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6 UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR UCSAL Wandeck dos Santos Silva Junior Lucivania de Souza Zílio OLHOS QUE CONDENAM DIREITO PENAL V SALVADOR 2019 UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR UCSAL Wandeck dos Santos Silva Junior OLHOS QUE CONDENAM PESQUISA DE CURSO Pesquisa apresentada área de concentração Direito Penal, sob a orientação da Professor Marcos Melo SALVADOR 2019 OLHOS QUE CONDENAM Em 19 de abril de 1989, Meili, uma executiva de um banco, de 28 anos, saiu para se exercitar à noite no Central Park e foi selvagemente estuprada. Tão brutal foi a agressão que ela perdeu mais da metade do sangue, passou dias em coma, meses no hospital e ficou com sequelas para a vida toda. Naquela noite, houve brigas no parque, o que era comum na época, e foram detidos cinco menores entre 14 e 16 anos como suspeitos: Korey Wise, Raymond Santana, Kevin Richardson, Antron McCray e Yusef Salaam. Nos interrogatórios, eles confessaram seu envolvimento, mas logo depois recuaram, alegando terem sido pressionados pela polícia e, mesmo assim, acabaram sendo condenados sem provas forenses ou testemunhas. Em 2002, o verdadeiro estuprador, Matías Reyes, confessou o crime e os cinco foram inocentado A narrativa começa exatamente na noite de 19 de abril de 1989, Olhos que Condenam é um relato dramático de como os cinco garotos foram presos, condenados e sentenciados por estuprar e espancar quase até a morte Em Olhos que Condenam, todos os sinais iniciais apontam para um único atacante que a arrastou do caminho que sempre fazia caminhadas para a vegetação rasteira. Mas quando a chefe da unidade de crimes sexuais da promotoria, ouve que jovens negros foram presos em outro lugar do parque, uma nova narrativa começa a se formar. E em nenhum momento, esta furiosa mulher, tratou os jovens como seres humanos, para ela, eles não passavam de “um bando de animais”. Assim como no estabelecimento precoce da normalidade dos meninos, a promotora e sua equipe nunca são explicitamente rotulados como racistas, cujo recente caso no tribunal, se declarou culpada de pagar para fraudar um exame de admissão em uma faculdade para sua filha, acrescenta um certo frisson ao elenco. Seu preconceito está simplesmente embutido em todas as hipóteses que os meninos são os suspeitos óbvios, que eles “devem” ter feito isso. Fairstein respira essas certezas como o ar. Uma lista aleatória de possíveis suspeitos do grupo é elaborada por policiais que se espalham pelo Harlem para encontrá-los. O nome de Korey nem está na lista, mas ele acompanha seu amigo Yusef para a delegacia, porque ele calcula que sua mãe ficará zangada se ele não o fizer. A desorientação dos rapazes durante as horas de interrogatório desacompanhados e sem registro – sem comida, sem fraturas no banheiro, o rosto de Kevin inchado pelo golpe que recebeu de um policial no parque – resulta em falsas confissões de todos eles. (A mãe de Yusef consegue chegar a tempo e removê-lo antes de assinar qualquer coisa, mas o dano já tinha sido feito na vida deles.) No julgamento, onde a ausência de provas físicas e testemunhas, e as alegações de ação coercitiva da polícia não são o suficiente para mover um juiz e um júri que respiram as mesmas certezas de Fairstein. A promotora Elizabeth Lederer demonstra ter suas dúvidas. Quando a evidência de DNA da cena do crime não coloca os garotos lá, ela oferece a eles uma barganha. Mas eles não admitem algo que não fizeram. Eles são todos condenados, entre 6 e 13 anos de prisão, com Korey julgado e condenado como um adulto. E isso foi apenas os dois primeiros episódios. O penúltimo episódio se concentra nos quatro homens que emergem de suas sentenças juvenis e nos obstáculos para recomeçar a vida como um criminoso conhecido e sexual. Yusef quer ser professor, mas é proibido. Raymond não consegue um emprego e acaba recorrendo ao tráfico de drogas. Kevin e Antron também tem suas vidas destroçadas. Como o barbeiro de Yusef comenta numa cena: “Quando eles pegam você, eles ficam com você”. O episódio final se concentra no sofrimento particular de Korey e a confissão do verdadeiro estuprador. Olhos que Condenam começa com os distúrbios no parque, mas retrata os adolescentes detidos como jovens imaculados. Essa é a imagem que Fairstein rejeita, entre outros elementos. Em sua opinião, a série "é tão cheia de falsidades e distorções que parece uma fabricação total". A promotora (interpretada por Felicity Huffman) critica o fato de o filme só levar em conta como base para a condenação a confissão extraída durante os primeiros interrogatórios dos menores. Exclui, lamenta ela, a declaração de uma garota afro-americana que afirmou que Korey Wise tinha falado com seu irmão por telefone e dito que havia segurado a mulher durante o estupro. E também que os garotos tinham admitido a participação nos ataques a outros caminhantes no parque e que havia sangue e sujeira nas roupas deles. Além disso, ressalta que eles nunca foram processados pelo ato sexual em si, mas como cúmplices deste e que, depois daquela confissão, que em seguida rejeitaram, admitiram ter manuseado e segurado a moça. Dois deles disseram que haviam subido em cima da vítima para simular a penetração. E foi encontrado sêmen dentro de suas roupas. No entanto, em seu artigo ela não menciona as críticas despertadas pelo tipo de interrogatório duro dos menores de idade ou a polêmica suscitada pela nomeação do juiz Galligan. O caso ficou retratado como um exemplo do viés racista da Justiça contra os afro-americanos. Após terem sido exonerados das acusações, em 2014, o Estado de Nova York compensou com uma indenização de 41 milhões de dólares (cerca de 160 milhões de dólares) os cinco condenados por aquele brutal ataque. Aterrorizante e visceral, o que é mais interessante em “Olhos que Condenam” é a sua necessidade nos dias atuais. Apesar de se passar em momentos específicos dos últimos 30 anos, o seu contexto e subtexto são imprescindíveis para conscientizar e dar lugar de fala a quem o sistema social busca oprimir. Duvernay escancara e denuncia o racismo e a injustiça do sistema penal norte-americano, tornando esta uma produção que precisa ser apreciada e discutida. Na esperança que a revolta e reflexão causada não sejam apenas momentâneas, mas comecem a causar as mudanças que se precisa. Bibliografias e Fontes Fontes Eletrônicas https://brasil.elpais.com/brasil/2019/06/11/cultura/1560281824_495525.html Netflix Referencias EL PAÍS, Cultura