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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
Prof. Dr.: Fábio Muruci
Aluno: Gustavo Moraes Loureiro
Atividade: Relatório de Apresentação
WACHTEL, Nathan. Os Índios e a Conquista Espanhola. In: BETHELL, Leslie (Org.).
História da América Latina, Vol. 1: América Latina Colonial. SP: EdUSP, 2004. p.
195-239.
1) O Trauma da Conquista
Do México ao Peru, a atmosfera instaurada na América do período da
Conquista é permeada por terror religioso, e isso se descreve bem nos registros
nativos, com profecias que indicavam o “fim dos tempos”. Quase que como endosso
aos presságios, monstros de quatro patas montados por criaturas brancas
chegavam aos dois locais. 
Era disseminada pela América o mito do “deus civilizador”, como o caso de
Quetzalcoátl, no México; Viracocha, nos Andes; e Atahualpa no Peru. A chegada dos
espanhóis endossava perfeitamente essa narrativa, visto que chegaram no México
pelo leste, em 1519, ao passo que o mito versava sobre a saída de Quétzalcoatl
pelo leste, num ano ce-acatl (1519 foi, baseando-se no ciclo, um ano ce-acatl); no
Peru, era profetizado que o estado Inca terminaria durante o reinado do décimo
segundo Inca, e de fato, Atahualpa era o décimo segundo.
O relato mítico possibilitou a recepção dos espanhóis como divindades, mas
isso não perduraria, já que a conduta e brutalidade dos europeus não agradaria as
sociedades indígenas, que também significava uma grande ruptura e o curso de sua
existência, tanto do ponto de vista social, quanto religioso e político.
A superioridade bélica foi substancial para a vitória dos espanhóis, mas o
impacto maior a ser considerado é o psicológico. A construção do Tahuantisuyo e da
Confederação Asteca baseada nas conquistas colaboraram do ponto de vista
político, visto que diversos grupos se aproveitaram da oportunidade para se libertar
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da dominação, fornecendo grande parte do contingente dos exércitos de Cortés e
Pizarro. Ainda assim, o trauma causado no ponto de vista espiritual foi irreparável. A
queda da cidade significou, para os Astecas, o fim do reino do deus Sol,
Huitzilopochtli, e a “morte” dos deuses tirava também o significado da vida dos
índios. O mesmo servia para o Inca, adorado como um deus e mediador da relação
entre homens e deuses. O ponto de referência vivo do universo morre, e toda a
existência natural perde o sentido.
2) Desestruturação
Parte do processo de desmantelação das sociedades indígenas passa pela
mudança de várias instituições, desintegrando algumas estruturas e ressignificando
outras, o que acarreta em impactos demográficos diretos. No planalto central
mexicano, a estimativa de decréscimo beira os 90% em 60 anos. Foi, entretanto,
menos acentuada nos Andes, ainda que nos Andes setentrionais os números sejam
equiparáveis ao da Mesoamérica. Isso se deve, principalmente, pelas epidemias de
varíola, sarampo, gripe e peste, trazidas pelo europeu, o que não nega o fato de que
foi um período de opressão sanguinária. 
Foram documentados casos de suicídios coletivos e individuais, abortos
forçados, que sugerem a atmosfera de desespero instaurada, além da diminuição da
saúde dos índios, em decorrência da guerra, excesso de trabalho, doenças e as
migrações forçadas.
Há casos, entretanto, de índios que atribuíram o declínio da populacional e
diminuição da saúde à diminuição da carga de trabalho e aumento da liberdade, o
que daria espaço, inclusive, aos vícios; isso tudo proporciona um grande
questionamento acerca da naturalidade do relato, ainda que o alcoolismo seja uma
das possíveis causas dessa desestruturação.
A invasão espanhola também evidenciou a transição gradual injusta do
princípio de reciprocidade injusto que predominava no ayllu, e isso ficou
escancarado com a morte de Atahualpa houve uma ressignificação das instituições,
mas o modelo de complementaridade vertical se manteve. As novas formas de
tributo causaram mais comoção nos Andes, uma vez que as dívidas dos súditos do
Inca eram em trabalho servil. No geral, os encomenderos agiam de forma arbitrária
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na cobrança de tributos, pois este levava em consideração no cálculo o número de
contribuintes, que decrescia com velocidade significativa, aumentando a
discrepância entre taxação e declínio populacional. Ainda que solicitassem as
revisitas, os índios ainda sofriam com o ônus do sistema colonial. Também
desfavorecia o indígena a situação atual de produção têxtil, sem o fornecimento de
matéria-prima, além de sofrer com a desapropriação de terras.
O índio, então, sofria com a alta carga tributária, falta de tempo para trabalhar
nos próprios campos, fim do sistema de reciprocidade que havia com o Inca, o que
demonstra falência do sistema. E foi a partir da década de 1550 que desenvolveu-se
o tributo em prata, que obrigou os indígenas a assumir as atividades em minas,
causando aumento vertiginoso no número de trabalhadores. 
Os Indígenas conseguem, durante certo período, impor condições de trabalho
e determinado controle na produção de prata em Potosí, através das huayras,
fundições nativas que funcionavam com uso do vento. Com isso, poderiam trabalhar
usando as próprias ferramentas, entregando uma quantidade fixa de minério,
podendo guardar excedentes de produção, podendo produzir para si mesmos.
Apesar das diversas tentativas, os espanhóis não conseguiram por muito tempo se
libertar do monopólio indígena, construindo os próprios fundidores, o que se mostrou
ineficaz, em vista da pouca confiabilidade. Inclusive do processo de amalgamação
desenvolvido, que mesmo tirando o monopólio indígena, se mostrava menos
funcional.
A fragmentação do sistema pré-colombiano também acarretou em
deslocamentos populacionais ocasionados pelas guerras civis entre partidários de
Pizarro e Almagro, sendo os índios usados para engrossar as fileiras do segundo, o
que contribuiu para o posterior crescimento da mendicância. Também multiplicou-se
o número de yanaconas (índios livres) que, junto com os hatunruna (índios das
comunidades sujeitas a tributos e mita), formavam o grosso da população Andina.
Essa configuração social criou um problema cuja seriedade se potencializou no
século XVII, que é submeter os yanaconas às mesmas obrigações do restante dos
índios.
O sistema asteca se mostrava muito diferente do inca nesse sentido, visto
que a existência de tributos não guardava nenhuma distinção com o mundo pré-
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colombiano, uma vez que os mayeques também deviam pagamentos aos
representantes do tlatoani de Tenochtitlán, o que ajudou no apagamento das
distinções hierárquicas do mundo pré-colombiano na população nativa após a
Conquista. As antigas castas reinantes perdiam a essência do poder, mas retinham
a posição de privilégio, por aceitar colaborar com os espanhóis, o que é o caso dos
herdeiros de Monteczuma, e também os de Huayna Capac, apesar da maior
resistência. E é essa contribuição dos mais hierarquizados que tornou possível a
mobilização indígena em prol dos interesses espanhóis. 
Há também um processo de “conquista espiritual”, no qual os espanhóis
justificam sua hegemonia pela introdução dos indígenas à verdadeira fé, destruindo
templos e alterando drasticamente a vida cotidiana. Essa desintegração do cotidiano
foi a gênese do alcoolismo e outros vícios, como coca, antes proibido e restrito à
rituais. Agora, prática comum e menos repreendida, visto que o comportamento dos
espanhóis eram ambíguos no que tangia a questão: ao mesmo tempo que
condenavammoralmente, incentivavam a ação por razões econômicas, por
venderem vinho aos índios. O aumento do alcoolismo espelhava o sentimento de
impotência dos índios sobre o mundo que pra eles se tornara trágico e absurdo.
3) Tradição e Aculturação
A aculturação dos povos foi, de certa forma, dificultada pela resistência das
tradições populares. Nas camadas superiores houve uma relativa rapidez no
aprendizado do espanhol, embora mantendo a língua nativa. Essa aculturação foi
mais rapida no México que no Peru, ainda assim com o grupo privilegiado. Os índios
das comunidades mantiveram fidelidade aos costumes. Diversas tentativas forçosas
de aculturação aconteceram através das migrações forçadas, o que contribuiu em
obrigar os índios a viver em aldeias formadas sob modelo espanhol. 
A fidelidade religiosa dos índios aos costumes externava sua rejeição ao
domínio colonial. Nas primeiras décadas, havia um entusiasmo significativo no
México, diferente do Peru, com o cristianismo. Cultos aos huacas, deuses locais dos
Incas, fizeram parte dessa resistência, que também acarretou na continuação do
trabalho nos campos dedicados aos objetos de culto, e transporte de mortos
desenterrados e transferidos aos antigos locais de enterro. Também camuflavam
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seus ídolos e rituais sob uma roupagem cristã, levantando suspeitas de que não
eram, de fato, convertidos. Os índios mantinham críticas ao cristianismo e
interpretavam-no como idolatria, tal qual os espanhóis consideravam os deuses
locais manifestações demoníacas. 
A continuidade de tradição também se manifestava adaptação do sistema
espanhol ao sistema nativo de pensamento. O caso de Guaman Poma de Ayala,
escritor peruano, ajuda a compreender o processo. Poma se aproveitou da
sistemática espácio temporal Andina para ilustrar o mapa das Índias, apenas
absorvendo contribuições da cultora ocidental ao arcabouço preexistente. O fez
ainda que houvesse correspondência alguma ao modelo espanhol.
4) Resistência e Revolta
Ainda que estivessem estabelecido dois centros principais de colonização no
México e Peru, os espanhóis encontraram, nas fronteiras, grande resistência das
diversas sociedades nativas da América. Apesar da relativamente fácil conquista, a
resistência não teve fim de forma repentina, sendo Manco Inca, inclusive, a força
propulsora por trás da primeira revolta importante contra o domínio espanhol. 
Depois de se desiludir de ter apoiado os espanhóis, Manco sitiou Cuzco
durante um ano, tendo o cerco um sentido estratégico, visto que a região tinha força
política e religiosa, e abrangia, inclusive, Machu-Picchu. Manco dizia aos índios para
que renunciassem à falsa religião imposta pelos cristãos. Após sua morte, os
espanhóis encontraram resistência por parte de seu filho por mais dez anos, até que
este se rendeu em troca da encomienda de Yucay. 
A resistência de movimentos milenaristas se fez presente após o abatimento
da primeira crise, na década de 1560. O Taqui Ongo, movimento Andino, anunciava
o fim do domínio espanhol, através da volta à vida dos huacas que tinham sido
derrotados com a chegada de Pizarro. O movimento encontrava arcabouço
tradicional do ideário Inca, e afirmava que somente índios fiéis ao culto dos huacas
teriam espaço no “novo mundo” que viria, segundo a tradição Inca, após um evento
cataclísmico semelhante ao da fundação do Tahuantinsuyo, após a chegada de
“criaturas estranhas, brancas e barbadas”. 
Ainda nessa reinterpretação da tradição, com a roupagem condizente à
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situação colonial, os índios enxergavam a libertação como algo provindo não de uma
ação violenta, mas de uma vitória dos huacas contra o deus cristão. A Igreja
combateu com animosidade o Taqui Ongo, como uma seita de hereges, e em cinco
anos já não havia vestígios da seita. Provavelmente, a morte e decapitação de
Tupac Amaru, o último Inca de Vilcabamba, também significou um abalo espiritual
aos índios, sendo a “segunda morte” do Inca enxergada como o fim do mundo. 
Outro foco de resistência notório aconteceu no norte do México, onde a
conquista perdeu seu ímpeto. O episódio precedeu a “guerra de Mixton”, e também
teve como característica o distanciamento do centro, como em Vilcabamba, e
também gerou repúdio ao cristianismo, como o Taqui Ongo. Os pregadores
anunciavam o retorno de Tlatol, acompanhado por ancestrais. Defendiam que, para
se purificar e remover a sujeira do batismo, os índios deveriam realizar rituais de
penitência e purificação. 
O a seita milenarista mexicana, diferente do Taqui Ongo, defendia o uso do
recurso direto à violência, o que acarretou no incêndio a igreja e a cruz em
Tlatenango, e a morte de missionarios em Tequila e Ezatlán. A supressão do
movimento foi difícil, e os espanhóis necessitaram de diversas ações. Três
expedições sucessivas fracassaram. O vice-rei Mendoza teve de conduzir uma
grande força à Nova Galícia, e mesmo assim apenas deslocou a guerra mais para o
norte. Só conseguiram, finalmente, suplantar a resistência chichimeca com o
advento de “missões” onde os índios eram reagrupados e convertidos, e com a
criação de colônias exemplares do modo de vida cristão.
Com a expansão espanhola, a guerra, na realidade, se desloca ainda mais ao
norte, chegando ao território que daria origem ao Novo México. Lá, os povos fixados
no vale do Rio Grande foram subjugados, em parte. Os que se mantiveram
resistentes foram os apaches, nômades das planícies e planaltos, preservando sua
independência.
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