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INTELECTUAIS E SUAS REFLEXÕES E INFLUÊNCIAS NO PPP E CURRÍCULO Professoras: Pós-Doutora Terezinha Oliveira Mestre Patrícia Rodrigues da Silva Diretoria Operacional de Ensino Kátia Coelho Diretoria de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Pinelli Head de Planejamento de Ensino Camilla Cocchia Gerência de Produção de Conteúdos Gabriel Araújo Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo Supervisão de Projetos Especiais Daniel F. Hey Projeto Gráfico Thayla Guimarães Design Educacional Rossana Costa Giani Design Gráfico Thayla Guimarães Ilustração Thayla Guimarães DIREÇÃO Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 - Jardim Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná | unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; OLIVEIRA, Terezinha; SILVA, Patrícia Rodrigues da; Planejamento e Organização Curricular do Ensino. Terezinha Oliveira; Patrícia Rodrigues da Silva; Maringá-Pr.: UniCesumar, 2017. 36 p. “Pós-graduação Universo - EaD”. 1. Planejamento. 2. Organização Curricular. 3. EaD. I. Título. CDD - 22 ed. 379 CIP - NBR 12899 - AACR/2 01 02 03 04 sumário 09| PPP E CURRÍCULO: REFLEXÕES SOB A LENTE DA EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA 13| CONCEPÇÕES DOS INTELECTUAIS EM RELAÇÃO ÀS LEIS DA EDUCAÇÃO 17| O EIXO UNIVERSIDADE- SOCIEDADE 21| PERSPECTIVAS DE AVALIAÇÃO PARA AS REFORMAS NO ENSINO SUPERIOR OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM • Conjecturar sobre a materialização do PPP por meio Currículo. • Conhecer algumas das concepções de intelectuais em relação às leis da Educação. • Refletir sobre o PPP e Currículo mediante a nova realidade da sociedade brasileira que apregoa a inclusão social e o desenvolvimento de uma escola cidadã. • Considerar as diferenças existentes entre os autores que debatem as refor- mas no Ensino Superior. PLANO DE ESTUDO A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • PPP e Currículo: reflexões sob a lente da educação contemporânea • Concepções dos intelectuais em relação às leis da Educação • O eixo Universidade-Sociedade • Perspectivas de avaliação para as reformas no Ensino Superior INTELECTUAIS E SUAS REFLEXÕES E INFLUÊNCIAS NO PPP E CURRÍCULO INTRODUÇÃO Caro(a) acadêmico(a) leitor(a), é com grande satisfação que o(a) convido a refletir sobre alguns dos debates que norteiam as propostas educacionais para o Brasil nas duas últimas décadas. É preciso considerar que os(as) autores(as) que povoam nosso discurso neste momento se posicionam de forma muito clara acerca da educação nacional. Eles(as) promulgam a necessidade de uma educação inclusiva, que considere as diferenças de culturas, de etnias e de saberes. Ao longo do nosso diálogo com os autores(as), procuramos evidenciar que todos(as), indistintamente, associam o ensino às condi- ções gerais do capitalismo nacional e mundial. Veremos ainda que realidade global interfere diretamente na construção do PPP e do Currículo. Portanto, quanto mais inteirados da realidade social estiverem os atores que elaboram o PPP e o currículo, maior será a possibilidade de diálogo entre o Projeto e os conteúdos a serem ensinados. A intenção foi explicitar que a formação da pessoa cidadã somente será materia- lizada mediante este tripé: a conscientização do contexto social por parte dos atores do PPP, interação entre o Projeto e o Currículo e a formação de cidadãos. Pós-Universo 7 Também serão propostas reflexões sobre a relação Universidade-sociedade, partindo do pressuposto de que este seja um caminho para desenvolvimento do cidadão, uma vez que a universidade é uma instituição social, construída, tal como as leis, pelos homens e responde aos anseios e às necessidades das pessoas Você conhecerá olhares de intelectuais brasileiros que refletem sobre as reformas educativas das duas últimas décadas e vinculamos essas formulações à construção do PPP e do currículo. Analisaremos também a importância do conhecimento e apli- cação das leis para a elaboração do Projeto pedagógico e do Currículo. Que esta leitura lhe abra horizontes para novas perspectivas! Pós-Universo 8 Pós-Universo 9 PPP E CURRÍCULO: REFLEXÕES SOB A LENTE DA EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA Debater o Projeto Político Pedagógico (PPP) e a sua materialização no currículo exige daquele que se dispõe a levar adiante essa tarefa uma reflexão acerca do cenário educacional brasileiro, no seu sentido mais global. Não é possível pensar o PPP e o currículo, sem considerar as condições em que se encontra o ensino nos seus diferentes níveis, uma vez que o Projeto Político Pedagógico e o currículo são, efetivamente, os elementos formadores do sujeito estudante. Materialização do PPP e alinhamento com o Currículo A nosso ver, a associação entre o nível de formação do indivíduo e o desenvolvimen- to socioeconômico de um país está evidente para os governantes, seja na esfera nacional, seja na esfera estadual e municipal, pois, as medidas políticas tomadas na última década apontam para essas metas. Todavia, a indagação que fica é: por que essas metas não estão sendo atingidas? Do nosso ponto de vista, uma das razões - e certamente não é a única respos- ta – está na cisão existente entre o Projeto Político Pedagógico e o Currículo. Há um projeto teórico elaborado que visa à formação de cidadãos, que busca produzir pessoas livres e imbuídas de espírito democrático. Isso tudo está no PPP, mas a pessoa que sai da escola e da universidade (as avaliações evidenciam isso) não tem forma- ção necessária para materializar o PPP, ou seja, para exercer as funções do cidadão. Uma das hipóteses que suscitam para esse cenário de crise na educação nacio- nal e não materialização do PPP, além do baixo salário, da ausência de valorização Pós-Universo 10 do professor na sociedade brasileira, a baixa autoestima, a precarização do trabalho nas escolas, a violência, é a formação docente. As reflexões que temos realizado, seguindo as pegadas de intelectuais da edu- cação nacional e de leituras de obras clássicas, permitem-nos depreender que há, de fato, grandes lacunas na formação docente e estas geram certa dificuldade em definir os papéis de “professor” e de ‘conhecimento’. Essa dificuldade conduz, neces- sariamente, o docente a não saber o que fazer com o conteúdo que está ensinando: afinal, por que o aluno tem que saber fazer análise sintática, raiz quadrada, ou, ainda, as correntes literárias e artísticas? Por não saber a finalidade do conteúdo, portanto, pelo fato do currículo estar dis- sociado do PPP, esse conteúdo torna-se uma fração desvinculada do SER pessoa a ser formado. A cisão entre os objetivos e a finalidade do ensino é tão prejudicial que conduz as sociedades a crises na democracia e, em casos mais acentuados, a ausên- cia de sentido de pertença e de percepção de bem comum, que é a base e essência de qualquer coletividade/cidade. Salientamos que a associação entre o objetivo e a finalidade do conhecimento precisa ser definida e praticada pelo professor, já que este é o elo que permitirá ao docente vincular o PPP ao conhecimento a ser ensinado por meio do currículo. Na elaboração do Projeto Político e no ensino dos conteúdos curriculares, é ne- cessário que estejam claras a intenção e a finalidade da docência, do conhecimento: a formação de indivíduos conscientes.A ideia que deve prevalecer como “o” objetivo do ensino é o de tornar as pessoas conscientes de seus papéis sociais, responsáveis pelos seus, mas acima de tudo, o professor deve saber que seu aluno se transforma- rá, no âmbito da sociedade e da ciência, no que ele [professor] for capaz de formar. A ideia mestra, que deve nortear o PPP, é a de que todos os alunos são capazes de aprender, já que os seres humanos nascem ‘ignorantes’ [desco- nhecendo tudo o que existe na sociedade], mas são capazes de aprender tudo o que lhes for ensinado. Fonte: a autora. reflita Pós-Universo 11 Quando nos atentamos à características da educação nacional, índices de de- sempenho, avaliações e outros dados estatísticos que assolam o cenário brasileiro da última década, a evidência do que consideramos como a finalidade da educação em uma sociedade é ressaltada, enquanto a de formar SERES capazes de lutarem pela liberdade, capazes de discernir atitudes lícitas das ilícitas e, acima de tudo, ci- dadãos éticos. Em virtude desses dados e da definição de nosso entendimento de educação, acreditamos que não podemos descuidar da formação de nossos estudantes e pre- cisamos, também, estar atentos e comprometidos com a formação dos professores. Com efeito, o Projeto Político não é apenas um roteiro pedagógico, é uma intenção formativa, é, antes de tudo, um plano com um determinado objetivo. “ Literalmente, planejar significa submeter uma dada realidade a um plano. Planejamento, portanto, define-se como um processo de controle, já que ele dirige e determina as ações de uma pessoa, em busca de um objetivo determinado. Por essa razão podemos concebê-lo como um processo de tomada, execução e teste de decisões, decisões essas que estão, por assim dizer <<cristalizadas>> em um plano. O plano ou programa é, nesse sentido, o instrumento do planejamento (GOLDBERG, 1973, p. 3). Seguindo as pegadas da professora Goldberg, observamos que não é possível formar as pessoas nas instituições educacionais se não houver um planejamento que aponte os objetivos e a finalidade da formação. Ilma da Veiga, algumas décadas após o texto de Goldberg, evidencia e relaciona o PPP não somente à ideia de plano, mas efetiva- mente o associa à formação ampla da pessoa. Pós-Universo 12 “ A consolidação da educação básica e superior como componente da educa- ção escolar e como direito de todos os cidadãos é um objetivo não somente do Governo mas de toda a sociedade brasileira. Portanto, além de garantir as condições de acesso e permanência de crianças, jovens e adultos nesses componentes educacionais, é preciso construir um projeto político-peda- gógico de educação básica e superior de qualidade, comprometido com as múltiplas necessidades sociais e culturais da população. Falar em inova- ção e projeto político-pedagógico tem sentido se não esquecermos qual é a preocupação fundamental que enfrenta o sistema educativo: melhorar a qualidade da educação pública para que todos aprendam mais e melhor. Essa preocupação se expressa muito bem na tríplice finalidade da educação em função da pessoa, da cidadania e do trabalho. Desenvolver o educando, prepará-lo para o exercício da cidadania e do trabalho significa a construção de um sujeito que domine conhecimentos, dotado de atitudes necessárias para fazer parte de um sistema político, para participar dos processos de pro- dução da sobrevivência e para desenvolver- se pessoal e socialmente (VEIGA, 2003, p. 268) De acordo com a autora, é fundamental que o PPP tenha como foco a formação tripla da pessoa. Para ela, o projeto deve assegurar, por meio do conhecimento, que a criança, o adolescente e o jovem aprendam a ser pessoas, a ser cidadãos e tenham condições de se inserir na sociedade e no mundo do trabalho. Em suma, o PPP e o currículo devem propiciar a formação e a inserção do(a) edu- cando(a) na sociedade como ator (saiba seu lugar nas relações sociais que o medeiam), partícipe (saiba participar e pensar no bem comum) e sujeito (saiba que suas ações devem ser conduzidas por sua vontade e ter consciência de seus atos). Vemos assim, que o PPP é construído e materializado no currículo, ou seja, os con- teúdos da matriz curricular devem objetivar a formação da cidadania, da diversidade e da democracia, condições essenciais para aceitação do outro. Por meio do conhe- cimento, conquistaremos habilidades para nos inserirmos no trabalho, mas também é inegável que ele pode nos tornar SERES melhores, menos arrogantes, mais toleran- tes, mais democráticos, conhecedores e praticantes de atos éticos e lícitos. Pós-Universo 13 CONCEPÇÕES DOS INTELECTUAIS EM RELAÇÃO ÀS LEIS DA EDUCAÇÃO No que diz respeito às leis que regulam e norteiam a educação superior no Brasil, des- taca-se que elas refletem as relações sociais vigentes. Por conseguinte, não podemos imputar a elas uma autonomia que não possuem, posto que são elaboradas por homens e para os homens. Sob esse aspecto, não se pode julgar as leis que regulam o sistema de ensino na- cional fora desse universo social que compõe o todo da realidade brasileira; também não se pode ver na lei a expressão da vontade de um único segmento da socieda- de, do mesmo modo que não se pode vê-la como a expressão de todo o bem social. Ao contrário, as leis espelham os conflitos, as contradições e os de sua elaboração e promulgação. Projeto Político Pedagógico – medidas que regulam a realidade do ensino Quando se analisa o Projeto Político Pedagógico de um curso ou de uma escola, pre- cisamos considerá-lo como um conjunto de medidas que regula o todo da realidade do ensino. Não é, portanto, outra coisa senão a lei que rege, planeja, organiza, dirige o curso, a escola ou a instituição. Pós-Universo 14 “ Uma lei, quando discutida, põe em campo um embate de forças e traz, por- tanto, consigo uma série de expectativas e até mesmo de esperanças válidas para todos os sujeitos interessados. Se aprovada, gera adesão imediata nos que apostaram em tais expectativas. Para os que não apostaram nestas, resta o caminho de uma crítica que se ofereça como alternativa criadora sob a qual está posta a possibilidade de uma mudança para o futuro a partir do presente. Em ambos os casos, o caminho, por sinal íngreme, se inicia com o estudo minucioso do (inter) texto da lei. Uma lei, quando aprovada, tem um “poder fático”. Ela é um fato que se impõe, pela democracia representativa, em um Estado democrático de direito. Nessa medida, ela institui-se como um campo de referência, de significação e de obrigação (CURY, 1998, p. 73). As palavras de Cury evidenciam os embates travados no interior da sociedade. Elas nos mostram que, em geral, como os homens, no seio de suas relações, possuem diferentes concepções e posicionamentos, dirigidos por seus interesses e posição política, a lei, na maioria das vezes, não apresenta a vontade de todos, mas de uma maioria que dirigiu e a referendou. Em decorrência disso, pelo fato de a lei não expressar os interesses de todos, sempre que uma lei é aprovada, é preciso, para que se a compreenda, analisar os fios que a teceram, os bastidores do debate, quem ou quais interesses ela contemplou, quem ela calou, quem ficou ausente ou à margem da lei. Somente após essa análise minuciosa do código é que podemos entender a sua dinâmica. De todo modo, algo é inegável: quando uma proposta torna-se lei, ela é um fato e precisa ser cumprida. Ainda que sejam feitas fortes críticas a ela e a sua funcionalidade, as mudanças que poderão ocorrer na lei, fruto do descontentamen- to que ela gerou, só ocorrerão no futuro, pois ela tem, como o autor afirma, ‘poder fático’: é lei. Somente no futuro, após sua aplicabilidade cotidiana, os autores que teceram seus fiosou aqueles que a rechaçar poderão alterá-la. Por isso, a mudança em uma lei é uma proposta para o futuro. Essa é a realidade das leis da educação, principalmente a nova LDB/1996. Todavia, as leis da educação, diferentemente das leis gerais, como a Carta Constitucional de 1988 e o sistema jurídico, por exemplo, atingem a comunidade educacional. Portanto, é no seio dessa comunidade que elas são especialmente debatidas. Pós-Universo 15 “ Entretanto, a possibilidade de uma lei de educação “pegar” é diretamente proporcional ao grau de conformação (aceitação sem adesão) e de adesão (aceitação assentida) dado pelo corpo docente. Essa conformação e adesão não será possível sem uma disposição de diálogo entre as autoridades edu- cacionais, as autoridades pedagógicas, comunidade científica e comunidade docente. Diálogo exige cuidado. Cuidado provém de cogitar e (pensar), que é pensar com zelo ante uma situação que exige cautela. A responsabilidade pela implementação de uma lei exige tudo isso e, em uma expressão, pode ser resumida em corresponsabilidade civil e responsabilização estatal (CURY, 1998, p. 79). Para o autor, a possibilidade das leis educacionais se materializam de forma frutífera dependerá, em última instância, da aceitação das pessoas envolvidas com a educa- ção em seus mais diferentes níveis. De acordo com Jamil Cury, para a lei ‘pegar’, é preciso que a comunidade edu- cacional aceite a lei, assumindo-a, ao que ele chama de aceitação assentida. Não é suficiente que professores, pesquisadores e gestores educacionais apliquem a lei, pois para que ela se torne real e modifique as relações de ensino é preciso que a viven- ciam na prática cotidiana da escola e da universidade e, efetivamente, propunham reformulações e mudanças na lei, quando estas se tornarem necessárias. Podemos mencionar como exemplo explícito da importância da comunidade educacional envolver-se com as mudanças na lei, o texto publicado no PNE 2014- 2024 apresentado a seguir: “ A visão processual do planejamento reflete no entendimento de sua execu- ção, já que não pode ser visto como um produto que congela a realidade. Daí a previsão, na Lei nº 13.005/2014, art. 5º, de que a execução do PNE e o cumprimento de suas metas serão objeto de monitoramento contínuo e de avaliações periódicas, realizados por quatro instâncias: I − Ministério da Educação (MEC); II − Comissões de Educação da Câmara dos Deputados e Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado Federal; III − Conselho Nacional de Educação (CNE); IV − Fórum Nacional de Educação. A essas instân- cias cabe analisar e propor políticas públicas para assegurar a implementação das estratégias e o cumprimento das metas, assim como a revisão do per- centual de investimento público em educação (PNE 2014, p. 11). Pós-Universo 16 Ressalta-se ainda que “A sustentação do plano, considerando a natureza política do processo de planejamento, dá-se a partir do apoio dos atores envolvidos” (PNE 2014, p. 11). Assim, notamos que é preciso apresentar caminhos na lei que possam, de fato, ser seguidos ou, dito de modo, cumpridos. Atores do setor educacional que participou da construção do PNE 2014-2024 Atores governamentais a) Poder Executivo no plano federal: Presidência da República, Casa Civil, Secretaria de Relações Institucionais (SRI), Ministério da Educação (MEC), Ministério da Fazenda (MF); b) Congresso Nacional: Câmara dos Deputados e Senado Federal. Conselhos e fóruns de educação institucionais: CNE, FNCE, Uncme, FNE Movimentos sociais a) Entidades representativas dos segmentos da comunidade educacional: CNTE, UNE, Ubes, Andes, Fasubra, Andifes, Crub, Proifes, Contee; b) Entidades científicas: Anped, Anpae, Anfope, FCC, SBPC, Cedes, Fineduca; c) Redes de movimentos: Mieib, Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Apaes/Fenapaes, Fórum Nacional de Educação Inclusiva, Feneis, Todos pela Educação. Sociedade civil (gestores) a) Entidades representativas de gestores dos entes federados na esfera edu- cacional: Consed, Undime; b) Entidades representativas de gestores dos entes federados em outros setores: CNM, Confaz, Abrasf. Sociedade civil vinculada ao setor privado na área educacional a) Segmento privado empresarial da educação: Anup, Anaceu, Abmes, Confenen, Fenep, Sistema S, Grupo Positivo; b) Interesses privados na área da educação relacionados a grupos de educa- ção de capital aberto: Abraes. Organizações da sociedade civil e think thanks voltadas à formulação de políticas públicas: Cenpec, Instituto Alfa e Beto, Centro de Políticas Públicas do Insper. Fonte: PNE (2014, p. 18). Para saber mais, acesse em: <http://www.observatoriodopne.org.br/uploads/reference/ file/439/documento-referencia.pdf>. Acesso em 18/03/2017. saiba mais Pós-Universo 17 O EIXO UNIVERSIDADE- SOCIEDADE Algumas Reflexões sobre a Relação Universidade-Sociedade “ Não há consensos razoavelmente estabelecidos sobre esse eixo universida- de-sociedade. Uma universidade não está fora, separada, mas está dentro da tessitura complexa e contraditória da sociedade, em relações de mútuas inter- -atuações. Nada em nosso tempo pode ser pensado sem que sejam levadas em conta as características atuais da globalização. Tendo em vista que os es- quemas simples de compreensão da realidade social são insuficientes para dar conta da complexidade e da pluralidade de sentidos dos fenômenos humanos, especialmente com a fragmentação e a multiplicação dos conhe- cimentos, das informações e dos intercâmbios, já não se pode pensar que uma instituição central da sociedade, radicalmente ligada às mudanças do mundo, como é o caso da universidade, possa ser explicada a partir de uma única ideia ou de um só princípio interno (DIAS SOBRINHO, 2005, p. 164). O primeiro aspecto que precisamos estabelecer, a partir das palavras de José Sobrinho, é a estreita vinculação existente entre a universidade e a sociedade. Aliás, não poderia ser diferente, uma vez que a universidade é uma instituição social, construída, tal como as leis, pelos homens e responde aos anseios e às necessidades das pessoas. Nesse sentido, as universidades e o ensino, em nosso caso específico o superior, ca- minham, seguindo os acontecimentos e ditames já definidos na sociedade. Exatamente por não podermos dissociar o ensino da sociedade que concorda- mos com José Sobrinho quando afirma que: Pós-Universo 18 “ A universidade faz parte da totalidade da vida social. A globalização invade todos os cantos do mundo, seja as microdimensões do cotidiano ou as grandes manifestações cada vez mais multiculturais das sociedades, influencia as novas configurações societais, altera as velhas noções de espaço e tempo na comunicação, expande as estruturas de informação, potencializa a mobi- lidade, imprime novos perfis no mundo do trabalho, impulsiona o acúmulo exponencial dos conhecimentos, gera mudanças nos campos das ciências e das tecnologias, produz o declínio das certezas, aumenta a complexida- de nas relações humanas e na vida em geral (DIAS SOBRINHO, 2005, p. 165). Como a universidade é parte integrante da sociedade e vivemos em um tempo his- tórico no qual todas as relações sociais são globalizadas, o fenômeno da globalização também invade a IES. As reflexões do autor são fundamentais para compreendermos tanto o papel como as mudanças no ensino no mundo, ao menos o ocidental, e no Brasil. A globa- lização produz novas inflexões, põe por terra as antigas verdades do conhecimento, gera novas perspectivas de ciências, de política, modifica o trabalho, implementa novas tecnologias, dentre outras características. Tal como na sociedade, a globalização produz, no ensino e nos sistemas na- cionais de educação, profundasmudanças que nem sempre respondem às inovações produzidas pela globalização. Um dos aspectos fundamentais da globalização vincula-se à melhoria de vida que pode ser proporcionada por ela, pois muitas das informações acerca do conhecimento são disseminadas na sociedade, por meio da mídia, da internet, propiciando possibilidades de bem-estar, de trabalho, de igualdade aos homens em geral, em nível plane- tário. Todavia, em razão da forma como as relações sociais estão dispostas na sociedade, ela traz em seu bojo, especialmente aos países em desenvol- vimento, profundas fissuras. Fonte: a autora. atenção Pós-Universo 19 “ Em todos os continentes, os críticos denunciam os resultados enganosos da multilateralização do comércio, dos efeitos devastadores da concentração do capital pelas grandes corporações transnacionais, do aumento da miséria, da violência e do desemprego, do endividamento crescente dos países pobres, do enfraquecimento dos estados nacionais e de tantas outras consequên- cias perversas. [...] Aos países pobres muito pouco sobra do mercado global. Mais de 80% do comércio mundial se efetuam entre os países industrializa- dos (DIAS SOBRINHO, 2005, p. 166). Precisamos considerar as palavras do autor, porque, evidentemente, não há equí- voco nelas. De fato, assistimos cotidianamente informações sobre miséria social e econômica, crises que atingem os países emergentes e nações economicamente consolidadas. É com esse olhar e compreensão dos homens que devemos nos voltar às condi- ções da educação no país, especialmente a partir da década de 1990. Nesse sentido, as reformas na educação, especialmente no ensino superior, devem ser analisadas como produto das ações e dos interesses dos homens, portanto, não podemos jul- gá-las, mas analisá-las. Pós-Universo 20 O Plano Nacional de Educação, em vigor desde 2014, estabelece em sua meta 12 que seja elevado para 33% a taxa líquida de matrículas na Educação Superior, até 2024. Esse indicador, referente à meta 12, mostra que a taxa líquida de matrícula na Educação alcançou a marca de 18,1% em 2015, dado da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE). Ou seja, 18,1% da população brasileira de 18 a 24 anos estão matriculados na Educação Superior (incluindo Pós-Graduação). O indicador revela que desde 2004 houve um crescimento continuado na taxa líquida de matrículas. No entanto, nos últimos seis anos, de 2009 para 2015, o indicador avançou apenas 3,3 pontos percentuais, o que pode ser considerado um ritmo insuficiente para o cumprimento da meta em 2024. A taxa líquida de matrícula na Educação Superior é maior, em toda a série histórica, entre a população do sexo feminino. São 20,9% em 2015, contra 15,4% no indicador da população do sexo masculino. Desde 2009, a diferen- ça entre esses dois grupos tem se mantido entre 4 e 6 pontos percentuais. As diferenças são mais expressivas nas outras desagregações disponíveis no OPNE. A diferença entre as taxas líquidas de matrícula na Educação Superior das populações urbana (19,9%) e rural (6,5%) é de 13,4 pontos percentuais em 2015. Já a diferença entre o quartil mais rico (41,5%) e o quartil mais pobre da população (6,9%) chegou a 34,6 pontos percentuais em 2015. Ainda, a taxa líquida de matrícula na Educação Superior da população branca é quase o dobro das taxas das populações parda e preta. Em 2015, o Distrito Federal alcançou a meta nacional estipulada para 2024 (33%). Outras duas unidades federativas que tiveram bom desempenho no indicador da meta 12 são Santa Catarina (23,2%) e Espírito Santo (22,3%). Fonte: Observatório do PNE (2017). Para saber mais, acesse em: <http://www.observatoriodopne.org.br/metas-pne/ 12-ensino-superior>. Acesso em 18 mar. 2017. fatos e dados Pós-Universo 21 PERSPECTIVAS DE AVALIAÇÃO PARA AS REFORMAS NO ENSINO SUPERIOR Em geral, quando nos voltamos para os estudos concernentes às reformas da educação, após a LDB 9.394/1996, deparamo-nos, comumente, com duas formas antagônicas de interpretar as leis. De um lado, verificamos uma crítica profunda a elas, vinculan- do-as, de imediato, aos interesses do ‘capital internacional’, como se nós, professores, acadêmicos, políticos, a comunidade enfim, não fôssemos também atores do pro- cesso em que vivemos. Por outro lado, encontramos análises singelas que vinculam positivamente as reformas na educação como uma necessidade de aumentar a produtividade do tra- balho. Vejamos estes posicionamentos mais de perto. Pós-Universo 22 Reformas alinhadas a perspectivas neoliberais Principiamos pelas palavras de Maria Alba Pereira de Deus no seu texto Gestão da contrarreforma neoliberal nas universidades federais brasileira. “ A partir de 1998, foi se tornando claro que as reformas neoliberais da educa- ção superior (ainda que nem sempre implantadas por meio de legislação), estavam sendo geradas, gradativamente, com a coparticipação ativa ou passiva de seus próprios pares: reitores, colegiados superiores, pró-reitores e professores das comunidades universitárias, no interior de gestão acadêmica, administrativa e financeira das IFES. [...] Pode-se inferir daí que, ao incorporar ao planejamento e à gestão institucional a mesma lógica (princípios, pro- cedimentos, técnicas) do planejamento (ou PDI) e gestão empresariais, a instituição pública passa a comportar-se pela lógica do mercado e criar um ambiente “moderno”, racionalizado e ambicioso de planejamento, organiza- ção e controle de seu processo como um todo, de suas atividades, funções e finalidades. As IFES passam a construir um planejamento institucional ajus- tado à lógica mercantil e concorrencial que vem dominando os setores e esferas da vida pública (PEREIRA DE DEUS, 2009, p. 3). A passagem acima explicita de forma clara a estreita associação que a autora faz entre as leis da educação promulgadas nas duas décadas no país e os mecanismos interna- cionais. Segundo a posição da autora, a partir de 1998 (não nos esqueçamos de que a nova LDB é de 1996), a educação, particularmente o ensino superior, passou a ser regida pelos mecanismos internacionais do capital e a educação deveria cumprir as mesmas diretrizes da economia, ou seja, apresentar produtos em larga escala e pro- duzir sempre de modo a racionalizar a produção. Para Pereira de Deus, a educação passou a ser tratada e administrada pelos mesmos padrões de uma fábrica de produtos, ou seja, tanto a educação como a fábrica devem resultar em produtos e bens mercantis. Nessa perspectiva, não existi- ria distinção entre o conhecimento, que é um bem cognitivo, oriundo da consciência humana, e o produto produzido na indústria, pois ambos são regidos pelo mercado e o mercado é norteado pelas relações globalizadas. Pós-Universo 23 É importante observar, na análise da autora, o fato de que as medidas ‘neolibe- rais’, no tocante à educação, são tomadas tanto no governo FHC, considerado um presidente liberal, como no governo Lula, definido mais como um governo de cen- tro-esquerda. Na verdade, o que a autora evidencia é que as medidas tomadas pelos dois últimos governantes refletem os mesmos princípios, ou seja, submetem a edu- cação às regras do mercado, tal como ocorre nos setores produtivos (PEREIRA DE DEUS, 2009, p. 6). Assim, a criação do SINAES (Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior - criado pela Lei n° 10.861, de 14 de abril de 2004), do PROUNI (Programa Universidade para Todos) e do REUNI (Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) não representaria nenhum avanço para a educação superior, mas tão somente sujeição aos interesses mercantis. As leis da educação não dependem do posicionamento políticodos governan- tes, mas estão submetidas às regras do capital internacional. Se as leis são produtos das ações e disputas, onde estão os homens nessa maneira de interpretar? Fonte: a autora. reflita Ao relacionar as reformas da educação, especialmente as do ensino superior, com o capital, Pereira de Deus vincula todas as mudanças da educação das últimas duas décadas no país às medidas neoliberais, o PDI, PPI e PPC não expressariam outra si- tuação senão a submissão da educação em geral, do ensino superior, em particular, às medidas neoliberais adotadas, primeiro, por FHC e, depois, por Lula. A concepção de João dos Reis Silva Júnior e Valdemar Sguissard não se diferen- cia muito da autora mencionada anteriormente. Os autores, ao analisarem a nova regulamentação do ensino superior, destacam-na e a vinculam, amalgamada à rea- lidade político-econômica brasileira, avançando no sentido de demonstrarem que ela segue, tal como a economia, o modelo neoliberal. Pós-Universo 24 “ O governo FHC teve no centro de seu projeto político a construção da ci- dadania. Tornado público pelo discurso de seus mentores e arautos nos grandes espaços e tempos da mídia, esse projeto alardeava a construção do novo cidadão brasileiro a erigir-se sobre pilares do modelo de competência e empregabilidade e em meio à intensa mudança institucional e construção de nova organização social nos moldes do novo paradigma de Estado, cuja racionalidade se fundava em crescentes e inegáveis valores mercantis. [...] Tratava-se, sem dúvida, de um projeto político convincente, não fosse limita- do pela conjuntura mundial e brasileira; no caso doméstico, com os seguintes traços acentuados dos anos 1990 [...] (SILVA JÚNIOR; SGUISSARDI, 2005, p. 7). Para os autores, as medidas tomadas no governo FHC, no tocante às reformas, só fizeram reforçar a mentalidade neoliberal na sociedade brasileira e conduziram às reformas liberais. Segundo os autores, FHC promoveu o ideário de formação de um sujeito, com um novo espírito de cidadania, a do liberalismo. Cidadãos que estariam comprometidos com a abertura econômica, com a desnacionalização dos setores produtivos, com a definição de um estado mínimo na sociedade, na medida em que transferiu para a sociedade civil responsabilidades cruciais do Estado, como a educa- ção, por exemplo. Em suma, nesse período, as relações sociais no país passaram por profundo processo de mercantilização. O que Silva Júnior e Sguissardi (2005) evidenciam é que as medidas adotadas por FHC foram, posteriormente, assumidas e prosseguidas no governo Lula, o que resultou, ao menos no âmbito das universidades, em uma ausência da utopia. Essa ausência de utopia é perceptível na medida em que a educação, especialmente após as reformas educacionais das duas últimas décadas, segue os princípios do neolibe- ralismo globalizado. De acordo com a visão dos autores não se tem, hoje, no país, no âmbito da educação, a construção da liberdade, da cidadania, mas, a conquista constante da propriedade privada, da racionalidade do conhecimento, do produtivismo acadêmi- co, dentre outros aspectos. Pós-Universo 25 Reformas como um ideário de liberdade social Por outro lado, outros autores apontam as reformas como aspectos importantes no processo de democratização do ensino e de construção de ideário de liberdade social. Vejamos também dois exemplos dessas interpretações. Tachizawa (2009) destaca aspectos positivos das reformas educacionais no ensino superior, particularmente porque apontam para a necessidade de uma nova visão do ensino, aquela que propicia e estimula a produtividade no ensino. “ Os princípios de produtividade e qualidade observam os padrões para as instituições de ensino superior, estabelecidos pelo Ministério da Educação através da Comissão Nacional de Avaliação da Educação Superior – CONAES. Os padrões, fixados de acordo com os instrumentos legais vigentes, tem por objetivo identificar as condições de ensino oferecidas aos educandos, em espe- cial as relativas ao perfil do corpo docente, as instalações físicas e a organização didático-pedagógica. O alcance da qualidade das ações acadêmico- ad- ministrativas dos cursos depende, portanto, do quadro docente, do corpo técnico-administrativo, dos projetos pedagógicos de cursos, como também da infraestrutura física e logística e do ambiente educacional (TACHIZAWA, 2009, p. 6). As características essenciais de educação, do ponto de vista do autor, estão vincula- das às condições internas da IES. Dentre estas, destaca-se o perfil do corpo docente, as instalações físicas, as ações inseridas nos projetos pedagógicos do curso, mas não deixa de salientar, também como aspectos gerais do ensino superior, as condições externas à IES. “ O posicionamento estratégico da IES determinado pelo seu Plano de Desenvolvimento Institucional – PDI deve, necessariamente, incorporar as variáveis externas, representada pelas influências governamentais (legais), da conjuntura espelhada na economia nacional (econômicas), do crescimento populacional e do segmento estudantil em idade escolar (físicas e demográfi- cas) e dos movimentos concorrentes de instituições educacionais que atuam no mesmo contexto de mercado (contingenciais) (TACHIZAWA, 2009, p. 2). Pós-Universo 26 Tachizawa observa ainda, que as medidas governamentais, as práticas econômicas existentes na sociedade e o índice populacional afetam diretamente a educação. Sob esse aspecto, o autor concebe a educação superior, considerando como ‘natural’ ao processo de ensino, às condições externas e internas da IES. Portanto, não salienta como problema o fato de o ensino se organizar e sistematizar, seguindo as regras do mercado, posto que o mercado é social tanto quanto o ensino, ou seja, ambos resul- tam das atitudes dos homens, por conseguinte, de suas relações sociais. No texto de Schwartzman (2000), “A Revolução Silenciosa do Ensino Superior, apre- sentado no seminário O sistema de ensino superior Brasileiro em Transformação”, na NUPES/USP, encontramos concepção similar no que diz respeito às reformas. O autor destaca o fato de que as reformas no ensino superior promovem maior demanda de pessoas na universidade. E, ainda que esses números sejam pequenos, em relação a outros países da América Latina, isso é bastante positivo para o país. Do ponto de vista do autor, no momento em que temos mais jovens no ensino superior, necessariamente, existirá um aumento da riqueza e da renda per capita da sociedade. “ Esse diferencial de renda é ainda mais significativo, porque está associado a uma mobilidade social muito grande experimentada por esses estudantes. De fato, metade dos pais dos estudantes de nível superior do Brasil tiveram no máximo nove anos de educação, e, ainda que a maioria tenha renda fa- miliar bastante significativa, 30% estavam abaixo dos mil reais mensais. Pela mesma razão, a contribuição proporcional das pessoas à renda familiar cresce com sua educação, indo de 36% para os que têm educação básica e média para 52% dos que têm nível superior (SCHWARTZMAN, 2000, p. 2). Para o autor, quanto maior for o número de pessoas na universidade, entenda-se aqui ensino superior, em geral, mais benefícios à sociedade usufrui, pois, os indiví- duos com maior índice de escolaridade têm mais condições de viver bem em relação àqueles que não tiveram essa oportunidade. Assim, de seu ponto de vista, quanto maior for o número de estudantes no ensino superior, mas a sociedade, a qual eles integram, se desenvolve. Pós-Universo 27 “ A visão convencional, que o Task Force do Banco Mundial/UNESCO também adota, é que os benefícios gerados pela educação superior decorrem da maior produtividade das pessoas mais educadas, emrelação às demais, e neste sentido haveria uma correspondência entre os benefícios individuais e os benefícios sociais decorrentes de níveis educacionais mais altos. Isto seria especialmente assim nas sociedades contemporâneas, onde o conhecimento em suas diversas formas tem um número maior como gerador de riqueza, e por isto seria de se esperar que um número cada vez maior de pessoas bus- casse a educação superior para melhorar suas habilidades e competência, como de fato parece estar ocorrendo. Quando isso não ocorre, ou seja, quando a educação é buscada com outros objetivos que não a da capacitação – por exemplo, para obter determinadas credenciais, ou ter acesso a determinados círculos – o relatório fala de <<corrupção>>, que nada surpreendentemen- te, é tão comum nos países em desenvolvimento, onde a correspondência entre os sistemas de poder e prestígio e as hierarquias de competência indivi- dual e organizacional tende a ser pouco nítidas (SCHWARTZMAN, 2000, p. 3). Schwartzman não vê como problema o fato de a educação brasileira seguir os princí- pios adotados pelo sistema mercantil. Para o autor, quanto maior for o produtivismo no ensino, maiores serão os benefícios para a sociedade. De acordo com o autor, uma sociedade que possui um índice alto de escolarida- de entre seus habitantes tende a ser mais desenvolvida, em detrimento daquelas na qual o índice de escolaridade é muito baixo. O ensino superior promove, de acordo com ele, o surgimento de uma população com mais habilidade e competência para a vida em sociedade. Assim, não se verifica no autor uma crítica à educação por ela seguir os modelos do mercado, ao contrário. O que ele defende é que mais pessoas possam ingressar no ensino superior e usufruir dele. Todavia, o autor destaca um aspecto do ensino superior no país que precisa ser enfrentado: trata-se da baixa qualidade. O que se observa no Brasil é que as pessoas têm acesso ao ensino, mas não saem dele com mais habilidade e maiores condições de se desenvolverem e desenvolverem o país. Pós-Universo 28 Segundo o autor, a razão disso é a corrupção, que também atinge o ensino superior. “ Uma evidência disto é que os diferenciais de renda proporcionados pela edu- cação nos países em desenvolvimento, como o Brasil, são muito maiores do que os encontrados nos países desenvolvidos. O que explica esta diferença não parece ser que os diplomas de nível superior nos países em desenvolvi- mento estejam associados a níveis tão mais altos de produtividade, mas sim à relativa escassez de educação superior, e à possibilidade que as pessoas mais educadas nestes países encontram de garantir, para si, rendas mais altas, que decorrem sobretudo da posição que ocupam ou que conseguem atingir. Se a renda decorre de um privilégio social e não da produtividade do trabalho, então o comportamento mais racional para quem busca se educar é fazê-lo da forma mais barata e com menor esforço possível. Por outro lado, os que já ocupam posições de privilégio, e não querem abri-las para muitos outros, tratam de criar mecanismos para restringir o acesso a suas posições, através de diferentes mecanismos de controle de mercado (SCHWARTZMAN, 2000, p. 3 - 4). Evidentemente, Schwartzman não se refere à corrupção em relação a desvios de re- cursos financeiros, mas a uma corrupção mais velada e, sob certos aspectos, mais prejudicial à sociedade, porque corrompe a moral. Trata-se do tráfico de influências, os compadrios, as indicações de cargos comissionados etc. Essa forma de corrupção atinge a espinha dorsal da sociedade, pois as pessoas não conseguem melhoria de vida por meio de suas habilidades e conhecimentos, mas por indicações de pessoas influentes, por pertencer a determinados grupos com poder, etc. Assim, a conquista do ensino superior não será um mérito e uma condição de melhoria social, mas tão somente uma etapa a mais, será um meio e não o obje- tivo final do acadêmico. Para o autor, esta situação é muito prejudicial para a pessoa, para a IES e para a nação, pois todos são atingidos por esta corrupção. Por fim, se observa que um sistema de avaliação efetivo poderá modificar este perfil do ensino superior no país. A avaliação merece um destaque especial, nesse momento no texto, pois grande parte das medidas adotadas, no que tange às re- formas educacionais no ensino, particularmente no ensino superior, é oriunda da implementação do Sinaes (Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior). Pós-Universo 29 O SINAES Criado pela Lei n° 10.861, de 14 de abril de 2004, o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (Sinaes) é formado por três componentes principais: a avaliação das instituições, dos cursos e do desempenho dos estudantes. O Sinaes avalia todos os aspectos que giram em torno desses três eixos, principalmente o ensino, a pesquisa, a extensão, a responsabi- lidade social, o desempenho dos alunos, a gestão da instituição, o corpo docente e as instalações. Fonte: INEP (2017). Para saber mais, acesse em: <http://portal.inep.gov.br/sinaes>. Acesso em 18 mar. 2017. saiba mais atividades de estudo 1. Debater o Projeto Político Pedagógico (PPP) e a sua materialização no currículo exige daquele que se dispõe a levar adiante essa tarefa, uma reflexão acerca do cenário educacional brasileiro, no seu sentido mais global. Por que essa reflexão se faz importante? a) Porque o PPP e o currículo deixaram de ser, efetivamente, os elementos forma- dores do sujeito estudante, b) Porque não é possível pensar o PPP e o currículo, sem considerar as condições em que se encontra o ensino nos seus diferentes níveis. c) Porque está prescrito na legislação. d) Porque o desenvolvimento socioeconômico de um país não se associa com o nível de formação do indivíduo. e) Nenhuma das alternativas anteriores. 2. Considerando as concepções em relação às leis da educação, marque V para verda- deiro e F para falso nas afirmativas a seguir, e assinale a alternativa que apresenta a sequência correta. ( ) É preciso imputar autonomia às leis que regulam e norteiam a educação supe- rior no Brasil. ( ) O PPP precisa ser considerado como um conjunto de medidas que regula o todo da realidade do ensino. ( ) O PPP se constitui na lei que rege, planeja, organiza, dirige o curso, a escola ou a instituição. ( ) Para entender a dinâmica de uma lei é necessário analisar os fios que a teceram, os bastidores do debate, quem ou quais interesses ela contemplou, quem ela calou, quem ficou ausente ou à margem da lei. ( ) Para que as leis educacionais se materializam de forma frutífera, em última instân- cia dependerá do poder existente, em nível político, de quem a propôs. atividades de estudo Assinale as alternativas corretas. a) F, V, V, V, F. b) F, V, F, F, V. c) F, V, V, F, V. d) V, V, V, F, V. e) V, V, V, V, F. 3. Quando nos voltamos para os estudos concernentes às reformas da educação, após a LDB 9.394/1996, deparamo-nos, comumente, com formas diferentes e antagôni- cas de interpretar as leis. Sobre a interpretação das reformas da educação, analise as afirmativas a seguir e assinale a alternativa correta. I- As reformas podem ser vistas como um ideário de liberdade social. II- As reformas podem ser vistas como alinhadas a perspectivas neoliberais. III- É importante que conheçamos as duas formas de se interpretar as reformas. IV- As leis da educação servem unicamente a interesses políticos. Está correto somente o que se afirma em: a) I. b) II. c) III e IV. d) I, II e III. e) II, III e IV. atividades de estudo 4. Vimos que ao nos voltarmos para os estudos concernentes às reformas da educação nos deparamos com duas formas antagônicas de interpretaras leis. Ao relacionar as reformas da educação, especialmente as do ensino superior, com o capital, diz-se que as mudanças se vinculam à: I- Medidas neoliberais, às quais PDI, PPI e PPC não expressariam outra situação senão de submissão. II- Educação como ideário de liberdade social. III- Questão de que a instituição pública passa a comportar-se pela lógica do mercado e criar um ambiente “moderno”, racionalizado e ambicioso de planejamento, or- ganização e controle de seu processo como um todo. IV- Construção de um planejamento institucional ajustado à lógica mercantil e con- correncial que vem dominando os setores e esferas da vida pública. Está correto somente o que se afirma em: a) I e II. b) II e III. c) I, II e III. d) I, III e IV. e) I, II, III e IV. resumo As discussões propostas neste nosso estudo nos mostraram que a realidade global interfere di- retamente na construção do PPP e do Currículo. Portanto, quanto mais inteirados da realidade social estiverem os atores que elaboram o PPP e o currículo, maior será a possibilidade de diálogo entre o Projeto e os conteúdos a serem ensinados. A intenção caro(a) aluno(a), foi explicitar que a formação da pessoa cidadã somente será mate- rializada mediante este tripé: a conscientização do contexto social por parte dos atores do PPC, interação entre o Projeto e o currículo, formação de cidadãos. Salientamos como essencial compreender que o conhecimento se torna o caminho para a for- mação da cidadania, seja no ensino básico, seja no superior, quando o(a) professor(a) e seus alunos(as) conhecem a realidade que os cerca. Quando conseguem agir conscientemente em seu meio social e, por conseguinte, entendem o ensino não como um meio, mas como um fim, ou seja, concebem o ensino como a trajetória para formar pessoas, seres completos, que agem em virtude de seus interesses, mas não se es- quecem de que vivem em comunidade e este convívio é a condição de sua própria existência. Nesse sentido, o PPP e o currículo precisam estar amalgamados para que formem um único princípio, no qual o plano se materialize no conteúdo. Essas duas situações estão imbricadas: professores e alunos precisam ter consciência de que o saber é condição de cidadania e o PPP e o currículo devem formar uma mesma folha indissolúvel. A oportunidade de conhecer perspectivas não somente diferentes, mas antagônicas acerca das reformas do Ensino Superior, tenham lhe possibilitado uma reflexão aprofundada sobre o tema, e a elaboração de sínteses que possam fortalecer discussões que você venha propor em seu cotidiano. Esperamos que as discussões aqui propostas enriqueçam a sua gama de conhecimentos e re- forcem o seu aprendizado. Até breve! material complementar NA WEB O presente e o futuro da educação superior no Brasil Debate irá discutir sobre o presente e o futuro da educação superior no país, trazendo para o centro dessa conversa as possibilidades abertas pelo avanço tecnológico e pelas novas neces- sidades de estudantes, do mercado de trabalho e das próprias universidades. Contamos com a presença de Wladymir Soares de Brito, diretor geral da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio; e de José Rodrigues de Farias Filho, pró-reitor de graduação da Universidade Federal Fluminense. Web: <https://www.youtube.com/watch?v=aMiVvBEPbdM> A qualidade do ensino superior Brasilianas.org recebe o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Luiz Cláudio Costa, o diretor da Universidade Virtual do Estado de São Paulo, Carlos Vogt, e o pesquisador do Centro de Estudos da Cultura Contemporânea (Cedec), Pedro Chadarevian, para um debate sobre qualidade do ensino superior no país. Web: <https://www.youtube.com/watch?v=SDrbyQ_lPKg> referências BRASIL. Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº. 9.394/96. CURY, C. R. J. Lei de Diretrizes e Bases e perspectivas da educação nacional. Revista Brasileira de Educação, n. 8, p. 72-85, mai-ago1998. DIAS SOBRINHO, J. Educação superior, globalização e democratização: qual universidade? Rev. Bras. Educ. [online], n. 28, p. 164-173, 2005. GOLDBERG, M. A. A. Avaliação e Planejamento Educacional: problemas conceituais e metodológicos. Cadernos de Pesquisa da FCC, n. 7, 1973. 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Acesso em: 05 mar. 2011. resolução de exercícios 1. b) Porque não é possível pensar o PPP e o currículo, sem considerar as condições em que se encontra o ensino nos seus diferentes níveis. 2. a) F, V, V, V, F. 3. d) I, II e III. 4. d) I, III e IV. h.17dp8vu h.3rdcrjn h.lnxbz9 h.35nkun2 h.1ksv4uv h.44sinio h.2jxsxqh h.z337ya h.3j2qqm3 h.f90q0oysukni h.1y810tw h.4i7ojhp h.2xcytpi h.1ci93xb h.3whwml4 h.2bn6wsx PPP E CURRÍCULO: REFLEXÕES SOB A LENTE DA EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA CONCEPÇÕES DOS INTELECTUAIS EM RELAÇÃO ÀS LEIS DA EDUCAÇÃO O EIXO UNIVERSIDADE- SOCIEDADE PERSPECTIVAS DE AVALIAÇÃO PARA AS REFORMAS NO ENSINO SUPERIOR