Prévia do material em texto
Capitalismo, espaço e tempo
Luiz Augusto Estrella Faria
As primeiras comunidades humanas não tinham qualquer preocupação com o espaço territorial apenas faziam uso deste, desde o surgimento do homem até o início das civilizações.
A partir da invenção da agricultura (primeiro evento econômico da humanidade), o espaço passou a ser incluído na vida social do homem, alterando, inclusive, a dimensão temporal.
A relação sociedade-tempo-espaço pode ser entendida através:
— dos fenômenos sociais que são irreversíveis e dependentes de outros fenômenos.
— da velocidade sempre crescente e distâncias no espaço cada vez maiores.
Harvey: argumenta no sentido da objetividade do espaço e do tempo, que teria padrões imutáveis, porém variam conforme a reprodução social em determinado período/lugar. Ou seja, um espaço e um tempo objetivos são resultados de um processo material, o qual, por sua vez, é reprodução da vida social.
Braudel: considera que o desenvolvimento da instituição do mercado foi determinante para transformar as dimensões de tempo e espaço no capitalismo. Antes do surgimento do capitalismo: acumulação de poder ligada à expansão territorial.
“O espaço social é submetido pelo capital quando a relação mercantil se sobrepõe às demais [...] quando sua vida é subordinada à lógica da mercadoria, quando a acumulação da riqueza abstrata é a fonte principal de poder, quando o fetiche da mercadoria envolve com seu véu todas as formas da existência social.”
O Capitalismo teve origem na Europa, nos séculos XV e XVI (final da Idade Média), e se expandiu para outros lugares do mundo (Ásia, África, Oceania), que estava sendo incorporada na economia mundial. Seus principais mecanismos foram sendo alterados para se adaptar às novas formas de relações políticas e econômicas estabelecidas entre as nações ao longo do tempo.
Gênese do capitalismo, segundo Marx:
1ª fase- acumulação primitiva: imposição da lógica da mercadoria à circulação da produção impulsionando a relação mercantil, graças ao domínio da moeda.
2ª fase- a que levou à Rev. Industrial: capital adentra a esfera da produção, apropriando-se dos meios de produção, utilizando o assalariamento no processo de criação do valor.
Braudel e Polanyi criticam a visão neoclássica da evolução espontânea do comércio internacional, que imagina a lógica da mercadoria como natural ao ser humano (feiras medievais → mercantilismo → entrepostos/portos/encruzilhadas → comércio de longa distância → formação dos mercados nacionais).
Para Polanyi não houve evolução natural do comércio, pois foi necessário uma força externa = poder político → monopólios.
Braudel, de argumentação semelhante, assevera que o comércio internacional não seria capaz de evoluir por si só, sem a aliança com o poder político (rei + burguesia = mercantilismo).
Por quê?
1) a centralização monárquica propiciou a regulação do comércio e a criação de uma legislação (em cada Estado nacional), desde a unificação de pesos e medidas até a formação de empresas estatais (WIC, por exemplo), criando condições para a expansão do comércio;
2) aliou-se às burguesias locais;
3) pôs fim aos monopólios, acabou com o protecionismo imposto pela nobreza feudal e por cidades protecionistas, desmantelando o comércio local individualista e conduzindo o sistema ao livre-comércio em escala internacional.
Mercantilismo → movimento predominantemente para dentro, o que leva (em um primeiro momento) à formação do mercado nacional e (em um segundo momento) à uma expansão para fora, ou seja, comércio internacional.
A Internalização do mecanismo de regulação pelo sistema econômico é que vai criar condições para a posterior expansão para fora, o que, por tabela, leva à ampliação das dimensões do ciclo econômico, aumento do fluxo de informações e a uma maior velocidade nos processos sociais e políticos.
É resultante desse movimento (capitalista) a circunstância de homens e mulheres que vivem este fim de século experimentarem, como nunca na história, uma sensação de encurtamento das distâncias geográficas e de aumento da velocidade das transformações sociais, políticas e econômicas. Usando uma figura de analogia com a física, David Harvey (1992)
No texto, encontramos dois conceitos, paralelos e complementares, que representam a evolução histórica como uma sucessão de ciclos, para Arrighi (1996) os "ciclos sistêmicos de acumulação" e para Harvey (1992) os "ciclos de compressão do espaço-tempo". Nesses dois conceitos, há uma idéia — mais explícita em Harvey, um geógrafo — que usa, dentre outros critérios, a mudança do significado do espaço — no sentido de sua ampliação — e do tempo — no sentido de seu encurtamento — como característica definidora dos diferentes estágios do desenvolvimento do capitalismo.
Espaço é entendido aqui como espaço econômico = Espaço territorial onde se desempenham atividades econômicas.
Primórdios do comércio: a busca por mercadorias fora do seu espaço ocorria em virtude da necessidade de se buscar aquilo que não podia ser produzido internamente.
fatores que levaram à expansão do espaço econômico:
evolução técnica;
desenvolvimento dos transportes e comunicações;
aumento do poder político.
Braudel – analisa a trajetória da evolução das relações mercantis e sua relação com a ampliação do espaço, onde mercados locais vai desaparecendo, considerando o desenvolvimento dos transportes e das comunicações em tal processo.
Podemos entender a evolução proposta por Braudel da seguinte forma:
→ Mercado local (unidade econômica = burgo; monopólio dos comerciantes locais e obediência ao poder político local = nobreza feudal)
→ Mercados regionais (unidade econômica = cidade mercantil; sistema hierarquizado de cidades; monopólio da burguesia das cidades dominantes)
→ Mercados nacionais (unidade econômica = Estado moderno; destruição dos monopólicos locais/regionais através da centralização/unificação do poder em Estados que não tinham cidades comerciantes importantes = Reino Unido, França, Portugal, Espanha, por exemplo).
Formação dos mercados nacionais:
1º Nível: continuidade da circulação mercantil da produção em um sistema articulado com seus diferentes setores;
2º Nível: unidade fiscal (baseada na circulação da produção);
3º Nível: unidade monetária (facilita a ação da lei do valor, o fluxo comercial e a cobrança de tributos).
Arrighi – analisa o desenvolvimento da relação mercantil com a ampliação do espaço, argumentando que no capitalismo o poder emana da acumulação da riqueza abstrata, não apenas do controle político de um povo/território, distinguindo, assim, a lógica de poder do “capitalismo” da do “territorialismo”.
“Os governantes territorialistas identificam o poder com a extensão e a densidade populacional de seus domínios, concebendo a riqueza/o capital como um meio [...] da busca pela expansão territorial. Os governantes capitalistas [...] identificam o poder com a extensão de seu controle sobre os recursos escassos e consideram as aquisições territoriais um [...] subproduto da acumulação de capital”.
(ARRIGHI, 1994, p. 33)
O Tempo - é uma grandeza endógena ao sistema econômico com tamanho e velocidade determinados pelo próprio sistema.
Arrighi → Ciclos Sistêmicos de Acumulação: os “séculos longos” são acelerados e duram cada vez menos; há um período de expansão e um de crise; a crise é o momento da mudança da hegemonia econômica; concentra sua teoria na ordem mundial.
- crise sinalizadora: crise que inicia um período de transição.
crise terminal: crise que encerra o período de transição, logo, inicia uma nova fase do capitalismo.
Exemplo: a crise de 1929 foi
sinalizadora para o surgimento
do Fordismo e terminal para
os posteriores (pós-fordismo,
toyotismo, etc).
Braudel → Teoria da Regulação: prioriza os sistemas econômicos nacionais, argumentando que semelhançasocorrem entre o desenvolvimento de certos países pelo simples fato de terem características internas parecidas, graças à proximidade de seus níveis de amadurecimento (exemplo: EUA e Europa durante o Fordismo; o processo de industrialização dos paíse latino-americanos etc).
O tempo é representado como uma variável a mais, cuja ordem de grandeza influencia os resultados de seus modelos explicativos. A crítica mais difundida, aquela de algumas das correntes inspiradas por Keynes, adjetiva o tempo ("histórico" por oposição ao tempo "lógico" dos marginalistas), mas não consegue dar conta do efeito mais importante que sua passagem pode ter sobre o sistema econômico, sua transformação.
A aproximação dos homens de ciência a seu objeto em geral começa com a tarefa de classificar e medir. Na abordagem histórica, essa tarefa se traduz no exercício da periodização; é dessa forma que se apropria o tempo, que se compreendem as transformações do capitalismo e se caracterizam seus diferentes estágios evolutivos, as idades de sua vida.
A periodização feita pelo autor da história do capitalismo é representada por quatro séculos longos e quatro ciclos sistêmicos de acumulação, assim descritos:
- O século XV-XVI longo, de 1340 a 1630, ao qual corresponde o ciclo sistêmico de acumulação genovês, época da expansão comercial marítima da Europa, e que tem a peculiaridade da não contar com a hegemonia de um Estado nacional, pois a "nação" genovesa era uma rede de interesses comerciais e financeiros de origem italiana ligando as principais cidades Européias;
o século XVII longo, do ciclo sistêmico holandês, que vai de 1560 a 1780, onde há a hegemonia econômica dos Países Baixos, que se afirma na disputa com a liderança territorialista da Espanha, período de expansão do mercantilismo e da colonização européia;
- o século XIX longo, onde vigeu o ciclo sistêmico de acumulação britânico, o primeiro em que o Estado hegemônico reunia as duas lógicas de expansão, a capitalista e a territorialista, perdurando de 1740 a 1930, etapa em que o colonialismo vai se transformar em imperialismo e em que o padrão industrial inglês é o dominante (corresponde ao regime da acumulação extensiva dos regulacionistas);
- ê, por fim, o século XX longo, da hegemonia norte-americana, iniciado em 1870 e ainda inconcluso, em que padrão manufatureiro norte-americano e o fordismo se difundem em todo o mundo (corresponde à acumulação intensiva dos regulacionistas).
Ao mesmo tempo em que se produz a aceleração do tempo, a expansão capitalista produz também uma ampliação do espaço, na medida em que a lógica expansionista da acumulação se concretiza num movimento de penetrar todas as esferas da vida social que se lhe apresentem por diante, sem se deter diante de quaisquer fronteiras, sejam políticas, culturais ou geográficas.