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Universidade Federal Fluminense Disciplina: Bacteriologia IV Turma: F2- Farmácia Professores: Aloysio Cerqueira e Júlia Peixoto Grupo 5 - Larissa Machado e Lorena Lopes Bacillus cereus e Bacillus anthracis O gênero Bacillus compreende mais de 50 espécies, entre elas o Bacillus anthracis e Bacillus cereus. Um achado recente refere-se à semelhança existente entre essas duas espécies, de modo que essas duas bactérias (incluindo o B. thuringiensis) pertencem a uma única espécie, embora sejam extremamente diferentes em suas características fenotípicas e efeitos patológicos também amplamente distintos. O Bacillus anthracis é um patógeno humano e animal, que foi o primeiro microorganismo conclusivamente relacionado a uma doença, conhecido desde 1887 descrito por Koch como agente do antraz ou carbúnculo [1]. É considerado também como agente patológico em potencial a ser utilizado como arma em Bioterrorismo devido à sua alta toxicidade. Através de sua inalação há uma taxa de 100% de mortalidade (se não houver tratamento imediato). O Bacillus cereus é uma bactéria presente no solo, um patógeno oportunista que tem sido responsabilizado por casos de intoxicação alimentar em diferentes países. Duas formas de intoxicação são conhecidas, sendo a primeira caracterizada pela manifestação por vômitos (forma emética) e outra por diarréia (forma diarréica). Os alimentos mais comumente implicados são o arroz, carne e vegetais. [3] 1) Citologia bacteriana: O gênero Bacillus é constituído por bactérias Gram-positivas. Apresentam esporos que podem ser pequenos e estar contidos dentro da célula bacteriana ou podem ser largos e protuberantes, excedendo o tamanho da célula.[3] As diferenças previamente mencionadas entre o B. cereus e B. anthracis são mediadas por plasmídeos específicos. Do ponto de vista evolutivo, pode-se entender essa diversificação como uma simples aquisição de diferentes tipos de plasmídeos pela mesma espécie da bactéria, podendo ser transferido por conjugação. [1] O Bacillus anthracis tem uma aparência de “galho de bambu” pela ocorrência típica em cadeias longas. Cepas virulentas podem apresentar cápsulas. Os esporos são ovais, localizados central e sub terminalmente, com longas cadeias serpentinas [3]. É portador de uma cápsula, que ao contrário das cápsulas de outras bactérias Gram-positivas, é composta de ácido glutâmico, cuja principal função é impedir a fagocitose da bactéria [1]. O Bacillus cereus possui formato de bastonetes de grandes dimensões, comumente móveis, formam esporos e são capazes de produzir toxinas. As duas espécies B. thuringiensis e B. cereus constituem os “parentes” mais próximos de B. anthracis. B. thuringiensis é uma fonte bastante eficaz de toxinas inseticidas, normalmente na forma de preparações contendo esporos de toxinas de proteínas de cristal que são espalhadas de aviões nos campos de agricultura. [2] 2) Fisiologia bacteriana: Metabolismo, Nutrição, Crescimento e Esporulação O Bacillus cereus e Bacillus anthracis são aeróbios ou anaeróbios facultativos, ou seja, eles podem realizar respiração anaeróbica na ausência de O2, porém quando há O2 presente no meio elas irão realizar respiração aeróbica, pois esse tipo de respiração gera mais energia e irá favorecer seu maior crescimento. A característica mais marcante desse gênero é a esporulação. As células vegetativas, em certas condições (na maioria das vezes não favoráveis), iniciam um ciclo de esporulação particular, onde os esporos formados não apresentam atividade metabólica e possuem alta resistência ao ambiente. Apesar dos bastonetes dos Bacillus serem normalmente saprófitos e não patogênicos ao homem e animais, os da espécie de Bacillus anthracis possui patogênico. Quase todas as espécies de Bacillus são móveis, com exceção da mais virulenta Bacillus anthracis. [1] Bacillus cereus detém a capacidade de crescer em temperaturas relativamente baixas (em torno de 5ºC) e capacidade de germinação em altas temperaturas (cerca de 50ºC), mas dependendo de sua condição, como por exemplo a forma esporulada, esta variação de temperatura pode ser ainda superior, sendo tipicamente mesófila. Os esporos do B. cerus lhe conferem resistência a altas temperaturas, secagem, alguns sanitizantes químicos e radiações UV, além de contribuir para os processos de adesão em superfícies (KOTIRANTA et al,2000). As reações bioquímicas importantes de B.cereus incluem: glicose(+), maltose (+), salicina(+), motilidade(+), produção de �-hemólise, xilose (-), manitol(-), lactose(-) e lecitinase(+). [1] O Bacillus anthracis é uma bactéria Gram positiva, esporogênica. A esporulação se caracteriza por esporos de tamanho entre 1 e 1,5 µm de largura por 3 a 10 µm de comprimento, com resistência à desidratação, radiação UV, calor, e também a diversos desinfetantes. Os esporos podem se manter estáveis no solo por muitos anos e alguns fatores podem vir a reativar o foco de antraz no solo como tempestades, inundações, terremotos e também através do próprio homem manipulando o solo para cultivo da agricultura 3) Princípios da genética bacteriana e Transferência horizontal de genes: A partir das diferenças entre os fenótipos, é evidenciado através de eletroforese de enzimas multilocus e por análise de sequência de nove genes cromossômicos que B. anthracis deve ser considerada uma linhagem de B. cereus [2]. Essa determinação não se dá somente no que diz respeito à taxonomia, mas também pode ter consequências em relação à virulência e ao potencial de transferência horizontal dentro do grupo de Bacillus cereus. Foi observado em alguns estudos que determinantes genéticos de patogenicidade podem ser transferidos entre as espécies de Bacillus cereus, especialmente através da transferência horizontal de genes. O genoma de B. anthracis é composto por 2 plasmídeos, o pXO1 e pXO2 e um cromossomo. 3 genes estruturais das proteínas da toxina estão em locais diferentes no pXO1, e os genes biossintéticos para a síntese e despolarização de cápsulas estão dispostos em um operon aparente na pXO2. Alguns outros genes que podem exercer papel importante na virulência incluem o operon de germinação gerX e o fator geral de transcrição de estresse sigB. Temperatura (37 ° C) e bicarbonato / CO 2 são sinais do hospedeiro que acometem a transcrição dos genes da toxina e da cápsula. Os plasmídeos de B. anthracis possuem 2 genes reguladores que compartilham pouca semelhança de sequência com reguladores de outras bactérias. O gene codificado por pXO1 atxA controla positivamente a expressão dos genes da toxina e da cápsula e foi relacionado ao controle de outros genes de função desconhecida. A manipulação de genes de B. anthracis pode ser alcançada através da utilização de meios naturais de transferência de DNA e por eletroporação de DNA recombinante em B. anthracis. É possível a troca de genes entre cepas de B. anthracis e entre B. anthracise, espécies intimamente relacionadas. [5] 4) Mecanismode ação e Resistência bacteriana a drogas: A presença de cápsula, produção de endotoxinas e capacidade das bactérias atingirem altas concentrações microbianas em hospedeiros infectados. A cápsula permite que as bactérias vegetativas escapem da fagocitose por células hospedeiras. As duas toxinas são a toxina letal e toxina edematogênica, que são binárias. A virulência do B. anthracis parece ser totalmente codificada por genes plasmidiais. As amostras virulentas transportam dois plasmídios de alto peso molecular, um contendo os genes que codificam as toxinas (pOX1) e outro os genes que codificam a cápsula (pOX2). Os dois plasmídeos contêm também genes reguladores específicos e outros não específicos. O plasmídio pXO1 é regulado por CO2 [1]. Durante um experimento de diferenciação por exemplo, se esses plasmídeos forem perdidos, B. thuringiensis não poderá mais ser distinguido de B. cereus . O que os diferencia funcionalmente são principalmente genes transportados em plasmídeos. Em vista de sua competência natural, a disseminação horizontal de plasmídeos pode ocorrer. O que pode parecer um problema menor de taxonomia pode, portanto, ter sérias implicações para virulência e patogenicidade. O ácido poli-glutâmico da cápsula de Bacillus anthracis é codificado por três genes situados no plasmídeo pXO2. É muito significante como fator de virulência já que linhagens que não possuem cápsula não são virulentas devido ao fato das três enzimas codificadas por esses três genes estarem relacionadas à membrana celular. Outras espécies de Bacillus não produzem cápsula. Apesar de plasmídeos similares ao plasmídeo pXO1 também tenham sido localizados em cerca de 50% de um conjunto de 19 outros membros do grupo Bacillus cereus em experimentos de hibridização, somente alguns genes pXO2 foram capazes de hibridizar com DNA genômico das 19 linhagens de integrantes da espécie Bacillus cereus. A resistência do B. cerus está associada a sua estrutura morfológica, possuindo uma região central onde estão elementos genéticos, junto com enzimas necessárias a germinação e crescimento inicial do esporo, sendo essa estrutura protegida do ambiente externo de dentro para fora por: córtex, membrana interna, uma cobertura interna e uma externa. Essa resistência fisiológica associada à habilidade de produzir várias enzimas que degradam diversos substratos orgânicos possibilita que esta bactéria esteja amplamente distribuída no meio ambiente (BLACKBURN & MCCLURE, 2000; FRANCO & LANGRAF 2002). A presença dos genes codificadores dos fatores de virulência Hemolisinas (hly II e hly III), Fosfolipases (piplc) e Cereolisinas A (pcpl) e B (sph) em bactérias do grupo do B. cereus pode ser avaliada através de reações de PCR descritas por Hansen, 1998. 5) Interações entre agentes infecciosos e seus hospedeiros: Microbiota normal B. anthracis produz duas toxinas, uma denominada toxina letal (LeTx) e outra, toxina edemaciante (EdTx) que são toxinas do mesmo tipo AB. A LeTx é uma toxina responsável pelo choque e pela morte dos pacientes com antraz sistêmico, provavelmente devido a sua interação com os macrófagos do organismo, que resulta na indução IL-1, TNF e lise destas células. A parte tóxica de LeTx, também conhecida como fator letal (LF), é metaloprotease que cliva vários tipos de peptídeos, inclusive cinases que ativam a transdução de sinal. A inibição desse sistema deve ser importante na patogênese do antraz, mas não explica a grande sensibilidade do macrófago a essa toxina. Já a EdTx, por sua vez, é responsável pelo edema do antraz. Sua parte ativa, também conhecida como fato edemaciante (EF), é uma adenil-ciclase, ativada pela calmodulina. O AMPc formado pela ação de EF é a substância responsável pelo acúmulo de líquido nas células e tecidos [1]. Bacillus cereus produz muitas exotoxinas que são responsáveis pela doença e grande parte do quadro de manifestações clínicas provocadas por essa espécie. As patogenias se manifestam por síndrome diarreica e síndrome emética. A síndrome diarreica é provocada por células vegetativas ingeridas como células viáveis ou esporos e é caracterizada como uma intoxicação alimentar. Esses esporos produzem enterotoxinas proteicas termolábeis (como hemolisina BL, enterotoxina não hemolítica e a citotoxina K) no intestino delgado quando o indivíduo come alimentos contaminados como carne bovina, molho, pudins, leite, etc. Normalmente os primeiros sintomas (dores abdominais, diarreia aquosa ou sanguinolenta, náuseas e vômito) aparecem após 12 horas da ingestão dos alimentos contaminados, com período de incubação entre 8 e 16 horas. A síndrome emética é considerada também como intoxicação alimentar, provocada por cereulida (uma toxina pré-formada no alimento). Cereulida é um polipeptídeo termoestável produzido por uma enzima sintetase de peptídeo não ribossômico codificada no gene ces. Ela se liga a receptores no nervo vago aferente, e justamente por isso induz o quadro clínico mencionado. Por conta dessa estimulação há a inibição da oxidação de ácidos graxos pelas mitocôndrias hepáticas, provocando lesões reversíveis nas células do fígado. o (Agata et al., 1996). Os sintomas podem começar 2 horas após a ingestão de alimentos contaminados, entre eles pode-se citar: vômitos, náuseas (seguidos ou não por diarréia). O período de incubação é bem curto, entre 30 minutos e 6h. Bacillus cereus pode provocar além de intoxicações alimentares, algumas infecções sistêmicas e locais como meningite, septicemia, pneumonia, endocardite e infecções necrosantes (Granum, 1994; Bottone, 2010). Essas porém são bem menos frequentes e normalmente estão associadas às hemolisinas, cereolisinas e fosfolipases que são produzidas pela bactéria. Algumas enzimas (proteases, fosfolipases, lecitinases, amilases, colagenases e lipases) podem exercer função importante na virulência e na deterioração de gêneros alimentícios distintos (Bottone, 2010).1 6) Bibliografia: [1] Luiz B. TRABULSI e Flávio ALTERTHUM. Microbiologia. 5 ed. Atheneu, p 247- 250, 2009 [2] HELGASON,Erlendur; OKSTAD, Ole Andreas; A, Dominique; JOHANSEN Henning; FOUET, Agnes; MOCK, Michéle; HEGNA, Ida e KOLSTO, Anne-Brit. Appl Environ Microbiol. Junho de 2000. “ Bacillus anthracis, Bacillus cereus, and Bacillus thuringiensis—One Species on the Basis of Genetic Evidence”. Acesso em: 05/09/2019 às 22:18. [3] Carlos H. SILVA e Paulo M. NEUFELD. Bacteriologia e Micologia - Para o laboratório clínico.Revinter, p 294-296, 2006 [4] Gerard J. TORTORA Berdell R. FUNKE Christine. Microbiologia. 8 ed Artmed. p 719-720 [5] KOEHLER, T.M. “Genética de Bacillus anthracis e regulação de genes de virulência” p. 143-164 Fotomicrografia de Bacillus anthracis de uma cultura de ágar demonstrando esporos; Mancha de esporos de azul de fucsina-metileno.