ônus real e eficácia real. Configura-se como um direito misto, pois recai sobre uma pessoa que fica adstrita a satisfazer uma prestação, e de direito real, pois vincula sempre o titular da coisa. a) Propter rem ou ob rem A obrigação real fica a meio caminho entre o direito real e o direito obrigacional. As obrigações propter rem ou ob rem são aquelas que estão a cargo de um sujeito, à medida que este é proprietário de uma coisa, ou titular de um direito real de uso e gozo dela. Apresenta-se sempre vinculada a um direito real, como acessório, sendo que a pessoa do devedor pode variar, dependendo de sua relação com a coisa.São ambulatórias, acompanham a coisa nas mãos de qualquer novo titular. Conforme Sílvio Rodrigues são “obrigações decorrentes da relação entre o devedor e a coisa”. Ex: De acordo com o art. 1.297 do C.C. é direito do proprietário de exigir do confinante que colabore na demarcação entre os seus prédios, repartindo entre ambos as despesas; o adquirente de imóvel hipotecado deve pagar o débito que o onera, se o quiser liberar. Pode-se citar também como exemplos: arts. 1.315,1.280. Chegamos à conclusão que as obrigações pessoais (dar, fazer e não fazer) atinentes aos direitos reais de vizinhança são propter rem, bem como as servidões derivadas de lei, como no caso dos prédios encravados. Observa-se que é lícito convencionar que tais obrigações sejam solvidas pelo usuário da coisa, como por exemplo, o repasse dos encargos condominiais ao locatário, sem que isto implique transferência da obrigação real ou alteração de sujeição passiva, mas apenas um acordo de vontades restrito aos contratantes. Em recentes julgados, o STJ, por considerar que o registro da escritura no cartório imobiliário tem apenas a finalidade de proteger o direito do comprador, caso o vendedor decida alienar o imóvel para outra pessoa, afastou a aplicação da teoria das obrigações propter rem, por evidente negação ao princípio jurídico constitucional da função social da propriedade. Em comum, versam acerca de ações propostas por condomínios contra proprietários, visando ao pagamento de débitos condominiais posteriores à alienação da coisa, sob o argumento de o imóvel ainda não estar registrado em nome do novo morador ao tempo do inadimplemento. Para o STJ, mesmo que o adquirente não tenha providenciado o registro da escritura de compra e venda e a conseqüente transmissão da propriedade, os débitos condominiais atraem a suaresponsabilidade pelos débitos contraídos a partir do exercício da moradia, desde que tenha posse efetiva do bem com o conhecimento do condomínio sobre a aquisição. *Características: o devedor está ligado ao vínculo em decorrência de sua particular situação em relação ao bem, do qual é possuidor ou proprietário. Os sucessores a título particular assumem automaticamente as obrigações do sucedido. São acessórias. b) Ônus reais É um gravame que recai sobre a coisa, restringindo o direito do titular de um direito real.São obrigações que limitam o uso e gozo da propriedade, constituindo gravames ou direitos oponíveis erga omnes. Aderem e acompanham a coisa. A responsabilidade pelo ônus real é limitada ao bem onerado, ao valor deste, enquanto na obrigação propter rem o obrigado responde com seu patrimônio, sem limite O ônus implica sempre uma prestação positiva; já a obrigação propter rem pode surgir como uma prestação negativa. Os ônus reais representam deveres que limitam o gozo da coisa e poder de dispor, prevalecendo erga omnes, constituindo-se verdadeiros direitos reais. Contudo, existem opiniões contrárias como a de Garcez Neto. A sua vinculação acontece sobre um bem imóvel. Constitui-se de direito sobre coisa alheia, menos a servidão decorrente de lei, regulamentada pelo direito de vizinhança. Ex: arts. 1.385, § 2º, 1.386, 1.405, 1.408 e 1.409 c) Obrigações com eficácia real Certas relações oriundas de contratos, por força de disposição legal, alcançam a latitude de direito real. O art. 27 c/c art. 33 e 8º da atual Lei do Inquilinato (Lei n. 8.245, de 18/10/91) disciplina o direito de preferência do locatário e o compromisso de compra e venda, em que, uma vez inscrito no Registro Imobiliário, o compromissário passará a gozar de direito real, oponível a terceiros. Outro exemplo deste tipo de obrigação encontra-se no art. 576 do C.C. Também pode ser apontada como exemplo, a que resulta de compromisso de compra e venda, em favor do promitente comprador, quando não se pactua o arrependimento, ou seja, se estabelece a promessa irretratável de compra e venda registrada em Cartório*. Exercícios de revisão (1): 1. Identifique a categoria mista presente nas questões abaixo: a. Pedro Antonio adquiriu um imóvel rural e com servidão registrada em cartório. b. Sérgio Naya é proprietário de um prédio situado na av. República do Líbano, que está em péssimas condições estruturais, podendo ruir a qualquer momento.O vizinho exigiu caução ou que o mesmo o destrua ou retifique. c. Cora Amaralina adquiriu um apartamento no décimo andar do edifício Excalibur.Meses depois, recebeu uma notificação da prefeitura, referente a 3 anos de IPTU atrasados. d. João Batista é proprietário de um apartamento no condomínio Hans Kelsen, sendo que o condomínio contraiu uma dívida com a construção de um novo muro. e. Carlos Penha, proprietário de um imóvel que ao lado tem um prédio em construção e ele está insatisfeito com a obra, pois os terraços estão a menos de um metro das janelas de sua casa, desrespeitando o código de posturas do município. f. João alugou um imóvel residencial urbano com José com contrato registrado em Cartório. João deseja vender o imóvel para Sílvio pelo valor de 100 mil. João lhe procurou para saber se poderá exercer a preferência e qual a obrigação mista presente. 2) Explique a aderência em relação aos direitos reais. 3) Explique o exercício da seqüela e dê um exemplo. 4) “Processo Civil. Fraude à execução. Sem o registro da penhora não se caracteriza fraude à execução, salvo prova de que o adquirente tinha conhecimento da ação”. A partir da orientação que se assentou no STJ a cerca da necessidade de registro da penhora e da sua conseqüente oponibilidade erga omnes, alguns civilistas passaram a sustentar ser ela um novo direito real; Outros, apenas uma simples restrição ao direito de propriedade. Pergunta: A luz dos princípios que norteiam os direitos reais em geral e o de propriedade em especial, está correta alguma tese? Por quê? 5) – Dê o conceito de direito das coisas. 6 )– Qual o conteúdo do direito das coisas? 7 )– Cite três diferenças entre direito real e direito pessoal. 8 )– Cite três características fundamentais do direito real. 2. POSSE “É a parte que te cabe deste latifúndio; não é cova grande, é cova medida; é a terra que querias ver didivida”. (Chico Buarque) 2.1. BREVE HISTÓRICO A origem da posse é historicamente justificada no poder físico sobre as coisas e a necessidade do homem se apropriar de bens. A teoria de Niebuhr defende a tese de que a posse surgiu com a repartição de terras conquistadas pelos romanos, sendo uma parte das terras cedida a título precário aos cidadãos. Já a teoria aceita por Ihering explica o surgimento da posse na medida arbitrária tomada pelo pretor, que, devido a atritos eclodidos na fase inicial das ações reivindicatórias, outorgava, discricionariamente, a qualquer dos litigantes, a guarda ou a detenção da coisa litigiosa. Com o passar dos tempos substituiu-se a medida discricionária do pretor por critérios mais justos e lógicos, de forma que aquele que apresentasse melhores provas na fase inicial da reivindicatória, outorgando-lhe a coisa litigiosa até o julgamento definitivo da ação. 2.2- Conceito O Código Civil define a posse como sendo o exercício de fato, plena, ou não, de algum dos poderes inerentes à propriedade, em nome próprio e com autonomia (art. 1.196 e 1.198). Para SAVIGNY, posse é “a possibilidade de disposição física da coisa com ânimo de tê-la como sua e de defendê-la contra terceiros”. Para IHERING, posse é “a exteriorização ou visibilidade do domínio” (bastaria o ato de propriedade para ser possuidor). O nosso sistema jurídico adota com maior intensidade o conceito de IHERING, no entanto, não é um conceito puro, visto que o conceito de SAVIGNY também foi utilizado pelo Código Civil. Para o Prof. WALD, posse é “uma situação de fato que gera conseqüências jurídicas”. Protege-se essa situação de fato, visto que há uma hipótese de que, naquela situação de fato, exista um proprietário. 2.2. Teorias 2.2.1. Teoria subjetiva (SAVIGNY) “Posse é o poder imediato que tem a pessoa de dispor fisicamente de um bem com a intenção de tê-lo para si e de defendê-lo contra a agressão de quem quer que seja” (MHD). Elementos: corpus e animus domini. Se houver somente o animus, a posse será tida como um fenômeno de natureza psíquica e se houver somente o corpus ter-se-á mera detenção( locatário, comodatário). Para Savigny não constituem relações possessórias, “aquelas em que a pessoa tem a coisa em seu poder, ainda que juridicamente fundada como na locação, no comodato, no penhor, etc., por lhe faltar a intenção de te-la como dono, o que dificulta sobremodo a defesa da situação jurídica”. Neste ponto a aludida teoria não encontrou sustentáculo. 2.2.2. Teoria objetiva (IHERING) - Teoria objetiva de lhering - “Posse é a exteriorização ou visibilidade do domínio, ou seja, a relação exterior intencional, existente, normalmente, entre o proprietário e sua coisa” (MHD). Elementos: corpus. O animus encontra-se ínsito no poder de fato exercício sobre a coisa; deve-se ter em vista a destinação econômica do bem. Para se configurar a posse basta, portanto, atentar no procedimento externo, um vez que o corpus constitui o único elemento visível e suscetível de comprovação. Para Ihering, a posse não é o poder físico, e sim a exteriorização da propriedade. Para Ihering: a) a posse é condição de fato da utilização econômica da propriedade; b) o direito de possuir faz parte do conteúdo do direito de propriedade; c) a posse é meio de proteção do domínio;d) a posse é uma rota que conduz à propriedade. 2.3 - OBJETO Podem ser objetos de posse as coisas corpóreas que também possam ser objeto de propriedade (salvo as que estão fora do comércio por sua natureza) e os direitos reais limitados exteriorizáveis, sobre os quais seja possível exercer um poder ou atributo dominial (Ex.: usufruto, uso, enfiteuse, servidões prediais,habitação, penhor e anticrese). No primeiro caso, recebe a denominação de posse de coisas (aquela em que o possuidor age como se fosse proprietário). No segundo caso, alguns autores a chamam de quase-posse ou posse de direitos (aquela em que o possuidor exerce atos que exteriorizam apenas o exercício de um direito real limitado). Todavia, essa distinção entre posse de coisas e posse de direitos não apresenta qualquer importância prática, não passando de mera reminiscência histórica. Posse de direitos pessoais - Embora haja divergência,o entendimento dominante na doutrina e na jurisprudência, segundo noticiam WBM e AW, é o de que não se admite a posse de direitos pessoais. MHD, dentre outros, tem entendimento diverso no que tange a direitos pessoais patrimoniais ou de crédito. 2.4. Natureza Jurídica Existem três correntes principais a respeito da natureza jurídica da posse: a) a posse é fato (Windscheid), uma vez que não tem autonomia, não tem valor jurídico próprio. O fato possessório não está subordinado aos princípios que regulam a relação jurídica no seu nascimento, transferência e extinção. b) a posse é fato e direito, preconizada por Savigny, sustenta ser a posse simultaneamente, fato (pois sua existência independe de todas as regras de direito) e direito (pois apesar de constituir um fato, produz conseqüência jurídica, por ex.: usucapião e os interditos possessórios). Conclui-se, pela sua natureza, entre os direitos pessoais, devido os interditos possessórios. c) a posse é direito, defendida por lhering, sustenta ser a posse um direito, ou seja, um interesse juridicamente protegido, uma vez que é condição da utilização econômica da propriedade, constituindo um direito real, devido o seu exercício ser direito absoluto e a sua incidência em objeto determinado.Trata-se de um direito real. Entretanto, segundo julgados do STJ, inclui-se a posse entre os direitos pessoais, razão pela qual se sujeitava à regra do art. 177 do Código Civil/2002 seguiu essa mesma orientação, tanto que disciplinou a posse em título diverso dos destinados aos direitos reais, bem como deixou de a incluir no rol destes. 2.5. Efeitos Em primeiro lugar deve-se distinguir jus possidendi e jus possessionis. Jus possidendi é a posse que tem por substrato uma propriedade– é o proprietário-possuidor. Jus possessionis é a posse que não tem substrato jurídico. Tem por substrato uma mera situação de fato. A posse tem três efeitos básicos: Proteção possessória (interdicta): é a tutela possessória, que consiste em a pessoa poder se valer do instrumento processual para proteger a relação jurídica. São as ações de manutenção, de reintegração e o interdito proibitório. Usucapião: é a possibilidade de transformar a posse em propriedade. Legítima defesa da posse (desforço pessoal da posse): sistema de autotutela. Esses efeitos, entretanto, variam no jus possidendi e no jus possessionis: No jus possidendi o titular tem como prerrogativa a proteção possessória e a legítima defesa da posse, mas não tem direito ao usucapião, tendo em vista ser proprietário-possuidor. No jus possessionis o titular terá as tutelas de possuidor-não-proprietário, quais sejam: proteção possessória, usucapião e legítima defesa da posse. 2.6. Espécies 2.6.1. Posse direta e posse indireta A posse direta decorre da efetiva relação material entre a pessoa e a coisa. A posse indireta nasce por meio de uma ficção, pela qualidade jurídica do titular do direito. Essa classificação somente será possível no jus possidendi, e poderá acontecer tanto nos contratos (consensuais ou reais) quanto nos direitos reais limitados (exemplo: usufruto). Essa classificação tem o efeito de proteção possessória. No caso da posse indireta, o proprietário será o possuidor indireto da coisa. O possuidor direto tem prerrogativa possessória, mas não poderá usucapir a coisa, tendo em vista a posse ser precária (estabelecida por uma relação de confiança), existindo a proteção à posse indireta. 2.6.2. Posse justa e posse injusta A posse justa é aquela que está em conformidade com o ordenamento jurídico. A posse injusta é aquela contrária ao ordenamento jurídico, podendo ser: violenta: obtida mediante força física injustificada; clandestina: obtida às escondidas; não havendo a prática de ato material, como plantações ou construções; precária: obtida por meio de uma relação de confiança entre as partes, mas retida indevidamente. A posse injusta poderá tornar-se justa quando o vício for sanável. Esse vício será sanado após um ano e um dia, cessada a violência ou a clandestinidade. A precariedade, entretanto, não convalesce jamais, ou seja, o vício não poderá ser sanado. Segundo vários autores, dentre eles Sílvio Rodrigues, o aludido art. 1.208 do C.C. arredou a possibilidade de ocorrer o convalescimento do vício da precariedade, seja porque representa um abuso de confiança, seja porque a obrigação de devolver a coisa recebida em confiança nunca cessa. 2.6.3. Posse de boa-fé e posse de má-fé Trata-se aqui do elemento subjetivo da posse. A posse de boa-fé é aquela cujo titular desconhece qualquer vício que macule a posse. A posse de má-fé se dá quando o titular sabe do vício. No nosso sistema, prevalece a presunção da posse de boa-fé, tendo o titular direito a frutos, benfeitorias, à retenção e notificação. 2.6.4. Posse “ad interdicta” e posse “ad usucapione” A posse ad interdicta visa à proteção possessória. A posse ad usucapione é aquela que visa à aquisição do domínio, da propriedade. 2.6.5. Posse com título e sem título a) Posse com título – corresponde a forma própria jus possidendi, que equivale ao exercício da posse sobre determinada coisa por alguém que é titular de uma situação jurídica na qual se funda a posse. É a posse nascida de um direito real. b) Posse sem título – corresponde a forma própria jus possessionis, que é a chamada posse de fato, em que não se possui título ou o embasamento jurídico consolidado. Não se funda em nenhum direito real, mas assegura direito contra terceiros que não são titulares do domínio. 2.6.6. Posse própria para uso de interditos e posse para invocar a usucapião a) para interditos – exige-se a prévia existência da posse e a moléstia, consistente esta na turbação e esbulho. b) para usucapião – exige-se boa-fé, animus domini, decurso de tempo suficiente, exercício da posse de modo manso e pacífico fundado em justo título, caso não se trate de usucapião extraordinário ou especial. 2.6.7. Posse causal e posse formal a) posse causal – conhecida como jus possidendi, corresponde a faculdade de exercer os poderes necessários para sua utilização econômica; ou a faculdade de sobre as coisas exercer poderes e retenção, de uso, de fruição e de transformação. É aquela que é justificada pela titularidade do direito a que se refere. b) posse formal – conhecida como jus possessionis, é a relação de fato da pessoa com a coisa, mas dissociada do direito que traduz. É um exercício da posse sobre um bem, de modo normal e continuado, sem amparo de um título. 2.6.8. Posse nova e posse velha É a questão temporal da posse. A posse nova é aquela cujo prazo não excede um ano e um dia. A posse velha é aquela superior a um ano e um dia. A importância dessa distinção é que um dosrequisitos, para que seja concedida a liminar na ação possessória, é que o possuidor não tenha deixado ultrapassar um ano e um dia. 2.6.9. Posse natural e posse civil Posse natural é aquela que decorre da relação material entre a pessoa e a coisa. Posse civil é aquela que decorre de lei. A posse civil pode ser de três formas: Constituto possessório: é uma forma de aquisição e de perda da posse em que o possuidor pleno passa a ser apenas possuidor direto da coisa (ex.: alienação de um imóvel em que o alienante continua no imóvel como locatário). O constituto possessório jamais pode ser presumido, devendo vir expressamente disposto, por meio da “cláusula constituinte”, no contrato entre as partes. Traditio breve manu: é aquela situação em que o possuidor direto passa a ser possuidor pleno da coisa. Traditio longa manu: o possuidor da coisa, apesar de não ter tido disponibilidade material plena, por ficção, passa a tê-la (ex.: adquire-se uma fazenda de vários hectares; presume-se que, se o adquirente tomar posse de apenas uma pequena área, estará tomando posse de toda a área, ficticiamente). 2.6.10. Posse quase-posse, exclusiva e composse Posse quase-posse é aquela que decorre dos direitos reais limitados sobre coisa alheia (exemplo: posse do usufrutuário, posse do usuário etc.). Posse exclusiva é a posse de um único possuidor. É aquela em que uma pessoa física ou jurídica, tem, sobre a mesma coisa, posse plena, direta ou indireta. O desdobramento da posse em direta e indireta não é incompatível com a possibilidade de ambas as posses desdobradas serem ou não, exclusivas. A posse exclusiva se contrapõe à composse. Composse é a posse comum, exercida por duas ou mais pessoas, sobre parte ideal da coisa (art. 1.199 do C.C.). A posse gera dois efeitos: os compossuidores podem exercer proteção possessória e usucapião; os compossuidores podem exercer proteção possessória uns contra os outros. No direito alemão distingue-se a composse simples da composse em mão comum. A composse simples é a composse romana, na qual cada um dos compossuidores pode exercer sozinho o poder de fato sobre a coisa, sem excluir, todavia o dos outros compossuidores. A posse em mão comum tem origem no direito alemão antigo e se configura quando somente todos os compossuidores, em conjunto, podem exercer o poder de fato sobre a coisa. Como a primeira é a única admitida em nosso direito, dispensa o qualificativo simples, bastando dizer-se composse. 2.7. Aquisição da Posse O Código Civil de 1916 tratava da aquisição e perda da posse, nos Capítulos II e IV, tal qual o Código atual. Porém, a grande crítica em relação ao Código Civil de 1916 é que, para a aquisição da posse, o Código Civil anterior adotava a teoria de SAVIGNY (corpus + animus). Se fosse utilizada a teoria de IHERING, não haveria formas de aquisição da posse, tendo em vista que qualquer relação material geraria a aquisição da posse. O artigo 493 do Código Civil anterior apresentava um rol exemplificativo das formas de aquisição da posse: pela aquisição da coisa (apreender para si); pela disposição da coisa (tirar de si); por qualquer outra forma. O atual Código Civil, no seu artigo 1204, por adotar a teoria de Ihering apenas estabelece: "Adquire-se a posse desde o momento em que se torna possível o exercício, em nome próprio, de qualquer dos poderes inerentes à propriedade". Apenas não alcançará a condição de possuidor os casos em que ocorra a detenção do bem, arrolados nos arts. 100, 1.198 e 1.208 do Código Civil. 1204 – “adquire-se a posse desde o momento em que se torna possível o exercício, em nome próprio, de qualquer dos poderes inerentes à propriedade”.Configura-se a aquisição sempre que se torna possível o exercício de um dos poderes inerentes ao domínio. 2.7.1 TEORIAS EXPLICATIVAS A aquisição da posse envolve aspectos relativos à forma da pessoa chegar ao bem e de exercer um poder de dominação sobre o mesmo. Significa o ato físico que leva à posse da coisa. Na teoria subjetiva, a aquisição exige a presença de dois elementos, que são a apreensão da coisa e o animus sibi habendi ou a apreensão da coisa com a intenção de tê-la como sua. Pela teoria objetiva, basta a detenção ou a apreensão com vontade de exercer ou desenvolver o poder sobre a coisa, e de utilizá-la para auferir algum proveito. 2.7.2 ESPÉCIES DE AQUISIÇÃO No aspecto geral, há duas espécies: a) A originaria que se trata de uma posse unilateral, que se realiza pelo exercício de um poder de fato sobre uma coisa, no interesse de quem o exerce, sem a intervenção de outra pessoa. Não há transmissão nem a união de posses. O ato de investidura na posse corresponde a um ato de ocupação. Realiza-se e vai se consolidando a posse à medida que o agente procede em tudo como procederia o proprietário. b) A derivada, que pressupõe a translatividade, pela qual há um transmitente que perde a posse, e um adquirente que a adquire. Ela é bilateral. Explica Caio Mário da Silva Pereira: "O ato mais freqüente é a tradição, que se manifesta por um ato material de entrega da coisa. Para tal, não é necessária uma 'declaração de vontade' em sentido técnico, bastando a intenção de tradens e do accipiens convergindo no mesmo fim". a) Quanto ao ato de vontade Unilateral: apreensão: res nullius, quando for coisa de ninguém, ou res derelicta, quando for coisa abandonada; relativamente ao bens imóveis a apreensão se revela pela ocupação, pelo uso da coisa. exercício do direito. Adquire-se pelo exercício do direito a posse dos direitos reais sobre coisa alheia. Exemplo clássico é o da servidão. O art. 1.379 do C.C. proclama que “o exercício incontestado e contínuo de uma servidão aparente” pode, preenchidos os demais requisitos legais, conduzir à usucapião. Bilateral: É a posse por contrato (tradição). Na relação contratual, a tradição (entrega da coisa) pode acontecer de três maneiras: efetiva: ocorre a entrega da própria coisa na relação contratual; simbólica: não ocorre a entrega da coisa e, sim, da representação da mesma; constituto possessório: não ocorre a entrega efetiva da coisa e, sim, uma mera ficção. b) Quanto aos efeitos Originária: é aquela em que não existe relação de causalidade entre o possuidor atual e o possuidor anterior (ex.: esbulho). Derivada: é aquela em que existe o nexo de causalidade entre o possuidor atual e o possuidor anterior (ex.: com a morte do pai, a posse transmite-se ao filho). Os efeitos que decorrem dessa classificação são: Ninguém pode transmitir mais direitos do que tem, ou seja, a posse é transmitida com o mesmo caráter que ela possui (ex.: havendo posse precária, se transmitida, ainda será precária). Acessão da posse: é a soma do tempo da posse atual com o da posse anterior, na posse derivada. Jamais poderá acontecer na posse originária, tendo em vista que há necessidade de nexo de causalidade para que seja somado o tempo. 2.7.2. Aquisição a título universal É a aquisição do conjunto de bens e direitos do indivíduo. Só ocorre na hipótese de causa mortis, ou seja, não se transmite a universalidade de bens a não ser por herança. Essa transmissão se dá, sempre, pelo modo derivado. O bem nunca pode ficar sem um titular (Princípio da Saisine), ou seja, quando morre o titular do bem, esse bem será imediatamente transmitido para os seus herdeiros. 2.7.3. Aquisição a título singular Pode ocorrer inter vivos ou causa mortis (legado). A transmissão do legado pode se dar tanto pelo modo originário quanto pelo modo derivado, dependendo davontade do legatário (artigo 1.207 do Código Civil), ou seja, o legatário irá escolher se a transmissão se fará pelo modo derivado ou pelo modo originário. 2.7.4 PESSOAS HABILITADAS A ADQUIRIR A POSSE Segundo o art. 1.205 (Aquisição subjetiva da posse.) do Código Civil: "A posse pode ser adquirida: I - pela própria pessoa que a pretende ou por seu representante; II - por terceiro sem mandato, dependendo de ratificação". A posse considera-se adquirida desde o dia, não da ratificação, mas do ato da gestão, como ressoa o art. 873: "A ratificação pura e simples do dono do negocio retroage ao dia do começo da gestão, e produz todos os efeitos do mandato". Para adquirir a posse em favor de outrem, importa a presença do ânimo, ou da vontade, no representante, de adquirir a posse da coisa, ou do direito, para o representado. De igual modo, este deve ser imbuído da intenção de adquirir a posse por meio de terceiro, que somente detém a coisa. E se o apreensor adquirir a posse para si mesmo, ou para outrem, embora representante de determinada pessoa? Na hipótese, em se tratando de tradição, o que regula é a intenção do transmissor, e não a do representante que, infiel à sua missão, venha desvirtuar o destino da posse. Tal posse seria viciada e precária, não passando de simples detenção, ensejando o uso do interdito possessório. 2.8. Sujeitos 2.8.1. Parte É aquele que tem a relação material com a coisa. É o chamado titular. O incapaz, para adquirir posse, não precisa estar representado ou assistido, tendo em vista ser a posse uma relação material e não jurídica. O art. 1.205 do C.C. proclama quem pode adquirir a posse. 2.8.2. Procurador É aquele que recebe, numa relação contratual, o poder de exercer a posse em nome de outrem. 2.8.3. Gestor A gestão de negócios é um ato unilateral, ratificado pela parte. 2.9. Perda da Posse – art. 1.233 do C.C. Perde-se a posse por meio de três vias: perda do corpus, perda do animus, ou perda do corpus e do animus. 2.9.1. Perda do corpus Perde-se o corpus nas seguintes hipóteses: a) Perecimento O artigo 78 do Código Civil de 1916 informava as hipóteses de perecimento: perda das qualidades essenciais ou valor econômico (o valor econômico é fundamental, tendo em vista ser a diferenciação entre coisa e bem); quando se torna intangível ou inseparável de outro bem. b) Fora do comércio, portanto, inalienável Perde-se o corpus somente em relação a alguns efeitos decorrentes da posse. A coisa se tornou inalienável, ou é insuscetível de apropriação. c) Pela posse de outrem Perda da relação material com a coisa, ainda que a nova posse se tenha firmado contra a vontade do primitivo possuidor, se este não foi mantido ou reintegrado em tempo oportuno. 2.9.2. Perda do “animus” Perde-se o animus por meio do constituto possessório. Perde um título de posse e passa a ter outro. O constituto é modo de aquisição e perda da posse 2.9.3. Perda do “corpus” e do “animus” Perde-se o corpus e o animus pela tradição ou pelo abandono, tendo em vista que eles cessam os efeitos decorrentes da relação material com a coisa. Observação: Pelo disposto no artigo 1.209 do Código Civil, presume-se que o possuidor do bem imóvel é possuidor de todos os bens móveis que o compõe (presunção juris tantum), ou seja, ocorre a inversão da prova. Como decorrência disso temos um princípio no direito de família, qual seja: “Todos os bens móveis no casamento pertencem à comunhão”. Observação: O artigo 1.224 do Código Civil apresenta o princípio de aderência (direito de seqüela) dos bens móveis. Estabelece, no caso de perda ou de furto, o direito de seqüela, ou seja, o titular pode ir atrás do bem onde ele estiver. A doutrina entende, por meio do princípio da simetria do direito (aplicação de efeitos a institutos análogos), que esse artigo será estendido ao roubo, não podendo, entretanto, ser estendido ao estelionato e à apropriação indébita, tendo em vista, nesses dois casos, haver a entrega voluntária da coisa. Só haverá o direito de seqüela enquanto não houver a usucapião do objeto móvel. 2.10- Recuperação de coisas móveis e títulos ao portador O art. 521 do C.C. de 1.916 permitia a reivindicação de coisa móvel furtada, ou título ao portador, ainda que terceiro demonstrasse ser adquirente de boa-fé. O C.C. atual não contém dispositivo semelhante. O art. 907 do C.P.C. dispõe: “Aquele que tiver perdido título ao portador ou dele houver sido injustamente desapossado poderá: I- reivindicá-lo da pessoa que o detiver; II – requerer-lhe a anulação e substituição por outro”. Em relação a coisa móvel ou semovente, prevalecerá a regra geral, aplicável também ao imóveis (art. 1.228 do C.C.). A situação do terceiro que vem a adquirir um objeto que foi extraviado ou roubado é traçada pelo art. 1.268 do C.C. A doutrina e a jurisprudência têm entendido que o proprietário não pode reivindicar a coisa que esteja em poder de terceiro de boa-fé, nas hipóteses de estelionato ou apropriação indébita. A vítima poderá voltar-se contra o autor do ato ilícito, para exercer os seus eventuais direitos. 2.11- Perda da posse para o ausente – art. 1.224- trata da perda da posse por quem não presenciou o esbulho. A referida perda da posse é provisória, pois nada impede o esbulhado não presente de recorrer às ações possessórias. 2.12 Efeitos da Posse 2.10.1. Legítima defesa da posse A legítima defesa não se confunde com o desforço imediato. Este ocorre quando o possuidor, já tendo perdido a posse (esbulho), consegue reagir, e retomar a coisa. A primeira somente tem lugar enquanto a turbação perdurar, estando o possuidor na posse da coisa. O desforço imediato é praticado diante do atentado já consumado, mas ainda no calor dos acontecimentos. O possuidor tem de agir com suas próprias forças, embora possa ser auxiliado por amigos e empregados, pemitindo-se-lhe ainda, se, necessário, o emprego de armas. Também chamada de desforço físico, é a auto-tutela, em que o titular, usando meios moderados, repele turbação ou esbulho na posse. Os requisitos são os mesmos da legítima defesa no Direito Penal, tendo em vista não existir diferença entre a responsabilidade civil e a responsabilidade penal. São eles: uso dos meios necessários; moderação; ocorrência de injusta agressão; atual ou iminente; posse. Na hipótese de excesso na legítima defesa da posse, sendo doloso ou culposo, aplica-se o artigo 186 do Código Civil, gerando indenização, ou seja, o excesso não gera a perda da posse, mas sim uma indenização. 2.10.2. Acessórios da coisa São os frutos e as benfeitorias. Os frutos são melhoramentos internos da coisa, ou seja, aumento da qualidade ou quantidade interna da coisa. As benfeitorias são acréscimos externos da coisa, ou seja, aumento da qualidade ou quantidade externa da coisa. Os frutos podem ser: materiais: decorrem da natureza; industriais: decorrem da mão humana; legais: decorrem da lei. As benfeitorias podem ser: necessárias: aquelas indispensáveis à manutenção da coisa, ou seja, o acréscimo mantém o valor econômico da coisa; úteis: aquelas que aumentam a qualidade econômica da coisa por gerar maior utilidade; voluptuárias: aquelas que aumentam substancialmente o valor econômico da coisa para lhe garantir maior deleite. Existem três princípios que regem a matéria: o acessório segue o principal: quem possui o principal possui também o acessório; res perit domino: a coisa perece para o dono; princípio da boa-fé: existe a presunção de boa-fé; ou seja, no silêncio, presume-se a posse de boa-fé 2.10.3.Efeitos da posse de boa-fé a) Em relação aos frutos O possuidor de boa-fé terá direito aos frutos percebidos e colhidos, direito aos frutos pendentes, e direito à indenização pela produção e custeio (todos os aparatos da coisa). b) Em relação às benfeitorias O possuidor tem direito a indenização plena pelas benfeitorias necessárias, úteis e voluptuárias; direito de retenção pelas benfeitorias necessárias e úteis (poderá reter a coisa até que seja indenizado) e direito a levantar as benfeitorias voluptuárias se não houver indenização por elas. c) Em relação à deterioração Em tese, o possuidor é irresponsável pela deterioração natural. Tem responsabilidade subjetiva. 2.10.4. Efeitos da posse de má-fé a) Em relação aos frutos O possuidor de má-fé tem obrigação de devolução dos frutos percebidos e colhidos, perderá os frutos pendentes e tem o direito de ser indenizado pela produção e custeio (visa ao não enriquecimento indevido de terceiros). b) Em relação às benfeitorias O possuidor perderá as benfeitorias úteis e voluptuárias, terá direito à indenização pelas benfeitorias necessárias e não poderá reter a coisa, nem levantar, se não houver indenização por elas. c) Em relação à deterioração O possuidor de má-fé tem responsabilidade objetiva. Será responsável por qualquer perecimento, só podendo se eximir se demonstrar que a deterioração ou perecimento ocorreria em qualquer hipótese. Há a inversão do ônus da prova. 2.10.5. Prescrição aquisitiva (usucapião) É um efeito possessório. A passagem do tempo com uma relação de posse gera a propriedade. É a única em que o proprietário não tem publicidade, tendo em vista que a sentença do juiz, na usucapião, é meramente declaratória, não havendo registro. Nesse caso, a propriedade é adquirida com o decurso do tempo, independente de haver ou não registro. Existem dois sistemas regendo essa matéria: Constitucional: trata de imóvel. Trabalha com duas hipóteses: pro labore e pro misero. Ambas tem prazo de cinco anos. Legal (Código Civil): trata de móvel e imóvel. Trabalha com cinco hipóteses– nos móveis: extraordinário (5 anos) e ordinário (3 anos); nos imóveis: extraordinário (15 anos) e ordinário (10 ou 5 anos). Menciona ainda as duas modalidades constitucionais e usucapião coletivo (artigo 1228, § 4.º, do Código Civil). 2.6.5. Posse com título e sem título 2.6.7. Posse causal e posse formal