Prévia do material em texto
CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 1 Projeto Pós-graduação Disciplina Vigilância em Saúde Tema Políticas Públicas de Saúde no Brasil Professora Joy Ganem Longhi Introdução Neste tema, vamos compreender o que são políticas públicas, qual a evoluções dessas ações voltadas para a saúde no Brasil e quais as expectativas e previsões de avanço para o atual sistema utilizado. Bons estudos! Antes de prosseguir, assista ao vídeo da professora Joy, ela vai falar sobre o que vamos estudar neste tema. Princípios Doutrinários e Organizativos do SUS As estratégias de saúde propostas pelo governo, tal qual mostra a história, nem sempre visavam o bem-estar da população. As políticas de saúde no Brasil refletiam o momento vivido, a economia vigente e as classes dominadoras (LUZ, 1982). As políticas públicas de proteção social surgem como forma de minimizar as distorções existentes na sociedade, assim como em decorrência das reivindicações por melhores condições de trabalho, feitas pelo movimento operário. Atualmente, além das demandas trabalhistas, as políticas públicas estão voltadas para educação, saúde, segurança, habitacional, transporte, transferência de renda, segurança alimentar, entre outros. Entende-se por política pública o conjunto de ações realizadas pelo Estado e seus agentes, com a participação ou não da sociedade, visando garantir os direitos sociais previstos em lei (SOUSA; BATISTA, 2012). Atualmente, o SUS é um dos maiores programas de saúde pública do mundo e possui um dos maiores sistemas de atenção primária à saúde que é o Programa Saúde da Família (PSF), o qual propõe reorganizar a prática assistencial a partir de ações preventivas e curativas. O Brasil, através do SUS, CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 2 possui o maior número de conjunto de procedimentos executados em hospitais pagos por um único financiador (SOUSA; BATISTA, 2012). Além disso, o sistema público possui o maior número de estabelecimentos de saúde, é responsável pela maior parte dos procedimentos e pela cobertura de três quartos da população. É no SUS que a população encontra cobertura para procedimentos de saúde coletiva, além do fornecimento de medicamentos na atenção ambulatorial (MENICUCCI, 2009). A Construção do SUS como Política Pública – Histórico de Políticas Públicas no Brasil No início do século XX, a saúde foi marcada por campanhas sanitárias e reformação de órgãos federais. As campanhas contra a varíola, com a lei da vacinação obrigatória em 1904, contra a febre amarela e a peste bubônica, marcaram suas primeiras décadas. O Código Sanitário de 1918 inicia campanhas de educação em saúde, voltadas para a questão do saneamento e controle de endemias, no entanto, essas ações são pontuais e fragmentadas (SARRETA, 2009). Em 1921 houve um movimento pela mudança na organização sanitária que resultou na criação do Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), o qual atuava nas áreas do saneamento urbano e rural da higiene industrial e dos serviços de higiene materno-infantil (SOUSA; BATISTA, 2012). Em 1923, a Lei Eloy Chaves instituiu as Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAP). A lei conferiu um estatuto legal às iniciativas já existentes de trabalhadores por fábricas, visando garantir a pensão em caso de algum acidente ou afastamento do trabalho por doença e também uma futura aposentadoria (REIS; ARAÚJO; CECÍLIO, 2010). Institui a obrigatoriedade do seguro social e do financiamento vinculado à contribuição do empregado e do empregador (SARRETA, 2009). A Lei Eloy Chaves, além da seguridade social, concedia serviços médicos-assistenciais e medicamentos aos “segurados”. Antes dessa lei, CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 3 muitas fábricas forneciam serviços médicos aos seus trabalhadores, muito embora parte do custo fosse pago pelos próprios trabalhadores através de descontos em seus salários (SOUSA; BATISTA, 2012). O Estado não participava propriamente do custeio das Caixas que, de acordo com o determinado pelo artigo 3º da Lei Eloy Chaves, eram mantidas por: empregados das empresas (3% dos respectivos vencimentos), empresas (1% da renda bruta) e consumidores dos serviços das mesmas. Desse modo, as próprias empresas deveriam recolher mensalmente o conjunto da contribuição das três fontes de receita e depositar diretamente na conta bancária da sua CAP (OLIVEIRA; TEIXEIRA, 1985). Além da aposentadoria e pensões, os fundos proviam os serviços, funerários e médicos e obrigavam as CAPs a arcar com assistência os acidentados no trabalho (POLIGNANO, 2015). Saiba Mais: quer saber mais sobre as Políticas Públicas de Saúde e História do SUS? Então, clique no link a seguir e assista ao vídeo. https://www.youtube.com/watch?v=wsT9xCNBeX8 Em 1932 houve a criação dos Institutos de Aposentadoria e Pensões (IAPs) as quais cobrem categorias estratégicas de trabalhadores pela lógica contributiva do seguro, ou seja, dos trabalhadores, dos empresários e do Estado (SARRETA, 2009). Acentua-se o componente da assistência médica. Em parte, por meio de serviços próprios, mas principalmente por meio da compra de serviços do setor privado (REIS; ARAÚJO; CECÍLIO, 2010). Com sua criação, paulatinamente, as CAPS são extintas. A intervenção do Estado na saúde inicia em 1930, quando foi criado o Ministério da Educação e Saúde Pública (MESP) e organizada uma política nacional de saúde a partir de dois eixos: da saúde pública e da medicina previdenciária ligada aos IAPS e suas categorias correspondentes. A saúde pública foi desenvolvida por meio de campanhas sanitárias, coordenadas pelo Departamento Nacional de Saúde, criado em 1937. Nesse período, a https://www.youtube.com/watch?v=wsT9xCNBeX8 CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 4 assistência médica para a população empobrecida, que não dispunha de recursos como CAPs ou IAPs, era prestada pelo atendimento de caridade e filantrópico, mantido pela igreja (SARRETA, 2009). Nesses institutos, os trabalhadores eram organizados por categoria profissional (marítimos, comerciários, bancários) e não por empresa (POLIGNANO, 2015). Na década de 40, foram tomadas medidas de reestruturação e ampliação dos órgãos de saúde dos Estados. As ações passaram a ser coordenadas e centralizadas pelo Governo Federal. Durante esse período, houve a criação do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), o qual, na década de 50, teria importante atuação no combate à malária, em pesquisas de doenças tropicais e na educação sanitária (SOUSA; BATISTA, 2012 e SARRETA, 2009). Em 1953, ocorreu a divisão da saúde e da educação através da criação do Ministério da Saúde. Em 1965 houve a criação do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), resultante da unificação dos IAPs e consolida o componente assistencial (REIS; ARAÚJO; CECÍLIO. 2010). Nessa época, o sistema de saúde brasileiro passava por uma crise, por ser insuficiente, mal distribuído, descoordenado, inadequado, ineficiente e ineficaz. Para mudar essa realidade, foi organizado um movimento formado pela sociedade, por pesquisadores, estudantes e profissionais da saúde que propôs a resolução desses problemas e a democratização da saúde no país. Esse movimento foi chamado de Reforma Sanitária Brasileira e é a base para a proposta de criação do Sistema Único de Saúde (SUS) (SOUSA; BATISTA, 2012). Durante os anos 70, foi construída uma sólida estrutura privada de atenção médica, privilegiando a medicina curativa. A rede privada chegou a ser financiada em mais de 80% pelo estado e os recursos para a saúde eram mínimos (LUZ, 1991). O sistema previdenciário sofreu mudanças institucionais, separando o componente benefício da assistência médica. Em 1977 houve a CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 5 Criação do Sistema Nacionalde Assistência e Previdência Social (SINPAS) e do Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (INAMPS): o INAMPS estava inserido no SINPAS e é o grande órgão governamental prestador de assistência médica (REIS; ARAÚJO; CECÍLIO, 2010). Para os usuários, as transformações da organização do sistema de saúde indicavam duas situações igualmente difíceis de serem enfrentadas: a ineficácia do sistema previdenciário e a baixa eficiência dos serviços públicos de saúde (CORDEIRO, 1991). No âmbito internacional, em setembro de 1978, aconteceu em Alma-Ata, a Conferência sobre Cuidados Primários de Saúde, com a proposta de atenção primária em saúde como estratégia para ampliar o acesso de forma a atender, com igualdade de condições, todos os membros ou segmentos da sociedade até o ano 2000 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001). O período de 1980 a 1983 é conhecido como o período da crise da previdência social. Na tentativa de elaborar um programa nacional de serviços básicos de saúde, criou-se o Prev-Saúde, inspirado na Conferência sobre Cuidados Primários à Saúde, o qual não chegou a ser colocado em prática. Nessa conferência, promovida pela Organização Mundial da Saúde/UNICEF, se declara que saúde não é apenas ausência de doença e sim um completo bem-estar físico, mental e social (ROSA; LABATE, 2005). A criação do Conselho Consultivo de Administração de Saúde Previdenciária (CONASP), em 1981, propõe reorganizar a assistência médica, sugerir critérios para a alocação de recursos no sistema de saúde, estabelecer mecanismos de controle de custos e reavaliar o financiamento de assistência médico-hospitalar (CORDEIRO, 1991). Em 1982 ocorreu a implantação do Programa de Ações Integradas de Saúde (PAIS): programa que dava particular ênfase na atenção primária, sendo a rede ambulatorial a porta de entrada dos sistemas. Visava integração das instituições públicas da saúde mantidas pelas diferentes esferas de governo, em rede regionalizada e hierarquizada. Propunha a criação de sistemas de referência e contrarreferência e a atribuição de prioridade para a rede pública CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 6 de serviços de saúde, com complementação pela rede privada, após sua plena utilização; previa a descentralização da administração dos recursos; simplificação dos mecanismos de pagamento dos serviços prestados por terceiros e seu efetivo controle; racionalização do uso de procedimentos de custo elevado; e estabelecimento de critérios racionais para todos os procedimentos. Viabilizou a realização de convênios trilaterais entre o Ministério da Saúde, Ministério da Previdência e Assistência Social e Secretarias de Estado de Saúde, com o objetivo de racionalizar recursos utilizando capacidade pública ociosa (REIS; ARAÚJO; CECÍLIO, 2010). Em 1985, a PAIS passou a Ações Integradas de Saúde (AIS). Em 1984, a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO) e o Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (CEBES) promoveram uma reunião para a avaliação das AIS. O encontro reforçou a posição do movimento sanitário no sentido de se promover a unificação do sistema de saúde (CORDEIRO, 1991), mas foi em 1986 que aconteceu um marco histórico para a saúde, a VIII Conferência Nacional de Saúde, a qual consagrou uma concepção ampliada de saúde e o princípio da saúde como direito universal e como dever do Estado; princípios estes que seriam plenamente incorporados na Constituição de 1988 (REIS; ARAÚJO; CECÍLIO, 2010). A Criação dos Sistemas Unificados e Descentralizados de Saúde (SUDS) em 1987 propunha como principais diretrizes: a universalização e equidade nos acessos aos serviços de saúde; integralidade nos cuidados assistenciais; descentralização das ações de saúde e implementação de distritos sanitários. Pela primeira vez, o Governo Federal começou a repassar recursos para os estados e municípios ampliarem suas redes de serviços (REIS; ARAÚJO; CECÍLIO, 2010). Em 1988, a Constituição Cidadã estabelece a saúde como “Direito de todos e dever do Estado”. Podemos, então, sintetizar essa última década do seguinte modo: em 1979, a primeira proposta do SUS foi apresentada pelo Centro Brasileiro de CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 7 Estudos em Saúde (CEBES) no I Simpósio Nacional de Saúde da Câmara dos Deputados, no entanto, apenas nove anos depois foi promulgada a Constituição Federal, a qual contemplava os princípios e diretrizes elaboradas pelo CEBES. A partir da constituição de 1988, a saúde passa a ser direito de todos e dever do Estado (SOUSA; BATISTA, 2012). A criação do SUS se deu através da Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990 – Lei Orgânica da Saúde, que dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes. A partir desse período, várias iniciativas institucionais legais e comunitárias foram criando condições de viabilização do direito à saúde. Segundo essa Lei, a saúde não é só ausência de doenças e é determinada por uma série de fatores presentes no dia a dia, tais como: alimentação, moradia, saneamento básico, meio ambiente, trabalho, educação, lazer etc. (CORDEIRO, 1996). Outra Lei, a 8.142/90, regulamenta a participação da comunidade na gerência do SUS através de Conferências e dos Conselhos de Saúde. Foram criadas também as Normas Operacionais Básicas (NOB) que é um instrumento jurídico-institucional, editado periodicamente pelo Ministério da Saúde para aprofundar e reorientar a implementação do SUS; definir novos objetivos estratégicos, prioridades, diretrizes e movimento tático-operacional; regular as ações entre seus gestores e normatizar o SUS (CORDEIRO, 1996). Saiba Mais: vamos aprender mais sobre as políticas públicas de saúde no Brasil? Então, acesse o site a seguir e conheça. http://www.unasus.unifesp.br/biblioteca_virtual/esf/1/modulo_politico_gestor/Uni dade_4.pdf O SUS e suas Atribuições O SUS transformou-se no maior projeto público de inclusão social em menos de duas décadas: 110 milhões de pessoas atendidas por agentes comunitários de saúde em 95% dos municípios e 87 milhões atendidos por 27 http://www.unasus.unifesp.br/biblioteca_virtual/esf/1/modulo_politico_gestor/Unidade_4.pdf http://www.unasus.unifesp.br/biblioteca_virtual/esf/1/modulo_politico_gestor/Unidade_4.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 8 mil equipes de saúde de família. Em 2007: 2,7 bilhões de procedimentos ambulatoriais, 610 milhões de consultas, 10,8 milhões de internações, 212 milhões de atendimentos odontológicos, 403 milhões de exames laboratoriais, 2,1 milhões de partos, 13,4 milhões de ultrassons, tomografias e ressonâncias, 55 milhões de seções de fisioterapia, 23 milhões de ações de vigilância sanitária, 150 milhões de vacinas, 12 mil transplantes, 3,1 milhões de cirurgias, 215 mil cirurgias cardíacas, 9 milhões de seções de radioquimioterapia, 9,7 milhões de seções de hemodiálise e o controle mais avançado da AIDS no terceiro mundo. São números impressionantes para a população atual, em marcante contraste com, aproximadamente, metade da população excluída antes dos anos oitenta, a não ser pequena fração atendida eventualmente pela caridade das Santas Casas (SANTOS, 2007). No tocante ao funcionamento, é importante ressaltar que o SUS não possui um caráter institucional, ele é um complexo sistema formado por centros de saúde, ambulatórios, laboratórios, hospitais de iniciativa privada e do poder público, bem como por outros órgãos da União, Estados e Municípios, tendo como gestor central o Ministério da Saúde. Desse modo, pode-se definir o SUS como um conjunto de ações e serviços públicos de saúde, compondo uma rede regionalizada e hierarquizada, organizada a partir das diretrizes da descentralização, integridade e participaçãoda comunidade (PAIM, 2009a). A implantação de programas de saúde que possuem uma hierarquização desde o nível federal ao municipal tem permitido tanto a elaboração de projetos que promovam o desenvolvimento local, quanto a utilização de conceitos e ferramentas inerentes à geografia no sentido de planejar a territorialidade de políticas públicas, de equipamentos e ações (PEREIRA; BARCELLOS, 2006). Segundo a Lei Orgânica da Saúde (lei 8.080/90), são objetivos e atribuições do SUS: a assistência às pessoas, a vigilância epidemiológica, a vigilância sanitária, a saúde do trabalhador e a assistência farmacêutica. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 9 Entende-se por assistência às pessoas a atenção à saúde em tudo que envolve o ser humano, como ações de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação (SOUSA; BATISTA, 2012). Assista agora ao vídeo da professora Joy em que ela explica melhor sobre os princípios doutrinários e organizativos do SUS. Resultados e Perspectivas da Saúde Pública no Brasil Desde seu surgimento, o SUS se tornou um dos sistemas de saúde públicos de maior cobertura do mundo. Sua efetivação implicou a organização de uma ampla rede de serviços e ações de saúde, abrangendo todos os níveis de complexidade (BARATA; TANAKA e MENDES, 2003). Antes do SUS, a saúde era uma mistura de inúmeros componentes: medicina liberal com médicos e dentistas em consultórios particulares; medicina previdenciária com hospitais públicos e postos de assistência médica do INPS e após 1977 do INAMPS, delegacias regionais do trabalho, delegacias federais de saúde, programas especiais do Ministério da Saúde, centros e postos de saúde estaduais e municipais, além das vigilâncias epidemiológica e sanitária, entre outros. Paralelamente, havia estruturas ligadas à medicina de grupo, cooperativas médicas, seguro-saúde, laboratórios clínicas e hospitais privados, universitários, beneficentes e filantrópicos. A produção de vacinas e medicamentos era bastante restrita, concentradas em poucas empresas estatais e com dependência externa das multinacionais (PAIM, 2009b). O SUS ampliou o acesso da população aos serviços de saúde, tanto na atenção básica quanto na de maior complexidade, entretanto, a implementação do SUS, como seria esperado em processos sociais complexos, desencadeou novos problemas financeiros, organizacionais e gerenciais que desafiam e retardam a concretização de algumas das premissas constitucionais do sistema e exigem reflexão e estratégias de enfrentamento por parte dos gestores e de todos que entendem a saúde como condição imprescindível da cidadania (BARATA; TANAKA e MENDES, 2003). CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 10 A falta de identificação dos segmentos organizados da população com uma assistência pública e igualitária contribuiu para o enfraquecimento da proposta de caráter publicista e universalista e para o fortalecimento da segmentação, reforçando a perspectiva de que ao SUS cabe a cobertura da população mais pobre e em condições desfavoráveis de inserção no mercado de trabalho (MENICUCCI, 2009). Além da ampliação da cobertura, o aumento de gastos do SUS resulta do encarecimento progressivo da assistência à saúde, que está sendo observado nos sistemas de saúde de todo o mundo, relacionado não só à incorporação de novas tecnologias, mas também às mudanças do perfil epidemiológico da população, com seu envelhecimento relativo e consequente aumento proporcional de doenças e condições crônicas (BARATA; TANAKA e MENDES, 2003). Além disso, a atual crise econômica enfrentada no Brasil faz com que a população aumente a busca pelos serviços do SUS, dado o desemprego e a impossibilidade de manter os planos e seguros suplementares de atenção à saúde. Desse modo, é improvável imaginar que haverá diminuição de gastos no SUS como aumento de eficiência no sistema, redução de seus desperdícios ou mudança do modelo assistencial atual. Outro aspecto que compõe o cenário do SUS é o sucesso na implementação da descentralização e municipalização. Porém, a descentralização trouxe novos desafios que devem ser levados em conta, para que o desenvolvimento do sistema permita o acesso integral e equitativo à população, às ações e aos serviços de saúde (BARATA; TANAKA e MENDES, 2003). Além do processo de municipalização, em diversas regiões do Brasil, no qual os municípios expandem a atenção médica sem nenhuma articulação regional, com desperdício de recursos públicos, gerados pela ineficiência na prestação da assistência, com hospitais atendendo com baixa taxa de ocupação e aparelhos de apoio diagnóstico trabalhando com ociosidade, CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 11 dentre outros problemas (MENDES, 2001). Outra dificuldade ainda encontrada pela população é a estruturação de serviços de média e alta complexidade que deem cobertura suficiente e adequada para todos. De modo geral, são comuns longas peregrinações, inclusive a outros estados em busca de tratamento, na maioria das vezes, enfrentando filas e exagerado tempo de espera para obtê-lo (BARATA; TANAKA e MENDES, 2003). O desequilíbrio financeiro de algumas entidades decorre dos valores dos procedimentos do SUS, fixados pelo Ministério da Saúde, os quais não cobrem todos os gastos realizados pelos hospitais com os atendimentos prestados. Mas além do aumento do aporte de recursos, são necessárias outras medidas relativas à modernização gerencial e administrativa desses serviços, como a adoção de contratos de gestão com metas prefixadas, na busca da qualidade e eficiência dos serviços prestados e negociação com os prestadores de serviço (BARATA; TANAKA e MENDES, 2003). Além da ampliação de cobertura do SUS e da garantia de integralidade, há a necessidade de aprimorar a humanização do atendimento no sistema. A humanização não é uma questão específica da saúde, mas um conceito e uma prática que deve se incorporar a atenção às pessoas em qualquer atividade que envolva usuários e profissionais da área social. A importância da humanização na saúde é ainda maior, tendo em vista a fragilidade da condição do ser humano doente, que o torna muito mais inseguro e angustiado, frente aos serviços médicos. A busca do atendimento de boa qualidade nas unidades de saúde, num ambiente humano, que procure entender e priorizar verdadeiramente a resolução dos problemas dos pacientes é fator imprescindível para que o SUS atinja seus verdadeiros objetivos na redução do sofrimento dos pacientes (BARATA; TANAKA e MENDES, 2003). De modo geral, pode-se afirmar que muito já se conseguiu após a criação do SUS, apesar das dificuldades e obstáculos encontrados na gestão do sistema. Nada se faz sem a vontade política e aperfeiçoamento gerencial, CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 12 porém o avanço do SUS também depende de recursos financeiros regulares e crescentes. Programa Saúde da Família O Programa Saúde da Família (PFS) tem se configurado como um dos mais importantes referenciais da organização de Atenção Básica no Brasil. Foi proposto em 1994 como uma estratégia de reorientação do modelo assistencial, baseada no trabalho de equipes multiprofissionais em Unidades Básicas de Saúde (UBS). Essas equipes são responsáveis pelo acompanhamento de uma população localizada em uma área delimitada, através de ações de promoção de saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes (PEREIRA; BARCELLOS, 2006). O PSF teve início quando o Ministério da Saúde formulou, em 1991, o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) com a finalidade de contribuir para a redução das mortalidades infantil e materna, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, através da extensão de cobertura dos serviços de saúde para as áreas mais pobrese desvalidas. Desse modo, o Ministério da Saúde percebe a importância dos agentes nos serviços básicos de saúde no município e começa a enfocar a família como unidade de ação programática da saúde (VIANA; DAL POZ, 1998). O PSF apresenta uma nova maneira de trabalhar a saúde, tendo a família como o centro de atenção e não somente o indivíduo doente, introduzindo nova visão no processo de intervenção em saúde, uma vez que não espera a população chegar para ser atendida, pois age preventivamente sobre ela a partir de um novo modelo de atenção (ROSA; LABATE, 2005). Muda a antiga concepção de atuação dos profissionais da saúde, saindo da medicina curativa e passando a atuar na integralidade da assistência, tratando o indivíduo como sujeito dentro de sua comunidade socioeconômica e cultural (LEVCOVITZ; GARRIDO, 1996). Saiba Mais: Para você saber mais sobre as políticas de saúde do Brasil, CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 13 acesse o site a seguir e leia as publicações sobre Políticas de Saúde Brasileiras produzidas pelo Ministério da Saúde do Brasil e instituições parceiras. http://brasil.bvs.br/vhl/diretorios-portais-e-servicos/politicas-de-saude-do- brasil-2/ Vamos assistir agora a mais um vídeo em que a professora Joy fala mais sobre os projetos e programas do SUS que merecem destaque. Para isso, acesse seu material on-line e confira! http://brasil.bvs.br/vhl/diretorios-portais-e-servicos/politicas-de-saude-do-brasil-2/ http://brasil.bvs.br/vhl/diretorios-portais-e-servicos/politicas-de-saude-do-brasil-2/ CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 14 Síntese Neste tema, pudemos verificar a evolução dos Programas de Saúde Pública no Brasil, a importância da Constituição de 1988 e da Lei Orgânica da Saúde, sancionada em 1990, a qual define a criação do Sistema Único de Saúde (SUS). Após esses 25 anos, pode-se perceber o avanço que o SUS representou na saúde da população brasileira e a evolução de seus programas e coberturas, mas ainda é possível verificar a possibilidade de desenvolvimento e crescimento das ações já implantadas, assim como a implantação de novas áreas, com o intuito de melhorar a saúde da população em seus diversos campos, como a prevenção, a epidemiologia, os tratamentos, a saúde do trabalhador e a vigilância ambiental. Assista ao vídeo da professora Joy em que ela faz uma síntese do que estudamos aqui. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 15 Referências BARATA, L. R. B.; TANAKA, O. Y.; MENDES, J. D. V. 15 anos do SUS: desafios e perspectivas. Disponível em: <http://143.107.240.24/departamentos/social/saude_coletiva/O15anosdoSUS.p df>. Acesso em: 17 de jun. de 2015. CORDEIRO, H. Sistema Único de Saúde. Rio de Janeiro: Ayuri/ABRASCO; 1991. CORDEIRO, H. O PSF como estratégia de mudança do modelo assistencial do SUS. Caderno Saúde Família. 1, 10-15; jan-jun, 1996. LEVCOVITZ, E; GARRIDO, N. G. Saúde da Família: A procura de um modelo anunciado. Caderno Saúde Família. 1, 3-8; jan-jun, 1996. LUZ, M. Medicina e ordem política brasileira. Rio de Janeiro: Graal, 1982. LUZ, M. Notas sobre as políticas de saúde no Brasil de “Transição Democrática”. Anos 80. Saúde em debate, 32 (3): 27-30; 1991. MENICUCCI, T. M. G. O Sistema Único de Saúde, 20 anos: balanços e perspectivas. Caderno de saúde pública, Rio de Janeiro, 25 (7): 1620-1625, jul, 2009. MENDES, E.V. Os grandes dilemas do SUS. ed.1. Casa da Qualidade, Bahia, 2001. MINISTÉRIO DA SAÚDE: Declaração de Alma-Ata – Conferência Internacional sobre cuidados primários de saúde; 6-12 setembro de 1978; Conferência de Alma Ata; URSS. In: Ministério da Saúde (BR). Secretarias de Política de Saúde, Projeto Promoção da Saúde. Declaração de Alma Ata; Carta Ottawa; Declaração de Adelaide; Declaração de Sandsvall; Declaração de Santafé de Bogotá; Declaração de Jocarta; Rede de Megapaíses; Declaração do Mèxico. Brasília (DF): Ministério da Saúde; 2001, p. 15. OLIVEIRA, A. A; TEIXEIRA, S. M. F. (Im)previdência social: 60 anos de história da Previdência no Brasil. Petropólis: Vozes,1985, 360 p. PAIM, J. S. O que é o SUS. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2009a. PAIM, J. S. Uma análise sobre o processo da Reforma Sanitária Brasileira. Saúde em Debate. 81 (33), p. 27-37, Rio de Janeiro, jan./abr., 2009b. PEREIRA, M. P. B; BARCELLOS, C. O território no Programa Saúde da http://143.107.240.24/departamentos/social/saude_coletiva/O15anosdoSUS.pdf http://143.107.240.24/departamentos/social/saude_coletiva/O15anosdoSUS.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 16 Família. Hygeia- Revista Brasileira de Geografia Médica e da Saúde. 2 (2): 47- 55, jun 2006. POLIGNANO, Vinícius Marcus. Histórias das Políticas de Saúde no Brasil: Uma pequena revisão. Disponível em: <www.saude.mt.gov.br/arquivo/2226>. Acesso em: em 16 de mar. de 2015. REIS, O. D; ARAÚJO, E. C; CECÍLIO, L. C. O. Políticas públicas de saúde no Brasil: SUS e pactos pela saúde. Disponível em: <http://www.unasus.unifesp.br/biblioteca_virtual/esf/1/modulo_politico_gestor/U nidade_4.pdf>. Acesso em: 20 de jan. de 2015. ROSA, W. A. G; LABATE, R. C. Programa Saúde da Família: A construção de um novo modelo de assistência. Revista Latino americana de enfermagem. 13(6): 1027-1034, nov./dez., 2005. SANTOS, N. Desenvolvimento do SUS, rumos estratégicos e estratégias para visualização dos rumos. Ciências saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, p. 429-435, abr. 2007. SARRETA, F. O. Educação permanente em saúde para os trabalhadores do SUS [online]. São Paulo: Editora UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. 248 p. ISBN 978-85-7983-009-9. SOUZA, R. C; BATISA, F. E. B. Política Pública de saúde no Brasil: A História e perspectiva do Sistema Único de Saúde - SUS. VII Congresso Norte Nordeste de Pesquisa e Inovação. ISBN: 978-85-62830-10-5. Palmas, Tocantins; 2012. VIANA, A. L. A; DAL POZ, M. R. Estudo sobre o processo de reforma em saúde no Brasil. Rio de Janeiro, abril, 1998. http://www.saude.mt.gov.br/arquivo/2226 http://www.unasus.unifesp.br/biblioteca_virtual/esf/1/modulo_politico_gestor/Unidade_4.pdf http://www.unasus.unifesp.br/biblioteca_virtual/esf/1/modulo_politico_gestor/Unidade_4.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 17 Atividades 1. Pode ser constatado que as Políticas Públicas de Saúde no Brasil foram realizadas ao longo dos anos, na sua maioria, de forma imediatista e não planejada. O que se pode notar na realidade é que as mesmas, até a Constituição Federal de 1988, nunca tiveram como objetivo proporcionar ao cidadão um bem-estar amplo e irrestrito. As políticas adotadas até então, sempre tiveram o intuito de dar uma resposta às reinvindicações populares, no sentido de cessar os protestos e greves. Diante dessa afirmação, podemos dizer que: a. A saúde pública no Brasil sofreu uma revolução significativa com a Constituição de 1988, em que a lei orgânica da saúde foi assinada. No entanto, desde então, não pôde-se observar significativo avanço nas políticas de saúde. b. Até 1988, nenhum cidadão tinha acesso à saúde, sendo o tratamento público bastante escasso e atendendo apenas a parcela da população que trabalhava em indústrias e portos. c. A Constituição de 1988 teve fundamental importância ao afirmar que “A saúde é direito de todos e dever do Estado”. A partir de 1990, várias iniciativas institucionais legais e comunitárias foram criando condições de viabilização do direito à saúde pela Lei nº 8.080. d. Até 1988, a saúde pública se resumia a campanhas de vacinação. No entanto, desde então, a evolução foi notória, em especial no campo de saúde do trabalhador e assistência à saúde da mulher. 2. Quanto ao SUS, podemos afirmar que: a. É um dos maiores programas de saúde pública do mundo e realiza desde simplesatendimentos ambulatoriais até procedimentos de alta complexidade como transplante de órgãos, garantindo acesso integral, universal e gratuito para toda a população do país. b. É o maior programa de saúde pública do mundo e, por isso, atende CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 18 populações de países vizinhos e que se encontram em estado de extrema pobreza, auxiliando os “países-irmãos” do Mercosul. c. Encontra-se em reavaliação pelo Ministério da Saúde, o qual tem a intenção de reformulá-lo para SABR (Saúde dos Brasileiros de Baixa Renda) até 2020, a fim de reduzir os gastos com a saúde pública e atendendo apenas pessoas cuja renda mensal não seja superior a 3 salários mínimos. d. É financiado pelo setor privado, em especial pelas grandes empresas, compostas por mais de 500 funcionários, uma vez que estas têm interesse no atendimento gratuito. 3. Em 1923, a Lei Eloy Chaves instituiu as Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAP). Esta lei previa: a. Vacinação aos recém-nascidos e as epidemias que na época eram recorrentes no Brasil. b. Estatuto legal às iniciativas já existentes de trabalhadores por fábricas, visando garantir a pensão em caso de algum acidente ou afastamento do trabalho por doença e também uma futura aposentadoria; institui a obrigatoriedade do seguro social e do financiamento vinculado à contribuição do empregado e do empregador e concedia serviços médico- assistenciais e medicamentos aos “segurados”. c. Aposentadoria por invalidez, Programa Saúde da Família e, em especial, Programa Saúde da Mulher, uma vez que nessa época, o êxodo rural, aumentou a incidência de doenças comunitárias, especialmente em cidades grandes, e o índice de natalidade triplicou. d. Atendimento de saúde integral ao produtor rural e sua família, uma vez que estes viviam isolados, em grande parte estavam na linha de extrema pobreza, contribuindo para o êxodo rural. Esta foi uma tentativa de manter o homem no campo, uma vez que as cidades se tornavam cada vez mais inchadas e os problemas de saúde cresciam em velocidade alarmante. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 19 4. Quanto ao Programa Saúde da Família, ele tem a família como o centro de atenção e não somente o indivíduo doente, introduzindo nova visão no processo de intervenção em saúde. Esse programa: a. Atende somente as famílias de baixa renda e ribeirinhas, presentes nos estados da região Norte e Nordeste. b. Atende somente famílias socialmente vulneráveis, em especial nas comunidades e favelas do Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Norte. c. Foi criado para atender as famílias que viviam no campo, uma vez que, para estas pessoas, o acesso à saúde é muito difícil. d. Foi criado com foco na redução das mortalidades infantil e materna, em especial nas regiões Norte e Nordeste. 5. São princípios doutrinários do SUS, exceto: a. A universalidade, que garante a atenção à saúde por parte do sistema a qualquer cidadão. b. A equidade, que assegura as ações e serviços de acordo com a complexidade que cada caso requeira. Todo cidadão é igual perante o SUS e será atendido conforme suas necessidades, até o limite do que o Sistema pode oferecer. c. A integralidade busca compreender o conjunto de necessidades de ações e serviços de saúde que um paciente apresenta. d. A participação popular através da sociedade civil organizada. Para consultar o gabarito das questões, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 1 Projeto Pós-graduação Disciplina Vigilância em Saúde Tema Processo Saúde-Doença Professor Joy Ganem Longhi Introdução Neste tema, serão abordados diversos conceitos, entre eles, as definições para “doença”, “saúde” e “processo saúde-doença”, palavras essas bastante familiares, no entanto, com significados bastante amplos. Avaliaremos também o perfil da população brasileira em relação às doenças mais comuns e como elas vêm se apresentando ao longo dos últimos anos. Finalmente, poderemos analisar a perspectiva de saúde de nossa população. Bons estudos! Assista no seu material virtual ao vídeo de introdução que a professora Joy fez deste tema. Problematização Severino fugiu da seca no Nordeste junto com seus pais e foi para São Paulo em 1985. Como grande parte dos casos, sua família nunca conseguiu dinheiro suficiente para a manutenção de uma casa confortável, pagamento de suas contas e alimentação adequada. Severino cresceu morando em uma favela e a única casa que possui, composta por 2 cômodos (banheiro e sala/quarto/cozinha), acomoda atualmente sua mãe, com 70 anos, a qual sofre com diversas doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e doença de Chagas; sua esposa, grávida do quinto filho; e os outros quatro filhos, e dois sofrem rotineiramente com problemas respiratórios devido à falta de estrutura de sua casa, umidade constante e poluição. Severino, atualmente, é servente de pedreiro e recebe R$ 1.200,00 para a manutenção da casa e de sustento de seus 7 habitantes. Sua esposa está CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 2 desempregada e não consegue emprego por estar grávida. É comum Severino passar noites em claro, preocupado com suas contas e com o dia de amanhã. Nesse caso, qual o melhor cenário se adequa à realidade dessa família? Não responda ainda, vamos estudar nosso material e a final você poderá escolher a opção que melhor se encaixa neste caso. Saúde, Doença e Processo Saúde-doença Uma concepção difundida de saúde é a de um estado de harmonia e equilíbrio funcional do corpo. Tudo o que faz o ser humano sofrer, que o limita e impede de exercer suas atividades normais, dá ao homem a consciência de um corpo que deixou de "funcionar em silêncio" e que, portanto, dá mostras de alterações que podem significar um estado de doença. No entanto, "não sentir nada", nem sempre significa ausência de doenças, pois vários processos e lesões podem permanecer "calados" por muito tempo sem serem percebidos por seus portadores. A relação existente entre saúde e doença não é apenas uma relação de bom ou mau funcionamento do corpo, mas uma interação muito mais ampla do homem com os ambientes (físicos e sociais) que o cercam, da sua maneira de relacionar-se com outros homens, da sua condição de trabalho (tipo e características, condições físicas para exercê-lo e a relação pessoal com o trabalho - gostar de realizá-lo); da forma como é organizada a produção de riquezas e de como essas riquezas são repartidas e compartilhadas por todos, das possibilidades que ele possui para se expressar, para desenvolver seu potencial criativo e desenvolver-se como pessoa. A busca de uma concepção de saúde é também a procura da compreensão do processo de vida dos homens ao longo da história (SILVA MARQUES, 2015). Segundo Brêtas e Gamba (2006), por mais que se pense a saúde na dimensão do coletivo, é o ser humano que adoece e como tal requer cuidados. A saúde e o adoecer são experiências subjetivas e individuais, conhecidas de maneira intuitiva, dificilmente descritas ou quantificáveis. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 3 A preocupação com a conservação da saúde acompanha os homens desde os primórdios. A rejeição a substâncias amargas; a procura de abrigos para o frio, o calor e a chuva; a necessidade de repousar, de comer e beber são comportamentos que fazem parte do instinto humano de conservação (SCILAR, 2002). A estratégia da vigilância à saúde apoia-se na Teoria da Determinação Social do Processo Saúde-Doença, segundo a qual o processo saúde-doença manifesta-se em indicadores sociais e nos modos específicos de adoecer e morrer (perfis epidemiológicos) dos diferentes grupos sociais. O processo saúde-doença é socialmente determinado, ou seja, articula-se às condiçõesmateriais de existência, de tal modo que os eventos biológicos por si só não são capazes de explicá-lo. A história social condiciona os modos de adoecer e morrer dos grupos sociais, pois o biológico e o social são momentos de um mesmo processo (LAURELL, 1983). O processo saúde-doença deve ser, portanto, categorizado e analisado em seus determinantes e condicionantes históricos, genéticos e estruturais (bio-psíquicos, sociais e ecológicos/ambientais). A interação desses elementos é que determina sua particularização, isto é, a ocorrência do dano ou da doença no indivíduo ou na coletividade (LIEBER, 1998). Saúde Criado em 7 de Abril de 1948, desde o Dia Mundial da Saúde, a Organização Mundial de Saúde (OMS) desenvolveu o conceito de saúde, que diz: Saúde: estado completo de bem-estar físico, mental e social e não simplesmente ausência de doença ou enfermidade. É um direito fundamental e a consecução do mais alto nível de saúde é a mais importante meta social mundial, cuja realização requer a ação de muitos outros setores sociais e econômicos, além do setor de saúde. No Brasil, em 1986, foi desenvolvida a VII Conferência Nacional de Saúde, na qual foi adotado o seguinte conceito sobre saúde: [...] em seu sentido mais abrangente, a saúde é resultante das CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 4 condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio- ambiente, trabalho, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse de terra e acesso a serviços de saúde. É assim, antes de tudo, os resultados das formas de organização social da produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida (BRASIL, 1986). O considerado normal em um indivíduo pode não ser em outro; não há rigidez no processo. Dessa maneira, pode-se concluir que o ser humano precisa se conhecer e saber avaliar as transformações sofridas pelo seu corpo (VIANNA, 2015). Doença A doença sempre esteve presente no desenvolvimento da humanidade. Estudos de paleoepidemiologia relatam a ocorrência há mais de três mil anos, de diversas doenças que até hoje afligem a humanidade. No entanto, os problemas de saúde se acentuaram significativamente com o desenvolvimento da vida comunitária. O homem passou de nômade a agricultor e pastor a domesticação de animais para auxílio no plantio ou como fonte de proteína, foi elemento crucial no aparecimento de novas doenças (FIOCRUZ, 2008). Originalmente, presente em animais, diversos microrganismos são pouco a pouco, adaptados e disseminados entre as populações humanas. Doenças como a varíola e a tuberculose migram do gado para os seres humanos (FIOCRUZ, 2008); porcos e aves transmitem a gripe e o cavalo, o resfriado comum (PALMEIRA et al., 2004). A armazenagem de alimentos e a concentração dos dejetos nas aldeias aproximam os vetores do convívio humano (FIOCRUZ, 2008). A doença não pode ser compreendida apenas por medições fisiopatológicas, pois quem estabelece o estado de doença é o sofrimento, a dor, o prazer, enfim, os valores e sentimentos expressos pelo corpo subjetivo que adoece (BRETAS; GAMBA, 2006). Quadros clínicos semelhantes, ou seja, com os mesmos padrões biológicos, prognósticos e implicações para o tratamento, podem afetar pessoas diferentes de forma distinta, resultando em diferentes manifestações CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 5 de sintoma de desconforto, com comprometimento diferenciado de suas habilidades de atuar em sociedade (OLIVEIRA; EGRY, 2000). Processo Saúde-Doença Histórico Na antiguidade, as religiões politeístas acreditavam que a saúde era dádiva e a doença castigo dos deuses, com o decorrer dos séculos e o advento das religiões monoteístas, a dádiva e o castigo passaram a pertencer a um único Deus. No entanto, 400 anos a.C., Hipócrates desenvolve o tratado “Os Ares e Lugares”, onde relaciona os lugares de moradia, a água para beber, os ventos com a saúde e a doença (BUCK et al., 1988), a relação com o ambiente é um traço característico da compreensão hipocrático do fenômeno saúde- doença. Partindo da observação das funções do organismo e suas relações com o meio natural e social, Hipócrates desenvolveu uma teoria que entende a saúde como homeostase, isto é, o resultado do equilíbrio entre o homem e seu meio (FIOCRUZ, 2008). Séculos mais tarde, as populações passam a viver em comunidades e a teoria miasmática, a qual consiste na crença de que a doença é transmitida pela inspiração de “gases” de animais e dejetos em decomposição, toma lugar (BUCK et al., 1988). O avanço significativo no pensamento médico ocorre quando se dá um desvio do foco de interesse das forças sobrenaturais para o portador da doença, passando a mesma, gradativamente, ser vista como um fenômeno natural, passível de ser compreendido e liberado da intromissão de forças divinas ou malévolas (BARROS, 2002). Para Galeno (122-199 d.C.), um dos médicos que exerceram maior influência na história da medicina ocidental, a ideia central da fisiologia repousa no fluxo permanente dos humores, o que estaria na dependência das influências ambientais, do calor inato e na ingestão alimentar e sua justa proporção. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 6 As causas mórbidas podiam ser internas (ligadas à constituição ou predisposição individual), externas (excessos alimentares, sexuais ou de exercícios físicos) ou conjuntas. O diagnóstico deve ter por fundamentos o cuidadoso exame do doente, o conhecimento de seu estado enquanto sadio, seu temperamento, regime de vida, alimentação, além das condições ambientais e a época do ano (BARROS, 2002). Para Celso (1493-1541), representa um modelo de transição entre a escola galênica e o modelo biomédico. Na determinação da doença, identificava influências cósmicas e telúricas, além de substâncias tóxicas e venenosas, bem como a predisposição do próprio organismo e das motivações psíquicas (BARROS, 2002). A Era Bacteriológica iniciou-se no século XIX, quando foi aceita a teoria de que um microrganismo específico, no caso um bacilo, seria responsável por determinada doença. Robert Koch, em 1876, demonstrou durante três dias, na presença de outros cientistas, a transmissão do antraz, usando camundongos como modelos experimentais. Anteriormente, diversos outros já haviam observado e apresentado suas teorias como, por exemplo, Bonomo, em 1687 apresentou a escabiose devida ao ácaro da sarna, mas não causou impacto, sendo insuficiente como contraposição à teoria miasmática. Em 1841, Jacob Henle, formulou uma teoria em que comprovava seres organismos vivos, causadores das doenças infecciosas (FIOCRUZ, 2008). Ao final do século XIX, boa parte das questões relativas às doenças infecciosas havia sido respondida, especialmente em relação às doenças contagiosas. Porém, persistiam algumas interrogações sobre a origem de doenças em que novos casos surgiam sem qualquer contato direto com os indivíduos enfermos. Do mesmo modo, intrigava o não adoecimento de pessoas expostas aos doentes. Nos primeiros anos do século XX, foram desvendadas a participação de vetores ou hospedeiros intermediários na transmissão de doenças e o papel dos portadores sadios na manutenção da CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 7 cadeia epidemiológica (FIOCRUZ, 2008). A era bacteriológica resultou em um modelo unicausal de compreensão da doença, no qual se baseava na existência de apenas uma causa, o agente. Para um agravo ou doença, no entanto, o vigor para as explicações unicausais começa a enfraquecer após a Segunda Guerra quando os países industrializados começam a vivenciar uma “transição epidemiológica”, caracterizada pela diminuição da importância das doenças infecto-parasitárias como causa de adoecimento e morte em detrimento do incremento das doenças crônico-degenerativas(FIOCRUZ, 2008). O modelo multicausal avançou no conhecimento dos fatores condicionantes da saúde e da doença. A crítica que se faz a ele reside no fato de tratar todos os elementos da mesma forma, ou seja, naturalizar as relações entre o ambiente, o hospedeiro e o agente, esquecendo que o ser humano produz socialmente sua vida em um tempo histórico e que, por isso, em certos períodos, podem ocorrer doenças diferentes com intensidades e manifestações também diferentes (PALMEIRA et al., 2004). O modelo biomédico ou mecanicista teve início no século XVI e baseia o papel do médico exclusivamente na eliminação de doenças e lhe confere grande autoridade e poder, que se manifestam na relação estabelecida entre ele e o paciente. O encontro que ocorre durante a consulta médica é centrado no médico ou na doença, e a perspectiva do paciente é considerada pouco relevante (SANDMAN; MUNTHE, 2010). Em 1978, a Declaração de Alma-Ata para os Cuidados Primários em Saúde, produto da I Conferência Internacional sobre Cuidados Primários à Saúde, realizada em Alma-Ata, na Rússia, realçou o novo pensamento de caracterização do processo saúde-doença, incorporando as dimensões sociais, políticas, ambientais, culturais e econômicas como indispensáveis às ações e aos serviços de saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009). Nas últimas décadas, observa-se a necessidade de mudança na forma de atendimento à população nos serviços de saúde. Isso se deve a um http://www.epsjv.fiocruz.br/pdtsp/index.php?s_livro_id=6&area_id=2&autor_id=&capitulo_id=24&sub_capitulo_id=80&arquivo=ver_conteudo_2 CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 8 conjunto de fatores, tais como insatisfação dos clientes, modificação no perfil epidemiológico, reconhecimento de fatores de risco, surgimento de novas doenças e crescente desenvolvimento de tecnologias sofisticadas e de alto custo (STEWART et al., 1995). Não existe um limite preciso entre saúde e doença, mas uma relação de reciprocidade entre ambas; entre a normalidade e a patologia, na qual os mesmos fatores que permitem ao homem viver (alimento, água, ar, clima, habitação, trabalho, tecnologia, relações familiares e sociais) podem causar doenças. Essa relação é demarcada pela forma de vida dos seres humanos, pelos determinantes biológicos, psicológicos e sociais. Tal constatação nos remete à reflexão de que o processo saúde-doença-adoecimento ocorre de maneira desigual entre os indivíduos, as classes e os povos, recebendo influência direta do local que os seres ocupam na sociedade (BRÊTAS; GAMBA, 2006). Em síntese, pode-se dizer, em termos de sua determinação causal, que o processo saúde-doença representa o conjunto de relações e variáveis que produzem e condicionam o estado de saúde e doença de uma população, que variam em diversos momentos históricos e do desenvolvimento científico da humanidade (VIANNA, 2015). O processo saúde-doença é um dos pontos centrais para profissionais da saúde que buscam promovê-la, cuidando para que as pessoas possam ter, tanto quanto possível, uma boa qualidade de vida, mesmo quando as limitações se estabelecem (VIANNA, 2015). Prevenção Diariamente, levamos em conta nossos riscos. Proteger-se da morte, da doença, da tempestade, dos maus êxitos nos negócios, não é uma criação recente. A base do conceito de medicina preventiva foi sistematizada no livro “Medicina Preventiva” de Leavell e Clark, cuja primeira edição foi publicada em CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 9 1958. A prevenção apresenta-se em três fases: Prevenção Primária: Realizada no período pré-patogênese. O conceito de promoção à saúde aparece como um dos níveis de promoção primária, definido como “medidas destinadas a desenvolver uma saúde ótima”. E um segundo nível de prevenção primária seria a prevenção específica: contra agentes patológicos ou pelo estabelecimento de barreiras contra os agentes do meio ambiente”. Prevenção Secundária: Também apresenta dois níveis: o primeiro, o diagnóstico e tratamento precoce e o segundo, a limitação por invalidez. Prevenção Terciária: São as ações de reabilitação. Os Principais Problemas de Saúde da População Brasileira Características da População Brasileira Até os anos 60, a população brasileira era extremamente jovem, com cerca de 52% de indivíduos abaixo dos 20 anos e menos de 3% acima dos 65 anos. Nesse período, houve significativo declínio da mortalidade e uma discreta redução da fecundidade. A partir dos anos 70, começa a se observar um estreitamento continuado na base da pirâmide etária e, consequentemente, o envelhecimento da população (FIOCRUZ, 2008). Essa tendência vem se firmando, conforme demonstrado no gráfico a seguir, com os dados etários da população brasileira, de acordo com o censo realizado pelo Instituto Brasileiro de geografia e Estatística (IBGE) em 2010. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 10 Fonte: IBGE, 2010. Com essa mudança de perfil da população, o impacto na organização do Sistema Único de Saúde incidirá na necessária reconfiguração da oferta de serviços, procurando qualificar o atendimento das necessidades de saúde, das faixas mais avançadas. A atenção à saúde do idoso passa a demandar não só o direcionamento na contratação de especialistas (geriatras, ortopedistas, cardiologistas, angiologistas etc.), a inclusão de um calendário específico de imunizações, a implantação e ampliação do atendimento domiciliar, a expansão do acesso e adequação da oferta de medicamentos na farmácia básica, como também, o desenvolvimento de ações de promoção à saúde, com orientações nutricionais, educação física, lazer e cultura (FIOCRUZ, 2008). Saiba Mais: clique no link a seguir e leia um artigo sobre a morbidade hospitalar em idosos nas internações do Sistema Único de Saúde do Brasil. http://www.scielo.br/pdf/csc/v15n6/a23v15n6.pdf http://www.scielo.br/pdf/csc/v15n6/a23v15n6.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 11 O Quadro de Morbimortalidade Brasileiro As transformações históricas e sociais que a sociedade brasileira vem atravessando têm repercutido na produção e distribuição dos problemas de saúde. Nas últimas décadas, o Brasil vem apresentando um novo perfil epidemiológico. Ainda que tenha sido observada queda na mortalidade por doenças infecciosas, para muitas destas, o quadro de morbidade manteve-se estável ou se acentuou. As doenças cardíacas, as neoplasias e as mortes violentas passaram a ser responsáveis por cerca de 60% dos óbitos (FIOCRUZ, 2008). Veja no gráfico a seguir a mortalidade proporcional por grupos de causas definidas entre 1930 e 2004 no Brasil. Fonte: FIOCRUZ, 2008. De acordo com o Ministério da Saúde (2004), a mudança do perfil epidemiológico do Brasil, nos últimos vinte anos, pode ser expressa pela permanência das doenças do aparelho circulatório como principal causa de morte, pela diminuição da importância das doenças infecciosas e parasitárias e, principalmente, pelo crescimento das neoplasias e das causas externas. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 12 Foram observadas melhoras marcantes em alguns indicadores da saúde, como a redução da mortalidade infantil e de doenças infecciosas e parasitárias, a tendência de redução do risco de morte pela doença isquêmica do coração e cerebrovascular, a tendência de redução de mortalidade por câncer do pulmão em homens com até 64 anos, além de, em algumas regiões, ter ocorrido a estabilização do risco de mortalidade por câncer do colo de útero e redução do risco de mortalidade por acidentes de transporte terrestre. Por outro lado, o risco de morte por câncer de mama apresentou tendência crescente. A mortalidade materna, apesar da redução aparente, continua alta e subnotificada. A gravidez na adolescênciavem crescendo, especialmente em regiões menos desenvolvidas; as consultas de pré-natal aumentaram e o número de partos por cesarianas é alto. As taxas de mortalidade infantil vêm diminuindo no Brasil desde o início do século XX. Esse indicador reflete as condições de vida de uma população, dado que uma criança com menos de um ano é extremamente sensível às condições socioeconômicas e ambientais. Um dos motivos que contribui para esse declínio é a expansão do Programa Saúde da Família (PSF), que vem acumulando resultados positivos na prevalência do aleitamento materno e na redução da desnutrição infantil (FIOCRUZ, 2008). Saiba Mais: neste outro artigo você pode ler mais sobre as causas de hospitalização no SUS de crianças de zero a quatro anos no Brasil. Clique no link e aproveite. http://www.scielo.br/pdf/rbepid/v13n2/09.pdf Quando analisado os principais motivos de mortalidade infantil, as afecções originárias do período perinatal representam o principal contingente das mortes no primeiro ano de vida. Seus fatores causais estão intimamente ligados às condições de saúde e nutrição, nível de escolaridade e de vida das mulheres, assim como à qualidade da atenção prestada durante o pré-natal, parto e assistência ao nascimento (BRASIL, 2005). http://www.scielo.br/pdf/rbepid/v13n2/09.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 13 Vamos assistir agora ao vídeo da professora Joy em que ela explica detalhadamente sobre a mortalidade infantil. Acesse-o no seu material on-line e acompanhe! Doenças Prevalentes Doenças não infecciosas Sabe-se que a hipertensão, o colesterol alto, o excesso de peso, a inatividade física, o tabagismo e o alcoolismo estão entre os fatores de risco para a maior parte dessas doenças. O principal grupo de causas de morte no Brasil em todas as regiões e para ambos sexos, são as doenças do aparelho circulatório, representadas por: doenças hipertensivas, doenças cerebrovasculares, doenças isquêmicas do coração, infarto agudo do miocárdio, doenças reumáticas e demais doenças circulatórias (FIOCRUZ, 2008). Saiba Mais: no link a seguir, você poderá encontrar um artigo sobre o controle da hipertensão arterial em publicações brasileiras. Boa leitura! http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0066- 782X2013002900020&script=sci_arttext Sobre esse assunto, acesse seu material virtual e assista ao vídeo da professora Joy em que ela fala sobre hipertensão e suas complicações na população brasileira. Neoplasias O impacto da globalização econômica sobre as sociedades contemporâneas, redefinindo padrões de trabalho, nutrição e consumo, assim como o envelhecimento populacional, tem sido indicado como responsável pelo aumento da incidência das doenças crônico-degenerativas, como as cardiovasculares e o câncer, no entanto, no Brasil, o aumento da prevalência de cânceres associados ao melhor nível econômico – mama, próstata e http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0066-782X2013002900020&script=sci_arttext http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0066-782X2013002900020&script=sci_arttext CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 14 cólon/reto – é observado simultaneamente à elevação das taxas de incidência de tumores geralmente associados à pobreza – colo do útero, pênis, estômago e cavidade oral. Segundo o estudo, ainda não existem dados que permitam compreender a vulnerabilidade de determinados grupos à doença, sendo que seu aparecimento está vinculado tanto a condições genéticas quanto a condições determinadas pelo modo de vida e o ambiente. Dentre os principais fatores de risco reconhecidos pelos pesquisadores, figuram o tabagismo e o álcool, a obesidade e o sedentarismo, infecções sexualmente transmissíveis, riscos ambientais (poluição do ar, exposição profissional a agentes cancerígenos, radiação solar) e contaminação venosa pelo vírus de hepatite B e C (RADIS, 2006). Ainda que se tenha obtido grandes êxitos na prevenção (combate ao tabagismo, programas de saúde da mulher) e na assistência (diagnóstico precoce, avanços terapêuticos), o grande desafio para o SUS, diante de um cenário de crescimento dos casos, consiste na constituição de uma rede capaz de prover o acesso universal ao cuidado em todos os níveis, bem como de serviços adequados para o tratamento dos pacientes com câncer em todas as regiões, ou seja, a efetiva implantação da Política Nacional de Atenção Oncológica, criada pela Portaria 2.349, de dezembro de 2005. Agora, a professora Joy vai falar sobre o câncer no Brasil, assista ao vídeo no seu material on-line. Causas Externas Violência e Acidentes de Trânsito, de modo geral, o sexo masculino é mais afetado por essas causas, sendo em média, maior que 80% do número de vítimas. Na faixa etária de 10 a 29 anos, as causas externas representam a segunda maior causa de morbidade hospitalar. São principalmente os homicídios e os acidentes terrestres os responsáveis pelas altas taxas de morbimortalidade. Quanto às principais causas para esse tipo de óbito, pode-se http://www.epsjv.fiocruz.br/pdtsp/nav.php?s_livro_id=6&capitulo_id=22&autor_id=&sub_capitulo_id=695&arquivo=ver_pop_up CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 15 citar: homicídios, acidentes de transporte terrestre e suicídios (FIOCRUZ, 2008). Saiba Mais: para você conhecer mais sobre isso, leia o artigo “Determinação sociocultural dos Acidentes de Transporte Terrestre (ATT)” disponível no site a seguir. http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n9/a05v17n9.pdf Doenças Infecciosas Em 1930, estas eram as principais causas de morte no país. Esse quadro se alterou significativamente mediante as melhorias sanitárias, o desenvolvimento de novas tecnologias – vacinas, antibióticos, recursos diagnósticos –, a ampliação do acesso aos serviços de saúde e a adoção de medidas de controle específicas (BRASIL, 2004) que se observa uma expressiva redução na mortalidade (46% no período de 1980-2001). As doenças infecciosas e parasitárias continuam a produzir um impacto importante no quadro de adoecimento no país, constituindo-se na terceira maior causa de morte em crianças de 0 a 4 anos de idade (FIOCRUZ, 2008). Saiba Mais: neste artigo, você poderá saber mais sobre a política de saúde do homem, clique no link a seguir e leia. http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v46s1/co4221.pdf http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n9/a05v17n9.pdf http://www.scielosp.org/pdf/rsp/v46s1/co4221.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 16 Revendo a problematização E aí, já pensou no caso de Severino apresentado no início deste tema? Qual seria o cenário que se adequa à realidade da família? Escolha uma das opções a seguir que melhor se adeque ao que foi descrito. a. Todos os membros da família poderiam estar saudáveis caso, no passado, a família de Severino não tivesse se mudado para São Paulo. b. Atualmente, na casa de Severino existem 3 membros doentes: sua mãe e os dois filhos. c. Pode-se considerar que todos os membros da família estão com sua saúde comprometida. Para consultar o feedback de cada uma das alternativas, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 17 Síntese Neste tema, pudemos compreender a complexidade da definição de saúde, verificamos a evolução da compreensão do processo saúde-doença e conhecemos o perfil da população brasileira em relação às doenças prevalentes e aos índices e motivos de morbimortalidade. Verificamos que a população vem envelhecendo e que, por esse motivo, o atendimento à saúde deverá se preparar para as mudanças nos cenários da faixa-etária atendida, aumento dos índices de doenças crônicas e degenerativas e, felizmente, a redução da mortalidade infantil. Assista ao vídeo de síntese que a professora Joy fez deste tema. CCDD – Centro deCriação e Desenvolvimento Dialógico 18 Referências BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Políticas de Saúde. Projeto de Promoção da Saúde. Distritos sanitários: concepção e organização do conceito de saúde e do processo saúde-doença. Brasília, Ministério da Saúde, 1986. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação de Saúde. Saúde Brasil 2004 – uma análise da situação de saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2004. BRASIL, Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise de Situação em Saúde. Saúde Brasil 2005: uma análise da situação de saúde no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 2005 BRASIL. Ministério da Saúde. Conselho Nacional de Saúde. Subsídios para a construção da Política nacional de Saúde Ambiental; Brasília: Ministério da Saúde, 2009. BRÊTAS, A.C.P; GAMBA, M.A. Enfermagem e saúde do adulto. Barueri: Manole, 2006. BUCK, C.; LLOPIS, A.; NAJERA, E.; TERRIS, M., eds. El desafío de la epidemiología. Washington DC: Organización Panamericana de la Salud, 1988. FIOCRUZ. O território e o processo saúde-doença. Rio de Janeiro, 2008. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Distribuição da população por sexo segundo os grupos de idade. Disponível em: <http://vamoscontar.ibge.gov.br/atividades/ensino-fundamental-6-ao-9/49- piramide-etaria>. Acesso em: 28 de mar. de 2015. LAURELL, A.C. A saúde-doença como processo social. In: NUNES, E.D, organizador. Medicina social: aspectos históricos e teóricos, p. 133-158. São Paulo: Global, 1983. LIEBER, R. R. Teoria e metateoria na investigação da causalidade – Tese de doutorado. São Paulo: USP, 1998. OLIVEIRA, M. A. C; EGRY, E. Y. A historicidade das teorias interpretativas do processo saúde-doença, Revista da Escola de Enfermagem da USP, 34(1), São Paulo,2001. PALMEIRA, G. et al. Processo saúde doença e a produção social da saúde. In: EPSJV. (Org.) Informação e Diagnóstico de Situação. Rio de Janeiro: http://vamoscontar.ibge.gov.br/atividades/ensino-fundamental-6-ao-9/49-piramide-etaria http://vamoscontar.ibge.gov.br/atividades/ensino-fundamental-6-ao-9/49-piramide-etaria CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 19 Fiocruz, EPSJV, 2004. RADIS. Reunião, Análise e Difusão de Informações sobre Saúde. Situação do câncer no Brasil. Radis, 52. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006 SANDMAN, L; MUNTHE, C. Sharing decision making, paternalism and patient choice, Health Care Anal., 18. p. 60-84; 2010. SCILAR, M. Do mágico ao social: trajetória de saúde pública. São Paulo: Senac, 2002. SILVA MARQUES, C. M. Processo saúde-doença. Disponível em: <http://www.escolaseac.com/s- educ/arquivos/download/pbnprocesso_saude_doenca_- _claudia_marques.pdf>. Acesso em: 23 de mar. de 2015. STEWART, M; BROWN, J. B; WETSON, W. W; Mc WHINNEY, C. L; FREEMAN, T.R. Patient-centered medicine: transforming de clinical methods. Sage publications, 1995. VIANNA, L. A. C. Processo Saúde-Doença. Módulo Político Gestor. Disponível em: http://www.escolaseac.com/s- educ/arquivos/download/wvpreferencia_1.pdf. Consultado em: 22 de mar. de 2015. http://www4.ensp.fiocruz.br/radis/ http://www4.ensp.fiocruz.br/radis/ http://www.escolaseac.com/s-educ/arquivos/download/pbnprocesso_saude_doenca_-_claudia_marques.pdf http://www.escolaseac.com/s-educ/arquivos/download/pbnprocesso_saude_doenca_-_claudia_marques.pdf http://www.escolaseac.com/s-educ/arquivos/download/pbnprocesso_saude_doenca_-_claudia_marques.pdf http://www.escolaseac.com/s-educ/arquivos/download/wvpreferencia_1.pdf http://www.escolaseac.com/s-educ/arquivos/download/wvpreferencia_1.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 20 Atividades Em relação às definições dos termos saúde e doença, podemos afirmar: a. Ao contrário da saúde, a doença pode ser avaliada unicamente pelos processos fisiopatológicos. b. A saúde pode ser definida como ausência de qualquer doença de manifestação fisiopatológica. c. Uma mesma doença, por causar mesmos sintomas e resultados em diferentes pessoas, pode ser avaliada e tratada de modo igual. d. Uma mesma doença pode atingir pessoas que apresentem desfechos totalmente diferentes e por isso, esses indivíduos devem ser avaliados e tratados de acordo com sua necessidade específica. No último século, o Brasil vem apresentando significante mudança no perfil de morbimortalidade. Isso se deve: a. Ao crescente aumento da natalidade, havendo atualmente a prevalência de doenças como: hiperatividade, sarampo e meningite. b. À utilização indiscriminada de antibióticos, propiciando a dizimação das bactérias e consequentemente redução das doenças infectocontagiosas. c. Ao envelhecimento da população, fazendo com que doenças degenerativas e crônicas fiquem cada vez mais em evidência. d. Ao saneamento básico atualmente disponível para 70% da população, reduzindo assim o número de parasitoses e doenças: Malária, Esquistossomose e Doença de Chagas. Em relação à hipertensão, pode-se afirmar: a. Por ser uma doença silenciosa, não há maiores preocupações, a não ser que o paciente tenha mais do que 60 anos de idade. b. Resulta em doenças e quadros mais graves como: insuficiência renal, infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, o que pode deixar o indivíduo potencialmente ativo, com graves sequelas e improdutivo. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 21 c. Resulta em doenças graves como insuficiência renal, no entanto, essa condição atinge em especial idosos, não impactando na produtividade do indivíduo, no entanto, aumentando os custos do governo com medicamentos e exames de acompanhamento. d. Foi uma doença de grande importância para a população Brasileira, no entanto, os atuais surtos de dengue, malária e gripe A no Brasil, fazem com que a importância das doenças cardiovasculares seja reduzida. O conceito de Prevenção de Doenças refere-se à tentativa de evitar o mal, agindo sobre as causas das doenças, com o uso de medidas específicas contra a doença que se quer evitar. Sobre esse assunto, podemos dizer que: a. A vacinação é uma prevenção terciária. b. Alimentação adequada, exercícios físicos regulares e não fumar, podem ser considerados como prevenção primária para diversas doenças. c. O afastamento do serviço devido a lesões de esforço repetitivo, pode ser considerada uma prevenção terciária d. A fisioterapia e hidroterapia na reabilitação de um acidente de trabalho podem ser consideradas prevenção secundária. Quanto à mortalidade infantil, é incorreto afirmar: a. Trata-se de uma preocupação mundial, que atinge especialmente países pobres e sem saneamento básico adequado. Podemos citar o Afeganistão e os países africanos como os mais críticos nessa questão. b. O Brasil é referência mundial quando se aborda o tema “redução da mortalidade infantil”. c. O Nordeste brasileiro possui altíssimos índices de mortalidade infantil, sendo esses equiparáveis aos países africanos. d. Os índices atuais dos países asiáticos e africanos são comparáveis ao do Brasil no início do século passado. Para consultar o gabarito das questões, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 1 Projeto Pós-graduação Disciplina Vigilância em Saúde Tema Vigilância Epidemiológica Professor Joy Ganem Longhi Introdução Neste tema, vamos compreender o papel e a importância da vigilância epidemiológica e como estamos nela inseridos; aprenderemos diversos conceitos relacionados à área e que comumente são confundidos. Bons estudos! Assista no seu material virtual ao vídeo de introdução que a professora Joy fez deste tema. Problematização Ontem foi um dia de festa na casa da família Sanches. A filha mais nova se formou em Serviço Social e, por isso, fez uma confraternizaçãona churrascaria ao lado do teatro em que foi a colação de grau. Essa ideia não foi só da família Sanches e diversos outros alunos também jantaram com suas famílias e amigos nesse mesmo restaurante. Hoje, ao se conversarem sobre a festa, diversos alunos relataram que após o jantar eles e seus convidados apresentaram vômito e diarreia e estão juntando as evidências, pois acreditam que tenha sido devido à ingestão de maionese. Neste caso, estamos diante de que tipo de ocorrência? Não responda ainda, vamos estudar nosso material e ao final você poderá escolher a melhor opção. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 2 Vigilância Epidemiológica Nas últimas décadas, a implementação de ações de vigilância epidemiológica (VE) esteve em consonância com as primeiras definições conceituais estabelecidas a partir das reflexões teóricas de Langmuir e Raska, esboçada na década de 1960. Em 1963, Langmuir definiu a VE como: Observação contínua da distribuição e tendências da incidência de doenças mediante a coleta sistemática, consolidação e avaliação de informes de morbidade e mortalidade, assim como de outros dados relevantes e a regular disseminação dessas informações a todos que necessitam conhecê-las (LANGMUIR). Em 1966, Raska publicou um artigo no qual define vigilância como: O estudo epidemiológico de uma enfermidade, considerada como um processo dinâmico que abrange a ecologia dos agentes infecciosos, o hospedeiro, os reservatórios e vetores, assim como os complexos mecanismos que intervêm na propagação da infecção e a extensão com que essa disseminação ocorre (HAMMANN; LAGUANDIA, 2000). Atualmente, após cinco décadas das referidas definições, é inquestionável o papel da VE como um componente da monitorização do estado de saúde da população, na formulação, no desenvolvimento e na implementação de políticas de saúde pública e na promoção de ambientes seguros e saudáveis. Em face das mudanças nos padrões epidemiológicos de vários agravos, o surgimento de novos agentes patogênicos, os efeitos da globalização da economia e seu desdobramento nas relações humanas, assim como o impacto da ação dos seres humanos sobre o meio ambiente, faz-se necessária a revisão e ampliação de suas estratégias e práticas (HAMMANN; LAGUANDIA, 2000). Histórico As primeiras intervenções estatais no campo da prevenção e controle de doenças, desenvolvidas sob bases científicas modernas, datam do início do século XX e foram orientadas pelo avanço da era bacteriológica e pela descoberta dos ciclos epidemiológicos de algumas doenças infecciosas e CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 3 parasitárias. Essas intervenções consistiram na organização de grandes campanhas sanitárias e visavam controlar doenças que comprometiam a atividade econômica como, por exemplo: a febre-amarela, a peste e a varíola (BRASIL, 2009). A expressão “Vigilância Epidemiológica” passou a ser aplicada ao controle das doenças transmissíveis na década de 1950 para designar uma série de atividades subsequentes à etapa de ataque da Campanha de Erradicação da Malária. Visava à vigilância de pessoas, com base em medidas de isolamento ou de quarentena, aplicadas individualmente e não de forma coletiva (BRASIL, 2009). No Brasil, a Campanha de Erradicação da Varíola - CEV (1966-1973) é reconhecida como marco da institucionalização das ações de vigilância no país. O modelo da CEV inspirou a Fundação de Serviços de Saúde Pública (FSESP) a organizar, em 1969, um sistema de notificação semanal de doenças selecionadas e disseminar informações pertinentes em um boletim epidemiológico de circulação quinzenal (BRASIL, 2009). Em 1968, a vigilância epidemiológica foi tema central da 21ª Assembleia Mundial de Saúde, ficando estabelecida a abrangência do conceito, que permitia a aplicação a diversos problemas de saúde pública, além das doenças transmissíveis, como: as malformações congênitas, envenenamento na infância, leucemia, aborto, acidentes, doenças profissionais, comportamentos de fatores de risco, riscos ambientais, utilização de aditivos, entre outros (BRASIL, 2009). Em 1975, o Ministério da Saúde instituiu, por recomendação da 5ª Conferência Nacional de Saúde, o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SNVE), por meio da Lei nº 6.259/75 e Decreto nº 78.231/76. Assim, tornou-se obrigatória a notificação de doenças transmissíveis selecionadas. Em 1977, o Ministério da Saúde elaborou o primeiro Manual da Vigilância Epidemiológica, reunindo e compatibilizando as normas técnicas que eram utilizadas para a vigilância de cada doença, no âmbito de programas de CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 4 controle específicos (BRASIL, 2009). A partir da década de 80, com objetivo de superar as dificuldades encontradas para o bom desempenho da VE, foram implantadas, entre outras atividades, elaboração e/ou revisão de normas técnicas, treinamentos e supervisões. Em 1983, foi estruturado em programa de treinamento em VE, com base em materiais institucionais desenvolvidos pela Secretaria de Recursos Humanos do Ministério da Saúde (CARVALHO; MARZOCCHI, 1992). Definições, Propósitos e Funções O Sistema Único de Saúde define na Lei nº 8.080/90 a vigilância epidemiológica como: Conjunto de ações que proporciona o conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos (BRASIL, 2009). A vigilância epidemiológica tem como propósito oferecer orientação técnica permanente para os profissionais de saúde, que têm a responsabilidade de decidir sobre a execução das ações de controle de doenças e agravos, tornando disponíveis informações atualizadas sobre essas doenças e agravos, bem como dos fatores que a condicionam, numa área geográfica ou população definida (BRASIL, 2009). São funções da vigilância epidemiológica: Coleta de dados; Processamento dos dados coletados; Análise e interpretação dos dados processados; Recomendação das medidas de prevenção e controle apropriadas; Promoção das ações de prevenção e controle indicadas; Avaliação da eficácia e efetividade das medidas adotadas; Divulgação de informações pertinentes. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 5 Portanto, as funções da VE estão pautadas na tríade informação- decisão-ação. Assim, sua atuação deve ultrapassar o enfoque da doença, procurando identificar os fatores que determinam o processo saúde-doença e, assim, desenvolver práticas voltadas para a promoção da saúde (SANTOS; MELO, 2008). O Sistema de Vigilância Epidemiológica (SVE) organiza-se através de diversas esferas de competências para cada nível administrativo, competências essas definidas pela Constituição Federal e que preveem a descentralização das atividades de VE, em consonância com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), conforme visualizado no quadro abaixo: Esquema básico do Sistema de Controle de Doenças e Agravos Níveis Nacional Central Estadual Municipal Local Órgão responsável Ministério da Saúde Conselho Nacional de Saúde Secretaria Estadual de Saúde Conselho Estadual de Saúde Secretaria Municipal de Saúde Conselho Municipal de Saúde Centro de Saúde, Unidade mista, Posto de saúde, Hospital, Ambulatório, Consultório médico, Laboratório. Escola, Extensão rural, Agremiação, Igrejas. Localização Brasília-DF Capitais das UF Sedes Municipais Bairros, vilas e povoados CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 6 Funções Coordenação nacional •Coleta de dados e informações •Análise de dados •Investigações especiais •Assessoria técnicaao nível estadual •Supervisão •Produção de informes epidemiológicos •Apoio referencial (nacional e internacional) •Retroalimentação •Treinamento •Coordenação estadual •Normalização segundo diretrizes nacionais •Coleta de dados e de informação • Análise de dados •Apoio operacional •Investigação em apoio aos níveis regional e local •Assessoria técnica • Supervisão •Produção de informes epidemiológicos •Retroalimentação •Treinamento •Informação ao nível local •Coordenação local (municipal) •Produção de dados •Coleta de dados •Análise de dados •Ações de controle •Investigação de casos e surtos •Coleta de material para diagnóstico •Treinamento •Retroalimentação aos notificantes •Informação aos níveis estadual e regional •Educação em saúde •Diagnóstico e tratamento •Notificação de casos e resultados de exames •Orientação à comunidade •Ações de controle •Educação em saúde Fonte: Brasil, 1998 Os serviços de saúde em um município devem ser organizados de modo a cumprir simultaneamente o atendimento de demandas das pessoas a partir de suas necessidades e o enfrentamento de forma programada, os problemas de saúde prioritários, a partir de um diagnóstico epidemiológico (VILLA, et al, 2002). A regionalização do sistema de saúde pressupõe o conhecimento, por parte da equipe de saúde local, do perfil demográfico, social, econômico e epidemiológico da região na qual está operando (SANTOS, et al.,1990). No nível local, as atividades incluem o diagnóstico e tratamento, notificação de casos e resultados de exames, ações de controle das doenças, principalmente as de notificação compulsória, orientação à comunidade e educação em saúde (RODRIGUES; FRACOLLI; OLIVEIRA, 2001). CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 7 Coleta de Dados e Informações A coleta de dados ocorre em todos os níveis de atuação do sistema de saúde. Os dados e informações que alimentam o Sistema de Vigilância Epidemiológica são: Dados demográficos, ambientais e socioeconômicos: Permitem quantificar grupos populacionais, sendo imprescindível para o cálculo de taxas. São primordiais para a caracterização da dinâmica populacional e das condições gerais de vida (BRASIL, 2009). Dados de morbidade: São os mais utilizados em vigilância epidemiológica, por permitirem a detecção imediata ou precoce dos problemas sanitários. Dados de mortalidade: Importantes como indicadores da gravidade do fenômeno vigiado. Sua obtenção provém das declarações de óbitos, padronizadas e processadas nacionalmente (BRASIL, 2009). Notificação de emergências de saúde pública, surtos e epidemias: Possibilita a constatação de qualquer situação de risco, ou indício de elevação do número de casos de uma patologia, ou a introdução de outras doenças não incidentes no local e, assim, o diagnóstico de uma situação epidêmica inicial para a adoção imediata de medidas de controle (Brasil, 2009). Definições Endemia Endemia é a ocorrência de determinada doença que acomete sistematicamente populações em espaços característicos e determinados, no decorrer de um longo período (temporalmente ilimitada), que mantém uma incidência relativamente constante, permitindo variações cíclicas e sazonais (DUARTE, 2004). As principais doenças endêmicas no Brasil são: malária, leishmaniose, esquistossomose, febre amarela, dengue, tracoma, doença de CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 8 Chagas, Hanseníase, tuberculose, cólera e a gripe A. Epidemia É a ocorrência em uma região ou comunidade, de casos de natureza semelhante, claramente excessiva em relação ao esperado (DUARTE, 2004). Epidemiologia É a ciência que estuda a distribuição e os determinantes dos problemas de saúde (fenômenos e processos associados) em populações humanas. Seus objetos são as relações de ocorrência saúde-doença em massa (em sociedades, coletividades, comunidades, classes sociais, grupos específicos, entre outros). As relações são referidas e analisadas mediante os conceitos de risco (DUARTE, 2004). A epidemiologia descritiva estuda o comportamento das doenças em uma comunidade, isto é, em que situações elas ocorrem na coletividade, segundo as características ligadas à pessoa, ao local ou espaço físico e ao tempo, fornecendo elementos importantes para se decidir que medidas de prevenção e controle estão mais indicadas para o problema em questão e também avaliar se as estratégias adotadas causaram impacto, diminuindo e controlando a ocorrência da doença em estudo (DUARTE, 2004). Pandemia Caracterizada por uma epidemia com larga distribuição geográfica, atingindo mais de um país ou continente (DUARTE, 2004). Surto É a ocorrência de dois ou mais casos epidemiologicamente relacionados. É a ocorrência de uma doença ou fenômeno restrito a um espaço extremamente delimitado como, por exemplo: escola, festa, quarteirão, favela, bairro (DUARTE, 2004). CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 9 Saiba Mais: vamos aprender mais sobre os conceitos e definições da saúde e epidemiologia usados na vigilância sanitária. Acesse o link a seguir e confira! http://www.cvs.saude.sp.gov.br/pdf/epid_visa.pdf Acesse seu material virtual e assista ao vídeo da professora Joy em que ela comenta a investigação de surtos. Saiba Mais: Acesse também o site a seguir para você conhecer os princípios de epidemiologia para controle de enfermidades: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/modulo_principios_epidemiologia_5. pdf Notificação Notificação é a comunicação da ocorrência de determinada doença ou agravo à saúde, feita à autoridade sanitária por profissionais de saúde ou qualquer cidadão, para fins de adoção de medidas de intervenção pertinentes (BRASIL, 2009). Saiba Mais: A listagem das doenças de notificação nacional é estabelecida pelo Ministério da Saúde, veja essa listagem no site a seguir. http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2014/prt1271_06_06_2014.html A escolha dessas doenças obedece alguns critérios, razão pela qual essa lista é periodicamente revisada, tanto em função da situação epidemiológica da doença, como pela emergência de novos agentes, por alteração no Sistema Sanitário Internacional e, também, devido a acordos multilaterais entre países (BRASIL, 2009). A notificação compulsória consiste na comunicação da ocorrência de casos individuais, agregados de casos ou surtos, suspeitos ou confirmados da lista de agravos relacionados na Portaria do Ministério da Saúde, nº 104 de 25 de Janeiro de 2011, que deve ser feita às autoridades sanitárias por profissionais de saúde ou qualquer cidadão, visando à adoção de medidas de controle pertinentes. Além disso, alguns eventos ambientais e doenças ou http://www.cvs.saude.sp.gov.br/pdf/epid_visa.pdf http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/modulo_principios_epidemiologia_5.pdf http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/modulo_principios_epidemiologia_5.pdf http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2014/prt1271_06_06_2014.html CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 10 mortes de determinados animais também se tornam de notificação obrigatória (PREFEITURA BELO HORIZONTE, 2015). Os parâmetros para a inclusão de doenças e agravos na lista de notificação compulsória devem seguir os critérios a seguir: 1. Magnitude: aplicável a doenças de elevada frequência, que afetam grandes contingentes populacionais e se traduzem por alta taxa de incidência, prevalência, mortalidade e anos potenciais de vida perdidos. 2. Potencial ou disseminação: representado pelo elevado poder de transmissão da doença, colocando sob risco à saúde coletiva. 3. Transcendência: características que conferem relevância à doença ou agravo, como: severidade; taxas de letalidade, hospitalizaçãoe sequelas; relevância social, a qual se manifesta pela sensação de medo, repulsa ou indignação; relevância econômica, entre outros. 4. Vulnerabilidade 5. Compromissos internacionais: relativo ao cumprimento de metas continentais ou mundiais de controle, de eliminação ou erradicação de doenças, previstas em acordos firmados pelo governo brasileiro com organismos internacionais. 6. Ocorrências de emergências de saúde pública, endemias e surtos. Os aspectos a serem considerados em uma notificação são: Notificar a suspeita da doença ou evento. Não se deve aguardar a confirmação do caso, pois isso pode significar a perda da oportunidade de intervir eficazmente. A notificação tem que ser sigilosa, só podendo ser divulgada fora do âmbito médico-sanitário em caso de risco para a comunidade, respeitando-se o direito de anonimato dos cidadãos. O envio dos instrumentos de coleta de notificação deve ser feito CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 11 mesmo na ausência de casos, configurando a notificação negativa. A vigilância epidemiológica das doenças de notificação compulsória tem como principal fonte de informação os serviços de saúde, sobretudo ambulatorial, através do preenchimento das fichas de notificação e investigação do Sistema de Informações de Agravos de Notificação – SINAN (LESSA; et al., 2000). O SINAN foi desenvolvido no início da década de 90, tendo como objetivo o processamento e a coleta de dados sobre agravos de notificação em todo o território nacional, fornecendo informações para a análise do perfil da morbidade e contribuindo, dessa forma, para a tomada de decisões nos níveis municipal, estadual e federal (LAGUARDIA; et al., 2004). Saiba Mais: conheça mais sobre o SINAN lendo o artigo disponível no link a seguir. http://scielo.iec.pa.gov.br/pdf/ess/v13n3/v13n3a02.pdf Relatos de problemas para o bom desempenho da vigilância epidemiológica vêm se repetindo ao longo de décadas. A subnotificação, a falta de recursos humanos capacitados e as dificuldades na integração entre diversas atividades do controle de doenças, são constatações presentes em vários documentos oficiais (CARVALHO; MARZOCCHI, 1992). Além disso, o sub-registro de casos é decorrente de diversos fatores, entre eles: a subnotificação, anteriormente citada; atrasos nas digitações e digitação dos dados; problemas no processamento e transferências das informações e a ausência de uma retroalimentação adequada à fonte notificadora, gerando desestímulo e descontinuidade do processo (DUARTE, FRANÇA; 2006). A professora Joy vai nos ensinar mais sobre a vigilância epidemiológica em doenças no Brasil. Acesse seu material on-line e assista ao vídeo. http://scielo.iec.pa.gov.br/pdf/ess/v13n3/v13n3a02.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 12 Perspectivas no Brasil Os horizontes de uma vigilância epidemiológica atuante no Brasil, para hoje e para o futuro, mostram-se cada vez mais vinculadas à implementação e ao bom funcionamento do SUS. Tem sido um processo lento e progressivo, entravado por uma cultura imediatista, curativa, centrada em hospitais, de um lado, e por tremendos interesses políticos e financeiros, de outro (DIAS, 1998). Em seu marco histórico, a descentralização se mostra como um importante caminho, beneficiando diretamente a população e dando-lhe rapidez, integralidade e eficiência nas respostas. Como princípio geral, é consenso de que as ações municipalizadas e em conjuntos regionais de resolução, mostram-se tecnicamente exequíveis, mas dependem de organização, disponibilidade, competência e mecanismos de sustentabilidade (DIAS, 2000). Saiba Mais: leia o artigo “O desafio das doenças emergentes e a revalorização da epidemiologia descritiva” e conheça mais sobre o a vigilância epidemiológica. http://www.scielo.br/pdf/rsp/v31n5/2310.pdf Saiba Mais: neste outro artigo, você poderá saber mais sobre a construção da vigilância e prevenção das doenças crônicas não transmissíveis no contexto do Sistema Único de Saúde. Acesse o site e confira. http://scielo.iec.pa.gov.br/pdf/ess/v15n3/v15n3a06.pdf http://www.scielo.br/pdf/rsp/v31n5/2310.pdf http://scielo.iec.pa.gov.br/pdf/ess/v15n3/v15n3a06.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 13 Revendo a problematização E então, você já consegue responder o que aconteceu com a família Sanches e os familiares dos outros alunos da formatura apresentado no caso deste tema? a. Uma endemia, com chance de evolução para uma epidemia. b. Um surto. c. Uma endemia, caracterizada por um surto. Para consultar o feedback de cada uma das alternativas, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 14 Síntese Neste tema, pudemos compreender a importância da vigilância epidemiológica no Brasil, compreender seu papel e as dificuldades para sua realização adequada. Identificamos que ainda há muito que melhorar, especialmente no que se refere às notificações, uma vez que sabemos que apesar destas aumentarem com o passar do tempo, seus números ainda não são reais, o que dificulta a tomada de decisões e propostas de melhorias. Pudemos verificar também que as doenças endêmicas no Brasil, ainda são, na maioria, as doenças tropicais e, em muitos casos, podem ser evitadas com a conscientização da população e saneamento básico. Assista agora ao vídeo de síntese que a professora Joy faz deste tema. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 15 Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Fundação Nacional de Saúde. Centro Nacional de Epidemiologia. Guia de vigilância epidemiológica. Brasília, 1998. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Guia de vigilância epidemiológica/Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. – 7. ed. – Brasília : Ministério da Saúde, 2009. CARVALHO, M.S; MARZICCHI, K.B.F. Avaliação da prática de vigilância epidemiológica nos serviços públicos de saúde no Brasil. Revista de Saúde Pública, 26 (2): 66-74, São Paulo, 1992. DIAS, J.C.P. Problemas e possibilidades de participação comunitária no controle das grandes endemias no Brasil. Caderno de Saúde Pública, 14: 19- 37, Rio de Janeiro,1998. DIAS, J.C.P. Vigilância epidemiológica em Doença de Chagas. Caderno de Saúde Pública, 16 (Supl.2): 43-59, Rio de Janeiro, 2000. DUARTE, S.D. Conceitos e definições da saúde e epidemiologia usados na Vigilância Sanitária. Disponível em: <http://www.cvs.saude.sp.gov.br/pdf/epid_visa.pdf>. Acesso em: 03 de maio de 2015. DUARTE, H.H.P; FRANÇA, E.B. Qualidade dos dados da vigilância epidemiológica da dengue em Belo Horizonte – MG. Revista de Saúde Pública. 40(1): 134-142, 2006. LAGUARDIA, J; LAUERMAN, C.R; DOMINGUES, C.M.A; MACÁRIO, E; CARVALHO, C; GLATT, R. Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN): desafios em um desenvolvimento de sistema de informação em saúde. Epidemiologia e serviços de saúde. 13 (3): 135-147, 2004. LESSA, F. J; MENDES, A.C.G; FARIAS, S.F; SÁ, D.A; DUARTE, P.O; MELO FILHO, D.A. Novas metodologias para vigilância epidemiológica: Uso do sistema de informações hospitalares – SIH/SUS. Informe epidemiológico do SUS; 9(supl.1), 3-27; 2000. PREFEITURA DE BELO HORIZONTE. Notificação compulsória. Disponível em: <http://notificacao.pbh.gov.br/>. Acesso em 01 de maio de 2015. RODRIGUES, V.M; FRACOLLI, L.A; OLIVEIRA, M.A.C. Possibilidades e limites http://www.cvs.saude.sp.gov.br/pdf/epid_visa.pdf http://notificacao.pbh.gov.br/ CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 16 do trabalho de vigilância epidemiológica no nível local em direção à vigilância à saúde. Revista da Escola de Enfermagem USP; 35(4): 313-319, São Paulo, 2001. SANTOS, U.P; WÜNSCHFILHO, V; CARMO, J.C; SETTIMI, M.M; URQUIZA, S.D; HENRIQUES, C.M.P. Sistema de vigilância epidemiológica para acidentes de trabalho: Experiência na zona norte do Município de São Paulo (Brasil). Revista de Saúde Pública, 24(4): 286-293, São Paulo, 1990. SANTOS, S.S.B.S; MELO, C.M.M. Avaliação da descentralização da vigilância epidemiológica para a Equipe de Saúde da Família. Ciência e Saúde Coletiva, 13(6): 1923-1932, 2008. VILLA, T.C.S. et al; A prática na vigilância epidemiológica: entre o geral e o específico. Revista Brasileira de Enfermagem. 55(2): 169-173, Brasília, 2002. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 17 Atividades 1. Entendida como uma forma de pensar e agir, que tem como objetivo a análise permanente da situação de saúde da população, organização e execução das práticas de saúde adequadas ao enfrentamento dos problemas existentes: a. Vigilância epidemiológica b. Vigilância sanitária c. Vigilância em saúde d. Saúde do trabalhador 2. Sobre a Vigilância Epidemiológica no Brasil, podemos afirmar: a. O setor privado não participa do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica. b. A vigilância epidemiológica compreende um ciclo contínuo de coleta, processamento e análise de dados, recomendação de medidas de controle, promoção das ações de controle, avaliação da eficácia e efetividade das medidas adotadas e divulgação das informações pertinentes, que se pode resumir no lema “informação para ação”. c. A principal limitação do Sistema Nacional de vigilância Epidemiológica está no fato de restringir-se a doenças infecciosas. d. O município tem função exclusiva de execução, enquanto o estado é responsável pela análise de dados coletados e a união planeja as estratégias de controle. 3. Entende-se por comportamento endêmico de uma doença: a. Quando seu comportamento está claramente em excesso ao normal esperado. b. Quando ocorre em um grande número de países simultaneamente. c. Quando apresenta um padrão que se repete em dois ou mais continentes. d. Quando sua presença na comunidade apresenta-se de forma regular. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 18 4. Segundo a portaria nº 1.271, de 06/06/2014, do Ministério da Saúde, fazem parte da lista de doenças, agravos e eventos em saúde pública de notificação compulsória em todo território nacional: a. Acidentes por animais peçonhentos e pneumonia. b. Eventos adversos pós-vacinação e tuberculose. c. Dengue e varicela. d. Atendimento antirrábico e doença de Chagas crônica. 5. As doenças e agravos que constam na lista nacional de doenças de notificação compulsória serão notificados e registrados no sistema representado pela sigla: a. ANVISA b. SVE c. SINAN d. SNDNC Para consultar o gabarito das questões, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 1 Projeto Pós-graduação Disciplina Vigilância em Saúde Tema Vigilância Sanitária – Histórico e Funções Professora Joy Ganem Longhi Introdução No tema atual, iremos conhecer a Vigilância Sanitária, seu histórico, sua importância, sua abrangência e suas áreas de atuação. Verificaremos também a necessidade da interface com diversos outros órgãos públicos, como o Ministério da Saúde, da Agricultura e Polícia. Por fim, alguns conceitos imprescindíveis ficarão disponíveis. Assista ao vídeo da professora Joy, ela vai falar sobre o que vamos estudar neste tema. Acesse seu material on-line e confira! Vigilância Sanitária (VISA) A Vigilância Sanitária (VISA) conforma um campo singular de articulações complexas entre o domínio econômico, o jurídico-político e o médico-sanitário. Engloba atividades de natureza multiprofissional e interinstitucional que demandam conhecimentos de diversas áreas do saber que se complementam de forma articulada. Constitutiva das práticas em saúde, seu escopo de ação se situa no âmbito da prevenção e controle de riscos, proteção e promoção da saúde (COSTA, 2009). Possui um campo de convergência de várias disciplinas e áreas do conhecimento humano, tais como química, farmacologia, epidemiologia, engenharia civil, sociologia, política, direito, economia política, administração pública, planejamento e gerência, biossegurança, bioética e outras (ROZENFELD, 2000). Como um serviço de saúde, a VISA desenvolve um conjunto de ações estratégico no sistema de saúde, com a função de regular, sob o ângulo sanitário, as atividades relacionadas à produção/consumo de bens e serviços de interesse da saúde, seus processos e ambientes, seja da esfera privada ou pública (COSTA, 2009). CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 2 A adoção do conceito de vigilância sanitária procura simbolizar um enfoque ampliado, pautado na indução de uma organização de práticas que pretendem se configurar de forma mais sistêmica por meio da incorporação de contribuições da epidemiologia, da geografia, do planejamento urbano e das ciências sociais em saúde, produzindo e utilizando de forma compartilhada a informação e a comunicação, a fim de melhor instrumentalizar a intervenção (SILVA, 2008). Histórico A implantação de ações voltadas para a vigilância sanitária surgiu no Brasil com a chegada da Corte Portuguesa, em 1808, e tinha a finalidade de efetuar o controle sanitário dos produtos a serem comercializados e consumidos, além dos estabelecimentos comerciais; de combater a propagação de doenças, principalmente as epidêmicas; de resolver as questões de saneamento e de fiscalizar o exercício profissional na área da saúde (DE SETA, 2007). Em 1889, foi regularizado o serviço de polícia sanitária nas administrações regionais mediante a adoção de preceitos para impedir o desenvolvimento de epidemias, mas foi em 1914 que se regulamentou a diretoria geral de saúde pública, com ênfase nas ações de vigilância e polícia sanitária nos portos, domicílios e lugares públicos (LUCCHESE, 2001). A expressão “vigilância sanitária” aparece pela primeira vez em 1920, incorporada ao Regulamento Sanitário Federal, decreto que estabelecia as competências do Departamento Nacional de Saúde Pública. Significava, então, as atividades de controle sanitário de pessoas doentes ou suspeitas de moléstias transmissíveis, de estabelecimentos ou locais (MAGALHÃES; FREITAS, 2001). Em 1976 foi criada a Secretaria Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS), A lei de sua criação determinava as seguintes finalidades: promover ou elaborar, controlar a aplicação e fiscalizar o cumprimento de normas e padrões CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 3 de interesse sanitário, relativos aos portos, aeroportos, fronteiras, produtos médicos-farmacêutico, bebidas e alimentos e outros produtos ou bens (SNVS, 1992). Com a Lei Orgânica de Saúde, a partir de 1990, definiram-se novos conceitos para as áreas de vigilância sanitária e vigilância epidemiológica e novas atribuições relativas à vigilância sobre o meio ambiente (MAGALHÃES; FREITAS, 2001). A Vigilância Sanitária foi definida pela lei 8.080/1990 como: Art. 6º [...] § 1º [...] um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde, abrangendo: I - o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, compreendidas todas as etapas e processos, da produção ao consumo; II - o controle da prestação de serviços que se relacionem direta ou indiretamente com a saúde. Registra-se, assim, a ampliação das responsabilidades anteriormente restritas a produtos e doenças (MAGALHÃES; FREITAS, 2001). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), primeira agência reguladora na área social do país, é responsável pelaexecução de um conjunto de atribuições no âmbito federal e coordenação do SNVS. Surgiu em 1999 no contexto da reforma geral do Estado Brasileiro. A Agência deveria substituir a estrutura burocrática e ultrapassada da Secretaria Ministerial de Vigilância Sanitária, combater os graves e históricos problemas sanitários nacionais relacionados a produtos e serviços e fornecer respostas mais ágeis ao mercado globalizado (MOREIRA; COSTA, 2010). Acesse seu material on-line e veja o vídeo da professora Joy em que ela fala mais sobre a abrangência da ANVISA. Ações da Vigilância Sanitária A vigilância sanitária, tal como foi instituída no Brasil, abrange a regulação um leque muito grande de produtos e serviços, de natureza diversa, CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 4 agrupados nos grandes ramos: dos alimentos, dos medicamentos, dos produtos biológicos, tais como vacinas e derivados do sangue, dos produtos médicos, odontológicos, hospitalares e laboratoriais; dos saneantes e desinfetantes; dos produtos de higiene pessoal, perfumes e cosméticos, além do controle sanitário dos portos, aeroportos e estações de fronteiras e de ampla gama de serviços de interesse à saúde (LUCCHESE, 2001). Suas atividades surgiram da necessidade de proteção da população em decorrência da propagação de doenças transmissíveis nos agrupamentos urbanos com o objetivo de eliminar situações de risco à saúde (SILVA JUNIOR, 2004). A maior parte das ações da VISA são exercidas sobre coisas, produtos, tecnologias, processos, estabelecimentos, meios de transportes e ambientes e uma fração menor sobre pessoas, principalmente os viajantes (COSTA, 2009). Para o controle de riscos e exercício do poder de polícia, a vigilância sanitária aciona um conjunto de tecnologias de intervenção ou instrumentos de ação. Os principais instrumentos são: a legislação (normas jurídicas e técnicas), a fiscalização, a inspeção, o monitoramento, o laboratório, a vigilância de eventos adversos e outros agravos, a pesquisa epidemiológica, de laboratório e outras modalidades, e as ações em torno da informação, comunicação e educação para a saúde (COSTA, 2009). Dentre as ações da VISA, pode-se citar: Autorização de Funcionamento da Empresa (AFE): avalia se a atividade é permitida e de interesse da sociedade, se a empresa é legalizada e se tem capacidade técnica, se o local de instalação é conveniente. Essa autorização deve ser requerida pelas empresas produtoras de bens regulados pela Lei nº 6.360/76, de farmácias e empresas que atuam em áreas de portos, aeroportos e fronteiras. A concessão é de competência da esfera federal (COSTA, 2009). Licença Sanitária: Por meio de inspeção sanitária, a VISA avalia as CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 5 condições das instalações, a capacitação técnica e operacional da empresa, a responsabilidade profissional e o conjunto de requisitos. Os serviços de saúde e os serviços de interesse da saúde necessitam da Licença Sanitária para seu funcionamento (COSTA, 2009). Registro de produtos: Para colocar um produto no mercado, este requer o registro. A VISA avalia os documentos apresentados sobre a formulação, substâncias permitidas/proibidas, validade dos ensaios clínicos controlados (no caso de medicamentos) e outros testes, informes de bulas, rótulo, embalagens, peças publicitárias. É de competência de esfera federal (COSTA, 2009). Pesquisas epidemiológicas, de laboratório ou de outra natureza: atividade fundamental para elucidar questões entre fatores de risco relacionados aos objetos sob vigilância sanitária e determinadas doenças e agravos, assim como fundamentar a regulamentação de substâncias e produtos (COSTA, 2009). Quando ocorrem ameaças à saúde, em situações de risco iminente ou dano, por nocividade do produto (suspeita ou comprovada), riscos aumentados (relação risco x benefício desfavorável), situações de surtos, por delinquência sanitária ou outros fatores, a VISA: Faz apreensão cautelar de produtos ou interdição de atividades ou estabelecimento de saúde ou outros; Suspende ou cancela o registro de produtos e a AFE; Impõe normas restritivas para maior controle de riscos; Impõe penalidades ou encaminha o caso para o Poder Judiciário, quando há crime contra a saúde pública e outros ilícitos. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 6 No controle sanitário de cargas e viajantes, a VISA: Faz o controle sanitário das condições sanitárias e adequação dos meios de transporte e seus elementos (água, ar, elementos, dejetos, controle de vetores etc.), da área aeroportuária e seu entorno, bem como dos recintos alfandegários e faz o controle sanitário das cargas de interesse da saúde; Faz controle da saúde dos viajantes relativamente a doenças de notificação internacional e vacinação obrigatória; Desenvolve ações informativas de controle sanitário em situações epidêmicas e outras atividades de acordo com o regulamento Sanitário Internacional. Desenvolve ações informativas e educativas com consumidores, cidadão, viajantes, profissionais de saúde, produtores, comerciantes e interessados (COSTA, 2009); Faz Alerta Sanitário à comunidade científica, aos prescritores e demais profissionais de saúde e interessados; Faz monitoramento de preços (face da regulação econômica) de medicamentos, conjuntamente com os setores institucionais; Normatiza no âmbito de suas competências e estabelece articulação em temas de competências concorrentes; Encaminha demandas ao Poder Executivo ou Legislativo. As ações de controle sanitário nos portos, aeroportos e fronteiras visam não apenas proteger a população dos riscos inerentes à circulação de mercadorias e pessoas, como também proteger a agricultura e os rebanhos contra a introdução de doenças exóticas que podem acarretar enormes prejuízos econômicos (ROZENFELD, 2000). Agora, assista ao vídeo disponibilizado no seu material virtual em que a professora Joy comenta a Vigilância Sanitária de Alimentos. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 7 Competência das Ações A competência constitucional das ações da Vigilância Sanitária é comum às três esferas do governo: União, Estados, Distrito Federal e Municípios. No que tange à legislação sobre proteção e defesa da saúde, esta é concorrente entre as unidades federativas, de modo que as ações deverão ser simultâneas e harmônicas entre si, estabelecendo o texto constitucional que caberá à União legislar sobre as normas gerais (art. 24, § 1º), ao Estadual, suplementar essas normas no que couber (§ 2º), assim como suprir omissões legislativas federais (§ 3º) e, finalmente, ao município, legislar sobre assuntos de interesse local, bem como suplementar a legislação federal e estadual pertinente à saúde, naquilo que o interesse local exigir (MORAES, 2001). Outra característica das ações da vigilância sanitária é o compartilhamento de competências com outros setores institucionais. Por exemplo, os alimentos são objetos de competência do setor de saúde e da agricultura; o controle dos agrotóxicos é compartilhado por instituições do setor de saúde, da agricultura e do meio ambiente; já os serviços de saúde que utilizam radiação ionizante têm as fontes controladas pela Comissão de Energia Nuclear (COSTA, 2009). Saiba Mais: acesse o site a seguir e leia o artigo “Descentralização e modelo sistêmico: o caso da vigilância sanitária” para você aprender mais sobre a vigilância em saúde. http://www.scielosp.org/pdf/csc/v15s3/v15s3a06.pdf Conceitos e Definições Controle: Termo empregado para ações sanitárias sobre pessoas, atividades, substâncias, produtos, serviços e órgãos para que estes não desviem das normas pré-estabelecidas. E também para designar ações sobre doenças e agravos, agentes nocivos ao homem,causadores de prejuízos econômicos nas atividades produtivas, a fim de que suas frequências não se desviem da normalidade (ROZENFELD, 2000). http://www.scielosp.org/pdf/csc/v15s3/v15s3a06.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 8 Fiscalização: Verifica o cumprimento das normas de proteção da saúde e pode ser exercida por meio da inspeção sanitária, de análises laboratoriais de produtos, entre outras atividades (COSTA, 2009). No campo da Vigilância Sanitária, controle e fiscalização se confundem, mas o conceito controle é mais amplo, pois inclui a fiscalização e se estende desde a regulamentação até as ações educativas, e de informação ao consumidor (ROZENFELD, 2000). Inspeção Sanitária: Destinada a examinar as condições sanitárias de estabelecimentos, processos, produtos, meios de transporte e ambientes e sua conformidade com padrões e requisitos da saúde pública, que visam proteger a saúde individual e coletiva (COSTA, 2003). Legislação Sanitária: Normas de proteção da saúde coletiva e individual. Estabelece medidas preventivas e as repressivas, as regras para as atividades com os objetos sob controle e para a atuação da própria vigilância (COSTA, 2009). Monitoramento: Significa acompanhar e avaliar, controlar mediante acompanhamento. Assim, a vigilância sanitária pode monitorar situações de risco, processos, a qualidade de produtos e identificar risco iminente ou virtual de agravo à saúde, como também os resultados de ação de controle (COSTA, 2009). Risco: Probabilidade da ocorrência de um evento, em um determinado período de observação, em uma população exposta a um determinado fator de risco, sendo sempre coletivo (ALMEIDA FILHO, 1997). Esse conceito de risco é fundamental, mas insuficiente para a área de vigilância sanitária que também lida com risco como possibilidade de ocorrência de eventos que poderão provocar danos à saúde, sem que se possa, muitas vezes, precisar qual é o evento e, até mesmo, se ocorrerá algum (COSTA, 2009). CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 9 Veja outro vídeo da professora Joy no seu material on-line, agora ela vai falar sobre as notificações – NOTIVISA. Síntese No tema atual, foi possível verificar a amplitude das ações da Vigilância Sanitária e a responsabilidade de todas as esferas na segurança da saúde da população brasileira. Verificou-se a importância das interfaces com outros órgãos e entidades. Além disso, pode-se dizer que a maioria dos produtos que chega aos consumidores são de algum modo avaliados e possuem anuência para comercialização/utilização pela Vigilância Sanitária, entre eles, podemos citar: alimentos, medicamentos, produtos importados, entre outros. Assista ao vídeo da professora Joy em que ela faz uma síntese do que estudamos aqui. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 10 Referências ALMEIDA FILHO, A ciência e a epidemiologia. 2.ed. Salvador: APCE- ABRASCO, 1997. COSTA, E.A. Vigilância Sanitária: proteção e defesa da saúde. In: ROUQUAYROL, M.Z; ALMEIDA FILHO, N. Epidemiologia e saúde. 5.ed. p. 357-387. Rio de Janeiro: MEDCI, 2003. COSTA, E.A. Vigilância Sanitária: Temas para debates. 240 p. Salvador: EDUFBA, 2009. DE SETA, M.H.A. A construção do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária: Uma análise das relações intergovernamentais na perspectiva do federalismo. 188f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva). Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social, Rio de Janeiro, 2007. LUCCHESE, G. Globalização e regularização sanitária: Os rumos da Vigilância Sanitária no Brasil. Curso de Doutorado em Saúde Pública, Tese de doutorado: Fiocruz, 2001. MAGALHÃES, M.C.C; FREITAS, R.M. Apontamentos para discussão da vigilância sanitária no modelo de vigilância à saúde. In: CAMPOS, F.E; WERNECK, G.A.F, TONON, L.M. Cadernos de Saúde – Vigilância Sanitária. 129p. Belo Horizonte: Coopmed,2001. MORAES, E.A.S. O poder regulamentar e as competências normativas conferidas à Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Revista de Direito Sanitário, 2:(1), 2001. MOREIRA, E.M.M; COSTA, E.A. Avaliação de desempenho da Agência Nacional de Vigilância Sanitária no modelo de contrato de gestão. Ciência & Saúde Coletiva, 15(supl.3): 3381-3391, 2010. ROZENFELD, S. Fundamentos da Vigilância Sanitária. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2000. 301p. SILVA, L.A. A vigilância permanente da saúde e o método epidemiológico. Revista de Saúde Pública de Santa Catarina. 1:(1). p. 36-45, 2008. SILVA JUNIOR, J.B. Epidemiologia em serviço: uma avaliação de desempenho do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde. 318f. Tese (Doutorado em Saúde Coletiva) – Faculdades de Ciências Médicas: Campinas, 2004. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 11 Atividades 1. O início da área de atuação da Vigilância Sanitária se deve: a. À expansão do tráfico de drogas que alia os danos psíquicos e físicos à criminalidade e aumenta o número de becos insalubres para venda e consumos dessas substâncias. b. Ao aumento do contrabando de itens como medicamentos, combustíveis e cigarro. c. À globalização, que resultou na multiplicação e intensificação da produção dos bens de serviço e de consumo. d. À proteção da corte imperial contra doenças que poderiam ser importadas por navios, mercadorias e viajantes. 2. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária foi criada pela Lei nº 9.782/1999. De acordo com essa lei, entre as competências da ANVISA, está: a. Fiscalizar salões de beleza, restaurantes e açougues. b. Liberar autorização de funcionamento de empresas que comercializam materiais hospitalares. c. Fazer vistoria de farmácias. d. Participar da gestão de hospitais públicos. 3. Quanto às notificações no NOTIVISA, está incorreto afirmar que: a. Orientam para resultados que podem levar a alterações das bulas dos medicamentos. b. Orientam sobre eventos adversos ainda desconhecidos e de grande prevalência, o que pode resultar em retirada de um determinado medicamento do mercado. c. São voltadas a notificações relacionadas a medicamentos, no entanto os materiais médico-hospitalares não são seu foco, por não possuírem bulas e nem prejudicarem a saúde do paciente. d. Quanto maior o número de notificações, maior será a confiança dos CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 12 dados disponíveis em seus relatórios e, consequentemente, da qualidade e segurança dos produtos para a saúde comercializados em território nacional. 4. Promover ou elaborar, controlar a aplicação e fiscalizar o cumprimento de normas e padrões de interesse sanitário, relativos aos portos, aeroportos, fronteiras, produtos médico-farmacêuticos, bebidas e alimentos e outros produtos ou bens. Essas responsabilidades se referem à (ao): a. ANVISA b. VISA c. SNVS d. SUS 5. Em relação aos produtos submetidos ao controle de fiscalização sanitária, podemos afirmar que todos os itens a seguir estão contemplados, exceto: a. Água envasada e sua embalagem. b. Resíduos de agrotóxicos e medicamentos veterinários. c. Instalações físicas onde é realizada a produção dos produtos alimentares. d. Fornecedores de equipamentos que serão utilizados para o preparo dos alimentos. Para consultar o gabarito das questões, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 1 Projeto Pós-graduação Disciplina Vigilância em Saúde Tema A Saúde dos Trabalhadores e sua História Professor Joy Ganem Longhi Introdução Neste tema, abordaremos a saúde do trabalhador, um dos assuntos mais debatidos na vigilância em saúde. Devemos lembrar que as primeiras ações do governo voltadas para a saúde, após as campanhas de vacinação, foram visando os trabalhadores contribuintes de determinadas classes, em especial aqueles queatuavam nas indústrias. Estudaremos também a evolução desse tema no Brasil, as doenças que mais acometem os trabalhadores, os acidentes de trabalho e a importância de seus registros. Bons estudos! Assista no seu material virtual ao vídeo de introdução. Problematização Marina é auxiliar de enfermagem e, atualmente, estuda para ser enfermeira. Para isso, trabalha em dois hospitais (36 horas semanais em cada instituição) e à noite vai para a faculdade. Manter essa vida bastante corrida está em seus planos pelos próximos quatro anos, até que se forme. Avaliando essa intensa jornada, quais são as principais doenças e problemas que nossa personagem pode vir a enfrentar? Reflita sobre este caso e depois que você estudar o material poderá responder como ficará esta situação. A Saúdo dos Trabalhadores e sua História O trabalho tem um papel fundamental na inserção dos indivíduos no contexto do mundo, contribui para a formação de sua identidade e possibilita a participação na vida social, sendo um dos elementos sociais para a saúde. No entanto, a forma como esse trabalho está organizado e é executado agravam CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 2 seus efeitos negativos, entre eles, o adoecimento e a morte (MENDES; DIAS, 1999). A vigilância em saúde do trabalhador, enquanto campo de atuação, distingue-se da vigilância em saúde em geral e de outras disciplinas no campo das relações entre saúde e trabalho, por delimitar como seu objetivo específico a investigação e intervenção na relação do processo de trabalho com a saúde (MACHADO, 1997). A relação entre o trabalho e a saúde/doença, constatada desde a antiguidade e exacerbada na Revolução Industrial, nem sempre se constituiu um foco de atenção, afinal, no trabalho escravo ou no regime servil, inexistia a preocupação em preservar a saúde dos que eram submetidos ao trabalho (MINAVO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997). Segundo Cordoni Junior (1988), a saúde do trabalhador constitui um dos objetos integradores das ações de saúde pública, por seu potencial articulador das ações de vigilância sanitária, de vigilância epidemiológica e de serviços de saúde, as três grandes áreas de atuação do setor de saúde. Histórico Os romanos podem ser considerados precursores da área de atuação, atualmente denominada de “Saúde dos Trabalhadores”. As relações entre ocupações e enfermidades eram observadas por diversos naturalistas e poetas que atribuíam o adoecimento dos mineiros à pobre ventilação das minas e aos fluídos e vapores tóxicos aos quais estavam expostos (FIOCRUZ, 2008). A doença ocupacional, ainda embora sem essa denominação, é descrita desde tempos remotos. Hipócrates descreveu o quadro clínico da intoxicação saturnina; Plínio, o aspecto dos trabalhadores expostos ao chumbo, ao mercúrio e a poeiras; Agrícola escreve sobre a “asma dos mineiros”, hoje denominada silicose e Paracelso, a intoxicação pelo mercúrio (MENDES, 1995). Em 1700, foi publicado “De Morbis Artificum Distriba”, escrito por CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 3 Bernardino Ramazzini, conhecido como o Pai da Medicina do Trabalho, descrevendo doenças de aproximadamente 50 ocupações (MENDES, 1995). Com o fim do modelo feudal da sociedade e a expansão comercial, as cidades se tornam cada vez mais importante econômica e politicamente. O mercantilismo impulsiona a indústria e a produção se torna o elemento central na atividade econômica do país (FIOCRUZ, 2008). A introdução da máquina a vapor intensifica o ritmo produtivo, as máquinas passam a demandar mais mão de obra, as cidades crescem nas periferias. As péssimas condições de trabalho começam a chamar atenção dos administradores. Surgem as primeiras regulações visando a saúde nas fábricas, dentre elas, a redução da carga de trabalho excessiva (FIOCRUZ, 2008). Com o advento da Revolução Industrial, o trabalho se tornou presa da máquina, de seus ritmos, dos ditames da produção que atendiam a necessidade de acumulação rápida de capital e de máximo aproveitamento dos equipamentos, antes de se tornarem obsoletos. As jornadas extenuantes, em ambientes extremamente desfavoráveis à saúde, às quais se submetiam também mulheres e crianças, eram frequentemente incompatíveis com a vida. A aglomeração humana em espaços inadequados propiciava a acelerada proliferação de doenças infectocontagiosas, ao mesmo tempo em que a periculosidade das máquinas era responsável por mutilações e mortes (MINAVO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997). Desse modo, surge a organização de uma atenção diferenciada à saúde dos trabalhadores. Pressionados pelos prejuízos econômicos, decorrentes dos altos índices de acidentes e doenças e pela pressão dos trabalhadores, os industriais passaram a contratar médicos, atribuindo-lhes a responsabilidade de cuidar da saúde dos trabalhadores (DIAS; HOEFEL, 2005). Na primeira metade do século XX, mudanças nos processos produtivos decorrentes das duas guerras mundiais e dos esforços de reconstrução pós- guerra, deram forma a novos problemas e necessidades de saúde relacionadas ao trabalho. Outros profissionais se juntaram à equipe médica, enfocando CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 4 aspectos da higiene, da ergonomia e da segurança do trabalho, conformando a prática da Saúde Ocupacional (DIAS; HOEFEL, 2005). No Brasil, o movimento da Saúde do Trabalhador toma forma no final dos anos 70, tendo como eixos: a defesa do direito ao trabalho digno e saudável; a participação dos trabalhadores nas decisões sobre a organização e gestão dos processos produtivos e a busca da garantia de atenção integral à saúde (DIAS, 1994). A VIII Conferência Nacional de Saúde, em março de 1986, contribuiu para reafirmar à sociedade brasileira a saúde como direito de cidadania e dever do Estado em provê-la. Em dezembro do mesmo ano, foi realizada a I Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador, que marcou politicamente o movimento da instituição desse campo (MINISTÉRIO DA SAÚDE/FIOCRUZ, 1987). A Constituição Federal de 1988 incorporou as questões de saúde do trabalhador ao enunciar o conceito ampliado de Saúde, incluindo entre seus determinantes: as condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio ambiente, trabalho, emprego e, ao atribuir ao SUS, a responsabilidade de coordenar as ações no país. Essa atribuição foi regulamentada em 1990, pela Lei 8.080 que definiu os princípios e a formatação do SUS. Consolidava-se, assim, no plano legal e institucional, o campo da Saúde do Trabalhador (DIAS; HOEFEL, 2005). No final de 2002, foi criada a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), pela portaria 1.679 de 19 de setembro de 2002. A partir de 2003, a coordenação da área Técnica de Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde priorizou a implantação do RENAST como principal estratégia da Política Nacional da Saúde do Trabalhador para o SUS (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Em 2005, a RENAST foi revista e ampliada por meio da Portaria GM/MS nº 2.437, de 07/12/2005, e novamente em 2009, pela necessidade de adequação ao Pacto Pela Vida e em Defesa do SUS, com a Portaria nº 2.728, de 11/11/2009 (COSTA; VASCONCELLOS, 2011). CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 5 A Saúde do Trabalhador O objeto da saúde do trabalhador pode ser definido como o processo saúde e doença dos grupos humanos em sua relação com o trabalho. Trabalho entendido enquanto espaço de dominação e submissão do trabalhador pelo capital, mas, igualmente, de resistência, de constituições e do fazer histórico dos trabalhadores, que buscam o controle sobre as condições e os ambientes de trabalho, para torná-los mais saudáveis, num processo lento, contraditório, desigual no conjunto da classe trabalhadora, dependente de sua inserção no processo produtivo e do contexto sócio-políticode uma determinada sociedade. Nesse sentido, a saúde do trabalhador aparece enquanto uma prática social “instituinte” e instituída dentro de um determinado modo de produção (ALESSI, 1994). Acesse seu material on-line e veja o vídeo em que a professora Joy explica mais sobre as doenças relacionadas a profissões. A discussão relativa aos acidentes e doenças relacionados ao trabalho passa, necessariamente, pela compreensão da realidade rural-urbana brasileira. Embora questões específicas relacionadas ao trabalhador rural, devido à contratação de mão de obra volante e uso intenso de pesticidas mereçam atenção, o processo da crescente urbanização decorrente da intensa industrialização fez emergir os problemas decorrentes do trabalhador urbano (SANTOS; et al., 1990). Quando se pensa o planejamento na área de saúde do trabalhador, deve-se considerar a questão no risco do ambiente e no processo de trabalho e a necessidade de intervenção institucional. Diferentes regiões têm diferentes riscos de acidentes e doenças do trabalho, decorrentes de fatores ligados à atividade econômica predominante e à organização do processo de trabalho (SANTOS; et al., 1990). Por isso, a participação dos trabalhadores é considerada essencial para a identificação dos fatores de risco presentes no trabalho e as repercussões destes sobre o processo saúde-doença. Além disso, é também fundamental para a transformação das condições geradoras CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 6 de acidentes e doenças (SILVEIRA; RIBEIRO; LINO, 2005). O estudo do ambiente de trabalho deve compreender os seguintes aspectos: os diferentes tipos (características); os fatores que os condicionam; as alterações desses fatores e suas causas; a técnica para exploração dessas alterações; e as medidas que devem ser adotadas para evitar a agressão do ambiente sobre o indivíduo (KAPLAN, 1994). Como frequentemente as doenças originadas no trabalho são percebidas em estágios avançados, até porque muitas delas, em suas fases iniciais, apresentam sintomas comuns a outras patologias, torna-se difícil, sob essa ótica, identificar os processos que as geraram, bem mais amplos que a mera exposição a um agente exclusivo. A rotatividade da mão de obra, sobretudo quando se intensifica a terceirização, representa um obstáculo a mais nesse sentido. A passagem por processos produtivos diversos pode mascarar nexos causais e diluir a possibilidade de estabelecê-los (MINAVO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997). Não é possível identificar todos os fatores de risco, contudo, relacionam- se os mais comuns: muitas horas de trabalho, postura inadequada, monotonia, meio físico inadequado, instalações sanitárias insuficientes, falta de salas de descanso e assentos, saúde e higiene mental insatisfatórias e fadiga (MAURO, et al., 2004). A abordagem de riscos à saúde do trabalhador permite o controle de causas de acidentes, sejam agentes físicos, químicos e biológicos, causadores de agravos, esforços físicos e sobrecargas mentais. Essa intervenção se efetivará basicamente no campo tecnológico, mas terá consequências sobre a saúde (MACHADO, 1997). Classicamente, os fatores de risco para a saúde e segurança dos trabalhadores, presentes ou relacionados ao trabalho, de acordo com a Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil, podem ser classificados em cinco grandes grupos: 1. Físicos: agressões ou condições adversas de natureza ambiental CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 7 que podem comprometer a saúde do trabalhador. 2. Químicos: agentes e substâncias químicas, sob a forma líquida, gasosa ou de partículas e poeiras minerais e vegetais, comuns nos processos de trabalho. 3. Biológicos: Microrganismos, geralmente associados a trabalhos em hospitais, laboratórios e na agricultura e pecuária. 4. Ergonômicos e psicossociais: que decorrem da organização e gestão do trabalho. 5. Acidentes: ligados à proteção das máquinas, arranjo físico, ordem e limpeza do ambiente de trabalho, sinalização, rotulagem de produtos, entre outros (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001). As condições insalubres e perigosas, na maioria das vezes, se tornam rotina, frequentemente não percebidas pelos gerentes, nem pelo próprio trabalhador, o qual se habitua com a situação ou mantém um autocontrole dos sintomas, sem procurar esclarecer as causas verdadeiras. Como consequência dessas condições, pode-se observar: queda da produção, maior vulnerabilidade aos acidentes de trabalho e afastamento do trabalho por motivo de saúde (GUIMARÃES; MAURO, 2004). Vamos dar uma pausa e assistir ao vídeo da professora Joy em que ela nos ajuda a entender as definições das doenças dos trabalhadores. Os agravos destacados como mais comumente encontrados na literatura dos estudos epidemiológicos relacionados às condições de trabalho são os cânceres, as doenças cardiovasculares e neurológicas, as desordens musculoesqueléticas, as consequências reprodutivas e os efeitos dos campos eletromagnéticos (AXELSON, 1994). Além das doenças pulmonares e dermatológicas e dos casos de hipoacusias, que compõem a tríade de maior prevalência dos registros internacionais no período anterior à pandemia de lesões por esforço repetitivo (MACHADO, 1997). No Brasil, existem inúmeros convênios e recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificadas pelas portarias do CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 8 Ministério do Trabalho, denominadas Normas Regulamentadoras (NR), além da consolidação das Leis do Trabalho (CLT), disciplinando essas áreas. Os estudos sobre riscos ocupacionais apontam que quando eles não são submetidos ao controle, levam ao aparecimento de acidentes e doenças profissionais e do trabalho (MAURO, et al., 2004). Veja mais um vídeo da professora Joy em que ela fala sobre o trabalhador hospitalar e o risco à saúde. Acesse seu material virtual e aproveite. A Estratégia do RENAST para Atenção à Saúde do Trabalhador no SUS Conceitualmente, a RENAST é uma rede nacional de informação e práticas de saúde, organizada com o propósito de implementar ações assistenciais, de vigilância e de promoção à saúde, no SUS, na perspectiva da Saúde do Trabalhador. A compreensão do processo saúde-doença dos trabalhadores, que norteia a RENAST, está baseada no enfoque das relações Trabalho-Saúde-Doença e da centralidade do trabalho na vida das pessoas (DIAS; HOEFEL, 2005). Compreende Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), estaduais, regionais e municipais, as unidades sentinelas, núcleos de saúde do trabalhador e demais serviços do SUS voltados para este campo de atuação em saúde. Os CEREST são polos irradiadores do conhecimento sobre a relação do processo de trabalho/processo saúde-doença, com a responsabilidade de oferecer suporte técnico e científico às demais unidades do SUS, em especial, à da atenção básica. Esses centros detêm a responsabilidade de notificar, investigar e dar respostas sensíveis aos agravos relacionados ao trabalho, visando ao controle e melhoria das condições deste (DIAS; HOEFEL, 2005). A vigilância em saúde do trabalhador no SUS tem sido abordada em perspectiva sociotécnica, na qual a prevenção pode surgir de ações CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 9 estratégicas articuladas interinstitucionalmente, de modo a analisar e intervir nos fatores determinantes e condicionantes dos problemas de saúde relacionados aos processos de trabalho (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 1998). Saiba Mais: vamos conhecer mais sobre a estrutura da Renast? Então acesse o link a seguir e leia sobre esse assunto. http://scielo.iec.pa.gov.br/pdf/ess/v20n1/v20n1a10.pdf Acidentes de Trabalho Os acidentes de trabalho têm expressiva morbimortalidade, constituindo- se em um importante problema de saúde pública. No Brasil, agravosrelacionados ao trabalho representam aproximadamente 25% das lesões por causas externas atendidas em serviços de emergência e mais de 70% dos benefícios acidentários da Previdência Social (GALDINO; SANTANA; FERRITE, 2012). Esses acidentes são influenciados por aspectos da situação imediata de trabalho como o maquinário, a atividade, o meio técnico ou material, mas também pelas relações de trabalho, cuja determinação situa-se na sua organização (LLORY, 1999). Com vistas a melhorar a qualidade e ampliar a cobertura do registro, o SUS incorporou ao Sistema de Informações e Agravos de Notificação (SINAN), onze doenças e agravos relacionados ao trabalho, que compõe a lista de prioridades no país. Entre estas, são notificáveis os acidentes considerados graves e os que ocorreram com exposição a material biológico, em sua maioria acidentes perfurocortantes (SANTANA, et al., 2009). Comunicação de Acidentes do Trabalho (CAT) A CAT serve para notificar tanto os acidentes típicos decorrentes do trabalho, como as doenças profissionais e os acidentes de trajeto. (SANTOS, et al., 1990). Não sendo expedida a CAT pela empresa, outras entidades podem fazê-lo, inclusive o próprio segurado e seus dependentes (Art. 22 da Lei 8.213/1991). http://scielo.iec.pa.gov.br/pdf/ess/v20n1/v20n1a10.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 10 É muito comum o empregado descobrir que sofre de alguma patologia de natureza ocupacional depois que já saiu da empresa na qual a lesão se originou, assim, caso o acidente laboral seja detectado posteriormente, quando o trabalhador estiver desempregado, nas hipóteses das doenças ocupacionais ou na constatação da lesão nos exames médicos adicionais para novo emprego, a CAT deverá ser emitida pela ex-empregadora e não pela atual ou a que venha a contratá-lo, ou então deverá ser emitida pelas pessoas designadas no artigo 336, § 3º, do Regulamento da Previdência Social, o Decreto nº 3.048/1999 (Instrução Normativa do INSS n. 11, de 20 de set. 2006, art. 224, IV). Saiba Mais: acesse este outro site e lei o artigo “Saúde do Trabalhador no SUS: desafios para uma política pública”. http://www.scielo.br/pdf/rbso/v38n127/v38n127a03.pdf Prevenção e Ações de Controle Os técnicos especialistas em Higiene e Segurança do Trabalho são unânimes em colocar que o importante não é gratificar o trabalhador com o adicional de insalubridade ou de periculosidade, mas sim tornar o trabalhador e o ambiente absolutamente saudáveis (MAURO, et al., 2004). A criação de Comissões Internas de Prevenção a Acidentes (CIPAS) facilita a discussão dos problemas com a direção das empresas e instituições. Um programa de educação continuada, com treinamento específico voltado aos profissionais de cada área, pode favorecer o entendimento dos problemas e de sua gravidade para combatê-los (MAURO, et al., 2004). Saiba Mais: conheça o auxílio-doença por acidentes de trabalho no Brasil, acessando o artigo a seguir. http://www.scielo.br/pdf/rbso/v36n124/a03v36n124.pdf http://www.scielo.br/pdf/rbso/v38n127/v38n127a03.pdf http://www.scielo.br/pdf/rbso/v36n124/a03v36n124.pdf CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 11 Revendo a problematização E então, já pensou no caso de Marina? A auxiliar de enfermagem? Avaliando sua intensa jornada, quais são as principais doenças e problemas que nossa personagem pode vir a enfrentar? a. Doenças ergonômicas, estresse, doenças psicológicas e acidentes com perfurocortantes. b. Hepatite B, doenças ergonômicas, infecções e estresse. c. Nenhuma, afinal Marina é profissional de saúde e por isso além de vacinada contra diversas doenças, também segue regras de conduta que impossibilitam acidentes. Para consultar o feedback de cada uma das alternativas, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 12 Síntese Neste tema, estudamos as definições e diferenciações da saúde dos trabalhadores, bem como sua história. Além disso, vimos quais são os principais problemas de saúde que atingem o trabalhador. Aprendemos a importância do acompanhamento da medicina do trabalho e do SESMT. Vimos o que é CAT, em que situações ela deve ser emitida e para que serve. Assista agora ao vídeo de síntese que a professora Joy faz deste tema. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 13 Referências ALESSI, N.P. et al. Saúde e trabalho no sistema único de saúde. São Paulo: Hucitec, 1994. AXELSON, O. Some recent developments in occupational epidemiology. Scandinavian Journal of Work Environment and health, 20 (special issue): 9-19; 1994. CORDONI JUNIOR, L. Sobre a organização do nível central dos serviços públicos de saúde. Saúde em debate. 22: 38-44, 1988. DIAS, E.C. Atenção à saúde dos trabalhadores no setor de saúde (SUS) no Brasil: realidade, fantasia ou utopia? Tese de doutorado. 335 f. Departamento de Medicina Preventiva e Social. UNICAMP, Campinas, 1994 DIAS, E.C; HOEFEL, M.G. O desafio de implantar as ações de saúde do trabalhador no SUS: a estratégia do RENAST. Ciência e Saúde Coletiva. 10(4): 817-828; 2005. FIOCRUZ. O território e o processo saúde-doença. Rio de Janeiro, 2008. GALDINO, A; SANTANA, V.S; FERRITE, S. Os centros de referência em Saúde do trabalhador e a notificação dos acidentes de trabalho no Brasil. Caderno de Saúde Pública. 28(1): 145-159, 2012. GUIMARÃES, R.M; MAURO, M.Y.C. Potencial de morbimortalidade por acidente de trabalho no Brasil – período de 2002: uma análise epidemiológica. Epístula ALASS (Espanha), 55(2): 18-20, 2004. KAPLAN, J. Medicina del trabajo. 3.ed. Buenos Aires: Ell Ateneo, 1994. LLORY, M. Acidentes industriais: o custo do silêncio – operadores privados da palavra e executivos que não podem ser encontrados. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: MultiMais/Funenseg, 1999. MACHADO, J.M.H. Processo de vigilância em saúde do trabalhador. Caderno de saúde pública. 13(Supl.2): 33-45, 1997. MAURO, M.Y.C; MUZI, C.D; GUIMARÃES, R.M; MAURO, C.C.C. Riscos ocupacionais em saúde. Revista de enfermagem UERJ; 12: 338-345; 2004. MENDES, R. Patologia do trabalho. Rio de Janeiro: Atheneu, 1995. MENDES, R; DIAS E.C. Saúde dos trabalhadores. In: Rouquayrol M.Z., CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 14 Almeida Filho N., organizadores. Epidemiologia e saúde. 5ª ed. Rio de Janeiro (RJ): Meds; 1999. MINAYO-GOMEZ, C; THENDIM-COSTA, S.M.F. A construção do campo de saúde do trabalhador: percursos e dilemas. Cadernos de Saúde Pública. 13 (Supl.2), 1997. MINISTÉRIO DA SAÚDE/FUNDAÇÂO OSWALDO CRUZ. Relatório Final da 1ª Conferência Nacional de Saúde dos Trabalhadores. Brasília, 1987. MINISTÉRIO DA SAÚDE. ORGANIZAÇÃO PANAMRICANA DA SAÚDE NO BRASIL. Doenças relacionadas ao trabalho: manual de procedimentos para os serviços de saúde, Brasília, 2001. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Política Nacional da Saúde do Trabalhador para o SUS, Brasília, 2004. SANTANA, V.S; MOURA, M.C.P; SOARES, J.F.S; GUEDES, M.H. Acidentes de trabalho no Brasil: dados de notificação do SINAN 2007-2008, Salvador: Centro Colaborador da Universidade Federal da Bahia/Coordenação geral da Saúde do Trabalhador, Ministério da Saúde, 2009. SANTOS, U.P; WÜNSCH FILHO, V; CARMO, J.C; SETTIMI, M.M; URQUIZA, S.D; HENRIQUES, C.M.P. Sistema de vigilância epidemiológica para acidentes de trabalho: Experiência na zona norte do Município de São Paulo (Brasil). Revista de Saúde Pública, 24(4): 286-293, São Paulo, 1990. SILVEIRA, A.M; RIBEIRO, F.S.N; Lino, A.F.P.F. O controle social no SUS e no RENAST. 3ª conferência Nacional de saúde do Trabalhador, 3ª CNST: Trabalhar sim! Adoecer não! Coletânea de texto. Ministério da Saúde. Ministério do Trabalho e Emprego. Ministério da Assistência e Previdência Social, Brasília, 2005. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico15 Atividades 1. Pode-se afirmar que o foco inicial da atenção à saúde do trabalhador foi: a. Nos engenhos e lavouras escravocratas, uma vez que os senhores de terra ficavam bastante preocupados com a doença dos escravos, pois havia diminuição da mão de obra para realização dos serviços. b. Na primeira guerra mundial, quando enfermeiras ficavam gravemente adoentadas por doenças que foram transmitidas por seus pacientes, assim não havia quem cuidasse dos soldados. c. Na segunda guerra mundial, pois com a industrialização em larga escala dos medicamentos, os operários começaram a apresentar intoxicações constantes. d. Na época da Revolução Industrial, pois os operários estavam adoecendo devido às más condições de trabalho, jornadas excessivamente longas e aglomeração de pessoas. 2. Quanto à doença apresentada por um determinado trabalhador, pode-se afirmar que: a. Todo trabalhador que atua na mesma profissão, obrigatoriamente apresentará as doenças a ela relacionada, mesmo que em períodos diferentes. b. Cada trabalhador, mesmo realizando a mesma atividade, possui uma pré- disposição diferenciada ao desenvolvimento de doenças relacionadas ao seu trabalho. c. É de responsabilidade única e culpa do empregador, devendo este ser punido. d. Trabalhadores que seguem criteriosamente os fluxos e normas de segurança instituídas pela empresa, dificilmente apresentarão problemas de saúde relacionados ao trabalho. 3. José é gari à noite e durante o dia faz “bicos” como jardineiro e auxiliar de CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 16 pedreiro. A que tipos de riscos podemos afirmar que ele está exposto: a. Biológicos, químicos e ergonômicos. b. Físicos, químicos e biológicos. c. Ergonômicos e físicos. d. Todos os riscos acima citados. 4. Podemos afirmar que se encontra no ranking, como principal acidente de trabalho: a. Acidentes com máquinas de tear e tecelagem. b. Acidentes com perfurocortantes. c. Acidentes com inalação de produtos químicos. d. Acidentes de carro em indústrias automotivas. 5. O que é a CAT e para que serve? a. É a Comunicação de Acidente de Trabalho e serve para notificar tanto os acidentes típicos decorrentes do trabalho, como as doenças profissionais e os acidentes de trajeto. b. É o Comunicado de Atenção ao Trabalho, que toda empresa deve possuir, com a descrição dos riscos que seus funcionários sofrem e como evitá-los. c. É o Comunicado de Atenção ao Trabalho, que o Ministério do Trabalho encaminha às empresas com mais de 300 funcionários, com regras para redução dos riscos de acidentes. d. É a Comunicação de Acidente de Trabalho e serve para notificar apenas as doenças que ocorrem dentro do seu local de trabalho. Para consultar o gabarito das questões, acesse o material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 1 Projeto Pós-graduação Disciplina Vigilância em Saúde Tema Vigilância Ambiental Professor Joy Ganem Longhi Introdução Neste tema, será abordada a vigilância ambiental, um dos componentes em vigilância em saúde que tem por finalidade identificar medidas de prevenção e controle de fatores de risco ambientais. Conheceremos o histórico e os programas relacionados à vigilância ambiental, os acordos internacionais que o Brasil participou ou está inserido e a importância das atividades desenvolvidas nessa área da vigilância em saúde. Bons estudos! Assista, no seu material virtual, ao vídeo de introdução em que a professora Joy comenta o que vamos estudar. Vigilância Ambiental O conceito ambiente e entorno saudável incorpora a necessidade de ter equipamentos urbanos básicos como: saneamento, espaços físicos limpos e estruturalmente adequados e redes de apoio para se conseguir hábitos psicossociais sãos e seguros (COHEN, 2003). Para que os riscos ambientais sejam tratados como um problema de saúde, isto é, passível de solução ou controle, o ambiente deve ser internalizado à política, ao diagnóstico, ao planejamento e às ações de saúde (AUGUSTO, 2003). A Vigilância em Saúde Ambiental caracteriza-se como um dos componentes da Vigilância em Saúde. É definida como um conjunto de ações que propiciam o conhecimento e a detecção de mudanças nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, com a finalidade de identificar as medidas de prevenção e controle dos fatores de risco ambientais relacionados às doenças ou outros agravos à CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 2 saúde (BRASIL, 2009b). A Crise Ambiental e a Saúde das Populações A destruição de ecossistemas, a contaminação crescente da atmosfera, solo e água, bem como o aquecimento global, são exemplos dos impactos das atividades humanas sobre o ambiente. Esses problemas são exacerbados em situações locais em que se acumulam fontes de riscos advindas de processos produtivos passados ou presentes, como o descarte inadequado de resíduos industriais, a contaminação de mananciais de água e más condições de trabalho e moradia. Não raros, esses problemas interagem sobre grupos populacionais vulneráveis (BARCELLOS; QUITÈRIO, 2006). Os sinais de crise ambiental no âmbito global (efeito estufa; aquecimento dos mares; comprometimento da camada de ozônio) e na saúde individual (intoxicações químicas; câncer; malformações congênitas; doenças neurológicas, imunológicas e respiratórias; estresse; dependência de drogas e violência) são evidentes e reconhecidos amplamente (AUGUSTO, 2003). A saúde das populações também sofre o efeito desses desequilíbrios e desigualdades, refletidos nos perfis epidemiológicos. Essas condições fazem com que a qualidade de vida diminua e coloque em risco a própria sobrevivência no planeta (BRASIL, 2000a). O modelo de desenvolvimento não sustentável gera danos ambientais e sociais, pois considera apenas o crescimento econômico como sinônimo do progresso e desconsidera outras necessidades da vida humana e de outras espécies do planeta, trazendo consequências como a contaminação e a poluição ambiental, com crescente impacto nos ecossistemas e na exposição humana a substâncias químicas, além do aumento dos desastres e das ameaças decorrentes dos fenômenos ambientais de escala global, como o aquecimento global gerado pelas mudanças climáticas (ROHLFS, et al., 2011). No Brasil, a situação ambiental está em contínuo processo de degradação, ocorrendo: a transição epidemiológica marcada pela prevalência CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 3 das condições de morbimortalidade, verificadas em alguns setores; a permanência de certas doenças infecto-parasitárias devido à falta de infraestrutura urbana básica; o crescimento de doenças crônicas não infecciosas; o aparecimento de novas doenças sexualmente transmissíveis; o crescimento da violência urbana devido ao uso de drogas e outros fatores comportamentais (COHEN, et al., 2004). Histórico A relação saúde-ambiente vem sendo ressaltada desde os primórdios com Hipócrates, na Grécia antiga, no início do século IV a.C. Sua obra denominada “Dos ares, das Águas e dos Lugares”, já trazia preocupações com aspectos ambientais na determinação das doenças, destacando a relação entre as doenças, principalmente as endêmicas, e a localização de seus focos (RIBEIRO, 2004). O movimento ambientalista, que começou a ganhar força nos anos 1960 e 1970, contribuiu sobremaneira para a ampliação da compreensão dos problemas ambientais, antes restritos aos aspectos de saneamento e controle de vetores, bem como para a recuperação da dimensão política e social relacionadas a estes (FREITAS, 2003). As condições ambientais adversas nos países em desenvolvimento passaram a ser identificadas como risco à saúde que geraram a necessidade de estudar e intervir sobre novos problemas, bem como abordarantigos problemas em uma nova perspectiva integradora. Essa tendência apontou a necessidade de superação do modelo de Vigilância à Saúde baseada em agravos, incorporando a temática ambiental nas práticas de Saúde Pública (BARCELLOS; QUITÉRIO, 2006). Assim, em meados do século XX, foram retomados os estudos relacionados à saúde e ao ambiente e estruturou-se a área de Saúde Ambiental, caracterizada como um campo da Saúde Pública afeta ao conhecimento científico e à formulação de políticas públicas relacionadas à CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 4 interação entre a saúde humana e os fatores do meio ambiente natural e antrópico que determinam, condicionam e influenciam, com vista a melhorar a qualidade de vida do ser humano, sob o ponto de vista da sustentabilidade (BRASIL, 2009a). As questões ambientais ganharam destaque em 1972 com a realização da Conferência de Estocolmo, na Suécia, organizada pelas Nações Unidas, com 113 nações participantes, onde foram feitas discussões que resultaram em recomendações para os povos, para a busca da melhor relação entre o homem e o ambiente (ROHLFS, et al., 2011). Por recomendação da 5ª Conferência Nacional de Saúde de 1975, a lei nº 6.259/75 e o Decreto nº 78.231 de 1976 instituíram o Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SNVE), com atribuição do controle e fiscalização dos padrões de interesse sanitário de portos, aeroportos e fronteiras, medicamentos, cosméticos, alimentos, saneantes e bens (BRASIL, 2000a). Em meados da década de 1980 são promovidas iniciativas para se instituir, no âmbito do setor Saúde, ações da Vigilância de Saúde do Trabalhador e do Meio Ambiente, de acordo com a Constituição de 1988 e a lei Orgânica de Saúde de 1990. Mas é a partir do ano 2000 que o Ministério da Saúde formula a denominada Vigilância Ambiental, a qual se configura como: um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento e a detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle dos fatores de riscos e das doenças ou agravos relacionados à variável ambiental (BRASIL, 2000b). As ações de controle sobre o meio ambiente, relacionadas à saúde, como a vigilância da qualidade da água para o consumo humano, estiveram até o final da década de 90 subordinadas à Vigilância Sanitária (AUGUSTO, 2003). Vamos aprender mais sobre a estruturação da Vigilância Ambiental em Saúde assistindo ao vídeo da professora Joy no seu material on-line. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 5 A relação entre ambiente e impacto à saúde ganhou forte apoio nacional e internacional na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), a Rio-92, realizada no Rio de Janeiro em 1992, onde se instituiu o compromisso da definição e adoção de um conjunto de políticas de meio ambiente e de saúde, no contexto do desenvolvimento sustentável (ROHLFS, et al., 2011). O Decreto nº 3.450, de 09 de maio de 2000, descreve que a Vigilância Ambiental em Saúde: prioriza a informação no campo da vigilância ambiental, de fatores biológicos (vetores, hospedeiros, reservatórios, animais peçonhentos), qualidade de água para consumo humano, contaminantes ambientais químicos e físicos, que possam interferir na qualidade da água, ar e solo, e os riscos recorrentes de desastres naturais e de acidentes com produtos perigosos (BRASIL, 2000). Vamos assistir agora ao vídeo em que a professora Joy comenta os principais tratados ambientais. Acompanhe no seu material virtual. Objetivos Segundo a FUNASA (2002), destacam-se os seguintes objetivos da Vigilância Ambiental em Saúde: a. Produzir, processar, integrar e interpretar informações, visando disponibilizar ao SUS, instrumentos para planejamento e execução de ações relativas às atividades de promoção à saúde e de prevenção e controle de doenças relacionadas ao meio ambiente; b. Estabelecer os principais parâmetros, atribuições, procedimentos e ações relacionadas à vigilância ambiental em saúde nas diversas instâncias de competência; c. Identificar os riscos e divulgar informações referentes aos fatores ambientais condicionantes e determinantes das doenças e outros agravos à saúde; d. Intervir com ações diretas de responsabilidade do setor ou demandando para outros setores, com vista a eliminar os principais fatores ambientais de risco à saúde humana; CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 6 e. Promover, junto aos órgãos afins, ações de proteção da saúde humana relacionadas ao controle e recuperação do meio ambiente; e f. Conhecer e estimular a interação entre a saúde, meio ambiente e desenvolvimento visando ao fortalecimento da participação da população na promoção da saúde e qualidade de vida. Saneamento A proteção à saúde é colocada invariavelmente como uma das consequências benéficas do saneamento. No entanto, a comprovação epidemiológica dessa relação é de difícil verificação devido ao grande número de variáveis intervenientes no processo de determinação das doenças. Os riscos de infecção e adoecimento de uma população estão relacionados a suas condições de habitação, de hábitos, à concentração e tipos de agentes patogênicos ingeridos e a suscetibilidade e estado geral de saúde da população (HELLER, 1997). Diversos programas, planos e práticas propostos pelo setor de saúde envolvem aspectos ambientais. Historicamente, as ações de saneamento têm concentrado maior interesse do setor entre as intervenções de saúde de cunho ambiental. É bastante conhecida e amplamente divulgada a relação entre a saúde e a provisão de água em quantidade e qualidade apropriadas, e seu respectivo destino pós-utilização. Essa relação move as práticas sanitárias que conformam a área do saneamento (BARCELLOS; QUITÈRIO, 2006). O saneamento tem sua expressão mais cabal nas intervenções do homem sobre o meio ambiente mediante a construção de sistemas de abastecimento de água, de coleta e tratamento de esgotos e drenagem em áreas inundáveis. Além dessas, existem também ações não estruturais, pouco abordadas na atualidade, concentradas na adoção de novos comportamentos em saúde e aliando padrões tecnológicos apropriados às condições socioculturais e econômicas dos usuários (BARCELLOS; QUITÈRIO, 2006). CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 7 Vigilância Ambiental em Saúde no Brasil Atualmente, com a incorporação na Vigilância Ambiental ao Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica e Ambiental em Saúde (SNVA), no âmbito do SUS, amplia-se a compreensão de que há um ambiente maior e relacional, em que as ações de promoção à saúde devem ser implementadas levando-se em consideração o ambiente onde as pessoas residem e trabalham (AUGUSTO, 2003). A área de Vigilância em Saúde Ambiental (VSA) começou a ser implantada pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA), com base no Decreto nº 3.450/2000, que estabeleceu, dentre suas competências, a “gestão do sistema nacional de vigilância ambiental”. No início, as atividades da VSA foram centradas na capacitação de recursos humanos, no financiamento da construção e reforma dos Centros de Controle de Zoonose e na estruturação do Sistema de Informação da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua) (ROHLFS, et al., 2011). Em 2003, com a publicação do Decreto nº 4.726, houve a restruturação do Ministério da Saúde, com a criação da Secretaria da Vigilância da Saúde (SVS), que passou a ter como uma de suas competências a gestão do Subsistema Nacional de Vigilância em Saúde Ambiental (SINVSA), compartilhadas com Estados, Municípios e Distrito Federal em articulação com fóruns intra e intersetoriais e o controle social (ROHLFS, et al., 2011). A atualização dascompetências da Vigilância em Saúde Ambiental se deu pela IN SVS nº 01/2005, na qual foram estabelecidas as áreas de atuação do SINVSA: água para consumo humano, ar, solo, contaminantes ambientais e substâncias químicas, desastres naturais, acidentes com produtos perigosos, fatores físicos e ambiente de trabalho. Além disso, incluíram os procedimentos de vigilância epidemiológica das doenças e agravos decorrentes da exposição humana a agrotóxicos, benzeno, chumbo, amianto e mercúrio (BRASIL, 2005). No processo de consolidação, os caminhos percorridos construíram avanços técnicos e operacionais, com resultados positivos na implementação CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 8 da Vigilância em Saúde Ambiental dentro da estrutura do SUS. Destacam-se, dentre seus principais objetivos, a produção e interpretação de informações, visando disponibilizar ao SUS instrumentos para o planejamento e execução de ações relativas às atividades de promoção à saúde e de prevenção e controle de agravos relacionados a fatores ambientais (ROHLFS, et al., 2011). Vigipeq – Vigilância em Saúde de Populações Expostas a Contaminantes Químicos: tem como objetivo o desenvolvimento de vigilância em saúde visando adotar medidas de prevenção, promoção e atenção integral de populações expostas a contaminantes químicos. Vigidesastres – Vigilância em Saúde Ambiental dos Riscos associados aos Desastres: tem como objetivo o desenvolvimento de um conjunto de ações a serem adotadas continuamente pelas autoridades de saúde pública para reduzir a exposição da população e dos profissionais de saúde aos riscos de desastres e a redução das doenças e agravos decorrentes deles. Vigiagua – Vigilância da Qualidade da Água para o Consumo Humano: consiste no conjunto de ações adotadas continuamente pelas autoridades de saúde pública para garantir que a água consumida pela população atenda ao padrão de potabilidade estabelecido na legislação vigente. Para atender as demandas de Estados e Municípios, uma rede de Laboratórios de referência Nacional (LACEN) realiza análises de média e alta complexidade em amostras ambientais e biológicas. Essa rede é responsável pelas seguintes ações de vigilância: I. Análise da qualidade da água para consumo humano; II. Análise para a vigilância de populações humanas expostas aos fatores ambientais biológicos, químicos e físicos; III. Análise para a vigilância de saúde de trabalhadores expostos aos fatores ambientais, biológicos, químicos e físicos. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 9 De modo geral, pode-se concluir que, ao longo dos últimos anos, a área de Saúde Ambiental no Brasil adquiriu reconhecimento institucional na estrutura do Ministério da Saúde, entretanto, diversos ainda são os desafios a serem enfrentados pela área. Para você aprender mais sobre os programas em Saúde Ambiental, acesse seu material on-line e confira o vídeo da professora Joy. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 10 Síntese Neste tema, estudamos a importância da Vigilância Ambiental em Saúde, vimos quais são suas ações e os tratados ambientais. Além disso, abordamos a crise ambiental e a saúde das populações, as ações da vigilância ambiental no Brasil e conhecemos os programas dessa vigilância. Assista agora ao vídeo de síntese que a professora Joy faz deste tema. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 11 Referências AUGUSTO, L.G.S. Saúde e vigilância ambiental: Um tema em construção. Epidemiologia e Serviços de Saúde. 12(4): 177-187, 2003. BARCELLOS, C; QUITÉRIO, L.A.D. Vigilância ambiental em saúde e sua implantação no Sistema Único de Saúde. Revista de Saúde Pública. 40(1): 170-177; 2006. BRASIL. INSTRUÇÃO NORMATIVA MS/SVS nº 1 de 7 de março de 2005. Regulamenta a Portaria nº 1.172/2004/GM, no que se refere às competências da União, Estados, Municípios e Distrito Federal na área de Vigilância em Saúde Ambiental. Diário Oficial da União, 8 mar/22 mar, 2005. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Conselho Nacional de Saúde. Subsídios para a construção da Política nacional de Saúde Ambiental; Brasília: Ministério da Saúde, 2009 a. BRASIL. Portaria nº 3.252 de 22 de dezembro de 2009. Aprova as diretrizes para execução e financiamento das ações de Vigilância em Saúde pela União, Estados, Distrito Federal e Municípios e dá outras providências, 2009 b. BRASIL. Decreto nº 3.450, de 09 de maio de 2000. Aprova o Estatuto e o Quadro Demonstrativo dos Cargos em Comissão e das Funções Gratificadas da Fundação Nacional de Saúde - FUNASA, e dá outras providências, 2000. COHEN, S. C.; et al. Habitação saudável no SUS. Uma estratégia de ação para o PSF: uma incorporação do conceito de habitação saudável na política pública de saúde. ENSP, Rio de, p. 807-13, 2003. COHEN, S.C; CUYNAMON, S.E. KLIGERMAN, D.C; ASSUMPÇÃO, R, F. Habitação saudável no Programa Saúde da Família (PSF): uma estratégia para políticas públicas de saúde e ambiente. Ciências e Saúde coletiva, 9 (3): 807- 813, 2004. FREITAS, C.M. Problemas ambientais, saúde coletiva e ciências sociais. Ciência e Saúde Coletiva. 8(1): 137-150, 2003. FUNASA. Vigilância ambiental e Saúde/Fundação Nacional de Saúde. Brasília: FUNASA, 2002 FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Curso básico de vigilância ambiental. Módulo I. Brasília: FUNASA, 2000a. FUNDAÇÃO NACIONAL DE SAÚDE. Vigilância ambiental em Saúde. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 12 Brasília: FUNASA, 2000b. HELLER, L. Saneamento e Saúde. Brasília: Organização Pan-Americana de Saúde, 1997. RIBEIRO, H. Saúde pública e meio ambiente: evolução do conhecimento e da prática, alguns aspectos éticos. Saúde e Sociedade. 10(1): 70-80, 2004. ROHLFS, D.B; GRIGOLETTO, J.C; NETTO, G.F; RANGEL, C.F. A construção da Vigilância em Saúde Ambiental no Brasil. Cadernos de Saúde Coletiva, 19(4): 391-398, 2011. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 13 Atividades 1. A Vigilância em Saúde Ambiental é definida em documento do Ministério da Saúde como: a. Ações que visam diminuir a poluição ambiental e seu impacto na saúde. b. Controle da água para consumo humano e abastece as casas. c. Desenvolvimento de ações para preservar rios, riachos e nascentes. d. Um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento e a detecção de mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, com a finalidade de identificar as medidas de prevenção e controle de fatores de risco ambientais relacionados às doenças ou outros agravos à saúde. 2. O destino adequado dos esgotos sanitários tem como principal objetivo: a. Incentivar as atividades imobiliárias, valorizando as terras. b. Evitar o cheiro desagradável dos esgotos a céu aberto. c. Evitar a poluição do solo e dos mananciais de abastecimento de água. d. Evitar a contaminação de água de piscinas e utilizadas para recreação em geral. 3. Os tratados ambientais têm entre seus principais assuntos: a. As guerras civis, que devido aos desastres consequentes poluem solo, água e ar. b. A emissão de gases que afetam a camada de ozônio, a sustentabilidade e o aquecimento global. c. O aumento de transportes aéreos, marítimos e pluviais e consequente aumento da poluição. d. As catástrofes naturais e formas de preveni-las. 4. São Programas da Vigilância Ambiental: a. Vigiacqua, vigisolum, vigieletro. CCDD – Centro de Criação e Desenvolvimento Dialógico 14 b. Água para todos, PSF e vigilância epidemiológica. c. Cofab, Conab e Cgvam. d. Vigipeq, Vigidesastres e Vigiagua. 5. Para atender as demandas de Estados e Municípios, uma rede de Laboratórios de referência Nacional (LACEN) realiza análises de média e alta complexidade em amostras ambientais e biológicas. Essa rede éresponsável pelas seguintes ações de vigilância: I. Análise da qualidade da água para consumo humano. II. Análise para a vigilância de populações humanas expostas aos fatores ambientais biológicos, químicos e físicos. III. Análise para a vigilância de saúde de trabalhadores expostos aos fatores ambientais, biológicos, químicos e físicos. De acordo com as afirmações a seguir, assinale a alternativa correta: a. Somente as alternativas I e II estão corretas. b. Somente as alternativas II e III estão corretas. c. Todas as alternativas estão corretas. d. Nenhuma alternativa está correta, uma vez que esses laboratórios não atendem demandas municipais. Para consultar o gabarito das questões, acesse o material on-line.