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História do Paraná: Pré- história, Colônia e Império 21 HISTóRIA E CONHECIMENTO Lúcio Tadeu Mota (Organizador) 978-85-7628-403-1 Lú cio Ta d e u M o ta H istó ria d o P a ra n á : P ré -h istó ria , C o lô n ia e Im p é rio H IS T ó R IA E C O N H E C IM E N T O N 0 2 1 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) História do Paraná: pré-história, colônia e império / Lúcio Tadeu Mota, organizador. -- Maringá: Eduem, 2011. 88p.: il., 21cm. (Coleção história e conhecimento, v. 21) ISBN 978-85-7628-403-1 1. História do Paraná – Estudo e ensino. 2. História regional – Paraná. 3. Indígenas – Paraná – História. CDD 21.ed. 981.62 H673 Copyright © 2011 para o autor Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo mecânico, eletrônico, reprográfico etc., sem a autorização, por escrito, do autor. Todos os direitos reservados desta edição 2010 para Eduem. Endereço para correspondência: Eduem - Editora da Universidade Estadual de Maringá Av. Colombo, 5790 - Bloco 40 - Campus Universitário 87020-900 - Maringá - Paraná Fone: (0xx44) 3011-4103 / Fax: (0xx44) 3011-1392 http://www.eduem.uem.br / eduem@uem.br HISTÓRIA E CONHECIMENTO Apoio técnico: Rosineide Ferreira Copydesk: Rosane Gomes Carpanese Normalização e catalogação: Ivani Baptista CRB - 9/331 Revisão Gramatical: Tania Braga Guimarães Edição, Produção Editorial e Capa: Carlos Alexandre Venancio Fernando Truculo Evangelista Eliane Arruda Lúcio Tadeu Mota (Organizador) História do Paraná: Pré- história, Colônia e Império HISTÓRIA EAD Conteúdo APRESENTAÇÃO DA COLEÇÃO .............................. 3 SOBRE OS AUTORES ................................................ 6 APRESENTAÇÃO DO LIVRO ..................................... 8 CAPÍTULO I A OCUPAÇÃO HUMANA DOS TERRITÓRIOS ENTRE OS RIOS PARANAPANEMA E IGUAÇU ATÉ A CHEGADA DOS EUROPEUS, EM 1500 11 CAPITULO II O GUAIRÁ: A CONQUISTA E AS RELAÇÕES INTERCULTURAIS NOS TERRITÓRIOS INDÍGENAS NO PARANÁ, DE 1500 A 1630 .................... 44 CAPITULO III. A FORMAÇÃO DO PARANÁ: DO POVOAMENTO DO LITORAL À EMANCIPAÇÃO DA 5ª COMARCA ......................................................................... 80 CAPÍTULO IV. O PARANÁ PROVINCIAL: 1853 – 1889 .................................................................................. 101 APRESENTAÇÃO DA COLEÇÃO A coleção História e Conhecimento é composta de 42 títulos, que serão utilizados como material didático pelos alunos matriculados no Curso de Licenciatura em História, Modalidade a Distância, da Universidade Estadual de Maringá, no âmbito do sistema da Universidade Aberta do Brasil (UAB), que está sob a responsabilidade da Diretoria de Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES). A utilização desta coleção pode se estender às demais instituições de Ensino Superior que integram a UAB, fato que tornará ainda mais relevante o seu papel na formação de docentes e pesquisadores, não só em História mas também em outras áreas na Educação a Distância, em todo o território nacional. A produção dos 42 livros, a qual ficou sob a responsabilidade da Universidade Estadual de Maringá, teve 38 títulos a cargo do Departamento de História (DHI); 2 do Departamento de Teoria e Prática da Educação (DTP); 1 do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE); e 1 do Departamento de Letras (DLE). O início do ano de 2009 marcou o começo do processo de organização, produção e publicação desta coleção, cuja conclusão está prevista para 2012, seguindo o cronograma de recursos e os trâmites gerais do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Num primeiro momento, serão impressos 294 exemplares de cada livro para atender à demanda de material didático dos que ingressaram no Curso de Graduação em História a Distância, da UEM, no âmbito da UAB. O traço teórico geral que perpassa cada um dos livros desta coleção é o compromisso com uma reconstrução aberta, despreconceituosa e responsável do passado. A diversidade e a riqueza dos acontecimentos da História fazem com que essa reconstrução não seja capaz de legar previsões e regras fixas e absolutas para o futuro. No entanto, durante a recriação do passado, ao historiador é dado muitas vezes descobrir avisos, intuições e conselhos valorosos para que não se repitam os erros de outrora. No transcorrer da leitura desta coleção percebemos que os livros refletem várias matrizes interpretativas da História, oportunizando ao aluno o contato com um inestimável universo teórico, extremamente valioso para a formação da sua identidade intelectual. A qualidade e a seriedade da construção do universo de conhecimento desta coleção pode ser tributada ao empenho mais direto por parte de cerca de 30 organizadores e autores, que se dedicaram em pesquisas institucionais ou até mesmo em dissertações de mestrado ou em teses de doutorado nas áreas específicas dos livros que se propuseram a produzir. Esta coleção traz um conhecimento que certamente marcará positivamente a formação de novos professores de História, historiadores e cientistas em geral, por meio da Educação a Distância, o qual foi fruto do empenho de pesquisadores que viveram circunstâncias, recursos, oportunidades e concepções diferentes, temporal e espacialmente. Como corolário disso, seria justo iniciar os agradecimentos citando todos aqueles que não poderiam ser nominados nos limites de uma apresentação como esta. Rogamos que se sintam agradecidos todos aqueles que direta, indireta ou mesmo longinquamente, quiçá os mais distantes ainda, contribuíram para a elaboração deste rico rol de livros. Além do agradecimento, registramos também o reconhecimento pelo papel da Reitoria da UEM e de suas Pró-Reitorias, que têm contribuído não apenas para o êxito desta coleção mas também para o de toda a estrutura da Educação a Distância da qual ela faz parte. Agradecemos especialmente aos professores do Departamento de História do Centro de Ciências Humanas da UEM pelo zelo, pela presteza e pela atenção com que têm se dedicado, inclusive modificando suas rotinas de trabalho para tornar possível a maioria dos livros desta coleção. Agradecemos à Diretoria de Educação a Distância (DED) da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES), e ao Ministério da Educação (MEC) como um todo, especialmente pela gestão dos recursos e pelo empenho nas tramitações para a realização deste trabalho. Outrossim, agradecemos particularmente à Equipe do NEAD-UEM: Pró-Reitoria de Ensino, Coordenação Pedagógica e equipe técnica. Despedimo-nos atenciosamente, desejando a todos uma boa e prazerosa leitura. Moacir José da Silva Organizador da coleção SOBRE OS AUTORES • Dulce Elena Canieli Possui mestrado em História pela Universidade Estadual de Maringá (2001). Atualmente é professora efetiva – Secretaria de Estado de Educação do Paraná –, atuando principalmente nos seguintes temas: Ensino, Paraná Província e População Indígena. • Lúcio Tadeu Mota Possui graduação em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (1980); mestrado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1992); doutorado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1998); e estágio de pós-doutorado em Antropologia Social no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Atualmente é Professor Associado I da Universidade Estadual de Maringá. Tem experiência na área de Antropologia, com ênfase em Etno-história Indígena, atuando principalmente nos seguintes temas: Fronteiras e Populações, Etno-história Indígena,Relações Interculturais, Índios Kaingang e História da Bacia do Rio da Prata. • Nádia Moreira Chagas Possui graduação em História pela Universidade Estadual de Maringá (1992), e pós- graduação em Arqueologia, Etnologia e Etno- História do Paraná, também pela Universidade Estadual de Maringá. É pesquisadora no Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações – Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história – UEM. Mestre em História, na linha de pesquisa Fronteiras e Populações, pela Universidade Estadual de Maringá. Atualmente é professora do Centro Estadual de Educação Básica Professor Manoel Rodrigues da Silva e tutora no Ensino a Distância – História, da UAB, na Universidade Estadual de Maringá. APRESENTAÇÃO DO LIVRO A princípio tudo representava um panorama selvático. O seio da terra virginal, recoberto de florestas seculares, abrigava tesouros inestimáveis de fecundação e fertilidade, prontos para fornecerem colheitas dadivosas [...]. Havia, de primeiro, a terra protegida pela floresta imensa. E lentamente a floresta, a floresta tão exuberante e impenetrável cedia lugar àqueles homens intrépidos e valentes. Frases como essas acima, de diferentes autores, são comuns nos escritos sobre a História do Paraná. Construiu- se a ideologia de que esses territórios estavam vazios, desabitados e prontos a serem ocupados. Essa construção ocorreu dentro dos marcos da expansão capitalista, que incorporou, no século XX, imensas áreas do norte, oeste e sudoeste do Estado ao seu sistema de produção. Os agentes dessa construção são muitos: desde a história oficial das companhias colonizadoras; os discursos governamentais; os escritos que fazem a apologia da colonização; a geografia que trata da ocupação nas décadas de 30 a 50 do século XX; a historiografia paranaense produzida nas universidades; e por fim os livros didáticos, que, utilizando-se dessas fontes, repetem para milhares de estudantes do Estado a ideia de que os vastos territórios ocupados por sociedades indígenas do segundo e do terceiro planaltos do Paraná constituíam um imenso “vazio demográfico”, pronto a ser ocupado por migrantes vindos de várias partes do Brasil e mesmo do exterior. Com isso são eliminados propositadamente da história regional as populações indígenas, caboclas e quilombolas que ali viviam e resistiram à conquista de suas terras e à destruição de seu modo de vida1. Observando essas populações enquanto sujeitos ativos da história percebemos que os territórios localizados entre os rios Paranapanema, Paraná e Iguaçu foram ocupados por populações caçadoras e coletoras desde há pelo menos 9 mil anos antes do presente, e que desde a chegada das populações europeias no novo continente iniciou-se a guerra de conquista contra elas. Guerra é aqui entendida no sentido dado por Antônio Carlos de Souza Lima: um processo que requer uma organização militar conquistadora, que age em nome de um Deus, um Rei, uma Nação ou um Império; um povo de onde se origina o conquistador e que lhe dá uma identidade social e uma direção comum; e o butim, composto pelo povo conquistado com seus territórios e riquezas, que passam a ser mercantilizadas. E conquista, quando parte do povo conquistador se fixa nos territórios conquistados, faz a exploração sistematizada do butim e passa a veicular os elementos básicos da cultura invasora através de instituições concebidas para tanto2. A guerra de conquista iniciou-se nas primeiras décadas do século XVI, com as expedições portuguesas e espanholas que cruzaram o atual território do Paraná em busca de metais, de escravos e de uma rota rumo ao Império Inca no atual Peru. Acentuou-se nos anos seiscentos com a implantação das reduções jesuíticas no 1. Para maiores detalhes sobre esse assunto ver MOTA, Lúcio Tadeu. As guerras dos Índios Kaingang. Maringá: Eduem, 2009. 2. Cf. LIMA, Antônio C. de Souza. Um grande cerco de paz: poder tutelar e indianidade no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1995. Guairá, e logo depois com as bandeiras paulistas, que invadiram a região capturando índios, e com as atividades mineradoras no litoral e no primeiro planalto. Prosseguiu no século XVIII, com a instalação das fazendas de gado nos Campos Gerais, com a descoberta de ouro e diamantes no rio Tibagi e com as expedições militares, que construíram fortificações e transitaram pelo território rumo ao Mato Grosso. Recrudesceu, nos anos novecentos, com a ocupação dos campos de Guarapuava, de Palmas e do sudoeste da Província, e das terras da bacia norte do rio Tibagi, pelos grandes fazendeiros dos Campos Gerais paranaenses, na expansão de seus domínios. No século XX a guerra de conquista continuou, sob o manto da “colonização pacífica e harmoniosa”, levada adiante pelas companhias de terras, que ocuparam, lotearam e venderam os antigos territórios indígenas, com o aval institucional do Estado do Paraná. Dessa forma, a ocupação humana do Paraná apresenta, numa primeira olhada, o aspecto da divisão em fronteiras. Mas não no sentido de elas serem apenas uma divisa entre os brancos e os indígenas, uma coluna móvel de colonização em território novo não colonizado, ou como um processo de conquista envolvendo a subjugação de não- europeus por europeus. Mas sim, conforme os recentes estudos de fronteiras têm apontado, os espaços fronteiriços são como locais de encontro de populações diferenciadas, e lócus privilegiado dos fluxos e das trocas culturais. A fronteira é vista como local não do isolamento e da separação de culturas (cultura x cultura), mas de combinações inovadoras, de manejo e de somas culturais (cultura + cultura), como bem aponta Ulf Hannerz.3. 3 Cf. HANNERZ, Ulf. Fronteras. Revista de Antropologia Experimental, [s.n.], n. 1, p. 6, 2001. Para uma discussão mais completa sobre essa questão e outras Assim, as numerosas “fronteiras” existentes no espaço denominado Paraná não se ajustam ao ideal simplificador de serem apenas divisores de culturas diferenciadas, entre o “civilizado” e o “selvagem”, ou uma coluna móvel de colonização em território novo não colonizado. Mesmo porque, estudos recentes em Antropologia, História ou Etno-história têm mostrado que as populações locais ofereciam resistência, as doenças impediam a penetração europeia, e a geografia limitava a intrusão estrangeira. Os colonizadores europeus não impuseram simplesmente suas culturas em todas as partes do planeta: inúmeros foram os obstáculos, as derrotas, e inúmeros foram os processos de negociação, alianças e acordos, que resultaram em fluxos culturais, hibridismos e mestiçagens que compõem a história de grande parte das populações do continente americano e também do Paraná, estabelecendo aqui processos de relações interculturais ricos e complexos4, o que pretendemos apresentar na sequência deste livro. CAPÍTULO I A OCUPAÇÃO HUMANA DOS TERRITÓRIOS ENTRE OS RIOS PARANAPANEMA E IGUAÇU ATÉ A CHEGADA DOS EUROPEUS, EM 1500 relativas a fronteiras e fluxos culturais, ver: Fluxos, fronteiras, híbridos: palavras chaves da Antropologia Transnacional. Mana, Rio de Janeiro, v. 1, n. 3, p. 7-39, e Conexiones Transnacionais – Cultura, Gente, Lugares. Ediciones Cátedra, 2001. 4 Sobre a mestiçagem na América ver BERNAND, Carmen; GRUZINSKI, Serge. Historia del Nuevo Mundo II: los mestizajes. 1550 – 1640. México: Fondo de Cultura Econômica, 1999. O debate sobre as questões relativas à humanização do continente americano tem sido intenso e rico. As disciplinas que tratam dessa temática, como a Arqueologia,a História e outras, apresentam pontos de concordância e muitos outros de discordância. Hoje é consenso aceitar a premissa de que o homem não é autóctone em nosso continente. Isto é, o homo sapiens-sapiens que ocupou as Américas teve suas origens no continente africano, há mais ou menos 100 mil anos antes do presente (AP), e em algum momento migrou para o continente americano. O segundo ponto, ou a segunda pergunta muito usual nesse debate é: se o homem não surgiu na América, de onde ele veio? Uma grande parte dos pesquisadores do tema são unânimes em afirmar que a maioria das levas humanas que aqui chegaram atravessaram o estreito de Bering, no extremo norte do continente. Existem outros pesquisadores que afirmam que o continente também foi povoado por grupos humanos vindos das ilhas do Oceano Pacifico, navegando do oeste para o leste e desembarcando na costa oeste da América Central e do Sul. E ainda existe quem afirme que também recebemos migrações de grupos humanos pelo extremo sul do continente, que chegaram à Terra do Fogo vindos da Austrália e da Nova Zelândia. Figura 1: Povoamento do Continente Americano Fonte: A AURORA da humanidade (1993) A terceira pergunta, talvez a mais polêmica, é a que questiona qual foi a época da chegada dos primeiros humanos no continente americano. Nesse ponto temos um debate intenso, que está longe de terminar. Existem autores que afirmam que os primeiros homens chegaram à America há mais de 300 mil anos antes do presente (AP). Mas as datações mais aceitas pela comunidade científica são aquelas que giram em torno de 12 mil AP. A grande maioria dos pesquisadores aceitam a presença do primeiro homem americano em torno de 11 mil a 12 mil anos AP, porque são desse período as datações dos esqueletos humanos mais antigos encontrados no continente, como é o caso do crânio de uma mulher, batizada de Luzia, encontrado em Minas Gerais, datado de 11.500 AP. As populações caçadoras coletoras pré-cerâmicas5 A bacia do Rio da Prata vem sendo continuamente habitada por diferentes populações humanas6 há cerca de pelo menos 11 mil anos AP. Para a região onde hoje é o Paraná há datações que chegam a 9 mil anos AP. Entretanto, se considerarmos a cronologia dos territórios vizinhos que foram ocupados em épocas anteriores, é provável que ainda possam ser obtidas datas que poderão atestar a presença humana em períodos mais recuados. Em 1958, um grupo de arqueólogos do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná foi comunicado sobre achados arqueológicos nas margens do rio Ivaí, no extremo oeste do Estado, na localidade de Cidade Gaúcha7. Escavações no sítio denominado José Vieira demonstraram a existência de dois povoamentos no local. O material lítico, colhido nos níveis mais profundos das escavações e submetidos a datação, registrou uma idade 5 Uma primeira versão deste texto foi publicada em parceria com Francisco Silva Noelli, no livro DIAS, Reginaldo Benedito; ROLLO, José Henrique (Org.). Maringá e Norte do Paraná: estudos de História regional. Maringá: Eduem, 2000. 6 Consideramos, para fins didáticos, populações pré-históricas como as anteriores à chegada dos europeus na região, isto é, em meados do século XVI; e populações indígenas aquelas que entraram em contato com os europeus e vivem até o presente no Paraná, isto é, os Jê do Sul – Kaingang e Xokleng, os Guarani e Xetá, falantes de línguas do tronco linguístico Tupi. Evidentemente, como veremos adiante, em alguns casos houve uma continuidade entre a Pré-história e a História. 7 Cf. LAMING, Anete; EMPERAIRE, José. A jazida José Vieira: um sítio Guarani e pré- cerâmico no interior do Paraná. Arqueologia, Curitiba, v. 1, 1969. Nesse trabalho, os autores também fazem observações em possíveis sítios arqueológicos na região de Apucarana. entre o oitavo e o nono milênio antes de nossa era. Isso significa assentamentos humanos nas barrancas do rio Ivaí há 8 mil anos. O material lítico coletado nas camadas superiores da jazida datam de 2 a 3 mil anos (AP), o que significa novos acampamentos em épocas posteriores à primeira. Existem, portanto, em um mesmo local, acampamentos em épocas distantes 4 a 5 milênios uma da outra, que permitem a verificação de grandes transformações no clima e na vegetação. Outras escavações, realizadas nas margens do rio Paraná, foram datadas em 8 mil anos, assim como as escavações realizadas no centro-leste do Estado, na região de Vila Velha, também com 8 mil anos. A indústria lítica lascada do homem pré-histórico presente no norte paranaense espalha-se ao longo do rio Ivaí. A 350 km, subindo o rio no município de Manoel Ribas, no centro do Estado, pesquisas arqueológicas feitas em 1960 revelaram a existência de material lítico que corresponde ao do Sítio José Vieira, datado em torno de 7 a 8 mil anos. Foi encontrada também uma grande quantidade de material cerâmico, datado em torno de 800 anos AP8. Por todo o Paraná vamos encontrar vestígios desses antigos assentamentos humanos. O mais antigo deles, datado de 9.040 AP, foi encontrado pela Drª Cláudia Parellada, arqueóloga do Museu Paranaense, no vale do rio Iguaçu. Essas evidências, anteriores a 6 mil AP, também 8 Cf. ANDREATTA, Margarida Davina. Notas parciais sobre pesquisas realizadas no planalto e litoral do Estado do Paraná. In: SIMPOSIO DE ARQUEOLOGIA DO PRATA, 2., 1968, São Leopoldo. Anais... São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisa; FFCL, 1968. p. 65-76. De acordo com a autora, o material lítico lascado, tanto o encontrado na gruta de Wobeto, em Manoel Ribas, como o do Sítio José Vieira fazem parte da indústria lítica lascada, que se estende por toda a bacia do Rio da Prata. podem ser encontradas em outras partes do território paranaense, como podemos ver na tabela abaixo. Sítios arqueológicos com mais de 6 mil anos (AP) no Paraná PARELLADA, C. I. Revisão dos sítios arqueológicos com mais de seis mil anos BP no Paraná: discussões geoarqueológicas. Fumdhamentos, São Raimundo Nonato, n. 7, p. 118-135, 2008. Assim, podemos afirmar que os territórios que hoje se denominam Paraná vêm sendo continuamente habitados por diferentes populações humanas há cerca de 9 mil anos AP, de acordo com os vestígios materiais mais antigos encontrados pelos arqueólogos. Entretanto, se considerarmos a cronologia dos territórios vizinhos que foram ocupados em épocas anteriores, é provável que ainda possam ser obtidas datas que poderão atestar a presença humana em períodos mais recuados, podendo alcançar ate 11 mil ou 12 mil anos AP9. 9 Daqui em diante, optamos por incorporar parte de um texto feito em parceria com Francisco Silva Noelli e publicado em outras obras, conjuntas ou separadas. As populações que viveram no Paraná entre 9 mil a 3 mil anos AP são denominadas, pela Arqueologia, de caçadores e coletores pré-cerâmicos. Elas foram substituídas pelas populações indígenas agricultoras e ceramistas – Kaingang, Xokleng, Guarani e Xetá – a partir de sua chegada na região, por volta de 3 mil anos AP, e continuam a viver aqui até hoje. A Arqueologia classifica essas populações caçadoras coletoras em três tradições, conforme a Figura 2. As populações indígenas no Paraná Caçadores coletores pré-cerâmicos 12.000 a 3.000 anos AP Humaitá Vale dos grandes rios Umbu Terras altas Sambaqui Litoral Figura 2: Populações caçadoras coletoras pré- cerâmicas no Paraná Os arqueólogos reuniram uma série de informações sobre essas populações. Aqui apontaremos sucintamente os dados que consideramos mais importantes em cada uma delas. Tradição Humaitá As populações que osarqueólogos convencionaram chamar de Tradição Humaitá não deixaram, aparentemente, descendentes historicamente conhecidos. Por enquanto, é sabido que ocuparam todos os estados do sul brasileiro e as regiões vizinhas do Paraguai e da Argentina, entre 8 mil e 2 mil anos atrás. Os estudos de seus vestígios mostram que essas populações possuíam características das culturas do tipo bando, compostas de pequenos grupos (40-60 pessoas) que viviam dentro de amplos territórios. Sua subsistência era baseada em diversas fontes animais, obtidas por meio da caça, da pesca e da coleta, bem como de fontes vegetais. A exemplo de outros povos caçadores-coletores sul-americanos, também deveriam ter uma série de acampamentos sazonais espalhados dentro de um território definido. Tais acampamentos estariam relacionados a uma série de atividades de subsistência, obtenção e preparação de matérias-primas, rituais e lazer. Suas habitações poderiam ser desde uma simples meia-água até casas mais elaboradas, de madeira, cobertas por palha ou folhas de palmáceas. Eventualmente poderiam ocupar abrigos sob rocha (reentrâncias em paredes rochosas). Seus vestígios mais estudados até o presente restringem-se aos instrumentos líticos feitos de pedra, pois a maior parte de seus objetos eram provavelmente confeccionados com materiais perecíveis, que se destruíram ao longo da formação dos sítios arqueológicos. Entre as ferramentas de pedra podemos mencionar os grandes instrumentos lascados bifacialmente, lascas usadas para raspar, rasgar, cortar, tornear, bem como ferramentas para polir, furar, amolar, macerar, moer, pilar e ralar. Figura 3: Ferramenta lítica da Tradição Humaitá. Acervo: Coleção Arqueológica do Museu Histórico de Santo Inácio – PR. Foto de Edmar Alencar Jr / Josilene Aparecida de Oliveira Tradição Umbu Também as populações que os arqueólogos chamam de Tradição Umbu não deixaram descendentes historicamente conhecidos. Os vestígios dessa tradição, marcadamente as pontas de projéteis e resíduos de lascamentos, são encontrados em toda a região sul do Brasil, no Uruguai e em partes do Estado de São Paulo. Esses vestígios foram datados entre 12 mil e 1 mil anos AP, o que demonstra a longa persistência dessa Tradição nos mais variados ambientes do Brasil Meridional. Essas populações ocuparam preferencialmente as regiões de maior altitude nos planaltos do Paraná, principalmente os interflúvios dos principais rios, mas há também a presença de artefatos dessa Tradição nas margens dos principais rios do Paraná, como o Iguaçu, no sítio Ouro Verde, datado de 9 mil anos AP, e em vários locais ao longo do rio Ivaí. Nesses locais construíram suas habitações, tanto a céu aberto quanto nos abrigos sob rochas. Já no Rio Grande do Sul e no Uruguai, nas áreas alagadiças, construíram os cerritos – aterros artificiais –, onde fixaram suas habitações. Figura 4: Ponta de flecha da Tradição Umbu. Acervo: Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história da UEM. Foto: Lúcio Tadeu Mota Tradição Sambaqui Os pescadores/coletores do litoral sul do Brasil ocuparam uma vasta faixa entre o mar e a Serra do Mar, desde o Rio Grande do Sul até a Bahia, desde 6 mil anos AP até mil anos depois de Cristo. Seus principais vestígios são os inúmeros montes – conhecidos por sambaquis – que construíram intencionalmente com restos alimentares, adornos, conchas, ferramentas, armas, carvões de antigas fogueiras, vestígios de sepultamentos humanos e de antigas moradias. Construídos tanto em planícies quanto em encostas, diretamente na areia ou sobre o embasamento rochoso, os Sambaquis têm ocorrências desde o Rio Grande do Sul até a Bahia de Todos os Santos, basicamente no interior dos ambientes lagunares que se apresentam em todo esse trecho da faixa costeira. As baías, estuários e lagunas dessa porção do litoral apresentam normalmente grandes concentrações desses sítios arqueológicos. A implantação dos Sambaquis nesses ambientes estuarinos não foi fortuita: ela se deu devido à existência de várias espécies de peixes, moluscos, crustáceos e outros animais, componentes riquíssimos da dieta alimentar desses grupos humanos. Figura 5: Sambaquis do litoral sul do Brasil. Fonte Gaspar: (2000, p. 49-53). As populações ceramistas agricultoras - populações indígenas históricas Por volta de 2.500 anos antes do presente (AP), agrupamentos maiores de populações passaram a ocupar a região da bacia do rio Paraná e de seus afluentes (Iguaçu, Piquiri, Ivaí, Paranapanema Pirapó, Santo Inácio, Bandeirantes, Tibagi, Itararé e outros menores). Tratava-se de uma das frentes da ampla expansão dos povos falantes da língua guarani, os quais vinham ocupando sistematicamente o território do atual Mato Grosso do Sul e as bacias dos rios Paraguai e Paraná, e do Rio da Prata. Podemos dizer que esses agrupamentos tinham em comum a língua e a produção de artefatos cerâmicos. Os vestígios da cultura material dessas populações agricultoras ceramistas são denominados pela Arqueologia como Tradição Tupi-guarani e Tradição Itararé/Taquara. As mais antigas populações de ceramistas começaram a chegar à bacia do rio Paraná em torno de 2.500 anos AP, como podemos ver numa série de sítios datados, na região, pelas metodologias de C-14 (carbono 14) e termoluminescência. O rio Paranapanema, em sua junção com o médio Paraná, é considerado, como já foi sugerido por José P. Brochado e Francisco S. Noelli (BROCHADO, 1984; NOELLI, 1998, 1999- 24 2000), para o caso dos falantes do guarani, como a “porta de entrada” para o Paraná e o sul do Brasil. O conjunto das pesquisas indica que essas populações, em contínuo processo de crescimento demográfico e de expansão territorial, teriam sucessivamente ocupado a área do atual Mato Grosso do Sul e, através da bacia do Paraná, teriam ingressado no sul do Brasil pelo noroeste paranaense. No caso dos Jê do sul (Kaingang e Xokleng), como aponta a Arqueologia com os indícios de cerâmica da Tradição Itararé, a porta de entrada dessas populações para o sul do Brasil teria sido os campos e cerrados do interflúvio dos rios Paranapanema/Itararé e Ribeira. Trabalhando com a hipótese de que os grupos Jê, que se deslocaram do Brasil central para o sul, foram ocupando regiões semelhantes às que ocupavam em seus locais de origem, podemos afirmar que após ocuparem os planaltos de cerrados entre os rios Tietê e Paranapanema eles iniciaram a ocupação dos Campos Gerais no Paraná. Esses campos se estendem desde o sul de São Paulo – região de Itapetininga até Itararé, entre as cabeceiras dos rios Paranapanema e Itararé – até a margem direita do rio Iguaçu, no segundo planalto paranaense. No século XVII os padres jesuítas fundadores das reduções anotam a presença de grupos não Guarani na região, que eles denominaram de Cabeludos e Gualachos (MOTTA, 2000, p. 49).10 10 . Cf.MOTA, Lucio Tadeu. Os índios Kaingang e seus territórios nos campos do Brasil meridional na metade do século passado. In: Uri Wãxi: estudos interdisciplinares dos Kaingang. Londrina, Eduel, 2000. 25 Ancorados nas informações arqueológicas podemos afirmar que a região da bacia do rio Paraná e de seus afluentes da margem esquerda onde é hoje o estado do Paraná foi densamente povoada, até a chegada dos espanhóis e portugueses, por populações caçadoras/coletoras pré-ceramistas e pelos agricultores ceramistas, principalmente os falantes do guarani.11 Tabela 3: Sítios arqueológicos com datações de populações ceramistas nas bacias do Paraná,Paranapanema e Ivaí, da jusante para montante Rio Paraná Da ta A.P. Síti o L ab. nº 1.1.1.1.1 i o M a r g e m 1.1.1.1.2 unicí pio Estad o 1.1.1.1.3 o nt e 11 Existem ainda informações arqueológicas sobre a presença de vestígios cerâmicos diferentes das tradições discutidas acima, e também existem informações históricas sobre a presença de populações não-Guarani e não-Kaingang principalmente na margem direita do médio Paranapanema. São informações importantes para o entendimento da ocupação da região, as quais discutiremos em outra oportunidade. 26 20 10 ± 75 PR/F I/140 S I 5028 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 16 25 ± 60 PR/F I/118 S I 5021 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 15 65 ± 70 PR/F I/99 S I 5019 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 13 95 ± 60 PR/F I/142 S I 5033 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 12 35 ± 60 PR/F I/97 S I 5016 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 74 5 ± 75 PR/F I/140 S I 5027 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 70 0 ± 55 PR/F I/112 S I 5036 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 62 5 ± 55 PR/F I/100 S I 5020 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 60 0 ± 60 PR/F I/103 S I 5029 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 59 0 ± 55 PR/F I/127 S I 5024 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 41 5 ± 75 PR/F I/104 S I 5032 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 39 5 ± 60 PR/F I/142 S I 5034 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 34 0 ± 60 PR/F I/118 S I 5023 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 25 5 ± 80 PR/F I/97 S I 5017 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 23 0 ± 80 PR/F I/22 S I 5015 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 20 5 ± 80 PR/F I/118 S I 5022 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 19 0 ± 75 PR/F I/98 S I 5018 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 ? ± 195 PR/F I/141 S I 5031 Es querda Foz do Iguaçu - Pr Chmy z 1983 49 0 ± 60 PR/F O/3 S I 5040 Es querda Guaíra - Pr Chmy z 1983 76 0 ± 40 PR/F O/4 S I 5039 Es querda Guaíra - Pr Chmy z 1983 47 5 ± 45 MT/ IV/1 S I 1017 Dir eita Bataiporã - MS Chmy z 1974 18 MT/ S Dir Bataiporã Chmy 27 0 ± 60 IV/1 I 1018 eita - MS z 1974 11 0 ± 60 MT/ IV/2 S I 1019 Dir eita Bataiporã - MS Chmy z 1974 26 0 ± 70 MT/ IV/1 S I 1016 Dir eita Bataiporã - MS Chmy z 1974 23 9 ± 10 MS/ PR/13 F ATEC Dir eita Anaurilând ia - MS Kashi moto 1997 24 0 ± 30 MS/ PD/06 G sy Dir eita Anaurilând ia - MS Kashi moto 1997 27 5 ± 20 MS/ PD/07 F ATEC Dir eita Anaurilând ia - MS Kashi moto 1997 42 5 ± 25 MS/ IV/08 F ATEC Dir eita Anaurilând ia - MS Kashi moto 1997 43 2 ± 32 MS/ PD/04 F ATEC Dir eita Anaurilând ia - MS Kashi moto 1997 24 5 ± 15 MS/ PR/41 F ATEC Dir eita Bataguaçu - MS Kashi moto 1997 28 0 ± 15 MS/ PR/46 F ATEC Dir eita Bataguaçu - MS Kashi moto 1997 37 0 ± 20 MS/ PR/22 F ATEC Dir eita Bataguaçu - MS Kashi moto 1997 48 0 ± 30 MS/ PR/26 F ATEC Dir eita Bataguaçu - MS Kashi moto 1997 56 5 ± 32 MS/ PR/55 F ATEC Dir eita Bataguaçu - MS Kashi moto 1997 58 0 ± 40 MS/ PR/39 F ATEC Dir eita Bataguaçu - MS Kashi moto 1997 62 5 ± 40 MS/ PR/35 F ATEC Dir eita Bataguaçu - MS Kashi moto 1997 14 93 ± 100 MS/ PR/85 F ATEC Dir eita Brasilândi a - MS Kashi moto 1997 12 48 ± 100 MS/ PR/64 F ATEC Dir eita Brasilândi a - MS Kashi moto 1997 10 15 ± 75 MS/ PR/64 G sy Dir eita Brasilândi a - MS Kashi moto 1997 48 0 ± 30 MS/ PR/98 F ATEC Dir eita Três Lagoas - MS Kashi moto 1997 90 9± 80 MS/ PR/90 F ATEC Dir eita Três Lagoas - MS Kashi moto 1997 Rio Ivaí Da Síti L 1.1.1.1.41.1.1.1.5 1.1.1.1.6 28 ta A.P. o ab. nº i o M a r g e m unicí pio - Pr o nt e 13 80 ± 150 José Vieira G sy 81 Esq uerda Cidade Gaúcha Empe raire, 1968 54 0 ± 60 PR/ QN/2 S I 697 Dir eita Mirador Broch ado 1973 10 65 ± 95 PR/ ST/1 S I 695 Esq uerda Indianópol is Broch ado 1973 61 0 ± 120 PR/ ST/1 S I 696 Esq uerda Indianópol is Broch ado 1973 30 0 ± 115 PR/F L/5 S I 693 Dir eita Paraíso do Norte Broch ado 1973 47 0 ± 100 PR/F L/5 S I 694 Dir eita Paraíso do Norte Broch ado 1973 13 5 ± 120 PR/F L/13 S I 698 Dir eita Doutor Camargo Broch ado 1973 14 90 ± 45 PR/F L/21 S I 1011 Dir eita Doutor Camargo Broch ado 1973 56 0 ± 60 PR/F L/23 S I 700 Dir eita Doutor Camargo Broch ado 1973 59 0 ± 70 PR/F L/15 S I 699 Dir eita Doutor Camargo Broch ado 1973 Rio Paranapanema Da ta A.P. Síti o L ab. nº 1.1.1.1.7 i o M 1.1.1.1.8 unicí pio/E stad o 1.1.1.1.9 o nt e 29 a r g e m 53 0 ± 55 PR/ NL/7 S I 6400 Esq uerda Diamante do Norte - Pr Chmy z 1986 ± 930* Alvi m Dir eita Pirapozinh o - Sp Kashi moto 1997 ±1 668* Ragi l F ATEC Dir eita Iepê - Sp Facci o 1998 11 30 ± 150 SP/ AS/14 S I 422 Dir eita Iepê - Sp Chmy z 1969 ± 1093* Ragi l 2 F ATEC Dir eita Iepê - Sp Facci o 1998 98 0 ± 100 SP/ AS/14 S I 709 Dir eita Iepê - Sp Smith sonian ± 755* Nev es F ATEC Dir eita Iepê - Sp Facci o 1998 * = datado por termoluminescência; 30 As populações indígenas no Paraná Populações indígenas históricas 3.000 a aos dias de hoje Kaingang Tronco lingüístico Macro-Jê Tradições Pré Cerâmicas incorporadas Guarani Tronco lingüístico Tupi Xokleng Tronco lingüístico Macro-Jê Xetá Tronco lingüístico Tupi Figura 6: Populações indígenas agricultoras ceramistas no Paraná - - - - Figura 6: Populações indígenas agricultoras ceramistas no Paraná ���� Os Guarani Dentre os povos pré-históricos e indígenas de que estamos tratando, os Guarani são os mais conhecidos em termos arqueológicos, históricos, antropológicos e linguísticos. A denominação Guarani define, ao mesmo tempo, a população e o nome da língua por ela falada. Uma série de estudos comparados – arqueológicos e linguísticos – realizados no leste 31 da América do Sul indica que os Guarani vieram das bacias dos rios Madeira e Guaporé. A partir daí, ocuparam continuamente diversos territórios ao longo das bacias dos rios Paraguai e Paraná até alcançar Buenos Aires, distante aproximadamente 3 mil km do seu centro de origem. Expandiram-se ainda para a margem esquerda do Pantanal, nos atuais estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Também ocuparam o Uruguai e o Paraguai. Conforme as datações já obtidas, excetuando o Uruguai, a foz do Rio da Prata e o litoral sul brasileiro, as demais regiões citadas foram ocupadas desde há pelo menos 2.500 anos AP. Mantiveram esses territórios até a chegada dos primeiros europeus, que, a partir de 1504, registraram em centenas de documentos os limites desse vasto domínio. Os Guarani ocuparam os vales e as terras adjacentes de quase todos os grande rios e de seus afluentes. Raramente estabeleciam suas aldeias e rocas em áreas campestres. A maioria dos sítios arqueológicos da Tradição Tupi-guarani estão inseridos em áreas cobertas por florestas, seguindo o padrão de estabelecer as aldeias e as plantações em clareiras dentro da mata.Como se pode constatar na bibliografia especializada sobre os Guarani, eles possuíam um padrão para ocupar novas áreas, sem, no entanto, abandonar as antigas. Os grupos locais se dividiam, com o crescimento demográfico, ou por divisões políticas, indo habitar áreas próximas, previamente preparadas por meio de manejo agroflorestal, isto é, abriam várias 32 clareiras para instalar a aldeia e as plantações, inserindo seus objetos e plantas nos novos territórios. Assim como trouxeram suas casas, vasilhas cerâmicas e outros objetos, os Guarani também trouxeram de seus locais de origem diversas espécies de vegetais, úteis para vários fins (alimentação, remédios, matérias-primas etc.), contribuindo para o aumento da biodiversidade florística do sul do Brasil. Dessa maneira iam ocupando as várzeas dos grandes rios, e com o passar do tempo, áreas banhadas por rios cada vez menores. Por exemplo, após dominar as terras próximas aos rios Ivaí, Pirapó e Tibagi, ocuparam trechos ao longo de alguns dos ribeirões que banham o divisor de águas desses rios. As aldeias tinham tamanhos variados, podendo comportar mais de mil pessoas, organizadas socialmente por meio de relações de parentesco e de aliança política. Essas famílias extensas viviam em casas longas, e cada aldeia poderia ter até sete ou oito casas, construídas de madeira e folhas de palmáceas, podendo abrigar até 300 ou 400 pessoas, e alcançar cerca de 30 ou 40 metros de comprimento por até 7 ou 8 metros de altura. Algumas aldeias, dependendo de sua localização, poderiam ser fortificadas, cercadas por uma paliçada. A cultura material era composta por centenas – talvez milhares – de objetos, confeccionados para servirem a diversos fins, sendo a maioria feita com materiais perecíveis (ossos, madeiras, penas, palhas, fibras vegetais, conchas etc.) e, 33 em minoria, de não-perecíveis (vasilhas cerâmicas, ferramentas de pedra, corantes minerais). Desse conjunto normalmente sobrevivem apenas as vasilhas, as ferramentas de pedra e, eventualmente, esqueletos humanos e de animais diversos, conchas e ossos usados como ferramentas ou enfeites. O reconhecimento da existência desses objetos perecíveis, salvo condições raras de conservação, só e possível por meio de informações obtidas indiretamente por pesquisas históricas, linguísticas e antropológicas. Figura 7: Fragmento cerâmico Guarani. Acervo: Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história da UEM. Foto: Lúcio Tadeu Mota 34 Figura 8: Fragmento cerâmico Guarani. Acervo: Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história da UEM. Foto: Lúcio Tadeu Mota ���� Os Xetá O povo Xetá é conhecido e nominado, na literatura, nos relatos de viajantes e em fontes documentais, como: Botocudo, Héta, Chetá, Setá, Ssetá, Aré e Yvaparé. Foi o último grupo indígena contatado no Paraná, no final da década de 1940 e no início de 1950, quando a frente de ocupação cafeeira chegou ao seu território tradicional, que se estendia pelas margens do baixo rio Ivaí até a sua foz, no rio Paraná. A presença dos grupos Xetá no rio Ivaí e em seus afluentes foi registrada por viajantes e exploradores desses territórios desde a década de 1840, quando Joaquim Francisco Lopes e 35 John H. Elliot – empregados do Barão de Antonina – fizeram contato com alguns deles nas imediações da foz do rio Corumbataí, no Ivaí. Posteriormente, em 1872, o engenheiro inglês Thomas Bigg-Whiter capturou um pequeno grupo nas proximidades do Salto Ariranha, também no rio Ivaí. No início do século XX, em 1910, Albert V. Fric ouviu dos Kaingang a informação da presença de pequenos grupos Xetá no interflúvio dos rios Ivaí e Corumbataí, muito acima do local onde os Xetá foram contatados nos anos de 1950. Junto ao grupo Kaingang do cacique Paulino Arak-xó, que vivia no salto Ubá, Fric encontrou cativos Xetá, com os quais efetuou um primeiro registro de vocabulário. Esses locais de caça e coleta, os encontros e confrontos com os exploradores do rio Ivaí, e os conflitos com os Kaingang, que resultavam em capturas e dispersão dos Xetá, fazem parte da memória de sobreviventes Xetá mais velhos. Um deles teve seu pai capturado no início do século XX, porém conseguiu fugir e retornou para seu grupo familiar na região da Serra dos Dourados (SILVA, 1998, 2003). Nessas primeiras décadas do século XX muitos outros contatos foram noticiados, mas na região conhecida como Serra dos Dourados, onde hoje estão implantados os municípios de Umuarama, Ivaté, Douradina, Icaraíma, Maria Helena, Nova Olímpia, entre outros, é que se deu, a partir de 1954, 1955 e mais principalmente em fevereiro de 1956, o mais documentado encontro com um grupo Xetá, que ocorreu entre professores da UFPR e membros do Serviço de 36 Proteção ao Índio-SPI da 7ª Regional de Curitiba e dois meninos12 Xetá, capturados em 1952 por agentes das Companhias de Colonização. Apesar dos esforços dos professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), do Conselho Nacional de Política Indigenista (CNPI) e de funcionários do SPI, o Governo do Estado do Paraná vendeu os territórios Xetá para as Companhias de Colonização, que os lotearam para revenda aos interessados no cultivo de café na região. Até a década de 1990 os Xetá eram tidos pelo órgão indigenista brasileiro Fundação Nacional do Índio – FUNAI – como grupo extinto ou quase extinto, pois constam nos seus dados populacionais apenas cinco pessoas. No entanto, a pesquisa antropológica de Carmen Lúcia da Silva apontou que, ao contrário do que se afirmava nos levantamentos oficiais, os Xetá não estavam extintos. Em 1997, por solicitação dos Xetá, foi realizado o primeiro encontro dos seus sobreviventes em Curitiba, intitulado “Encontro Xetá: Sobreviventes do Extermínio”, com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR (MAE), do qual participaram todos os sobreviventes do grupo, crianças, jovens, mais velhos e cônjuges, além do Prof. Dr. Aryon Dall’Igna Rodrigues, que efetuou os primeiros estudos da língua Xetá junto a um grupo familiar na década de 1960 (1960, 1961 e posteriormente em 1967). 12 Um deles viveu até o ano de 2008 e foi um dos colaboradores ativos do estudo de Silva (1998; 2003). 37 Como resultado desse encontro, os Xetá solicitaram o seu reconhecimento enquanto pertencentes à etnia Xetá e a retificação de seus nomes nos registros civis, levando em conta os registros que já vinham trabalhando na pesquisa antropológica, os quais apresentavam como se dava o sistema de nominação do grupo. Também colocaram em pauta a indenização financeira de suas perdas e a recuperação de seus territórios tradicionais, na Serra dos Dourados, bem como reivindicaram o retorno a seu território de origem, nominando-o como Terra Indígena Herarekã Xetá. Atualmente os Xetá somam aproximadamente 100 (cem) pessoas, em 25 (vinte e cinco) famílias. Estão em processo de luta para que seu território tradicional seja reconhecido junto à FUNAI, para que seus direitos sejam reconhecidos e para se reconstituírem enquanto povo e revitalizarem sua cultura. Além da demanda para reaverem parte de seus territórios, os Xetá solicitaram ao Estado do Paraná um atendimento especifico e diferenciado de: educação escolar indígena bilíngue Português/Xetá; o ensino da sua história na escola; produção de literatura e materiais didáticos que retratem a realidade do povo, trazendo inclusive a memória coletiva da antiga sociedade narrada por seus pais, hoje considerados “guardiões da memória Xetá” (SILVA, 1998; 2003). 38 ���� Os Kaingang A denominação Kaingang define genericamente, ao mesmo tempo,a população e o nome da língua por ela falada. Embora exista uma volumosa bibliografia e inumeráveis conjuntos de documentos não publicados sobre esses povos, ainda se conhece pouco sobre seus ascendentes pré-históricos. Os resultados de estudos comparados – Arqueologia e Linguística – apontam o Brasil central como a região de origem dos Kaingang, que ocuparam imensas áreas dos estados da região sul, parte meridional de São Paulo e leste da província de Missiones, na Argentina. Embora não existam ainda datas mais antigas do que as dos Guarani, e provável que os Kaingang e os Xokleng tenham chegado primeiro ao Paraná, pois em quase todo o Estado os sítios dos Guarani estão próximos ou sobre os sítios arqueológicos dos Kaingang e Xokleng. Com a chegada dos Guarani, à medida que iam conquistando os vales dos rios os Kaingang foram sendo empurrados para o centro-sul do Estado e/ou foram sendo confinados nos territórios interfluviais, enquanto os Xokleng foram sendo impelidos para os contrafortes da Serra Geral, próximo ao litoral. A partir do final do século XVII, quando as populações Guarani tiveram uma drástica redução, os Kaingang voltaram a se expandir por todo o centro do Paraná. Em meados do século XVIII, com as primeiras expedições coloniais nos territórios hoje 39 denominados Paraná, foi possível conhecer parcialmente a toponímia empregada pelos Kaingang para nominar seus territórios: Koran- bang-rê (campos de Guarapuava); Kreie-bang-rê (campos de Palmas); Kampo-rê (Campo Ere – sudoeste); Payquerê (campos entre os rios Ivaí e Piquiri, hoje nos município de Campo Mourão, Mamborê, Ubiratã e outros, adjacentes); Minkriniarê (campos de Chagu, oeste de Guarapuava, no município de Laranjeiras do Sul); campos do Inhoó (em São Jerônimo da Serra). Os Kaingang: a produção da cerâmica � Mulher Kaingang confeccionando cerâmica na T. I. Vanuire em SP em 1970. Fonte: Delvair M Melatti. Aspectos da organização social dos Kaingang Paulistas. FUNAI, 1976 � Vasilha reconstituída a partir de fragmentos encontrados em uma casa subterrânea no RS. Fonte: Pedro Ignácio Schmitz. CIÊNCIA HOJE • vol. 31 • nº 181 Figura 9 40 ���� Os Xokleng A denominação Xokleng define genericamente, ao mesmo tempo, a população e o nome da língua por ela falada. Na bibliografia arqueológica esses povos são conhecidos como Tradição Itararé. Apesar da volumosa bibliografia e de inumeráveis conjuntos de documentos não publicados a seu respeito, ainda se conhece pouco sobre seus ascendentes pré-históricos Sua chegada e sua presença no Paraná já foram resumidas no item sobre os Kaingang, necessitando ainda de mais pesquisas para se corroborar ou desabonar as conclusões e hipóteses vigentes. Suas aldeias eram geralmente pequenas, no interior das florestas, abrigando poucos habitantes. Também ocupavam abrigos sob rocha e casas semissubterrâneas. Fabricavam vasilhas cerâmicas semelhantes às feitas pelos Kaingang, a tal ponto que, devido às pesquisas pouco sistemáticas realizadas até o presente, ainda é problemático definir claramente as diferenças. 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Recolha junto a sua comunidade (cidade, bairro ou vizinhos) o que eles sabem sobre os índios no Paraná. 44 CAPITULO II O GUAIRÁ: A CONQUISTA E AS RELAÇÕES INTERCULTURAIS NOS TERRITÓRIOS INDÍGENAS NO PARANÁ, DE 1500 A 1630 Nádia Moreira Chagas13 Lúcio Tadeu Mota14 Introdução A História dos territórios entre os rios Paranapanema ao norte e Iguaçu ao sul, pertencentes hoje ao Estado do Paraná, está inserida nos processos de ocupação da América Meridional pelos europeus, no século XVI. Denominados nos primeiros séculos da colonização como Guairá, sua história é, portanto, parte da História do ParanáColonial, 13 Especialista pela UEM em Arqueologia, Etnologia e Etno-História do Paraná, Mestre em História pela UEM, Profª. da Rede Estadual de Ensino, Núcleo de Educação de Maringá, Pesquisadora no Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações – Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História – UEM. E-mail: nadiachagas@yahoo.com.br 14 Professor Associado no Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá, e pesquisador no Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações – Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História - UEM. ltmota@uem.br ltmota@terra.com.br 45 que inicia com a chegada dos europeus ao litoral meridional da América do Sul. Para conhecermos a história de períodos mais remotos sobre a região temos que recorrer à historiografia clássica da Bacia Platina, sobre a história do Paraguai e da Argentina, e também a estudos sobre os bandeirantes paulistas. A relevância dessa historiografia está no debate sobre a ocupação do atual Paraná e no reconhecimento das populações que aqui viviam, a fim de se desmistificarem algumas ideias, como a de que a região era um deserto a ser desbravado. A ocupação dos territórios do atual Paraná e as relações interculturais ocorridas entre o início da colonização até o século XVII possibilitam compreender os contatos que ocorreram antes e depois da chegada dos europeus. Ou seja, é possível reconstruir a história de povos que foram considerados etnocentricamente como sem história, por não dominarem a escrita O importante nos estudos da ocupação desses territórios é determinar o impacto da conquista sobre as sociedades indígenas que aqui viviam, procurando se entender como se desenvolveram as estruturas sociais e compreender que os europeus não foram os únicos sujeitos que fizeram a história desta parte do continente americano. A história da conquista dos territórios entre os rios Paranapanema e Iguaçu, os quais mais tarde se tornariam o Estado do Paraná, está presente em alguns autores clássicos da historiografia paranaense, dentre os quais se 46 destacam: Silveira Neto, que escreveu no início do século XX; David Carneiro, um dos que mais escreveu sobre o Paraná; Romário Martins, autor da ideia do paranismo; Faris A. S. Michaelle, que aborda a presença indígena e as dificuldades que tornavam seu estudo difícil; Altiva P. Balhana, Brasil P. Machado e Cecília M. Westphalen, que tratam da descoberta do ouro e da procura do indígena para o trabalho no estabelecimento do português; Ruy C. Wachowicz, com sua publicação didática sobre a História do Paraná. Na década de 1980, Cecília M. Westphalen e Jaime A. Cardoso publicaram o Atlas Histórico do Paraná. Existem ainda outras obras mais recentes, na década de 1990, como a de Maria A.M.S. Schmidt, que apresenta em publicação paradidática uma História do Paraná, e ainda a de Sérgio O. Nadalin, sobre a ocupação do território. Pode-se dizer que algumas das obras mais antigas seguem uma mesma linha de estudo: indo da chegada dos europeus à formação de vilas e povoações em regiões consideradas como despovoadas, prontas para serem ocupadas, não contando com a presença do indígena, o que justificaria, assim, a prática da conquista dos territórios empreendida pelos europeus. Havia, na verdade, uma política de omissão com respeito aos povos indígenas, segundo a qual os europeus acreditavam que, se não podiam fazer esses povos desaparecerem, eles seriam então integrados. 47 Uma historiografia mais recente15 discute a ocupação do Guairá como uma guerra de conquista, ou seja, a exploração das populações indígenas pelos conquistadores não foi sem obstáculos como afirmam muitos autores, e a conquista dos seus territórios também não ocorreu de forma pacífica. Em todos os momentos, e por várias etnias, a resistência foi renhida e sangrenta. O território do Guairá, que compreendia quase todo o Paraná, foi local de trânsito de portugueses e espanhóis que iam e vinham de Assunção em direção às vilas do litoral brasileiro, palco de guerras variadas e constantes. A conquista desses territórios foi feita palmo a palmo, com o uso da espada, do arcabuz, da besta, da cruz, de doenças e de acordos. Alianças foram estabelecidas e rompidas, e de ambas as partes fidelidades foram sacramentadas e traições meticulosamente planejadas. 2.1 O GUAIRÁ E SUA POPULAÇÃO, ENTRE 1500 E 1632 • O território Por ocasião da expansão marítima, havia uma divergência entre Portugal e Espanha sobre os limites das terras que conquistaram. Isso levou à assinatura do Tratado de Tordesilhas (1494), 15 Conferir os trabalhos de Lúcio Tadeu Mota, Francisco Noelli e outros pesquisadores sediados no Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações – Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-história da Universidade Estadual de Maringá. 48 segundo o qual o mundo ficaria dividido entre as duas metrópoles coloniais, ou seja, as terras descobertas e a descobrir seriam divididas entre as duas nações. Pelas determinações desse tratado, uma linha imaginária passaria a 360 léguas da Ilha de Cabo Verde, e todas as terras que estivessem a leste pertenceriam a Portugal; e a oeste, à Espanha. O território do atual Paraná estava localizado a ocidente dessa linha, mas não havia concordância entre espanhóis e portugueses quanto à divisão. Para [...] cosmógrafos espanhóis caia no mar na altura de Iguape, embora para os portugueses terminasse na altura de laguna, e a expedição de (1532), ainda mais ao sul, procurasse estender o direito lusitano colocando marcos na foz do rio da Prata (MARTINS, 1995b, p. 59)16 A discussão sobre os limites territoriais avançaram pelos séculos XVII e XVIII, quando se estabeleceram as reais fronteiras nas nações. A presença de portugueses avançando pelo sertão após a linha de Tordesilhas foi intensa ao longo dos séculos XVI e XVII, sentida, por exemplo, pela atuação dos bandeirantes paulistas em busca de metais preciosos e indígenas para o trabalho escravo, o que determinou uma divisão diferente da estabelecida. O que se pode afirmar é que, pela divisão imposta pelo Tratado de Tordesilhas de 1494, ficava bastante evidente que a quase totalidade do atual território do Paraná era domínio dos 16 Cf. MARTINS, 1995b, p. 59. 49 espanhóis, ficando para os portugueses uma pequena faixa de terra do litoral. Informações detalhadas sobre o Guairá são encontradas nos escritos do historiador e conquistador Ruy Diaz de Guzmán, sobrinho-neto de Don Álvar Nuñes Cabeza de Vaca, o primeiro espanhol que passou por essas terras e as denominou de Província de Vera. Para o autor, o território correspondia aos [...] campos que corren y confinan com el Río de la Plata, que llaman de Guayra.17 O delineamento do Guairá também é encontrado nos escritos do Padre Nicolas del Techo, segundo o qual [...] El Guairá está situado en la parte del Paraguay que mira al Brasil y al Occidente del rio Paraná; por el Sur acaba en los campos que baña el Uruguay, y por Norte en selvas y lagunas no bien conocidas; su extensión es considerable […]18 17. Cf. GUZMÁN, Ruy Diaz de 1836, p. 32 e 67. Com respeito a essa demarcação, na mesma obra, no Índice Geográfico e Histórico, p. 392, existe a explicação de que o Guairá era um “[...] Vasto e inculto território entre las províncias meridionales del Brasil y el Paraguay y tan poco conocido que no es posible demarcar sus limites [...]”, ou seja, o autor erra quando diz que a região limitava-se com o Rio da Prata. 18 Cf. TECHO, Nicolas del.[1673], 2005, p. 196), 50 Figura 1. Mapa do Guairá Fonte: Ramon Cardoso, 1918 • O encontro Como vimos no capitulo anterior, o sul do Brasil e mais especificamente o Paraná, quando da chegada dos europeus, estava habitado pelas populações falantes do tronco linguístico Tupi, no caso os Guarani e Xetá, e os falantes das línguas do tronco Macro-jê, os Kaingang e Xokleng. Dessa forma, os marinheiros que desembarcaram dos navios espanhóis e portugueses na costa sul do Brasil fizeram contato primeiro com os Carijós, como eram chamados os Guarani, e quando eles começaram a percorrer o interior passaram a ter contatos com populações de fala diferente dos Carijós, os grupos falantes do tronco linguístico Jê, hoje conhecidos como Kaingang e Xokleng. 51 Os primeiros contatos de europeus com as populações indígenas no Guairá ocorreram a partir do início do século XVI, quando os navios portugueses e espanhóis começaram a aportar no litoral sul. Esses navegantes procuravam, num primeiro momento, uma passagem para as Índias, até que em 1520 Fernão de Magalhães cruzou o estreito que levaria seu nome, no extremo sul do continente, e alcançou o objetivo de chegar às Índias navegando para o ocidente. A partir da descoberta de ouro e prata no Peru, o principal objetivo desses europeus era chegar ao Império Inca, e para isso a travessia do território do Guairá era uma opção se não quisessem contornar todo o sul até o Rio da Prata e subir o rio Paraguai. Dessa forma é que os navegadores realizaram contato com os Guarani, e com eles fizeram as primeiras trocas comerciais. Objetos vindos da Europa, principalmente artefatos de metais, foram trocados por comida, lenha, peles de animais, pássaros e outras raridades de interesse dos marujos. Também deixaram no litoral os “desterrados”, ou “náufragos”. Nesse momento pode-se constatar que relações entre povos diferentes ocorreram em torno dessas trocas, e o objetivo de descobrir se havia metais preciosos na região aceleraram esses contatos. Pelo lado dos portugueses e espanhóis, a busca de metais, pedras preciosas e outras mercadorias de valor a serem comercializadas na Europa; e pelo lado dos indígenas, a possibilidade de acessar ferramentas de metal e outros objetos trazidos da Europa foram o motor dessas 52 relações interculturais, de populações diferenciadas culturalmente, no Guiará. Foram inúmeras as armadas e embarcações vindas da Europa que passaram no litoral sul do Brasil ou aí aportaram, nos primeiros 30 anos da conquista. Quadro 1: Embarcações vindas da Europa que aportaram no sul do Brasil até 1535 D ATA VIAJA NTE A RMAD A LOCAIS de CHEGADA DESEMBARQUE DE TRIPULANTES 1 501/08/ 17 Gonzal o Coelho Américo Vespúcio 3 Caravel as Cananéia SP Oceano Atlântico 53º Latitude. Sul altura de Punta Arenas na Patagônia Em Cananéia 15/02/1502, G. Coelho deixa um degredado (Bacharel de Cananéia) 1 503/08/ 10 Gonzal o Coelho Américo Vespúcio, João Lopes de Carvalho e João de Lisboa – Pilotos 6 Caravel as Bahia de Todos os Santos BA, até São Vicente SP Foram deixados 24 homens em uma fortaleza em São Vicente, em São Paulo, daí entraram 40 léguas terra adentro 1 504/01/ 05 Binot Paumier de Gonneville 1 Navio L’Espoi r Espera nça São Francisco do Sul SC, Desembarcaram nesse local onde permaneceram seis meses: de janeiro a julho de 1504, vivendo com os Guarani do cacique Arosca 1 514/07/ 00 Estevã o Frois e João de Lisboa 2 Caravel as Cabo de Santa Maria –Punta del Leste Uruguai Encontro com os índios Charruas depois de subirem 300 Km pelo Rio da Prata 1 516/01/ 00 Juan Dias de Solis 2 Caravel as Cananeia, Santa Catarina, Rio da Prata Solis e seus homens foram mortos na embocadura do rio Uruguai no Rio da Prata, ficando vivo Francisco Del Puerto, um grumete de 14 anos 53 1 516/08/ 00 Cristóv ão Jaques 3 Naus Cabo Frio, Rio de Janeiro, Santa Catarina Jaques fora nomeado guarda- costa do Brasil, pelo Rei de Portugal. Perseguiu os espanhóis e franceses que aportaram na costa brasileira 1 519/12/ 13 Fernan do de Magalhães 4 Naus e 1 Caravel a Rio de Janeiro, Rio da Prata (1520/01/11) Contornou o estreito que levou seu nome na Patagônia 1 521/00/ 00 Cristóv ão Jaques 2 Caravel as Santa Catarina Em SC recolheu Melchior Ramires, um dos náufragos da expedição de Solis, e subiram 200 Km acima no rio Prata, na Ilha de São Gabriel, onde encontrou Francisco Del Puerto. Subiu o rio mais 140 Km, até onde hoje é a cidade argentina de Rosário 1 526/08/ 00 Jofre de Loyasa, D.Rodrigo de Acuña Porto dos Patos SC Estavam percorrendo a rota de Magalhães, e por mau tempo tiveram que voltar às costas do Brasil 1 526/10/ 31 Sebasti ão Caboto (Veneziano) 3 Naus Santa Catarina Caboto encontrou Henrique Montes, náufrago de Solis, que lhe deu noticias da expedição de Aleixo Garcia ao Peru. Caboto entrou no rio da Prata, navegou os rios Paraguai e o Paraná 1 528/05/ 07 Diego Garcia 1 Nau e 1 Galeão São Vicente, Cananéia(1528/01/ 15), Encontrou com Caboto descendo o rio Paraná. Seu destino era as Ilhas Molucas na Ásia 1 531/01/ 00 Martin Afonso de Souza 1 Galão, 2 Naus, 2 Caravel as Percorreu o litoral sul do Brasil até Punta Del Leste, no Uruguai. Pero Lopes subiu o rio Paraná e na volta estiveram na Baía de Paranaguá 1 Pedro Percorreu o 54 535/00/ 00 de Mendonça litoral sul do Brasil e foi fundar a cidade de Buenos Aires Quando os primeiros europeus começaram a desembarcar no litoral sul do Brasil para abastecer seus navios com água, lenha e alimentos, ou foram deixados como desterrados ou náufragos, eles tomaram conhecimento, por meio dos Guarani, das enormes riquezas existentes a oeste dos seus territórios. Em conjunto com esses índios prepararam expedições para irem até as terras onde existiam ouro e prata em abundância. Começou então o processo de desvendamento e conquista dos territórios indígenas do interior do que seria mais tarde o Estado do Paraná. Do litoral os conquistadores subiram a Serra do Mar em direção ao poente, rumo às minas de prata na Cordilheira dos Andes. As primeiras expedições, como a de Aleixo Garcia em 1522, tiveram o objetivo de fazer o reconhecimento e descobrir a origem do ouro encontrado com os Carijós na costa de Santa Catarina. Acompanhados de cerca de 2 mil Guarani, a viagem demorou três anos. Partiu do litoral de Santa Catarina, passou pelo interior do Paraná, pelo Paraguai e pela Bolívia, até chegar ao Peru, nas periferias do Império Inca; na volta, em 1526, Garcia foi morto pelos Guarani na região da Foz do Iguaçu. A história dessa expedição foi contada e recontada na tradição oral dos Guarani até que 55 chegou aos ouvidos dos primeiros cronistas espanhóis em Assunção, no Paraguai.19 Interessado em buscar riquezas no sertão, Martim Afonso de Souza enviou de Cananeia, a Francisco de Chaves e Pero Lobo juntamente com 80 homens, rumo ao interior do Paraná, por terra. Esses homens foram mortos pelos Guarani em algum lugar entre Sete Quedas e Foz do Iguaçu, provavelmente em 1531. Podem ter seguido os mesmos caminhos percorridos por Aleixo Garcia. Dez anos depois, quando já havia sido criada a cidade de Nossa Senhora de Assunção, a capital do Paraguai, Dom Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, após várias aventuras na América do Norte, veio tomar posse e comandar a província do Paraguai, em nome do Rei da Espanha. Desembarcou na ilha de Santa Catarina, e no final de 1541, partindo da foz dorio Itapucu, rumou para Assunção no Paraguai, aonde chegou quatro meses depois, acompanhado por 250 arcabuzeiros e balesteiros. Durante a expedição foi acompanhado por centenas de índios Guarani. A cada novo território que ingressava a expedição dispensava os acompanhantes do território anterior, e mediante pagamentos em espécie (machados, contas, etc.) integrava novos guias para o percurso seguinte. Subiram a Serra do Mar, alcançaram o rio Negro (na altura de Rio Negrinho - SC) e desceram até a sua desembocadura, no rio Iguaçu. Para contornar o 19 Cf. GUZMÁN, Ruy Diaz de. La Argentina. Emece, Buenos Aires, [s.n., ]1998, p. 50-59. 56 território dos Kaingang20 tiveram de atravessar o rio Iguaçu e se dirigiram a noroeste em direção às cabeceiras do rio Tibagi. Nas proximidades da foz do rio Iapó no Tibagi, na atual cidade de Tibagi, a expedição dirigiu-se para oeste até chegar ao rio Ivaí. Dali Cabeza de Vaca rumou para o sudoeste, atravessando o rio Piquiri até alcançar o rio Iguaçu, a poucos quilômetros de sua foz, de onde seguiram até Assunção. O relato de Alvar Nunez Cabeza de Vaca é importante na medida em que descreve, ao longo de sua expedição, o contato e a entrada em territórios pertencentes a diferentes grupos Guarani, e desvia no seu trajeto dos territórios Kaingang em Guarapuava e Palmas. Esse foi o primeiro documento a informar que quase todo o interior do Paraná estava habitado e, ao mesmo tempo, a mostrar que havia uma divisão política entre esses diversos grupos de mesma matriz cultural, organizados politicamente em cacicados.21 E ainda que indiretamente, devido à imensa volta que a expedição fez não seguindo o vale do rio Iguaçu, isso nos dá uma noção da extensão do território dominado pelos Kaingang nos Koran-bang-rê (Campos de Guarapuava). 20. O Barão de Capanema sustenta que Cabeça de Vaca deu uma volta de mais de 80 léguas, evitando seguir diretamente pelas margens do rio Iguaçu ou pelos campos de Guarapuava ao norte, e os campos de Palmas ao sul desse rio, porque esses eram territórios ocupados por índios ferozes, mais valentes que os guaranis. Cf. CAPANEMA. Questões a estudar em relação aos princípios da nossa história. RIHGB, 52(1):499-509. Cabeza de Vaca evitou transitar pelos territórios dos Kaingang, por isso desviou-se dos Koran-bang-rê (campos de Guarapuava) e dos Kreie-bang-rê (campos de Palmas) e seguiu o caminho indicado pelos Guarani ao norte. 21 Conjunto de aldeias sob a liderança de um prestigioso cacique, que dominava certas porções de territórios bem definidos. 57 Rota aproximada da expedição de Dom Alvar Alvar Núñez Cabeza de Vaca - 1541 Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História Universidade Estadual de Maringá Denominação: Data: Fevereiro de 2011 Fontes: Autores: Éder da Silva Novak; Everson Cézar; Juliano Martins da Silva Marcelo Luiz Chicati; Marcos Rafael Nanni; Lúcio Tadeu Mota Cartas Topográficas do Estado do Paraná Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações Rio Paranapanema R io Tibagi IvaíRio Piquiri Iguaçu Rio R io Pa ran á R io Rio Itapocú SC P/ Assunção Rios Rota da Expedição de Cabeza de Vaca Rota da Expedição de Cabeza de Vaca - 1541 Relatos do Cabeza de Vaca Figura 2: Rota aproximada da expedição de Dom Alvar Alvar Núñez Cabeza de Vaca - 1541 Os contatos entre europeus e indígenas no litoral do Paraná também foram registrados por Hans Staden. Viajando em direção ao Rio da Prata na expedição do adelantado Diego de Sanabria, sob o comando de Juan de Salazar, ele naufragou em 1550 na baia de Paranaguá, no porto de Superagui. Staden foi um dos que primeiro escreveu sobre o litoral do Paraná e sua população, como podemos conferir em: Duas viagens ao Brasil. Relata que ele e sua expedição, depois das manobras e dos perigos que tiveram que enfrentar numa noite de tempestade, conseguiram aportar em algum lugar da Baía de Paranaguá, onde encontraram degradados portugueses vivendo com os índios Tupiniquins. Vejamos: 58 [...] nos disseram que o porto onde estávamos era Supraway, que estávamos a 18 léguas de uma ilha chamada S. Vicente, [...] La moravam eles e aqueles outros que tínhamos visto no barco pequeno a fugirem por pensarem que eramos franceses. Perguntamos também a que distância ficava a ilha de Santa Catarina, para onde queríamos ir. Responderam que podia ser umas trinta milhas para o Sul e que lá havia uma tribo de selvagens chamados Carios e que tivéssemos cautela com eles. Os selvagens do porto onde estávamos chamavam-se Tuppin Ikins (STADEN, 2000, p. 38-39).22 Dessa forma, os dois portugueses que viviam com os índios na Baia de Paranaguá informaram que o lugar se chamava Supraway (Superagui), e que os índios que ali viviam eram os Tuppin Ikins (Tuniquim), que dominavam a costa de Paranaguá até São Vicente e eram aliados dos portugueses. Informaram também que ao sul de Superagui encontravam-se os Carios (Guarani), inimigos dos Tupiniquim. 22 Cf. STADEM, Hans. Duas viagens ao Brasil. São Paulo: Beca, 2000. p. 38-39 59 Figura 3: Superagui – Xilogravura de Hans Staden Fonte: (STADEM, 2000, p 38). Em 1544, Domingos Martínez de Irala, então governador do Paraguai, saiu de Assunção e veio ao Guairá apresar índios para as encomiendas. Fundou a cidade de Ontiveros junto ao rio Paraná, pouco acima da foz do Iguaçu. No início da década seguinte, em 1551, Diego de Sanabria viajou pelo mesmo itinerário de Cabeza de Vaca. 60 Ainda nesse ano, Cristoval de Saavedra atravessou a região indo do Paraguai até o porto de São Vicente, em São Paulo. No ano seguinte, Hernando de Salaza também fez o mesmo roteiro, de Assunção no Paraguai até o porto de São Vicente, em São Paulo. Esse também foi o roteiro percorrido por Ulrich Schmidl, no mesmo ano. Ele partiu de Assunção em 1552, acompanhado de 20 índios Guarani, com destino ao porto de Santos, aonde chegou em 1553. Ruy Dias Melgarejo, em 1553/1554, percorreu duas vezes o interior do Paraná, desde Ontiveros até São Vicente, e regressou em 1555, partindo do litoral, em Santa Catarina, e seguindo o mesmo roteiro de Cabeza de Vaca, pois ele havia participado em 1541 da expedição de Don Alvar Nunez. Melgarejo teve um destacado papel entre os conquistadores espanhóis no interior do Paraná, pois conduziu a fundação de Ciudad Real del Guairá (foz do rio Piquiri, município de Terra Roxa) e participou da segunda fundação de Villa Rica del Spiritu Sancto, junto à foz do rio Corumbataí, município de Fênix, hoje Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo23. O ano de 1555 foi marcado por várias ocorrências nesses territórios. Francisco de Gambarrota veio do Paraguai até o porto de São Vicente, em São Paulo. Nuflo Chaves saiu de Assunção para combater e apresar índios no Guairá, e Juan de Salazar e Cipriano de Góes fizeram o caminho inverso, partindo de São Vicente para o Paraguai. 23. FRANCO, Francisco de Assis Carvalho. Dicionário de bandeirantes e sertanistas do Brasil. [S.l.: s.n.],, 1954. p. 241. 61 No ano de 1588 os padres Manuel Ortega e Thomas Fields percorreram o Guairá fazendo trabalho missionário. A expedição dos padres coletou informações sobre a região, e os dados foram passados ao governador de Assunção, relatando sobre a existência de “milhares de índios Guarani” vivendo ali (MOTA, 2005,p. 25). Como se viu, todos os viajantes informaram sobre a existência de numerosos índios no território, inclusive de grupos distintos – Kaingang, além dos Guarani, que predominavam na região. Os contatos muitas vezes resultaramem lutas e morte, tanto de portugueses quanto de espanhóis, pelos índios, mas também em conquista e desagregação dos indígenas, por meio dos europeus. Praticamente nada ocorreu de forma pacífica, havendo resistência por parte dos indígenas. Nesse contexto é que os espanhóis procuraram dominar e estabelecer-se cada vez mais para o ocidente do Paraná, para defender as terras segundo o Tratado de Tordesilhas de 1494. Nessa região eles fundaram Ontiveros, perto da foz do Piquiri (1544); Ciudad Real del Guairá, na confluência do Piquiri, no Paraná (1555), e Vila Rica del Espiritu Santu, em 1576, que foi transferida para perto da foz do rio Corumbataí, hoje no município de Fênix (Parque Estadual de Vila Rica do Espírito Santo) As relações entre os espanhóis nas recém- fundadas vilas e os Guarani, que eram numerosos, não eram boas, pois os indígenas foram obrigados ao trabalho nas encomiendas, o que provocou diversas formas de resistências. 62 Essas resistências e a fuga para locais distantes das vilas espanholas levou parte dos conquistadores, no caso os religiosos, a traçarem uma nova estratégia para a conquista das almas dos indígenas. Essa nova estratégia foi a organização das reduções jesuíticas como forma de catequizá-los. • Caminhos Certamente pode-se ainda falar sobre as relações ou os encontros de indígenas com os europeus, na região do Guairá, no período que vai até a destruição das reduções jesuíticas, considerando-se que a comunicação dentro dos territórios realizava-se por meio de diversos caminhos, os quais foram percorridos pelos viajantes, exploradores europeus, desde o início do século XVI: ligavam o litoral ao planalto, mas também havia rotas terrestres que se estendiam do Rio Grande do Sul, por Santa Catarina, até os territórios do Paraná e de São Paulo. Assim como os espanhóis e os jesuítas, os bandeirantes paulistas também transitaram intensamente na região, e com toda a certeza pelos caminhos e pelas trilhas construídos pelos índios. As penetrações pelo território foram feitas pelos vales dos grandes rios (Iguaçu, Tibagi, Ivaí, etc.). As vias de comunicação, chamadas de “caminhos históricos” eram de condições de difícil trânsito, mas é por onde também passaram, num período posterior, tropas de gado bovino e muar. Esses caminhos tiveram muita importância na ocupação dos territórios do atual Paraná. Alguns 63 deles ficaram conhecidos como Caminho do Peabiru, de Cubatão, do Itupava e do Arraial, de Sorocaba e Viamão. Este último teve grande importância na formação de diversas cidades do Paraná Velho, indo ele do Rio Grande do Sul até Sorocaba, atravessando o Paraná. Quadro 2. Viajantes e conquistadores que cruzaram os territórios indígenas, hoje denominados Paraná, no século XVI e inicio do XVII A no de entrada Destino da Entrada ou Bandeira Chefe da Bandeira 15 25 Viagem ao Peru Aleixo Garcia 15 26 Paraguai Jose Sedenho 15 28 Rio da Prata Diogo Garcia 15 31 Paraguai Francisco de Chaves e Pero Lobo 15 34 Paraguai Antonio Lopes de Aguiar, Martim de Orue 15 38 Rio da Prata Gonçalo Mendonça 15 41 Paraguai/Assumpç ão Alvaro Nunez Cabeza de Vaca 15 44 Guairá Domingos Martinez de Irala 15 51 Paraguai/Assunçã o Diego de Senabria 15 51 Paraguai para São Vicente Cristoval de Saavedra 64 15 52 Assunção Nuflo de Chaves 15 52 Paraguai para São Vicente Hernando de Salazar 15 52 Paraguai para São Vicente Ulrich Schmidl 15 54 Ontiveros para São Vicente Ruy Dias Melgarejo 15 55 Assunção para o Guairá Nuflo de Chavez 15 55 Assunção para o Guairá Rodrigo de Vergara 15 55 Paraguai João de Salazar e Espinosa 15 55 Paraguai para São Vicente Francisco de Gambarota 15 55 São Francisco SC para Assunção Ruy Dias Melgarejo 15 56 São Vicente para o Paraguai Juan de Salazar e Cipriano de Goes 15 57 Ciudad Real del Guairá Ruy Dias de Melgarejo 15 76 Cidade Real do Guairá para Vila Rica do Espírito Santo Ruy Dias Melgarejo 15 81 Guairá Jerônimo Leitão 15 85 São Vicente para Paranaguá Jerônimo Leitão 15 88 Guairá Padres jesuítas Ortega e Fields 15 94 São Vicente Paranaguá Jorge Correia 15 95 Paranaguá Manoel Soeiro 65 16 01 Guairá Hernando Arias de Savaedra 16 02 São Paulo para o Guairá Nicolau Barreto 16 07 São Paulo para o Guairá Manoel Preto 16 07 Paraguai via Paraná Pedro Franco de Torres 16 11 Guairá Pedro Vaz de Barros 16 15 Santa Catarina Lázaro da Costa 16 16 São Paulo para o Paraguai Antonio Fernandes 16 23 São Paulo para o Guairá Henrique da Cunha Gago 16 23 São Paulo para o Guairá Manuel e Sebastião Preto 16 28 São Paulo para o Guairá Antonio Luis Grou 16 28 São Paulo para o Guairá Antonio Raposo Tavares 16 28 São Paulo para o Guairá Nicolau Barreto 16 31 São Paulo para o Guairá Antonio Raposo Tavares 16 31 São Paulo para o Guairá Cristóvão Diniz 16 48 São Paulo para o Guairá Antonio Domingues 16 48 São Paulo para o Guairá Antonio Raposo Tavares Fonte: Adaptado de JACOMINI, 2003. 2.2 AS REDUÇÕES JEDUÍSTICAS NO GUAIRÁ 66 A atuação dos jesuítas no Guairá iniciou bem antes da fundação das reduções. Os documentos da Coleção de Angelis, de jesuítas e bandeirantes no Guairá, compõem-se de várias cartas, informes e outros documentos que dão conta de todo esse trabalho. Os documentos tratam da doação de terras para a Companhia de Jesus na região, feita pelo governo do Paraguai; sobre as encomiendas de índios também dessa região aos espanhóis conquistadores; e incluem toda espécie de documentos relativos ao apoio que se deveria dar aos padres para o início das reduções. Um desses documentos, por exemplo, diz respeito a uma ordem do governador do Paraguai e Rio da Prata, D. Antonio de Añasco, para que em Ciudad Real se dessem apoio aos padres a fim de que fundassem reduções no rio Paranapanema e no Tibagi. É um documento da referida Coleção em que é possível se entender que os padres receberam apoio para tal empreendimento, e também que era do interesse dos espanhóis que os indígenas estivessem reduzidos, evangelizados e civilizados. O documento é do ano de 1609. As primeiras reduções do Guairá foram organizadas em 1610, como se lê: [...] Por el presente mando al cap. Pero garçia y outra qualquer Justiçia de guayra, que en ninguna manera precisa asta que outra cosa se ordene y mande, no salgan ni embien a hacer malocas 67 Jornadas ni entrada ninguna a la Provª del yparanapane y Atibaxiva, ni outro ningun rio que cayga en el paranapane, porquanto de presente se pretende reduçir a los naturalles della por médio del Padre Joseph Cataldino y el P. Simon Maseta de la compañia del nombre de Jesus a quien les esta cometida la dha reduçion, antes para Ella les acudiran y haran acudir con todo el favor y ayuda que fuere neccessº [...] (CORTESÃO, 1951, p. 137.24 Assim, Nossa Senhora do Loreto e Santo Inácio, nas margens do rio Paranapanema, foram as primeiras reduções jesuíticas fundadas no Guairá, e após elas mais 12 outras se organizaram, nos vales dos rios Paraná, Iguaçu, Piquiri, Ivaí, e Tibagi. As reduções de São José, São Francisco Xavier, Encarnación e São Miguel localizaram-se no Vale do Rio Tibagi. Nas margens do Rio Ivaí localizavam-se as reduções de Jesus Maria, Santo Antônio e São Paulo. São Tomás e Sete Arcanjos estavam nas terras do cacique Taioba (Cortesão, 1951, p. 245). Nas cabeceiras do Rio Piquiri, as de São Pedro e Concepção. Efinalmente, no médio Piquiri, a redução de Nossa Senhora de Copacabana, totalizando as 14 reduções conhecidas, fundadas na região do Guairá. 24 . CORTESÃO, Jaime. Jesuítas e bandeirantes no Guairá. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1951. p. 137. 68 Fig ur a 12 : A s Re du çõ es J es uít ica s e as C ida de s Es pa nh ola s La bo ra tó rio d e A rq ue ol og ia , E tn ol og ia e E tn o- H is tó ria U ni ve rs id ad e Es ta du al d e M ar in gá D e n om in a ç ã o : D a ta : Ja ne iro d e 20 07 F o n te s : C ar ta s To po gr áf ic as d o E st ad o d o Pa ra ná P ro gr am a In te rd is ci pl in ar d e Es tu do s de P op ul aç õe s A s R e d u ç õ es J e s u ít ic as e a s C id a d e s E sp a n h o la s Te se d e D ou to ra do K im iye T om m as in o ri o P ar a na pa ne m a rio Ti bag i Iva í rio Pi qu i ri Ig ua çu r io rio Pa ra ná Rio N o ss a S en ho ra do L o re to S an to In ác io V ila R ic a do E sp ír i to S an to S ão T om as L os A n ge le s S ã o P au lo Je su s y M ar ia S ão M ig u e l E nc ar na ci on S ã o Fr an ci sc o X av ie r S ão J os é C iu da d R e al de G ua ira C on ce p ci on S ã o P ed ro S an ta M ar ia R io s Ci da de s E sp an ho la s R io s R ed uç õe s J es u íti ca s L e ge n d a LA EE A u to re s : É d er d a S ilv a N ov ak ; Lú ci o T a de u M o ta ; J ai m e Lu iz L . P e re ira Figura 4: Mapa do Paraná com as reduções jesuíticas Fonte: Adaptado de MOTA; NOVAK, 2008 O padre Antonio Ruiz de Montoya informa o significado do termo redução: Chamamos reduções aos povos de índios que vivendo à sua antiga usança nos montes, foram reduzidos pelas diligências dos padres a povoações grandes e à vida política e humana (MONTOYA, 1639, p. 6). 69 O ato de reduzir os indígenas em povoados tinha o objetivo de ensinar a doutrina católica e promover a civilização, como pretendia a Companhia de Jesus. Capdeville (1923, p. 19) diz: Se entiende por Misiones Jesuiticas, los establecimientos fundados por los jesuítas em América para la civilización y la formación cristana de los índios [...]. Se las há llamado también Reducciones, porque mediante um sistema particular, trataron los Jesuitas de hacer pasar a los índios de la vida salvaje de los bosques a la vida Cristiana de la comunidad. É preciso anotar, também, que os conceitos de missões, reduções e doutrinas foram usados para designar as povoações de indígenas sob o governo teocrático dos jesuítas. A organização das reduções não foi bem- vista nem pelos fazendeiros espanhóis instalados no Guairá nem pelos paulistas da recém- fundada São Paulo de Piratininga. Estes últimos já faziam incursões no Guairá para prear índios desde o inicio do século XVII. No limiar dos anos seiscentos os portugueses chegaram à região em busca do seu butim: escravos indígenas para o trabalho nas fazendas paulistas, metais preciosos e outras riquezas25. Porém, desde a fundação de São Vicente eles já preavam os Guarani do litoral e da encosta das serras paranaenses. 25. Sobre a preação de índios na região para o trabalho escravo em São Paulo, ver o livro de MONTEIRO, John M. Negros da terra. São Paulo: Cia das Letras, 1994. 70 Em 1602 Nicolau Barreto desceu o rio Paraná, passando pelo Guairá rumo às minas de Potosi, no Peru. Em 1607 foi a vez de Pedro Franco de Torres atravessar a região rumo ao Paraguai para fazer o roteiro já conhecido desde meados do século XVI. Nesse mesmo ano Manuel Preto, um dos maiores preadores de índios da época, dirigiu uma bandeira para o aprisionamento dos índios Guarani nas proximidades da cidade espanhola de Vila Rica do Espírito Santo. Procurando medidas estratégicas para conter as investidas dos bandeirantes paulistas contra o “seu” butim, o Rei da Espanha criou a Província del Guairá em 1608, que abarcava praticamente quase todo o Paraná. Ignorando as medidas protecionistas da coroa espanhola, Manuel Preto, acompanhado pelo temido Raposo Tavares, voltou ao Guairá em busca de mais índios nos anos de 1611, 1618, 1623 e 1628. Seu fim foi a morte por ferimentos de flechas em plena campanha de aprisionamento de índios no sul do Brasil (AZEVEDO, 1983).26. As primeiras décadas do século XVII foram marcadas por uma intensificação das ações dos europeus no Guairá. De um lado houve os choques entre os índios Guarani e os encomendeiros espanhóis, que os exploravam no trabalho semiescravo da coleta da erva-mate. Os padres jesuítas, em sua pregação religiosa, tentavam inculcar os valores da sociedade invasora junto às populações indígenas 26 . Cf. AZEVEDO, Victor de. Manuel Preto “O herói de Guairá”. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1983. 71 existentes na região. Contrariando os interesses dos encomendeiros espanhóis e dos padres da Companhia de Jesus vieram os paulistas, com a intenção de buscar seu butim. De uma perspectiva oposta, os índios faziam uma leitura própria da conjuntura, resultando eventualmente em alianças, acordos e guerras, o que torna complexo o entendimento sobre os fatos ocorridos nas relações deles com os invasores de seus territórios. Disso resulta que a análise histórica da ocupação da região não pode ser dicotômica: índios contra brancos ou vice- versa. Devem-se considerar os grupos conquistadores europeus e seus interesses localizados, bem como os Guarani e os Kaingang, que eram inimigos mas que, estrategicamente, estabeleceram alianças entre si. Alianças explícitas ou não, o fato de que em determinados momentos um grupo indígena podia procurar as reduções, mesmo sendo refratário à pregação missionária, pode significar apenas uma tática política momentânea para se livrar dos invasores paulistas ou do trabalho escravo nas encomiendas espanholas. Destruídas as reduções jesuíticas, as populações indígenas se dispersaram: parte foi para o sul junto com os padres fundar os sete povos das missões no Rio Grande do Sul, e outra parte voltou a ocupar seus antigos territórios. Mas a região não deixou de ser um atrativo para os paulistas tentarem aumentar seu butim. A partir de 1651, Fernão Dias Paes Leme ficou por três anos na região da Serra da Apucarana e submeteu os caciques da nação Guaianá, 72 ancestrais dos Kaingang, levando-os prisioneiros para São Paulo, com todo o seu povo. Pedro Taques, na Nobiliarquia Paulistana, relata essa expedição: Penetrou Fernão Dias Paes o sertão do sul até o centro da serra de Apucarana, no reino dos índios da nação Guyanãa, pelos annos de 1651; nelle existiu alguns annos, tendo estabelecido arraial com o troço das suas armas, para vencer a reducção daquelle reino, que se dividia em três differentes reis. [...] Poz-se em marcha o grande corpo daquelles reinos e todos seguiam gostosos esta transmigração debaixo do commando inteiramente do seu conquistador e amigo Fernão Dias (TAUNAY, 1955, p. 167).27 Esse fato ainda requer estudos mais aprofundados, pois certamente os índios não “seguiram gostosos” o “amigo” Fernão Dias. O paulista invasor teve de permanecer vários anos na região, estabelecendo um arraial, provavelmente um local fortificado, nos moldes do construído em 1628 por Raposo Tavares para conter o ataque dos índios. Taques fala em cerco imposto por Fernão Dias às plantações desses índios. Também fala de três caciques, Tombu, Sondá e Gravitay. Este ultimo morreu antes da partida paraSão Paulo; Sondá morreu na marcha (podemos sugerir a hipótese de que teria havido uma resistência desses caciques em seguir o 27. Cf. TAUNAY, Affonso de E. A grande vida de Fernão Dias Pais. São Paulo: [J. Olympio], 1955. p. 167. 73 bandeirante). Apenas o primeiro, Tombu, chegou a Santana do Paraíba, em São Paulo, onde morreu alguns anos depois. 2.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os territórios do Guairá, atual Paraná, estiveram, desde pelo menos 7 a 8 mil anos atrás, ocupados por diversos grupos indígenas. No início do século XVI os europeus, ao aportarem na região, iniciaram contatos com os indígenas, na maior parte das vezes, com o objetivo de subjugá-los. Por isso, para estudar a ocupação territorial paranaense é necessário buscar elementos etno-históricos que permitam entender essas populações como vivendo de forma dinâmica, produzindo cultura, as quais não podem ser tratadas como integrantes da história da região apenas após a chegada dos europeus. O que se pode confirmar é que relatos dos próprios viajantes, exploradores, missionários e outros que por ali passaram comprovam que o território era densamente habitado por milhares de indígenas, perfeitamente organizados cultural e politicamente, que mantiveram contatos com os europeus desde o início do século XVI. Os registros mostram que, após diversas tentativas de manter sua liberdade e seu modo de vida, os indígenas procuraram fazer alianças com os europeus ou fugiram, por exemplo, do domínio espanhol, que os obrigavam às encomiendas. Outras vezes empreenderam sangrentas guerras, 74 e embora fossem quase sempre em maior número acabaram sendo subjugados, escravizados, mortos ou segregados. Por seu lado, os europeus também tiveram sua parcela de dificuldades. As entradas para o interior dos territórios exigiram deles grandes esforços para chegar ao seu objetivo, que foi, sempre, alcançar as riquezas que sabiam ou imaginavam que houvesse no interior da América. Nesse caso, o Paraná atual foi território que os europeus atravessaram, partilharam e exploraram para conseguir seus objetivos As fontes revelam que os europeus penetraram no território e que as perdas foram enormes, principalmente para as populações primitivas. REFERÊNCIAS AZEVEDO, Victor de. Manuel Preto “O herói de Guairá”. 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WACHOWICZ, R. C. História do Paraná. Curitiba: Editar, 1972. WOLF, E. Europa y la gente sin história. 2. ed. México: FCE, 2005. ATIVIDADES 1) A discussão em relação à ocupação e à exploração das novas terras destaca como fator importante a ideia de que a terra era despovoada. Tais questões são confrontadas pela historiografia recente. Discuta esse posicionamento conforme aponta o texto. Para isso, utilize também fontes indicadas na bibliografia. 2) Elabore um texto-comentário sobre as primeiras expedições que passaram pelo sul do Brasil, utilizando os dados descritos no quadro 1, p. 5 e 6. 3) Utilizando a leitura do texto aponte, de forma sintética, os interesses dos bandeirantes paulistas, dos padres jesuítas e dos índios em relação à expansão colonial pelo sul do Brasil. 4) Aponte, com base no texto, quais foram as cidades espanholas fundadas no Guairá, a região em que se localizaram seus fundadores, o período em que foram fundadas, e sua importância para os espanhóis. 5) Destaque a importância da fundação das cidades espanholas no Guairá para a expansão e a colonização espanhola na região. Aponte os interesses em relação ao 80 território, às populações indígenas e aos portugueses. CAPITULO III. A FORMAÇÃO DO PARANÁ: DO POVOAMENTO DO LITORAL À EMANCIPAÇÃO DA 5ª COMARCA Lúcio Tadeu Mota 3.1 O POVOAMENTO DO LITORAL E AS ORIGENS DE CURITIBA Desde os primeiros anos de 1500 os europeus aportaram na região, e nessa época a baía de Paranaguá já era conhecida dos navegantes. Ocupada primeiramente pelas populações construtoras dos sambaquis, em 1500 ela era habitat dos Tupiniquins, que disputavam esses territórios com os Guarani, então chamados de Carijós. O grande estuário foi denominado de Paranaguá, que em Tupi, Paraná- guá, significa algo como “seio do mar”, ou “grande mar redondo”. 81 Uma das primeiras informações que temos da região é o mapa feito por Hans Staden, quando ele aqui esteve junto com Martim Afonso de Sousa e seu irmão Pero Lopes de Souza, em 1534, por ocasião da posse de suas capitanias hereditárias no sul do Brasil. Pelas informações de Hans Staden ali já viviam, em meio aos Tupiniquins, dois portugueses. Eram mais ou menos duas horas da tarde, quando deitamos âncora. De tarde, veio uma grande embarcação com selvagens, que queriam falar conosco. Nenhum de nós, porém, entendia a língua deles. Demos-lhes algumas facas e anzóis, com que voltaram. Na mesma noite, veio uma embarcação cheia, na qual estavam dois portugueses (STADEM, 2000, p. 38).28 Podemos inferir a presença de europeus na região da baía de Paranaguá desde os primeiros momentos de sua chegada no continente. Mas a região passou a ser frequentada com mais assiduidade por faiscadores de ouro e preadores de índios vindos de São Vicente, no litoral paulista, desde 1554. Foram várias as bandeiras que percorreram o litoral do Paraná com esses objetivos. Em 1585 Jerônimo Leitão, em 1594 Jorge Coréia, em 1595 Manoel Soeiro, e em 1617 foi a vez da bandeira de Antonio Pedroso, até que foi descoberto ouro nos ribeirões da região. Teve 28 Cf. STADEM, Hans. Duas viagens ao Brasil. São Paulo: Beca, 2000. p. 38. 82 inicio então o povoamento definitivo, com a fundação das primeiras vilas do litoral. 83 Figura 1: Extrato do Mapa. Demonstração do Pernagua e Cananeia. Livro de toda a costa da província de Santa Cruz feito por João Teixeira Albbernaz, Anno D. 1666. Fonte: Mapoteca do Ministério das Relações Exteriores (654). � Paranaguá A primeira sesmaria, requerida por Diego de Unhate em 1614, abrangia vastos territórios no rio Superagui. Anos mais tarde Gabriel de Lara fundou uma povoação na ilha da Cotinga, depois transferida para o continente. Em seis de janeiro de 1646 foi levantado o Pelourinho, e em junho de 1648 ocorreu a primeira eleição para a Câmara Municipal de Paranaguá. As possibilidades de gerar riquezas, com o garimpo de ouro nos riachos da serra e do planalto, aumentaram a importância da região diante da coroa. Tanto que em 1660 Gabriel de Lara foi nomeado capitão-mor da Capitania de Nossa Senhora do Rosário de Paranaguá. Ela existiu até 1709, mas a partir de 1711, com a diminuição das atividades do faiscamento do ouro, perdeu o status de capitania e foi integrada à Capitania de São Paulo, como a Quinta Comarca de Paranaguá e Curitiba (WACHOWICZ, 1988, p. 39-51).29 � Antonina 29 Para maiores detalhes sobre o assunto ver: WACHOWICZ, Ruy. História do Paraná., Curitiba: G. Vicentina, 1988. p. 39-51. Cap. 3. 84 Como as outras vilas do litoral, Antonina também surgiu em decorrência da presença de faiscadores de ouro na região. No entanto, a fundação da povoação só ocorreu no século XVIII, em 1714, com a construção da capela de Nossa Senhora do Pilar da Graciosa. Somente muito mais tarde, em 1797, é que ela foi elevada a vila, com a denominação de Antonina, em homenagem ao Príncipe D. Antonio, primeiro filho do Rei Dom João VI e de Dona Carlota Joaquina. � Morretes Situada às margens do rio Nhundiaquara, local de passagem dos faiscadores de ouro que subiam a serra, Morretes foi fundada por determinação do ouvidor Rafael Pires Pardinho, em 1721. Anos depois, em 1769, a população teve permissão para erguer a capela de Nossa Senhora do Porto e Menino Deus dos três Morretes, e somente no século seguinte, em 1841, Morretes foi desmembrado de Antonina e elevado a município. � Guaratuba Os historiadores dão como data provável da fundação da povoação de Guaratuba, por Gabriel de Lara, o ano de 1656. Um século depois ela foi inserida na política de defesa do litoral sul do Brasil pelo então governador da Capitania de São Paulo, D. Luiz A. de Souza, o Morgado de Mateus. Este enviou para a região o tenente- coronel Afonso Botelho com a missão de incrementar a ocupação de região e construir fortes para defesa do litoral. 85 � Curitiba Na primeira metade do século XVII os faiscadores de ouro já tinham chegado ao primeiro planalto paranaense e exploravam seus riachos e ribeirões em busca do metal precioso. O local era habitado pelos índios Guarani, que exploravam os imensos pinheirais da região, e com certeza mantinham relações sociais e comerciais com os habitantes não-índios do litoral e com os mineradores de ouro já algum tempo antes da elevação do Pelourinho, em 1668, por Gabriel de Lara. Com o crescimento da povoação, no final de século XVII foram eleitas as autoridades locais com a constituição da Câmara Municipal em 1693, data da fundação da cidade. 3.2 A OCUPAÇÃO DOS CAMPOS GERAIS: AS FAZENDAS DE CRIAR E O CAMINHO DO VIAMÃO Os campos Gerais, situados no segundo planalto paranaense, começaram a ser povoados por fazendeiros de São Paulo, Santos, Paranaguá e pelos estabelecidos nos campos de Curitiba, no início do século XVIII, quando foi descoberto ouro em Minas Gerais e se criou uma forte demanda por animais cavalares e muares,criados em abundância nos campos do sul do Brasil e no Uruguai. Essa demanda e essa possibilidade de negócios fizeram com que as famílias abastadas de São Paulo requeressem enormes sesmarias na região e para ali enviassem parentes ou 86 capatazes para estabelecerem fazendas de criar gado. Com o inicio das atividades do tropeirismo, que consistia em comprar animais nos campos de Vacaria, no Rio Grande do Sul, e vendê-los em Sorocaba, em São Paulo, começaram a surgir as povoações ao longo dessa rota. Essas povoações, que no inicio eram locais de pouso e descanso dos tropeiros, passaram a aglutinar pequenos artesãos e pequenos comerciantes, e logo se transformaram em vilas e cidades, como Ponta Grossa, Castro, Lapa e muitas outras. Assim é que ocorreu a ocupação dos vastos campos naturais do segundo planalto do Paraná: enormes sesmarias em torno da rota Sorocaba – Vacaria. A sociedade estabelecida nos Campos Gerais se caracterizou por ser uma sociedade constituída de famílias patriarcais, que iam além da família nuclear. Abrigavam em seu seio agregados e homens pobres livres, protegidos dos grandes proprietários por ser uma sociedade sustentada no trabalho escravo, com a característica de que esse trabalho típico de escravos – a lida com o gado em campos abertos – requeresse que andassem armados para protegerem, a si e ao gado do seu senhor, dos índios e dos animais predadores. Tratava-se de uma sociedade assentada na grande propriedade, ou seja, nas grandes sesmarias de criação de gado bovino, muar e cavalar. 87 3.3 A DESCOBERTA DE OURO E DIAMANTES, AS EXPEDIÇÕES MILITARES E A IMPLANTAÇÃOA DAS FAZENDAS NO VALE DO RIO TIBAGI,NOS SÉCULOS XVIII E XIX A serra de Apucarana e o vale do Tibagi continuaram sendo atrativos para os aventureiros e uma esperança de riquezas. Esses aventureiros deram continuidade aos bandeirantes do século XVII. Em meados do século XVIII, Francisco Tosi Colombina apresentou aos governantes um plano de ocupação dos territórios do rio Tibagi, que no seu entendimento eram ricos em ouro e diamantes. E qual era o seu plano? E para senhorearse com facilidade dessas terras do Tabagy que agora estão ocupadas do numeroso Gentio Guayanã, [...] um dos melhores meyos hé transportar huns Casaes dos indios mansos, que se achaão nas aldeas de São Paulo, e lá Aldealos (COLOMBINA, 1974, p. 33).30. O plano de Colombina não foi levado adiante, mas foram descobertos ouro e diamantes em Pedras Brancas, a sudoeste da atual cidade de Tibagi, por Ângelo Pedroso e Frei Bento de Santo Ângelo31. Essas descobertas causaram a disputa das terras das minas do Tibagi por poderosos donos de lavras de Minas Gerais e autoridades de Paranaguá. Em 1757 o Ouvidor de Paranaguá 30. Cf. COLOMBINA, Francisco Tosi. Descobrimento das terras do Tibagi. Maringá: UEM,, 1974. p. 33. [1753]. 31. Cf. MERCER, Edmundo; MERCER, Luiz L. História do Tibagi. Curitiba: Prefeitura Municipal de Tibagi, 1977. p. 23. 88 enviou uma bandeira de 200 soldados para Pedras Brancas com a finalidade de submeter os posseiros. Enviada pela Câmara de Curitiba para vigiar os garimpos de Pedras Brancas, essa guarda ficou acantonada, no registro de Nossa Senhora do Carmo, na foz do rio Capivari, junto ao rio Tibagi, até 1765. Nessa área foi instalado o forte militar de Nossa Senhora do Carmo. Ainda no século XVIII os vales do Tibagi e do Ivaí foram marcados pela passagem das expedições militares de Morgado de Mateus, governador de São Paulo, com destino ao Forte Militar de Iguatemi, no Mato Grosso. Entre os anos de 1769 e 1774, várias expedições partiram do Porto de São Bento, no Tibagi, com destino ao rio Ivaí, e daí para o Mato Grosso32. Conforme Edmundo Mercer, o Porto de São Bento foi uma antiga fazenda situada à margem esquerda do Tibagi, 4 léguas acima da cidade do mesmo nome. Esse porto foi estratégico para as expedições que iam para o forte de Iguatemi, no Mato Grosso Em março de 1771 a terceira expedição da campanha de Afonso Botelho, comandada pelo capitão Francisco Lopes da Silva, desceu o rio Ivaí até as ruínas de Vila Rica do Espírito Santo, abandonada pelos espanhóis devido aos ataques bandeirantes em 1632: alí mandou o capitão botar roças e principiou o seu estabelecimento 32 . Para maiores detalhes sobre a campanha do Morgado de Mateus no Paraná e Mato Grosso ver: BOTELHO, Afonso. Noticia da conquista e descobrimento dos sertões do Tibagi; BELLOTTO, Heloísa L. Autoridade e conflito no Brasil Colonial: o governo de Morgado de Mateus em São Paulo; Davi CARNEIRO. Afonso Botelho de São Payo e Souza. 89 dando-lhe o nome de Vila Real do Rio Mourão33. Essa tentativa de estabelecer um posto de suprimentos para as expedições que desciam o rio Ivaí em direção ao Mato Grosso, desde a barra do rio Corumbataí com o Ivaí, não prosperou, e em pouco tempo a localidade foi novamente abandonada, e a floresta voltou a cobrir os vestígios da ocupação humana no local. No século XIX também foi iniciada a ocupação da bacia ocidental do Tibagi e dos campos ao seu norte pelos grandes fazendeiros dos Campos Gerais paranaenses, que procuravam expandir seus domínios. Em 1794, Antonio Machado Ribeiro – capitão de mato do sargento-mor José Felix da Silva – atravessou o rio Tibagi, acima do rio Iapó, e ocupou o lugar onde seria a cidade de Tibagi, no coração dos territórios kaingang. Em 1812, o próprio José Felix da Silva comandou uma expedição militar ao Tibagi. Por esse feito lhe foi dada a patente de tenente-coronel de milícias, para que ele comandasse, às próprias custas, uma expedição para descobrir o que houvesse no Tibagi. Entrou ele com uma companhia de aventureiros pelo Tibagi e descobriu diamantes na região. Essas descobertas explicam o rápido enriquecimento de José Felix da Silva, dono da Fazenda Fortaleza e de muitas outras na região de Castro e Tibagi34. 33. Cf. BOTELHO, Afonso. Noticia da conquista e descobrimento dos sertões do Tibagi. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 76, p. 10, 1956. 34. Cf. CHICHORRO, Manuel da Cunha Azeredo Coutinho. Memória em que se mostra o estado econômico, militar e político da Capitânia de São Paulo, quando seu governo tomou posse, em 8/12/1814. RIHGB, Rio de Janeiro, v. 36,p. 219, 1873. 90 Em 1820, Auguste de Saint-Hilaire excursionou pelos territórios do Paraná, vindo de Sorocaba - SP, pelo caminho dos tropeiros, até Curitiba. Aí presenciou a partida de expedições militares organizadas pelos fazendeiros da região contra os Kaingang, a oeste das grandes fazendas de criação. Dessa forma é que foram sendo implantadas fazendas de criar gado nas terras conquistadas dos Kaingang. A conquista desses territórios prosseguiu para o norte, no curso do rio Tibagi. Em 1838 iniciou- se a ocupação dos Campos do Inhoó, por Manoel Inácio do Canto e Silva. John Elliot informou que oito anos antes de sua entrada nesses campos, em 21/10/1846, o neto de José Felix da Silva, coronel Manoel Inácio, tinha mandado abrir uma picada de cargueiros até esses campos, e para poder tomar posse mandou queimá-los. A partir da década de 1840 as iniciativas de ocupação das terras da bacia do Tibagi foram levadas adiante pelo Barão de Antonina (João da Silva Machado), o qual encarregou Joaquim Francisco Lopes e John Henrique Elliot de realizarem várias expedições de reconhecimento na região. Conforme Elliot, a 2ª expedição enviada pelo Barão foi comandada por Joaquim Francisco Lopes e ele, como piloto mapista, num total de nove pessoas. Saíram da fazenda Monte Alegre, pertencente a Manoel Inácio do Canto e Silva, atravessaramo Tibagi e seguiram rumo norte-noroeste em direção à Serra da Apucarana. No dia 15/9/1846 chegaram ao rio Apucarana, nas fraldas da serra. Subiram essa serra, e por vários dias esperaram até que as condições 91 atmosféricas lhes permitissem vislumbrar toda a região. Elliot afirmou que desse local avistou os campos do Inhoó, distantes de 8 a 9 léguas a nordeste da margem ocidental do Tibagi, bem como as grandes áreas de florestas que se estendiam em direção aos rios Ivaí e Paranapanema. Por causa da visão que tiveram a partir desse mirante, concluíram que o Tibagi deveria ser navegável logo abaixo desses campos, e que seria necessário explorá-los para ver se comportariam a instalação de um depósito de gado, bem como para verificar as condições para o fornecimento de pastagens para as tropas que seguissem com mercadorias para embarcar no Tibagi, rumo ao Mato Grosso. Após estudar os relatos, o Barão determinou que eles deveriam prosseguir as explorações para abrir um caminho de Curitiba até o Mato Grosso. Uma semana após terem chegado da Serra da Apucarana, Lopes e Elliot, mais o genro do Barão de Antonina, partiram para os campos do Inhoó. Era uma expedição de 30 pessoas com dois índios como guias. Iniciaram a picada em 21/10/1846, e em 20/11/1846 chegaram a esses campos. Lá queimaram-nos, e os índios responderam com fogos em três lugares diferentes; a norte, distante 6 a 8 léguas, e mais um a nordeste, a 4 léguas. Demoraram na exploração dessas campinas durante 10 dias, pois eram várias campinas entremeadas de matos. No dia 4/12/1846 eles se encontravam nos campos de Inhoó, que denominaram de São Jerônimo. Concluíram que eles, os componentes da expedição, constituíam número suficiente para 92 a instalação de um depósito, isto é, um entreposto entre o futuro porto do Jataí e Castro. Em 16/12/1846, Lopes e Elliot e mais 12 pessoas, por determinação do Barão, rumaram dos Campos do Inhoó rumo ao norte por 1 ou 2 léguas, acompanhando o Tibagi. Seguiram para o ribeirão Santa Bárbara, depois acompanharam o rio Congonhas. Tudo indica que o itinerário seguido tenha sido o divisor de águas entre o rio Congonhas e o rio Tibagi. Em 13/1/1847 estavam de volta aos campos do Inhoó, depois de 25 dias. Em 15/3/1847, a 5ª entrada de Lopes e Elliot, também por determinação do Barão de Antonina, partiu dos Campos do Inhoó em direção aos fogos dos índios que eles tinham visto na exploração de novembro de 1846. Após atravessarem o rio Congonhas35, a 6 léguas dos campos de Inhoó, chegaram às terras queimadas. Ainda em 1847, o Barão de Antonina ordenou a José Francisco Lopes e João H. Elliot que partissem para descobrir o caminho para o Mato Grosso. Em 14/6/1847, Elliot, Lopes e 3 camaradas embarcam no Tibagi, uma légua abaixo dos Campos do Inhoó. No dia 20/9 iniciaram a viagem de retorno de Albuquerque, no Mato Grosso, para Perituva, em São Paulo, onde chegaram a 27/12, com 6 meses e 13 dias de viagem. A partir dessa data os territórios do cacique Inhoó nos planaltos a leste do rio Tibagi seriam transformados em entreposto comercial, caminho para o Mato Grosso, e fazenda de criação do 35. John Elliot disse que puseram esse nome nesse rio por causa da abundância de erva- mate que havia no local. 93 Barão de Antonina. O comerciante Antonio Prestes, em viagem para o Mato Grosso, em 1851, passou por São Jerônimo e lá encontrou José Raymundo Curim como administrador da fazenda do Barão de Antonina36. Podemos constatar que após seis anos da chegada de Lopes e Elliot aos campos do Inhoó, o Barão de Antonina já havia consolidado uma fazenda no território Kaingang, que após alguns anos seria repassada ao Império para a criação do aldeamento indígena de São Jerônimo. Mas a ocupação branca avançou para o norte e ultrapassou o rio Tibagi para as terras de suas margens ocidentais. Na década de 1850 foi instalada a Colônia Militar do Jataí, hoje cidade de Jataizinho, e em frente, na outra margem do rio, foi instalado o aldeamento indígena de São Pedro de Alcântara, com a finalidade de aldear os índios Guarani-Kaiová, que viviam no Mato Grosso às margens do rio Paraná, e os Kaingang, que viviam nas terras ao sul do aldeamento. A partir desse momento, tanto o aldeamento indígena quanto a colônia militar tornaram-se entreposto para os viajantes que seguiam para o Mato Grosso. 3.4 A OCUPAÇÃO DOS CAMPOS DE GUARAPUAVA E PALMAS 36. Cf. PRESTES, Antonio Dias Baptista. Viagem do Capitão D. Prestes e seu irmão Manoel D. B. Prestes desta província de São Paulo a Cuiyabá em 21/04/1851. RIHGSP, São Paulo, n. 28, p. 775, 1851. 94 No século XVIII, a corte reagia indignada ao desassossego que imperava nos territórios do sul do Brasil, que no dizer das autoridades estavam infestados de selvagens. A Carta Régia de novembro de 1808 relata ataques generalizados por todo o sul do Império, principalmente nos Campos Gerais de Curitiba, de Guarapuava e nos campos das cabeceiras do rio Uruguai. O Príncipe Regente propunha então guerra contra os índios, que matavam cruelmente todos os fazendeiros e proprietários estabelecidos nesses campos. Indignava-se ele com o abandono dos Campos Gerais de Curitiba e os de Guarapuava, assim como das terras com as vertentes voltadas para o rio Paraná. Tentativas de conquista e de ocupação efetivamente tinham sido feitas, como as das expedições de Afonso Botelho, nos anos de 1769 a 1774, as quais foram rechaçadas pelos índios Kaingang, então senhores desses territórios. Passados 40 anos, os campos Gerais, os de Guarapuava e Palmas continuaram [...] infestados pelos índios denominados Bugres que matão cruelmente todos os fazendeiros e proprietários que nos mesmos Paizes tem procurado tomar sesmarias e cultivalas, em beneficio dos Estado. [...] a maior parte das Fazendas que estão na dita Estrada (São Paulo - Rio Grande do Sul) serão despovoadas humas por terem os índios Bugres morto os seus moradores e outras com o temor que sejão igualmente victimas (MARTINS, 1915, v. 2, p. 86).37 37 Cf. Carta Régia de novembro de 1808. In: MARTINS, Romário. Documentos Comprobatórios, vol. II, p. 86. Em a Política Indigenista Brasileira no Século 95 Desde a expulsão de Afonso Botelho e suas tropas dos Koran-bang-rê, (Campos de Guarapuava), em 1772, os Kaingang, encorajados, faziam incursões cada vez mais ao ocidente. No início do século XIX, eram senhores dos territórios a oeste da estrada do Viamão, e atacavam constantemente fazendas, vilas e viajantes nas suas imediações. Com a chegada de Dom João VI ao Brasil, o Império tomou uma resolução: os índios deveriam ser combatidos, catequizados, "civilizados", e seus territórios deveriam ceder lugar a prósperas fazendas de gado. O governador da província de São Paulo convocou o experiente militar Diogo Pinto de Azevedo para organizar a ocupação dos territórios dos Kaingang e mantê-los afastados das fazendas de gado. Diogo Pinto era um militar disciplinado, duro, experiente e conhecedor dos campos de Guarapuava, pois ali estivera com o capitão Paulo Chaves em 1774. Era o perfil ideal para realizar o empreendimento, e em 1809 já se encontrava nos Campos Gerais, refazendo o antigo caminho das expedições de Afonso Botelho. Dessa forma, o ano de 1810 foi marcado pela chegada aos campos de Guarapuava de uma enorme expedição, com mais de 300 pessoas, das quais cerca de 200 eram soldados. O objetivo da expedição era ocupar esses campos, abrindo XIX, Carlos AraujoMOREIRA NETO afirma que a política indigenista brasileira durante o Império foi formulada em torno de critérios "estritos de dominação e subordinação", e tinha como objetivo a implementação e a consolidação do domínio da sociedade nacional sobre os grupos tribais. 96 espaço para as fazendas de criação. No dia dois de julho, acampam no lugar denominado Atalaia, último ponto alcançado pelo capitão Paulo Chaves em 1774. No dia 29 de agosto, os Kaingang fizeram um ataque em massa ao acampamento. Diogo Pinto e o padre Francisco das Chagas Lima atestaram a firme defesa do tenente Antonio da Rocha Loures. Sustentou corajosamente a defeza deste Aquartelamento da Atalaia por espaço de seis horas no primeiro e profiado combate que atentarão os índios deste continente quando virão nossa gente abarracado nos seus campos (FRANCO, 1943, p. 95).(38 38 . Cf. Atestado do comandante Diogo Pinto de Azevedo Portugal e do padre Francisco das Chagas Lima, elogiando a ação do tenente Rocha Loures na defesa do quartel de Atalaia, atacado pelos índios em 29 de agosto de 1810. In: FRANCO, Arthur Martins. Diogo Pinto e a conquista de Guarapuava. Curitiba: Museu Paranaense, 1943. p. 95. 97 Figura 2: Fortaleza de Atalaia, primeiro local de fundação da vila de Guarapuava Fonte: Kruger (1999) Na batalha foram mortos e feridos muitos índios, ocorrendo na força militar de Rocha Loures apenas ferimentos leves. Os Kaingang sofreram uma forte derrota e dispersaram-se pelos campos ao sul e a oeste da fortificação de Atalaia. Mas continuaram a atacar as forças de Diogo Pinto. Foram três meses de guerra contra uma tropa de mais de 200 soldados armados, inclusive com peças de artilharia, e acantonados na fortaleza de Atalaia, o primeiro nome da futura vila de Nossa Senhora do Belém de Guarapuava. Os Kaingang foram derrotados em 1810, porém sua resistência continuou. Passados cinco anos da ocupação dos campos guarapuavanos entre os rios Coutinho e Jordão, os brancos começaram a se movimentar em direção aos 98 campos de Palmas, ao sul de Guarapuava, onde chegaram 20 anos depois. Em 1839 os fazendeiros de Guarapuava tinham conquistados os Krei-bang-rê (Campos de Palmas). Ali tinham instalado 37 fazendas, com mais de 30 mil cabeças de gado, e fundaram a vila de Palmas. REFERÊNCIAS BELLOTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e conflito no Brasil colonial: o governo de Morgado de Mateus em São Paulo. São Paulo: Secretaria de Estado da Cultura, 1979. BOTELHO, Afonso. Notícia da conquista e descobrimento dos sertões do Tibagi. Anais da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, v. 76, p. 10, 1956 CHICHORRO, Manuel da Cunha A. C. Memória em que se mostra o estado econômico, militar e político da Capitania de São Paulo quando do seu governo tomou posse a 8/12/1814. Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, v. 36, p. 219, 1873. COLOMBINA, Francisco Tose. Descobrimento das terras do Tibagi. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 1974. FRANCO, Arthur Martins. Diogo Pinto e a conquista de Guarapuava. Curitiba: Museu Paranaense, 1943. KRUGER, Nivaldo. Guarapuava. Guarapuava, Fundação Santos Lima, 1999. MARTINS, Romário. Documentos comprobatórios dos direitos do Paraná na questão de limites com Santa Catharina. Rio de Janeiro: Jornal do Comércio, 1915. 99 MERCER, Edmundo; MERCER, Luiz Leopoldo. História do Tibagi. Tibagi: Prefeitura Municipal de Tibagi, 1977. MOREIRA NETO, Carlos Araújo. Política indigenista brasileira no século XIX. 1971. Tese (Doutorado em História)-FFCH, Rio Claro, 1971. MOTA, Lúcio Tadeu . As guerras dos índios Kaingang: a história épica dos índios Kaingang no Paraná (1769-1924). 2. ed. Maringá: Eduem, 2009. v. 500. 301 p. MOTA, Lúcio Tadeu; NOVAK, Eder da Silva. Os Kaingang do vale do rio Ivaí Pr: História e relações interculturais. 1. ed. Maringá: EDUEM, 2008. v. 500. 190 p. NOELLI, Francisco Silva; SILVA, F. A.; VEIGA, J.; TOMMASINO, Kimiye; MOTA, Lúcio Tadeu; D'ANGELIS, W. R. (Org.). Bibliografia Kaingang: referências sobre um povo Jê do Sul do Brasil. 1. ed. Londrina, Pr: EDUEL, 1998. v. 1000. 250 p. PRESTES, Antônio Dias Baptista. Viagem do capitão D. Prestes e seu irmão Manoel D. B. Prestes desta província de São Paulo a Cuiyabá em 21/04/1851. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, São Paulo, n. 28, p. 777, 1851. STADEM, Hans. Duas viagens ao Brasil. São Paulo: Beca Produções Culturais, 2000. TOMMASINO, Kimiye; MOTA, Lúcio Tadeu; NOELLI, Francisco Silva (Org.). Novas contribuições aos estudos interdisciplinares dos Kaingang. 1. ed. Londrina: Eduel, 2004. v. 500. 430 p. 100 WACHOWICZ, Ruy. História do Paraná. Curitiba: G. Vicentina, 1988. Atividades: 1. Conforme o texto estudado neste capitulo, O povoamento do litoral e as origens de Curitiba, aponte as cidades surgidas no litoral, naquela época. 2. O oeste e o noroeste do Paraná foram ocupados pelos europeus antes da fundação das cidades do litoral. Aponte quais foram as principais atividades desenvolvidas pelos espanhóis, pelos jesuítas e pelos bandeirantes na região, nos séculos XVI e XVII. 3. Qual foi a atividade econômica responsável pela ocupação e pelo surgimento das fazendas e cidades nos Campos Gerais, no século XVIII? 101 CAPÍTULO IV. O PARANÁ PROVINCIAL: 1853 – 1889 Dulce Elena Canieli39 Lúcio Tadeu Mota40 4.1 A LUTA PELA EMANCIPAÇÃO DA PROVÍNCIA DO PARANÁ Entre 1660 a 1770, a região onde hoje é o Estado do Paraná e parte de Santa Catarina, entre os rios Paranapanema ao norte e Uruguai ao sul, foi elevada ao status de capitania, 39 Mestre em História pela UEM, professora da Rede Estadual de Educação do Paraná – NRE/Maringá e pesquisadora no Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações - Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História - UEM. E-mail: dulceniegra@hotmail.com 40 Professor Associado no Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá, e pesquisador no Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações – Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História - UEM. ltmota@uem.br ltmota@terra.com.br 102 denominada Capitania de Paranaguá. Em 1770, com a restauração da Capitania de São Paulo, ela foi extinta e incorporada por esta como comarca. Em 1812 a sede da comarca, que era em Paranaguá, foi transferida para Curitiba, e passou a se chamar Quinta Comarca de Paranaguá e Curitiba. A luta pela emancipação política do Paraná teve seus antecedentes em 1811, quando Pedro Joaquim Correia de Sá, com pretensões de ser capitão-mor, tentou, junto à corte no Rio de Janeiro, a emancipação da comarca, mas fracassou. A segunda tentativa ocorreu em 1821, quando os defensores da emancipação retomaram o movimento, organizando a denominada "Conjura Separatista". Essa tentativa também fracassou, pois o Juiz de Fora Antonio Azevedo Melo e Carvalho – que visitava o Paraná – não atendeu ao apelo de Bento Viana – capitão da Guarda de Regimento de Milícia de Paranaguá – para que nomeasse um governo provisório independente de São Paulo. Mesmo com um desfecho desfavorável, o desejo de autonomia permanecia. Frequentemente, as câmaras de vereadores de Paranaguá, Morretes, Antonina, Lapa, Curitiba e Castro solicitavam autonomia ao Governo Imperial Brasileiro. Mas em 1835 ocorreu um fator favorável e decisivo para a autonomia do Paraná. Os liberais do Rio Grande do Sul entraram em luta contra o Império, organizados na "Revolução Farroupilha", e os liberais do Rio de Janeiro, São Paulo e 103 MinasGerais, revoltados com a política "conservadora" do governo central, uniram-se com os farrapos e organizaram uma única frente revolucionária. Os liberais da Quinta Comarca em Curitiba, cooptados pelo Barão de Antonina, não aderiram, no entanto, ao movimento. O Governo Imperial negociou com os liberais curitibanos, por intermédio de João da Silva Machado e do chefe das forças legalistas, Duque de Caxias, a emancipação da comarca. O governo do império conseguiu, assim, o apoio dos liberais da Quinta Comarca para vencer os revolucionários. Dessa forma retomou-se, em 1843, o projeto de emancipação da Quinta Comarca na Assembleia Geral Legislativa no Rio de Janeiro. Entre idas e vindas foi conseguida a aprovação, em 2 de agosto de 1853, elevando-se a Quinta Comarca de São Paulo à categoria de Província do Paraná. A instalação oficial foi realizada em 19 de dezembro de 1853, quando tomou posse o primeiro presidente, Zacarias de Góes e Vasconcelos, tendo Curitiba como Capital. Lei nº 704 de 29 de agosto de 1853 Eleva a Comarca de Curitiba, na Província de São Paulo, à categoria de Província, com a denominação de Província do Paraná. Dom Pedro Segundo, por graça de Deus, e unânime aclamação dos povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil: Fazemos saber a todos nossos súditos que a Assembléia Geral Legislativa decretou e nós queremos a Lei seguinte: Art. 1º - A comarca de Curitiba, na Província de São Paulo, fica elevada à categoria 104 de Província, com a denominação de Província do Paraná. A sua extensão e limites serão os mesmos da referida Comarca. Art. 2º - A nova Província terá por Capital a cidade de Curitiba, enquanto a Assembléia respectiva não decretar o contrário. Art.3º - A Província do Paraná dará um Senador, e um Deputado à Assembléia Geral; sua Assembléia Provincial constará de 20 membros. Art.4º - O Governo fica autorizado para criar, na mesma Província, as estações fiscais indispensáveis para arrecadação e administração das rendas gerais, submetendo depois o que houver determinado ao conhecimento da Assembléia Geral para definitiva aprovação. Art.5º - Ficam revogadas as disposições em contrário. Mando, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento desta lei pertencer, que a cumpram, e a façam cumprir e guardar tão inteiramente quanto nela se contém. O Secretário de Estado dos Negócios do Império A faça imprimir, publicar e correr. Dado no Palácio do Rio de Janeiro, aos 29 de agosto de 1853, trigésimo segundo da Independência e do Império. Assinam : Imperador Pedro II E Francisco Gonçalves Martins Fonte: Coleção de Leis do Império do Brasil - 1853 , Página 50 Vol. 1 pt I (Publicação Original) 4.2 A VIDA POLÍTICA DA PROVÍNCIA PARANAENSE, DE 1853 A 1889 105 A Província do Paraná teve, ao longo do período de 1853 a 1889, 53 períodos de governos; 27 presidências; 41 presidentes em exercício e 26 períodos de vice-presidência e retorno presidencial. Os presidentes eram escolhidos entre aqueles que pertenciam ao partido político dominante, e nomeados diretamente pelo Imperador D. Pedro II. De 1853 a 1870 os governantes vieram de outras províncias. No período subsequente (1870 a 1889), o Imperador fez algumas nomeações de pessoas procedentes da própria província para ocupar o cargo de presidente e vice-presidente. As justificativas para a nomeação dos presidentes e dos vice-presidentes oriundos de outras províncias era de que o Paraná tinha uma pequena projeção política e econômica no império. E não possuiria elementos com "boa formação político-administrativa" para o cargo majoritário na província. No entanto, sabemos que a nomeação para a presidência das províncias no Brasil era utilizada pelo Imperador Pedro II41 para acomodar as forças políticas que o apoiavam. 41 A Carta outorgada em 1824 por D. Pedro I e elaborada pelo Conselho de Estado atribuiu ao Imperador o poder de nomear os presidentes de província. O capítulo VII, que trata da Administração e Economia das Províncias diz, no primeiro artigo: “Haverá em cada Província um presidente, nomeado pelo Imperador, que poderá remover, quando entender que assim convém ao bom serviço do Estado”. Essa era a Constituição em vigor no Brasil em 1853, quando da criação da Província do Paraná (http://www.alep.pr.gov.br/assembleia.php?pag_int=assembleia_historico.p hp. Acesso em: 11 mar. 2008). 106 O Imperador geralmente escolhia governantes que eram fiéis e aliados ao governo imperial. A intenção era criar e estabelecer governos provinciais comprometidos com os interesses do governo central, além de promover alianças com as elites dominantes locais. Eram dois os partidos políticos dos quais esses representantes faziam parte: o Conservador e o Liberal. Os partidos na província eram dominados pelas oligarquias locais, que escolhiam seus representantes aos cargos políticos42. A disputa entre os conservadores e liberais não representava um empecilho à nomeação dos cargos; na realidade, seus programas políticos não diferiam um do outro e não havia uma oposição efetiva entre eles. No Paraná, os principais líderes liberais foram: Jesuíno Marcondes de Oliveira e Manuel Alves de Araújo, que formavam as famílias dos Barões do Tibagi e dos Campos Gerais. Os líderes conservadores foram: Manuel Antonio Guimarães (Visconde de Nácar) e Manoel Francisco Correia, que formavam as famílias do litoral, controladoras do comércio importador e exportador da erva-mate. Quando foi instalada oficialmente, o cargo majoritário da província paranaense foi ocupado pela primeira vez em 19 de dezembro de 1853, sendo seu primeiro presidente o baiano Zacarias de Góes e Vasconcellos. 42 Esses representantes aos cargos políticos geralmente eram eleitos pelo “voto de cabresto”, ou seja, por meio da troca de “favores” os coronéis (elites dominantes locais) exigiam que as pessoas votassem nos candidatos indicados por eles. Aquele que se negasse a votar podia sofrer violência dos capangas ou jagunços que trabalhavam para os coronéis. 107 Quadro I - Galeria de presidentes e vice-presidentes da província do Paraná (1853-1889) º PRESIDENTE S E VICE- PRESIDENTES N OMEAÇà O PE RÍODO DE GOVERN O OBSERVAÇÃO Zacarias de Goes e Vasconcelos (Pres.) 17. 09.1853 19.1 2.1853 a 03.05.185 5 1º Presidente e Instalador da Província. Origem: Bahia. Era do partido Conservador, e em 1862 passou a ser Liberal Theófilo Ribeiro de Rezende (Vice) 17. 09.1853 03.0 5.1855 a 27.07.185 5 Nomeação para 2º vice- presidente. Origem: São Paulo. Era do Partido Conservador Henrique de Beaurepaire Rohan (Vice) – Liberal - 27.07.18 55 27.0 7.1855 a 01.03.185 6 Origem: Rio de Janeiro Padre Vicente Pires da Mota (Pres.) 15. 09.1855 01.0 3.1856 a 26.09.185 6 Origem: São Paulo. Era do Partido Conservador José Antônio Vaz de Carvalhaes (Vice) 06. 09.1856 26.0 9.1856 a 11.11.185 7 2º vice-presidente. Origem: São Paulo. Era do Partido Conservador Francisco Liberato de Matos (Pres.) 18. 08.1857 11.1 1.1857 a 26.02.185 9 Origem: Bahia - Partido Liberal Luis Francisco Câmara Leal (Vice) 24. 03.1857 26.0 2.1859 a 02.05.185 9 3º vice-presidente e passou a 1º vice no início de 1859. Origem: Rio de Janeiro. Era do Partido Conservador José Francisco Cardoso (Pres.) 28. 02.1859 02.0 5.1859 a 16.03.186 1 Deposto pelas “Cardosadas”. Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal Antônio Barbosa Gomes Nogueira (Pres.) 31. 01.1861 16.0 3.1861 a 31.03.186 3 Origem: Minas Gerais. Era do Partido Conservador 0 Manoel Antônio Ferreira (Vice) 26. 11.1862 31.0 3.1863 a 05.06.1863 1º paranaense a compor o governo Provincial - 2º vice- presidente. Origem: Paraná. Era do Partido Conservador 1 Sebastião Gonçalves da Silva (Vice) 26. 11.1862 05.0 6.1863 a 07.03.186 4 1º vice-presidente. Origem: Pernambuco. Sem menção de Partido 2 José Joaquim do Carmo (Pres.) 23. 01.1864 07.0 3.1864 a 18.06.186 Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal 108 4 3 André de Pádua Fleury (Pres.) s/d 18.0 6.1864 a 19.08.186 4 Origem: Paraná - Partido Liberal 4 Agostinho Ermelino de Leão (Vice) s/d 19.0 8.1864 a 18.11.186 4 1º período de governo. Origem: Paraná – s/menção de partido 5 André de Pádua Fleury (Pres.) 12. 10.1864 18.1 1.1864 a 04.06.186 5 2º período de governo. Origem: Paraná - Partido Liberal 6 Manoel Alves de Araújo (Vice) 10. 12.1864 05.0 6.1865 a 18.08.186 5 1º vice-presidente. Origem: Paraná - Partido Liberal 7 André de Pádua Fleury (Pres.) s/d 18.0 8.1865 a 23.03.186 6 3º período de governo. Origem: Paraná - Partido Liberal 8 Agostinho Ermelino de Leão (Vice) 31. 01.1866 23.0 3.1866 a 15.11.186 6 2º vice-presidente - 2º período de governo. Origem: Paraná – s/menção de partido 9 Polidoro César Burlamaque (Pres.) 06. 09.2866 15.0 9.1866 a 11 /17.08.186 7 Abandona o governo em 17.08.1867 Origem: Piauí – s/menção de partido 0 Carlos Augusto Ferraz de Abreu (Vice) 23. 03.1867 16.0 8.1867 a 23/31.10.1 867 1º vice-presidente. Origem: Rio de Janeiro. Era do Partido Conservador 1 José Feliciano Horta de Araújo (Pres.) 29. 09.1867 31.1 0.1867 a 05.05.186 8 Origem: Minas Gerais - Partido Liberal 2 Carlos Augusto Ferraz de Abreu (Vice) s/d 05/2 9.05.1868 a 14.09.186 8 2º período de governo. Origem: Rio de Janeiro. Era do Partido Conservador 3 Antônio Augusto da Fonseca (Pres.) 22. 07.1868 14.0 9.1868 a 01.09.186 9 Pediu demissão em 27.03.1869 Origem: São Paulo – Partido Conservador 4 Agostinho Ermelino de Leão (Vice) s/d 28.0 8.1869 a 26.09.186 9 3º período de governo. Origem: Paraná – s/menção de partido 5 Antônio Luís Afonso de Carvalho (Pres.) 20. 10.1869 27.1 1.1869 a 28.08.187 0 Origem: Bahia - s/menção de partido 6 Agostinho Ermelino de Leão (Vice) s/d 20.0 4/05.1870 a 4º período de governo. Origem: Paraná - s/menção de partido 109 24.12.187 0 7 Venâncio José de Oliveira Lisboa (Pres.) s/d 24.1 2.1870 a 15.01.187 3 Origem: Rio de Janeiro – Partido Conservador 8 Manoel Antônio Guimarães (Vice) 03. 01.1873 15.0 1.1873 a 13.06.187 3 3º vice-presidente – Visconde de Nácar - Origem: Paraná – Partido Conservador 9 Frederico José de Araújo Abranches (Pres.) 29. 03.1873 13.0 6.1873 a 02.05.187 5 Origem: São Paulo – Partido Conservador Agostinho Ermelino de Leão (Vice) s/d 02.0 5.1875 a 08.05.187 5 5º e último período de governo. Origem: Paraná - s/menção de partido 0 Adolfo Lamenha Lins (Pres.) 10. 04.1875 03.0 5.1875 a 16.07.187 7 Origem: Pernambuco - Partido Liberal 1 Manoel Antônio Guimarães (Vice) s/d 16.0 7.1877 a 17.08.187 7 2º período de governo. Origem: Paraná – Partido Conservador 2 Joaquim Bento de Oliveira Junior (Pres.) 04. 07.1877 17.0 8.1877 a 07.02.187 8 Origem: Minas Gerais – Partido Conservador 3 Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá (Vice) 01. 02.1878 07.0 2.1878 a 23.03.187 8 1º período de governo – 1º vice-presidente. Origem: Paraná - Partido Liberal 4 Rodrigo Otávio de Oliveira Menezes (Pres.) 30. 01.1878 23.0 3.1878 a 31.03.187 9 Origem: Bahia - Partido Liberal 5 Jesuíno Marcondes de oliveira e Sá (Vice) s/d 31.0 3.1879 a 23.04.187 9 2º período de governo. Origem: Paraná - Partido Liberal 6 Manoel Pinto de Souza Dantas Filho (Pres.) 15. 03.1879 23.0 4.1879 a 04.08.188 0 Origem: Bahia - Partido Liberal 7 João José Pedrosa (Pres.) 25. 07.1880 04.0 8.1880 a 03.05.188 1 1º paranaense nomeado pelo Imperador - Origem: Paraná - Partido Liberal 8 Sancho de Barros Pimentel (Pres.) 24. 03.1881 03.0 5.1881 a 26.01.188 2 Origem: São Paulo - Partido Liberal 9 Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá (Vice) s/d s/d 3º período de governo. Origem: Paraná - Partido Liberal Carlos Augusto de Carvalho (Pres.) 01. 02.1882 06.0 3.1882 a Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal 110 0 26.05.188 3 1 Antônio Alves de Araújo (Vice) 14. 05.1883 26.0 5.1883 a 03.09.188 3 1º vice-presidente – 1º período de governo. Origem: Paraná - Partido Liberal 2 Luís Alves Leite de Oliveira Belo (Pres.) 30. 06.1883 03.0 9.1883 a 05.06.188 4 Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal 3 Brasílio Machado de Oliveira (Pres.) 29. 07.1884 05.0 6.1884 a 21.08.188 5 Origem: São Paulo - Partido Liberal 4 Antônio Alves de Araújo (Vice)- s/d 24/2 6.08.1885 a 18.09.188 5 2º período de governo. Origem: Paraná - Partido Liberal 5 Joaquim de Almeida Faria Sobrinho (Vice) 30. 08.1885 20.0 9.1885 a 29.09.188 5 1º vice-presidente – 1º período de governo. Origem: Paraná – Partido Conservador 6 Alfredo D’Escragnolle Taunay (Pres.) 30. 08.1885 29.0 9.1885 a 03.05.188 6 Origem: Rio de Janeiro - Partido Liberal 7 Joaquim de Almeida Faria Sobrinho (Pres.) 18. 10.1886 03.0 5.1886 a 26.12.188 7 2º paranaense p/ nomeação direta do Imperador. 3º período Origem: Paraná – Partido Conservador 8 Antônio Ricardo dos Santos (Vice) 15. 12.1887 29.1 2.1887 a 09.12.188 8 2º vice-presidente em 03.12.1887 e 1º em 15.12.1887 Origem: Paraná – Partido Conservador 9 José Cesário de Miranda Ribeiro (Pres.) 23. 12.1887 09.0 2.1888 a 30.06.188 8 Origem: Minas Gerais – Partido Conservador 0 Ildefonso Pereira Correia (Vice) 26. 11.1887 30.0 6.1888 a 04.07.188 8 Barão de Serro Azul Origem: Paraná – s/menção do partido 1 Balbino Candido da Cunha (Pres.) 15. 06.1887 04.0 7.1888 a 29.05.188 9 Origem: Minas Gerais – Partido Conservador 2 Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá (Pres.) 15. 06.1889 16.0 6.1889 a 23.08.188 9 3º e último paranaense presidente – 4º p. de governo. Origem: Paraná - Partido Liberal 3 Joaquim José Alves (Vice) 15. 06.1889 03.0 9.1889 a 11.09.188 9 1º vice-presidente. Origem: Paraná - Partido Liberal Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá (Pres.) s/d 12.0 9.1889 a 16.11.188 9 5º e último período de governo provincial Origem: Paraná - Partido Liberal 111 Fonte: CARNEIRO, D. História do período provincial do Paraná: galeria de presidentes 1853-1889. Curitiba: Tipografia Max Roesner, 1960. 4.3 AS PRINCIPAIS POLÍTICAS DE GOVERNO NO PERÍODO PROVINCIAL A preocupação dos presidentes e vice- presidentes, de forma geral, foi a de construir e melhorar estradas, instalar colônias de imigrantes europeus para aumentar a população, implementar a segurança pública para promover a defesa dela, organizar a instrução pública e as finanças da província, implantar a catequese e a civilização dos índios, e desenvolver e organizar a cidade de Curitiba como sua capital. Essas ações políticas foram frequentemente tratadas nos relatórios dos presidentes e vice- presidentes. Esses documentos, apesar do caráter descritivo, tratam dos principais acontecimentos ocorridos durante cada período de governo na província. A periodicidade usual dos relatórios era anual, mas a cada mudança de presidente ou a cada abertura da Assembleia Legislativa da província era elaborado um relatório e apresentado ao seu sucessor ou aos representantes do legislativo provincial. Foram 76 relatórios, alguns dos quais vinham em forma de ofício, principalmente quando o períodode ocupação da administração do governo era breve. Nesses casos, não apresentavam a estrutura usual de relatórios. A estrutura desses 112 documentos possui mais semelhanças que diferenças. Neles, podemos destacar alguns pontos que abordam as principais ações dos governantes provinciais. • Política de segurança pública Durante o período provincial, desde o primeiro presidente, Zacarias de Góes e Vasconcellos, a política de segurança pública foi uma preocupação de todos os governantes. Frequentemente, nos relatórios e nos ofícios é destacada a importância da força pública, composta pela Guarda Nacional, pela força policial e pela companhia de marinheiros, que eram responsáveis pela proteção e guarda do território paranaense. As reclamações pela falta de recursos para investir na segurança foram constantes: [...] pode-se affirmar que he superior ao que permittem os escassos recursos, que na actualidade estão à disposição da polícia, e com que, provalvemente, por algum tempo ainda se há de contar na província (VASCONCELLOS, 1854, p. 3).43. Para os governos, era importante obter mais verbas que se destinassem à manutenção da ordem social, numa província onde ocorriam inúmeros conflitos, como os decorrentes de 43 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório... 15 de julho de 1854. p. 3. 113 desavenças pessoais, de furto de animais, do confronto entre os fazendeiros e indígenas, da posse da terra etc. O conflito pela demarcação da propriedade da terra foi muito comum nesse período, pois a província estava aplicando a Lei de Terras de 1850. [...] Agitão-se frequentes questões de posses e limites, que em geral procedem do estado confuso e desordenado da propriedade territorial, as quaes, no futuro he provavel se reduzirão à pouco ou nada, com a observancia da lei das terras e respectivos regulamentos, que procuranmdo definir e fazer conhecida a porção de terra, de que cada um he proprietario, tendem a assegurar á todos o gozo de seus direitos sem o temor de força do vizinho, nem da conta do escrivão e do advogado [...] (VASCONCELLOS, 1854, p. 5).44. Isso provocava discordâncias e discussões frequentes em relação à posse e aos limites. Outra questão mencionada pelos governantes se refere ao costume que os habitantes tinham de usar armas, o que contribuía para a “desordem” na província: [...] O uso de armas de defezas era, por assim dizer, hum direito consuetudinário neste paiz. O vasto poncho, serve-se a maioria dos habitantes, e as largas e estrepitosas chilenas, não erão artigos mais essenciaes ao trajar de hum homem do povo, do que a inseparavel cartucheira, a faca, e as 44 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...15 de julho de 1854. p. 5. 114 pistolas, já não digo em viagem, nas estradas, ou em seus trabalhos do campo, mas em passeio à cidade, e (parece incrível) até nos templos do Senhor!(VASCONCELLOS, 1854, p. 6).45. A atitude tomada pelo presidente foi a proibição do uso de armas de defesa, com o intuito de diminuir a violência. Essa medida teve um resultado eficaz nas cidades, onde a ação da polícia pôde ser mais efetiva, mas em localidades distantes dos centros urbanos, longe das autoridades, o uso das armas foi mais difícil controlar: [...] nas estradas e lugares remotos, longe das autoridades, que tem alguma força, ainda voga o uso criminoso, mas essa fonte de crimes irá diminuindo por toda a parte com a progressiva actividade e desenvolvimento da policia (VASCONCELLOS, 1854, p. 6). Essas ações desenvolvidas para a manutenção da segurança pública sofreram alterações à medida que a população46 paranaense crescia, e em decorrência de outra 45 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...15 de julho de 1854.. p. 6. 46 A população que constituía o período provincial paranaense em 1854 contava com 60.625 habitantes, dos quais quase 16% eram escravos, em torno de 10 mil. Mas com a entrada de migrantes, a partir da década de 1860 e com a saída de escravos para a lavoura paulista ocorreram mudanças no quadro demográfico da província. A população, com o censo de 1872, totalizava 126.722 habitantes, incluindo 10.560 escravos (8,3%) (Dicionário histórico-biográfico do Paraná, 1991, p.383). 115 política desenvolvida pelos governantes, a de implantação de colônias de migrantes europeus, principalmente ao redor de centros urbanos. As tensões e os conflitos provocados pela aglomeração de populações mobilizaram as autoridades policiais da província, que demonstravam preocupação em manter a “tradição” provincial de tranquilidade pública, combatendo a criminalidade, principalmente no período de 1860 a 1880, quando foram fundados 28 núcleos coloniais, com a entrada de 19.215 migrantes. • Política de Educação A “Instrução Pública” foi uma das preocupações constante dos governantes e das elites locais. Desde a primeira gestão governamental esse era um desafio a ser enfrentado, pois o desenvolvimento da Educação influenciaria a prosperidade da província. [...] Todas as corporações e funcionários, á quem ouvi acerca do estado da instrucção na província, derão-me as mais desfavoráveis informações desse ramo do serviço publico, e assim parece ser, á vista de documentos que tive presentes. Seja, pois, este hum dos assumptos que mais mereção vossa solicitude e attenção, pois que, por certo, he de maior alcance e influencia para a prosperidade [...]. Consideremos o ensino publico tanto primário como secundário, á ver o que mais importa 116 na actualidade (VASCONCELLOS, 1854, p. 12).47 [...] É a instrucção o primeiro elemento da educação, a primeira necessidade da humanidade o primeiro dever de todas as nações. Nas nações que se dizem livres, isto é, em que as classes que se presume illustradas e capazes, são chamadas a tomar na direcção dos negócios públicos a parte proporcionada á sua capacidade, e em que o dever de gerir os interesses collectivos exige de cada um maior somma de sacrifício e abnegação, a necessidade da instrucção sobreleva a todas as outras. A constituição chamando a maior parte da nação ao exercício dos pesados deveres da soberania, garantia com razão a instrucção primaria gratuita a todos (PARANÁ, 1869, p. 9).( 48. Com a instrução pública seria possível não apenas a formação de mão de obra, mas a conquista de visibilidade dos governantes em relação aos governados. Também, no Paraná o ensino primário vinha a atender à questão do “abrasileiramento” dos migrantes estrangeiros que se estabeleciam na província, com sua língua, seus hábitos, costumes e valores. Os governantes e as elites dominantes sempre 47 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...15 de julho de 1854. p..12. 48 PARANÁ. Governador (1868-1869: Augusto da Fonseca). Relatório... 6 de abril de 1869. p. 9. 117 viam isso como uma ameaça à sua hegemonia (MAGALHÃES, 2001).49 Nos relatórios vimos que é constantemente mencionada a importância do desenvolvimento da Educação formal para a província, e como era a organização do ensino para meninos e meninas. O ensino era dividido em: instrução primária, secundária e escola normal, considerada necessária para suprir a falta de professores da época. As escolas públicas eram frequentadas pelas crianças das camadas pobres, e as escolas particulares eram em geral frequentadas pelos filhos das famílias mais providas economicamente, as quais se estabeleceram nos centros urbanos mais populosos, onde havia uma clientela com vida econômica, social e cultural mais elevada50. Os estudos superioreseram cursados em São Paulo, Recife, Rio de Janeiro ou em faculdades europeias, e somente pelos jovens da elite dominante, que tinham recursos financeiros para cursar esse nível. 49 MAGALHÃES, Marion Brepohl. Paraná: Política e Governo. Curitiba: SEED, 2001. (Coleção História do Paraná – textos introdutórios). 50 Para maiores detalhes sobre essa questão da Educação, ver: OLIVIEIRA, 1986; TRINDADE; ANDREAZZA, 2001; GUARNIERI, 2006. 118 O ensino era baseado no princípio da moralidade e dos costumes da época, com a preocupação de manter o ordenamento social, que visava à obediência à autoridade, cujo centro era a Corte, devendo a periferia ser moldada segundo seus interesses. [...] Nos paizes, que presão a civilização do povo, e vêem nas escolas a origem della, aprender as matérias do ensino primário he mais que hum direito, he huma rigorosa obrigação, imposta á todos, sob certas penas. Assim o deveis considerar e dispor na legislação da nova província. Obriga-se o povo á vaccina, e elle obedece ou deve obedecer sem reparo, porque he hum meio de preservar-se de hum flagello fatal. Ora a instrucção primaria he, por assim dizer, huma vaccina moral, que preserva o povo do peior de todos os flagellos conhecidos e por conhecer – a ignorância – das nações elementares, que nivela o homem ao bruto, e o torna matéria apta e azado instrumento para o roubo, para o assassinato, para a revolução, para todo mal, enfim (VASCONCELLOS, 1854, p. 12).51. As instituições escolares, principalmente as públicas, mantinham um maior número de unidades direcionadas aos alunos do sexo masculino em relação às destinadas ao sexo feminino, isso pelo fato de terem sido criadas escolas primeiro para os meninos, e depois, se houvesse necessidade, para as meninas. Para se ter uma ideia, em 1854 eram 22 escolas 51 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...15 de julho de 1854. p. 16. 119 masculinas para 08 femininas, e em 1889 eram 61 masculinas para 24 femininas (OLIVEIRA, 1986, p. 201).52. As escolas mistas ou promíscuas sugiram pela falta de professores. Com isso os governantes tiveram que criar escolas que comportassem meninos e meninas. A aceitação pela comunidade paranaense a esse tipo de escola ocorreu aos poucos, e de 1886 a 1889 o número delas chegou a 114. O ensino primário e secundário esbarrou em diversos problemas, como: falta de prédios públicos, de verbas, de professores, de estradas em condições adequadas para o deslocamento dos estudantes das comunidades distantes para as cidades e vilas onde existiam as escolas etc., o que dificultava o seu desenvolvimento na província, ou seja, isso inviabilizou o que se pretendia em face do que se podia fazer, diante da realidade social e econômica paranaense da época. Mas as diversas ações tomadas para a regulamentação e organização do ensino primário e secundário na província, apesar dos problemas enfrentados pelas autoridades, fomentaram um crescimento significativo em 52 Para obter os índices de todos os anos do período provincial, conferir tabela em: OLIVEIRA, Maria Cecília Marins. O ensino primário na província do Paraná 1853-1889. Curitiba/PR: Biblioteca Pública do Paraná, 1986, p. 201. 120 comparação ao atendimento precário herdado do período anterior à emancipação. Em 1853, o Paraná tinha um número limitado de escolas: eram 28 estabelecimentos públicos de ensino, distribuídos entre 18 localidades, e 3 escolas de ensino particular. Ao final do período provincial, devido à política de investimento na Educação Pública, o resultando foi de 199 escolas de ensino primário e secundário, distribuídas por 130 localidades, sendo 180 escolas da rede pública e 19 da rede particular53. Quadro 2: Resumo do desenvolvimento do ensino primário e secundário na província do Paraná, de 1854 a 1889 PERÍODO AÇÕES 1854 a 1857 • Regulamentação da instrução pública na província. • Estabelecimento de orçamento para a Instrução Pública. • Estabelecimento e planejamento de divisão do ensino nas escolas primárias. • Regulamento de ordem para as escolas da Instrução Primária. • Preparação e organização do professorado. • Instituição de normas para o ensino particular, primário e secundário. 1858 a 1869 • Regulamentação e estabelecimento de orçamento para a Instrução Pública. • Estabelecimento e organização dos conteúdos de ensino para as escolas secundárias. • Encaminhamentos com relação ao 53 OLIVEIRA, Maria Cecília Marins. O ensino primário na província do Paraná 1853-1889. Curitiba/PR: Biblioteca Pública do Paraná, 1986. 121 valor despendido à Instrução Pública. 1870 a 1880 • Desenvolvimento do ensino secundário, principalmente na iniciativa privada (1870). • Obrigatoriedade do ensino primário para os meninos de 7 a 12 anos e meninas de 7 a 10 anos (1874). • Normatização da fiscalização das escolas primárias (1874). • Criação da Escola Normal, em Curitiba, para formação de professores para a Instrução Pública (1876). 1881 a 1889 • Criação de escola noturna, na capital, para adultos (1882), e também em outros municípios. • Vinculação de 20% do imposto predial para a Instrução Pública. • Incentivo à criação de escolas através de estipulação de subvenções do governo. • Câmaras municipais responsáveis em instituir, em suas sedes, casas escolares. • Criação de alguns colégios particulares, fundados por ordens religiosas ou civis. Fonte: OLIVEIRA, Maria Cecília Marins. O ensino primário na província do Paraná 1853-1889. Curitiba, PR: Biblioteca Pública do Paraná, 1986. • Política de construção e manutenção de estradas A questão das estradas obteve grande atenção dos governantes, pois delas dependia todo o transporte de produtos e mercadorias produzidos e consumidos na província, como também a comunicação do interior com as principais cidades, vilas e povoados. As estradas existentes eram precárias, o que para 122 as autoridades impedia o “progresso da província”. A primeira necessidade desta província he, decididamente, o melhoramento de suas vias de communicação. A lavoura, tão atrazada, [...], não póde alar, o commercio não póde desenvolver-se, em quanto as estradas se conservarem como estão, e o anhelo de attrahir, aos excellentes terrenos da província, colonos europêos em certa escala, encontra forte resistência no estado deplorável das vias actuaes de communicação, onde não póde rodar hum carro, e tudo se transporta, mal e mui dispendiosamente em costas de animaes (VASCONCELLOS, 1854, p. 86).54. Assim que o Paraná se emancipou, desde o seu primeiro governante, Zacarias de Góes e Vasconcellos, iniciou-se o projeto da Estrada da Graciosa, que ligava Curitiba ao litoral, e também o de uma estrada planejada para estabelecer a ligação entre o Paraná e o Mato Grosso. Vários foram os engenheiros que trabalharam na construção e em melhorias de estradas nesse período: Francisco Antonio Monteiro Tourinho (1835-1883), Henrique Beaurepaire Rohan (1812-1894), Antonio Rebouças (1839-1874), Willian Loyd e os Irmãos Keller, entre outros. 54 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...15 de julho de 1854. p. 86. 123 As estradas eram vias de comunicação fundamentais para a província do Paraná, como ainda é hoje, pois isso representava o desenvolvimento econômico e social, segundo Wilson Martins (1989, p. 12).55: [...] a sua falta (estradas) foi talvez o principal entrave ao progresso do Paraná em geral e ao sucesso integralda colonização (migrantes estrangeiros) em particular. [...] a súplica pelas estradas é uma espécie de lugar-comum na história administrativa do Paraná e o clamor ininterrupto que se ouve, em todas as línguas, desde os primeiros dias de sua história provincial. No Paraná havia quatro estradas principais: a da Graciosa, Ytupava, Arraial e a Estrada Geral. Esta última servia de passagem para o gado e os muares que vinham de Viamão/RS para Sorocaba/SP. Além dessas, outras estradas também necessitavam de investimentos, pela utilidade que tinham: [...] as estradas de serra-ácima, particularmente daquellas por onde se faz todo ou grande parte do commercio entre as provincias do Sul e as de S. Paulo, Minas-Geraes, e Rio de Janeiro (VASCONCELLOS, 1854, p. 93).56. As estradas que ligavam uma localidade a outra dentro da província paranaense, como a de Guarapuava a Ponta Grossa, estavam na 55 MARTINS, Wilson. Um Brasil diferente: ensaio sobre o fenômeno de aculturação no Paraná. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1989. p.12. 56 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...15 de julho de 1854. p. 93. 124 pauta de governo, conforme informa o presidente Zacarias de Góes e Vasconcellos (1854, p. 93) nesse mesmo Relatório. [...] São por certo, dignas de attenção as ramificações, que de Ponta Grossa e de Guarapuava se dirigem á colonia Thereza; [...]. [...] De Castro [...] há huma estrada que vem directamente encontrar-se com a Graciosa; sua importância he immensa, e o direito que tem á attenção desta assembléia incontestável. Da mesma Villa segue hum ramal do porto de Jatahy, de summa utilidade, como parte da via de communicação com Mato-Grosso. Dirige-se huma estrada desta cidade á de S. Francisco na província de Santa Catharina, que muito convem melhorar para manter entre as duas cidades e províncias huma communicação regular. Essa questão foi muito clamada quando do estabelecimento de colônias de migrantes estrangeiros, a partir da década de 1860. Eram constantes as reclamações dos colonos à administração pública sobre as péssimas condições das estradas. Os presidentes da província constantemente abordavam a importância da melhoria e da construção de estradas que permitissem a comunicação das colônias com a capital e com os centros maiores, principalmente para a comercialização e para o consumo de produtos. Esse era um grande problema, pois, segundo as autoridades da província, as colônias não estavam prosperando em virtude da falta de estradas. 125 [...] Esta colônia é assentada em fértil terreno, próprio para vários gêneros de cultura. Não tem prosperado, tanto quanto se esperava, por diversas causas, nascidas já da grande distancia e da falta de vias de communicação, que liguem-a a cidade de Castro, em cujas visinhanças se acha e com quem entre em relações commerciaes, posto que em pequena escala, e já de se não ter applicado a necessária attenção ao seu desenvolvimento57. A administração pública, durante o período provincial, apesar das dificuldades encontradas pela falta de recursos técnicos e financeiros, sempre tomou providências em relação à construção e conservação de estradas, mesmo não conseguindo avançar com algumas obras importantes, como a conservação da Estrada da Graciosa. A navegação despertou grande interesse das autoridades desde os primeiros anos de província. O “empreendimento” de tornar os rios navegáveis, naquele momento, vinha ao encontro do fato de que os rios poderiam servir para determinar os limites geográficos da província, como também servir de referência para o estabelecimento de novas localidades (colônias de povoamento). Essa questão é constantemente mencionada nos relatórios dos presidentes e vice-presidentes, principalmente no período de 1850 a 1870, pois os rios representavam a possibilidade de um desenvolvimento econômico para o Paraná. 57 Carvalho, 15 de fevereiro de 1870, p. 39. 126 Para explorar e mapear os rios foram contratados engenheiros como os irmãos Keller58. Vários rios foram estudados, como: Iguaçu, Tibagi, Ivaí, Piquiri, Paraná, Paranapanema etc. Além de os rios servirem como referenciais geográficos, poderiam ser transformados em vias de comunicação, considerados como estradas para o transporte de mercadorias. Isso traria um beneficio muito grande à província, pela diminuição dos gastos em relação ao transporte realizado normalmente por via terrestre. 1º o rio Tibagy que se lança no Paranapanema, assim como este no Paraná, offerece com o Yvinheima e Brilhante de Mato-Grosso huma via fluvial, que, á partir do porto do Jatahy nesta, vae ter ao interior daquella província, ocassionando despezas incomparavelmente menores do que as que se fazem pela actual via de communicação, avista da distancia que encurta-se e do tempo que se poupa. A não ser pelos rios da Prata, Paraná, e Paraguay, parece averiguado não haver mais prompto nem mais fácil meio de communicação para o Mato- Grosso do que a indicada via fluvial, o que pode deixar de produzir assignalados benefícios a esta província por motivos que estão ao alcance de todos (VASCONCELLOS, 1854, p. 76-77).59. 58 Nos anexos dos relatórios estão os relatórios dos engenheiros informando sobre o desenvolvimento do seu trabalho com os rios na província. 59 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...15 de julho de 1854. p., p. 76-77. 127 Diversos outros fatores são abordados pelos governantes a respeito dos rios, como a possibilidade de exploração por meio da cobrança de “pedágios” na utilização de balsa para a travessia de um lado para outro, e também o fornecimento de peixes, o que poderia beneficiar as localidades às suas margens. As inúmeras dificuldades que ocorreram sobre essa questão são informadas nos relatórios, como por exemplo em relação ao rio Tibagi, onde a navegação poderia ser realizada apenas em algumas partes, pois em outras havia obstáculos. [...] não he, porem, o Tibagy rio tal, que consinta navegação não interrompida e sem perigo, porque sabe-se que tem muitas cachoeiras e baixos que com dificuldade se transpõe, e não he possível navegal-o com vantagem senão em certas monções (VASCONCELLOS, 1855, p. 770.60. A mesma questão é referida quanto ao rio Iguaçu. [...] Yguassú – Este rio, que tem sua origem proxima a Serra do Mar, nos municipios de Curytiba e S. José dos Pinhaes, não é navegável em todo seu curso, por causa das rochas que obstruem, e muito mais pelo 60 VASCONCELLOS, Zacarias Góes e. Relatório...8 de fevereiro de 1855, p. 77. 128 magnifico salto que apresenta [...] ROHAN, 1856, p. 168).61. Mesmo assim, com todas as dificuldades apresentadas com relação à navegação dos rios, os presidentes acreditavam nesse empreendimento. [...] E todavia bastantemente vantajosa seria aos interesses da provincia huma tal navegação, e capaz de compensar qualquer sacrifício que com ella se houvesse de fazer, defendia o presidente Zacarias em 1855. Mas esse interesse veio a desaparecer quando surgiu a possibilidade de construção das ferrovias na província, por volta da década de 1880. Essa questão não se esgota aqui, e nem é o que pretendemos. Apenas procuramos apontar as perspectivas dos governantes provinciais em relação à pretendida navegação dos rios, principalmente quanto à utilização deles como estradas. Sem dúvida, é um assunto que posteriormente deve ser mais pesquisado. • Política de povoamento As colônias de povoamento com migrantes europeus eram citadas seguidamente pelos governantes nos relatórios,demonstrando a 61 ROHAN, Henrique Pedro Carlos de Beaurepaire. Relatório... 1 de março de 1856, p.168. 129 preocupação em dinamizar a instalação de colônias produtoras de gêneros agrícolas para suprir o mercado local e a comercialização do excedente, como também a criação de mão de obra assalariada. A migração estrangeira para povoar o Paraná teve início em 1828, quando chegaram os primeiros alemães na região de Rio Negro, e continuou com a posse do primeiro presidente da província, Zacarias de Góes e Vasconcelos. Ele via o imigrante como o individuo “trabalhador”, que traria técnicas e desenvolveria a agricultura, de que a província necessitava. A Lei nº 29 de 21 de março de 1855, em seu artigo 1º autoriza o governante a promover a imigração de estrangeiro para a província e empregar os meios necessários para atrair os estrangeiros que estiverem em qualquer outra província do Brasil (PARANÁ, 1912, p. 16-17).62. Essa lei inaugurou oficialmente o processo de povoamento com migrantes europeus, no Paraná. Todos os governantes da província mencionaram as dificuldades e os obstáculos enfrentados para o desenvolvimento da política de migração, como a falta de recursos financeiros, a falta de planejamento, os atritos culturais entre os estrangeiros e a populações do local, o que dificultava a relação entre eles. Mas acreditava-se nesse empreendimento, pois, 62 Fonte: PARANÁ. Leis, Decretos, Regulamentos e Deliberações. Governo da Província do Paraná. 1855 –1857. Curitiba: Typographia Penitenciária. 1912, p.16-17. t. 2. 130 apesar dos problemas, os migrantes europeus eram um bom investimento. E meu sentimento, senhores, que a província do Paraná, nos seus ensaios de colonisação [...] crêe um estabelecimento agrícola, onde se admittão os estrangeiros e nacionaes, [...]. Estou plenamente convencido que, dirigida a empreza por pessoa intelligente, a província tiraria vantagens, que largamente a compensarião das despezas adiantadas.63 O grande impulso da política de povoamento ocorreu entre as décadas de 1860 e 1880, quando se instalaram, por todo o território, mais de 60 núcleos coloniais, oficiais e particulares. Quadro 3: Colônias de migrantes europeus na província do Paraná A NO LOCALI DADE COLÔNIA ETNIA64 1 829 Rio Negro Colônia do Rio Negro Alemães 1 847 Ivaí Colônia Tereza (hoje município de Reserva) Franceses 1 852 Guaraqu eçaba Colônia do Superagui Suíços, alemães, franceses e outros. 1 860 Serro Azul Colônia do Assungui Ingleses, franceses, italianos, alemães e outros. 1 868 Curitiba, Colônia Argelina Franceses da Argélia, alemães, 63 RELATÓRIO. Rohan, 01 de março de 1856, p.39. 64 Fonte: PARANÁ. Dicionário histórico-biográfico do Paraná. Curitiba: Chain, 1991. p. 90-91. 131 suíços, ingleses e italianos. 1 870 Curitiba Colônia do Pilarzinho Poloneses, alemães e italianos 1 871 Curitiba Colônia São Venâncio Alemães, poloneses e suecos. 1 871 Paranag uá Colônia Alexandra Italianos 1 873 Curitiba Colônia Abranches Alemães e poloneses. 1 875 Curitiba Colônia Santa Cândida Poloneses, suíços e franceses 1 875 Curitiba Colônia Orleans Poloneses, italianos, franceses e outros 1 875 Paranag uá Colônia Eufrasina e Pereira Italianos e espanhóis 1 876 Curitiba Colônia Bento Inácio Poloneses, siberianos e galicianos 1 876 Curitiba Colônia Lamenha Poloneses, silesianos e alemães 1 876 Curitiba Colônia Dom Augusto Poloneses 1 876 Curitiba Colônia Dom Pedro Poloneses, galicianos e silesianos 1 876 Araucári a Colônia Tomaz Coelho Poloneses, galicianos e silesianos. 1 877 Curitiba Colônia Riviére Franceses, poloneses e alemães 1 877 Antonina e Morretes Colônia Nova Itália Italianos 1 878 Curitiba Colônia Dantas Italianos 1 878 Curitiba Colônia Alfredo Chaves (hoje Colombo) Italianos 1 878 São José dos Pinhais Colônia Santa Maria do Novo Tirol Italianos 1 878 São José dos Pinhais Colônia Zacarias Poloneses e silesianos 1 878 São José dos Pinhais Colônia Inspetor Carvalho Poloneses e italianos 1 São José Colônia Muricy Poloneses e 132 878 dos Pinhais italianos 1 878 Campo Largo Colônia Antonio Rebouças Poloneses e italianos 1 878 Ponta Grossa Colônia Otávio Alemães do Volga 1 878 Palmeira Colônia Sinimbu Alemães do Volga 1 878 Lapa Colônia Wirmond Alemães do Volga. 1 879 Paranag uá Colônia Maria Luiza Italianos, alemães e espanhóis 1 883 Campo Largo Colônia Mendes Sá Italianos e poloneses 1 886 Campo Largo Colônia Alice Poloneses 1 886 Araucári a Colônia Barão de Taunay Poloneses 1 886 Curitiba Colônia Santa Gabriela Poloneses e Italianos 1 886 Curitiba Colônia Antonio Prado Poloneses e Italianos 1 886 Curitiba Colônia Pres. Faria Poloneses e italianos 1 887 Curitiba Colônia Maria José Italianos 1 887 Rio Negro Colônia João Alfredo Alemães e poloneses 1 887 Rio negro Colônia São Lourenço Alemães 1 888 Curitiba Colônia Santa Felicidade Italianos 1 888 Paranag uá Colônia Visconde de Nacár Italianos 1 888 Paranag uá Colônia de Santa Cruz Italianos 1 888 Paranag uá Colônia Santa Rita Italianos 1 889 Campo Largo Colônia Balbino Cunha Italianos 1 889 Campo Largo Colônia Dona Mariana Italianos Fonte: MARTINS, Wilson. Um Brasil Diferente:ensaio sobre o fenômeno de aculturação no Paraná. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1989. p. 66-67. 133 A entrada de migrantes europeus durante o tempo da província foi de 19.215 indivíduos. Esse fato alterou a constituição da população, que em 1854 contava com 60.625 habitantes, e passou a 126.722 habitantes em 187265. Quase a totalidade dos presidentes do período provincial, com exceção de um e outro, investiram nessa política de povoamento, o que marcou o Paraná e selou um rumo que não seria abandonado, fato que promoveu a diversidade étnica presente no Estado hoje. Tal questão leva a muitas pesquisas sobre o que é ser paranaense. Dentre os estudos apresentados, o sociólogo Wilson Martins aponta como sendo essa política de migração a responsável por dar uma constituição populacional diferenciada do restante do Brasil66. O resultado dessa política, prosseguida sistematicamente há um século, deu ao Paraná a sua fisionomia humana particular e típica, definidora e essencial, [...]. Assim, ainda no domínio etnológico, o 65 Cf. MARTINS, 1989, p. 69. Não se pode esquecer de que nessa cifra numérica existia a população negra. A composição da população do Paraná segundo a cor, no século XIX, variou de 58,6% de brancos e 41,4% de negros, pardos e mulatos em 1800, passando a 55,1% de brancos e 44,9% de negros, pardos e mulatos, em 1822; 57,2% de brancos, sem população da Lapa, e 42,9% de negros, pardos e mulatos em 1854; e 55% de brancos e 45% de negros, pardos e mulatos, em 1872 (Dicionário histórico-biográfico do Paraná, 1991, p.383). 66 Para se ter uma visão critica sobre essa forma de ver a constituição da sociedade paranaense: MOTA, Lúcio Tadeu. As guerras dos Índios Kaingang: a história épica dos índios Kaingang no Paraná (1769-1924). Maringá- PR: EDUEM, 2009. p. 19-71. 134 Paraná repete o exemplo de equilíbrio [...] como a sua característica fundamental. Em certas regiões brasileiras o esquema da população pode ser um “triângulo retângulo” [...] o elemento português, o índio [...] o africano – aqui a figura geométrica seria, na mais simplificadora das hipóteses,um polígono irregular de sete lados, cujas faces, em extensão decrescente e tamanho variável, representariam os elementos polonês, ucraniano, alemão, italiano, [...] o índio e o negro (MARTINS,1989, p. 108).67 Assim, segundo essa explicação, a representação da formação do povo brasileiro e do povo paranaense ocorreria conforme os esquemas a seguir 68, na Figura 1. O Paraná, visto dessa forma por Martins, dilui todas as etnias no povo paranaense, na sociedade paranaense, que, na sua visão sociológica, é uma sociedade “diferente” da do resto do Brasil. 67 MARTINS, Wilson. Um Brasil diferente: ensaio sobre o fenômeno de aculturação no Paraná. 2. ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1989. p. 108. 68 O desenho dos esquemas foi retirado de: MOTA, Lúcio Tadeu. História do Paraná: ocupação humana e relações interculturais. Maringá-PR: EDUEM, 2005. p. 53-54. (Formação de professores EAD, n. 28). 135 POVO BRASILEIRO PORTUGUESES NEGROS ÍN D IO S POVO PARANAENSE N E G R O ÍN D IO PORTUGUÊS ALEM ÃO UC RA NI AN O PEQUENOS GRUP OS IT AL IA NO POLO NES ^ Figura 1. Esquema geral de explicação da formação do povo brasileiro e do povo paranaense Também verificamos, nas informações dos presidentes da província, preocupação com as populações indígenas e ações direcionadas a elas, como a implantação de colônias militares, também mencionadas nos relatórios. Além de serem priorizadas como pontos estratégicos na defesa das áreas limítrofes da província, essas colônias eram consideradas como uma política mais ampla para ocupação dos territórios, no sentido de promover o povoamento. Tanto a implantação das colônias militares quanto a dos indígenas constituíram ações desenvolvidas em conjunto pelo governo imperial e o provincial. Assim, foram 136 implantadas tais colônias em vários pontos da Província. As colônias militares foram as seguintes: Colônia Militar de Jataí, criada em 21 de janeiro de 1855 pelo decreto Imperial nº 751, localizada às margens do rio Tibagi, hoje cidade de Jataizinho; Colônia Militar do Chopim, criada em 16 de novembro de 1859 pelo decreto Imperial nº. 2.502, instalada em 27 de dezembro de 1882, localizada onde hoje é a cidade de Chopinzinho; Colônia Militar do Chapecó, pelo decreto nº 2502 de 16 de novembro de 1859, instalada em 14 de março de 1882, e que hoje integra o território do Estado de Santa Catarina; Colônia Militar de Foz do Iguaçu, fundada em 23 de novembro de 1889, onde hoje é a cidade de Foz do Iguaçu. As colônias indígenas foram: Colônia de Nossa Senhora do Loreto do Pirapó, criada em 1855, localizada na foz do rio Pirapó, no Paranapanema, hoje cidade de Itaguagé; Colônia de Santo Inácio do Paranapanema, criada em 1862 na embocadura do rio Santo Inácio do Paranapanema, atualmente município de Santo Inácio; Colônia de São Pedro Alcântara, criada em 1855 às margens do rio Tibagi, em frente à cidade de Jataizinho, que foi a que teve maior duração, sendo extinta apenas em 1895; Colônia de São Jerônimo, em 1859, hoje cidade de São Jerônimo da Serra; Colônia do Xongu (Chagu) instalada em 1859, nos campos do Chagu, a oeste de Guarapuava, onde atualmente se localiza a Terra Indígena de 137 Rio das Cobras, no município de Laranjeiras do Sul; Colônia de Catanduvas, implantada em 1891, localizada entre a colônia militar de Foz do Iguaçu e Guarapuava; Colônia de São Tomás de Papanduva, instalada em 1875 na região do Rio Negro. • Considerações finais Ao abordarmos as principais políticas públicas dos presidentes e vice-presidentes do Paraná provincial constatamos como eles buscaram promover o desenvolvimento político, social, cultural e econômico da província para consolidar a sua autonomia por meio de ações políticas, como: organizar e garantir a segurança pública, que, apoiada na ordem dominante, agiu em defesa dos interesses de uma determinada classe social – a elite; o desenvolvimento de práticas educacionais, para criar uma sociedade com uma cultura pautada na moralidade e nos costumes da época; a busca por ocupar, unificar e garantir o domínio do território, ligando uma região a outra pela política de estradas, investindo na sua construção e em suas melhorias, e no projeto de navegação dos rios, visando impulsionar a economia e a comunicação do interior com o centro dominante do poder; como também povoar com gente “civilizada, morigerada e laboriosa” as terras paranaenses, constituindo uma sociedade pautada na ideologia do progresso e da civilização. Esperamos que, a partir do que foi abordado neste capítulo, seja possível se conhecer um 138 pouco sobre esse período da história paranaense que não costuma ser abordado nas escolas, e praticamente não é estudado pelos alunos. Apesar de a história paranaense ser objeto de estudos desde meados do século XIX até os dias de hoje, de forma geral muito pouco contato os educadores e estudantes têm com esses estudos. REFERÊNCIAS CANIELI, Dulce Elena. As populações indígenas nas narrativas das autoridades provinciais do Paraná 1853-1889. 2001. Dissertação (Mestrado em História Social)- Universidade Estadual de Maringá, Maringá; Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2001. CARNEIRO, Davi. História do período provincial do Paraná: galeria de presidentes 1853-1889. Curitiba: Tipografia Max Roesner, 1960. CERRI, Luis Fernando. Regionalismo e ensino de História. Revista de História Regional, Ponta Grossa, v. 1, n. 1, p. 135-143, 1996. MACHADO, Brasil Pinheiro. 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Estabelecendo um paralelo com dados recentes, responda às seguintes questões: 1- Você sabe quantos governantes o Paraná teve nas últimas duas décadas? 2- Quais as prioridades de cada governante? 3- De que regiões eram oriundos? 4- Quais partidos políticos representavam? 5- Pesquise e elabore um quadro semelhante ao “quadro I”, com informações sobre os governantes das últimas duas décadas (nomes, partidos, região de origem, principais políticas de governo etc.). 143