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Acidentes Estururais na Construção Civil

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APRESENTAÇÃO
 
 
 
Acidentes estruturais na construção civil vêm ocorrendo em todo o mundo - em muitos casos
com vítimas fatais - desde os primórdios da Engenharia. No Brasil a situação não é e nem
poderia ser diferente, mas, a não ser pelos casos noticiados nos meios de comunicação. poucas
pessoas, incluindo aí os profissionais da área, têm conhecimento destas ocorrências.
 
Os acidentes estruturais podem ter suas origens em qual quer uma das atividades inerentes ao
processo genérico chamado de 'construção civil', processo este que pode ser dividido em três
etapas: concepção, execução e utilização da obra. Paralelamente a isto, podemos também
visualizar o problema como uma consequência de ações humanas, tais como a falta de
capacitação técnica do pessoal envolvido no processo (tanto na etapa de concepção como nas de
execução e de manutenção), utilização de materiais de baixa qualidade, de causas naturais
ligadas ao envelhecimento dos materiais componentes das estruturas e de ações externas, tais
como choques, ataques químicos, ataques físicos relativos ao meio ambiente e ataques
biológicos.
 
Nos dias de hoje alguns fatores contribuem decisivamente para aumentar a possibilidade de
ocorrência de acidentes estruturais. Em primeiro lugar temos o próprio envelhecimento das
estruturas, especialmente aquelas de concreto armado ou protendido. Em segundo lugar, e
contribuindo decisivamente para a aceleração da deterioração das estruturas, temos a poluição
atmosférica causada pelo alto grau de industrialização das cidades. Temos ainda o crescimento
acelerado da construção civil, que provocou a necessidade de inovações, as quais trouxeram, por
si mesmas, a aceitação implícita de maiores riscos, embora dentro dos limites que são
regulamentados das mais diversas formas. Tudo isto, aliado às falhas inevitáveis inerentes ao ato
de construir. formou um panorama bastante propício à ocorrência dos acidentes estruturais.
 
Evitar a repetição dos acidentes é um desafio para todos nós. É nossa obrigação, como
profissionais, procurar reduzir o número de acidentes cujo crescimento vem prejudicando a
própria imagem da Engenharia Civil. Uma das formas para isto é a divulgação, no meio técnico,
de insucessos do passado, já que podemos todos aprender a partir da análise das causas que
conduziram uma estrutura ao colapso ou a um funcionamento inadequado.
 
A bibliografia hoje disponível sobre este assunto é muito reduzida, e podemos mesmo afirmar
que a não ser por relatos apresentados em Congressos e Seminários, alguns publicados em seus
Anais - e, portanto, de restrita circulação -, não há qual quer texto disponível sobre o assunto.
Mesmo os relatos em Congressos e Seminários são, em sua grande maioria, voltados
para uma eventual recuperação ou reforço da estrutura. Não objetivando mostrar as causas do
acidente ou da anomalia estrutural.
 
Por isto este livro, que tem como pretensão sistematizar o tema, facilitando o acesso de
estudantes e profissionais de Engenharia e de Arquitetura à Informação, aqui apresentada
tecnicamente contribuirá para o aprendizado e consequentemente para a diminuição da
ocorrência dos acidentes com estruturas. Como os casos são muitos selecionamos para esta
primeira publicação textos que possam representar o melhor possível a vasta gama de causas dos
acidentes que ocorrem com as estruturas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
SUMÁRIO
 
 
 
ERROS DE PROJETO E DETALHAMENTO
 
1. O Desabamento do Pavilhão da Gameleira.
 
2. Trinca: em Alvenaria de Prédio Residencial.
 
3. Instabilidade de Pilares em um Galpão Comercial em Duque de 
Caxias – RJ.
 
4. O Colapso da Estrutura em Argamassa Armada do Canal do Rio Bom Pastor.
 
5. A Importância da Correta Consideração do Peso Próprio no Projeto de Estrutura.
 
6. O Colapso de um Silo de Aço para Armazenamento de Clínquer.
 
7. Acidentes por Falta de Durabilidade e de Robustez com Abrigos de Argamassa Armada
em Pontos de ônibus.
 
8. Relato e Análise do Colapso Total de um Edifício em Concrete 
Armado.
 
9. O Desabamento Repentino de um Edifício de 15 Andares.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 1
 
O DESABAMENTO DO PAVILHÃO DA GAMELEIRA
 
 
1. INTRODUÇÃO
 
O desastre da Gameleira foi um dos mais espetaculares do Brasil e dos mais comentados pela
imprensa. Passados quase um quarto de século. pode-se falar das causas do desastre com
imparcialidade, procurando enfocar principalmente os aspectos estruturais.
 
O autor dessa descrição foi membro. juntamente com os Professores Milton Vargas e Oscar
Costa. da comissão oficial nomeada pelo Instituto de Engenharia de São Paulo com o fito de
elucidar o problema. sem vínculos políticos. comerciais ou judiciais. O trabalho da comissão foi
um serviço gratuito oferecido pelos três signatários do laudo, com a finalidade única de fornecer
subsídios para os peritos nomeados pelo juiz e eventualmente para a própria Justiça para
poderem julgar o caso sem Interferências de pessoas direta ou indiretamente interessadas.
 
O acidente ocorreu em 4 de fevereiro de 1971 em Belo Horizonte. durante o intervalo do almoço,
quando numerosos operários descansavam sob a obra na parte já livre dos escoramentos recém
removidos. Muitos operários (64) ficaram esmagados sob os escombros e o acidente levantou as
mais discordantes opiniões de técnicos e de leigos.
 
Deliberadamente não citaremos qualquer nome envolvido na construção. Desejamos apenas
apontar os fatos e não os culpados. É nossa intenção mostrar os pontos críticos esperando que o
exemplo sirva de ensinamento e cautela para os jovens engenheiros.
 
 
2. O PROJETO
 
A construção destinava-se à exposição de produtos industrializados e era constituída em planta
por uma laje nervurada de 30,5 x 240m sobre 10 pilares. Ao longo de 240m, vigas de 9,8m de
altura formavam a parte visível da estrutura. Internamente, com pé-direito de 3,5m existiam duas
lajes parciais, abrangendo a largura total de 30,5m e, na direção longitudinal respectivamente 40
e 35m. Na parte superior dessas lajas, com pé-direito de 2,8m estava a cobertura constituída por
nervuras isoladas de 1,5m de altura com o vão total de 30,5m. Essa cobertura, com elementos
translúcidos de “fiber-glass” entre as nervuras, se estendia pelos 240m da construção sempre no
topo das vigas perimetrais de 9,8m de altura [1].
 
Os 10 pilares, de forma troncocônica, serviam de apoio às vigas perimetrais, todas isostáticas. As
vigas da extremidade esquerda (V100e V200) possuíam 20m de balanço e um tramo de 40m. As
duas vigas em continuação (V101 e V102 de um lado, V201 e V202 do outro) eram
simplesmente apoiadas, respectivamente com 30 e 65m de vão. A construção terminava com
vigas (V103 e V203) com um vão de 65m seguido de um balanço de 20m como as da esquerda.
Resultava o total de 240m entre as extremidades dos balanços (fig. 1). As faces de extremidade
não eram fechadas, mas eram protegidas da luz excessiva por grandes e lâminas em balanço, que
funcionavam como “brise-solei”.
 
 
Os pilares do térreo, com altura de 3 m, eram livres e visíveis de qualquer ponto, pois não
estavam previstas paredes de fechamento. Havia sido previsto um tubulão a ar comprimido para
cada pilar pois a natureza do solo assim o justificava e que transmitia a pressão de 10 kgf/cmª na
camada de solo residual. A superestrutura foi projetada em concreto aparente, tanto na parte
interna como na externa.
 
As vigas longitudinais com 9,8 m de altura possuem 40 cm de largura em sua maior parte. No
trecho em que encontra a laje do piso (1 .5 m de altura) a largura se toma bem maior. Para
alojamento da armadura longitudinal.
 
O projeto constava de 68 pranchas de desenho e 13 folhas manuscritas de cálculo com
pouquíssimas informações. Não existia qualquer projeto ou mesmo esquema do cimbramento ou
de sua remoção. O esquema do descimbramento foi fornecido posteriormente pelo projetista da
estrutura, mas não fazia parte do projeto inicial. Previa a retirada das escoras dos apoios