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Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 27 lógico; o conhecimento que busca está per- manentemente sujeito a revisões, críticas e reformulações. O campo da psicopatologia inclui um grande número de fenômenos huma- nos especiais, associados ao que se deno- minou historicamente de doença mental. São vivências, estados mentais e padrões comportamentais que apresentam, por um lado, uma especificidade psicológica (as vivências dos doentes mentais possuem dimensão própria, genuína, não sendo ape- nas “exageros” do normal) e, por outro, conexões complexas com a psicologia do normal (o mundo da doença mental não é um mundo totalmente estranho ao mundo das experiências psicológicas “normais”). A psicopatologia tem boa parte de suas raízes na tradição médica (na obra dos grandes clínicos e alienistas do passado), que propiciou, nos últimos dois séculos, a observação prolongada e cuidadosa de um considerável contingente de doentes men- tais. Em outra vertente, a psicopatologia nutre-se de uma tradição humanística (filo- sofia, literatura, artes, psicanálise) que sem- Campbell (1986) define a psicopatologia como o ramo da ciência que trata da natu- reza essencial da doença mental – suas cau- sas, as mudanças estruturais e funcionais associadas a ela e suas formas de manifes- tação. Entretanto, nem todo estudo psi- copatológico segue a rigor os ditames de uma ciência sensu strictu. A psicopatologia, em acepção mais ampla, pode ser definida como o conjunto de conhecimentos refe- rentes ao adoecimento mental do ser hu- mano. É um conhecimento que se esforça por ser sistemático, elucidativo e des- mistificante. Como conhecimento que visa ser científico, não inclui critérios de valor, nem aceita dogmas ou verdades a priori. O psicopatólogo não julga moralmente o seu objeto, busca apenas observar, identifi- car e compreender os diversos elementos da doença mental. Além disso, rejeita qualquer tipo de dogma, seja ele re- ligioso, filosófico, psicológico ou bio- O psicopatólogo não julga moralmente o seu objeto, busca ape- nas observar, iden- tificar e compreender os diversos elementos da doença mental. 2 Definição de psicopatologia e ordenação dos seus fenômenos Um fenômeno é sempre biológico em suas raízes e social em sua extensão final. Mas nós não nos devemos esquecer, também, de que, entre esses dois, ele é mental. Jean Piaget Paulo Dalgalarrondo28 pre viu na “alienação mental”, no pathos do sofrimento mental extremo, uma possibi- lidade excepcionalmente rica de reconhe- cimento de dimensões humanas que, sem o fenômeno “doença mental”, permane- ceriam desconhecidas. Apesar de se bene- ficiar das tradições neurológicas, psicoló- gicas e filosóficas, a psicopatologia não se confunde com a neurologia das chamadas funções corticais superiores (não se resu- me, portanto, a uma ciência natural dos fenômenos relacionados às zonas associa- tivas do cérebro lesado), nem à hipotética psicologia das funções mentais desviadas. A psicopatologia é, pois, uma ciência autô- noma, e não um prolongamento da neuro- logia ou da psicologia. Karl Jaspers (1883-1969), um dos principais autores da psicopatologia, afir- ma que esta é uma ciência básica, que ser- ve de auxílio à psiquiatria, a qual é, por sua vez, um conhecimento aplicado a uma prática profissional e social concreta. Jaspers é muito claro em relação aos limites da psicopatologia: embora o ob- jeto de estudo seja o homem na sua totali- dade (“Nosso tema é o homem todo em sua enfermidade.” [Jaspers, 1913/1979), os limites da ciência psicopatológica con- sistem precisamente em que nunca se pode reduzir por completo o ser humano a con- ceitos psicopatológicos. O domínio da psicopatologia, segundo ele, estende-se a “todo fenômeno psíquico que possa apre- ender-se em conceitos de significação cons- tantes e com possibilidade de comunica- ção”. Assim, a psicopatologia, como ciên- cia, exige um pensamento rigorosamente conceptual, que seja sistemático e que pos- sa ser comunicado de modo inequívoco. Na prática profissional, entretanto, participam ainda opiniões instintivas, uma intuição pessoal que nunca se pode comunicar. Des- sa forma, a ciência psicopatológica é tida como uma das abordagens possíveis do homem mentalmente doente, mas não a única. Em todo indivíduo, oculta-se algo que não se pode conhecer, pois a ciência requer um pensamento conceitual sistemático, pensamento que cristaliza, torna evidente, mas também aprisiona o conhecimento. Quanto mais conceitualiza, afirma Jaspers, “quanto mais reconhece e caracteriza o tí- pico, o que se acha de acordo com os prin- cípios, tanto mais reconhece que, em todo indivíduo, se oculta algo que não pode co- nhecer”. Assim a psicopatologia sempre perde, obrigatoriamente, aspectos essen- ciais do homem, sobretudo nas dimensões existenciais, estéticas, éticas e metafísicas. O filósofo Gadamer (1990) postula que: diante de uma obra de arte, experimenta- mos uma verdade inacessível por qualquer outra via; é isso o que constitui o significa- do filosófico da arte. Da mesma forma que a experiência da filosofia, também a expe- riência da arte incita a consciência cientí- fica a reconhecer seus limites. Dito de outra forma, não se pode com- preender ou explicar tudo o que existe em um homem por meio de conceitos psico- patológicos. Assim, ao se diagnosticar Van Gogh como esquizofrênico (epiléptico, ma- níaco-depressivo ou qualquer que seja o di- agnóstico formulado), ao se fazer uma aná- lise psicopatológica de sua biografia, isso nunca explicará totalmente sua vida e sua obra. Sempre resta algo que transcende à psicopatologia e mesmo à ciência, perma- necendo no domínio do mistério. FORMA E CONTEÚDO DOS SINTOMAS Em geral, quando se estudam os sintomas psicopatológicos, dois aspectos básicos costumam ser enfocados: a forma dos sintomas, isto é, sua estrutura básica, rela- tivamente semelhante nos diversos pa- cientes (alucinação, delírio, idéia obsessiva, labilidade afetiva, etc.), e seu conteúdo, ou seja, aquilo que preenche a alteração estru- Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 29 tural (conteúdo de culpa, religioso, de per- seguição, etc.). Este último é geralmente mais pessoal, dependendo da história de vida do paciente, de seu universo cultural e da personalidade prévia ao adoecimento. De modo geral, os conteúdos dos sin- tomas estão relacionados aos temas cen- trais da existência humana, tais como so- brevivência e segurança, sexualidade, temo- res básicos (morte, doença, miséria, etc.), religiosidade, entre outros. Esses temas re- presentam uma espécie de substrato, que entra como ingrediente fundamental na constituição da experiência psicopatológica. Nesse sentido, é apresentado a seguir um esquema simplificado de temas e temores básicos do ser humano (Quadros 2.1 e 2.2). A ORDENAÇÃO DOS FENÔMENOS EM PSICOPATOLOGIA O estudo da doença mental, como o de qualquer outro objeto, inicia pela obser- vação cuidadosa de suas manifestações. A observação articula- se dialeticamente com a ordenação dos fenômenos. Isso significa que, para observar, também é preciso produzir, de- finir, classificar, in- terpretar e ordenar o observado em de- terminada perspectiva, seguindo certa ló- gica. Quadro 2.1 Temas existenciais que freqüentemente se expressam no conteúdo dos sintomas psicopatológicos Temas e interesses centrais para o ser humano O que busca e deseja Sexo Sobrevivência e prazer Alimentação Conforto físico Dinheiro Segurança Poder e controle sobre o outro Prestígio Quadro 2.2 Temores que freqüentemente se expressam no conteúdo dos sintomas psicopatológicos Temores centrais do ser humano Formas comuns de lidar com tais temores Morte Religião/mundo místico Continuidade através das novas gerações Ter uma doença grave Vias mágicas/medicina/psicologia, etc. Sofrer dor física ou moral Miséria Falta de sentido existencial Relações pessoais significativas Cultura O estudo da doença mental, como o de qualquer outro obje- to, inicia pela obser- vação cuidadosa de suas manifestações.Paulo Dalgalarrondo30 essas experiências são basicamen- te semelhantes para todos. 2. Fenômenos em parte semelhan- tes e em parte diferentes. São fe- nômenos que o homem comum experimenta, mas apenas em par- te são semelhantes aos que o doen- te mental vivencia. Assim, todo ho- mem comum pode sentir tristeza; mas a alteração profunda, avassa- ladora, que um paciente com de- pressão psicótica experimenta é apenas parcialmente semelhante à tristeza normal. A depressão grave, por exemplo, com idéias de ruína, lentificação psicomotora, apatia, etc., introduz algo qualita- tivamente novo na experiência hu- mana. 3. Fenômenos qualitativamente novos, diferentes. São pratica- mente próprios apenas a certas doenças e estados mentais. Aqui incluem-se fenômenos psicóticos, como alucinações, delírios, turva- ção da consciência, alteração da cognição nas demências, entre outros. Assim, desde Aristóteles, o problema da classificação está intimamente ligado ao da definição e do conhecimento de modo geral. Segundo ele, definir é indicar o gênero próximo e a diferença específica. Isso quer dizer que definir é, por um lado, afirmar a que o fenômeno definido se as- semelha, do que é aparentado, com o que deve ser agrupado e, por outro, identificar do que ele se diferencia, a que é estranho ou oposto. Portanto, na linha aristotélica, o problema da classificação é a questão da unidade e da variedade dos fatos e dos conhecimentos que sobre eles são pro- duzidos. Classicamente, distinguem-se três ti- pos de fenômenos humanos para a psicopa- tologia: 1. Fenômenos semelhantes em to- das as pessoas. De modo geral, todo homem sente fome, sede ou sono. Aqui se inclui o medo de um animal perigoso, a ansiedade pe- rante uma prova difícil, o desejo por uma pessoa amada, etc. Em- bora haja uma qualidade pessoal própria para cada ser humano, Questões de revisão • Defina psicopatologia e comente suas origens e seu campo de atuação. • Discuta os dois aspectos básicos dos sintomas psicopatológicos: forma e conteúdo. • Relacione os temas centrais da existência humana com o conteúdo dos sintomas psicopatológicos. • Descreva a ordenação dos fenômenos psicopatológicos em semelhantes, parcialmente semelhantes e qualitativamente novos. Reforma Psiquiátrica e política de Saúde Mental no Brasil Conferência Regional de Reforma dos Serviços de Saúde Mental : 15 anos depois de Caracas Brasília, novembro de 2005 Ministério da Saúde Reforma Psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil Brasília, novembro de 2005 Ministério da Saúde Reforma Psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil Conferência Regional de Reforma dos Serviços de Saúde Mental : 15 anos depois de Caracas Brasília, 07 a 10 de novembro de 2005 Ficha Catalográfica Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde.DAPE. Coordenação Geral de Saúde Mental. Reforma psiquiátrica e política de saúde mental no Brasil. Documento apresentado à Conferência Regional de Reforma dos Serviços de Saúde Mental : 15 anos depois de Caracas. OPAS. Brasília, novembro de 2005. Índice I - A Reforma Psiquiátrica no Brasil:Política de Saúde Mental do SUS ...............................6 O processo de Reforma Psiquiátrica ............................................................................................... 6 Histórico da Reforma: (I) crítica do modelo hospitalocêntrico (1978-1991).................................. 7 Histórico da Reforma: (II) começa a implantação da rede extra-hospitalar (1992-2000)............... 8 A Reforma Psiquiátrica depois da lei Nacional (2001 -2005) ........................................................ 8 A III Conferência Nacional de Saúde Mental e a participação de usuários e familiares ................ 9 II - O processo de desinstitucionalização...........................................................................10 Redução de leitos .......................................................................................................................... 10 A avaliação anual dos hospitais e seu impacto na reforma ........................................................... 13 As residências terapêuticas............................................................................................................ 14 O Programa de Volta para Casa .................................................................................................... 16 A estratégia de redução progressiva a partir dos hospitais de grande porte.................................. 17 Algumas situações exemplares: Campina Grande ........................................................................ 20 Manicômios Judiciários: um desafio para a Reforma ................................................................... 21 Redução de leitos: cenários possíveis de médio e longo prazo..................................................... 22 III - A rede de cuidados na comunidade ............................................................................23 Importância dos conceitos de rede, território e autonomia na construção da rede de atendimento23 Rede e Território ........................................................................................................................... 24 O papel estratégico dos CAPS ..................................................................................................... 25 Saúde Mental na atenção primária: articulação com o programa de saúde da família ................. 31 A rede de saúde mental para a infância e adolescência................................................................. 33 IV - Saúde Mental e Inclusão social: a rede se amplia ......................................................34 Programa de inclusão social pelo trabalho.................................................................................... 34 Centros de Convivência e Cultura: uma proposta em debate........................................................ 36 A participação dos familiares e usuários dos serviços e seu protagonismo .................................. 37 V- A política de álcool e outras drogas ..............................................................................38 Antecedentes: a omissão histórica da saúde pública ..................................................................... 38 Tabela 7 – Epidemiologia no Brasil: uso e dependência de outras drogas por gênero ................. 40 A organização da rede de atenção ................................................................................................. 40 Estratégias para redução de danos e riscos associados ao consumo prejudicial ........................... 41 VI - Os principais desafios da Reforma Psiquiátrica ..........................................................42 Acessibilidade e eqüidade ............................................................................................................. 42 Formação de Recursos Humanos .................................................................................................. 43 O debate cultural: estigma, inclusão social, superação do valor atribuído ao modelo hospitalocêntrico, papel dos meios de comunicação..................................................................... 44 O debate científico: evidência e valor ........................................................................................... 44 Anexos...............................................................................................................................46 Referências .......................................................................................................................51 I - A Reforma Psiquiátrica no Brasil:Política de Saúde Mentaldo SUS O processo de Reforma Psiquiátrica O início do processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil é contemporâneo da eclosão do “movimento sanitário”, nos anos 70, em favor da mudança dos modelos de atenção e gestão nas práticas de saúde, defesa da saúde coletiva, eqüidade na oferta dos serviços, e protagonismo dos trabalhadores e usuários dos serviços de saúde nos processos de gestão e produção de tecnologias de cuidado. Embora contemporâneo da Reforma Sanitária, o processo de Reforma Psiquiátrica brasileira tem uma história própria, inscrita num contexto internacional de mudanças pela superação da violência asilar. Fundado, ao final dos anos 70, na crise do modelo de assistência centrado no hospital psiquiátrico, por um lado, e na eclosão, por outro, dos esforços dos movimentos sociais pelos direitos dos pacientes psiquiátricos, o processo da Reforma Psiquiátrica brasileira é maior do que a sanção de novas leis e normas e maior do que o conjunto de mudanças nas políticas governamentais e nos serviços de saúde. A Reforma Psiquiátrica é processo político e social complexo, composto de atores, instituições e forças de diferentes origens, e que incide em territórios diversos, nos governos federal, estadual e municipal, nas universidades, no mercado dos serviços de saúde, nos conselhos profissionais, nas associações de pessoas com transtornos mentais e de seus familiares, nos movimentos sociais, e nos territórios do imaginário social e da opinião pública. Compreendida como um conjunto de transformações de práticas, saberes, valores culturais e sociais, é no cotidiano da vida das instituições, dos serviços e das relações interpessoais que o processo da Reforma Psiquiátrica avança, marcado por impasses, tensões, conflitos e desafios. Nas páginas seguintes, fazemos o esforço de descrição dos principais componentes da história da Reforma Psiquiátrica no Brasil, com destaque para o processo de delineamento progressivo da política de saúde mental do Ministério da Saúde, alinhada com os princípios da Reforma. Histórico da Reforma: (I) crítica do modelo hospitalocêntrico (1978-1991) O ano de 1978 costuma ser identificado como o de início efetivo do movimento social pelos direitos dos pacientes psiquiátricos em nosso país. O Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), movimento plural formado por trabalhadores integrantes do movimento sanitário, associações de familiares, sindicalistas, membros de associações de profissionais e pessoas com longo histórico de internações psiquiátricas, surge neste ano. É sobretudo este Movimento, através de variados campos de luta, que passa a protagonizar e a construir a partir deste período a denúncia da violência dos manicômios, da mercantilização da loucura, da hegemonia de uma rede privada de assistência e a construir coletivamente uma crítica ao chamado saber psiquiátrico e ao modelo hospitalocêntrico na assistência às pessoas com transtornos mentais. A experiência italiana de desinstitucionalização em psiquiatria e sua crítica radical ao manicômio é inspiradora, e revela a possibilidade de ruptura com os antigos paradigmas, como, por exemplo, na Colônia Juliano Moreira, enorme asilo com mais de 2.000 internos no início dos anos 80, no Rio de Janeiro. Passam a surgir as primeiras propostas e ações para a reorientação da assistência. O II Congresso Nacional do MTSM (Bauru, SP), em 1987, adota o lema “Por uma sociedade sem manicômios”. Neste mesmo ano, é realizada a I Conferência Nacional de Saúde Mental (Rio de Janeiro). Neste período, são de especial importância o surgimento do primeiro CAPS no Brasil, na cidade de São Paulo, em 1987, e o início de um processo de intervenção, em 1989, da Secretaria Municipal de Saúde de Santos (SP) em um hospital psiquiátrico, a Casa de Saúde Anchieta, local de maus-tratos e mortes de pacientes. É esta intervenção, com repercussão nacional, que demonstrou de forma inequívoca a possibilidade de construção de uma rede de cuidados efetivamente substitutiva ao hospital psiquiátrico. Neste período, são implantados no município de Santos Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS) que funcionam 24 horas, são criadas cooperativas, residências para os egressos do hospital e associações. A experiência do município de Santos passa a ser um marco no processo de Reforma Psiquiátrica brasileira. Trata-se da primeira demonstração, com grande repercussão, de que a Reforma Psiquiátrica, não sendo apenas uma retórica, era possível e exeqüível. Também no ano de 1989, dá entrada no Congresso Nacional o Projeto de Lei do deputado Paulo Delgado (PT/MG), que propõe a regulamentação dos direitos da pessoa com transtornos mentais e a extinção progressiva dos manicômios no país. É o início das lutas do movimento da Reforma Psiquiátrica nos campos legislativo e normativo. Com a Constituição de 1988, é criado o SUS – Sistema Único de Saúde, formado pela articulação entre as gestões federal, estadual e municipal, sob o poder de controle social, exercido através dos “Conselhos Comunitários de Saúde”. Histórico da Reforma: (II) começa a implantação da rede extra-hospitalar (1992-2000) A partir do ano de 1992, os movimentos sociais, inspirados pelo Projeto de Lei Paulo Delgado, conseguem aprovar em vários estados brasileiros as primeiras leis que determinam a substituição progressiva dos leitos psiquiátricos por uma rede integrada de atenção à saúde mental. É a partir deste período que a política do Ministério da Saúde para a saúde mental, acompanhando as diretrizes em construção da Reforma Psiquiátrica, começa a ganhar contornos mais definidos. É na década de 90, marcada pelo compromisso firmado pelo Brasil na assinatura da Declaração de Caracas e pela realização da II Conferência Nacional de Saúde Mental, que passam a entrar em vigor no país as primeiras normas federais regulamentando a implantação de serviços de atenção diária, fundadas nas experiências dos primeiros CAPS, NAPS e Hospitais-dia, e as primeiras normas para fiscalização e classificação dos hospitais psiquiátricos. Neste período, o processo de expansão dos CAPS e NAPS é descontínuo. As novas normatizações do Ministério da Saúde de 1992, embora regulamentassem os novos serviços de atenção diária, não instituíam uma linha específica de financiamento para os CAPS e NAPS. Do mesmo modo, as normas para fiscalização e classificação dos hospitais psiquiátricos não previam mecanismos sistemáticos para a redução de leitos. Ao final deste período, o país tem em funcionamento 208 CAPS, mas cerca de 93% dos recursos do Ministério da Saúde para a Saúde Mental ainda são destinados aos hospitais psiquiátricos. A Reforma Psiquiátrica depois da lei Nacional (2001 -2005) É somente no ano de 2001, após 12 anos de tramitação no Congresso Nacional, que a Lei Paulo Delgado é sancionada no país. A aprovação, no entanto, é de um substitutivo do Projeto de Lei original, que traz modificações importantes no texto normativo. Assim, a Lei Federal 10.216 redireciona a assistência em saúde mental, privilegiando o oferecimento de tratamento em serviços de base comunitária, dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais, mas não institui mecanismos claros para a progressiva extinção dos manicômios. Ainda assim, a promulgação da lei 10.216 impõe novo impulso e novo ritmo para o processo de Reforma Psiquiátrica no Brasil. É no contexto da promulgação da lei 10.216 e da realização da III Conferência Nacional de Saúde Mental, que a política de saúde mental do governo federal, alinhada com as diretrizes da Reforma Psiquiátrica, passa a consolidar-se, ganhando maior sustentação e visibilidade. Linhas específicas de financiamento são criadas pelo Ministério da Saúde para os serviços abertos e substitutivos ao hospital psiquiátrico e novos mecanismos são criados para a fiscalização, gestãoe redução programada de leitos psiquiátricos no país. A partir deste ponto, a rede de atenção diária à saúde mental experimenta uma importante expansão, passando a alcançar regiões de grande tradição hospitalar, onde a assistência comunitária em saúde mental era praticamente inexistente. Neste mesmo período, o processo de desinstitucionalização de pessoas longamente internadas é impulsionado, com a criação do Programa “De Volta para Casa”. Uma política de recursos humanos para a Reforma Psiquiátrica é construída, e é traçada a política para a questão do álcool e de outras drogas, incorporando a estratégia de redução de danos. Realiza-se, em 2004, o primeiro Congresso Brasileiro de Centros de Atenção Psicossocial, em São Paulo, reunindo dois mil trabalhadores e usuários de CAPS. Este processo caracteriza-se por ações dos governos federal, estadual, municipal e dos movimentos sociais, para efetivar a construção da transição de um modelo de assistência centrado no hospital psiquiátrico, para um modelo de atenção comunitário. O período atual caracteriza-se assim por dois movimentos simultâneos : a construção de uma rede de atenção à saúde mental substitutiva ao modelo centrado na internação hospitalar, por um lado, e a fiscalização e redução progressiva e programada dos leitos psiquiátricos existentes, por outro. É neste período que a Reforma Psiquiátrica se consolida como política oficial do governo federal. Existem em funcionamento hoje no país 689 Centros de Atenção Psicossocial e, ao final de 2004, os recursos gastos com os hospitais psiquiátricos passam a representar cerca de 64% do total dos recursos do Ministério da Saúde para a saúde mental. Tabela 1- Proporção de recursos do SUS destinados aos Hospitais Psiquiátricos e aos Serviços Extra- Hospitalares nos anos de 1997, 2001 e 2004 Fonte : Ministério da Saúde Composição de Gastos 1997 2001 2004 % Gastos Hospitalares em Saúde Mental 93,14 79,54 63,84 % Gastos Extra-hospitalares em Saúde Mental 6,86 20,46 36,16 Total 100 100 100 A III Conferência Nacional de Saúde Mental e a participação de usuários e familiares Merece destaque a realização, ao final do ano de 2001, em Brasília, da III Conferência Nacional de Saúde Mental. Dispositivo fundamental de participação e de controle social, a III Conferência Nacional de Saúde Mental é convocada logo após a promulgação da lei 10.216, e sua etapa nacional é realizada no mesmo ano, em dezembro de 2001. As etapas municipal e estadual envolvem cerca de 23.000 pessoas, com a presença ativa de usuários dos serviços de saúde e de seus familiares, e a etapa nacional conta com 1.480 delegados, entre representantes de usuários, familiares, movimentos sociais e profissionais de saúde. Durante todo o processo de realização da III Conferência e no teor de suas deliberações, condensadas em Relatório Final, é inequívoco o consenso em torno das propostas da Reforma Psiquiátrica, e são pactuados democraticamente os princípios, diretrizes e estratégias para a mudança da atenção em saúde mental no Brasil. Desta forma, a III Conferência consolida a Reforma Psiquiátrica como política de governo, confere aos CAPS o valor estratégico para a mudança do modelo de assistência, defende a construção de uma política de saúde mental para os usuários de álcool e outras drogas, e estabelece o controle social como a garantia do avanço da Reforma Psiquiátrica no Brasil. É a III Conferência Nacional de Saúde Mental, com ampla participação dos movimentos sociais, de usuários e de seus familiares, que fornece os substratos políticos e teóricos para a política de saúde mental no Brasil (ver “Relatório Final da III Conferência”). II - O processo de desinstitucionalização Redução de leitos O processo de redução de leitos em hospitais psiquiátricos e de desinstitucionalização de pessoas com longo histórico de internação passa a tornar-se política pública no Brasil a partir dos anos 90, e ganha grande impulso em 2002 com uma série de normatizações do Ministério da Saúde, que instituem mecanismos claros, eficazes e seguros para a redução de leitos psiquiátricos a partir dos macro-hospitais. Para avaliar o ritmo da redução de leitos em todo o Brasil, no entanto, é preciso considerar o processo histórico de implantação dos hospitais psiquiátricos nos estados, assim como a penetração das diretrizes da Reforma Psiquiátrica em cada região brasileira, uma vez que o processo de desinstitucionalização pressupõe transformações culturais e subjetivas na sociedade e depende sempre da pactuação das três esferas de governo (federal, estadual e municipal). O gráfico abaixo ilustra o processo de redução de leitos da segunda metade da década de 90 até agora: Gráfico 1 – Leitos Psiquiátricos SUS por ano (1996-2005) Fontes : Até o ano 2000, SIH/SUS. Em 2001, SIH/SUS, corrigido. Em 2002-2003, SIH/SUS, Coordenação Geral de Saúde Mental e Coordenações Estaduais. Em 2004-2005, PRH/CNES.1 Assim, a distribuição dos atuais 42.076 leitos psiquiátricos no Brasil ainda expressa o processo histórico de implementação nos estados de um modelo hospitalocêntrico de assistência em saúde mental. Esta oferta hospitalar, em sua maioria de leitos privados ( 58% dos leitos em psiquiatria), concentrou-se historicamente nos centros de maior desenvolvimento econômico do país, deixando vastas regiões carentes de qualquer recurso de assistência em saúde mental. Assim, 1 O total de leitos anual não inclui leitos psiquiátricos de Hospitais Gerais e leitos do sistema penitenciário. Observe- se que há mudança na base de dados a partir do ano de 2002. 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 0 5000 10000 15000 20000 25000 30000 35000 40000 45000 50000 55000 60000 65000 70000 75000 Ano N úm er o de le ito sAno Leitos HP 1996 72514 1997 71041 1998 70323 1999 66393 2000 60868 2001 52962 2002 51393 2003 48303 2004 45814 2005 42076 configuram-se como estados de grande tradição hospitalar e alta concentração de leitos de psiquiatria, os estados da Bahia e Pernambuco ( na Região Nordeste do Brasil), Goiás ( no Centro- Oeste ), Paraná ( na região Sul ) e São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ( na região Sudeste ). A região Sudeste, como grande centro histórico de desenvolvimento do país, sedia cerca de 60% dos leitos de psiquiatria no país. Tabela 2 – Distribuição dos Leitos Psiquiátricos SUS por UF e Hospitais Psiquiátricos. Fonte : Ministério da Saúde Nos últimos três anos, o processo de desinstitucionalização de pessoas com longo histórico de internação psiquiátrica avançou significativamente, sobretudo através da instituição pelo Ministério da Saúde de mecanismos seguros para a redução de leitos no país e a expansão de serviços substitutivos aos hospital psiquiátrico. O Programa Nacional de Avaliação do Sistema Hospitalar/Psiquiatria (PNASH/Psiquiatria), o Programa Anual de Reestruturação da Assistência Hospitalar Psiquiátrica no SUS (PRH), assim como a instituição do Programa de Volta para Casa e a expansão de serviços como os Centros de Atenção Psicossocial e as Residências Terapêuticas, vem permitindo a redução de milhares de leitos psiquiátricos no país e o fechamento de vários Unidade Federativa Leitos Psiquiátricos Região Norte Amazonas 126 1 0,3 Acre 53 1 0,13 Amapá 0 0 0 Pará 56 1 0,13 Tocantins 160 1 0,38 Roraima 0 0 0 Rondônia 0 0 0 Subtotal Região Norte 395 4 0,64 Região Nordeste Alagoas 880 5 2,09 Bahia 1633 9 3,88 Ceará 1120 8 2,66 Maranhão 822 4 1,96 Paraíba 801 6 1,91 Pernambuco 3293 16 7,83 Piauí 400 2 0,95 Rio Grande do Norte 819 5 1,95 Sergipe 380 3 0,9 Subtotal Região Nordeste 10.148 58 24,13 Região Centro-oeste Distrito Federal 74 1 0,18 Goiás 1303 11 3,1 Mato Grosso 117 2 0,28 Mato Grosso do Sul 200 2 0,48 Subtotal Região Centro-Oeste 1.694 16 4,04 Região Sudeste Espírito Santo620 3 1,47 Minas Gerais 3052 21 7,26 Rio de Janeiro 8134 41 19,35 São Paulo 13634 58 32,34 Subtotal Região Sudeste 25.440 123 60,42 Região Sul Paraná 2688 17 6,39 Rio Grande do Sul 911 6 2,17 Santa Catarina 800 4 1,9 Subtotal Região Sul 4.399 27 10,46 Brasil 42.076 228 100 Hospitais Psiquiátricos % do Total de Leitos Psiquiátricos SUS hospitais psiquiátricos. Embora em ritmos diferenciados, a redução do número de leitos psiquiátricos vem se efetivando em todos os estados brasileiros, sendo muitas vezes este processo o desencadeador do processo de Reforma. Entre os anos de 2003 e 2005 foram reduzidos 6227 leitos. A avaliação anual dos hospitais e seu impacto na reforma Entre os instrumentos de gestão que permitem as reduções e fechamentos de leitos de hospitais psiquiátricos de forma gradual, pactuada e planejada, está o Programa Nacional de Avaliação do Sistema Hospitalar/Psiquiatria (PNASH/Psiquiatria), instituído em 2002, por normatização do Ministério da Saúde. Essencialmente um instrumento de avaliação, o PNASH/Psiquiatria permite aos gestores um diagnóstico da qualidade da assistência dos hospitais psiquiátricos conveniados e públicos existentes em sua rede de saúde, ao mesmo tempo que indica aos prestadores critérios para uma assistência psiquiátrica hospitalar compatível com as normas do SUS, e descredencia aqueles hospitais sem qualquer qualidade na assistência prestada a sua população adscrita. Trata-se da instituição, no Brasil, do primeiro processo avaliativo sistemático, anual, dos hospitais psiquiátricos. Se a reorientação do modelo de atenção em saúde mental no Brasil é recente, mais recente ainda são seus processos de avaliação. É importante ressaltar que a tradição de controle e avaliação anterior ao PNASH-Psiquiatria ancorava-se em dois mecanismos: as supervisões hospitalares, realizadas por supervisores do SUS, de alcance limitado, e as fiscalizações ou auditorias que atendiam a denúncias de mau funcionamento das unidades. É a partir da instituição do PNASH/Psiquiatria que o processo de avaliação da rede hospitalar psiquiátrica pertencente ao Sistema Único de Saúde passa a ser sistemático e anual, e realizado por técnicos de três campos complementares: o técnico-clínico, a vigilância sanitária e o controle normativo. Fundamentado na aplicação, todos os anos, em cada um dos hospitais psiquiátricos da rede, de um instrumento de coleta de dados qualitativo, o PNASH/Psiquiatria avalia a estrutura física do hospital, a dinâmica de funcionamento dos fluxos hospitalares, os processos e os recursos terapêuticos da instituição, assim como a adequação e inserção dos hospitais à rede de atenção em saúde mental em seu território e às normas técnicas gerais do SUS. É parte deste processo de avaliação, a realização de “entrevistas de satisfação” com pacientes longamente internados e pacientes às vésperas de receber alta hospitalar. Este instrumento gera uma pontuação que, cruzada com o número de leitos do hospital, permite classificar os hospitais psiquiátricos em quatro grupos diferenciados: aqueles de boa qualidade de assistência; os de qualidade suficiente; aqueles que precisam de adequações e devem sofrer revistoria; e aqueles de baixa qualidade, encaminhados para o descredenciamento pelo Ministério da Saúde, com os cuidados necessários para evitar desassistência à população. A política de desinstitucionalização teve um forte impulso com a implantação do Programa Nacional de Avaliação dos Serviços Hospitalares – PNASH/Psiquiatria. O PNASH vem conseguindo nos últimos três anos vistoriar a totalidade dos hospitais psiquiátricos do país, leitos de unidades psiquiátricas em hospital geral, permitindo que um grande número de leitos inadequados às exigências mínimas de qualidade assistencial e respeito aos direitos humanos sejam retirados do sistema, sem acarretar desassistência para a população. O processo demonstrou ser um dispositivo fundamental para a indução e efetivação da política de redução de leitos psiquiátricos e melhoria da qualidade da assistência hospitalar em psiquiatria. Em muitos estados e municípios, o PNASH/Psiquiatria exerceu a função de desencadeador da reorganização da rede de saúde mental, diante da situação de fechamento de leitos psiquiátricos e da conseqüente expansão da rede extra-hospitalar. Em permanente aprimoramento, o PNASH/Psiquiatria ainda exerce um impacto importante no avanço da Reforma Psiquiátrica em municípios e estados com grande tradição hospitalar. As residências terapêuticas A desinstitucionalização e a efetiva reintegração das pessoas com transtornos mentais graves e persistentes na comunidade são tarefas às quais o SUS vem se dedicando com especial empenho nos últimos anos. A implementação e o financiamento de Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT) surgem neste contexto como componentes decisivos da política de saúde mental do Ministério da Saúde para a concretização das diretrizes de superação do modelo de atenção centrado no hospital psiquiátrico. Assim, os Serviços Residenciais Terapêuticos, residências terapêuticas ou simplesmente moradias, são casas localizadas no espaço urbano, constituídas para responder às necessidades de moradia de pessoas portadoras de transtornos mentais graves, egressas de hospitais psiquiátricos ou não. Embora as residências terapêuticas se configurem como equipamentos da saúde, estas casas, implantadas na cidade, devem ser capazes em primeiro lugar de garantir o direito à moradia das pessoas egressas de hospitais psiquiátricos e de auxiliar o morador em seu processo – às vezes difícil – de reintegração na comunidade. Os direitos de morar e de circular nos espaços da cidade e da comunidade são, de fato, os mais fundamentais direitos que se reconstituem com a implantação nos municípios de Serviços Residenciais Terapêuticos. Sendo residências, cada casa deve ser considerada como única, devendo respeitar as necessidades, gostos, hábitos e dinâmica de seus moradores. Uma Residência Terapêutica deve acolher, no máximo, oito moradores. De forma geral, um cuidador é designado para apoiar os moradores nas tarefas, dilemas e conflitos cotidianos do morar, do co-habitar e do circular na cidade, em busca da autonomia do usuário. De fato, a inserção de um usuário em um SRT é o início de longo processo de reabilitação que deverá buscar a progressiva inclusão social do morador. Cada residência deve estar referenciada a um Centro de Atenção Psicossocial e operar junto à rede de atenção à saúde mental dentro da lógica do território. Especialmente importantes nos municípios-sede de hospitais psiquiátricos, onde o processo de desinstitucionalização de pessoas com transtornos mentais está em curso, as residências são também dispositivos que podem acolher pessoas que em algum momento necessitam de outra solução de moradia. O processo de implantação e expansão destes serviços é recente no Brasil. Nos últimos anos, o complexo esforço de implantação das residências e de outros dispositivos substitutivos ao hospital psiquiátrico vem ganhando impulso nos municípios, exigindo dos gestores do SUS uma permanente e produtiva articulação com a comunidade, a vizinhança e outros cenários e pessoas do território. De fato, é fundamental a condução de um processo responsável de trabalho terapêutico com as pessoas que estão saindo do hospital psiquiátrico, o respeito por cada caso, e ao ritmo de readaptação de cada pessoa à vida em sociedade. Desta forma, a expansão destes serviços, embora permanente, tem ritmo próprio e acompanha, de forma geral, o processo de desativação de leitos psiquiátricos. A rede de residências terapêuticas conta hoje com 357 serviços em funcionamento, com aproximadamente 2850 moradores. A expansão dos Centros de Atenção Psicossocial, o desativamento de leitos psiquiátricos e, em especial, a instituição pelo Ministério da Saúde deincentivo financeiro, em 2004, para a compra de equipamentos para estes serviços, são alguns dos componentes para a expansão deste rede, que contava em 2002 com apenas 85 residências em todo o país. Esta rede deverá experimentar ainda nos próximos anos grande expansão. Estimativas do Ministério da Saúde indicam que cerca de 12.000 pessoas poderão se beneficiar dos Serviços Residenciais Terapêuticos. Gráfico 2 – Expansão das Residências Terapêuticas entre os anos 2000 e 2005 Fonte : Ministério da Saúde. Dados de 2005 colhidos até outubro de 2005. O Programa de Volta para Casa O Programa de Volta para Casa é um dos instrumentos mais efetivos para a reintegração social das pessoas com longo histórico de hospitalização. Trata-se de uma das estratégias mais potencializadoras da emancipação de pessoas com transtornos mentais e dos processos de desinstitucionalização e redução de leitos nos estados e municípios. Criado pela lei federal 10.708, encaminhada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva ao Congresso, votada e sancionada em 2003, o Programa é a concretização de uma reivindicação histórica do movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira, tendo sido formulado como proposta já à época da II Conferência Nacional de Saúde Mental, em 1992. O objetivo do Programa é contribuir efetivamente para o processo de inserção social das pessoas com longa história de internações em hospitais psiquiátricos, através do pagamento mensal de um auxílio-reabilitação, no valor de R$240,00 (duzentos e quarenta reais, aproximadamente 110 dólares) aos seus beneficiários . Para receber o auxílio-reabilitação do Programa De Volta para Casa, a pessoa deve ser egressa de Hospital Psiquiátrico ou de Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico, e ter indicação para inclusão em programa municipal de reintegração social. O Programa possibilita a ampliação da rede de relações dos usuários, assegura o bem estar global da pessoa e estimula o exercício pleno dos direitos civis, políticos e de cidadania, uma vez que prevê o pagamento do auxílio-reabilitação diretamente ao beneficiário, através de convênio entre o Ministério da Saúde e a Caixa Econômica Federal. Assim, cada beneficiário do Programa recebe um cartão magnético, com o qual pode sacar e movimentar mensalmente estes recursos. O município de residência do beneficiário deve, para habilitar-se ao Programa, ter assegurada uma estratégia de acompanhamento dos beneficiários e uma rede de atenção à saúde mental capaz de dar 2000 2002 2005 0 25 50 75 100 125 150 175 200 225 250 275 300 325 350 375 40 85 357 uma resposta efetiva às demandas de saúde mental. A cada ano o benefício pode ser renovado, caso o beneficiário e a equipe de saúde que o acompanha entendam ser esta uma estratégia ainda necessária para o processo de reabilitação. Trata-se de um dos principais instrumentos no processo de reabilitação psicossocial, segundo a literatura mundial no campo da Reforma Psiquiátrica. Seus efeitos no cotidiano das pessoas egressas de hospitais psiquiátricos são imediatos, na medida em que se realiza uma intervenção significativa no poder de contratualidade social dos beneficiários, potencializando sua emancipação e autonomia. A implementação do Programa, no entanto, não se dá sem dificuldades. Além do esperado desafio da mudança efetiva do modelo de atenção à saúde mental nos estados e municípios, o Programa de Volta para Casa enfrenta uma situação paradigmática, produzida por um longo processo de exclusão social. A grande maioria dos potenciais beneficiários, sendo egressos de longas internações em hospitais psiquiátricos, não possuem a documentação pessoal mínima para o cadastramento no Programa. Muitos não possuem certidão de nascimento ou carteira de identidade O longo e secular processo de exclusão e isolamento dessas pessoas, além dos modos de funcionamento típicos das instituições totais, implicam muitas vezes na ausência de instrumentos mínimos para o exercício da cidadania. Este é ainda um desafio para a consolidação do Programa, que vem sendo enfrentado através da parceria entre o Ministério da Saúde, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal e a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, para restituir o direito fundamental de identificação e garantir o direito destas pessoas ao auxílio-reabilitação do Programa de Volta para Casa. Desta forma, verdadeiros “mutirões da cidadania” vêm se estruturando nos municípios para garantir a identificação tardia destas pessoas, num processo fundamental de inclusão social e garantia dos direitos fundamentais das pessoas com transtornos mentais, desafio primeiro da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Atualmente 1747 pessoas já recebem o auxílio-reabilitação. Até o final de 2006, cerca de 3000 usuários poderão ser beneficiados pelo Programa. A estratégia de redução progressiva a partir dos hospitais de grande porte Aprofundando as estratégias já estabelecidas para a redução de leitos em hospitais psiquiátricos e para o incremento dos serviços extra-hospitalares, o Ministério da Saúde aprova em 2004 o Programa Anual de Reestruturação da Assistência Hospitalar no SUS (PRH). A principal estratégia do Programa é promover a redução progressiva e pactuada de leitos a partir dos macro- hospitais (acima de 600 leitos, muitas vezes hospitais-cidade, com mais de mil leitos) e hospitais de grande porte (com 240 a 600 leitos psiquiátricos). Assim, são componentes fundamentais do programa a redução do peso assistencial dos hospitais de maior porte, e a pactuação entre os gestores do SUS – os hospitais e as instâncias de controle social – da redução planejada de leitos, evitando a desassistência. Desta forma, procura-se conduzir o processo de mudança do modelo assistencial de modo a garantir uma transição segura, onde a redução dos leitos hospitalares possa ser planificada e acompanhada da construção concomitante de alternativas de atenção no modelo comunitário. Para tanto, são definidos no Programa os limites máximos e mínimos de redução anual de leitos para cada classe de hospitais (definidas pelo número de leitos existentes, contratados pelo SUS). Assim, todos os hospitais com mais de 200 leitos devem reduzir no mínimo, a cada ano, 40 leitos. Os hospitais entre 320 e 440 leitos podem chegar a reduzir 80 leitos ao ano (mínimo: 40), e os hospitais com mais de 440 leitos podem chegar a reduzir, no máximo, 120 leitos ao ano. Desta forma, busca-se a redução progressiva do porte hospitalar, de modo a situarem-se os hospitais, ao longo do tempo, em classes de menor porte (idealmente, até 160 leitos). Ao mesmo tempo, garante- se que as reduções de leitos se efetivem de forma planejada, de modo a não provocar desassistência nas regiões onde o hospital psiquiátrico ainda tem grande peso na assistência às pessoas com transtornos mentais. Este processo, com ritmo pactuado entre os gestores do município e do estado, hospitais e controle social, deve incluir o aumento progressivo dos equipamentos e das ações para a desinstitucionalização, tais como CAPS, Residências Terapêuticas, Centros de Convivência e a habilitação do município no Programa de Volta para Casa. Na mesma direção estratégica, o Programa recompõe as diárias hospitalares em psiquiatria. Assim, a partir do Programa, passam a vigorar diárias hospitalares compostas e diferenciadas para os hospitais, levando-se em conta o seu porte (classe), a qualidade do atendimento avaliada anualmente pelo PNASH/Psiquiatria e a redução de leitos efetivada. Desta forma, recebem incentivos financeiros, através de novos valores de diárias hospitalares, aqueles hospitais que efetivam a redução de leitos, reduzindo o seu porte, e qualificam o atendimento prestado, verificado pelo PNASH/Psiquiatria. Assim, passam a ser melhor remunerados pelo SUS todos os hospitaisque reduzem leitos e que melhoram a qualidade de atendimento, aferida pelo PNASH/Psiquiatria. A partir do Programa, a recomposição das diárias hospitalares passa a ser uma ferramenta da política de redução racional dos leitos e qualificação do atendimento em psiquiatria no SUS. O Programa também busca garantir que os recursos que deixem de ser utilizados nos hospitais, com a progressiva redução de leitos, permaneçam no campo das ações de saúde mental e sejam direcionados para os equipamentos da Reforma Psiquiátrica. Desta forma, busca-se garantir o incremento da ações territoriais e comunitárias de saúde mental, como os Centros de Atenção Psicossocial, Serviços Residenciais Terapêuticos, ambulatórios, atenção básica e outros. A condução deste processo, crucial para a consolidação da Reforma Psiquiátrica Brasileira, exige negociações e pactuações sucessivas entre gestores (municipais, estaduais e federal), prestadores de serviços e controle social. O cenário privilegiado desse denso progresso de negociação são as “comissões intergestores” bipartite (municípios e estados) e tripartite (Ministério da Saúde, estados e municípios) e os Conselhos Comunitários de Saúde. Na verdade, tais pactuações devem conduzir de forma responsável o processo de desinstitucionalização das pessoas com transtornos mentais longamente internadas, e não somente a redução programada de leitos. Assim, para cada redução significativa de porte de um hospital, deve haver, além do incremento da rede de atenção local à saúde mental, um trabalho delicado de reinserção social das pessoas com longa história de internação, e a implementação de ações específicas para esta clientela. Neste contexto, a implantação de Residências Terapêuticas e adesão do município ao Programa De Volta para Casa têm se revelado como estratégias importantes para a efetivação do processo de desinstitucionalização. Gráfico 3 – Migração dos leitos de hospitais de maior porte para hospitais de menor porte, sem criação de novos leitos ou novos hospitais (2002-2005). Fonte : Ministério da Saúde. PRH / Coordenação Geral de Saúde Mental 2002 2005 0 1000 2000 3000 4000 5000 6000 7000 8000 9000 10000 11000 12000 13000 14000 15000 16000 17000 até 160 161 - 240 241 - 400 401 - 600 acima de 600 N úm er o de le ito s O Programa Anual de Reestruturação da Assistência Hospitalar Psiquiátrica no SUS nasce como um mecanismo de gestão do processo de redução de leitos psiquiátricos no país. Aliado ao PNASH/Psiquiatria, este mecanismo reafirma a diretriz política do Ministério da Saúde na direção da redução progressiva de leitos psiquiátricos e pela melhor qualidade da assistência prestada às pessoas com transtornos mentais. De janeiro de 2004 a maio de 2005, o Programa desativou cerca de 2000 leitos. O Ministério da Saúde espera ter reduzido, até o final de 2006, 3.000 leitos em hospitais psiquiátricos de grande porte. Algumas situações exemplares: Campina Grande Em muitos municípios do país, o processo de desinstitucionalização de pessoas longamente internadas vem produzindo mudanças importantes na rede de saúde e especialmente na rede de atenção à saúde mental. O Município de Campina Grande, no estado da Paraíba, vem experimentando este processo de mudança. Situado no interior do estado e com uma população aproximada de 372.000 habitantes, o município respondia a grande parte da demanda de saúde mental da região através de dois hospitais psiquiátricos, o Hospital João Ribeiro e o Hospital Dr. Maia, ambos de médio porte. Após reiteradas avaliações negativas do PNASH/Psiquiatria, começa a tomar curso o processo de desinstitucionalização dos 176 pacientes do Hospital João Ribeiro e de descredenciamento do serviço da rede SUS. Através de sucessivas negociações entre o gestores federal, estadual e municipal, o hospital e o controle social, passa a desencadear-se, a partir de 2004, a reorganização dos serviços disponíveis, a implantação de serviços substitutivos no município e na região e a desinstitucionalização dos pacientes. Com a entrada de um interventor no hospital, são realizadas avaliações dos pacientes e traçados planos terapêuticos individuais. Torna-se imprescindível então a criação de um fórum de discussão e construção coletiva de soluções. Realiza-se então o I Encontro Regional sobre Reforma Psiquiátrica (reunindo os 3 estados vizinhos, Paraíba, Rio Grande do Norte e Pernambuco), que avalia a situação da assistência nos municípios e traça planos para a expansão da rede de serviços extra-hospitalares. O Núcleo de Formação para a Reforma Psiquiátrica é definitivamente estabelecido na região. Os vários municípios do entorno de Campina Grande passam a responsabilizar-se por seus pacientes graves e a estruturar serviços próprios. Campina Grande é habilitada no Programa de Volta para Casa e passa a receber incentivos financeiros do Ministério da Saúde para a implantação de CAPS e Residências Terapêuticas. Inicia-se a articulação entre a saúde mental e o Serviço de Atenção Móvel às Urgências (SAMU). Um concurso público é realizado para a contratação de profissionais para os serviços substitutivos. Hoje, dos 176 pacientes do Hospital, 38 encontram-se em um Centro de Referência em Saúde Mental (unidade provisória, implementada para substituir as péssimas condições do Hospital João Ribeiro). Todos os outros já se encontram referenciados aos novos serviços substitutivos implementados ( 3 Residências Terapêuticas ), e aos CAPS do município ou da região. Em cerca de um ano, Campina Grande mudou radicalmente sua rede de atenção à saúde mental e investe em novos serviços na região, em benefício dos direitos dos pacientes. Durante este período, o processo de desinstitucionalização e de redução de leitos em Campina Grande mobiliza os gestores do SUS para a construções de novas soluções para as demandas de saúde mental da região, mobiliza a comunidade local para a Reforma Psiquiátrica e muda efetivamente a qualidade de vida e da assistência prestada em saúde mental à população. Processos como este vêm se desenvolvendo em vários municípios do país e construindo soluções muitas vezes únicas para a assistência na sua região. Não há dúvida que os mecanismos instituídos para a redução de leitos e melhora da qualidade na assistência são muitas vezes os desencadeadores do processo complexo de transição para um modelo comunitário de atenção à saúde mental. Barbacena (MG), Feira de Santana (BA), Carmo e Paracambi (RJ) são outros exemplos de “cidades manicomiais” que vêm mudando seu rosto e construindo uma psiquiatria no território, através de rede diversificada de serviços. Manicômios Judiciários: um desafio para a Reforma A Reforma psiquiátrica brasileira há muito discute o mandato social da psiquiatria e modifica com responsabilidade a prática asilar. É relativamente recente, no entanto, a discussão do manicômio judiciário, duplo espaço de exclusão e violência. Estima-se que 4.000 cidadãos brasileiros estejam hoje internados compulsoriamente nos 19 Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico ou Manicômios Judiciários em funcionamento no país. Estes hospitais, não sendo geridos pelo Sistema Único de Saúde, mas por órgãos da Justiça, não estão submetidos às normas gerais de funcionamento do SUS, ao PNASH/Psiquiatria (com única exceção dos Hospitais de Custódia do Rio de Janeiro), ou ao Programa Anual de Reestruturação da Assistência Hospitalar Psiquiátrica. São freqüentes as denúncias de maus tratos e os óbitos nestes estabelecimentos. No ordenamento jurídico brasileiro, as pessoas com transtornos mentais que cometem crimes são consideradas inimputáveis, isto é, isentas de pena. Estas pessoas são submetidas, no entanto, à medida de segurança, espécie de tratamento compulsório, cuja principal conseqüência é a segregação perpétua ou por longo período, através da internação,da pessoa acometida de transtornos mentais que cometeu um crime ou uma infração. A publicação da lei 10.216, assim como as resoluções da III Conferência Nacional de Saúde Mental, vêm fomentando, no entanto, de forma inequívoca, a mudança das práticas na assistência ao louco infrator. O exame crítico e intersetorial dos conceitos de inimputabilidade, medida de segurança e periculosidade, e a busca da superação do modelo de tratamento/custódia, através da articulação entre os atores da saúde e justiça são componentes desta mudança. O Ministério da Saúde desde então vem apoiando experiências interinstitucionais extremamente bem sucedidas, que buscam tratar o louco infrator fora do manicômio judiciário, na rede SUS extra-hospitalar de atenção à saúde mental, especialmente nos Centros de Atenção Psicossocial. Supera-se, nestas experiências, a cessação de periculosidade como critério para a desinstitucionalização dos pacientes, e a rede extra-hospitalar de saúde mental, com seus dispositivos como os CAPS, residências terapêuticas, ambulatórios e Centros de convivência, passa a ser convocada para oferecer tratamento a estes cidadãos, antes excluídos da rede SUS. Este processo, ainda em curso, não se dá sem dificuldades. A construção de novas práticas para um segmento historicamente situado à margem, inclusive do Sistema de Saúde, encontra resistência na rede de atenção extra-hospitalar de saúde mental, na rede SUS em geral, nas comunidades de origem dos pacientes e nos órgãos de justiça, que, não raro, sugerem a reinternação de pacientes em manicômios judiciários mesmo na ausência de novo delito. Desta forma, muito embora o processo de desinstitucionalização destas pessoas esteja em curso em alguns estados, o sucesso do controle da porta de entrada do manicômio judiciário é ainda eventual e não existem ainda medidas para realizar uma redução programada de leitos/vagas. No entanto, ainda que embrionária, a nova prática nestes estados já começa a construir o espaço para o louco infrator nas ações do Sistema Único de Saúde, inclusive no Programa de Volta para Casa. Trata-se de um passo fundamental sobretudo para a luta pela garantia à assistência, à saúde pública e de qualidade e à proteção aos Direitos Humanos de um grupo social que há séculos é vítima de exclusão e preconceito. Redução de leitos: cenários possíveis de médio e longo prazo Estima-se que, até o final de 2006, os 6 macro-hospitais remanescentes tenham todos reduzido significativamente seu leitos, para menos que 600 leitos. A redução global estimada é da ordem de 2.500 a 3.000 leitos ao ano, sempre dos maiores para os menores hospitais. Assim, pode projetar-se um cenário de menos de 30.000 leitos psiquiátricos convencionais, no total do país, para os próximos 4 anos. É preciso, entretanto, ampliar o número de leitos psiquiátricos em hospitais gerais (atualmente, 2.100 leitos), em unidades pequenas, de no máximo 15 leitos, especialmente destinados ao atendimento de transtornos pelo uso de álcool e outras drogas. Um problema a ser resolvido é a lenta implantação dos serviços CAPS III, que funcionam 24 horas e realizam internações de curtíssima duração, e ainda não existem em todos os municípios acima de 200.000 habitantes, como é desejável. Com a mudança do modelo assistencial, o Ministério da Saúde está substituindo o indicador “leitos psiquiátricos por 1.000 habitantes” pelo indicador mais sensível e eficaz de “leitos de atenção integral em saúde mental (LAI-SM) por 1.000 habitantes”, no qual estão incorporados, além dos leitos de hospital psiquiátrico, aqueles disponíveis em hospitais gerais, unidades de referência para álcool e outras drogas, emergências gerais e CAPS III. Alguns municípios de médio e grande porte que estão resolvendo muito satisfatoriamente a questão da internação em psiquiatria e a efetividade da rede extra-hospitalar (como Campinas, Santos e Santo André, em São Paulo; Betim, em Minas Gerais, Sobral, no Ceará e Pelotas, no Rio Grande do Sul), têm funcionado bem com cobertura de 0.18 a 0.25 leitos por 1.000 habitantes, o que mostra uma real substituição do modelo hospitalocêntrico. O maior problema, sem dúvida, está nos grandes municípios, com população acima de 500.000 habitantes (0,63% das cidades brasileiras), onde o papel do sistema de emergência (SAMU-192) é essencial. III - A rede de cuidados na comunidade Importância dos conceitos de rede, território e autonomia na construção da rede de atendimento A rede de atenção à saúde mental brasileira é parte integrante do Sistema Único de Saúde (SUS), rede organizada de ações e serviços públicos de saúde, instituída no Brasil por Lei Federal na década de 90. O SUS regula e organiza em todo o território nacional as ações e serviços de saúde de forma regionalizada e hierarquizada, em níveis de complexidade crescente, tendo direção única em cada esfera de governo: federal, municipal e estadual. São princípios do SUS o acesso universal público e gratuito às ações e serviços de saúde; a integralidade das ações, num conjunto articulado e contínuo em todos os níveis de complexidade do sistema; a eqüidade da oferta de serviços, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie; a descentralização político-administrativa, com direção única do sistema em cada esfera de governo; e o controle social das ações, exercido por Conselhos Municipais, Estaduais e Nacional de Saúde, com representação dos usuários, trabalhadores, prestadores de serviços, organizações da sociedade civil e instituições formadoras. O princípio de controle social do SUS merece destaque, na medida em que impulsiona o protagonismo e a autonomia dos usuários dos serviços na gestão dos processos de trabalho no campo da saúde coletiva. Assim, os Conselhos e as Conferências de Saúde desempenham papel fundamental na conformação do SUS, no ordenamento de serviços e ações e no direcionamento dos recursos. Compartilhando destes princípios, a rede de atenção à saúde mental, composta por Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT), Centros de Convivência, Ambulatórios de Saúde Mental e Hospitais Gerais, caracteriza-se por ser essencialmente pública, de base municipal e com um controle social fiscalizador e gestor no processo de consolidação da Reforma Psiquiátrica. O papel dos Conselhos Municipais, Estaduais e Nacional de Saúde, assim como das Conferências de Saúde Mental, é por excelência garantir a participação dos trabalhadores, usuários de saúde mental e seus familiares nos processos de gestão do SUS, favorecendo assim o protagonismo dos usuários na construção de uma rede de atenção à saúde mental. De fato, são as Conferências Nacionais de Saúde Mental, e em especial a III Conferência Nacional de Saúde Mental, realizada em 2001, que consolidam a Reforma Psiquiátrica como política oficial do SUS e propõem a conformação de uma rede articulada e comunitária de cuidados para as pessoas com transtornos mentais. Rede e Território A construção de uma rede comunitária de cuidados é fundamental para a consolidação da Reforma Psiquiátrica. A articulação em rede dos variados serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico é crucial para a constituição de um conjunto vivo e concreto de referências capazes de acolher a pessoa em sofrimento mental. Esta rede é maior, no entanto, do que o conjunto dos serviços de saúde mental do município. Uma rede se conforma na medida em que são permanentemente articuladas outras instituições, associações, cooperativas e variados espaços das cidades. A rede de atenção à saúde mental do SUS define-se assim como de base comunitária. É portanto fundamento para a construção desta rede a presença de um movimento permanente, direcionado para os outros espaços da cidade, em busca da emancipação das pessoas com transtornos mentais. A idéia fundamental aqui é quesomente uma organização em rede, e não apenas um serviço ou equipamento, é capaz de fazer face à complexidade das demandas de inclusão de pessoas secularmente estigmatizadas, em um país de acentuadas desigualdades sociais. É a articulação em rede de diversos equipamentos da cidade, e não apenas de equipamentos de saúde, que pode garantir resolutividade, promoção da autonomia e da cidadania das pessoas com transtornos mentais. Para a organização desta rede, a noção de território é especialmente orientadora. O território é a designação não apenas de uma área geográfica, mas das pessoas, das instituições, das redes e dos cenários nos quais se dão a vida comunitária. Assim, trabalhar no território não equivale a trabalhar na comunidade, mas a trabalhar com os componentes, saberes e forças concretas da comunidade que propõem soluções, apresentam demandas e que podem construir objetivos comuns. Trabalhar no território significa assim resgatar todos os saberes e potencialidades dos recursos da comunidade, construindo coletivamente as soluções, a multiplicidade de trocas entre as pessoas e os cuidados em saúde mental. É a idéia do território, como organizador da rede de atenção à saúde mental, que deve orientar as ações de todos os seus equipamentos. O papel estratégico dos CAPS Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), entre todos os dispositivos de atenção à saúde mental, têm valor estratégico para a Reforma Psiquiátrica Brasileira. É o surgimento destes serviços que passa a demonstrar a possibilidade de organização de uma rede substitutiva ao Hospital Psiquiátrico no país. É função dos CAPS prestar atendimento clínico em regime de atenção diária, evitando assim as internações em hospitais psiquiátricos; promover a inserção social das pessoas com transtornos mentais através de ações intersetoriais; regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental na sua área de atuação e dar suporte à atenção à saúde mental na rede básica. É função, portanto, e por excelência, dos CAPS organizar a rede de atenção às pessoas com transtornos mentais nos municípios. Os CAPS são os articuladores estratégicos desta rede e da política de saúde mental num determinado território. Os CAPS devem ser substitutivos, e não complementares ao hospital psiquiátrico. Cabe aos CAPS o acolhimento e a atenção às pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, procurando preservar e fortalecer os laços sociais do usuário em seu território. De fato, o CAPS é o núcleo de uma nova clínica, produtora de autonomia, que convida o usuário à responsabilização e ao protagonismo em toda a trajetória do seu tratamento. Os Centros de Atenção Psicossocial começaram a surgir nas cidades brasileiras na década de 80 e passaram a receber uma linha específica de financiamento do Ministério da Saúde a partir do ano de 2002, momento no qual estes serviços experimentam grande expansão. São serviços de saúde municipais, abertos, comunitários, que oferecem atendimento diário às pessoas com transtornos mentais severos e persistentes, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social destas pessoas através do acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. Gráfico 4 – Evolução anual do número de CAPS Fonte : Ministério da Saúde. Dados de 2005 colhidos até outubro de 2005. Não existem dúvidas de que a expansão da rede CAPS foi fundamental para as visíveis mudanças que estão em curso na assistência às pessoas com transtornos mentais. Nos últimos quatro anos, a rede CAPS experimentou uma expansão digna de nota, tendo duplicado o número de serviços no país. A implantação dos serviços de atenção diária tem mudado radicalmente o quadro de desassistência que caracterizava a saúde mental pública no Brasil. A cobertura assistencial vem melhorando progressivamente, mas, de fato, ainda está aquém do parâmetro estabelecido pelo Ministério da Saúde. Embora esteja clara a tendência de ampliação igualitária da cobertura, a distribuição espacial dos CAPS ainda reflete as desigualdades estruturais entre as regiões brasileiras. Existem hoje no Brasil 689 CAPS em funcionamento, distribuídos em quase todos os estados brasileiros. O indicador CAPS/100.000 habitantes informa as diferentes coberturas e ritmos de expansão dos CAPS nos estados, além de indicar aos gestores as necessidades de expansão da rede (referência de 1 CAPS para cada 100.000 habitantes). O indicador CAPS/100.000 habitantes : cobertura dos CAPS em cada estado brasileiro. 80-88 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 0 50 100 150 200 250 300 350 400 450 500 550 600 650 700 6 10 12 15 23 34 51 63 92 112 148 179 208 295 424 500 605 689 Os CAPS se diferenciam pelo porte, capacidade de atendimento, clientela atendida e organizam-se no país de acordo com o perfil populacional dos municípios brasileiros. Assim, estes serviços diferenciam-se como CAPS I, CAPS II, CAPS III, CAPSi e CAPSad. Os CAPS I são os Centros de Atenção Psicossocial de menor porte, capazes de oferecer uma resposta efetiva às demandas de saúde mental em municípios com população entre 20.000 e 50.000 habitantes - cerca de 19% dos municípios brasileiros, onde residem por volta de 17% da população do país. Estes serviços têm equipe mínima de 9 profissionais, entre profissionais de nível médio e nível superior, e têm como clientela adultos com transtornos mentais severos e persistentes e transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Funcionam durante os cinco dias úteis da semana, e têm capacidade para o acompanhamento de cerca de 240 pessoas por mês. Os CAPS II são serviços de médio porte, e dão cobertura a municípios com mais de 50.000 habitantes - cerca de 10% dos municípios brasileiros, onde residem cerca de 65% da população brasileira. A clientela típica destes serviços é de adultos com transtornos mentais severos e persistentes. Os CAPS II têm equipe mínima de 12 profissionais, entre profissionais de nível médio e nível superior, e capacidade para o acompanhamento de cerca de 360 pessoas por mês. Funcionam durante os cinco dias úteis da semana. Os CAPS III são os serviços de maior porte da rede CAPS. Previstos para dar cobertura aos municípios com mais de 200.000 habitantes, os CAPS III estão presentes hoje, em sua maioria, nas grandes metrópoles brasileiras – os municípios com mais de 500.000 habitantes representam apenas 0,63 % por cento dos municípios do país, mas concentram boa parte da população brasileira, cerca de 29% da população total do país. Os CAPS III são serviços de grande complexidade, uma vez que funcionam durante 24 horas em todos os dias da semana e em feriados. Com no máximo cinco leitos, o CAPS III realiza, quando necessário, acolhimento noturno (internações curtas, de algumas horas a no máximo 7 dias). A equipe mínima para estes serviços deve contar com 16 profissionais, entre os profissionais de nível médio e superior, além de equipe noturna e de final de semana. Estes serviços têm capacidade para realizar o acompanhamento de cerca de 450 pessoas por mês. Os CAPSi, especializados no atendimento de crianças e adolescentes com transtornos mentais, são equipamentos geralmente necessários para dar resposta à demanda em saúde mental em municípios com mais de 200.000 habitantes. Funcionam durante os cinco dias úteis da semana, e têm capacidade para realizar o acompanhamento de cerca de 180 crianças e adolescentes por mês. A equipe mínima para estes serviços é de 11 profissionais de nível médio e superior. Os CAPSad, especializados no atendimento de pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas, são equipamentos previstos para cidades com mais de 200.000 habitantes, ou cidades que, por sua localização geográfica (municípios de fronteira, ouparte de rota de tráfico de drogas) ou cenários epidemiológicos importantes, necessitem deste serviço para dar resposta efetiva às demandas de saúde mental. Funcionam durante os cinco dias úteis da semana, e têm capacidade para realizar o acompanhamento de cerca de 240 pessoas por mês. A equipe mínima prevista para os CAPSad é composta por 13 profissionais de nível médio e superior. O perfil populacional dos municípios é sem dúvida um dos principais critérios para o planejamento da rede de atenção à saúde mental nas cidades, e para a implantação de Centros de Atenção Psicossocial. O critério populacional, no entanto, deve ser compreendido apenas como um orientador para o planejamento das ações de saúde. De fato, é o gestor local, articulado com as outras instâncias de gestão do SUS, que terá as condições mais adequadas para definir os equipamentos que melhor respondem às demandas de saúde mental de seu município. Tabela 4 – Perfil dos municípios brasileiros e a composição da rede de saúde mental Fontes : Ministério da Saúde. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Estimativa populacional 2005. A posição estratégica dos Centros de Atenção Psicossocial como articuladores da rede de atenção de saúde mental em seu território, é, por excelência, promotora de autonomia, já que articula os recursos existentes em variadas redes: sócio-sanitárias, jurídicas, sociais e educacionais, entre outras. A tarefa de promover a reinserção social exige uma articulação ampla, desenhada com variados componentes ou recursos da assistência, para a promoção da vida comunitária e da autonomia dos usuários dos serviços. Os CAPS, no processo de construção de uma lógica comunitária de atenção à saúde mental, oferecem então os recursos fundamentais para a reinserção social de pessoas com transtornos mentais. Existem hoje no país 251 CAPS I implantados, 266 CAPS II, 25 CAPS III, 56 CAPSi e 91 CAPSad. Tabela 5 – Distribuição dos CAPS por modalidade e cobertura CAPS/100.000 habitantes, por estado – outubro 2005. Faixas populacionais Nº municípios % municípios Nº habitantes % população Composição Rede de Saúde Mental Até 19.999 3970 71,35 32.654.617 17,73 PSF e Rede Básica de Atenção à Saúde De 20.000 a 49.999 1026 18,44 31.001.201 16,83 CAPS I De 50.000 a 99.999 312 5,61 22.131.974 12,02 CAPS II De 100.000 a 199.999 130 2,34 17.995.443 9,77 CAPS II, CAPSi e CAPSad De 200.000 a 499.999 91 1,64 27.629.437 15,00 CAPS III, CAPS II, CAPSi e CAPSad De 500.000 a 999.999 21 0,38 14.756.423 8,01 CAPS III, CAPS II, CAPSi e CAPSad Acima de 1.000.000 14 0,25 38.015.169 20,64 CAPS III, CAPS II, CAPSi e CAPSad Total 5564 100 184.184.264 100 Fontes : Ministério da Saúde. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – estimativa populacional 2005 Observação : Para o cálculo do indicador CAPS/100.000 habitantes, considera-se que o CAPS I dá resposta efetiva a 50.000 habitantes, que o CAPS III dá cobertura a 150.000 habitantes e que o CAPS II, CAPSi e CAPSad dão cobertura a 100.000 habitantes. Saúde Mental na atenção primária: articulação com o programa de saúde da família O desenvolvimento da estratégia Saúde da Família nos últimos anos marca um progresso indiscutível da política do SUS. Atendendo ao compromisso da integralidade da atenção à saúde, o Programa Saúde da Família (PSF), criado na década de 90, vem investindo na promoção da saúde Unidade Federativa População CAPS I CAPS II CAPS III CAPSi CAPSad Região Norte Amazonas 3.232.330 0 0 0 0 0 0 0,00 Acre 669.736 0 1 0 0 1 2 0,30 Amapá 594.587 0 0 0 0 2 2 0,34 Pará 6.970.586 8 8 1 1 2 20 0,24 Tocantins 1.305.728 3 2 0 0 0 5 0,27 Roraima 391.317 0 0 0 0 1 1 0,26 Rondônia 1.534.594 2 3 0 0 0 5 0,26 Subtotal Região Norte 14.698.878 13 14 1 1 6 35 0,19 Região Nordeste Alagoas 3.015.912 7 4 0 1 0 12 0,28 Bahia 13.815.334 16 18 2 3 3 42 0,25 Ceará 8.097.276 14 16 0 1 3 34 0,33 Maranhão 6.103.327 7 4 0 2 0 13 0,16 Paraíba 3.595.886 5 6 0 1 2 14 0,32 Pernambuco 8.413.593 3 13 1 2 5 24 0,27 Piauí 3.006.885 3 1 0 1 1 6 0,15 Rio Grande do Norte 3.003.087 2 6 0 1 3 12 0,37 Sergipe 1.967.791 7 1 2 1 2 13 0,53 Subtotal Região Nordeste 51.019.091 64 69 5 13 19 170 0,28 Região Centro-oeste Distrito Federal 2.333.108 1 0 0 1 1 3 0,11 Goiás 5.619.917 4 6 0 1 3 14 0,21 Mato Grosso 2.803.274 14 1 0 2 3 20 0,46 Mato Grosso do Sul 2.264.468 3 5 0 0 1 9 0,33 Subtotal Região Centro-Oeste 13.020.767 22 12 0 4 8 46 0,27 Região Sudeste Espírito Santo 3.408.365 3 6 0 0 2 11 0,28 Minas Gerais 19.237.450 39 37 3 5 4 88 0,36 Rio de Janeiro 15.383.407 20 30 0 6 6 62 0.34 São Paulo 40.442.795 35 47 14 15 29 140 0,32 Subtotal Região Sudeste 78.472.017 97 120 17 26 41 301 0,34 Região Sul Paraná 10.261.856 5 11 1 4 8 29 0,26 Rio Grande do Sul 10.845.087 32 28 1 4 7 72 0,52 Santa Catarina 5.866.568 18 12 0 4 2 36 0,46 Subtotal Região Sul 26.973.511 55 51 2 12 17 137 0,41 Brasil 184.184.264 251 266 25 56 91 689 0,31 Total de dispositivos CAPS por 100.000 hab ponderado da população e na prevenção de doenças, alcançando resultados importantes para a saúde coletiva. Estruturado em equipes de Atenção Básica, a cobertura do Programa já alcança todo o país. O campo de intervenção de cada Equipe de Atenção Básica é sempre composto pelas pessoas, famílias e suas relações com a comunidade e com o meio ambiente. A realidade destas equipes de Atenção Básica vem demonstrando que, cotidianamente, elas se deparam com problemas de saúde mental. Cada equipe do PSF (médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem, agente comunitário de saúde) está encarregada da cobertura de até 1.000 famílias, ou cerca de 3.400 pessoas de um município ou bairro. Hoje existem em atividade 23.664 equipes, além de 203.923 agentes comunitários de saúde2 (trabalhadores de escolaridade primária ou média, recrutados na própria comunidade e treinados em habilidades básicas de prevenção e tratamento). Assim, por sua proximidade com famílias e comunidades, as equipes da Atenção Básica se apresentam como um recurso estratégico para o enfrentamento de importantes problemas de saúde pública, como os agravos vinculados ao uso abusivo de álcool, drogas e diversas outras formas de sofrimento psíquico. Existe um componente de sofrimento subjetivo associado a toda e qualquer doença, às vezes atuando como entrave à adesão a práticas preventivas ou de vida mais saudáveis. Poderíamos dizer que todo problema de saúde é também – e sempre – de saúde mental, e que toda saúde mental é também – e sempre – produção de saúde. Nesse sentido, será sempre importante e necessária a articulação da saúde mental com a Atenção Básica. Contudo, nem sempre a Atenção Básica apresenta condições para dar conta desta importante tarefa. Por esta razão, o Ministério da Saúde vem estimulando ativamente, nas políticas de expansão, formulação e avaliação da Atenção Básica, diretrizes que incluam a dimensão subjetiva dos usuários e os problemas mais freqüentes de saúde mental. Afinal, grande parte das pessoas com transtornos mentais leves ou severos está sendo efetivamente atendida pelas equipes de Atenção Básica nos grandes e pequenos municípios. Assumir este compromisso é uma forma de responsabilização em relação à produção da saúde, à busca da eficácia das práticas e à promoção de eqüidade, da integralidade e da cidadania num sentido mais amplo, especialmente em relação aos pequenos municípios ( grande maioria dos municípios brasileiros ), onde não é necessária a implantação de Centros de Atenção Psicossocial. Assim, o Ministério da Saúde vem construindo nos últimos anos as diretrizes e condições para que nos municípios com menos de 20.000 habitantes ( cerca de 70% dos municípios brasileiros, onde residem 18% da população do país ) a rede de cuidados em saúde mental estruture- se a partir da Atenção Básica, obedecendo ao modelo de redes de cuidado de baseterritorial e buscando o estabelecimento de vínculos e acolhimento. Nestes municípios, pequenas equipes de 2 Fonte : Ministério da Saúde, setembro de 2005. saúde mental, que podem estar lotadas em ambulatórios (ou CAPS de municípios vizinhos), por exemplo, passam a dar apoio matricial às equipes de Atenção Básica. O apoio matricial é um arranjo organizacional que viabiliza o suporte técnico em áreas específicas para as equipes responsáveis pelo desenvolvimento de ações básicas de saúde. Nesse arranjo, a equipe de saúde mental compartilha alguns casos com as equipes de Atenção Básica. Esse compartilhamento se produz em forma de co-responsabilização pelos casos, que pode se efetivar através de discussões conjuntas de casos, intervenções conjuntas junto às famílias e comunidades ou em atendimentos conjuntos, e também na forma de supervisão e capacitação. A responsabilização compartilhada dos casos exclui a lógica do encaminhamento, pois visa aumentar a capacidade resolutiva de problemas de saúde pela equipe local. No caso de municípios maiores, onde estão implantados CAPS ou outros equipamentos da rede de atenção à saúde mental, a lógica do apoio matricial é a mesma: a equipe do CAPS, juntamente com membros das equipes dos outros equipamentos, apóiam as diferentes equipes de Atenção Básica através de ações de supervisão, atendimento conjunto e específico e capacitação. Em todos os cenários, as equipes matriciais de saúde mental e da Atenção Básica compartilham os casos e constroem coletivamente as estratégias para a abordagem de problemas vinculados à violência, ao abuso de álcool e outras drogas, as estratégias para redução de danos, o fomento de ações para a diminuição da segregação pela loucura e combate ao estigma, e o desenvolvimento de ações de mobilização dos recursos comunitários para a reabilitação psicossocial. Essas diretrizes, estabelecidas pela articulação entre as políticas de saúde mental e de atenção primária à saúde, visam ampliar e tornar mais eficazes as intervenções dos dois campos. As experiências das equipes matriciais de saúde mental estão, no entanto, ainda em construção. Assim, algumas experiências-piloto, sobretudo para a atenção em álcool e outras drogas e para o manejo da epilepsia na rede básica têm sido acompanhadas, para possibilitar uma melhor apreensão desta articulação e formulação de estratégias de implementação destas diretrizes em todos os municípios brasileiros. Neste momento, os indicadores de saúde mental já compõem o rol de indicadores das equipes de atenção básica e inicia-se o esforço fundamental de garantir o acesso da população, em especial nos pequenos municípios brasileiros, à atenção em saúde mental. A rede de saúde mental para a infância e adolescência No Brasil, é histórica a omissão da saúde pública no direcionamento das políticas de saúde mental para a infância e adolescência. Esta lacuna possibilitou, ao longo dos anos, a criação de uma rede de assistência à infância e adolescência fundada em instituições filantrópicas e privadas, com forte componente tutelar, como educandários, abrigos, escolas especiais, institutos para deficientes mentais e clínicas para autistas. Não há dúvidas de que todas estas instituições desempenharam e desempenham ainda um relevante papel na assistência às crianças e adolescentes com transtornos mentais. É a partir de 2003, no entanto, que o Ministério da Saúde passa a orientar a construção coletiva e intersetorial das diretrizes de uma rede de assistência de base comunitária e em acordo com as diretrizes da Reforma Psiquiátrica. A criação do Fórum Nacional de Saúde Mental de Crianças e Adolescentes, foi, neste sentido, fundamental para possibilitar a ampla participação da sociedade na elaboração de propostas para o campo da saúde mental de crianças e adolescentes e para a construção e consolidação de uma política de saúde para esta população específica. Sua composição inclui representantes de instituições governamentais, setores da sociedade civil, entidades filantrópicas, agentes da justiça e promotoria da infância & juventude, e sua atuação tem caráter deliberativo. O Fórum busca incorporar as orientações do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), importante documento legal, aprovado em 1990, que tem o objetivo de assegurar os direitos de cidadania a crianças e jovens. O ECA é uma importante conquista do movimento pelos direitos humanos no Brasil. O Fórum configura-se assim como um instrumento de gestão, possibilitando dar visibilidade e resolutividade às diversas dificuldades que durante muito tempo ficaram em um segundo plano ou até mesmo totalmente ignoradas no campo da saúde mental de crianças e adolescentes. No ano de 2005, o Fórum divulga as primeiras diretrizes para o processo de desinstitucionalização de crianças e adolescentes em território nacional (ver “ Caminhos para uma Política de Saúde Mental Infanto- Juvenil”). É função do Fórum a promoção de uma articulação eficaz entre os variados campos de atenção à infância e à adolescência e o fomento do processo de expansão de uma rede comunitária de atenção à saúde mental para este segmento. Neste sentido, a expansão e a consolidação da rede de CAPSi tem se revelado fundamental para a mudança nos paradigmas de assistência à infância e adolescência. É em articulação com o Fórum que são elaborados um conjunto de diretrizes para estes e outros serviços públicos de atenção à saúde mental da infância e adolescência, fundadas na lógica territorial de organização da rede e da atenção: • reconhecer aquele que necessita e/ou procura o serviço - seja a criança, o adolescente ou o adulto que a (o) acompanha - como portador de um pedido legítimo a ser levado em conta, implicando uma necessária ação de acolhimento; • tomar em sua responsabilidade o agenciamento do cuidado, seja através dos procedimentos próprios ao serviço procurado, seja em outro dispositivo do mesmo campo ou de outro, caso em que o encaminhamento deverá necessariamente incluir o ato responsável daquele que encaminha; • conduzir a ação do cuidado de modo a sustentar, em todo o processo, a condição da criança ou adolescente como sujeito de direitos e de responsabilidades, o que deve ser tomado tanto em sua dimensão subjetiva quanto social; • comprometer o(s) responsável(is) pela criança ou adolescente a ser cuidado – sejam familiares ou agentes institucionais – no processo de atenção, situando-os, igualmente, como sujeito(s) da demanda. • garantir que a ação do cuidado seja o mais possível fundamentada nos recursos teórico- técnicos e de saber disponíveis ao(s) profissional(is), técnico(s) ou equipe atuante(s) no serviço, envolvendo a discussão com os demais membros da equipe e sempre referida aos princípios e diretrizes coletivamente estabelecidos pela política pública de saúde mental para constituição do campo de cuidados. • manter abertos os canais de articulação da ação com outros equipamentos do território, de modo a operar com a lógica da rede ampliada de atenção. IV - Saúde Mental e Inclusão social: a rede se amplia Programa de inclusão social pelo trabalho Um dos principais desafios da Reforma Psiquiátrica - processo amplo de inclusão social e promoção da cidadania das pessoas com transtornos mentais - é a potencialização do trabalho como instrumento de inclusão social dos usuários dos serviços. Embora os diversos serviços da rede de atenção à saúde mental fomentem a criação de cooperativas e associações e realizem oficinas de geração de renda, estas experiências, mesmo que com ótimos resultados, caracterizam-se ainda por sua frágil sustentação institucional e financeira. O manejo diário destas experiências com o mercado capitalista e com uma sociedade excludente impõe debates práticos e teóricos no cotidiano dos serviços, que vemsubstituindo aos poucos o componente da antiga reabilitação pelo trabalho, dado no marco asilar. Neste contexto, o marco da Economia Solidária, como movimento de luta contra a exclusão social e econômica, surge como parceiro natural para a discussão da exclusão das pessoas com transtornos mentais do mercado de trabalho. De fato, os movimentos da Reforma Psiquiátrica e da Economia Solidária compartilham princípios fundamentais quando fazem a opção ética, política e ideológica por uma sociedade marcada pela solidariedade. É somente no ano de 2004, no entanto, que estes movimentos passam a se encontrar, a se reconhecer e a dialogar, iniciando uma colaboração permanente entre estes campos e entre os integrantes dos movimentos sociais correspondentes, tendo como desafio a reinserção social de egressos de manicômios por meio da construção de empreendimentos solidários e autogestionários. A Economia Solidária, hoje política oficial do Ministério do Trabalho e Emprego, é um movimento organizado de resposta à exclusão por gênero, raça, idade, estilo de vida e instrução, entre outros fatores, das pessoas do campo do trabalho. É clara neste marco referencial a crítica à dura lógica capitalista de produção incessante de vitoriosos e derrotados. Como horizonte da Economia Solidária está a instauração da solidariedade como norma social e a construção de empreendimentos coletivos e autogestionários como resposta à exclusão do mercado. É através de um diálogo permanente entre os campos da saúde mental e da economia solidária que o Programa de Inclusão Social pelo Trabalho das pessoas com transtornos mentais e transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas começa a ser delineado. A realização do Encontro Nacional de Centros de Atenção Psicossocial e a promoção conjunta, pelos Ministérios da Saúde e do Trabalho e Emprego, da primeira Oficina Nacional de Experiências de Geração de Renda de Usuários de Saúde Mental, ainda em 2004, possibilitou o primeiro contato com iniciativas de geração de renda em todo o país, e a construção das bases para um diálogo produtivo entre as políticas de saúde mental e economia solidária. Existem hoje identificadas no país 156 iniciativas de geração de renda formada por pessoas com transtornos mentais, entre cooperativas, associações e grupos de trabalho. Aproximadamente 2500 pessoas, entre usuários, familiares e técnicos participam destas iniciativas. Apesar de heterogêneas, estas experiências compartilham o determinante ético da produção de autonomia e da inclusão social e nascem, em sua maioria, nos Centros de Atenção Psicossocial e nos Centros de Convivência e Cultura. É no ano de 2005, no entanto, que a criação de um Grupo de Trabalho composto pelos Ministérios da Saúde e do Trabalho e Emprego, gestores do SUS, representantes das iniciativas de geração de renda e representantes de usuários, possibilita uma discussão mais sistematizada, ainda em andamento, em torno dos temas da saúde mental e da economia solidária e a inclusão destes temas nas agendas sociais do governo federal, dos estados e dos municípios. Em julho de 2005, o Ministério da Saúde implementa uma linha específica de incentivo financeiro para os municípios que desenvolvem atividades de inclusão social pelo trabalho para pessoas com transtornos mentais ou com transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas. Pela primeira vez, estas iniciativas passam a receber recursos federais. Embora em delineamento e diante dos desafios, muitas vezes paradoxais, da construção coletiva de uma autonomia real para estas iniciativas, o Programa de Inclusão Social pelo Trabalho, assumido pelos Ministérios do Trabalho e Emprego e da Saúde, passou a articular definitivamente a saúde mental e a economia solidária na discussão da complexa problemática da inclusão social da pessoa com transtornos mentais. O financiamento destas iniciativas e a discussão permanente de seus dilemas práticos e teóricos são sem dúvida passos importantes para a consolidação da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Centros de Convivência e Cultura: uma proposta em debate Em alguns municípios do país, como Belo Horizonte (MG) e Campinas (SP), vem se consolidando um dispositivo inovador, concebido no território da cultura e da cidade, que tem se destacado pelo papel estratégico que vem desempenhando na inclusão social das pessoas com transtornos mentais: os Centros de Convivência e Cultura. É típico da dinâmica da Reforma Psiquiátrica o surgimento, em variados momentos e em diversas regiões, de experiências inovadoras e de novas tecnologias para responder ao desafio do cuidado e da inclusão social. Os Centros de Convivência e Cultura vem se destacando como uma destas experiências, e o Ministério da Saúde vem conduzindo um debate em torno da viabilidade de aprofundamento e expansão deste dispositivo para todo o país. Os Centros de Convivência e Cultura são dispositivos públicos que compõe a rede de atenção substitutiva em saúde mental e que oferecem às pessoas com transtornos mentais espaços de sociabilidade, produção cultural e intervenção na cidade. Estes Centros, através da construção de espaços de convívio e sustentação das diferenças na comunidade, facilitam a construção de laços sociais e a inclusão das pessoas com transtornos mentais. O valor estratégico e a vocação destes Centros para efetivar a inclusão social residem no fato de serem equipamentos concebidos fundamentalmente no campo da cultura, e não exclusivamente no campo da saúde. Os Centros de Convivência e Cultura não são, portanto, equipamentos assistenciais e tampouco realizam atendimento médico ou terapêutico. São dispositivos públicos que se oferecem para a pessoa com transtornos mentais e para o seu território como espaços de articulação com a vida cotidiana e a cultura. Assim, a clientela dos Centros de Convivência e Cultura é composta, sobretudo, mas não exclusivamente, de pessoas com transtornos mentais severos e persistentes. As oficinas e as atividades coletivas são o grande eixo do trabalho dos Centros, assim como a articulação com os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Centros de Saúde, Serviços Residenciais Terapêuticos, Programa de Saúde da Família, dispositivos da rede de assistência social, dos campos do trabalho, da cultura e da educação. É característico dos Centros de Convivência e Cultura a articulação permanente com os espaços do seu território e da cidade. Alguns Centros vêm funcionando como importantes incubadoras de experiências de geração de renda. Por reunir estas características, a implementação de Centros de Convivência e Cultura costuma ocorrer somente naqueles municípios que já foram capazes de construir uma resposta pública efetiva para os transtornos mentais severos e persistentes. Assim, a implementação destes Centros ganha sentido apenas naquelas localidades onde a rede SUS substitutiva de atenção à saúde mental conta com cobertura adequada, especialmente de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). O Ministério da Saúde recomenda a implementação destes Centros para os municípios com população de mais de 200.000 habitantes, embora uma política de financiamento, controle e avaliação para este equipamento ainda esteja em franco debate, através de diversos fóruns, com os estados, municípios, usuários, profissionais da saúde e da cultura, movimentos sociais e outros atores do processo da Reforma Psiquiátrica. A participação dos familiares e usuários dos serviços e seu protagonismo O processo de Reforma Psiquiátrica é um projeto de horizonte democrático e participativo. São protagonistas deste processo os gestores do SUS, os trabalhadores em saúde, e principalmente os usuários e os familiares dos CAPS e de outros serviços substitutivos. Trata-se de um protagonismo insubstituível. O processo da Reforma Psiquiátrica, e mesmo o processo deconsolidação do SUS, somente é exeqüível a partir da participação ativa de trabalhadores, usuários e familiares na construção dos modos de tratar e nos fóruns de negociação e deliberação do SUS (conselhos gestores de unidades, conselhos municipais, estaduais e nacional de saúde, conferências). Trata-se afinal, do desafio de construir uma política pública e coletiva para a saúde mental. Hoje, em quase todos os estados do país, existem associações de usuários e familiares de saúde mental. É nos anos 90, no entanto, que as experiências de usuários e seus familiares passam a potencializar o processo da Reforma Psiquiátrica. Organizados em associações, usuários e familiares passam a relatar suas vivências, discutir os equipamentos de saúde e a imprimir uma discussão no campo da Reforma Psiquiátrica que ultrapassa o campo técnico. Usuários e familiares passam a entrar na cena do debate político, e empoderam-se como atores e protagonistas da Reforma e da construção de uma rede substitutiva de serviços. A II Conferência Nacional de Saúde Mental, realizada em 1992, marca a participação expressiva, pela primeira vez na história, de usuários dos serviços de saúde mental e seus familiares. A participação dos usuários e seus familiares não se dá, no entanto, somente nas instâncias previstas pelas estruturas do SUS. É no cotidiano dos serviços da rede de atenção à saúde mental e na militância, nos movimentos sociais, na luta por uma sociedade sem manicômios, de forma geral, que usuários e familiares vêm conseguindo garantir seus direitos, apoiar-se mutuamente e provocar mudanças nas políticas públicas e na cultura de exclusão do louco da sociedade. Afinal, o grande desafio da Reforma Psiquiátrica é construir um novo lugar social para os “loucos”. V- A política de álcool e outras drogas Antecedentes: a omissão histórica da saúde pública A saúde pública brasileira não vinha se ocupando devidamente com o grave problema da prevenção e tratamento de transtornos associados ao consumo de álcool e outras drogas. Produziu- se historicamente uma importante lacuna na política pública de saúde, deixando-se a questão das drogas para as instituições da justiça, segurança pública, pedagogia, benemerência, associações religiosas. A complexidade do problema contribuiu para a relativa ausência do Estado, e possibilitou a disseminação em todo o país de "alternativas de atenção" de caráter total, fechado, baseadas em uma prática predominantemente psiquiátrica ou médica, ou, ainda, de cunho religioso, tendo como principal objetivo a ser alcançado a abstinência. Esta rede de instituições – em sua maioria filantrópicas – cumprem um papel relevante, e apontam a necessidade de assunção pela saúde pública de uma política mais clara e incisiva para o problema. As implicações sociais, psicológicas, econômicas e políticas do uso de drogas não são consideradas na compreensão global do problema e a percepção distorcida da realidade do uso de álcool e outras drogas acabou por promover a disseminação de uma cultura que associa o uso de drogas à criminalidade e que combate substâncias que são inertes por natureza, fazendo que o indivíduo e o seu meio de convívio fiquem aparentemente relegados a um plano menos importante. Isto por vezes é confirmado pela multiplicidade de propostas e abordagens preventivas/terapêuticas consideravelmente ineficazes, por vezes reforçadoras da própria situação de uso abusivo e/ou dependência. Assim, historicamente, no Brasil o tema do uso do álcool e de outras drogas vem sendo associado à criminalidade e práticas anti-sociais e à oferta de "tratamentos" inspirados em modelos de exclusão/separação dos usuários do convívio social. As iniciativas governamentais restringiam-se a poucos serviços ambulatoriais ou hospitalares, em geral vinculados a programas universitários. Não havia uma política de alcance nacional, no âmbito da saúde pública. É somente em 2002, e em concordância com as recomendações da III Conferência Nacional de Saúde Mental, que o Ministério da Saúde passa a implementar o Programa Nacional de Atenção Comunitária Integrada aos Usuários de Álcool e outras Drogas, reconhecendo o problema do uso prejudicial de substâncias como importante problema da saúde pública e construindo uma política pública específica para a atenção às pessoas que fazem uso de álcool ou outras drogas, situada no campo da saúde mental, e tendo como estratégia a ampliação do acesso ao tratamento, a compreensão integral e dinâmica do problema, a promoção dos direitos e a abordagem de redução de danos. De fato, a constatação de que o uso de substâncias tomou proporção de grave problema de saúde pública no país encontra ressonância nos diversos segmentos da sociedade, pela relação comprovada entre o consumo e os agravos sociais que dele decorrem ou que o reforçam. O enfrentamento desta problemática constitui uma demanda mundial: de acordo com a Organização Mundial de Saúde, pelo menos 10% das populações dos centros urbanos de todo o mundo consomem de modo prejudicial substâncias psicoativas, independentemente de idade, sexo, nível de instrução e poder aquisitivo. Salvo variações sem repercussão epidemiológica significativa, esta realidade encontra equivalência em território brasileiro. Em especial, o uso do álcool impõe ao Brasil e às sociedades de todos os países uma carga global de agravos indesejáveis e extremamente dispendiosos, que acometem os indivíduos em todas os domínios de sua vida. A magnitude e complexidade do quadro epidemiológico recomenda uma gama extensa de respostas políticas para o enfrentamento dos problemas decorrentes do consumo. Os quadros abaixo informam sumariamente sobre a dimensão epidemiológica do consumo prejudicial e dependência das principais drogas no cenário brasileiro. As tabelas 6 e 7 mostram as taxas de prevalência do uso na vida e dependência de álcool e das demais drogas, na população brasileira. Tabela 6 – Epidemiologia no Brasil : uso e dependência de álcool por gênero e faixa etária. Fonte : I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas, CEBRID, 2002. Tabela 7 – Epidemiologia no Brasil: uso e dependência de outras drogas por gênero * Dados não apresentados pelos pesquisadores devido à baixa prevalência Fonte : I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas, CEBRID, 2002. A organização da rede de atenção A necessidade de definição de estratégias específicas para a construção de uma rede de assistência aos usuários de álcool e outras drogas, com ênfase na reabilitação e reinsersão social, levou o Ministério da Saúde a instituir, no âmbito do SUS, o Programa Nacional de Atenção Comunitária Integrada aos Usuários de Álcool e outras Drogas, no ano de 2002. Diante da diversidade das características populacionais existentes no País e da variação da incidência de transtornos causados pelo uso abusivo e/ou dependência de Álcool e outras drogas, o Programa organiza as ações de promoção, prevenção, proteção à saúde e educação das pessoas que fazem uso Faixa Etária Uso na vida (%) Dependência (%) Homens Mulheres Média Homens Mulheres Média 12-17 anos 52,2 44,7 48,3 6,9 3,5 5,2 18-24 anos 78,3 68,2 73,2 23,7 7,4 15,5 25-34 anos 85,6 67,6 76,5 20 7,1 13,5 > 34 anos 82,1 59,5 70,1 16,1 5,1 10,3 Média 77,3 60,6 68,7 17,1 5,7 11,2 Substâncias Uso na vida (%) Dependência (%) Homens Mulheres Média Homens Mulheres Média Tabaco 46,2 36,3 41,1 10,1 7,9 9 Maconha 10,6 3,4 6,9 1,6 0,3 1 Solventes 8,1 3,6 5,8 * * 0,8 Benzodiazepínicos 2,2 4,3 3,3 * * 1,1 Cocaína 3,7 0,9 2,3 * * * prejudicial de álcool e outras drogas e estabelece uma rede estratégica de serviços extra-hospitalares para esta clientela, articulada à rede de atenção psicossocial e fundada na abordagem de redução de danos. Os CAPSad – Centros de Atenção Psicossocialpara Atendimento de Pacientes com dependência e/ou uso prejudicial de álcool e outras drogas – são os dispositivos estratégicos desta rede, e passam a ser implantados sobretudo em grandes regiões metropolitanas e em regiões ou municípios de fronteira, com indicadores epidemiológicos relevantes. De fato, o desenvolvimento de ações de atenção integral ao uso de Álcool e drogas deve ser planejado de forma a considerar toda a problemática envolvida no cenário do consumo de drogas. Desta forma os CAPSad, assim como os demais dispositivos desta rede, devem fazer uso deliberado e eficaz dos conceitos de território e rede, bem como da lógica ampliada de redução de danos, realizando uma procura ativa e sistemática das necessidades a serem atendidas de forma integrada ao meio cultural e à comunidade em que estão inseridos, e de acordo com os princípios da Reforma Psiquiátrica. Outros componentes importantes desta rede passam a ter sua implementação incentivada nos estados e municípios através deste Programa de Atenção Integral. São incentivadas assim as ações no âmbito da atenção primária, articulação com as redes de suporte social (tais como grupos de ajuda mútua e entidades filantrópicas), assim como a implementação nos Hospitais Gerais e em sua estrutura de atendimento hospitalar de urgência e emergência, da rede hospitalar de retaguarda aos usuários de álcool e outras drogas. Como nas outras áreas da área mental, a organização da rede deve ser diversificada, complexa, com abordagens diversas e na perspectiva da integração social do usuário. É uma rede em formação, ainda muito distante das necessidades da demanda, e que busca recuperar o tempo perdido pela saúde pública no enfrentamento da questão. Estratégias para redução de danos e riscos associados ao consumo prejudicial O conceito de redução de danos vem sendo consolidado como um dos eixos norteadores da política do Ministério da Saúde para o álcool e outras drogas. Originalmente apresentado de forma favorável na prevenção de doenças transmissíveis, esta estratégia, assumida pelo Ministério da Saúde desde 1994, é internacionalmente reconhecida como alternativa pragmática e eficaz no campo da prevenção das Doenças Sexualmente Transmissíveis/AIDS. No campo do álcool e outras drogas, o paradigma da redução de danos se situa como estratégia de saúde pública que visa a reduzir os danos causados pelo abuso de drogas lícitas e ilícitas, resgatando o usuário em seu papel auto-regulador, sem a exigência imediata e automática da abstinência, e incentivando-o à mobilização social. A estratégia de redução de danos e riscos associados ao consumo prejudicial de drogas vem permitindo que as práticas de saúde acolham, sem julgamento, as demandas de cada situação, de cada usuário, ofertando o que é possível e o que é necessário, sempre estimulando a sua participação e seu engajamento. A estratégia de redução de danos sociais reconhece cada usuário em suas singularidades, traçando com ele estratégias que estão voltadas para a defesa de sua vida. Deste marco ético em defesa da vida, decorre que a abordagem de redução de danos, ao mesmo tempo em que aponta a diretrizes do tratamento e da construção da rede de atenção para as pessoas que fazem uso prejudicial de álcool e outras drogas, implica um conjunto de intervenções de saúde pública que visam prevenir as conseqüências negativas do uso de álcool e outras drogas. Assim, são estratégias de redução de danos a ampliação do acesso aos serviços de saúde, especialmente dos usuários que não têm contato com o sistema de saúde, por meio de trabalho de campo; a distribuição de insumos (seringas, agulhas, cachimbos) para prevenir a infecção dos vírus HIV e Hepatites B e C entre usuários de drogas; a elaboração e distribuição de materiais educativos para usuários de álcool e outras drogas informando sobre formas mais seguras do uso de álcool e outras drogas e sobre as conseqüências negativas do uso de substâncias psicoativas; os programas de prevenção de acidentes e violência associados ao consumo, e a ampliação do número de unidades de tratamento para o uso nocivo de álcool e outras drogas, entre outras. VI - Os principais desafios da Reforma Psiquiátrica Acessibilidade e eqüidade Algumas considerações devem ser feitas a respeito destes dois desafios cruciais da Reforma, que são também os desafios do SUS. • Estima-se que 3% da população necessitam cuidados contínuos em saúde mental, em função de transtornos severos e persistentes (psicoses, neuroses graves, transtornos de humor graves, deficiência mental com grave dificuldade de adaptação). A magnitude do problema (no Brasil, cerca de 5 milhões de pessoas) exige uma rede de cuidados densa, diversificada e efetiva. • Cerca de 10 a 12% da população não sofrem transtornos severos, mas precisam de cuidados em saúde mental, na forma de consulta médico-psicológica, aconselhamento, grupos de orientação e outras formas de abordagem. • O modelo hospitalocêntrico (e também o dos ambulatórios de especialidades), por ser concentrador de recursos e de baixa cobertura, é incompatível com a garantia da acessibilidade. • Sem a potencialização da rede básica ou atenção primária de saúde, para a abordagem das situações de saúde mental, não é possível desenhar respostas efetivas para o desafio da acessibilidade. • Transtornos graves associados ao consumo de álcool e outras drogas (exceto tabaco) atingem pelo 12% da população acima de 12 anos, sendo o impacto do álcool dez vezes maior que o do conjunto das drogas ilícitas. A criminalização do consumo agrava a vulnerabilidade dos usuários de drogas, exigindo uma articulação efetiva e inventiva entre a rede de cuidados e outras políticas setoriais, como justiça, segurança pública, trabalho, educação, ação social. Sem esta articulação e cooperação intersetorial, um acesso efetivo à prevenção e ao tratamento não está assegurado. • A qualidade do atendimento deve ser garantida em todas as regiões do país, mesmo as mais carentes e distantes dos centros universitários, e pode ser assegurada através de um forte programa de capacitação, supervisão e formação de multiplicadores. O distanciamento entre as instituições de formação e pesquisa e a saúde pública, no Brasil, agrava as carências de formação e qualificação de profissionais. Formação de Recursos Humanos Um dos principais desafios para o processo de consolidação da Reforma Psiquiátrica Brasileira é a formação de recursos humanos capazes de superar o paradigma da tutela do louco e da loucura. O processo da Reforma psiquiátrica exige cada vez mais da formação técnica e teórica dos trabalhadores, muitas vezes desmotivados por baixas remunerações ou contratos precários de trabalho. Ainda, várias localidades do país têm muitas dificuldades para o recrutamento de determinadas categorias profissionais, geralmente formadas e residentes nos grandes centros urbanos. Por esta razão, desde o ano de 2002 o Ministério da Saúde desenvolve o Programa Permanente de Formação de Recursos Humanos para a Reforma Psiquiátrica, que incentiva, apóia e financia a implantação de núcleos de formação em saúde mental para a Reforma Psiquiátrica, através de convênios estabelecidos com a participação de instituições formadoras ( especialmente universidades federais ), municípios e estados. A partir de 2003, o Ministério instituiu uma estrutura organizativa mais ampla, a Secretaria Nacional de Gestão do Trabalho em Saúde (SGESTES), para enfrentar as necessidades qualitativas e quantitativas de recursos humanos para o SUS. No campo da saúde mental, existem hoje 21 núcleos regionais em funcionamento, realizando cursos de especialização e atualização para trabalhadores da atenção básica e dos CAPS, e beneficiando profissionais de 15 estados. A cada ano, cerca de 1.500 profissionais participamde cursos de longa duração (mais que 360 horas), e aproximadamente 6.000 trabalhadores de diferentes níveis de escolaridade fazem pelo menos um curso de curta duração (maior que 40 horas). O debate cultural: estigma, inclusão social, superação do valor atribuído ao modelo hospitalocêntrico, papel dos meios de comunicação O processo de reforma psiquiátrica, especialmente a partir dos anos 90 do século passado, acompanhou-se no país de um intenso debate entre especialistas, escolas profissionais e teóricas, familiares, usuários, formadores de opinião, meios de comunicação de massa e a população em geral. Alguns avanços no combate ao estigma foram alcançados, especialmente naquelas situações onde programas promovem concretamente a inclusão social dos pacientes, como no caso das residências terapêuticas, projetos de geração de renda e as atividades culturais promovidas pela rede de serviços. Diversos grupos culturais vêm se constituindo no campo da reforma, com atividades como teatro, música, artes plásticas, rádio comunitária, TV experimental, folclore, literatura. Já existe uma significativa produção nesta área. Do mesmo modo, grupos culturais já estabelecidos têm sido chamados a contribuir com o debate da reforma, especialmente enfocando os desafios do modelo assistencial e o combate ao estigma. Exemplo disto é o Teatro do Oprimido, fundado e dirigido por Augusto Boal, que participa de atividades de CAPS e outras iniciativas em diversos estados do país. Alguns municípios, como Aracaju, SE, fizeram bem-sucedidas campanhas institucionais de divulgação da nova rede de serviços e dos princípios da reforma no rádio e na televisão. O debate científico: evidência e valor Desde o início do debate nacional sobre a nova lei da reforma psiquiátrica, a partir de 1989, instalou-se nos meios profissionais e científicos um importante debate sobre a mudança do modelo assistencial, e mesmo sobre as concepções de loucura, sofrimento mental e métodos terapêuticos. Este debate ainda é uma das marcas do processo de reforma no Brasil, e está presente nas universidades, nos serviços, nos congressos científicos, na imprensa corporativa (de associações e conselhos profissionais). No primeiro momento, as associações de familiares juntaram-se ao coro de críticas ao processo de reforma, posição que foi mudando ao longo do tempo, e à medida que os próprios familiares iam sendo chamados a desempenhar o importante papel de “parceiros do tratamento” nos novos ambientes de atendimento: CAPS, ambulatórios, residências terapêuticas, rede básica. De fato, neste primeiro momento, um dos argumentos principais dos familiares reproduziam a exigência de “cientificidade” da psiquiatria, no pressuposto de que esta estaria presente no modelo anterior mas não nos novos dispositivos de atenção. Não é sem tensão que as críticas aos novos serviços aparecem no ambiente acadêmico, freqüentemente na forma de duros ataques à qualidade do trabalho realizado na rede pública de atenção. O fato é que a reforma trouxe ao debate científico da psiquiatria e da saúde mental o tema inóspito da organização dos serviços de saúde, saúde pública, acessibilidade, garantia da qualidade de atenção para toda a população. A produção científica brasileira, na abordagem dos temas da psiquiatria/saúde mental no campo da saúde pública, ainda é muito restrita Aos poucos, entretanto, a dimensão de política pública começa a agregar valor ao ensino e à pesquisa, clínica e epidemiológica, no campo da saúde mental. Novos desafios para a formação de profissionais, desde a graduação, são colocados para a saúde pública, e vêm sendo enfrentados na forma de programas de residência médica, residência multidisciplinar, cursos de especialização, apoiados financeiramente pelo Ministério da Saúde. No que tange ao debate científico, o Ministério da Saúde associou-se este ano ao CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, realizando ampla convocação, através de edital de pesquisa, para que centros brasileiros de alto nível acadêmico tomassem a si a tarefa de produzir análises sobre os novos serviços e novo modelo de atenção. Constituiu-se uma significativa linha de financiamento (à qual se candidataram 140 grupos de pesquisa de diversas universidades), com o objetivo de buscar atravessar este fosso profundo que parece separar o debate científico da psiquiatria no país. De todo modo, os desafios da saúde pública, colocados na agenda da psiquiatria e da saúde mental pelo processo de reforma psiquiátrica, tornam-se hoje um tema irrecusável para as instituições de formação e de pesquisa no Brasil. Anexos Lei nº 10216 - De 06 de abril de 2001 Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. O Presidente da República. Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º Os direitos e a proteção das pessoas acometidas de transtorno mental, de que trata esta Lei, são assegurados sem qualquer forma de discriminação quanto à raça, cor, sexo, orientação sexual, religião, opção política, nacionalidade, idade, família, recursos econômicos e ao grau de gravidade ou tempo de evolução de seu transtorno, ou qualquer outra. Art. 2º Nos atendimentos em saúde mental, de qualquer natureza, a pessoa e seus familiares ou responsáveis serão formalmente cientificados dos direitos enumerados no parágrafo único deste artigo. Parágrafo único. São direitos da pessoa portadora de transtorno mental: I - ter acesso ao melhor tratamento do sistema de saúde, consentâneo às suas necessidades; II - ser tratada com humanidade e respeito e no interesse exclusivo de beneficiar sua saúde, visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade; III - ser protegida contra qualquer forma de abuso e exploração; IV - ter garantia de sigilo nas informações prestadas; V - ter direito à presença médica, em qualquer tempo, para esclarecer a necessidade ou não de sua hospitalização involuntária; VI - ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis; VII - receber o maior número de informações a respeito de sua doença e de seu tratamento; VIII - ser tratada em ambiente terapêutico pelos meios menos invasivos possíveis; IX - ser tratada, preferencialmente, em serviços comunitários de saúde mental. Art. 3º É responsabilidade do Estado o desenvolvimento da política de saúde mental, a assistência e a promoção de ações de saúde aos portadores de transtornos mentais, com a devida participação da sociedade e da família, a qual será prestada em estabelecimento de saúde mental, assim entendidas as instituições ou unidades que ofereçam assistência em saúde aos portadores de transtornos mentais. Art. 4º A internação, em qualquer de suas modalidades, só será indicada quando os recursos extra- hospitalares se mostrarem insuficientes. § 1º O tratamento visará, como finalidade permanente, a reinserção social do paciente em seu meio. § 2º O tratamento em regime de internação será estruturado de forma a oferecer assistência integral à pessoa portadora de transtornos mentais, incluindo serviços médicos, de assistência social, psicológicos, ocupacionais, de lazer, e outros. § 3º É vedada a internação de pacientes portadores de transtornos mentais em instituições com características asilares, ou seja, aquelas desprovidas dos recursos mencionados no § 2o e que não assegurem aos pacientes os direitos enumerados no parágrafo único do art. 2o. Art. 5º O paciente há longo tempo hospitalizado ou para o qual se caracterize situação de grave dependência institucional, decorrente de seu quadro clínico ou de ausência de suporte social, será objeto de política específica de alta planejada e reabilitação psicossocialassistida, sob responsabilidade da autoridade sanitária competente e supervisão de instância a ser definida pelo Poder Executivo, assegurada a continuidade do tratamento, quando necessário. Art. 6º A internação psiquiátrica somente será realizada mediante laudo médico circunstanciado que caracterize os seus motivos. Parágrafo único. São considerados os seguintes tipos de internação psiquiátrica: I - internação voluntária: aquela que se dá com o consentimento do usuário; II - internação involuntária: aquela que se dá sem o consentimento do usuário e a pedido de terceiro; e III - internação compulsória: aquela determinada pela Justiça. Art. 7º A pessoa que solicita voluntariamente sua internação, ou que a consente, deve assinar, no momento da admissão, uma declaração de que optou por esse regime de tratamento. Parágrafo único. O término da internação voluntária dar-se-á por solicitação escrita do paciente ou por determinação do médico assistente. Art. 8º A internação voluntária ou involuntária somente será autorizada por médico devidamente registrado no Conselho Regional de Medicina - CRM do Estado onde se localize o estabelecimento. § 1ºA internação psiquiátrica involuntária deverá, no prazo de setenta e duas horas, ser comunicada ao Ministério Público Estadual pelo responsável técnico do estabelecimento no qual tenha ocorrido, devendo esse mesmo procedimento ser adotado quando da respectiva alta. § 2º O término da internação involuntária dar-se-á por solicitação escrita do familiar, ou responsável legal, ou quando estabelecido pelo especialista responsável pelo tratamento. Art. 9º A internação compulsória é determinada, de acordo com a legislação vigente, pelo juiz competente, que levará em conta as condições de segurança do estabelecimento, quanto à salvaguarda do paciente, dos demais internados e funcionários. Art. 10º Evasão, transferência, acidente, intercorrência clínica grave e falecimento serão comunicados pela direção do estabelecimento de saúde mental aos familiares, ou ao representante legal do paciente, bem como à autoridade sanitária responsável, no prazo máximo de vinte e quatro horas da data da ocorrência. Art. 11º Pesquisas científicas para fins diagnósticos ou terapêuticos não poderão ser realizadas sem o consentimento expresso do paciente, ou de seu representante legal, e sem a devida comunicação aos conselhos profissionais competentes e ao Conselho Nacional de Saúde. Art. 12º O Conselho Nacional de Saúde, no âmbito de sua atuação, criará comissão nacional para acompanhar a implementação desta Lei. Art. 13º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 6 de abril de 2001; 180º da Independência e 113º da República. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO José Gregori José Serra Roberto Brant LEI No 10.708- DE 31 DE JULHO DE 2003 Institui o auxílio-reabilitação psicossocial para pacientes acometidos de transtornos mentais egressos de internações. O PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. 1º Fica instituído o auxílio-reabilitação psicossocial para assistência, acompanhamento e integração social, fora de unidade hospitalar, de pacientes acometidos de transtornos mentais, internados em hospitais ou unidades psiquiátricas, nos termos desta Lei. Parágrafo único. O auxílio é parte integrante de um programa de ressocialização de pacientes internados em hospitais ou unidades psiquiátricas, denominado "De Volta Para Casa", sob coordenação do Ministério da Saúde. Art. 2º O benefício consistirá em pagamento mensal de auxílio pecuniário, destinado aos pacientes egressos de internações, segundo critérios definidos por esta Lei. § 1º É fixado o valor do benefício de R$ 240,00 (duzentos e quarenta reais), podendo ser reajustado pelo Poder Executivo de acordo com a disponibilidade orçamentária. § 2º Os valores serão pagos diretamente aos beneficiários, mediante convênio com instituição financeira oficial, salvo na hipótese de incapacidade de exercer pessoalmente os atos da vida civil, quando serão pagos ao representante legal do paciente. § 3º O benefício terá a duração de um ano, podendo ser renovado quando necessário aos propósitos da reintegração social do paciente. Art. 3º São requisitos cumulativos para a obtenção do benefício criado por esta Lei que: I - o paciente seja egresso de internação psiquiátrica cuja duração tenha sido, comprovadamente, por um período igual ou superior a dois anos; II - a situação clínica e social do paciente não justifique a permanência em ambiente hospitalar, indique tecnicamente a possibilidade de inclusão em programa de reintegração social e a necessidade de auxílio financeiro; III - haja expresso consentimento do paciente, ou de seu representante legal, em se submeter às regras do programa; IV - seja garantida ao beneficiado a atenção continuada em saúde mental, na rede de saúde local ou regional. § 1º O tempo de permanência em Serviços Residenciais Terapêuticos será considerado para a exigência temporal do inciso I deste artigo. § 2º Para fins do inciso I, não poderão ser considerados períodos de internação os de permanência em orfanatos ou outras instituições para menores, asilos, albergues ou outras instituições de amparo social, ou internações em hospitais psiquiátricos que não tenham sido custeados pelo Sistema Único de Saúde - SUS ou órgãos que o antecederam e que hoje o compõem. § 3º Egressos de Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico poderão ser igualmente beneficiados, procedendo-se, nesses casos, em conformidade com a decisão judicial. Art. 4º O pagamento do auxílio-reabilitação psicossocial será suspenso: I - quando o beneficiário for reinternado em hospital psiquiátrico; II - quando alcançados os objetivos de reintegração social e autonomia do paciente. Art. 5º O pagamento do auxílio-reabilitação psicossocial será interrompido, em caso de óbito, no mês seguinte ao do falecimento do beneficiado. Art. 6º Os recursos para implantação do auxílio-reabilitação psicossocial são os referidos no Plano Plurianual 2000-2003, sob a rubrica "incentivo-bônus", ação 0591 do Programa Saúde Mental no 0018. § 1º A continuidade do programa será assegurada no orçamento do Ministério da Saúde. § 2º O aumento de despesa obrigatória de caráter continuado resultante da criação deste benefício será compensado dentro do volume de recursos mínimos destinados às ações e serviços públicos de saúde, conforme disposto no art. 77 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Art. 7º O controle social e a fiscalização da execução do programa serão realizados pelas instâncias do SUS. Art. 8º O Poder Executivo regulamentará o disposto nesta Lei. Art. 9º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 31 de julho de 2003 LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA Humberto Sérgio Costa Lima Ricardo José Ribeiro Berzoini Referências Os títulos abaixo podem ser obtidos nos arquivos disponíveis para serem baixados no sítio http://pvc.datasus.gov.br : BRASIL. SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. Comissão Organizadora da III CNSM. Relatório Final da III Conferência Nacional de Saúde Mental. Brasília, 11 a 15 de dezembro de 2001. Brasília: Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, 2202, 213 p. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE DEPARTAMENTO DE AÇÕES PROGRAMÁTICAS ESTRATÉGICAS. Saúde Mental no SUS: Os Centros de Atenção Psicossocial. Brasília : Ministério da Saúde, 2004. ______________ Saúde Mental e Economia Solidária: Inclusão Social pelo Trabalho. Brasília, Ministério da Saúde, 2005. ______________ Manual do Programa De Volta para Casa. Brasília, Ministério da Saúde, 2003. _____________ A política do Ministério da Saúde para a Atenção Integral aos Usuários de Álcoole outras Drogas. Brasília, Ministério da Saúde, 2004. _____________ Residências Terapêuticas: o que são e para que servem. Brasília, Ministério da Saúde, 2004. _____________ Caminhos para uma Política de Saúde Mental Infanto-Juvenil. Brasília, Ministério da Saúde, 2005. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. SECRETARIA EXECUTIVA. SECRETARIA DE ATENÇÃO À SAÚDE. Legislação em Saúde Mental: 1990-2004. Brasília, Ministério da Saúde, 2004. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Reforma Psiquiátrica e Manicômios Judiciários: Relatório Final do Seminário Nacional para a Reorientação dos Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico. Brasília, Ministério da Saúde, 2002. Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Ações Programáticas Estratégicas Coordenação de Saúde Mental Esplanada dos Ministérios CEP.: 70058900, Brasília – DF Tels.: (61) 33152313 / 33152684 / 33152655 FAX: (61) 33152313 Endereço eletrônico : saudemental@saude.gov.br Portal: www.saude.gov.br http://pvc.datasus.gov.br Texto final elaborado pela equipe da Coordenação de Saúde Mental, com a colaboração de Renata Weber. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 39 ciente e seu sofrimento, nem escolher o tipo de estratégia terapêutica mais apropriado. A favor dessa visão pró-diagnóstico, está a afirmação de Aristóteles (1973), logo nas primeiras páginas do livro alpha de sua Metafísica: A arte aparece quando, de um complexo de noções experimentadas, se exprime um único juízo universal dos casos se- melhantes. Com efeito, ter a noção de que a Cálias, atingido de tal doença, tal remédio deu alívio, e a Sócrates também, e, da mesma maneira, a outros tomados singularmente, é da experiência; mas julgar que tenha aliviado a todos os se- melhantes, determinados segundo uma única espécie, atingidos de tal doença, como os fleumáticos, os biliosos ou os incomodados por febre ardente, isso é da arte. [...] E isso porque a experiência é conhecimento dos singulares, e a arte, dos universais. Entretanto, é bom lembrar que o pró- prio Aristóteles defende que somente o in- dividual é real; o que se tem é acesso dire- to apenas aos objetos concretos e particu- lares. O universal, afirmava o filósofo, não existe na natureza, apenas no espírito hu- mano, que capta e constitui as “idéias” a Discute-se muito sobre o valor e os limites do diagnóstico psiquiátrico. Pode-se iden- tificar, inclusive, duas posições extremas. A primeira afirma que o diagnóstico em psi- quiatria não tem valor algum, pois cada pessoa é uma realidade única e inclassi- ficável. O diagnóstico psiquiátrico apenas serviria para rotular as pessoas diferentes, excêntricas, permitindo e legitimando o poder médico, o controle social sobre o in- divíduo desadaptado ou questionador. Essa crítica é particularmente válida nos regi- mes políticos totalitários, quando se utili- zou o diagnóstico psiquiátrico para punir e excluir pessoas dissidentes ou opositoras ao regime. A segunda, em defesa do diag- nóstico psiquiátrico, sustenta que o valor e o lugar do diagnóstico em psiquiatria são absolutamente semelhantes ao valor e ao lugar do diagnóstico nas outras especiali- dades médicas. O diagnóstico, nessa visão, é o elemento principal e mais importante da prática psiquiátrica. A posição deste autor é a de que, ape- sar de ser absolutamente imprescindível considerar os aspectos pessoais, singulares de cada indivíduo, sem um diagnóstico psicopatológico aprofundado não se pode nem compreender adequadamente o pa- 5 Princípios gerais do diagnóstico psicopatológico Paulo Dalgalarrondo40 partir do processo de abstração e generali- zação. Assim Aristóteles prossegue: Portanto, quem possua a noção sem a experiência, e conheça o universal igno- rando o particular nele contido, enganar- se-á muitas vezes no tratamento, porque o objeto da cura é, de preferência, o sin- gular. No entanto, nós julgamos que há mais saber e conhecimento na arte do que na experiência, e consideramos os homens de arte mais sábios que os empíricos, visto a sabedoria acompanhar em todos, de preferência, o saber. Isso porque uns conhecem a causa, e os ou- tros não. Assim, há, no processo diagnósti- co, uma relação dia- lética permanente entre o particular, individual (aquele paciente específico, aquela pessoa em especial), e o geral, universal (categoria diagnóstica à qual essa pessoa pertence). Portanto, não se deve esquecer: os diag- nósticos são idéias (constructos), funda- mentais para o trabalho científico, para o conhecimento do mundo, mas não objetos reais e concretos. Tanto na natureza como na esfera humana, podem-se distinguir três grupos de fenômenos em relação à possibilidade de classificação: 1. Aspectos e fenômenos encontra- dos em todos os seres humanos. Tais fenômenos fazem parte de uma categoria ampla demais para a classificação, sendo pouco útil o seu estudo taxonômico. De modo geral, em todos os indivíduos a pri- vação das horas de sono causa so- nolência, e a restrição alimentar, fome; ou seja, são fenômenos tri- viais que não despertam grande interesse à psicopatologia. 2. Aspectos e fenômenos encontra- dos em algumas pessoas, mas não em todas. Estes são os fenômenos de maior interesse para a classificação diag- nóstica em psicopatologia. Aqui, situam-se a maioria dos sinais, sin- tomas e transtornos mentais. 3. Aspectos e fenômenos encontra- dos em apenas um ser humano em particular. Tais fenômenos, embora de inte- resse para a compreensão do ser humano, são restritos demais, e de difícil classificação e agrupamen- to, tendo maior interesse os seus aspectos antropológicos, existen- ciais e estéticos que propriamente taxonômicos. De modo geral, pode-se afirmar que o diagnóstico só é útil e váli- do se for visto como algo mais que simplesmente rotular o paciente. Esse tipo de utilização do diagnós- tico psiquiátrico seria uma forma precária, questionável e não pro- priamente científica. Funcionaria apenas como estímulo a precon- ceitos que devem ser combatidos. A legitimidade do diagnóstico psi- quiátrico sustenta-se na perspecti- va de aprofundar o conhecimento, tanto do indivíduo em particular como das entidades nosológicas utilizadas. Isso permite o avanço da ciência, a antevisão de um prognóstico e o estabelecimento de ações terapêuticas e preventi- vas mais eficazes. Além disso, o diagnóstico possibilita a comuni- cação mais precisa entre profissio- nais e pesquisadores. Sem o diag- nóstico, haveria apenas a descri- ção de aspectos unicamente indi- viduais, que, embora de interesse humano, são ainda insuficientes para o desenvolvimento científico Há, no processo diag- nóstico, uma relação dialética permanente entre o particular, in- dividual, e o geral, universal. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 41 da psicopatologia (revisões sobre a questão do diagnóstico em psico- patologia em Leme Lopes, 1980; Pichot, 1994; Abdo, 1996). Do ponto de vista clínico e específico da psicopatologia, embora o processo diag- nóstico em psiquiatria siga os princípios gerais das ciências médicas, há certamen- te alguns aspectos particulares que devem ser aqui apresentados: 1. O diagnóstico de um transtorno psiquiátrico é quase sempre ba- seado preponderantemente nos dados clínicos. Dosagens labo- ratoriais, exames de neuroimagem estrutural (tomografia, ressonân- cia magnética, etc.) e funcional (SPECT, PET, mapeamento por EEG, etc.), testes psicológicos ou neuropsicológicos auxiliam de for- ma muito importante, principal- mente para o diagnóstico diferen- cial entre um transtorno psiquiá- trico primário (esquizofrenia, depressão primária, etc.) e uma doença neurológica (encefalites, tumores, doenças vasculares, etc.) ou sistêmica. É importante ressal- tar, entretanto, que os exames complementares (semiotécnica ar- mada) não substituem o essencial do diagnóstico psicopatológico: uma história bem-colhida e um exame psíquicominucioso, ambos interpretados com habilidade. 2. O diagnóstico psicopatológico, com exceção dos quadros psico- orgânicos (delirium, demências, síndromes focais, etc.), não é, de modo geral, baseado em possí- veis mecanismos etiológicos su- postos pelo entrevistador. Baseia- se principalmente no perfil de si- nais e sintomas apresentados pelo paciente na história da doença e no momento da entrevista. Por exem- plo, ao ouvir do paciente ou fami- liar uma história de vida repleta de sofrimentos, fatos emocionalmente dolorosos ocorridos pouco antes do eclodir dos sintomas, a tendência natural é estabelecer o diagnósti- co de um transtorno psicogênico, como “psicose psicogênica”, “his- teria”, “depressão reativa”, etc. Mas isso pode ser um equívoco. A maio- ria dos quadros psiquiátricos, sejam eles de etiologia “psicogênica”, “endogenética” ou mesmo “orgâ- nica”, surge após eventos estres- santes da vida. Além disso, é fre- qüente que o próprio eclodir dos sintomas psicopatológicos contri- bua para o desencadeamento de eventos da vida (como perda do cônjuge, separações, perda de em- prego, brigas familiares, etc.). Mui- tas vezes o raciocínio diagnóstico baseado em pressupostos etiológi- cos mais confunde que esclarece. Deve-se, portanto, manter duas li- nhas paralelas de raciocínio clí- nico; uma linha diagnóstica, ba- seada fundamentalmente na cuida- dosa descrição evolutiva e atual dos sintomas que de fato o pacien- te apresenta, e uma linha etioló- gica, que busca, na totalidade de dados biológicos, psicológicos e so- ciais, uma formulação hipotética plausível sobre os possíveis fatores etiológicos envolvidos no caso. 3. De modo geral, não existem sinais ou sintomas psicopatológicos to- talmente específicos de determi- nado transtorno mental. Além dis- so, não há sintomas patognomô- nicos em psiquiatria, como afirma Emil Kraepelin [1913] (1996): Infelizmente não existe, no domínio dos distúrbios psíquicos, um único Paulo Dalgalarrondo42 sintoma mórbido que seja total- mente característico de uma enfer- midade [...] devemos evitar atribuir importância característica a um úni- co fenômeno mórbido. [...] O que quase nunca é produzido totalmente de forma idêntica pelos diferentes transtornos mentais é o quadro to- tal, incluindo o desenvolvimento dos sintomas, o curso e o desenlace final da doença. Portanto, o diagnóstico psicopato- lógico repousa sobre a totalidade dos dados clínicos, momentâneos (exame psíquico) e evolutivos (anamnese, história dos sintomas e evolução do transtorno). É essa totalidade clínica que, detectada, avaliada e interpretada com conhe- cimento (teórico e científico) e ha- bilidade (clínica e intuitiva), con- duz ao diagnóstico psicopatológico. 4. O diagnóstico psicopatológico é, em inúmeros casos, apenas possí- vel com a observação do curso da doença. Dessa forma, o padrão evolutivo de determinado quadro clínico obriga o psicopatólogo a repensar e refazer continuamente o seu diagnóstico. Uma das funções do diagnóstico em medicina é pre- ver e prognosticar a evolução e o desfecho da doença (o diagnóstico deve indicar o prognóstico). Porém, às vezes, isso se inverte no contex- to da psiquiatria. Não é incomum que o prognóstico, a evolução do caso, obrigue o clínico a reformular o seu diagnóstico inicial. 5. Como salientou o psiquiatra bra- sileiro José Leme Lopes, em 1954, o diagnóstico psiquiátrico deve ser sempre pluridimensional. Várias dimensões clínicas e psicos- sociais devem ser incluídas para uma formulação diagnóstica com- pleta: identifica-se um transtorno psiquiátrico como a esquizofrenia, a depressão, a histeria, a depen- dência ao álcool, etc., diagnosti- cam-se condições ou doenças físi- cas associadas (hipertensão, cirro- se hepática, cardiopatias, etc.) e avaliam-se a personalidade e o ní- vel intelectual desse doente, a sua rede de apoio social, além de fa- tores ambientais protetores ou desencadeantes. O sistema norte- americano DSM, desde o início dos anos 1980, tem enfatizado a importância da formulação diag- nóstica em vários eixos. Também é sumamente importante o esfor- ço para a formulação dinâmica do caso (conflitos conscientes e inconscientes implicados no caso específico, mecanismos de defe- sa, ganho secundário, aspectos transferenciais, etc.) e a formu- lação diagnóstica cultural (sím- bolos e linguagem cultural espe- cífica para aquele paciente, repre- sentações sociais, valores, rituais, religiosidade, etc.). 6. Confiabilidade e validade do diagnóstico em psiquiatria. A confiabilidade (reliability) de um procedimento diagnóstico (técnica de entrevista padronizada, escala, teste, diferentes entrevistadores, etc.) diz respeito à capacidade des- se procedimento produzir, em re- lação a um mesmo indivíduo ou para pacientes de um mesmo gru- po diagnóstico, em circunstâncias diversas, o mesmo diagnóstico. Ao mudar diferentes aspectos do pro- cesso de avaliação (avaliador ou momento de avaliação), o resulta- do final permanece o mesmo. As- sim, quando a avaliação é feita por examinadores distintos (interrater reliability) ou em diferentes mo- mentos (test-retest reliability), ob- Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 43 tém-se o mesmo diagnóstico. Tem- se um indicador de reprodutibi- lidade do diagnóstico. A validade (validity) diz respeito à capacida- de de um procedimento diagnósti- co conseguir captar, identificar ou medir aquilo que realmente se pro- põe a reconhecer. Para saber se um novo procedimento diagnóstico é válido, é preciso compará-lo com outro procedimento diagnóstico prévio (“padrão ouro”), que seja bem-aceito e reconhecido como mais acurado, capaz de identificar Quadro 5.1 O diagnóstico pluridimensional em saúde mental (com base no sistema multiaxial do DSM-IV, acrescentando-se a dimensão psicodinâmica e cultural) Exemplos de formulação diagnóstica Eixo 1. Diagnóstico do Transtorno Mental Esquizofrenia paranóide, episódio depressivo grave, dependência ao álcool, anorexia nervosa, etc. Eixo 2. Diagnóstico de Personalidade e do Nível Intelectual Personalidade histriônica, personalidade borderline, etc., retardo mental leve, retardo mental grave, etc. Eixo 3. Diagnóstico de Distúrbios Somáticos Associados Diabete, hipertensão arterial, cirrose hepática, infecção urinária, etc. Eixo 4. Problemas Psicossociais e Eventos da Vida Desencadeantes ou Associados Morte de uma pessoa próxima, separação, falta de apoio social, viver sozinho, desemprego, pobreza extrema, detenção, exposição a desastres, etc. Eixo 5. Avaliação Global do Nível de Funcionamento Psicossocial Bom funcionamento familiar e ocupacional, incapacidade de realizar a própria higiene, não sabe lidar com dinheiro, dependência de familiares ou serviços sociais nas atividades sociais ou na vida diária, etc. Formulação Psicodinâmica do Caso Que conflitos afetivos são mais importantes neste paciente? Conflitos relativos à sexualidade? Dinâmica afetiva da família? Conflitos relativos à identidade psicossocial? Que tipo de transferência o paciente estabelece com os profissionais de saúde? Que sentimentos contratransferenciais desperta nos profissionais que o tratam? Que mecanismos de defesa utiliza preponderantemente? Qual o padrão relacional do paciente? Qual a estrutura psicopatológica, do ponto de vista psicanalítico (estrutura neurótica, obsessiva, histérica, fóbica, etc.; estrutura psicótica; estrutura “perversa”, “autista”, etc.)? Formulação Cultural do Caso Como é o meio sociocultural atual do paciente (bairro de periferia, favela, morador de rua, de uma instituição, etc.)? Como o paciente e seu meio cultural concebem e representam o problema? Quais as suas teorias etiológicas e de cura? Como é a identidade étnica e cultural do paciente? Qual e como é sua religiosidade? Como o paciente e seu meio cultural encaram o diagnóstico e o tratamento psiquiátrico “oficial”? O paciente é migrante de área rural? Como isso interfere no diagnóstico e na terapêutica?Qual a “linguagem das emoções” que utiliza? Qual o impacto das mudanças socioculturais pelas quais o paciente passou em seu transtorno mental? Paulo Dalgalarrondo44 O ideal de um proce- dimento diagnóstico é que ele seja con- fiável, válido, com alta sensibilidade e especificidade. Questões de revisão • Discuta o valor, os limites e as críticas em relação ao diagnóstico em psicopatologia. • Esclareça por que o diagnóstico em psicopatologia é baseado preponderantemente nos dados clínicos e não em possíveis mecanismos causais supostos pelo entrevistador. • Por que o diagnóstico psicopatológico é, em muitos casos, apenas possível com a observação do curso da doença? satisfatoriamente o objeto pesqui- sado (de certo modo, mais próxi- mo da “verdade”). A sensibilidade de um novo pro- cedimento diagnóstico está rela- cionada à capacidade desse pro- cedimento de detectar casos ver- dadeiros incluídos na categoria diagnóstica. Já a especificidade do procedimento refere-se à capa- cidade de identificar verdadeiros “não-casos” em relação à catego- ria diagnóstica que se pesquisa. Um procedimento com alta sensi- bilidade identifica quase todos os casos, mas pode falhar reconhe- cendo erroneamente um não-caso (falso-positivo) como caso. Outro procedimento com alta especi- ficidade pode ter a qualidade de apenas reconhecer casos verdadei- ros, mas pode falhar, deixando de reconhecê-los, considerando-os como não-casos. Obviamente, o ideal de um procedi- mento diagnóstico é que ele seja confiá- vel (reprodutível), válido (o mais pró- ximo possível da “verdade” diagnóstica), com alta sensibili- dade e especificidade. Paulo Dalgalarrondo66 A habilidade do entre- vistador se revela pe- las perguntas que for- mula, por aquelas que evita formular e pela decisão de quando e como falar ou apenas calar. senvolvidos, aprendidos, corrigidos e aprofundados que trata este capítulo. Cabe lembrar que há livros muito bons e específicos sobre a entrevista em saúde mental, como as obras detalhadas de Mackinnon e Michels (2008), de Othmer e Othmer (1994) e de Shea (1998), que descrevem a dinâmica da entrevista de for- ma direcionada para vários tipos de pa- cientes. O pequeno livro de Carlat (2007) é um texto, embora enxuto, bastante didá- tico e prático. De início, po- de-se afirmar que a habilidade do entre- vistador se revela pelas perguntas que formula, por aque- las que evita formu- lar e pela decisão de quando e como fa- Harry Stack Sullivan (1983) afirmava que o domínio da técnica de realizar entrevis- tas é o que qualifica especificamente o pro- fissional habilidoso. Nesse sentido, por exemplo, ele define o psiquiatra (poderia ser um psicólogo clínico ou enfermeiro em saúde mental) como “um perito do campo das relações interpessoais”, ou seja, um expert em realizar entrevistas que sejam realmente úteis, pelas informações que for- necem e pelos efeitos terapêuticos que exercem sobre os pacientes. Assim, a técnica e a habilidade em realizar entrevistas são atributos funda- mentais e insubstituíveis do profissional de saúde em geral e de saúde mental em par- ticular. Tal habilidade é, em parte, apren- dida e, em outra, intuitiva, patrimônio da personalidade do profissional, de sua sen- sibilidade nas relações pessoais. É a res- peito dos aspectos passíveis de serem de- 8 A entrevista com o paciente Não sei, não sei. Não devia de estar relembrando isto, contando assim o sombrio das coisas. Lenga-lenga! Não devia de. O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. João Guimarães Rosa (Grande sertão: veredas, 1956) Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 67 lar ou apenas calar. Também é atributo es- sencial do entrevistador a capacidade de estabelecer uma relação ao mesmo tempo empática e tecnicamente útil do ponto de vista humano. É fundamental que o profissional possa estar em condições de acolher o pa- ciente em seu sofrimento, de ouvi-lo real- mente, escutando-o em suas dificuldades e idiossincrasias. Além de paciência e res- peito, o profissional necessita de certa têmpera e habilidade para estabelecer li- mites aos pacientes invasivos ou agressi- vos, e, assim, proteger-se e assegurar o contexto da entrevista. Às vezes, uma en- trevista bem-conduzida é aquela na qual o profissional fala muito pouco e ouve pa- cientemente o enfermo. Outras vezes, o paciente e a situação “exigem” que o entre- vistador seja mais ativo, mais participan- te, falando mais, fazendo muitas pergun- tas, intervindo mais freqüentemente. Isso varia muito em função: 1. Do paciente, da sua personalida- de, do seu estado mental e emo- cional no momento, das suas capa- cidades cognitivas, etc. Às vezes, o entrevistador precisa ouvir mui- to, pois o paciente “precisa muito falar, precisa desabafar”; outras vezes, o entrevistador deve falar mais para que o paciente não se sinta muito tenso ou retraído. 2. Do contexto institucional da en- trevista (caso a entrevista se rea- lize em pronto-socorro, enferma- ria, ambulatório, centro de saúde, CAPS, consultório, etc.). 3. Dos objetivos da entrevista (diag- nóstico clínico; estabelecimento de vínculo terapêutico inicial; entre- vista para psicoterapia, tratamento farmacológico, orientação famili- ar, conjugal, pesquisa, finalidades forenses, trabalhistas, etc.). 4. E, finalmente, mas não menos importante, da personalidade do entrevistador. Alguns profissio- nais são ótimos entrevistadores, falam muito pouco durante a en- trevista, sendo discretos e intro- vertidos; outros só conseguem tra- balhar bem e realizar boas entre- vistas sendo espontaneamente fa- lantes e extrovertidos. Deve-se ressaltar que, de modo ge- ral, algumas atitudes são, na maior parte das vezes, inadequadas e improdutivas, de- vendo o profissional, sempre que possível, evitar: 1. Posturas rígidas, estereotipadas, fórmulas que o profissional acha que funcionaram bem com alguns pacientes e, portanto, devem fun- cionar com todos. Assim, ele deve buscar uma atitude flexível, que seja adequada à personalidade do doente, aos sintomas que apresen- ta no momento, à sua bagagem cultural, aos seus valores e à sua linguagem. 2. Atitude excessivamente neutra ou fria, que, muito freqüente- mente em nossa cultura, transmi- te ao paciente sensação de distân- cia e desprezo. 3. Reações exageradamente emo- tivas ou artificialmente caloro- sas, que produzem, na maioria das vezes, uma falsa intimidade. Uma atitude receptiva e calorosa, mas discreta, de respeito e con- sideração pelo paciente, é o ideal para a primeira entrevista. Criar um clima de confiança para que a história do doente surja em sua plenitude tem grande utilidade tanto diagnóstica como terapêu- tica. Paulo Dalgalarrondo68 4. Comentários valorativos ou emi- tir julgamentos sobre o que o pa- ciente relata ou apresenta. 5. Reações emocionais intensas de pena ou compaixão. O paciente desesperadamente transtornado, aos prantos, em uma situação existencial dramática, beneficia- se mais de um profissional que acolhe tal sofrimento de forma empática, mas discreta, que de um profissional que se desespera jun- to com ele. 6. Responder com hostilidade ou agressão às investidas hostis ou agressivas de alguns pacientes. O profissional deve se esforçar por demonstrar serenidade e firmeza diante de um doente agressivo ou muito hostil. Também deve ficar claro que, na entrevista, há limites. O profissional procura responder, ao paciente que eleva a voz e se exalta, sempre em voz mais baixa que ele. Em algumas situações, apesar de não revidar às agressões, o profissional deve mostrar ao paciente que ele está sendo ina- dequadamente hostil e que não aceita agressão física ou verbal exagerada. Querelas e discussões acirradas costumam ser inúteis no contato com os pacientes. 7. Entrevistas excessivamente pro- lixas, nas quais o paciente fala,fala, fala, mas, no fundo, não diz nada de substancial sobre seu so- frimento. Fala, às vezes, para se esconder, para dissuadir a si mes- mo e ao entrevistador. Nesse sen- tido, o profissional deve ter a ha- bilidade de conduzir a entrevista para termos e pontos mais signifi- cativos, interrompendo a fala do paciente quando julgar necessário. 8. Fazer muitas anotações duran- te a entrevista, pois, em alguns casos, isso pode transmitir ao pa- ciente que as anotações são mais importantes que a própria entre- vista (o profissional precisa obser- var se o paciente se sente incomo- dado enquanto anota). Uma dificuldade comum nas entrevis- tas realizadas em serviços públicos é a fal- ta de tempo dos profissionais, excesso de trabalho, estresse e condições físicas (ar- quitetônicas) de atendimento precárias. As- sim, muitas vezes o profissional de saúde está impaciente para ouvir pessoas com queixas pouco precisas (os “poliqueixo- sos”), rejeita aqueles doentes que informam de forma vaga ou que estão muito desor- ganizados psiquicamente. Entretanto, no atendimento em saúde, a paciência do entrevistador é fundamental. Às vezes, o profissional dispõe de não mais que 5 ou 10 minutos (p. ex., no pronto-socorro ou em um ambulatório repleto de pacientes à espera), mas, se nesse pouco tempo, pu- der ouvir e examinar o doente com pa- ciência e respeito, criando uma atmosfera de confiança e empatia, mesmo com as res- trições de tempo, isso poderá propiciar o iní- cio de um trabalho de boa qualidade. Mui- tas vezes, não é a quantidade de tem- po com o paciente que mais conta, mas a qualidade da aten- ção que o profissio- nal consegue lhe oferecer. Assim, o pro- fissional, ao entrar em contato com ca- da novo paciente, deve preparar seu espírito para enca- O profissional, ao entrar em contato com cada novo pa- ciente, deve prepa- rar seu espírito para encarar o desafio de conhecer essa pes- soa, formular um diag- nóstico, entender, quando possível, al- go do que realmente se passa em seu in- terior. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 69 rar o desafio de conhecer essa pessoa, for- mular um diagnóstico, entender, quando possível, algo do que realmente se passa em seu interior. Aqui, a paciência é um dos elementos mais fundamentais. Não é pos- sível saber quantas entrevistas e quanto tempo serão necessários para conhecer adequadamente o paciente. A experiência e a atitude do profissional, curiosa, atenta e receptiva, determinam o quão profundo e abrangente será o conhecimento extraí- do das entrevistas. A(S) PRIMEIRA(S) ENTREVISTA(S) A entrevista inicial é considerada um mo- mento crucial no diagnóstico e no tra- tamento em saúde mental. Esse primei- ro contato, sendo bem-conduzido, deve produzir no pacien- te uma sensação de confiança e de espe- rança em relação ao alívio do sofrimento. Entrevistas iniciais desencontradas, desas- trosas, nas quais o profissional é, involun- tariamente ou não, negligente ou hostil com o paciente, em geral são seguidas de abandono do tratamento. Logo no início, o olhar e, com ele, toda a comunicação não-verbal, já tem sua importância: é o centro da comunicação, que inclui toda a carga emocional do ver e ser visto, do gesto, da postura, das ves- timentas, do modo de sorrir ou expressar sofrimento. Mayer-Gross, Slater e Roth (1976) assinalam, nesse sentido, que: “A primeira impressão tem o seu valor pró- prio e dificilmente poderá ser recapturada em ocasiões posteriores...”. E prosseguem: ...com maior freqüência, essa impressão é correta, mesmo que desapareça aos pou- cos ou passe a ser considerada como en- ganosa, quando a atenção estiver voltada para os detalhes, as idéias e as informa- ções fornecidas pelo paciente. Em um trabalho clássico sobre o diag- nóstico em psiquiatria, Sandifer, Hordern e Grenn (1970) observaram por meio de pesquisas empíricas que, em profissionais Quadro 8.1 As três regras “de ouro” da entrevista em saúde mental 1. Pacientes organizados (mentalmente), com inteligência normal, com escolaridade boa ou razoável, fora de um “estado psicótico”, devem ser entrevistados de forma mais aberta, permitindo que falem e se expressem de maneira mais fluente e espontânea. O entrevistador fala pouco, fazendo algumas pontua- ções para que o paciente “conte a sua história”. 2. Pacientes desorganizados, com nível intelectual baixo, em estado psicótico ou paranóide, “travados” por alto nível de ansiedade, devem ser entrevistados de forma mais estruturada. Nesse caso, o en- trevistador fala mais, faz perguntas mais simples e dirigidas (perguntas fáceis de serem compreendidas e respondidas). 3. Nos primeiros contatos com pacientes muito tímidos, ansiosos ou paranóides, deve-se fazer primeiro perguntas neutras (nome, onde mora, profissão, estado civil, nome de familiares, etc.), para apenas, gradativamente, começar a formular perguntas “mais quentes” (às vezes, constrangedoras para o paciente), como: “Qual o seu problema?”, “Por que foi trazido ao hospital?”, “O que aconteceu para que você agredisse seus familiares?”, etc. Vale a sabedoria popular que diz: “O mingau quente se come pela beirada”. A entrevista inicial é considerada um momento crucial no diagnóstico e no tra- tamento em saúde mental. Paulo Dalgalarrondo70 com alguma experiência clínica, a entre- vista em psiquiatria não funciona como uma “máquina de somar simples”, na qual o passar do tempo vai acrescentando in- formações, em progressão linear. De fato, esses pesquisadores verificaram que os pri- meiros três minu- tos da entrevista são extremamente significativos, sendo muitas vezes úteis tanto para a identi- ficação do perfil do- minante de sintomas do paciente como para a formulação da hipótese diagnós- tica final. A primeira impressão que o paciente produz no entrevistador é, na verdade, o produto de uma mescla de muitos fatores, como a experiência clínica do profissional, a transferência que o paciente estabelece com ele, aspectos contratransferenciais do entrevistador e valores pessoais e precon- ceitos inevitáveis que o profissional, que- rendo ou não, carrega consigo. Além disso, há grande dose de intuição que, lapidada pelo estudo e amadurecida pela prática clí- nica, pode se tornar instrumento valioso de conhecimento e ação. ASPECTO GLOBAL DO PACIENTE Um fator importante nas fases iniciais da avaliação do paciente é notar e descre- ver o aspecto global do paciente, expresso pelo corpo e pela postura corporal, pela indumentária (roupas, sapatos, etc.), pe- los acessórios (colares, brincos, piercing, etc.), por detalhes como maquiagem, per- fumes, odores, marcas corporais (tatua- gens, queimaduras, etc.), porte e atitudes psicológicas específicas e globais do pacien- te. A aparência do paciente, suas vestes, seu olhar, sua postura, revela muito de seu estado mental interior e é recurso funda- mental para o diagnóstico. Nesse sentido, o Quadro 8.2, organizado a partir dos tra- balhos de Betta (1972) e de Cheniaux (2005), visa resumir os principais padrões observados no consultório. Além disso, para descrever a aparên- cia do paciente, convém relatar o que se observou de forma detalhada, objetiva e precisa, mas sem precipitações ou inferên- cias indevidas. O Quadro 8.3 apresenta os termos descritivos relativos à aparência fí- sica do paciente (Carlat, 2007). Apresentação Logo no início da entrevista, é convenien- te que o profissional se apresente, dizendo seu nome, se necessário, sua profissão e especialidade e, se for o caso, a razão da entrevista. A confidencialidade, a privaci- dade e o sigilo poderão ser explicitamente garantidos caso se note o paciente tímido ou desconfiado ou se o contexto da entre- vista assim o exigir. Para isso, em alguns casos, é importante que o profissional ga- ranta explicitamente o que segue: 1. A entrevista e o tratamento ocor- rerão com sigilo e discrição. O profissional esclarece ao pacien- te (e aos familiares, quando ne- cessário) queaquilo que for rela- tado durante as entrevistas não será revelado a ninguém. Caso isso se faça necessário por exigên- cia do próprio tratamento (enca- minhamento a um outro profis- sional, carta à alguma instituição, informação à família para prote- ger o paciente, etc.), só será feito após consulta e anuência do en- trevistado. O sigilo poderá ser rompido no caso de idéias, pla- nos ou atos seriamente auto ou heterodestrutivos. Os primeiros três mi- nutos da entrevista são extremamente significativos, sendo muitas vezes úteis tanto para a identifi- cação do perfil domi- nante de sintomas do paciente como para a formulação da hipó- tese diagnóstica final. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 71 Indiferente: não parece estar na entrevista, não se sente incomodado por estar na entrevista. Inibida ou contida: não encara o examinador, demonstra estar pouco à vontade, se segura para não falar. Irônica: faz comentários críticos a toda hora, mas não revela superioridade como o arrogante. Lamuriosa ou queixosa: queixa-se o tempo todo de seus problemas, demonstra autopiedade. Manipuladora: tenta obrigar o entrevistador a fazer o que ele quer, com chantagens, indiretas, ameaças. Não-cooperante: não colabora com solicitações básicas na entrevista. Oposicionista ou negativista: recusa-se a participar da entrevista, se opõe a tudo que solicitam. Perplexa: assustado, parece não entender nada do que está acontecendo na entrevista. Quadro 8.2 Aspectos físicos e psíquicos dos pacientes verificados por meio da aparência e da atitude global (modificado e expandido a partir de Betta, 1972; e, sobretudo, de Cheniaux, 2005) Postura geral Ativa: verificada por meio da postura, da iniciativa, da fala. Paciente com energia, toma iniciativa, sugere o que fazer. Postura excessivamente ativa: pacientes histriônicos, maníacos, alguns delirantes, etc. Passiva: paciente apático, “largado”, indiferente ao que acontece na entrevista. Quadros demenciais, depressões, personalidades passivas, esquizofrenia crônica, etc. Roupas e acessórios segundo os quadros clínicos Anorexia nervosa: roupas largas e escuras. Demência: pode apresentar higiene e roupas descuidadas, dentes sujos, ausência de senso crítico em relação à aparência. Depressão: às vezes, roupas desalinhadas ou sujas, cabelos despenteados, higiene descuidada, sem maquiagem, preferência por roupas escuras. Esquizofrenia: nos pacientes mais crônicos, pode-se notar higiene e roupas descuidadas e sujas, indiferença pela vestimenta; pode apresentar roupas e acessórios bizarros que expressam delírios (medalhas, colares e tiaras que podem ter significado no delírio) ou desorganização comportamental. Atitudes globais Afetada: modo de falar, gesticular e andar muito teatral e artificial. Arrogante: coloca-se como superior, acima do entrevistador, ironiza e critica constantemente. Amaneirada: comportamento caricatural, curva-se diante do entrevistador, diz “vossa excelência”. Confusa: parece não entender nada, não estar na situação de entrevista. Deprimida: paciente triste e desanimado de modo geral. Desconfiada ou suspicaz: pelo olhar, postura, pelo modo de ouvir e responder, revela desconfiança, medo. Desinibida: contato extremamente fácil, próximo fisicamente, trata como se conhecesse o entrevistador há anos, fala e pergunta sobre intimidades, sem inibição. Histeria: algo semelhante à mania; roupas chamativas, muita maquiagem, roupas muito curtas e decotadas. Mania: roupas coloridas, chamativas, muita maquiagem, perfume em excesso, roupas muito curtas e decotadas. Personalidade borderline: roupas extravagantes, muitos piercings, marcas no corpo, tatuagens, cabelos coloridos. Transtorno obsessivo-compulsivo e personalidade obsessiva: às vezes, roupas e acessórios muito “certinhos” (roupas passadas de forma impecável, cabelos penteados de modo ultracuidadoso, etc.). (Continua) Paulo Dalgalarrondo72 Dissimuladora: tenta ocultar sintomas ou fatos de sua vida com algum intuito. Dramática ou teatral: hiperemocional, quer chamar a atenção, dá grande expressão a coisas corriquei- ras. Evasiva: evita responder a perguntas, dá respostas muito gerais e inespecíficas. Esquiva: não deseja o contato social e foge dele. Excitada: fala e gesticula muito e de forma acelerada. Expansiva: fala alto, é o “dono do pedaço”, comporta-se como se fosse muito importante. Gliscróide ou “grudenta”: difícil de encerrar a conversa, quer atenção na sua prolixidade. Hostil ou beligerante: provoca, irrita, parece querer confronto. Querelante: discute ou briga com o entrevistador por se sentir ofendido ou prejudicado. Reivindicativa: exige, de forma insistente, aquilo que julga ser seu direito, mesmo se inadequado. Sedutora: elogia e tenta agradar o examinador, às vezes sexualmente. Simuladora: tenta parecer que tem um sintoma ou problema que realmente não tem. Submissa: atende passiva e imediatamente, sem questionar, a todas as solicitações do entrevistador. Quadro 8.2 Aspectos físicos e psíquicos dos pacientes verificados por meio da aparência e da atitude global (modificado e expandido a partir de Betta, 1972; e, sobretudo, de Cheniaux, 2005) (continuação) Atitudes globais 2. Em qualquer caso, é preciso res- saltar a necessidade de colabora- ção mútua entre o profissional e o paciente. Ambos devem trabalhar ativamente para que o processo terapêutico tenha bons resultados. Na primeira entrevista, o profissional deve inicialmente colher os dados sociode- mográficos básicos, como nome, idade, data de nascimento, naturalidade e proce- dência, estado civil, com quem reside, pro- fissão, atividade profissional, religião, etc. Após colher tais informações, que de fato situam quem é o paciente que chega ao ser- viço de saúde, deve-se solicitar que o paciente relate a queixa básica, o sofrimen- to, a dificuldade ou o conflito que o traz à consulta. Esse primeiro relato deve ocor- rer de forma predominantemente livre, para que o paciente expresse de forma es- pontânea seus sintomas e sinais. O profis- sional ouve o relato e observa, além do conteúdo daquilo que o paciente conta, como esse relato é feito, o “estilo” do pa- ciente, sua aparência e suas atitudes bási- cas. O profissional deve, nesse momento, muito mais ouvir que falar. Suas interven- ções objetivam facilitar o prosseguimento da fala do paciente. O psiquiatra espanhol Vallejo Nágera (1944) aconselhava ao jo- vem profissional: El explorador hablará poco y dejará que hable mucho el enfermo; la regla más importante del interrogatorio es que el alienista hable muy poco, para que sea locuaz el alienado. Cabe lembrar, entretanto, que, embo- ra a atitude básica do entrevistador na fase inicial da avaliação seja de escuta, isso não significa colo- car-se em posição totalmente passiva. Bem ao contrário, pois, como enfati- zado por Sullivan (1983), os dados es- Embora a atitude bá- sica do entrevistador na fase inicial da ava- liação seja de escu- ta, isso não significa colocar-se em posi- ção totalmente pas- siva. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 73 Quadro 8.3 Termos descritivos relativos à aparência física do paciente (modificado e expandido de Carlat, 2007)* Aspecto corporal Termos e possibilidades Rosto Agradável, atraente, bonito, feio, disforme, repugnante, neutro, pálido, cansado, doloroso, bronzeado, corado, rosado, magro, gordo, ossudo, redondo, quadrado, sem maquiagem, maquiagem adequada, maquiagem excessiva ou bizarra, rosto lavado, sujo, ensebado, perplexo, triste, alegre, angustiado, assustado, desanimado, rosto sem expressão (hipomímico). Olhos e olhar Olhar: vivaz, intenso, agressivo, vago, sonolento, perdido, esquivo, confuso, assustado, amedrontado, perplexo, fixo, abatido, doloroso, bondoso, afetuoso, de compaixão, tedioso, maligno, de desprezo, arrogante, irônico. Olhos: penetrantes, alegres, tristes, arregalados,lacrimejantes, avermelhados, inchados por choro, pálpebras caídas (sono ou sonolência). Cabelos Limpos, bem-penteados, emaranhados, sujos, oleosos, sebosos, com muita caspa, despenteados, curtos, longos, raspados (total ou parcial), na altura dos ombros, escassos, calvo (total ou parcial), lisos, crespos, ondulados, encaracolados, encarapinhados ou pixaim, rabo-de-cavalo, maria-chiquinha, tranças, afro, alisados, rastafári, punk (moicano), pintados, artificialmente aloirados ou oxigenados, com dread-locks, alisados, com “escova”. Pêlos faciais Pêlos faciais: barbeado adequadamente, barba bem-feita, longa ou curta, e unhas descuidada, bem-cuidada, por fazer, suja, tingida, rala, com corte bizarro, tipo de bigode, cavanhaque, costeletas. Unhas: bem-cortadas, longas, limpas, sujas, esmaltadas, com esmalte cuidado ou descascado. Dentes Bem ou mal conservados, limpos, sujos, apodrecidos, com falhas (banguela), muitas cáries, gengivite, prótese (dentadura), uso de aparelho ortodôntico. Odor Agradável, desagradável, perfumado adequadamente ou em excesso, fétido, odor de fezes, de urina, mau hálito. Roupas Limpas, sujas, descuidadas, manchadas, apropriadas, velhas, caras, baratas, inadequadas, bizarras, profissionais, impecáveis, na moda, desleixadas, desconfortáveis, antiquadas, extravagantes, sexualmente provocantes, apertadas, folgadas, com slogans religiosos (ou políticos, filosóficos, ideológicos, etc.). Movimentos, Inquieto, esfregando as mãos, pernas inquietas, trêmulo, tiques, espasmos, posturas e gestos estala lábios ou articulações, franze os olhos e/ou lábios, parado, rígido, flácido, largado, curvado, empertigado, posturas, gestos e movimentos bizarros. A postura (e/ou gestos) pode(m) ser também, em maior ou menor grau, afeminada(os) em homens e masculinizada(os) em mulheres. Corpo (global) Compleição normal, magro, caquético, frágil, abaixo do peso, acima do peso, musculoso, robusto, atarracado, disforme, pouco obeso, obeso ou obeso mórbido, marcas corporais, tatuagens, piercing, posturas bizarras, corpo bonito, feio, sensual, atraente, desagradável, repugnante, proporcional, desproporcional, altura baixa, média ou alta. * Há mais termos em português do que os aqui apresentados. Paulo Dalgalarrondo74 senciais da clínica psicopatológica emer- gem basicamente de uma observação participativa, da interação intensa entre paciente e profissional. Nesse sentido, Sullivan (1983) afirmava que o entrevistador desempenha um papel muito ativo na introdução de interroga- ções, não para mostrar que é inteligente ou cético, mas literalmente para ter cer- teza que ele sabe o que está sendo dito. [...] Quase toda vez que se pergunta, “Bem, você quer dizer assim e assado?”, o paciente é um pouco mais claro sobre o que ele quer dizer... O entrevistador deve lembrar que, nas fases mais iniciais da entrevista, o paciente pode estar muito ansioso e usar manobras e mecanismos defensivos como riso, silên- cio, perguntas inadequadas, comentários circunstanciais sobre o profissional, etc. Por exemplo: “O senhor é jovem, não?”; ou “A senhora é casada, tem filhos?”; ou, ainda, “Por que será que todo psiquiatra é tão sé- rio (ou tem barba, etc.)...?”. São estratégias involuntárias ou propositais que podem estar sendo utilizadas para que o paciente evite falar de si, de seu sofrimento, de suas dificuldades. O profissional deve lidar com tais manobras, lembrando polidamente ao paciente que a entrevista tem por finalidade identificar seu problema para, assim, po- der melhor ajudá-lo. Ele também deve dei- xar claro para o paciente que a pessoa do entrevistador não é o tema da entrevista. Nos primeiros encontros, o entrevis- tador deve evitar pausas e silêncios pro- longados, que possam aumentar muito o nível de ansiedade do paciente e deixar a entrevista muito tensa e improdutiva. Alguns procedimentos podem facili- tar a entrevista no momento em que o entrevitador lida com o silêncio do pa- ciente: 1. O entrevistador deve fazer pergun- tas e colocações breves que assi- nalem a sua presença efetiva e mostrem ao paciente que ele está atento e tranqüilo para ouvi-lo. 2. O entrevistador deve evitar per- guntas muito direcionadas, fecha- das, que possam ser respondidas com um sim ou um não categóri- cos; também deve evitar pergun- tas muito longas e complexas, di- fíceis de serem compreendidas pelo paciente. 3. É sempre melhor intervenções do tipo “Como foi isso?”, “Explique melhor”, “Conte um pouco mais sobre isso”, que questões como “Por quê?” ou “Qual a causa?”. Estas últimas estimulam o pacien- te a fechar e encerrar a sua fala. 4. O entrevistador deve buscar para cada paciente em particular o tipo de intervenção que facilite a con- tinuidade de sua fala. Mesmo realizando entrevistas aber- tas, nos primeiros encontros, o profissional deve ter a estrutura da entrevista em sua mente, permitindo ao mesmo tempo que o paciente conte sua própria versão. Falar de forma livre permite que o entrevistador avalie melhor a personalidade e, por vezes, alguns conflitos do paciente. A fala livre também tem freqüentemente uma dimen- são catártica, de “desabafo”, que pode ser muito útil e servir de alívio para o paciente. À medida que o relato feito pelo doen- te progride, tal relato vai sendo “encaixa- do” em determinada estrutura de história, que está na mente do entrevistador. Surgi- rão lacunas nessa história, que saltarão à mente deste. Após a fase de exposição li- vre, ele fará as perguntas que faltam para completar e esclarecer os pontos importan- tes da história e da anamnese de modo geral. A duração e o número de entrevistas iniciais, com fins diagnósticos e de plane- jamento terapêutico não são fixos, depen- Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 75 dendo do contexto institucional onde se dá a prática profissional, da complexidade e da gravidade do caso e da habilidade do entrevistador. Transferência e contratransferência O conceito de transferência, introduzido por Freud, é um elemento fundamental que o profissional deve conhecer para realizar as entrevistas de forma mais habilidosa, enten- dendo e tratando seus pacientes de modo menos ingênuo, mais profundo e sensível. A transferência compreende atitu- des e sentimentos cuja origem são basi- camente inconscientes para o paciente. Inclui tanto sentimentos positivos (como confiança, amor e carinho) quanto negati- vos (como raiva, hostilidade, inveja, etc.). Esses sentimentos são uma repetição in- consciente do passado; o analista (ou mé- dico, profissional de saúde, professor, etc.) passa a ocupar, no presente, o lugar que o pai ou a mãe ocupavam no passado. O pa- ciente não se dá conta, dizia Freud [1926] (1986), da natureza de tais sentimentos, e os considera como novas experiências reais, em vez de identificar o que eles realmente são, ou seja, reflexos, repetições de senti- mentos do passado. O próprio Freud assim descreveu a transferência: Eles desenvolvem com seu médico rela- ções emocionais, tanto de caráter afetuo- so como hostil, que não se baseiam na si- tuação real, sendo antes derivadas de suas relações com os pais (o complexo de Édipo). A transferência é a prova de que os adultos não superaram sua dependên- cia infantil. Assim, para Dewald (1981), a trans- ferência é uma forma de deslocamento que dirige para um objeto presente todos aqueles impulsos, defesas, atitudes, sentimentos e respostas que experimentou e desenvol- veu no relacionamento com os primeiros objetos de sua vida. Segundo Jung (1999), a transferên- cia não é mais que o processo comum de projeção: o pacien- te tende a projetar inconscientemente no médico os afetos básicos que nutria (e nutre) pelas figu- ras significativas de sua vida. Trata-se, então, de um fenô- meno geral, não apenas exclusivo da rela- ção analítica. Para Jung, pode-se observar a transferência sempre que uma relação ín- tima entre duas pessoas se estabelece. Opaciente projeta inconscientemente, no profissional de saúde, os sentimentos pri- mordiais que nutria por seus pais na infân- cia. Sente o seu médico atual como o pai poderoso e onipotente (ou cruel e autori- tário) da infância, ou a enfermeira como a mãe carinhosa e preocupada (ou omissa e negligente) de seus primeiros anos. A contratransferência é, em certo sentido, a transferência que o profissional estabelece com seus pacientes. Da mesma forma que o paciente, o profissional de saú- de projeta incons- cientemente, no pa- ciente, sentimentos que nutria no passa- do por pessoas sig- nificativas de sua vida. Sem saber por que, este ou aquele paciente desperta no profissional sen- timentos de raiva, medo, piedade, carinho, repulsa, etc. Ao identificar tais reações contratransferenciais e conscientizar-se que estas têm a ver com seus próprios confli- tos, o profissional poderá lidar de forma mais racional e objetiva com o que está ocorrendo na relação profissional. O paciente tende a projetar inconscien- temente no médico os afetos básicos que nutria (e nutre) pelas figuras signifi- cativas de sua vida. Da mesma forma que o paciente, o profis- sional de saúde pro- jeta inconsciente- mente, no paciente, sentimentos que nu- tria no passado por pessoas significati- vas de sua vida. Paulo Dalgalarrondo76 A avaliação psiquiátrica como um todo: anamnese, exame psíquico, exames somáticos e exames complementares 1. Entrevista inicial, na qual se faz a anamnese, ou seja, são colhidos todos os dados necessários para um diagnóstico pluridimensional do paciente, o que inclui os dados sociodemográficos, a queixa ou o problema principal e a história des- sa queixa, os antecedentes mórbi- dos somáticos e psíquicos pessoais, contendo os hábitos e o uso de substâncias químicas, os antece- dentes mórbidos familiares, a his- tória de vida do paciente, englo- bando as várias etapas do desen- volvimento somático, neurológico, psicológico e psicossocial e, final- mente, a avaliação das interações familiares e sociais do paciente. 2. Exame psíquico, que é o exame do estado mental atual, realizado com cuidado e minúcia pelo entre- vistador desde o início da entrevis- ta até a fase final, quando são fei- tas outras perguntas. Detalhes do exame psíquico serão desenvolvi- dos no próximo item deste livro. 3. Exame físico geral e neurológi- co, que deve ser mais ou menos detalhado a partir das hipóteses diagnósticas que se formam com os dados da anamnese e do exa- me do estado mental do paciente. Caso o profissional suspeite de doença física, deverá examinar o paciente somaticamente em deta- lhes; caso suspeite de distúrbio neurológico ou neuropsiquiátrico, o exame neurológico deverá ser completo e detalhado. De qual- quer forma, é conveniente que to- dos os pacientes, mesmo os psi- quiátricos, passem por uma ava- liação somática geral e neurológi- ca sumária, mas bem-feita. 4. Exames complementares, sendo exemplos as avaliações por meio de testes da personalidade e da cognição (psicodiagnóstico e tes- tes neuropsicológicos). 5. Exames complementares (se- miotécnica armada), como os exames laboratoriais (p. ex., exa- me bioquímico, citológico e imu- nológico do líquido cerebrospinal, hemograma, eletrólitos, meta- bólitos, hormônios, etc.), exames de neuroimagem (tomografia computadorizada do cérebro, res- sonância magnética do cérebro, SPECT, etc.) e neurofisiológicos (EEG, potenciais evocados, etc.). Alguns pontos adicionais sobre a anamnese psiquiátrica Na anamnese, o entrevistador se interessa tanto pelos sintomas objetivos como pela vivência subjetiva do paciente em relação àqueles sintomas; pela cronologia dos fe- nômenos e pelos dados pessoais e familia- res. Além disso, o entrevistador permane- ce atento às reações do paciente ao fazer os seus relatos. Realiza, assim, parte do exame psíquico e da avaliação do esta- do mental atual durante a coleta da his- tória (anamnese). Em alguns casos, o paciente consegue formular com certa clareza e precisão a “queixa principal”, que, ao entrevistador, parece consistente e central no sofrimento do paciente e para o seu diagnóstico. Isso pode ajudar o entrevistador a limitar o “campo de procura” a ser investigado. Muitas vezes, entretanto, o paciente psi- quiátrico não tem qualquer queixa a fazer; ou simplesmente não tem crítica ou insight de sua situação, de seu sofrimento. Outras vezes, se recusa defensivamente a admitir Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 77 que tenha um problema mental, comporta- mental ou psicológico e que esteja sofrendo por ele (isso ocorre mais freqüentemente em pacientes do sexo masculino). Sobre isso, Mayer-Gross, Slater e Roth (1976, p. 38) esclarecem: Nenhum homem é capaz de avaliar devi- damente sua própria personalidade pos- to que está ele mesmo dentro de suas pró- prias fronteiras – tal como nossos astrô- nomos não são capazes de ver a forma da galáxia na qual se move o sistema solar. Entrevista e dados fornecidos por um “informante” Assim, muitas vezes faz-se necessária a in- formação de familiares, amigos, conheci- dos e outros. Os dados fornecidos pelo “in- formante” também padecem de certo subjetivismo, que o entrevistador deve le- var em conta. A mãe, o pai ou o cônjuge do(a) paciente, por exemplo, têm a sua visão do caso, e não “a visão” (correta e absoluta) do caso. De qualquer forma, muitas vezes as informações fornecidas pelos acompanhantes podem revelar da- dos mais confiáveis, claros e significativos. Pacientes com quadro demencial, dé- ficit cognitivo, em estado psicótico grave e em mutismo geralmente não conseguem informar dados sobre sua história, sendo, nesses casos, fundamental a contribuição do acompanhante. Sobre a confiabilidade dos dados obtidos: simulação e dissimulação O profissional com alguma experiência em psicopatologia aprende prontamente que os dados obtidos em uma entrevista podem estar subestimados ou superestimados. Não é raro o paciente esconder deliberadamente um sintoma que vem apresentando, às ve- zes, de forma intensa; ou relatar um sinto- ma ou vivência que de fato não apresenta. O profissional deve exercer toda a sua ha- bilidade para buscar diferenciar as infor- mações verdadeiras, confiáveis e consisten- tes das falsas e inconsistentes. Denomina-se dissimulação o ato de esconder ou negar voluntariamente a pre- sença de sinais e sin- tomas psicopatoló- gicos. Ao ser ques- tionado sobre se tem algum temor, se tem cismas ou acredita que alguém quer prejudicá-lo, o pa- ciente, mesmo ten- do ideação paranóide ou delírio persecu- tório, nega terminantemente experimentar tais vivências. Em geral, tal negativa ocor- re por medo de ser internado, de receber medicamentos ou de ser rotulado como louco. O paciente nega alucinações auditi- vas, mas cochicha freqüentemente com um ser imaginário que está ao seu lado, ou seja, apesar de dissimular as alucinações para o profissional, revela indícios de sua presen- ça por meio de comportamento que é in- capaz de dissimular. Já a simulação é a tentativa do paciente de criar, apresentar, como o faria um ator, voluntaria- mente, um sintoma, sinal ou vivência que de fato não tem (Turner, 1997). O paciente diz ouvir vozes, estar profun- damente deprimido ou ter fortes dores nas costas, tudo isso no sentido de obter algo. Geralmente, o pa- ciente que simula sintomas está buscando obter algum ganho com isso: dispensa do trabalho, aposentadoria, internação para não ser encontrado por traficantes de drogas, etc. Deve-se ressaltar que a simu- lação é, por definição, um ato voluntário e consciente, não se incluindo aqui os sin- Denomina-se dis- simulação o ato de esconder ou negar voluntariamente a presença de sinais e sintomas psicopato- lógicos. A simulação é a ten- tativa do paciente de criar, apresentar, voluntariamente, um sintoma, sinal ou vi- vência que defato não tem. Paulo Dalgalarrondo78 tomas psicogênicos (como paralisia histé- rica) sem base orgânica, mas com suas raízes em processos e conflitos incons- cientes. Crítica do paciente e insight em rela- ção a sintomas e transtornos Em psicopatologia, um aspecto caracterís- tico da clínica é que parte dos pacientes, apesar de apresentar sintomas graves que comprometem profundamente suas vidas, não os reconhece como tal (Lewis, 1934- 2004). Foi proposto que o insight não é um fenômeno categorial e unidimensional, mas inclui vários níveis de intensidade e distin- tas dimensões (Dantas; Banzato, 2004). Por exemplo, David (1990) propôs ser o insight composto por três componentes: 1. consciência da doença; 2. modo de nomear ou renomear os sintomas; 3. adesão a tratamentos propostos. Em particular, pacientes graves, como psicóticos (Dantas; Banzato, 2007), bipo- lares em quadro maníaco, alguns depen- dentes químicos, com retardo mental, síndromes autísticas ou demências, apre- sentam graves prejuízos quanto ao insight (Antoine et al., 2004). Perspectiva transversal versus longitudinal A avaliação psiquiátrica possui uma dimen- são longitudinal (histórica, temporal) e outra transversal (momentânea, atual) da vida do paciente. Ao se colher a dimensão longitudinal, deve-se buscar descrever re- lações temporais de forma clara e com- preensível e observar como o paciente re- lata, sente e reage aos eventos passados. Sem a dimensão longitudinal, a trans- versal fica obscura e incompleta, sendo di- fícil a sua devida apreciação. Assim, as re- lações temporais ficam perdidas. Relato do caso por escrito Ao final da entrevista, forma-se o esboço do caso na mente do entrevistador. O esta- do mental foi observado durante toda a co- leta dos dados, surgindo, dessa forma, a síntese do estado mental do paciente para o profissional. O relato do caso por escrito deve conter, de preferência, as próprias pa- lavras que o paciente e os informantes usa- ram ao descrever os sintomas mais rele- vantes. O uso de termos técnicos deve ser sóbrio e proporcional ao grau de conheci- mento que o profissional obteve do caso. Já a caligrafia deve ser legível, e o estilo, claro, preciso, com frases e parágrafos curtos. Deve-se evitar terminologia por de- mais tecnicista que geralmente revela a in- segurança do profissional, que busca com- pensar, na linguagem rebuscada, os vácu- os de sua ignorância sobre o caso, ou que quer demonstrar de modo exibicionista sua erudição e seu saber médico. Além disso, o profissional deve evitar a interpretação precoce dos dados, seja ela psicológica, psicanalítica, sociológica ou biológica. Uma interpretação precoce, feita muitas vezes de modo apressado e excessivo pelo pro- fissional que quer logo ver um sentido em tudo, pode impedir que se enxergue o pa- ciente que está à sua frente. É preciso lembrar que, apesar de se- rem descritos fenômenos irracionais em uma história psicopatológica, muitas vezes de forma desorganizada e caótica, o rela- to deve ser organizado e coerente, faci- litando o estabelecimento de hipóteses diagnósticas e o planejamento terapêutico adequado. O paciente tem o direito de ser Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 79 confuso, contraditório, ilógico; já o profis- sional, ao relatar o caso, não. Além do aspecto médico essencial, que é o diagnóstico clínico, a entrevista e o seu relato devem fornecer uma compreen- são suficientemente ampla da personalida- de do paciente, da dinâmica de sua família e de seu meio sociocultural imediato. O relato escrito de um caso tem, além de valor médico, importante valor legal. É um documento que, sendo bem-redigido, poderá ser decisivo em questões legais fu- turas, impensáveis no momento em que a avaliação está sendo feita. No momento em que o entrevistador redige os dados que coletou, deve lembrar que a história clínica deve ser redigida com uma linguagem simples, precisa e compre- ensível. O relato deve ser pormenorizado, mas não prolixo, detalhado naquilo que é essencial ao caso e conciso naquilo que é secundário. Não será enfocada aqui a entrevista de crianças e adolescentes. Um bom protocolo de avaliação psicopatológica desses grupos etários é o sugerido pela American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (1997). Também são recomendados os trabalhos de Shaffer, Lucas e Richters (1999), o livro de Michael Rutter e Eric Taylor (2002), assim como a obra acessível e didática de Robert Goodman e Stephen Scott (2004). Quadro 8.4 Avaliação inicial e perguntas introdutórias 1. Providenciar um local com o mínimo de privacidade e conforto para a entrevista (no caso de pacientes muito irritados, potencialmente agressivos, evitar lugares trancados e de difícil acesso ou evasão). 2. Apresentar-se ao paciente e depois explicar brevemente o objetivo da entrevista. 3. Buscando estabelecer um contato empático com o paciente, iniciar com as perguntas gerais sobre quem é ele: Como se chama? Quantos anos tem? Qual seu estado civil? Tem filhos? Com quem mora? Até que ano foi à escola? Qual a sua profissão? Em que trabalha? Qual a sua religião? Pratica? 4. Qual o seu problema? (alternativa: O que o traz aqui? Como tem se sentido? Tem alguma dificuldade? Sente que algo não vai bem? Está se sentindo doente?) 5. Como começaram seus problemas? Como tem passado nos últimos anos (meses ou semanas)? 6. Quais os tratamentos que fez até hoje? Quais foram os resultados desses tratamentos? 7. De onde vêm seus problemas? (alternativa: A que atribui os seus problemas?) 8. Observar com atenção, desde o início da entrevista, postura, atitudes globais, roupas e acessórios, comportamentos não-verbais e mímica; enfim, prestar atenção e descrever com detalhes a aparência física e psíquica geral do paciente. 9. Verificar o impacto que o paciente causa no entrevistador, os sentimentos que a entrevista produz (pena, medo, curiosidade, chateação, confusão, dúvidas, tédio, irritação, etc.). Perguntar a si mesmo se o paciente é repulsivo ou atraente, simpático ou antipático, produz o desejo de ajudá-lo ou de não querer mais vê-lo, etc. 10. Lembrar-se de que é necessário, na entrevista, utilizar linguagem e vocabulário compatíveis com o nível intelectual do paciente, adequados ao seu universo cultural e aos seus valores morais e religiosos. 11. É conveniente utilizar perguntas mais abertas para os pacientes com bom nível intelectual. Para pacientes com déficit intelectual, quadros demenciais ou muito desestruturados, empregar perguntas mais fechadas, mais estruturadas, que permitam respostas do tipo “sim” ou “não”. Paulo Dalgalarrondo80 Quadro 8.5 História psiquiátrica I. Identificação Nome do examinador: –––––––––––––––––––––––––––– Data: –––– /–––– /–––– Local de atendimento: ––––––––––––––––––––– Nome do paciente: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Sexo: –––––––––––––––––––– Idade: ––––––––– Estado civil: –––– (1. casado/amasiado; 2. solteiro; 3. separado/divorciado; 4. viúvo) N o de filhos: –––– Escolaridade (anos de escola com sucesso): ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Etnia: –––– (1. branca; 2. parda; 3. negra; 4. amarela) Quem acompanha o paciente: –––––––––––––––––––––––––– Que instituição o encaminha: ––––––––––––––––––––––––––––– Procedência/endereço: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Naturalidade (cidade, estado): –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Há quantos anos mora no local atual de residência: ––––––––––– Profissão: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Vínculo empregatício: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Ocupação atual: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– (1. dona de casa; 2. ativo; 3. ativo, mas irregular; 4. inativo) Religião (igreja que freqüenta):––––––––––––––––––––––––––––––––– Há quanto tempo está nessa igreja: ––––––––––––– Freqüência à igreja: ––––––––––––––––––––––– (vezes por mês que a freqüenta) 2 a religião: –––––––––––––––––––––––––– Nível socioeconômico: 1. Tipo de residência: –––––––––––––––––––––––– (1. alvenaria; 2. madeira e pavimentada; 3. madeira e piso de terra) 2. Propriedade da casa: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– (1. própria; 2. alugada; 3. emprestada ou irregular) 3. Telefone em casa: –––––––––––––––––––––––– (1. sim; 2. não) 4. Carro da família: ––––––––––––––––––– (1. sim; 2. não) Quantas pessoas moram em sua casa: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Renda familiar: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Renda per capita: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––– II. Queixa principal e história da doença atual Descrever (de preferência com as palavras do paciente) sintomas, sinais e comportamentos desde o início do último episódio até o presente momento. ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Você já consultou, no passado, médico ou psicólogo (ou profissional de saúde mental) para problemas dos nervos, psicológicos ou psiquiátricos? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Há quanto tempo foi a primeira consulta? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Já tomou remédio para os nervos? –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Há quanto tempo tomou pela primeira vez? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Muitas pessoas procuram ajuda de benzedeira, padre, pastor, centro espírita ou de outra pessoa com poderes de cura. Você já procurou alguma ajuda desse tipo? –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– (Em caso positivo, qual e como foi?) ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Internação psiquiátrica: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– (Em caso positivo, há quanto tempo foi a primeira internação psiquiátrica?) –––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Quantas internações psiquiátricas você teve até hoje? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Em média, quanto tempo duraram as internações? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Há quanto tempo foi a última internação? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– (Continua) Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 81 III. Interrogatório sintomatológico complementar Cardiorrespiratório; gastrintestinal; geniturinário e ginecológico; endócrino; neurológico; imunológico; osteoarticular; etc. Descrever: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– IV. Antecedentes mórbidos pessoais Psiquiátricos: Episódios psiquiátricos anteriores (descrever): –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Tentativas de suicídio: –––––––––––––––––––––––––––– Quantas: –––––––––––––––– Brigas, agressões: –––––––––––––––––––– Problemas legais (processos): –––––––––––––––––––––––––––– Problemas com a polícia: –––––––––––––––––––––––––––––– Não-psiquiátricos: Hipertensão: ––––––––––––––––––––––––––––––– Diabete: ––––––––––––––––––––––––––––––––– Traumatismo craniano com perda de consciência: –––––––––– Convulsões: –––––––––– Cisticercose: ––––––– Chagas: –––––––––––––– AIDS: –––––––––––––– Tuberculose: –––––––––––––– Descrever: ––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– V. Hábitos Álcool: usa esporadicamente? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– (Em caso positivo, aplicar o CAGE.) Já sentiu que deveria parar ou diminuir a bebida? ––––––––––––––––––––––––––– Sente-se chateado consigo mesmo pela maneira com que costuma beber? –––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Costuma beber pela manhã para diminuir o nervosismo ou a ressaca? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– As pessoas o aborrecem quando criticam o seu modo de beber? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– CAGE (soma simples): –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Há quanto tempo bebe pesadamente? –––––––––––––––––––––––––– Dose atual diária de álcool: –––––––––––––––––––––– Tabagismo: –––––––––––––––––– (Cigarros/dia: ––––––––––– ) Café: –––––––––––––––– (Xícaras pequenas/dia: ––––––––––– ) Benzodiazepínicos: –––––––––––– Qual(is)? –––––––––––––––– Quantos mg/dia? –––––––– Há quanto tempo? –––––––––– Drogas ilícitas: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Qual(is)? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Há quanto tempo? –––––––––––––––––––– Que freqüência e quantidade? –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Drogas injetáveis: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– VI. Antecedentes patológicos familiares em consangüíneos e parentes não-consangüíneos (descrever e desenhar o familiograma) VII. Relacionamento e dinâmica familiar (descrever) VIII. Exame físico Estado geral: Pulso: ––––––––––––––– PA: ––––––– / ––––––– Peso: ––––––––––––––– kg Altura: ––––––––––– IMC: –––––––––– Desnutrido: –––––––––––––––––– Desidratado: –––––––––––––––––– Descorado: ––––––––––––––––– Dispnéico: ––––––––––––– Cianótico: –––––––––––––––––––– Linfonodomegalia: –––––––––––––––––– Ictérico: –––––––––––––––– Edemas: ––––––––––––– (Continuação) (Continua) Paulo Dalgalarrondo82 Descrever o estado físico geral. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Especial: Coração (ausculta anormal): ––––––––––––––––––––––– Pulmões (ausculta anormal): ––––––––––––––––––––––– Abdome (palpação anormal): ––––––––––––––––––– Outros: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Resumir os dados positivos do exame físico. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– IX. Exame neurológico Fácies, atitude, marcha, equilíbrio Nervos cranianos II, III, IV e VI: campo visual, reflexos pupilares, motilidade ocular; V: mastigação; VII: mm. da mímica, XI: mm. pescoço e ombros; e XII: musculatura da língua. Tônus e força muscular (grau 0 = paralisia; 1 = contração muscular sem deslocamento; 2 = contração muscular sem oposição da gravidade; 3 = contração muscular contra a gravidade; 4 = capaz de vencer resistência; 5 = normal; reflexos miotáticos (axiais da face, membrossuperiores e inferiores) e reflexos musculocutâneos. Sistema sensitivo-somático (superficial: tato, dor, temperatura; profundo: sensibilidade vibratória, pressão, cinético-postural); funções cerebelares (marcha, equilíbrio, coordenação). Movimentos involuntários (tremores, tiques, fasciculações, mioclonias, coréia, atetose, balismo, etc.) Resumir os dados positivos do exame. –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– X. Exame psíquico (estado mental atual e nos dias anteriores à consulta; utilizar, de preferência, as palavras do paciente) 1. Aspecto geral: cuidado pessoal, higiene, trajes, postura, mímica, atitude global do paciente. 2. Nível de consciência. 3. Orientação alo e autopsíquica. 4. Atenção. 5. Memória (fixação e evocação). 6. Sensopercepção. 7. Pensamento (curso, forma e conteúdo). 8. Linguagem. 9. Inteligência. 10. Juízo de realidade. 11. Vida afetiva (estado de humor basal, emoções e sentimentos predominantes). 12. Volição. 13. Psicomotricidade. 14. Consciência e valoração do Eu. 15. Vivência do tempo e do espaço. 16. Personalidade. 17. Descrever sentimentos contratransferenciais. 18. Crítica em relação a sintomas e insight. 19. Desejo de ajuda. 20. Se for o caso, o tratamento é voluntário ou involuntário? Súmula do exame psíquico (fazer um resumo, utilizando os termos técnicos). –––––––––––––––––––––––––––––––––––– –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Quadro 8.5 História psiquiátrica (continuação ) VIII. Exame físico (Continua) Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 83 XI. História de vida (descrever) 1. Gestação e parto: criança desejada?, doenças da mãe na gravidez, condições do parto e ao nascer. 2. Desenvolvimento no 1o e no 2o ano de vida: (amamentação, idade em que engatinhou, ficou em pé, andou e falou). 3. Comportamento durante a infância: relacionamento com os pais, irmãos e amigos. 4. Na escola: relacionamento com colegas e professores, rendimento escolar, aceitação de regras, brigas, etc. 5. Puberdade e adolescência: como foi a menarca, os primeiros namoros, a sexualidade, o desenvolvimento da identidade, o/a trabalho/profissão, a relação com os pais. 6. Vida de adulto jovem: casamento, sexualidade, filhos pequenos, amizades, aceitação de responsabilidades. 7. Vida adulta madura e velhice: evolução do casamento, relação com amigos e filhos, aceitação do envelhecimento e da morte. História da capacidade de adaptação e resiliência: Que estresses e dificuldades importantes já superou no passado? Como conseguiu superá-los? Qual foi o melhor período da vida? Qual foi o pior período da vida? Quais os pontos fortes e as vulnerabilidades do paciente? ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– XII. Resultados das avaliações complementares Exames e dosagens laboratoriais gerais, exames do líquido cerebrospinal, EEG, psicodiagnóstico, testes neuropsicológicos, exames de neuroimagem estrutural e funcional, etc. XIII. Hipóteses diagnósticas (sindrômica e de acordo com os critérios da CID-10) Diagnóstico sindrômico: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Diagnóstico psiquiátrico principal (CID-10): –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Diagnóstico psiquiátrico secundário (CID-10): ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Diagnóstico de personalidade e do nível intelectual (CID-10): ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Distúrbios e doenças físicas: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Formulação psicodinâmica do caso: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Formulação cultural do caso: ––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Análise dos fatores etiológicos envolvidos: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– XIV. Planejamento terapêutico e ações terapêuticas implementadas Descrever: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Medicamento que vem utilizando: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Medicamento prescrito: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Tratamento psicoterapêutico indicado: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Procedimentos socioterapêuticos indicados: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– Modos sugeridos de manejo do caso: –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––– (Continuação) Paulo Dalgalarrondo84 Questões de revisão • Uma entrevista bem-conduzida é aquela em que o profissional fala muito pouco e ouve pacientemente o enfermo. Há, contudo, certas situações que exigem intervenção mais ativa do entrevistador. Nesse sentido, que aspectos devem ser observados ao se conduzir uma entrevista? • Ao entrevistar um paciente, que tipo de postura/atitude o entrevistador deve evitar? • Quais as “três regras de ouro” da entrevista em saúde mental? • Diante de um paciente tímido, que fica em silêncio durante a entrevista, que estratégias podem ser usadas pelo entrevistador a fim de que este silêncio seja rompido? • Estabeleça a diferença entre transferência e contratransferência. • Descreva como deve ser o relato do caso por escrito. 11 1. OS CAPS NA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL Um país, um Estado, uma cidade, um bairro, uma vila, um vilarejo são recortes de diferentes tamanhos dos territórios que habitamos. Território não é apenas uma área geográfica, embora sua geografia também seja muito importante para caracterizá-lo. O território é constituído fundamentalmente pelas pessoas que nele habitam, com seus conflitos, seus interesses, seus amigos, seus vizinhos, sua família, suas instituições, seus cenários (igreja, cultos, escola, trabalho, boteco etc.). É essa noção de território que busca organizar uma rede de atenção às pessoas que sofrem com transtornos mentais e suas famílias, amigos e interessados. Para constituir essa rede, todos os recursos afetivos (relações pessoais, familiares, amigos etc.), sanitários (serviços de saúde), sociais (moradia, trabalho, escola, esporte etc.), econômicos (dinheiro, previdência etc.), culturais, religiosos e de lazer estão convocados para potencializar as equipes de saúde nos esforços de cuidado e reabilitação psicossocial. Nesta publicação estaremos apresentando e situando os CAPS como dispositivos que devem estar articulados na rede de serviços de saúde e necessitam permanentemente de outras redes sociais, de outros setores afins, para fazer face à complexidade das demandas de inclusão daqueles que estão excluídos da sociedade por transtornos mentais. REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM11 12 13 As redes possuem muitos centros, muitos nós que as compõem e as tornam complexas e resistentes. O fundamental é que não se perca a dimensão de que o eixo organizador dessas redes são as pessoas, sua existência, seu sofrimento. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) deverão assumir seu papel estratégico na articulação e no tecimento dessas redes, tanto cumprindo suas funções na assistência direta e na regulação da rede de serviços de saúde, trabalhando em conjunto com as equipes de Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde, quantona promoção da vida comunitária e da autonomia dos usuários, articulando os recursos existentes em outras redes: sócio- sanitárias, jurídicas, cooperativas de trabalho, escolas, empresas etc. Os CAPS, assumindo um papel estratégico na organização da rede comunitária de cuidados, farão o direcionamento local das políticas e programas de Saúde Mental: desenvolvendo projetos terapêuticos e comunitários, dispensando medicamentos, encaminhando e acompanhando usuários que moram em residências terapêuticas, assessorando e sendo retaguarda para o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde e Equipes de Saúde da Família no cuidado domiciliar. Esses são os direcionamentos atuais da Política de Saúde Mental para os CAPS – Centros de Atenção Psicossocial, e esperamos que esta publicação sirva como contribuição para que esses serviços se tornem cada vez mais promotores de saúde e de cidadania das pessoas com sofrimento psíquico. 2. QUANDO SURGEM OS CAPS? O primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do Brasil foi inaugurado em março de 1986, na cidade de São Paulo: Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira, conhecido como CAPS da Rua Itapeva. A criação desse CAPS e de tantos outros, com outros nomes e lugares, fez parte de um intenso movimento social, inicialmente de trabalhadores de saúde mental, que buscavam a melhoria da assistência no Brasil e denunciavam a situação precária dos hospitais psiquiátricos, que ainda eram o único recurso destinado aos usuários portadores de transtornos mentais. Nesse contexto, os serviços de saúde mental surgem em vários municípios do país e vão se consolidando como dispositivos eficazes na diminuição de internações e na mudança do modelo assistencial. Os NAPS/CAPS foram criados oficialmente a partir da Portaria GM 224/92 e eram definidos como “unidades de saúde locais/regionalizadas que contam com uma população adscrita definida pelo nível local e que oferecem atendimento de cuidados intermediários entre o regime ambulatorial e a internação hospitalar, em um ou dois turnos de quatro horas, por equipe multiprofissional”. Os CAPS – assim como os NAPS (Núcleos de Atenção Psicossocial), os CERSAMs (Centros de Referência em Saúde Mental) e outros tipos de serviços substitutivos que têm surgido no país, são atualmente regulamentados pela Portaria nº 336/GM, de 19 de fevereiro de 2002 e integram a rede do Sistema Único de Saúde, o SUS. Essa portaria reconheceu e ampliou o funcionamento e a complexidade dos CAPS, que têm a missão de dar um atendimento diuturno às pessoas que sofrem com transtornos mentais severos e persistentes, num dado território, oferecendo cuidados clínicos e de reabilitação psicossocial, com o objetivo de substituir o modelo hospitalocêntrico, evitando as internações e favorecendo o exercício da cidadania e da inclusão social dos usuários e de suas famílias. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM12 12 13 3. O QUE É O SUS? O SUS, instituído pelas Leis Federais 8.080/1990 e 8.142/1990, tem o horizonte do Estado democrático e de cidadania plena como determinantes de uma “saúde como direito de todos e dever de Estado”, previsto na Constituição Federal de 1988. Esse sistema alicerça-se nos princípios de acesso universal, público e gratuito às ações e serviços de saúde; integralidade das ações, cuidando do indivíduo como um todo e não como um amontoado de partes; eqüidade, como o dever de atender igualmente o direito de cada um, respeitando suas diferenças; descentralização dos recursos de saúde, garantindo cuidado de boa qualidade o mais próximo dos usuários que dele necessitam; controle social exercido pelos Conselhos Municipais, Estaduais e Nacional de Saúde com representação dos usuários, trabalhadores, prestadores, organizações da sociedade civil e instituições formadoras. 4. O QUE É UM CAPS? Como já vimos, um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) ou Núcleo de Atenção Psicossocial é um serviço de saúde aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde (SUS). Ele é um lugar de referência e tratamento para pessoas que sofrem com transtornos mentais, psicoses, neuroses graves e demais quadros, cuja severidade e/ou persistência justifiquem sua permanência num dispositivo de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promotor de vida. O objetivo dos CAPS é oferecer atendimento à população de sua área de abrangência, realizando o acompanhamento clínico e a reinserção social dos usuários pelo acesso ao trabalho, lazer, exercício dos direitos civis e fortalecimento dos laços familiares e comunitários. É um serviço de atendimento de saúde mental criado para ser substitutivo às internações em hospitais psiquiátricos. Os CAPS visam: • prestar atendimento em regime de atenção diária; • gerenciar os projetos terapêuticos oferecendo cuidado clínico eficiente e personalizado; • promover a inserção social dos usuários através de ações intersetoriais que envolvam educação, trabalho, esporte, cultura e lazer, montando estratégias conjuntas de enfrentamento dos problemas. Os CAPS também têm a responsabilidade de organizar a rede de serviços de saúde mental de seu território; • dar suporte e supervisionar a atenção à saúde mental na rede básica, PSF (Programa de Saúde da Família), PACS (Programa de Agentes Comunitários de Saúde); • regular a porta de entrada da rede de assistência em saúde mental de sua área; • coordenar junto com o gestor local as atividades de supervisão de unidades hospitalares psiquiátricas que atuem no seu território; • manter atualizada a listagem dos pacientes de sua região que utilizam medicamentos para a saúde mental. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM13 14 15 Os CAPS devem contar com espaço próprio e adequadamente preparado para atender à sua demanda específica, sendo capazes de oferecer um ambiente continente e estruturado. Deverão contar, no mínimo, com os seguintes recursos físicos: • consultórios para atividades individuais (consultas, entrevistas, terapias); • salas para atividades grupais; • espaço de convivência; • oficinas; • refeitório (o CAPS deve ter capacidade para oferecer refeições de acordo com o tempo de permanência de cada paciente na unidade); • sanitários; • área externa para oficinas, recreação e esportes. As práticas realizadas nos CAPS se caracterizam por ocorrerem em ambiente aberto, acolhedor e inserido na cidade, no bairro. Os projetos desses serviços, muitas vezes, ultrapassam a própria estrutura física, em busca da rede de suporte social, potencializadora de suas ações, preocupando-se com o sujeito e sua singularidade, sua história, sua cultura e sua vida quotidiana. Ên io S ér gi o de C ar va lh o. S em n om e. 2 00 3. Ó le o so br e te la . U su ár io d e C en tr o de A te nç ão P si co ss oc ia l. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM14 14 15 5. QUEM PODE SER ATENDIDO NOS CAPS? As pessoas atendidas nos CAPS são aquelas que apresentam intenso sofrimento psíquico, que lhes impossibilita de viver e realizar seus projetos de vida. São, preferencialmente, pessoas com transtornos mentais severos e/ou persistentes, ou seja, pessoas com grave comprometimento psíquico, incluindo os transtornos relacionados às substâncias psicoativas (álcool e outras drogas) e também crianças e adolescentes com transtornos mentais. Os usuários dos CAPS podem ter tido uma longa história de internações psiquiátricas, podem nunca ter sido internados ou podem já ter sido atendidos em outros serviços de saúde (ambulatório, hospital-dia, consultórios etc.). O importante é que essas pessoas saibam que podem ser atendidas e saibam o que são e o que fazem os CAPS. 6. COMO SE FAZ PARA SER ATENDIDO NOS CAPS? Para ser atendido num CAPS pode-se procurar diretamente esse serviço ou ser encaminhado pelo Programa de Saúde da Família ou por qualquer serviço de saúde. A pessoa pode ir sozinha ouacompanhada, devendo procurar, preferencialmente, o CAPS que atende à região onde mora. Quando a pessoa chega deverá ser acolhida e escutada em seu sofrimento. Esse acolhimento poderá ser de diversas formas, de acordo com a organização do serviço. O objetivo nesse primeiro contato é compreender a situação, de forma mais abrangente possível, da pessoa que procura o serviço e iniciar um vínculo terapêutico e de confiança com os profissionais que lá trabalham. Estabelecer um diagnóstico é importante, mas não deverá ser o único nem o principal objetivo desse momento de encontro do usuário com o serviço. A partir daí irá se construindo, conjuntamente, uma estratégia ou um projeto terapêutico para cada usuário. Caso essa pessoa não queira ou não possa ser beneficiada com o trabalho oferecido pelo CAPS, ela deverá ser encaminhada para outro serviço de saúde mais adequado para sua necessidade. Se uma pessoa está isolada, sem condições de acesso ao serviço, ela poderá ser atendida por um profissional da equipe do CAPS em casa, de forma articulada com as equipes de saúde da família do local, quando um familiar ou vizinho solicitar ao CAPS. Por isso, é importante que o CAPS procurado seja o mais próximo possível da região de moradia da pessoa. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM15 16 17 7. O QUE OS USUÁRIOS E SEUS FAMILIARES PODEM ESPERAR DO TRATAMENTO NO CAPS? Todo o trabalho desenvolvido no CAPS deverá ser realizado em um “meio terapêutico”, isto é, tanto as sessões individuais ou grupais como a convivência no serviço têm finalidade terapêutica. Isso é obtido através da construção permanente de um ambiente facilitador, estruturado e acolhedor, abrangendo várias modalidades de tratamento. Como dissemos anteriormente, ao iniciar o acompanhamento no CAPS se traça um projeto terapêutico com o usuário e, em geral, o profissional que o acolheu no serviço passará a ser uma referência para ele. Esse profissional poderá seguir sendo o que chamamos de Terapeuta de Referência (TR), mas não necessariamente, pois é preciso levar em conta que o vínculo que o usuário estabelece com o terapeuta é fundamental em seu processo de tratamento. O Terapeuta de Referência (TR) terá sob sua responsabilidade monitorar junto com o usuário o seu projeto terapêutico, (re)definindo, por exemplo, as atividades e a freqüência de participação no serviço. O TR também é responsável pelo contato com a família e pela avaliação periódica das metas traçadas no projeto terapêutico, dialogando com o usuário e com a equipe técnica dos CAPS. Cada usuário de CAPS deve ter um projeto terapêutico individual, isto é, um conjunto de atendimentos que respeite a sua particularidade, que personalize o atendimento de cada pessoa na unidade e fora dela e proponha atividades durante a permanência diária no serviço, segundo suas necessidades. A depender do projeto terapêutico do usuário do serviço, o CAPS poderá oferecer, conforme as determinações da Portaria GM 336/02: • Atendimento Intensivo: trata-se de atendimento diário, oferecido quando a pessoa se encontra com grave sofrimento psíquico, em situação de crise ou dificuldades intensas no convívio social e familiar, precisando de atenção contínua. Esse atendimento pode ser domiciliar, se necessário; • Atendimento Semi-Intensivo: nessa modalidade de atendimento, o usuário pode ser atendido até 12 dias no mês. Essa modalidade é oferecida quando o sofrimento e a desestruturação psíquica da pessoa diminuíram, melhorando as possibilidades de relacionamento, mas a pessoa ainda necessita de atenção direta da equipe para se estruturar e recuperar sua autonomia. Esse atendimento pode ser domiciliar, se necessário; • Atendimento Não-Intensivo: oferecido quando a pessoa não precisa de suporte contínuo da equipe para viver em seu território e realizar suas atividades na família e/ou no trabalho, podendo ser atendido até três dias no mês. Esse atendimento também pode ser domiciliar. Cada CAPS, por sua vez, deve ter um projeto terapêutico do serviço, que leve em consideração as diferentes contribuições técnicas dos profissionais dos CAPS, as iniciativas de familiares e usuários e o território onde se situa, com sua identidade, sua cultura local e regional. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM16 16 17 8. QUAIS ATIVIDADES TERAPÊUTICAS O CAPS PODE OFERECER? Como já apresentamos anteriormente, os CAPS podem oferecer diferentes tipos de atividades terapêuticas. Esses recursos vão além do uso de consultas e de medicamentos, e caracterizam o que vem sendo denominado clínica ampliada. Essa idéia de clínica vem sendo (re)construída nas práticas de atenção psicossocial, provocando mudanças nas formas tradicionais de compreensão e de tratamento dos transtornos mentais. O processo de construção dos serviços de atenção psicossocial também tem revelado outras realidades, isto é, as teorias e os modelos prontos de atendimento vão se tornando insuficientes frente às demandas das relações diárias com o sofrimento e a singularidade desse tipo de atenção. É preciso criar, observar, escutar, estar atento à complexidade da vida das pessoas, que é maior que a doença ou o transtorno. Para tanto, é necessário que, ao definir atividades, como estratégias terapêuticas nos CAPS, se repensem os conceitos, as práticas e as relações que podem promover saúde entre as pessoas: técnicos, usuários, familiares e comunidade. Todos precisam estar envolvidos nessa estratégia, questionando e avaliando permanentemente os rumos da clínica e do serviço. Os CAPS devem oferecer acolhimento diurno e, quando possível e necessário, noturno. Devem ter um ambiente terapêutico e acolhedor, que possa incluir pessoas em situação de crise, muito desestruturadas e que não consigam, naquele momento, acompanhar as atividades organizadas da unidade. O sucesso do acolhimento da crise é essencial para o cumprimento dos objetivos de um CAPS, que é de atender aos transtornos psíquicos graves e evitar as internações. Os CAPS oferecem diversos tipos de atividades terapêuticas, por exemplo: psicoterapia individual ou em grupo, oficinas terapêuticas, atividades comunitárias, atividades artísticas, orientação e acompanhamento do uso de medicação, atendimento domiciliar e aos familiares. Algumas dessas atividades são feitas em grupo, outras são individuais, outras destinadas às famílias, outras são comunitárias. Quando uma pessoa é atendida em um CAPS, ela tem acesso a vários recursos terapêuticos: • Atendimento individual: prescrição de medicamentos, psicoterapia, orientação; • Atendimento em grupo: oficinas terapêuticas, oficinas expressivas, oficinas geradoras de renda, oficinas de alfabetização, oficinas culturais, grupos terapêuticos, atividades esportivas, atividades de suporte social, grupos de leitura e debate, grupos de confecção de jornal; • Atendimento para a família: atendimento nuclear e a grupo de familiares, atendimento individualizado a familiares, visitas domiciliares, atividades de ensino, atividades de lazer com familiares; • Atividades comunitárias: atividades desenvolvidas em conjunto com associações de bairro e outras instituições existentes na comunidade, que têm como objetivo as trocas sociais, a integração do serviço e do usuário com a família, a comunidade e a sociedade em geral. Essas atividades podem ser: festas comunitárias, caminhadas com grupos da comunidade, participação em eventos e grupos dos centros comunitários; • Assembléias ou Reuniões de Organização do Serviço: a Assembléia é um instrumento importante para o efetivo funcionamento dos CAPS como um lugar de convivência. É uma atividade, preferencialmente semanal, que reúne técnicos, usuários, familiares e outros convidados, que juntos discutem, avaliam e propõem encaminhamentos para o serviço. Discutem-se os problemas e sugestões sobre a convivência, as atividades e aorganização do CAPS, ajudando a melhorar o atendimento oferecido. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM17 18 19 Estar em tratamento no CAPS não significa que o usuário tem que ficar a maior parte do tempo dentro do CAPS. As atividades podem ser desenvolvidas fora do serviço, como parte de uma estratégia terapêutica de reabilitação psicossocial, que poderá iniciar-se ou ser articulada pelo CAPS, mas que se realizará na comunidade, no trabalho e na vida social. Dessa forma, o CAPS pode articular cuidado clínico e programas de reabilitação psicossocial. Assim, os projetos terapêuticos devem incluir a construção de trabalhos de inserção social, respeitando as possibilidades individuais e os princípios de cidadania que minimizem o estigma e promovam o protagonismo de cada usuário frente à sua vida. Como vimos, muitas coisas podem ser feitas num CAPS, desde que tenham sentido para promover as melhores oportunidades de trocas afetivas, simbólicas, materiais, capazes de favorecer vínculos e interação humana. Demos somente alguns exemplos, mas com certeza existem muitas práticas sendo realizadas nos CAPS que poderiam ser descritas aqui. Ên io S ér gi o de C ar va lh o. G at o. 2 00 3. Ó le o so br e te la . U su ár io d e C en tr o de A te nç ão P si co ss oc ia l. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM18 18 19 9. QUAIS OS DIAS E HORÁRIOS DE FUNCIONAMENTO DOS CAPS? Os CAPS funcionam, pelo menos, durante os cinco dias úteis da semana (2ª a 6ª feira). Seu horário e funcionamento nos fins de semana dependem do tipo de CAPS: CAPS I – municípios com população entre 20.000 e 70.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira CAPS II – municípios com população entre 70.000 e 200.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira Pode ter um terceiro período, funcionando até 21 horas CAPS III – municípios com população acima de 200.000 habitantes Funciona 24 horas, diariamente, também nos feriados e fins de semana CAPSi – municípios com população acima de 200.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira Pode ter um terceiro período, funcionando até 21 horas CAPSad – municípios com população acima de 100.000 habitantes Funciona das 8 às 18 horas De segunda a sexta-feira Pode ter um terceiro período, funcionando até 21 horas Os usuários que permanecem um turno de quatro horas nos CAPS devem receber uma refeição diária; os assistidos em dois períodos (oito horas), duas refeições diárias; e os que estão em acolhimento noturno nos CAPS III e permanecem durante 24 horas contínuas devem receber quatro refeições diárias. A freqüência dos usuários nos CAPS dependerá de seu projeto terapêutico. É necessário haver flexibilidade, podendo variar de cinco vezes por semana com oito horas por dia a, pelo menos, três vezes por mês. O que também determina a freqüência dos usuários no serviço é o acesso que têm ao CAPS, o apoio e/ou o acompanhamento familiar e a possibilidade de envolvimento nas atividades comunitárias, organizativas, de geração de renda e trabalho. Já os CAPS III funcionam durante 24 horas e podem oferecer acolhimento noturno. O acolhimento noturno e a permanência nos fins de semana devem ser entendidos como mais um recurso terapêutico, visando proporcionar atenção integral aos usuários dos CAPS e evitar internações psiquiátricas. Ele poderá ser utilizado nas situações de grave comprometimento psíquico ou como um recurso necessário para evitar que crises emerjam ou se aprofundem. O acolhimento noturno deverá atender preferencialmente aos usuários que estão vinculados a um projeto terapêutico nos CAPS, quando necessário, e no máximo por sete dias corridos ou dez dias intercalados durante o prazo de 30 dias. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM19 20 21 10. COMO É FEITA A DISTRIBUIÇÃO DE MEDICAMENTOS PARA OS USUÁRIOS? A necessidade de medicação de cada usuário do CAPS deve ser avaliada constantemente com os profissionais do serviço. Os CAPS podem organizar a rotina de distribuição de medicamentos e/ou assessorar usuários e familiares quanto à sua aquisição e administração, observando-se o uso diferenciado e de acordo com o diagnóstico e com o projeto terapêutico de cada um. Os CAPS poderão também ser uma central de regulação e distribuição de medicamentos em saúde mental na sua região. Isso quer dizer que os CAPS podem ser unidades de referência para dispensação de medicamentos básicos1 e excepcionais2, conforme decisão da equipe gestora local. Os CAPS poderão dar cobertura às receitas prescritas por médicos das equipes de Saúde da Família e da rede de atenção ambulatorial da sua área de abrangência e, ainda, em casos muito específicos, àqueles pacientes internados em hospitais da região que necessitem manter o uso de medicamentos excepcionais de alto custo no seu tratamento. Caberá também, a esses serviços e à equipe gestora, um especial empenho na capacitação e supervisão das equipes de saúde da família para o acompanhamento do uso de medicamentos e para a realização de prescrições adequadas, tendo em vista o uso racional dos medicamentos na rede básica. O credenciamento dos CAPS na rede de dispensação de medicamentos não é automático e deverá estar sujeito às normas locais da vigilância sanitária, da saúde mental e da assistência farmacêutica, esperando-se que o princípio de fazer chegar os medicamentos às pessoas que precisam deva prevalecer, em detrimento de normas ideais dissociadas da realidade concreta. 11. O QUE SÃO OFICINAS TERAPÊUTICAS? As oficinas terapêuticas são uma das principais formas de tratamento oferecido nos CAPS. Os CAPS têm, freqüentemente, mais de um tipo de oficina terapêutica. Essas oficinas são atividades realizadas em grupo com a presença e orientação de um ou mais profissionais, monitores e/ou estagiários. Elas realizam vários tipos de atividades que podem ser definidas através do interesse dos usuários, das possibilidades dos técnicos do serviço, das necessidades, tendo em vista a maior integração social e familiar, a manifestação de sentimentos e problemas, o desenvolvimento de habilidades corporais, a realização de atividades produtivas, o exercício coletivo da cidadania. De um modo geral, as oficinas terapêuticas podem ser: • Oficinas expressivas: espaços de expressão plástica (pintura, argila, desenho etc.), expressão corporal (dança, ginástica e técnicas teatrais), expressão verbal (poesia, contos, leitura e redação de textos, de peças teatrais e de letras de música), expressão musical (atividades musicais), fotografia, teatro. • Oficinas geradoras de renda: servem como instrumento de geração de renda através do aprendizado de uma atividade específica, que pode ser igual ou diferente da profissão do usuário. As oficinas geradoras de renda podem ser de: culinária, marcenaria, costura, fotocópias, venda de livros, fabricação de velas, artesanato em geral, cerâmica, bijuterias, brechó, etc. 1 Portaria GM/MS 1.077, de agosto de 1999. 2 A Portaria SAS/MS nº 345, de 15/5/2002, estabelece Protocolo Único e Diretrizes Terapêuticas para o tratamento da esquizofrenia refratária. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM20 20 21 • Oficinas de alfabetização: esse tipo de oficina contribui para que os usuários que não tiveram acesso ou que não puderam permanecer na escola possam exercitar a escrita e a leitura, como um recurso importante na (re)construção da cidadania. 12. QUAIS AS OUTRAS ATIVIDADES QUE UM CAPS PODE REALIZAR? São atividades comuns nos CAPS: • Tratamento medicamentoso: tratamento realizado com remédios chamados medicamentos psicoativos ou psicofármacos. • Atendimento a grupo de familiares: reunião de famílias para criar laços de solidariedade entre elas, discutir problemas em comum, enfrentar as situações difíceis, receber orientação sobre diagnóstico e sobre sua participação no projeto terapêutico. • Atendimento individualizadoa famílias: atendimentos a uma família ou a membro de uma família que precise de orientação e acompanhamento em situações rotineiras, ou em momentos críticos. • Orientação: conversa e assessoramento individual ou em grupo sobre algum tema específico, por exemplo, o uso de drogas. • Atendimento psicoterápico: encontros individuais ou em grupo onde são utilizados os conhecimentos e as técnicas da psicoterapia. • Atividades comunitárias: atividades que utilizam os recursos da comunidade e que envolvem pessoas, instituições ou grupos organizados que atuam na comunidade. Exemplo: festa junina do bairro, feiras, quermesses, campeonatos esportivos, passeios a parques e cinema, entre outras. A le xa nd re R aj ão . S em n om e. 19 95 . D es en ho /C ol ag em e m p ap el . U su ár io d e C en tr o de A te nç ão P si co ss oc ia l. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM21 22 23 • Atividades de suporte social: projetos de inserção no trabalho, articulação com os serviços residenciais terapêuticos, atividades de lazer, encaminhamentos para a entrada na rede de ensino, para obtenção de documentos e apoio para o exercício de direitos civis através da formação de associações de usuários e/ou familiares. • Oficinas culturais: atividades constantes que procuram despertar no usuário um maior interesse pelos espaços de cultura (monumentos, prédios históricos, saraus musicais, festas anuais etc.) de seu bairro ou cidade, promovendo maior integração de usuários e familiares com seu lugar de moradia. • Visitas domiciliares: atendimento realizado por um profissional do CAPS aos usuários e/ou familiares em casa. • Desintoxicação ambulatorial: conjunto de procedimentos destinados ao tratamento da intoxicação/ abstinência decorrente do uso abusivo de álcool e de outras drogas. 13. TODOS OS CAPS SÃO IGUAIS? Não, os CAPS são diferentes: a) Quanto ao tamanho do equipamento, estrutura física, profissionais e diversidade nas atividades terapêuticas. b) Quanto à especificidade da demanda, isto é, para crianças e adolescentes, usuários de álcool e outras drogas ou para transtornos psicóticos e neuróticos graves. Os diferentes tipos de CAPS são: • CAPS I e CAPS II: são CAPS para atendimento diário de adultos, em sua população de abrangência, com transtornos mentais severos e persistentes. • CAPS III: são CAPS para atendimento diário e noturno de adultos, durante sete dias da semana, atendendo à população de referência com transtornos mentais severos e persistentes. • CAPSi: CAPS para infância e adolescência, para atendimento diário a crianças e adolescentes com transtornos mentais. • CAPSad: CAPS para usuários de álcool e drogas, para atendimento diário à população com transtornos decorrentes do uso e dependência de substâncias psicoativas, como álcool e outras drogas. Esse tipo de CAPS possui leitos de repouso com a finalidade exclusiva de tratamento de desintoxicação. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM22 22 23 14. COMO É UM CAPS PARA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA (CAPSi)? O CAPSi é um serviço de atenção diária destinado ao atendimento de crianças e adolescentes gravemente comprometidos psiquicamente. Estão incluídos nessa categoria os portadores de autismo, psicoses, neuroses graves e todos aqueles que, por sua condição psíquica, estão impossibilitados de manter ou estabelecer laços sociais. A experiência acumulada em serviços que já funcionavam segundo a lógica da atenção diária indica que ampliam-se as possibilidades do tratamento para crianças e adolescentes quando o atendimento tem início o mais cedo possível, devendo, portanto, os CAPSi estabelecerem as parcerias necessárias com a rede de saúde, educação e assistência social ligadas ao cuidado da população infanto-juvenil. As psicoses da infância e o autismo infantil são condições clínicas para as quais não se conhece uma causa isolada que possa ser responsabilizada por sua ocorrência. Apesar disso, a experiência permite indicar algumas situações que favorecem as possibilidades de melhora, principalmente quando o atendimento tem início o mais cedo possível, observando-se as seguintes condições: • O tratamento tem mais probabilidade de sucesso quando a criança ou adolescente é mantida em seu ambiente doméstico e familiar. • As famílias devem fazer parte integrante do tratamento, quando possível, pois observa-se maior dificuldade de melhora quando se trata a criança ou adolescente isoladamente. • O tratamento deve ter sempre estratégias e objetivos múltiplos, preocupando-se com a atenção integral a essas crianças e adolescentes, o que envolve ações não somente no âmbito da clínica, mas também ações intersetoriais. É preciso envolver-se com as questões das relações familiares, afetivas, comunitárias, com a justiça, a educação, a saúde, a assistência, a moradia etc. A melhoria das condições gerais dos ambientes onde vivem as crianças e os adolescentes tem sido associada a uma melhor evolução clínica para alguns casos. • As equipes técnicas devem atuar sempre de forma interdisciplinar, permitindo um enfoque ampliado dos problemas, recomendando-se a participação de médicos com experiência no atendimento infantil, psicólogos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, assistentes sociais, para formar uma equipe mínima de trabalho. A experiência de trabalho com famílias também deve fazer parte da formação da equipe. • Deve-se ter em mente que no tratamento dessas crianças e adolescentes, mesmo quando não é possível trabalhar com a hipótese de remissão total do problema, a obtenção de progressos no nível de desenvolvimento, em qualquer aspecto de sua vida mental, pode significar melhora importante nas condições de vida para eles e suas famílias. • Atividades de inclusão social em geral e escolar em particular devem ser parte integrante dos projetos terapêuticos. Em geral, as atividades desenvolvidas nos CAPSi são as mesmas oferecidas nos CAPS, como atendimento individual, atendimento grupal, atendimento familiar, visitas domiciliares, atividades de inserção social, oficinas terapêuticas, atividades socioculturais e esportivas, atividades externas. Elas devem ser dirigidas para a faixa etária a quem se destina atender. Assim, por exemplo, as atividades de inserção social devem privilegiar aquelas relacionadas à escola. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM23 24 25 15. COMO É UM CAPS PARA CUIDAR DE USUÁRIOS DE ÁLCOOL E DROGAS (CAPSad)? Os CAPS I, II e III destinam-se a pacientes com transtornos mentais severos e persistentes, nos quais o uso de álcool e outras drogas é secundário à condição clínica de transtorno mental. Para pacientes cujo principal problema é o uso prejudicial de álcool e outras drogas passam a existir, a partir de 2002, os CAPSad. Os CAPSad devem oferecer atendimento diário a pacientes que fazem um uso prejudicial de álcool e outras drogas, permitindo o planejamento terapêutico dentro de uma perspectiva individualizada de evolução contínua. Possibilita ainda intervenções precoces, limitando o estigma associado ao tratamento. Assim, a rede proposta se baseia nesses serviços comunitários, apoiados por leitos psiquiátricos em hospital geral e outras práticas de atenção comunitária (ex.: internação domiciliar, inserção comunitária de serviços), de acordo com as necessidades da população-alvo dos trabalhos. Os CAPSad desenvolvem uma gama de atividades que vão desde o atendimento individual (medicamentoso, psicoterápico, de orientação, entre outros) até atendimentos em grupo ou oficinas terapêuticas e visitas domiciliares. Também devem oferecer condições para o repouso, bem como para a desintoxicação ambulatorial de pacientes que necessitem desse tipo de cuidados e que não demandem por atenção clínica hospitalar. 16. COMO O CAPSad PODE ATUAR DE FORMA PREVENTIVA? A prevenção voltadapara o uso abusivo e/ou dependência de álcool e outras drogas pode ser definida como um processo de planejamento, implantação e implementação de múltiplas estratégias voltadas para a redução dos fatores de risco específicos e fortalecimento dos fatores de proteção. Implica necessariamente a inserção comunitária das práticas propostas, com a colaboração de todos os segmentos sociais disponíveis. A prevenção teria como objetivo impedir o uso de substâncias psicoativas pela primeira vez, impedir uma “escalada” do uso e minimizar as conseqüências de tal uso. A lógica que sustenta tal planejamento deve ser a da Redução de Danos, em uma ampla perspectiva de práticas voltadas para minimizar as conseqüências globais de uso de álcool e drogas. O planejamento de programas assistenciais de menor exigência contempla uma parcela maior da população, dentro de uma perspectiva de saúde pública, o que encontra o devido respaldo em propostas mais flexíveis, que não tenham a abstinência total como a única meta viável e possível aos usuários dos serviços CAPSad. As estratégias de prevenção devem contemplar a utilização combinada dos seguintes elementos: fornecimento de informações sobre os danos do álcool e outras drogas, alternativas para lazer e atividades livres de drogas; devem também facilitar a identificação de problemas pessoais e o acesso ao suporte para tais problemas. Devem buscar principalmente o fortalecimento de vínculos afetivos, o estreitamento de laços sociais e a melhora da auto- estima das pessoas. Os CAPSad devem construir articulações consistentes com os Hospitais Gerais de seu território, para servirem de suporte ao tratamento, quando necessário. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM24 24 25 17. QUAL A RELAÇÃO DOS CAPS COM A REDE BÁSICA DE SAÚDE? Rede e território são dois conceitos fundamentais para o entendimento do papel estratégico dos CAPS e isso se aplica também à sua relação com a rede básica de saúde. A Reforma Psiquiátrica consiste no progressivo deslocamento do centro do cuidado para fora do hospital, em direção à comunidade, e os CAPS são os dispositivos estratégicos desse movimento. Entretanto, é a rede básica de saúde o lugar privilegiado de construção de uma nova lógica de atendimento e de relação com os transtornos mentais. A rede básica de saúde se constitui pelos centros ou unidades de saúde locais e/ou regionais, pelo Programa de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde, que atuam na comunidade de sua área de abrangência. Esses profissionais e equipes são pessoas que estão próximas e que possuem a responsabilidade pela atenção à saúde da população daquele território. Os CAPS devem buscar uma integração permanente com as equipes da rede básica de saúde em seu território, pois têm um papel fundamental no acompanhamento, na capacitação e no apoio para o trabalho dessas equipes com as pessoas com transtornos mentais. Que significa esta integração? O CAPS precisa: a) conhecer e interagir com as equipes de atenção básica de seu território; b) estabelecer iniciativas conjuntas de levantamento de dados relevantes sobre os principais problemas e necessidades de saúde mental no território; c) realizar apoio matricial às equipes da atenção básica, isto é, fornecer-lhes orientação e supervisão, atender conjuntamente situações mais complexas, realizar visitas domiciliares acompanhadas das equipes da atenção básica, atender casos complexos por solicitação da atenção básica; d) realizar atividades de educação permanente (capacitação, supervisão) sobre saúde mental, em cooperação com as equipes da atenção básica. Este “apoio matricial” é completamente diferente da lógica do encaminhamento ou da referência e contra-referência no sentido estrito, porque significa a responsabilidade compartilhada dos casos. Quando o território for constituído por uma grande população de abrangência, é importante que o CAPS discuta com o gestor local a possibilidade de acrescentar a seu corpo funcional uma ou mais equipes de saúde mental, destinadas a realizar essas atividades de apoio à rede básica. Essas atividades não devem assumir características de uma “especialização”, devem estar integradas completamente ao funcionamento geral do CAPS. As atuais diretrizes orientam que, onde houver cobertura do Programa de Saúde da Família, deverá haver uma equipe de apoio matricial em saúde mental para no mínimo seis e no máximo nove equipes de PSF. Leia, no Anexo, o documento “Saúde Mental e Atenção Básica – o vínculo e o diálogo necessários”, elaborado conjuntamente pelas áreas de saúde mental e de atenção básica do Ministério da Saúde. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM25 26 27 18. QUAIS AS PESSOAS QUE TRABALHAM NO CAPS? Os profissionais que trabalham nos CAPS possuem diversas formações e integram uma equipe multiprofissional. É um grupo de diferentes técnicos de nível superior e de nível médio. Os profissionais de nível superior são: enfermeiros, médicos, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, pedagogos, professores de educação física ou outros necessários para as atividades oferecidas nos CAPS. Os profissionais de nível médio podem ser: técnicos e/ou auxiliares de enfermagem, técnicos administrativos, educadores e artesãos. Os CAPS contam ainda com equipes de limpeza e de cozinha. Todos os CAPS devem obedecer à exigência da diversidade profissional e cada tipo de CAPS (CAPS I, CAPS II, CAPS III, CAPSi e CAPSad) tem suas próprias características quanto aos tipos e à quantidade de profissionais. Tipos de profissionais que trabalham nos CAPS – Equipes mínimas CAPS I • 1 médico psiquiatra ou médico com formação em saúde mental • 1 enfermeiro • 3 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 4 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS II • 1 médico psiquiatra • 1 enfermeiro com formação em saúde mental • 4 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo, professor de educação física ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPS III • 2 médicos psiquiatras • 1 enfermeiro com formação em saúde mental • 5 profissionais de nível superior de outras categorias profissionais: psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário de nível superior • 8 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM26 26 27 CAPSi • 1 médico psiquiatra, ou neurologista ou pediatra com formação em saúde mental • 1 enfermeiro • 4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 5 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão CAPSad • 1 médico psiquiatra • 1 enfermeiro com formação em saúde mental • 1 médico clínico, responsável pela triagem, avaliação e acompanhamento das intercorrências clínicas • 4 profissionais de nível superior entre as seguintes categorias profissionais: psicólogo, assistente social, enfermeiro, terapeuta ocupacional, pedagogo ou outro profissional necessário ao projeto terapêutico • 6 profissionais de nível médio: técnico e/ou auxiliar de enfermagem, técnico administrativo, técnico educacional e artesão As equipes técnicas devem organizar-separa acolher os usuários, desenvolver os projetos terapêuticos, trabalhar nas atividades de reabilitação psicossocial, compartilhar do espaço de convivência do serviço e poder equacionar problemas inesperados e outras questões que porventura demandem providências imediatas, durante todo o período de funcionamento da unidade. O papel da equipe técnica é fundamental para a organização, desenvolvimento e manutenção do ambiente terapêutico. A duração da permanência dos usuários no atendimento dos CAPS depende de muitas variáveis, desde o comprometimento psíquico do usuário até o projeto terapêutico traçado, e a rede de apoio familiar e social que se pode estabelecer. O importante é saber que o CAPS não deve ser um lugar que desenvolve a dependência do usuário ao seu tratamento por toda a vida. O processo de reconstrução dos laços sociais, familiares e comunitários, que vão possibilitar a autonomia, deve ser cuidadosamente preparado e ocorrer de forma gradativa. Para isso, é importante lembrar que o CAPS precisa estar inserido em uma rede articulada de serviços e organizações que se propõem a oferecer um continuum de cuidados. É importante ressaltar que os vínculos terapêuticos estabelecidos pelos usuários com os profissionais e com o serviço, durante a permanência no CAPS, podem ser parcialmente mantidos em esquema flexível, o que pode facilitar a trajetória com mais segurança em direção à comunidade, ao seu território reconstruído e re-significado. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM27 28 29 19. DE QUE FORMA OS USUÁRIOS PODEM CONTRIBUIR COM O FUNCIONAMENTO DO CAPS? O protagonismo dos usuários é fundamental para que se alcancem os objetivos dos CAPS, como dispositivos de promoção da saúde e da reabilitação psicossocial. Os usuários devem ser chamados a participar das discussões sobre as atividades terapêuticas do serviço. A equipe técnica pode favorecer a apropriação, pelos usuários, do seu próprio projeto terapêutico através do Terapeuta de Referência, que é uma pessoa fundamental para esse processo e precisa pensar sobre o vínculo que o usuário está estabelecendo com o serviço e com os profissionais e estimulá-lo a participar de forma ativa de seu tratamento e da construção de laços sociais. Os usuários devem procurar os técnicos para tirar dúvidas e pedir orientação sempre que precisarem, entrando direta ou indiretamente em contato com o CAPS mesmo quando não estiverem em condições de ir ao serviço. A participação dos usuários nas Assembléias muitas vezes é um bom indicador da forma como eles estão se relacionando com o CAPS. As associações de usuários e/ou familiares muitas vezes surgem dessas assembléias que vão questionando as necessidades do serviço e dos usuários. Os usuários devem ser incentivados a criar suas associações ou cooperativas, onde possam, através da organização, discutir seus problemas comuns e buscar soluções coletivas para questões sociais e de direitos essenciais, que ultrapassam as possibilidades de atuação dos CAPS. As organizações de usuários e/ou familiares têm cumprido um importante papel na mudança do modelo assistencial no Brasil, participando ativamente da discussão sobre os serviços de saúde mental e promovendo atividades que visam a maior inserção social, a geração de renda e trabalho e a garantia de seus direitos sociais. Es cu lt ur as p ro du zi da s po r u su ár io s do C A PS P on ta d o C or al – F lo ria nó po lis . ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM28 28 29 20. DE QUE FORMA OS FAMILIARES PODEM PARTICIPAR DAS ATIVIDADES DOS CAPS? Um dos objetivos do CAPS é incentivar que as famílias participem da melhor forma possível do quotidiano dos serviços. Os familiares são, muitas vezes, o elo mais próximo que os usuários têm com o mundo e por isso são pessoas muito importantes para o trabalho dos CAPS. Os familiares podem participar dos CAPS, não somente incentivando o usuário a se envolver no projeto terapêutico, mas também participando diretamente das atividades do serviço, tanto internas como nos projetos de trabalho e ações comunitárias de integração social. Os familiares são considerados pelos CAPS como parceiros no tratamento. A presença no atendimento oferecido aos familiares e nas reuniões e assembléias, trazendo dúvidas e sugestões, também é uma forma de os familiares participarem, conhecerem o trabalho dos CAPS e passarem a se envolver de forma ativa no processo terapêutico. Os familiares também têm criado associações, com outros familiares e/ou usuários, que podem ser um importante instrumento de promoção da saúde e da cidadania de todos os envolvidos. 21. DE QUE FORMA A COMUNIDADE EM GERAL PODE PARTICIPAR DO CAPS? A comunidade é um conjunto de pessoas, associações e equipamentos que fazem existir a vida numa certa localidade. A articulação entre CAPS e comunidade é, portanto, fundamental. A comunidade – serviços públicos das áreas da educação, do esporte e lazer, do trabalho, associações de moradores, clube de mães, associações comunitárias, voluntários – poderá ser parceira dos CAPS através de doações, cessão de instalações, prestação de serviços, instrução ou treinamento em algum assunto ou ofício, realização conjunta de um evento especial (uma festa, por exemplo), realização conjunta de projeto mais longo, participação nas atividades rotineiras do serviço. Com essas parcerias e ações, a comunidade produz um grande e variado conjunto de relações de troca, o que é bom para a própria comunidade e para todos do CAPS. As parcerias ajudam a toda a comunidade a reforçar seus laços sociais e afetivos e produzem maior inclusão social de seus membros. Por isso a participação da comunidade é muito importante para a criação de uma rede de saúde mental. O CAPS deve ser parte integrante da comunidade, de sua vida diária e de suas atividades culturais. ManualCapsFinal 5/31/04, 6:33 PM29 Paulo Dalgalarrondo88 se volta para a realidade. Na rela- ção do Eu com o meio ambiente, a consciência é a capacidade de o indivíduo entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus objetos. 3. A definição ético-filosófica é uti- lizada mais freqüentemente no campo da ética, da filosofia, do di- reito ou da teologia. O termo cons- ciência refere-se à capacidade de tomar ciência dos deveres éticos e assumir as responsabilidades, os direitos e os deveres concernentes a essa ética. Assim, a consciência ético-filosófica é atributo do ho- mem desenvolvido e responsável, engajado na dinâmica social de de- terminada cultura. Trata-se da consciência moral ou ética. Uma corrente filosófica que se ocu- pou de modo particular da consciência foi a fenomenologia, desenvolvida pelo filó- sofo Edmund Husserl (1859-1938). A psi- cologia clássica, com base na teoria sensua- lista-empirista, compreendia a consciência como algo passivo, uma tábula rasa ou papel em branco no qual os objetos do mundo penetram e imprimem suas mar- DEFINIÇÕES BÁSICAS O termo consciência origina-se da junção de dois vocábulos latinos: cum (com) e scio (conhecer), indicando o conhecimento compartilhado com outro e, por extensão, o conhecimento “compartilhado consigo mesmo”, apropriado pelo indivíduo (Ze- man; Grayling; Cowey, 1997). Na língua portuguesa, a palavra consciência tem, pelo menos, três acepções diferentes: 1. A definição neuropsicológica emprega o termo consciência no sentido de estado vígil (vigilân- cia), o que, de certa forma, iguala a consciência ao grau de clareza do sensório. Consciência aqui é fundamentalmente o estado de estar desperto, acordado, vígil, lúcido. Trata-se especificamente do nível de consciência. 2. A definição psicológica a con- ceitua como a soma total das ex- periências conscientes de um in- divíduo em determinado momen- to. Nesse sentido, consciência é o que se designa campo da consciên- cia. É a dimensão subjetiva da atividade psíquica do sujeito que 10 A consciência e suas alterações Psicopatologia e semiologiados transtornos mentais 89 cas, formando as imagens e as representa- ções. Husserl propõe inverter essa visão meramente passiva da consciência; para ele, o fundamental da consciência é ser profundamente “ativa”, visando o mundo e produzindo sentido para os objetos que se lhe apresentam. Não existiria, então, uma consciência pura, pois ela é necessa- riamente “consciência de algo”. A intencio- nalidade, isto é, o visar algo, o dirigir-se aos objetos, de modo ativo e produtivo, é próprio da consciência na visão fenomeno- lógica (Penha, 1991). John Searle (2000) talvez seja um dos filósofos contemporâneos que mais tem se dedicado ao estudo da consciência. Ele res- salta a importância de articular conceitual- mente a consciência com a busca das neurociências contemporâneas de corre- latos neuronais dos estados de consciência (CNEC). O aspecto fundamental da cons- ciência que se deve tentar explicar, segun- do ele, é seu caráter de unidade qualitati- va subjetiva. Mas o que vem a ser isso? Todo estado de consciência vem acompanhado de um sentimento qualita- tivo especial. A experiência de beber uma cerveja com os amigos é muito diferente da de ouvir uma sinfonia de Beethoven, e ambas são distintas de sentir o perfume de uma mulher bonita ou de ver o crepúsculo na praia. Esses exemplos revelam o caráter qualitativo das experiências conscientes. Experimentar os estados de consciência é também algo essencialmente subjetivo. A experiência da consciência é sempre reali- zada em um sujeito, vivenciada na primei- ra pessoa; sem subjetividade, não há expe- riência consciente, diz Searle. Por fim, os estados de consciência são experimentados como um campo de consciência unifica- do. Assim, unidade, subjetividade e cará- ter qualitativo são as marcas da experiên- cia dos estados de consciência. Searle (2000) ainda acrescenta outras características aos estados de consciência. Segundo ele, esses estados são sempre vivenciados com caráter prazeroso ou desprazível, como experiências totais e globalizantes (caráter gestáltico) e com um senso de familiaridade que impregna todas as experiências conscientes (mesmo quando vejo uma casa que nunca vi antes, ainda reconheço que é uma casa, sua for- ma e estrutura me são familiares). Os pin- tores surrealistas tentaram quebrar tal sen- so de familiaridade, mas mesmo um reló- gio derretendo nos remete à estrutura fa- miliar de um relógio. Este capítulo, entretanto, não se apro- funda nos aspectos filosóficos da consciên- cia humana (recomenda-se, nesse sentido, assim como o texto de Searle [2000], o tra- balho de Nagel [1974]). Serão abordados apenas os seus aspectos psicológicos e, prin- cipalmente, neuropsicológicos. NEUROPSICOLOGIA DA CONSCIÊNCIA O conceito de sistema reticular ativador ascendente (SRAA), desenvolvido por Moruzzi e Magoun (1949), afirma que a capacidade de estar desperto e agir cons- cientemente depende da atividade do tronco cerebral e do diencéfalo, os quais exercem poderosa influência sobre os he- misférios cerebrais, ativando-os e manten- do o tônus necessário para seu funciona- mento normal. O SRAA se origina no tron- co cerebral, e sua ação se estende até o córtex, por meio de projeções talâmicas. Elementos do SRAA particularmente im- portantes para a ativação cortical são os neurônios da parte superior da ponte e os do mesencéfalo. Tais neurônios recebem impulsos da maioria das vias ascenden- tes, as quais trazem estímulos intrínsecos (proprioceptivos e viscerais) e extrínsecos (órgãos dos sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato). Lesões ou disfunções no Paulo Dalgalarrondo90 SRAA produzem alterações do nível de consciência e prejuízo a todas as funções psíquicas. Embora a importância do SRAA para o nível de consciência seja aceita até hoje, sabe-se agora que várias estruturas mais altas, do telencéfalo, têm participação crí- tica na gênese da consciência. Verificou- se, por exemplo, que a ação sincrônica de numerosas áreas corticais visuais, que contêm amplas redes neuronais bidire- cionais, é uma pré-condição para a visão consciente. É de fundamental importância, para a atividade mental consciente, a ativida- de do lobo parietal direito, o qual está intimamente relacionado ao reconheci- mento do próprio corpo, dos objetos e do mundo, assim como da apreensão daqui- lo que, convencionalmente, se denomina realidade. Também as áreas pré-frontais são fundamentais na organização da ati- vidade mental consciente. Finalmente, re- conhece-se a importância das interações talamocorticais na ativação e na integra- ção da atividade neuronal cortical rela- cionada à consciência (Zeman; Grayling; Cowey, 1997). Nos anos 1990, o cientista Francis Crick, que formulou, com James Watson, a tese do DNA como dupla hélice, também propôs, juntamente com o neurocientista Cristof Koch, uma hipótese original para dar conta da consciência. Eles propuseram que a consciência emergiria relacionada aos disparos sincronizados dos neurônios do tálamo e das camadas quatro e seis do córtex cerebral, em ritmo de 40 vezes por segundo. Apesar do caráter ambicioso da proposta de Crick e Koch (1998), a maioria dos neurocientistas concorda que é extre- mamente difícil encontrar os correlatos neuronais da emergência dessa experiên- cia humana chamada consciência. Estão relacionados a alterações do nível da consciência na síndrome deno- minada delirium (que veremos adiante) as regiões do córtex parietal posterior di- reito superficial, o córtex pré-frontal bi- lateral, o córtex fusiforme (ventromedial temporoparietal), o giro lingual, o tálamo anterior direito e os núcleos basais. Também têm sido reconhecidas as conexões talamofrontais e temporolímbicas frontais, em nível subcortical, como impor- tantes na gênese dos quadros de delirium (Trzepacz; Meagher; Wise, 2006). Assim, pode-se concluir que, além do SRAA, também o tálamo e as regiões do córtex parietal direito e pré-frontal direito têm impor- tância estratégica para o funcionamen- to da consciência, sobretudo no seu aspec- to de nível de consciência. O tálamo é uma estrutura posicionada singularmente no centro do cérebro para filtrar, integrar e regular as informações que chegam ao cé- rebro, dados que partem do tronco cere- bral e se dirigem ao córtex e ao subcórtex. O tálamo é também extensiva e reciproca- mente interligado a todas as áreas do córtex cerebral, de forma que uma peque- na lesão talâmica pode produzir graves al- terações do nível de consciência, como, por exemplo, o delirium (Trzepacz; Meagher; Wise, 2006). Finalmente, deve-se ressal- tar a importância das estruturas encefálicas do lado direito (parietais, frontais e mes- mo talâmicas) na origem dos transtornos da consciência. CAMPO DA CONSCIÊNCIA Ao voltar-se para a realidade, a consciên- cia demarca um campo, no qual se pode delimitar um foco, ou parte central mais iluminada da consciência, e uma margem Além do SRAA, tam- bém o tálamo e as re- giões do córtex pa- rietal direito e pré- frontal direito têm im- portância estratégica para o funcionamen- to da consciência. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 91 (franja ou umbral), que seria a periferia menos iluminada, mais nebulosa, da cons- ciência. Segundo a psicopatologia clássi- ca, é na margem da consciência que sur- gem os chamados automatismos mentais e os estados ditos subliminares. O inconsciente Agora porém, o caminho é escuro. Passa- mos da consciência para a inconsciência, onde se faz a elaboração confusa das idéias, onde as reminiscências dormem ou cochilam. Aqui pulula a vida sem formas, os gérmens e os detritos, os rudimentos e os sedimentos; é o desvão imenso do es- pírito. Machado de Assis (O Cônego ou metafísica do estilo, em Várias histórias, 1896) O conceito de inconsciente eficaz, di- nâmico e determinante da vida psíquica é um dos pilares mais importantes da psica- nálise e da psiquiatria dita dinâmica.Já no final do século XIX, Freud e Breuer (1895), pesquisando com a hipno- se os conteúdos esquecidos, reprimidos, de seus pacientes, verificaram que certas idéi- as que surgiam em estado hipnótico eram intensas, mas isoladas da comunicação associativa com o restante do conteúdo da consciência, organizando-se, então, como uma segunda consciência. Perceberam que, em pacientes histéricos, os atos podem ser regidos por essa outra vontade que não a consciente. Freud chegou à conclusão, ao longo de suas pesquisas, de que existem duas clas- ses de inconsciente: o verdadeiro incons- ciente e o inconsciente pré-consciente. O in- consciente verdadeiro é fundamentalmen- te incapaz de consciência. Já o pré-conscien- te é composto por representações, idéias e sentimentos suscetíveis de serem recupera- dos por meio de esforço voluntário: fatos, lembranças, idéias que esquecemos, deixa- mos de lado, mas que se pode, a qualquer hora, evocar voluntariamente. Por sua vez, o inconsciente verdadeiro é muito diferen- te, inacessível à evocação voluntária, só tem acesso à via pré-consciente e apenas por meio de uma técnica especial (hipnose, psi- canálise, etc.) pode tornar-se consciente. A rigor, para Freud, o inconsciente verdadei- ro só se revela por meio de subprodutos que surgem na consciência, as chamadas forma- ções do inconsciente: os sonhos, os atos fa- lhos, os chistes e os sintomas neuróticos. Em seu verbete sobre psicanálise, na Enciclopédia Britânica, Freud [1926] (1994, p. 104-105) aproxima o inconsciente ao con- junto de conteúdos recalcados, excluídos da consciência: Há, na mente, uma força que exerce as funções de uma censura e exclui da cons- ciência e de qualquer influência sobre a ação todas as tendências que a desagra- dam. Chamamos então essas tendências de “recalcadas”. Elas permanecem incons- cientes e, se o médico tenta trazê-las à consciência do paciente, provoca “resis- tência”. Esses impulsos instintivos recalca- dos não têm, contudo, seu poder anulado por esse processo. Em muitos casos, con- seguem fazer sentir sua influência por caminhos tortuosos, e a satisfação indire- ta ou substitutiva de impulsos recalcados é o que cria os sintomas neuróticos. Características funcionais do inconsciente Para Freud, o inconsciente é bem mais do que um simples estado mental fora da cons- ciência. Ele é, embora obscuro, a estrutura mental mais importante do psiquismo hu- mano. Segundo ele, o sistema inconscien- te funciona regido pelo princípio do pra- zer por meio do processo primário em for- ma de condensação e deslocamento. É, também, isento de contradições mútuas e Paulo Dalgalarrondo92 não possui referência ao tempo. Explican- do melhor: 1. Atemporalidade. No inconscien- te, não existe tempo; ele é atem- poral. Os processos inconscientes não são ordenados temporalmen- te, não se alteram com a passagem do tempo, não têm qualquer refe- rência ao tempo. Não existe, aqui, passado, presente ou futuro. 2. Isenção de contradição. No sis- tema inconsciente, não há lugar para negação ou dúvida, nem graus diversos de certeza ou incer- teza. Tudo é absolutamente certo, afirmativo. 3. Princípio do prazer. O funcio- namento do inconsciente não se- gue as ordens da realidade, sub- mete-se apenas ao princípio do prazer. Toda a atividade incons- ciente visa evitar o desprazer e proporcionar o prazer, indepen- dentemente de exigências éticas ou realistas. A busca do prazer se dá por meio da descarga das exci- tações, diminuindo-se ao máximo a carga de excitações no aparelho psíquico. 4. Processo primário. As cargas energéticas (catexias) acopladas às representações psíquicas, às idéias, são totalmente móveis. Uma idéia pode ceder à outra toda a sua cota de energia (processo de deslocamento) ou apropriar-se de toda a energia de várias outras idéias (processo de condensação). Caráter dinâmico do inconsciente O sentido dinâmico não designa apenas o inconsciente como sede de idéias latentes em geral, mas especialmente como sede de idéias que possuem certo caráter dinâmi- co e atuante. O inconsciente é dinâmico, segundo Freud, na medida em que exerce uma ação per- manente, exigindo de forma permanen- te, para lhe interditar o acesso à consciên- cia. Clinicamente, este caráter dinâmico verifica-se simultaneamente pelo fato de encontrarmos uma resistência para che- garmos ao inconsciente e pela produção renovada de derivados do recalcado. (Laplanche; Pontalis, 1986) ALTERAÇÕES NORMAIS DA CONSCIÊNCIA O sono normal O sono é um estado especial da cons- ciência, que ocorre de forma recorrente e cíclica nos organis- mos superiores (Aya- la-Guerrero, 1994). É também, ao mesmo tempo, um estado comportamental e uma fase fisiológica normal e necessária do or- ganismo. Dividem-se as fases do sono em duas, o sono sincronizado, sem movimen- tos oculares rápidos (sono NREM), e o sono dessincronizado, com movimentos ocula- res rápidos – rapid eye movements (sono REM) (Aloé; Azevedo; Hasan, 2005). O sono sincronizado não-REM ca- racteriza-se por atividade elétrica cerebral síncrona, com elementos eletrencefalográ- ficos próprios, tais como os fusos do sono, os complexos K e ondas lentas de grande amplitude. Há, nesse tipo de sono, dimi- nuição da atividade do sistema nervoso autônomo simpático e aumento relativo do tônus do parassimpático, permanecendo vários parâmetros fisiológicos estáveis em um nível de funcionamento mínimo, tais como as freqüências cardíaca e respiratória, O sono é um estado especial da cons- ciência, que ocorre de forma recorrente e cíclica nos organis- mos superiores. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 93 a pressão arterial, o débito cardíaco e os movimentos intestinais. Durante o sono não-REM, ocorrem quatro estágios: 1. Estágio 1: mais leve e superficial, com atividade regular do eletren- cefalograma (EEG) de baixa vol- tagem, de 4 a 6 ciclos por segun- do (2 a 5% do tempo total de sono). 2. Estágio 2: um pouco menos su- perficial, com traçado do EEG re- velando aspecto fusiforme de 13 a 15 ciclos por segundo (fusos do sono) e algumas espículas de alta voltagem, denominadas comple- xos K (45 a 55% do tempo total de sono). 3. Estágio 3: sono mais profundo, com traçado do EEG mais lentifi- cado, com ondas delta, atividade de 0,5 a 2,5 ciclos por segundo, ondas de alta voltagem (3 a 8% do tempo total de sono). 4. Estágio 4: estágio de sono mais profundo, com predomínio de on- das delta e traçado bem-lentifi- cado. É mais difícil de despertar alguém nos estágios 3 e 4, poden- do o indivíduo apresentar-se con- fuso ao ser despertado (10 a 15% do tempo total de sono). O sono REM, por sua vez, não se en- caixa em nenhuma dessas quatro fases. Sua duração total em uma noite perfaz de 20 a 25% do tempo total de sono. É um estágio peculiar, cujo padrão do EEG é semelhante ao do Estágio 1 do NREM. O sono REM não é, entretanto, um sono leve, tampouco pro- fundo, mas um tipo de sono qualitativamen- te diferente. Caracteriza-se por instabilida- de no sistema nervoso autônomo simpáti- co, com variações das freqüências cardíaca e respiratória, da pressão arterial, do débi- to cardíaco e do fluxo sangüíneo cerebral. No sono REM, há um padrão de mo- vimentos oculares rápidos e conjugados (movimentos oculares sacádicos), bem co- mo um relaxamento muscular profundo e generalizado (atonia muscular), interrom- pido esporadicamente por contrações de pequenos grupos musculares, como os músculos dos olhos. Além de irregularida- de das freqüências cardíaca e respiratória e da pressão sangüínea, ocorrem ereções penianas totais e parciais. É durante o sono REM que ocorre a maior parte dos sonhos, e em 60 a 90% das vezes, se o indivíduo for despertado durante a fase REM, relata- rá que estava sonhando. Durante o sono REM, se dá a ativação das vias neuronais que ligam o tronco cerebral ao córtex occipital (i.e., a área da visão); são as cha-madas ondas ponto-genículo-occipitais. Tal ativação cerebral das áreas occipitais se relaciona ao caráter visual dos sonhos, como será visto adiante. Em uma noite normal de sono, as fa- ses NREM e REM se repetem de forma cíclica a cada 70 a 110 minutos, com 4 a 6 ciclos completos por noite. O sono se ini- cia com o tipo NREM, havendo a sucessão dos Estágios de 1 a 4. O primeiro período REM, que geralmente é bem curto, ocor- re cerca de 70 a 120 minutos após o indi- víduo adormecer. Ao longo da noite, os períodos REM vão se tornando mais fre- qüentes e prolongados, desaparecendo os Estágios 3 e 4. A maior quantidade de sono REM ocorre no último terço da noite, ge- ralmente de madrugada (das 4 às 7h da manhã), momento em que a maioria das pessoas mais sonha. O Estágio 4, de for- ma oposta, ocorre predominantemente no primeiro terço da noite (Tavares; Aloé, 1998). Pessoas com depressão grave e nar- colepsia podem ter a latência – adorme- cimento-primeiro sono REM – bastante di- minuída, implicando geralmente uma in- versão da arquitetura do sono. Paulo Dalgalarrondo94 Várias estruturas neuronais têm sido relacionadas com o controle dos estados de vigília e de sonos NREM e REM. De fun- damental importância na regulação fisio- lógica do sono é o núcleo supraquias- mático, localizado no hipotálamo anterior. Além dele, são também fundamentais es- truturas como a glândula pineal (que se- creta melatonina e funciona como oscilador que controla o ritmo sono-vigília no perío- do de 24 horas), os sistemas reticulares mesencefálicos e bulbares e os geradores de sono REM localizados na ponte. Quimi- camente, neurônios aminérgicos, colinér- gicos e histaminérgicos estão envolvidos de forma mais estreita nos mecanismos neu- ronais do sono (Tavares; Aloé, 1998). O sonho O sonho, fenômeno associado ao sono, pode ser considera- do uma alteração normal da consciên- cia. É, sem dúvida, uma experiência humana fascinante e enig- mática (Hobson, 2002; Domhoff, 2003). Nas mais diversas sociedades, ao longo da história, ele tem exercido grande curiosi- dade, sendo interpretado das mais diver- sas formas. No século XIX, tomou-se o sonho como modelo da loucura, pois, para o francês Moreau de Tours (1804-1884), “a loucura é o sonho do homem acordado”, uma espécie de invasão da vigília pela ati- vidade onírica. Também o antropólogo in- glês Edward Burnett Tylor (1832-1917) formulou a hipótese de que o sonho, com suas visões arrebatadoras, seria a expe- riência humana que teria dado origem à crença em seres espirituais e, posterior- mente, às religiões. Apesar de essas teorias terem sido abandonadas, o sonho perma- nece como uma experiência intrigante a ser desvendada. Para o escritor Gérard de Nerval (1808-1855), o sonho é um modelo fértil para o entendimento da condição huma- na. Em seu pequeno romance Aurélia [1855] (1999), ele diz: O sonho é uma segunda vida. Não posso passar sem um frêmito por estas portas de marfim ou córneas que nos separam do mundo invisível. Os primeiros instan- tes do sono são a imagem da morte; um entorpecimento nebuloso toma nosso pen- samento, e não podemos determinar o ins- tante preciso em que o eu, sob outra for- ma, continua o trabalho de existir. É um subterrâneo vago que se aclara aos pou- cos, e onde saem da sombra e da noite as pálidas figuras gravemente imóveis que habitam a morada dos limbos. Os modernos laboratórios de sono, com a polissonografia do sono (EEG, eletro- culograma, eletromiograma de superfície da região submentoniana e outros regis- tros fisiológicos), têm demostrado que, ao contrário do que se pensava no passado, sonhar não é algo raro, infreqüente. A maioria das pessoas sonha várias vezes durante uma noite, apenas não lembra da maior parte dos seus sonhos, pois se acordarem (ou forem despertadas) após mais de oito minutos de um sono REM (du- rante o qual sonharam), não lembrarão mais do conteúdo do sonho (Oliveira; Amaral, 1997). Os sonhos são vivências predo- minantemente vi- suais, sendo rara a ocorrência de per- cepções auditivas, olfativas ou táteis. Isso se relaciona às ondas ponto-genículo-occipitais que ativam as áreas corticais visuais do lobo occipital durante o sonho. Em sonhos eróticos, po- O sonho, fenômeno associado ao sono, pode ser considerado uma alteração normal da consciência. Os sonhos são vivên- cias predominante- mente visuais, sendo rara a ocorrência de percepções auditivas, olfativas ou táteis. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 95 dem ocorrer sensações de orgasmo. Pesso- as cegas de nascença geralmente relatam sonhos com sensações corporais e de mo- vimento, mas obviamente sem o caráter visual das pessoas que enxergam. Os significados dos conteúdos dos so- nhos permanecem controvertidos. As diver- sas culturas tendem a interpretá-los a par- tir de seus símbolos, crenças religiosas e valores próprios, geralmente tomando-os como mensagens divinas ou demoníacas. No ano de 1900, Freud publicou um de seus mais importantes trabalhos: A in- terpretação do sonho. Nessa obra, ele bus- ca demonstrar que o sonho não é nem um “produto aleatório e sem sentido de um cérebro em condições alteradas de funcio- namento”, nem um “mensageiro de re- cados do além”. O sonho é um fenôme- no psicológico ex- tremamente rico e revelador de desejos e temores, ainda que de forma indire- ta e disfarçada. Enfim, para ele, o conteú- do do sonho tem um sentido. Ao descrever o que chamou de “tra- balho do sonho”, Freud afirma que tal tra- balho transforma os conteúdos latentes (in- conscientes) do sonho original em conteú- dos manifestos (conscientes) do sonho lem- brado. Isso se dá por meio da condensação (fusão de duas ou mais representações), do deslocamento (passagem da energia de uma representação à outra representação) e da figurabilidade (desejos transformam- se em imagens visuais). Esses três meca- nismos servem para disfarçar o desejo re- primido (inconsciente), possibilitando o seu acesso à consciência, ainda que com deformações e restrições, pois existe a cen- sura entre as duas instâncias: inconsciente e consciente/pré-consciente. Dessa forma, para Freud, o sonho é uma solução de com- promisso, o resultado de uma intensa ne- gociação entre o inconsciente (que visa expulsar, forçar os desejos para a consciên- cia) e o consciente (que visa impedir que tais desejos inconscientes emerjam). ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS DA CONSCIÊNCIA A consciência pode se alterar tanto por processos fisiológi- cos, normais, como por processos pato- lógicos. A seguir, são apresentados os quadros patológicos de alteração da consciência. Alterações patológicas quantitativas da consciência: rebaixamento do nível de consciência Em diversos quadros neurológicos e psico- patológicos, o nível de consciência dimi- nui de forma progressiva, desde o estado normal, vígil, desperto, até o estado de coma profundo, no qual não há qualquer resquício de atividade consciente. Os diversos graus de rebaixamento da consciência são: 1. Obnubilação ou turvação da consciência. Trata-se do rebaixa- mento da consciência em grau leve a moderado. À inspeção inicial, o paciente pode já estar claramente sonolento ou parecer desperto, o que dificulta o diagnóstico. De qualquer forma, há sempre dimi- nuição do grau de clareza do sen- sório, com lentidão da compreen- são e dificuldade de concentração. Nota-se que o paciente tem difi- culdade para integrar as informa- ções sensoriais oriundas do am- A consciência pode se alterar tanto por processos fisiológi- cos, normais, como por processos pato- lógicos. O sonho é um fenô- meno psicológico ex- tremamente rico e revelador de desejos e temores, ainda que de forma indireta e disfarçada. Paulo Dalgalarrondo96 biente. Assim, mesmo não se apre- sentando claramente sonolento, observa-se, nos quadros leves de rebaixamento do nível de cons- ciência, que o pacienteencontra- se um tanto perplexo, com a com- preensão dificultada, podendo o pensamento estar já ligeiramente confuso. 2. Sopor. É um estado de marcante turvação da consciência, no qual o paciente pode ser despertado apenas por estímulo enérgico, sobretudo de natureza dolorosa. Aqui, o paciente sempre se mos- tra evidentemente sonolento. Embora ainda possa apresentar reações de defesa, ele é incapaz de qualquer ação espontânea. A psicomotricidade encontra-se mais inibida do que nos estados de obnubilação. O traçado ele- trencefalográfico acha-se global- mente lentificado, podendo sur- gir as ondas mais lentas, do tipo delta e teta. 3. Coma. É o grau mais profundo de rebaixamento do nível de cons- ciência. No estado de coma, não é possível qualquer atividade volun- tária consciente. Além da ausên- cia de qualquer indício de cons- ciência, os seguintes sinais neu- rológicos podem ser verificados: movimentos oculares errantes com desvios lentos e aleatórios, nistagmo, transtornos do olhar conjugado, anormalidades dos re- flexos oculocefálicos (cabeça de boneca) e oculovestibular (caló- rico) e ausência do reflexo de aco- modação. Além disso, dependen- do da topografia e da natureza da lesão neuronal, podem ser obser- vadas rigidez de decorticação ou de decerebração, anormalidades difusas ou focais do EEG com len- tificações importantes e presença de ondas patológicas. Os graus de intensidade de coma são classificados de I a IV: grau I (semicoma), grau II (coma super- ficial), grau III (coma profundo) e grau IV (coma dépassé). Síndromes psicopatológicas associadas ao rebaixamento do nível de consciência Delirium é o termo atual mais adequado para designar a maior parte das síndro- mes confusionais agudas (o termo “pa- ciente confuso”, muito usado em serviços de emergência e enfermarias médicas, re- fere-se a tais síndromes confusionais). Cabe ressaltar que esses termos (síndrome con- fusional e paciente confuso) dão ênfase ao aspecto confuso do pensamento e do dis- curso do paciente (fala incongruente, com conteúdos absurdos e sem articulação ló- gica), um dos traços do delirium, mas não necessariamente o mais importante ou mais freqüente. Daí a opção de utilizar o termo delirium em vez de síndrome confusional. O delirium é uma das síndromes mais fre- qüentes na prática clínica diária, principal- mente em pacientes com doenças somáticas (emergências e enfermarias médicas) e em idosos (Trzepacz; Meagher; Wise, 2006). O delirium diz respeito, portanto, aos vários quadros com rebaixamento leve a moderado do nível de consciência, acom- panhados de desorientação temporoespa- cial, dificuldade de concentração, perple- xidade, ansiedade em graus variáveis, agi- tação ou lentificação psicomotora, discur- so ilógico e confuso e ilusões e/ou alucina- ções, quase sempre visuais. Trata-se de um quadro que oscila muito ao longo do dia. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 97 Geralmente, o paciente está com o sensó- rio claro pela manhã e no início da tarde e seu nível de consciência “afunda” no final da tarde e à noite, surgindo, então, ilusões e alucinações visuais e intensificando-se a desorientação e a confusão do pensamen- to e do discurso. Não se deve confundir delirium (qua- dro sindrômico causado por alteração do nível de consciência, em pacientes com dis- túrbios cerebrais agudos) com o termo de- lírio (idéia delirante; alteração do juízo de realidade encontrada principalmente em psicóticos esquizofrênicos). Estado onírico (état oniroide, dream- like state, oneiroider Zustand) é o termo da psicopatologia clássica (Mayer-Gross, 1924) para designar uma alteração da consciên- cia na qual, paralelamente à turvação da consciência, o indivíduo entra em estado semelhante a um sonho muito vívido (Peters, 1984). Em geral, predomina a ati- vidade alucinatória visual intensa com ca- ráter cênico e fantástico. O indivíduo vê cenas complexas, ricas em detalhes, às ve- zes terríficas, com lutas, matanças, fogo, assaltos, sangue, etc. Há carga emocional marcante na experiência onírica, com an- gústia, terror ou pavor. O doente manifes- ta esse estado onírico angustioso gritando, movimentando-se, debatendo-se na cama e apresentando, às vezes, sudorese profu- sa. Há geralmente amnésia consecutiva ao período em que o doente permaneceu nes- se estado onírico. Tal estado ocorre devido a psicoses tóxicas, síndromes de abstinên- cia a substâncias (com maior freqüência no delirium tremens) e quadros febris tóxico- infecciosos. Alguns autores descrevem es- tados oníricos em pacientes psicóticos (esquizofrenia, mania e depressão psicó- ticas), mas, nessa acepção, eles não têm sido mais utilizados. O estado onírico ou estado tipo-sonho tem sido cada vez mais absorvido pela categoria ampla do delirium. O termo amência era utilizado na psi- quiatria clássica (Meynert, 1890) para de- signar quadros mais ou menos intensos de confusão mental por rebaixamento do ní- vel de consciência, com excitação psico- motora, marcada incoerência do pensa- mento, perplexidade e sintomas alu- cinatórios com aspecto de sonho (oniróide) (Peters, 1984). Assim como para o estado onírico, atualmente se tende a designar a amência com o termo delirium. Alterações qualitativas da consciência Além dos diversos estados de redução glo- bal do nível de consciência, a observação psicopatológica registra uma série de esta- dos alterados da consciência, nos quais se tem mudança parcial ou focal do campo da consciência. Uma parte do campo da consciência está preservada, normal, e ou- tra parte, alterada. De modo geral, há qua- se sempre, nas alterações qualitativas da consciência, algum grau de rebaixamento (mesmo que mínimo) do nível de cons- ciência (Sims, 1995). Trata-se de uma área muito contro- versa da semiologia psiquiátrica e da psi- copatologia. Os neurologistas tendem a denominar tais alterações de distúrbios focais ou do conteúdo da consciência, en- quanto os psiquiatras as definem como al- terações qualitativas da consciência. Têm-se, então, as seguintes altera- ções qualitativas da consciência: 1. Estados crepusculares (état cre- pusculaire, twilight state, Dämmer- zustand). É um estado patológico transitório no qual uma obnubi- lação da consciência (mais ou menos perceptível) é acompanha- da de relativa conservação da ati- Paulo Dalgalarrondo98 vidade motora coordenada (Porot, 1967). Nos estados crepusculares, há, portanto, estreitamento tran- sitório do campo da consciência, afunilamento da consciência (que se restringe a um círculo de idéias, sentimentos ou representações de importância particular para o su- jeito acometido), com a conser- vação de uma atividade psico- motora global mais ou menos co- ordenada, permitindo a ocorrên- cia dos chamados atos automáti- cos (Peters, 1984). O estado cre- puscular caracteriza-se por surgir e desaparecer de forma abrupta e ter duração variável, de poucos minutos ou horas a algumas sema- nas (Sims, 1995). Durante esse es- tado, ocorrem, com certa freqüên- cia, atos explosivos violentos e episódios de descontrole emocio- nal (podendo haver implicações legais de interesse à psicologia e à psiquiatria forense). Geralmente ocorre amnésia lacunar para o epi- sódio inteiro, podendo o indivíduo se lembrar de alguns fragmentos isolados. Os estados crepusculares foram descritos classicamente co- mo associados à epilepsia (rela- cionados à turvação da consciên- cia após uma crise ou a alterações pré-ictais ou ictais), mas também podem ocorrer em intoxicações por álcool ou outras substâncias, após traumatismo craniano, em quadros dissociativos histéricos agudos e, eventualmente, após choques emocionais intensos (Pe- ters, 1984). 2. Estado segundo. Estado patoló- gico transitório semelhante ao es- tado crepuscular, caracterizado por uma atividade psicomotora co- ordenada, a qual, entretanto, per- manece estranhaà personalidade do sujeito acometido e não se in- tegra a ela. Com certa freqüência, alguns autores utilizam os termos “estado segundo” e “estado cre- puscular” de forma indistinta ou intercambiável. Em geral, atribui- se, ao estado segundo, uma natu- reza mais psicogenética, sendo produzido por fatores emocionais (choques emocionais intensos). Já ao estado crepuscular, são confe- ridas causas mais freqüentemente orgânicas (confusão pós-ictal, in- toxicações, traumatismo craniano, etc.). Os atos cometidos durante o estado segundo são geralmente incongruentes, extravagantes, em contradição com a educação, as opiniões ou a conduta habitual do sujeito acometido, mas quase nun- ca são realmente graves ou peri- gosos, como no caso dos estados crepusculares (Porot, 1967). Do ponto de vista do mecanismo pro- dutor da alteração, o estado se- gundo se aproxima mais à disso- ciação da consciência do que ao estado crepuscular. 3. Dissociação da consciência. Tal expressão designa a fragmentação ou a divisão do campo da cons- ciência, ocorrendo perda da uni- dade psíquica comum do ser hu- mano. Ocorre com certa freqüên- cia nos quadros histéricos (crises histéricas de tipo dissociativo). Nessas situações, observa-se uma dissociação da consciência, um estado semelhante ao sonho (ga- nhando o caráter de estado oníri- co), geralmente desencadeada por acontecimentos psicologicamente significativos (conscientes ou in- Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 99 conscientes) que geram grande ansiedade para o paciente. Essas crises duram de minutos a horas, raramente permanecendo por dias. Alguns pacientes têm crises ou estados dissociativos agudos que se iniciam devido a quedas, abalos musculares e movimenta- ção do corpo semelhante à crise convulsiva (da epilepsia). Nesses casos, designa-se tal crise como crise pseudo-epiléptica (em re- lação à crise epiléptica verdadei- ra). A dissociação da consciência pode ocorrer também em quadros de ansiedade intensa, independen- temente de se tratar de paciente com personalidade ou traços his- téricos, sendo a dissociação, então, vista como uma estratégia defen- siva inconsciente (i.e., sem a deli- beração voluntária plena) para li- dar com a ansiedade muito inten- sa; o indivíduo desliga da realida- de para parar de sofrer. 4. Transe. Estado de dissociação da consciência que se assemelha a sonhar acordado, diferindo disso, porém, pela presença de ativida- de motora automática e estereoti- pada acompanhada de suspensão parcial dos movimentos voluntá- rios. O estado de transe ocorre em contextos religiosos e culturais (espiritismo kardecista, religiões afro-brasileiras e religiões evangé- licas pentecostais e neopentecos- tais). O transe dito extático pode ser induzido por treinamento mís- tico-religioso, ocorrendo geral- mente a sensação de fusão do eu com o universo. Não se deve con- fundir o transe religioso, cultu- ralmente contextualizado e san- cionado, com o transe histérico, que é um estado dissociativo da consciência relacionado freqüen- temente a conflitos interpessoais e alterações psicopatológicas. Os estados de transe e possessão cul- turalmente contextualizados e sancionados são fenômenos mui- to difundidos nas várias culturas em todo o mundo, vistos, na atua- lidade, como um recurso religio- so e sociocultural que permite às pessoas, sobretudo às mulheres, li- dar com as dificuldades da vida por meio de estratégias religiosas socialmente legitimadas. 5. Estado hipnótico. É um estado de consciência reduzida e estreitada e de atenção concentrada, que pode ser induzido por outra pes- soa (hipnotizador). Trata-se de um estado de consciência semelhante ao transe, no qual a sugestio- nabilidade do indivíduo está au- mentada, e a sua atenção, concen- trada no hipnotizador. Nesse es- tado, podem ser lembradas cenas e fatos esquecidos e podem ser induzidos fenômenos como anes- tesia, paralisias, rigidez muscular, alterações vasomotoras. Não há nada de místico ou paranormal na hipnose. É apenas uma técnica re- finada de concentração da aten- ção e de alteração induzida do es- tado da consciência. 6. Experiência de quase-morte, EQM (near death experience – NDE). Um estado especial de cons- ciência é verificado em situações críticas de ameaça grave à vida, como parada cardíaca, hipoxia grave, isquemias, acidente auto- mobilístico grave, entre outros, quando alguns sobreviventes afir- mam ter vivenciado as chamadas Paulo Dalgalarrondo100 experiências de quase-morte (EQM). São experiências muito rápidas (de segundos a minutos) em que um estado de consciência particular é vivenciado e registra- do por essas pessoas. A primeira descrição foi a do alpinista suíço A. Heim. Em 1892, ele relatou, após quase morrer, que teve a sen- sação de paz e tranqüilidade imen- sa, deslocamento muito rápido ao longo de um túnel escuro que, ao fim, tinha uma luz particularmen- te brilhante. Disse, ainda, que tal “viagem” se acompanhara da pas- sagem rapidíssima de um “retros- pecto da vida” e da sensação da presença de um espírito pleno de amor (Vignat, 1996). Estudos re- centes (Nelson et al., 2006) têm mostrado que as características mais freqüentes desses estados são as seguintes (em 55 casos revisa- dos a partir da literatura científi- ca internacional): sensação de paz (87%), de estar fora do próprio corpo (80%), de estar rodeado por uma luz intensa (78%), de estar em “outro mundo” (75%), sensa- ções de “união cósmica” (67%), de ter atingido um “ponto de não-re- torno” (67%), de alegria intensa (64%), de “compreensão imedia- ta” (60%) e de contato com uma “entidade mística” (55%). As EQM parecem ocorrer em muitas cultu- ras, com variações nos seus con- teúdos. Nos Estados Unidos, apa- rentemente ocorrem em 6 a 12% das pessoas que sobreviveram a uma parada cardíaca e, na Euro- pa, 6% de uma amostra de 14.000 pessoas da população geral relata- ram já ter experienciado EQM. Em estudo recente, Nelson e colabora- dores (2006) buscaram demons- trar que a EQM seria a conseqüên- cia de uma invasão maciça de ati- vidade cerebral do tipo sono REM nas pessoas enquanto passavam por tais experiências. Entretanto, há também consistentes hipóteses socioculturais e históricas para tal experiência (Kellehear, 1993). Quadro 10.1 Semiotécnica da consciência-I Lembrar que qualquer alteração do nível de consciência repercute no funcionamento global do psiquismo. Ele deve ser avaliado em primeiro lugar. Observar a fácies e a atitude do paciente e, se possível, notar se ele está desperto ou sonolento. Observar se o paciente está perplexo, com dificuldade de integrar coerentemente os estímulos ambientais. Lembrar que é por meio da orientação (sobretudo temporoespacial) que, muitas vezes, se avalia o nível de consciência. Teste da parede ou do papel branco. Pedir ao paciente que olhe atenta e fixamente para uma parede branca (ou papel grande branco); o paciente com leve rebaixamento do nível de consciência pode, ao fazer isso, apresentar alucinações visuais simples ou complexas. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 101 Quadro 10.2 Semiotécnica da consciência-II: escala de coma de Glasgow Melhor resposta na abertura dos olhos Escore Nenhuma abertura dos olhos (1) Abre os olhos após estímulos dolorosos (2) Abre os olhos quando estimulado verbalmente (3) Abre os olhos espontaneamente (4) Melhor resposta verbal Nenhuma resposta verbal (1) Resposta verbal com sons ininteligíveis, grunhidos (2) Resposta verbal com palavras incompreensíveis (3) As palavras são compreensíveis, mas o discurso é incoerente, confuso (4) Discurso coerente e adequado (5) Melhor resposta motora Nenhuma resposta motora (1) Resposta motora em padrão extensor (2) Resposta motora em padrão flexor (3) Resposta motora de retirada inespecífica, não localiza os estímulos (4) Resposta motora localizada, pacientelocaliza os estímulos (5) Resposta motora voluntária, obedece a comandos verbais (6) Escores de gravidade do coma Total 1-4 (muito grave); 5-8 (grave); 9-12 (moderado); maior ou igual a 13 (leve). Questões de revisão • Estabeleça a diferença entre as três acepções possíveis, em língua portuguesa, para a definição da palavra “consciência”. • Indique as diferenças entre sono REM e sono não-REM. Que estágios ocorrem durante o sono não-REM? • Cite e caracterize os graus de rebaixamento da consciência. • Quais são as principais características do delirium? • Descreva a diferença entre delirium e delírio. • Cite e caracterize as alterações qualitativas da consciência. • Quais as características mais freqüentes da experiência de quase-morte? Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 109 bais da orientação. Além disso, a orienta- ção é excepcionalmente vulnerável aos efei- tos da disfunção ou do dano cerebral. A desorientação é um dos sintomas mais fre- qüentes das doenças cerebrais. Apesar dis- so, a orientação preservada não significa obrigatoriamente que o sujeito não apre- sente qualquer alteração cognitiva ou atencional (Lesak, 1995). A capacidade de orientar-se é classi- ficada em orientação autopsíquica e alo- psíquica. A orientação autopsíquica é a orientação do indivíduo em relação a si mesmo. Revela se o sujeito sabe quem é: nome, idade, data de nascimento, profis- são, estado civil, etc. Já a orientação alopsíquica diz respeito à capacidade de orientar-se em relação ao mundo, isto é, quanto ao espaço (orientação espacial) e quanto ao tempo (orientação temporal). Orientação espacial É investigada perguntando-se ao paciente o lugar onde ele se encontra, a instituição em que está, o andar do prédio, o bairro, a cidade, o estado e o país. Também é inves- tigada a capacidade do paciente de identi- ficar a distância entre o local da entrevista e sua residência (em quilômetros ou horas DEFINIÇÕES BÁSICAS A capacidade de situar-se quanto a si mes- mo e quanto ao ambiente é elemento bá- sico da atividade mental. A avaliação da orientação é um instrumento valioso para a verificação das perturbações do nível de consciência. Além disso, as alterações da orientação também podem ser decorren- tes de déficits de memória (como nas de- mências) e de qualquer transtorno mental grave que desorganize o funcionamento mental global. Muitas vezes, verifica-se que um pa- ciente com nível de consciência que parece normal está, de fato, com a consciência li- geiramente turva e rebaixada. Assim, ao investigar a orientação desse indivíduo, é verificado que ele se acha desorientado quanto ao tempo e ao espaço. A capacidade de orientar-se re- quer, de forma con- sistente, a integra- ção das capacidades de atenção, percep- ção e memória. Al- terações da atenção e retenção (memória imediata e recente) apenas um pouco mais intensas do que le- ves costumam resultar em alterações glo- A capacidade de orientar-se requer, de forma consisten- te, a integração das capacidades de aten- ção, percepção e me- mória. 12 A orientação e suas alterações Paulo Dalgalarrondo110 de viagem). Em relação à orientação espa- cial, é importante verificar claramente se o paciente sabe o tipo de lugar em que está (p. ex., se está em um hospital, uma unidade básica de saúde, um consultório médico ou psicológico, CAPS, etc.), se pode dizer o nome do lugar (Hospital das Clí- nicas da Unicamp, Consultório da dra. Ra- quel, Unidade Básica de Saúde da Vila Carrão, etc.) e onde se situa esse lugar (no distrito de Barão Geraldo, em Campi- nas, na Vila Mariana, em São Paulo, etc.). Orientação temporal Trata-se de orientação mais sofisticada que a espacial e a autopsíquica. A orientação temporal indica se o paciente sabe em que momento cronológico está vivendo, a hora do dia, se é manhã, tarde ou noite, o dia da semana, o dia do mês, o mês do ano, a época do ano, bem como o ano corrente. Carlat (2007) sugere “do mais fácil para o mais difícil”, se o paciente tiver dificulda- de em responder, que se pergunte: Em que ano estamos? Que mês? Que dia da sema- na? Que dia do mês? Também é possível avaliar a noção que o paciente tem da duração dos even- tos e da continuidade temporal. O exa- minador pode perguntar: Há quanto tem- po a senhora está neste local? Há quanto tempo a senhora trabalhou (ou se alimen- tou) pela última vez? Faz quanto tempo que a senhora não me vê? A orientação temporal é adquirida mais tardiamente que a autopsíquica e a espacial na evolução neuropsicológica da criança. Piaget notou que crianças de 4 a 7 anos, no nível pré-operatório, têm ainda algumas dificuldades com a noção de tem- po. Elas acreditam que crianças mais altas são sempre mais velhas, que árvores altas, mais largas e com mais frutos são sempre “mais velhas” e que a duração de uma via- gem é dada pelos pontos de chegada, sem consideração da ve- locidade de locomo- ção (Beard, 1978). Portanto, a tempora- lidade é uma função que exige maior de- senvolvimento cog- nitivo do indivíduo, além da integração de estímulos am- bientais de forma mais elaborada. Por isso, em relação à orientação espacial, a orientação temporal é mais fácil e rapida- mente prejudicada pelos transtornos men- tais e distúrbios neuropsicológicos e neu- rológicos, particularmente pelos que afetam a consciência. NEUROPSICOLOGIA DA ORIENTAÇÃO A desorientação temporoespacial ocorre, de modo geral, em quadros psico-orgâni- cos, quando três áreas encefálicas são com- prometidas: 1. Nas lesões corticais difusas e am- plas ou em lesões bilaterais, como na doença de Alzheimer. 2. Nas lesões mesotemporais do sis- tema límbico, como na síndrome de Korsakoff. 3. Em patologias que afetam o tron- co cerebral e o sistema reticular ativador ascendente (comprome- tendo o nível de consciência), como no delirium e nas demais síndromes decorrentes de altera- ção do nível de consciência (Lezak, 1995). Vários componentes cerebrais da orientação espacial têm sido estudados pelos neuropsicólogos (revisão em Benton; Tranel, 1993). O déficit de orientação to- pográfica e geográfica parece depender de Em relação à orientação espacial, a orientação temporal é mais fácil e rapidamente preju- dicada pelos transtor- nos mentais e distúr- bios neuropsicológi- cos e neurológicos, particularmente pelos que afetam a cons- ciência. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 111 lesões bilaterais ou unilaterais à direita nos lobos parietais. De modo geral, a capaci- dade de avaliar corretamente direção e dis- tância, tanto para estímulos visuais como táteis, relaciona-se mais com as estruturas corticais do hemisfério direito. A locali- zação adequada de pontos no espaço de- pende, por sua vez, da integridade do córtex parietoccipital. Finalmente, a sínte- se visual, ou seja, a capacidade de integrar diferentes estímulos visuais, pode ser afe- tada por lesões no córtex occipital as- sociativo, produzindo quadros de simul- tanagnosia (déficit em captar o elemento importante a partir de estímulos visuoes- paciais complexos, embora o indivíduo con- siga identificar corretamente cada detalhe). A orientação temporal depende de uma adequada percepção da passagem do tempo, do registro e da discriminação dos intervalos temporais, assim como da capa- cidade de apreender o tempo passado e antever o tempo futuro (Damasceno, 1996). Tanto os circuitos hipocampais- límbicos (incluindo, além do hipocampo, os corpos mamilares, os núcleos anterio- res e mediais do tálamo e os núcleos septais) como aqueles circuitos relaciona- dos ao córtex pré-frontal e algumas de suas conexões (núcleo caudado, núcleo talâmico dorsolateral e giro cingulado) par- ticipam intimamente da percepção e da orientação temporal, assim como da sínte- se temporal e da noção de duração. Pacientes com lesões nas áreas pré- frontais têm suas capacidades de perceber e avaliar as dimensões temporais tanto do passado como do futuro comprometidas, assim como dificuldade em iniciar e orga- nizar seus comportamentos.Por conta do déficit de síntese temporal, seu comporta- mento é altamente suscetível de perturba- ção por interferência de estímulos exter- nos ou internos. Além disso, pacientes com lesões pré-frontais tendem a certo concretismo (apreendem noções abstratas como se fos- sem concretas). Este concretismo é obser- vado também no domínio das noções de tempo e duração: essas pessoas vivem “an- coradas” no presente imediato, destituídas de perspectiva temporal tanto para o pas- sado como para o futuro. Seu comporta- mento tem o aspecto de um imediatismo temporal, no sentido de serem dominadas por necessidades e estímulos do momento presente (Fuster, 1997). ALTERAÇÕES DA ORIENTAÇÃO (SEGUNDO A ALTERAÇÃO DE BASE) Distinguem-se vários tipos de desorienta- ção, de acordo com a alteração de base que a condiciona. É preciso lembrar que geralmente a deso- rientação ocorre, em primeiro lugar, em relação ao tempo. Só após o agravamento do transtorno, o indivíduo se desorienta quanto ao espaço e, finalmente, quanto a si mesmo. • Desorientação por redução do ní- vel de consciência. Também de- nominada desorientação torporosa ou confusa, é aquela na qual o in- divíduo está desorientado por tur- vação da consciência. Tal turvação e o rebaixamento do nível de cons- ciência produzem alteração da atenção, da concentração e, con- seqüentemente, da capacidade de percepção e retenção dos estímu- los ambientais. Isso impede que o indivíduo apreenda a realidade de forma clara e precisa e integre, as- sim, a cronologia dos fatos. Portan- to, nesse caso, a alteração do nível de consciência é a causa da deso- Geralmente a deso- rientação ocorre, em primeiro lugar, em relação ao tempo. Só após o agravamento do transtorno, o indi- víduo se desorienta quanto ao espaço e, finalmente, quanto a si mesmo. Paulo Dalgalarrondo112 rientação. Essa é a forma mais co- mum de desorientação. • Desorientação por déficit de me- mória imediata e recente. Tam- bém denominada desorientação amnéstica. Aqui, o indivíduo não consegue reter as informações ambientais básicas em sua memó- ria. Não conseguindo fixar as infor- mações, perde a noção do fluir do tempo, do deslocamento no espa- ço, passando a ficar desorientado temporoespacialmente. A desorien- tação amnéstica é típica da síndro- me de Korsakoff. Já a desorienta- ção demencial é muito próxima à amnéstica. Ocorre não apenas por perda da memória de fixação, mas por déficit de reconhecimento am- biental (agnosias) e por perda e de- sorganização global das funções cognitivas. Ocorre nos diversos qua- dros demenciais (doença de Alzhei- mer, demências vasculares, etc.). • Desorientação apática ou abúlica. Ocorre por apatia ou desinteresse profundos. Aqui, o indivíduo torna- se desorientado devido a uma mar- cante alteração do humor e da vo- lição, comumente em quadro de- pressivo. Por falta de motivação e interesse, o indivíduo, geralmente muito deprimido, não investe sua energia no mundo, não se atém aos estímulos ambientais e, portanto, torna-se desorientado. • Desorientação delirante. Ocorre em indivíduos que se encontram imersos em profundo estado deli- rante, vivenciando idéias deliran- tes muito intensas, crendo com convicção plena que estão “habi- tando” o lugar (e/ou o tempo) de seus delírios. Nesses casos, é co- mum a chamada dupla orienta- ção, na qual a orientação falsa, de- lirante, coexiste com a orientação correta. O paciente afirma que está no inferno, cercado por demônios, mas também pode reconhecer que está em uma enfermaria do hospi- tal ou em um CAPS. Pode, ainda, ocorrer de o paciente dizer, em um momento, que está na cadeia e que os enfermeiros são carcereiros, e afirmar, logo em seguida, que são enfermeiros do hospital (alternan- do seqüencialmente os dois tipos de orientação). • Desorientação por déficit intelec- tual (anteriormente chamada de de- sorientação oligofrênica). Ocorre em indivíduos com deficiência ou retar- do mental grave ou moderado. Nes- se caso, a desorientação ocorre pela incapacidade ou dificuldade em compreender o ambiente e de re- conhecer e interpretar as conven- ções sociais (horários, calendário, etc.) que padronizam a orientação do indivíduo no mundo. • Desorientação por dissociação, ou desorientação histérica. Ocorre em geral em quadros histéricos gra- ves, normalmente acompanhada de alterações da identidade pessoal (fenômeno da possessão histérica ou desdobramento da personalida- de) e de alterações da consciência secundárias à dissociação histéri- ca (estado crepuscular histérico, quadros dissociativos psicogené- ticos, etc.). • Desorientação por desagrega- ção. Ocorre em pacientes psicó- ticos, geralmente esquizofrênicos em estado crônico e avançado da doença, quando o indivíduo, por desagregação profunda do pensa- mento, apresenta toda a sua ativi- dade mental gravemente desorga- nizada, o que o impede de se orien- Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 113 tar de forma adequada quanto ao ambiente e quanto a si mesmo. • Desorientação quanto à própria idade. É definida como uma dis- crepância de cinco anos ou mais en- tre a idade real e aquela que o pa- ciente diz ter. Ela tem sido descri- ta em alguns pacientes esquizofrê- nicos crônicos e parece ser um bom indicativo clínico de déficit cogni- tivo na esquizofrenia (Crow; Stevens, 1978). Quadro 12.1 Semiotécnica da orientação Orientação temporal: “Que dia é hoje?”; “Qual o dia da semana?”; “Qual o dia do mês?”; “Em que mês estamos?”; “Em que ano estamos?”; “Qual a época do ano (começo, meio ou final do ano)?”; “Aproximadamente que horas são agora?”. Lembrar-se de que alguns sujeitos com baixa escolaridade (menos de oito anos) podem, eventualmente, apresentar dificuldades na orientação temporal e, sobretudo, nas noções de duração e continuidade temporal (Anthony; Le Resche; Niaz, 1982). Orientação espacial: “Onde estamos?”; “Como se chama a cidade em que estamos? E o bairro?”; “Qual o caminho e quanto tempo leva para vir de sua casa até aqui?”; “Que edifício é este (hospital, ambulatório, consultório, etc.) em que estamos?”; “Em que andar estamos?”. Orientação autopsíquica: “Quem é você?”; “Qual o seu nome?”; “O que faz?”; “Qual a sua profissão?”; Quem são os seus pais?”; “Qual a sua idade (verificar a idade real do paciente)?”; “Qual o seu estado civil?”. Questões de revisão • Como é classificada a capacidade de orientar-se? Estabeleça a diferença entre orienta- ção espacial e orientação temporal, sem esquecer de relacioná-las com transtornos mentais e distúrbios neuropsicológicos e neurológicos. • Quais são as áreas encefálicas relacionadas à orientação espacial e à orientação temporal? • Caracterize os tipos de desorientação de acordo com a alteração de base que os condiciona. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 137 da da história de uma vida e das interações duradouras com outros seres humanos”. No campo de estudo da memória bio- lógica e humana, podem-se distinguir, de modo genérico, os seguintes tipos de me- mória: 1. Memória cognitiva (psicológi- ca). É uma atividade altamente di- ferenciada do sistema nervoso, que permite ao indivíduo registrar, conservar e evocar, a qualquer momento, os dados aprendidos da experiência. 2. Memória genética (genótipo). Conteúdos de informações bioló- gicas adquiridos ao longo da his- tória filogenética da espécie, con- tidas no material genético (DNA, RNA, cromossomos, mitocôndrias) dos seres vivos. 3. Memória imunológica. Informa- ções registradas e potencialmente recuperáveis pelo sistema imuno- lógico de um ser vivo. 4. Memória coletiva ou cultural. Conhecimentos e práticas cultu- rais (costumes, valores, habilida- des artísticas e estéticas, precon- ceitos, ideologias, estilo de vida, etc.) produzidos, acumulados e DEFINIÇÕES BÁSICAS A memória é a capa- cidade de registrar, manter e evocar as experiências e os fa- tos já ocorridos. A capacidade de me- morizar relaciona-se intimamente com o nível de consciência, com a atenção e com o interesse afetivo. Tudo o que umapessoa aprende em sua vida depende intimamen- te da capacidade de memorização. Além disso, todos os processos rela- cionados com a memória são altamente contextualizados. De modo geral, recorda- mos e aprendemos elementos provenien- tes de experiências vivenciadas em bloco, nas quais diversas modalidades sensoriais interagem, em contexto emocional deter- minado e com significações pessoais e so- ciais específicas. Alguns dos principais pesquisadores atuais em neurociências e comportamento atribuem papel central da memória na pró- pria definição e na constituição do ser hu- mano. Para Izquierdo (2002), “somos aqui- lo que recordamos (ou que, de um modo ou de outro, resolvemos esquecer)”. Per- der a memória, segundo Squire e Kandel (2003), “leva à perda de si mesmo, à per- A memória é a capa- cidade de registrar, manter e evocar as experiências e os fa- tos já ocorridos. 15 A memória e suas alterações Paulo Dalgalarrondo138 mantidos por um grupo social mi- nimamente estável. Neste capítulo, é estudada principal- mente a memória cognitiva ou psicológi- ca. A memória cognitiva é composta de três fases ou elementos básicos: – Fase de registro (percepção, geren- ciamento e início da fixação) – Fase de conservação (retenção) – Fase de evocação (também deno- minada de lembranças, recorda- ções ou recuperação) SUBSTRATO NEUROBIOLÓGICO DA MEMÓRIA O campo de estudos da memória é um dos mais ricos em termos de pesquisas e ino- vações recentes. Os livros de Izquierdo (2002) e Squire e Kandel (2003) trazem excelentes apresentações sobre essa verda- deira revolução neuropsicológica. Parece haver bastante concordância entre os pes- quisadores de que, para a engramação mnéstica, ou seja, para a formação das unidades de memória, as estruturas lím- bicas temporomediais (principalmente re- lacionadas ao hipocampo, à amígdala e ao córtex entorrinal) são fundamentais (Gordon, 1997; Izquierdo, 2002). Elas atu- am em especial na consolidação dos regis- tros e na transferência das unidades de me- mória de curto e médio prazos (intermedi- ária) para a memória de longo prazo (estocagem da memória remota). O substrato neural da memória de longo prazo (registros antigos bem-con- solidados) repousa basicamente no córtex cerebral, ou seja, nas áreas de associação neocorticais, principalmente frontais e temporoparietoccipitais. Há certas evidên- cias de que mecanismos bioquímicos es- tariam envolvidos nas memorizações rá- pida e de curto prazo, enquanto mecanis- mos propriamente neurais do tipo bro- tamento (sprouting) e remodelagens neu- ronais estariam envolvidos nas memori- zações lenta e de longo prazo (Gordon, 1997). A interrupção bilateral do circuito hipocampo-mamilo-tálamo-cíngulo pode determinar a incapacidade de fixação de novos elementos mnêmicos, produzindo, assim, a síndrome amnéstica, de maior ou menor intensidade. FATORES PSICOLÓGICOS DO PROCESSO DE MEMORIZAÇÃO Do ponto de vista psicológico, o processo de fixação (engramação) depende de: – Nível de consciência e estado ge- ral do organismo (o indivíduo deve estar desperto, não muito cansado, bem-nutrido, calmo, etc.) – Atenção global e capacidade de manutenção de atenção concentra- da sobre o conteúdo a ser fixado (capacidade do indivíduo concen- trar-se) – Sensopercepção preservada – Interesse e colorido emocional re- lacionado ao conteúdo mnêmico a ser fixado, assim como do empe- nho do indivíduo em aprender (vontade e afetividade) – Conhecimento anterior (elementos já conhecidos ajudam a adquirir elementos novos) – Capacidade de compreensão do conteúdo a ser fixado – Organização temporal das repeti- ções (distribuição harmônica e ritmada no tempo auxilia na fixa- ção de novos elementos) – Canais sensoperceptivos envolvi- dos na percepção, já que, quanto Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 139 maior o número de canais senso- riais, mais eficaz a fixação (p. ex., o método audiovisual de ensino de línguas). A conservação (retenção) dos ele- mentos mnêmicos depende de: – Repetição (pois, de modo geral, quanto mais se repete um conteúdo, mais facilmente este se conserva) – Associação com outros elementos (cadeia de elementos mnêmicos) A evocação é a capacidade de recu- perar e atualizar os dados fixados. Es- quecimento, por sua vez, é a denomina- ção que se dá à im- possibilidade de evo- car e recordar. O re- conhecimento é a capacidade de identificar o conteúdo mnê- mico como lembrança e diferenciá-la da imaginação e de representações atuais. Em relação ao processo temporal de aquisição e evocação de elementos mnê- micos, a neuropsicologia moderna divide a memória em quatro fases ou tipos (Iz- quierdo, 2002): 1. Memória imediata ou de cur- tíssimo prazo (de poucos segun- dos até 1 a 3 minutos). Este tipo de memória confunde-se com a atenção e com a memória de tra- balho (que será vista adiante), pois é a capacidade de reter o material (palavras, números, imagens, etc.) imediatamente após ser percebi- do. A memória imediata tem ca- pacidade limitada e depende da concentração, da fatigabilidade e de certo treino. As memórias ime- diata e de trabalho dependem so- bretudo da integridade das áreas pré-frontais. 2. Memória recente ou de curto prazo (de poucos minutos até 3 a 6 horas). Refere-se à capacida- de de reter a informação por cur- to período. Também é um tipo de memória de capacidade limitada. A memória recente depende de es- truturas cerebrais das partes me- diais dos lobos temporais, como a região CA1 do hipocampo, do córtex entorrinal, assim como do córtex parietal posterior (Izquier- do, 2002). 3. Memória remota ou de longo prazo (de meses até muitos anos). É a capacidade de evoca- ção de informações e aconteci- mentos ocorridos no passado, ge- ralmente após muito tempo do evento (pode durar por toda a vida). É um tipo de memória de capacidade bem mais ampla que a imediata e a recente. Acredita- se que a memória remota rela- ciona-se tanto ao hipocampo (no processo de transferência de me- mórias recentes para remotas) como a amplas e difusas áreas corticais, principalmente frontais, incluindo todos os outros lobos cerebrais, sobretudo em suas áre- as corticais de associação (Kroll et al., 1997). O termo pri- ming diz respeito a um fenômeno nor- mal e importante do processo de recor- dação ou evocação. Fragmentos de um conteúdo mnêmico amplo são evocados e, a partir deles, todo o resto é gradativa- A evocação é a ca- pacidade de recupe- rar e atualizar os da- dos fixados. Esque- cimento, por sua vez, é a denominação que se dá à impossibili- dade de evocar e re- cordar. O termo priming diz respeito a um fenô- meno normal e im- portante do proces- so de recordação ou evocação. Paulo Dalgalarrondo140 mente recuperado. Assim, um músico toca ou ouve os primeiros dois ou três acordes de uma canção aparentemente esquecida, e, de forma gradativa, a canção toda (e sua seqüência de acordes e melodias) começa a surgir para o sujeito. O priming pode ser traduzido como dicas evocadoras de lem- branças mais amplas. Ele sugere que a lem- brança de alguns fragmentos da memória e conjuntos mnêmicos maiores seriam ar- mazenados de forma parcialmente inde- pendente. O priming é um fenômeno pre- dominantemente neocortical, participando dele as áreas pré-frontais e corticais asso- ciativas temporoparietoccipitais (Izquierdo, 2002). O esquecimento (o oposto da evo- cação) se dá por três vias: 1. Esquecimento normal, fisiológico: por desinteresse do indivíduo ou por desuso. 2. Esquecimento por repressão (Freud [1915], 1974): quando se trata de conteúdo desagradável ou pouco importante para o indiví- duo, podendo, no entanto, o su- jeito, por esforço próprio, voltar a recordar certos conteúdos reprimi- dos (que ficam estocados no pré- consciente). 3. Esquecimento por recalque (Freud [1915], 1974): certos con- teúdos mnêmicos, devido ao fato de serem emocionalmente insupor- táveis, são banidos da consciência, podendo ser recuperados apenas em circunstâncias especiais (ficam estocados no inconsciente).Apesar de ter sido formulada há mais de 120 anos, a “Lei da regressão mnêmica”, de Théodule Ribot (1881), continua váli- da. Segundo a lei de Ribot, o indivíduo que sofre uma lesão ou doença cerebral, sempre que esse processo patológico atin- ge seus mecanismos mnêmicos de registro e recordação, tende a perder os conteúdos da memória (esquecimento) seguindo al- gumas regularidades: 1. O sujeito perde as lembranças e seus conteúdos na ordem e no sen- tido inverso que os adquiriu. 2. Conseqüência do item anterior, ele perde primeiro elementos recen- temente adquiridos e, depois, os elementos mais antigos. 3. Perde primeiro elementos mais complexos e, depois, os mais sim- ples. 4. Perde primeiro os elementos mais estranhos, menos habituais e, só posteriormente, os mais fami- liares. 5. Primeiramente, perde os conteú- dos mais neutros; depois, perde os elementos afetivos e, apenas no fim, os hábitos e os comportamen- tos costumeiros mais profunda- mente enraizados no repertório comportamental e mental. TIPOS ESPECÍFICOS DE MEMÓRIA Com o avançar das neurociências, atu- almente não se po- de mais falar em memória, mas sim em memórias ou ti- pos específicos de memória. Distin- guem-se os tipos de memória de acordo com o caráter consciente ou não-cons- ciente do processamento do conteúdo mnêmico e, principalmente, segundo as áreas e estruturas cerebrais envolvidas (Kandel; Schwartz; Jessel, 1995; Miotto et al., 1996; Dalla Barba, 1998; Izquierdo, 2002; Budson; Price, 2005). Com o avançar das neurociências, atual- mente não se pode mais falar em memó- ria, mas sim em me- mórias ou tipos espe- cíficos de memória. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 141 Tipos dependentes do caráter consciente ou não-consciente do processo mnêmico (memória explícita versus implícita e memória declarativa versus não-declarativa) Segundo o caráter consciente ou não-cons- ciente do processo mnêmico, têm-se as memórias explícita e implícita. A memó- ria explícita é adquirida de forma plena- mente consciente, sendo também a mais relevante do ponto de vista clínico (aqui estão incluídas as lembranças de fatos au- tobiográficos). A memória implícita é ad- quirida de forma mais ou menos automá- tica, o indivíduo não se dá conta de que está aprendendo esta ou aquela habilida- de (aqui estão incluídos os aprendizados de habilidades motoras, p. ex., andar de bicicleta, e aquisições lingüísticas, como aprender a língua materna). Muito próximo a essa separação entre explícita e implícita, faz-se também a divi- são da memória em declarativa e não-decla- rativa. Memória declarativa diz respeito a fatos, eventos e conhecimentos que são memorizados, sendo possível, inclusive, declarar verbalmente de que forma foram memorizados. A memória declarativa é sempre explícita (plenamente consciente) e diz respeito, com mais freqüência, a even- tos autobiográficos e conhecimentos gerais. A memória não-declarativa refere-se a há- bitos e capacidades, em geral motores, sen- soriais, sensório-motores ou eventualmen- te lingüísticos (como nadar, andar de bici- cleta, tocar violão, soletrar), sobre os quais é difícil declarar como são lembrados; deve-se agir, nadar um pouco, pegar o vio- lão e tocar uma música para demonstrar (inclusive para si mesmo) que tais coisas são lembradas. Quase sempre a memória explícita é também declarativa, e a implícita, não-de- clarativa. Tipos de memória classificados segundo a estrutura cerebral envolvida São quatro os principais tipos de memória que correspondem a estruturas cerebrais diversas. Esses tipos são, atualmente, as principais formas de memória de interesse à semiologia neurológica, psiquiátrica e neuropsicológica (Izquierdo, 2002; Budson; Price, 2005). São eles: 1. Memória de trabalho 2. Memória episódica 3. Memória semântica 4. Memória de procedimentos Memória de trabalho A memória de trabalho (working memory) é, na verdade, a combinação de habilida- des de atenção (capacidade de prestar aten- ção e de concentração) e da memória ime- diata. São exemplos de memória de traba- lho o ouvir um número telefônico, retê-lo na mente, para, em seguida, discar, assim como, quando ao dirigir em uma cidade desconhecida, perguntar sobre um ende- reço, receber a informação e a sugestão do trajeto e, mentalmente, executar o itinerá- rio de forma progressiva. A memória de tra- balho é, de modo geral, explícita e decla- rativa. Assim, esse tipo de memória diz res- peito a um amplo conjunto de habilidades que permite manter e manipular informa- ções novas (acessando-as em face às anti- gas). Tais informações (verbais ou visuoes- paciais) são mantidas ativas (on-line), ge- ralmente por curto período (poucos segun- dos até, no máximo, 1 a 3 minutos), a fim de serem manipuladas, com o objetivo de selecionar um plano de ação e realizar de- terminada tarefa. O conteúdo mnêmico Paulo Dalgalarrondo142 deve ser utilizado imediatamente sob al- guma forma de resposta. A memória de trabalho também é vis- ta como um gerenciador da memória. Seu papel não é tanto formar arquivos, mas, antes, o de analisar e selecionar as infor- mações que chegam constantemente e compará-las com as existentes nas demais memórias, de curta ou de longa duração. Esse processo requer mecanismos neurais adequados à seleção de informações perti- nentes, mantendo-as on-line por breve pe- ríodo, até que a decisão e a resposta ade- quada sejam tomadas. As regiões corticais pré-frontais são importantes para a integridade da memó- ria de trabalho. Nas tarefas verbais, há maior envolvimento das áreas pré-frontais esquerdas, assim como das áreas de Broca (frontal esquerda inferior) e de Wernicke (temporal esquerda superior). Nas tarefas visuoespaciais (seguir mapas mentalmen- te, sair de labirintos gráficos e montar que- bra-cabeças), há maior implicação das áreas pré-frontais direitas, assim como de zonas visuais de associação do carrefour temporoparietoccipital direito. INVESTIGAÇÃO SEMIOLÓGICA DA MEMÓRIA DE TRABALHO Observa-se cuidadosamente o grau de ha- bilidade do paciente em prestar atenção e se concentrar. Particularmente importan- te é a dificuldade em realizar novas tare- fas que incluam a execução de várias eta- pas distintas em uma seqüência após ins- trução. Um teste simples é aquele incluí- do no minimental, quando solicita-se ao paciente que realize a tarefa: “Veja esta folha de papel em minha mão, quero que pegue este papel com sua mão direita, que o dobre no meio e, depois, o coloque no chão”. Também são formas de testar a memória de trabalho solicitar que uma pessoa repita números em seqüências di- reta (a pessoa sem alterações repete de 5 a 8 dígitos; quatro dígitos é resultado limítrofe; e três ou menos dígitos, resul- tado alterado) e inversa (normal de 4 a 5 dígitos; três, resultado limítrofe; e dois ou menos dígitos, alterado). Pode-se igual- mente testar a memória de trabalho de natureza visuoespacial, utilizando-se la- birintos gráficos e quebra-cabeças (Lezak; Howieson; Loring, 2004). VALOR DIAGNÓSTICO DAS ALTERAÇÕES DA MEMÓRIA DE TRABALHO De modo geral, todas as condições que afetam as regiões pré-frontais causam al- teração da memória de trabalho. As alte- rações da memória de trabalho ocorrem em distintas condições clínicas; em ordem de freqüência: nas demências vasculares e na subforma ou variante frontal da de- mência frontotemporal. Podem ocorrer também na demência de Alzheimer, na DCL, na esclerose múltipla e no trauma- tismo craniano. Nos quadros psiquiátricos primários, como esquizofrenia, transtor- no de déficit de atenção/hiperatividade e transtorno obsessivo-compulsivo, também se verificam alterações da memória de tra- balho. No envelhecimento normal, é pos- sível notar dificuldades leves (até, even- tualmente, moderadas) na memória de trabalho. Memória episódica Esta é possivelmente a forma mais relevan- te de memória para a clínica neurológica, psiquiátrica e neuropsicológica. Trata-se de uma forma de memória explícita e decla- rativa relacionada a eventos específicos da experiênciapessoal do indivíduo, ocorri- dos em determinado contexto. Relatar o Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 143 que foi feito na noite anterior é um típico exemplo de memória episódica. Esta cor- responde a eventos concretos, comumente autobiográficos, bem-circunscritos em de- terminado momento e local. Refere-se, as- sim, à recordação consciente de fatos reais. A perda da memória episódica em geral se evidencia para eventos autobiográficos re- centes, mas, com o evoluir da doença, pode incluir elementos mais antigos. Nesse sen- tido, a perda de memória episódica obede- ce à lei de Ribot (perdem-se primeiro os elementos recentemente adquiridos e, de- pois, os mais antigos). Esse tipo de memória depende, em essência, de mecanismos relacionados às regiões da face medial dos lobos tem- porais, particularmente o hipocampo e os córtices entorrinal e perirrinal. Quando tais áreas são lesadas ou se deterioram (como na síndrome de Wernicke-Korsakoff ou com o avançar da demência de Alzhei- mer), o paciente perde totalmente a capa- cidade de fixar e lembrar eventos ocorri- dos há poucos minutos, incluindo situações marcantes e significativas para ele. Respei- tando a lei de Ribot, a memória remota de eventos antigos permanece por muito tem- po sem alterações. O hipocampo parece ser, de fato, um depósito transitório de memó- rias, uma estação de transferência de ele- mentos recentemente registrados para um arquivo mais permanente de lembranças, arquivo este localizado presumivelmente de modo difuso em amplas áreas do córtex dos distintos lobos cerebrais. INVESTIGAÇÃO SEMIOLÓGICA DA MEMÓRIA EPISÓDICA Suspeita-se de alteração da memória episó- dica quando se nota que o sujeito vai se tornando incapaz de reter e lembrar infor- mações e experiências recentes de manei- ra correta e acurada. Um modo de testar a memória episódica é contar uma pequena história para o paciente e, alguns minutos após, pedir que ele a reconte. Deve-se entrevistar o paciente inves- tigando a evolução temporal das falhas de memória. Nesse sentido, o relato dos pa- rentes próximos e cuidadores é essencial, pois o paciente geralmente não tem crítica acurada de seu estado cognitivo e não se recorda de suas perdas. Um modo prático de inquirir aos parentes e cuidadores é per- guntar se, em comparação há 5 ou 10 anos, o paciente tem dificuldade em se lembrar de coisas que aconteceram recentemente ou se tem dificuldade em se lembrar onde os objetos de sua casa ou local de trabalho costumam ser guardados. É necessário, para avaliar o significa- do da alteração de memória episódica (p. ex., associá-la ou não à demência), que sejam investigadas outras áreas cognitivas, além da memória (como linguagem, aten- ção, habilidades visuoespaciais e executi- vas). Finalmente, é importante que sinais neurológicos focais e alterações de possí- veis doenças físicas sistêmicas sejam pes- quisados. VALOR DIAGNÓSTICO DAS ALTERAÇÕES DA MEMÓRIA EPISÓDICA As perdas da memória episódica ocorrem principalmente nas demências degene- rativas, como a demência de Alzheimer, a DCL e a demência frontotemporal. Nesses casos, os déficits de memória instalam-se de forma lenta e progressiva. Também se perde a memória episódica nas demências vasculares e em algumas formas de es- clerose múltipla, mas, nessas condições, a perda geralmente se dá em forma de de- graus (perdas mais ou menos abruptas se- guidas de períodos de estagnação que, pos- teriormente, são seguidos por novas per- das abruptas). Paulo Dalgalarrondo144 Memória semântica Esse tipo de memória se refere a aprendi- zado, conservação e utilização de algo que pode ser designado como o arquivo geral de conceitos e conhecimentos factuais do indivíduo. Assim, conhecimentos como a cor de um leão (marrom) ou de um papa- gaio (verde), ou quem foi o maior jogador de futebol do Brasil (Pelé) são de caráter geral e se cristalizam por meio da lingua- gem, ou seja, também são de caráter se- mântico. Assim como a memória episódica, a memória semântica é sempre explícita e declarativa. A memória semântica diz respeito ao registro e à retenção de conteúdos em função do significado que têm. Ela é um componente da memória de longo prazo que inclui os conhecimentos de objetos, fatos, operações matemáticas, assim como das palavras e seu uso. A memória semân- tica é, de modo geral, compartilhada social- mente, reaprendida de forma constante, não sendo temporalmente específica (Dalla Barba et al., 1998). A contraposição desses dois tipos de memória (episódica e semântica) exempli- fica-se da seguinte forma: lembrar como foi um almoço com os avós, em Belo Hori- zonte, durante as férias do mês passado, depende do sistema de memória episódica. Já o conhecimento do significado das pa- lavras “almoço”, “Belo Horizonte”, “férias”, “avós”, etc., depende da memória semân- tica. Esses dois tipos de memória parecem ter certa independência. A memória semân- tica previamente adquirida é muitas vezes preservada em pacientes que apresentam graves alterações no sistema de memória episódica. Indivíduos com síndrome de Wernicke-Korsakoff têm, por exemplo, gra- ve déficit de memória episódica, mas po- dem ter a memória semântica bem-pre- servada. A memória semântica, em acepção restrita, corresponde às capacidades de nomeação e categorização. Depende de forma estreita das regiões inferiores e la- terais dos lobos temporais, sobretudo no hemisfério esquerdo (diferentemente da memória episódica que depende das regi- ões mediais desses lobos). INVESTIGAÇÃO SEMIOLÓGICA DA MEMÓRIA SEMÂNTICA Pesquisam-se alterações da memória se- mântica verificando-se a dificuldade do paciente em tarefas como nomear itens cujos nomes previamente sabia (mostrar um relógio, uma caneta e uma régua e pe- dir que o paciente os nomeie). Deve-se di- ferenciar as dificuldades leves e benignas, como lembrar o nome de pessoas ou ou- tros nomes próprios (muito comum em adultos de meia-idade e idosos), da verda- deira perda da capacidade de lidar com in- formação semântica. Pacientes com disfun- ções leves na memória semântica têm ca- pacidade reduzida em testes de geração de palavras (p. ex., solicitar ao paciente que nomeie o maior número possível de animais em um minuto). Pacientes com alterações mais avançadas na memória semântica ti- picamente revelam déficits de duas vias na nomeação, isto é, são incapazes de dizer o nome de um item quando este lhes é des- crito; e de descrever um item cujo nome lhes é apresentado. Os pacientes com déficits de memória semântica mais avançada também apresentam empobrecimento marcante de conhecimentos gerais (não são capazes de citar alguns times de futebol, dizer quem é o presidente da república atual, a cor do papagaio, etc.). VALOR DIAGNÓSTICO DAS ALTERAÇÕES DA MEMÓRIA SEMÂNTICA A demência de Alzheimer é a condição clí- nica que mais freqüentemente altera a me- mória semântica (devido à deterioração das Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 145 regiões ínfero-laterais dos lobos temporais ou de patologia no córtex frontal). Qual- quer processo patológico que atinja áreas temporais ínfero-laterais (traumatismo cra- niano, acidentes vasculares, encefalites ou lesões cirúrgicas) pode produzir alteração da memória semântica. A subforma ou va- riante de lobo temporal da demência fronto- temporal altera gravemente a memória se- mântica, produzindo dificuldades significa- tivas nas tarefas de nomeação, compreensão de palavras isoladas, além de empobrecimen- to dos conhecimentos gerais (condição des- crita como demência semântica). Memória de procedimentos Trata-se de um tipo de memória automáti- ca, geralmente não-consciente. Exemplos desse tipo de memória são habilidades motoras e perceptuais mais ou menos com- plexas (andar de bicicleta, digitar no com- putador, tocar um instrumento musical, bordar, etc.), habilidades visuoespaciais (como a capacidade de aprender soluções de labirintos e quebra-cabeças) e habilida- des automáticas relacionadas ao aprendi- zado de línguas (regras gramaticais incor-poradas na fala automaticamente, decorar a conjugação de verbos de uma língua es- trangeira, etc.). A memória de procedimentos, de modo geral, é implícita e não-declarativa, mas, durante a aquisição da habilidade, pode ser explícita (como quando se apren- de a dirigir um carro seguindo orientações verbais) ou implícita (como quando se aprende sem dificuldades a seqüência de números em um teclado telefônico, sem que se perceba o que está fazendo). A me- mória de procedimentos é, portanto, qua- se sempre implícita, pois manifesta-se tipi- camente por ações motoras e desempenho de atividades e não pode ser expressa por palavras (tornando-se consciente apenas com esforço). Aqui a memorização ocorre de forma lenta, por meio de repetições e múltiplas tentativas. A localização da memória de pro- cedimentos está relacionada com o sistema motor e/ou sensorial específico envolvido na tarefa. As principais áreas envolvidas são a área motora suplementar (lobos fron- tais), os gânglios da base e o cerebelo. INVESTIGAÇÃO SEMIOLÓGICA DA MEMÓRIA DE PROCEDIMENTOS Suspeita-se da presença de alterações da me- mória de procedimentos quando o paciente apresenta ou perda de habilidades motoras ou visuoespaciais previamente aprendidas ou grande dificuldade em aprender novas habilidades. Por exemplo, o paciente pode perder a habilidade de escrever à mão ou de digitar um teclado, de tocar um instru- mento musical, de pregar um botão ou de chutar uma bola. Eventualmente, pode reaprender essas habilidades, mas, para isso, necessita de ordens explícitas (verbais, cons- cientes) para realizar cada etapa da habili- dade. Em conseqüência, um paciente com lesão no sistema de memória de procedi- mentos pode nunca mais readquirir as ha- bilidades motoras automáticas e sem esfor- ço que pessoas saudáveis realizam como que sem perceber. Por fim, pacientes cuja memória episódica foi praticamente devas- tada (quadros graves de demência de Alzheimer ou síndrome de Wernicke- Korsakoff após encefalite) podem ter gan- hos relativos em um processo de reabilita- ção que lance mão do sistema de memória de procedimentos preservada e, assim, aprender novas habilidades. VALOR DIAGNÓSTICO DAS ALTERAÇÕES DA MEMÓRIA DE PROCEDIMENTOS De modo geral, esse tipo de memória não fica gravemente prejudicado na demência Paulo Dalgalarrondo146 de Alzheimer, apresentando-se mais dete- riorado (sobretudo como perda da capaci- dade de aprendizado motor) em outras do- enças degenerativas que envolvem habili- dades psicomotoras. A doença de Parkinson (assim como a síndrome de Parkinson por causas vasculares, tumorais, etc.) é a condi- ção mais freqüente em que se observa per- da da memória de procedimentos. Outras doenças que comprometem a memória de procedimentos são: coréia de Huntington, paralisia supranuclear progressiva e dege- neração olivopontocerebelar. Também os tumores, os acidentes vasculares, as hemor- ragias e outras lesões nos núcleos da base ou no cerebelo podem prejudicar a memó- ria de procedimentos. Pacientes nas fases iniciais da doença de Parkinson e da coréia de Huntington (assim como na degenera- ção olivopontocerebelar e paralisia supranu- clear progressiva) apresentam desempenho quase normal em testes de memória epi- sódica, mas revelam acentuada incapacida- de para aprender novas habilidades moto- ras, visuoespaciais e lingüísticas. ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS DA MEMÓRIA Alterações quantitativas Hipermnésias As representações (elementos mnêmicos) afluem rapidamente, em tropel, ganhan- do em número, perdendo, porém, em cla- reza e precisão (Nobre de Melo, 1979). A hipermnésia traduz mais a aceleração ge- ral do ritmo psíquico que uma alteração propriamente da memória. Amnésias (ou hipomnésias) Denomina-se amné- sia, de forma gené- rica, a perda da me- mória, seja a da ca- pacidade de fixar ou a da capacidade de Quadro 15.2 Resumo dos tipos de memória (modificado a partir de Oliveira e Amaral, 1997) Modos de classificar a memória Tipos de memória Segundo a dimensão humana envolvida Memória genética, memória imunológica, memória neuropsicológica, memória cultural Segundo o tempo e a duração do processo Memória imediata, recente, remota, de fixação mnêmico e de evocação Segundo a natureza dos estímulos envolvidos Memória auditiva (ecóica), visual (icônica), olfativa, gustativa, tátil, somatossensorial Segundo o tipo de função Memória verbal, espacial, aritmética, musical, etc. Segundo a modalidade cognitiva e o sistema Memória implícita (não-declarativa) e explícita cerebral envolvido (declarativa), memória de trabalho, episódica, semântica e de procedimentos Denomina-se am- nésia, de forma ge- nérica, a perda da memória, seja a da capacidade de fixar ou a da capacidade de manter e evocar antigos conteúdos mnêmicos. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 147 manter e evocar antigos conteúdos mnê- micos. Diferenciam-se os seguintes tipos de amnésias: 1. Amnésia psicogênica. Na amné- sia psicogênica, há perda de ele- mentos mnêmicos focais, os quais têm valor psicológico específico (simbólico, afetivo). O indivíduo esquece, por exemplo, um even- to de sua vida (que teve um sig- nificado especial para ele), mas consegue lembrar de tudo que ocorreu ao seu “redor”. Tal am- nésia pode ser superada por um estado hipnótico (na hipnose, o indivíduo consegue lembrar do que, em estado de consciência, não recorda). 2. Amnésia orgânica. Trata-se de amnésia menos seletiva (em re- lação ao conteúdo do material es- quecido) que a psicogênica. Em geral, perde-se primeiramente a capacidade de fixação (memóri- as imediatas e recentes); em es- tados avançados da doença, o in- divíduo começa a perder conteú- dos antigos. A amnésia orgânica segue, de modo geral, a lei de Ribot. AMNÉSIA ANTERÓGRADA E RETRÓGRADA Na amnésia anterógrada, o indivíduo não consegue mais fixar elementos mnêmicos a partir do evento que lhe causou o dano cerebral. Por exemplo, o indivíduo não lembra do que ocorreu nas semanas (ou meses) depois de um trauma cranioencefá- lico. A amnésia anterógrada é um distúr- bio-chave e bastante freqüente na maior parte dos distúrbios neurocognitivos. Já na amnésia retrógrada, o indivíduo per- de a memória para fatos ocorridos antes do início da doença (ou trauma). Sua ocorrência sem amnésia anterógrada pode ser observada em quadros dissociativos (psicogênicos), como a amnésia dissocia- tiva e a fuga dissociativa (Othmer; Othmer, 1994). De modo geral, é comum, após trau- ma cranioencefálico, a ocorrência de am- nésias retroanterógradas, ou seja, déficits de fixação para o que ocorreu dias, sema- nas ou meses antes e depois do evento patógeno. Alterações qualitativas da memória (paramnésias) As alterações quali- tativas da memória envolvem sobretudo a deformação do processo de evoca- ção de conteúdos mnêmicos previa- mente fixados. O in- divíduo apresenta lembrança deformada que não corresponde à sensopercepção original. Os principais ti- pos de paramnésias são: 1. Ilusões mnêmicas. Neste caso, há o acréscimo de elementos fal- sos a um núcleo verdadeiro de memória. Por isso, a lembrança adquire caráter fictício. Muitos pacientes informam sobre o seu passado indicando claramente de- formação de lembranças reais: “Tive uma centena de filhos com minha mulher” (teve de fato al- guns filhos com a mulher, mas não uma centena). Ocorre na esquizo- frenia, na paranóia, na histeria grave, nos transtornos da perso- nalidade (borderline, histriônica, esquizotípica, etc). As alterações quali- tativas da memória envolvem sobretudo a deformação do pro- cesso de evocação de conteúdos mnê- micos previamente fixados. Paulo Dalgalarrondo148 2. Alucinações mnêmicas. São ver- dadeiras criações imaginativas com a aparência de lembranças ou reminiscências que não correspon- dem a qualquer elemento mnê- mico, a qualquer lembrança ver- dadeira. Podem surgir de modo repentino, sem corresponder a qualquer acontecimento. Ocorrem principalmente na esquizofrenia e em outras psicoses funcionais. As ilusões e asalucinações mnêmicas constituem, muitas vezes, o material bási- co para a formação e a elaboração de delí- rios (delírio imaginativo ou mnêmico). Fabulações (ou confabulações) Neste caso, elementos da imaginação do doente ou mesmo lembranças isoladas completam artificialmente as lacunas de memória, produzidas, em geral, por défi- cit da memória de fixação. Além do déficit de fixação, o doente não é capaz de reco- nhecer como falsas as imagens produzidas pela fantasia. As fabulações (ou confabu- lações) são invenções, produtos da imagi- nação do paciente, que preenchem um va- zio da memória. O paciente não tem in- tenção de mentir ou enganar o entrevista- dor. É possível produzi-las, direcioná-las ou estimulá-las ao perguntar ao doente se ele lembra de um encontro há dois anos, em um bar de seu bairro, ou perguntando-lhe o que fez no domingo anterior (ou na noi- te passada). Essas são as chamadas fabu- lações de embaraço. Portanto, as fabu- lações diferem das ilusões e das alucina- ções mnêmicas, que não podem ser produ- zidas, induzidas ou direcionadas pelo exa- minador. Alguns autores preferem enten- der as fabulações mais como um déficit de “monitoração da realidade” que como uma alteração específica da memória (Dalla Barba, 1993). As fabulações ocorrem freqüente- mente na síndrome de Korsakoff, secun- dária ao alcoolismo crônico, associado a déficit da tiamina (vitamina B1), trauma- tismo craniano, encefalite herpética, into- xicação pelo monóxido de carbono, etc. A síndrome de Korsakoff é caracterizada por déficit intenso de memória de fixação (so- bretudo do tipo episódica), que geralmen- te vem acompanhado de fabulações e de- sorientação temporoespacial. Alguns autores (Alonso-Fernández, 1976; Sims, 2001) classificam como alte- ração qualitativa da memória (talvez por sua semelhança com as fabulações) a pseudologia fantástica ou mentira pato- lógica (histórias e construções fantasiosas, extensas e geralmente mescladas com a realidade, vividas com tanta intensidade que, ao fim, o sujeito crê nelas). Embora tal fenômeno possa utilizar elementos do passado, este não é o capítulo mais ade- quado para situá-lo. Ele será visto no Ca- pítulo 19, o qual trata do juízo de rea- lidade. Criptomnésias Trata-se de um falseamento da memória, em que as lembranças aparecem como fa- tos novos ao paciente, que não as reconhe- ce como lembranças, vivendo-as como uma descoberta. Por exemplo, um indivíduo com demência (como do tipo Alzheimer) conta a seus amigos uma história muito co- nhecida como se fosse inteiramente nova, história essa que, há poucos minutos, foi relatada por um companheiro. Ecmnésia Trata-se da recapitulação e da revivescência intensa, abreviada e panorâmica, da exis- tência, uma recordação condensada de muitos eventos passados, que ocorre em Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 149 breve período. Na ecmnésia, o indivíduo tem a vivência de uma alucinação, a visão de cenas passadas como forma de presenti- ficação do passado. Esse tipo de ecmnésia pode ocorrer em alguns pacientes com cri- ses epilépticas. O fenômeno denominado visão panorâmica da vida, associado às chamadas experiências de quase-morte, é, de certa forma, um tipo de ecmnésia, que ocorre relacionado à iminência da morte por acidente (afogamento principalmente, sufocamento ou intoxicação), em formas graves de histeria e no estado de hipnose. Quando a ecmnésia ocorre associada à pro- ximidade da morte, alguns indivíduos que sobreviveram relatam ter visto um túnel e uma névoa luminosa. Lembrança obsessiva A lembrança obsessiva, também denomi- nada idéia fixa ou representação prevalen- te, manifesta-se como o surgimento espon- tâneo de imagens mnêmicas ou conteúdos ideativos do passado que, uma vez instala- dos na consciência, não podem ser repeli- dos voluntariamente pelo indivíduo. A ima- gem mnêmica, embora reconhecida como absurda e indesejável, reaparece de forma constante e permanece, como um incômo- do, na consciência do paciente. Manifesta- se em indivíduos com transtornos do es- pectro obsessivo-compulsivo. ALTERAÇÕES DO RECONHE- CIMENTO As alterações do re- conhecimento di- videm-se em dois grandes grupos: as diferentes formas de agnosias, de ori- gem essencialmen- te cerebral, e as alterações de reconheci- mento mais freqüentemente associadas aos transtornos mentais, sem base orgâ- nica definida. As agnosias são definidas como déficits do reconhecimento de estímulos sensoriais, objetos e fenômenos, que não podem ser explicados por um déficit sen- sorial, por distúrbios da linguagem ou por perdas cognitivas globais. São classifica- das, de modo geral, segundo a modalida- de sensorial na qual o indivíduo perdeu a capacidade de reconhecimento. Definem- se, então, as agnosias visuais, táteis e au- ditivas e as agnosias para percepções com- plexas. É possível também diferenciá-las segundo o mecanismo básico que as cau- sa: agnosia aperceptiva e agnosia asso- ciativa. A agnosia aperceptiva ocorre, por exemplo, secundária à lesão bilateral das áreas visuais primárias. Nesse caso, há déficit de processamento visual, sendo prejudicado o processo de apercepção nor- mal, impossibilitando o adequado reco- nhecimento visual dos objetos. A agnosia associativa refere-se ao déficit da forma- ção do percepto. Após reconhecimento adequado, há impossibilidade de associar- se corretamente um sentido, um signifi- cado a tal objeto reconhecido sensorial- mente; a alteração ocorre, portanto, no processo de acoplagem de determinado sentido a certa apercepção. As principais formas de agnosia são: 1. As agnosias táteis, divididas em dois subtipos: a astereognosia, na qual o paciente é incapaz de reco- nhecer as formas dos objetos co- locados em suas mãos, estando o mesmo de olhos fechados; e a agnosia tátil propriamente dita, na qual, apesar de o paciente iden- tificar as formas elementares do objeto, há incapacidade de reco- nhecimento global de tal objeto; o paciente descreve como o obje- As alterações do re- conhecimento divi- dem-se em dois gran- des grupos: as agno- sias, de origem es- sencialmente cere- bral, e as alterações de reconhecimento associadas aos trans- tornos mentais, sem base orgânica defi- nida. Paulo Dalgalarrondo150 to é, mas não sabe exatamente que objeto é apresentado. 2. As agnosias visuais são aquelas nas quais o paciente não consegue mais reconhecer, pela visão, deter- minados objetos; enxerga-os, pode descrevê-los, mas não sabe o que realmente são. 3. A prosopagnosia era considera- da a agnosia de reconhecimen- to de faces previamente conheci- das. Entretanto, expandiu-se o conceito de prosopagnosia, in- cluindo-se a incapacidade de re- conhecer membros específicos de determinado grupo genérico de coisas, como certo tipo ou marca de carro no meio de vários carros, determinada casa entre várias ca- sas, uma face específica em meio a várias faces. 4. A agnosia auditiva é a incapaci- dade de reconhecer sons (sem ha- ver déficit auditivo) não-lingüís- ticos (agnosia auditiva seletiva) ou lingüísticos (agnosia verbal). A agnosia verbal, ou surdez ver- bal pura, ocorre por lesão da área auditiva primária bilateralmente (giro de Heschl) ou por certas le- sões subcorticais caprichosas (a chamada disfasia auditiva subcor- tical). O paciente pode falar, ler e escrever correta e fluentemente; entretanto, não entende qualquer palavra falada que ouve, apenas as reconhece como ruídos. Há também a cegueira verbal pura, na qual o paciente fala, escreve e entende palavras faladas normal- mente; porém, não pode ler de forma compreensível um texto (alexia agnóstica sem disgrafia, em geral acompanhada de hemia- nopia homônima e inabilidade em nomear cores, apesar de percebê- las corretamente). 5. A anosognosia é a incapacidade de o doente reconhecer um défi- cit ou uma doença que o acome- te. Tipicamente, o paciente não reconhece, por exemplo, que tem o hemicorpo esquerdo parético ou mesmo paralisado, chegando mesmo a não identificar a exis- tência de um membro ou de um hemicorpo.A anosodiaforia é a incapacidade de o paciente reco- nhecer o estado afetivo no qual se encontra. Já a simultanagno- sia é a incapacidade de reconhe- cer mais de um objeto ao mesmo tempo. 6. A grafestesia é o reconhecimento da escrita pelo tato. Escrevem-se, na mão do paciente, letras ou nú- meros com um objeto semelhante a uma caneta (mas sem a tinta) e pede-se que ele os reconheça com os olhos fechados. O comprome- timento da grafestesia é um indi- cativo de perturbação do reconhe- cimento por déficit da integração sensório-motora no nível cortical (Yudofsky; Hales, 1996). 7. Alguns pacientes conseguem iden- tificar e nomear adequadamente o hospital no qual se encontram; entretanto, afirmam que ele é pró- ximo à sua residência ou, ainda, reconhecem o hospital, mas afir- mam (incorretamente) que este se situa em sua cidade. Tal déficit de reconhecimento foi denominado paramnésia reduplicativa. Ocor- re com mais freqüência em indiví- duos com lesões nos lobos fron- tais (Benson; Stuss, 1990). Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 151 Alterações do reconhecimento associadas a transtornos psiquiátricos Alterações do reconhecimento e identificação de origem delirante (Delusional misidentification syndrome) Essas alterações in- cluem os falsos des- conhecimentos pro- duzidos por pro- cessos delirantes, síndromes deliran- tes muito peculiares do reconhecimento e de falsas identifi- cações.* No falso desconhecimento, o pa- ciente não reconhece pessoas muito fami- liares (como a mãe, a esposa, o filho, etc.) ou outra pessoa próxima. Ao ser visitado pelos pais, outros familiares ou amigos, o paciente afirma não conhecê-los, diz nun- ca tê-los vistos anteriormente. Na síndrome de Capgras, o paciente afirma que uma pessoa próxima e famili- ar que o visitou dizendo ser seu pai ou sua mãe é, na verdade, um sósia quase idêntico, uma falsa cópia. Aquele que afir- ma ser o pai é um duplo, um impostor, uma falsificação quase perfeita que o subs- tituiu e quer que o paciente acredite tra- tar-se do seu verdadeiro pai. Um caso re- centemente descrito por nós (Dalgalar- rondo; Fujisawa; Banzato, 2002) foi o de uma jovem cega com a síndrome de Capgras que reconhecia seu marido (real) como se ele fosse um sósia. Esse falso re- conhecimento ocorria não pela aparência física visual (pois a paciente era comple- tamente cega), mas pelo tato e pelo odor. Ela dizia que a pele e o cheiro deles (ma- rido e sósia) eram muito parecidos, mas, de fato, não era o verdadeiro marido que a visitava, era um impostor, uma cópia quase idêntica. Tal caso corrobora a idéia de que, na síndrome de Capgras, o ponto central não é a questão perceptiva (visual ou de outra modalidade) ou de memória, mas a alteração delirante implicada no re- conhecimento de alguém significativo para o paciente. Na chamada síndrome de Capgras inversa (reverse Capgras), o sujeito acre- dita que houve transformação radical em si mesmo, que ele próprio é um impostor. E esse impostor passou a habitar seu cor- po, não reconhecendo o corpo como sen- do o seu próprio e verdadeiro. O paciente afirma: “Este sujeito aqui é, na verdade, um sósia, uma cópia quase idêntica de mim mesmo”. A síndrome do duplo subjetivo é um tanto semelhante (e mesmo conceitual- mente sobreposta) à de Capgras inversa. Nesse caso, o paciente acredita que outra pessoa transformou-se fisicamente a pon- to de tornar-se idêntica a ele, vindo a ser o seu próprio Eu, um duplo perfeito (Sims, 1995). Assim, essa psicopatologia é análo- ga à síndrome de Capgras, mas apenas o sósia, nesse caso, é o próprio Eu do pa- ciente. Para uma abordagem ampla da questão do duplo em psicopatologia, ver Rank (1939). A síndrome de Frégoli é um falso re- conhecimento delirante, em que o indiví- duo identifica falsamente uma pessoa es- tranha como se fosse alguém de seu círcu- lo pessoal. Também é denominada falso reconhecimento. Na prática clínica, é fre- * Todas essas alterações poderiam muito bem ser descritas no capítulo sobre juízo de realidade e delírio ou no capítulo a respeito da consciência do Eu. Entretanto, por serem alterações do reco- nhecimento, optou-se, um tanto arbitrariamente, em descrevê-las neste capítulo. Essas alterações in- cluem os falsos des- conhecimentos pro- duzidos por proces- sos delirantes, sín- dromes delirantes muito peculiares do reconhecimento e de falsas identificações. Paulo Dalgalarrondo152 qüente observar indivíduos psicóticos que identificam o médico, o psicólogo ou o en- fermeiro como uma pessoa de sua família ou como um velho conhecido, a quem atri- buem o mesmo nome e com quem conver- sam como se fossem seus velhos amigos. Por sua vez, na síndrome de Frégoli in- versa (reverse Frégoli), há a crença deli- rante de que houve (ou está havendo) uma mudança radical da própria aparência físi- ca, sem alteração do self psicológico. O corpo e a aparência física do paciente não são mais os mesmos, mas a sua identidade psicológica permanece igual. Já na síndrome de intermetamor- fose, o paciente relata que certa pessoa de seu círculo familiar, geralmente percebida como perseguidor, e outra pessoa, estra- nha, também perseguidor, têm caracterís- ticas físicas e psicológicas em comum. Valor diagnóstico: de modo geral, os falsos desconhecimentos e os falsos reconhecimen- tos, assim como as demais síndromes deli- rantes dessa natureza, ocorrem com mais freqüência associados a esquizofrenia, de- pressões graves e síndromes psico-orgâni- cas agudas ou crônicas. Entretanto, podem se manifestar de forma isolada. Para uma boa revisão e análise das síndromes deliran- tes de falso reconhecimento e falsa identifi- cação, ver Rodrigues e Banzato (2006). Alterações do reconhecimento não-delirantes Fenômeno do já visto, do já ouvido, do já pensado, do já vivido (déjà-vu, déjà entendu, déjà pensé, déjà vécu, etc.). O indivíduo tem a nítida impressão de que o Quadro 15.3 Resumo das síndromes delirantes de falso reconhecimento e identificação Síndrome Descrição Não-reconhecimento, durante episódio psicótico, de familiares (mãe, esposa, filho, etc.) ou de pessoas próximas Uma pessoa próxima e familiar é considerada um sósia quase idêntico, uma cópia falsa O próprio Eu é percebido como um impostor, uma cópia falsa de si mesmo Outra pessoa transformou-se fisicamente a ponto de tornar-se idêntica ao próprio paciente, um duplo quase perfeito de si mesmo Identificação falsa e delirante de uma pessoa estranha como se fosse alguém do círculo pessoal do paciente O próprio Eu físico do paciente é percebido como se transformando radicalmente; sua aparência não é mais a mesma, apenas sua identidade psicológica permanece igual Pessoa do círculo familiar do paciente, tida como perseguidor, e um estranho, também perseguidor, são percebidos como tendo caracterís- ticas físicas e psicológicas em comum Falso desconhecimento Síndrome de Capgras Síndrome de Capgras inversa Síndrome do duplo subjetivo Falso reconhecimento ou síndrome de Frégoli Síndrome de Frégoli inversa Síndrome de intermetamorfose Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 153 que está vendo, ouvindo, pensando ou vivenciando no momento já foi experimen- tado no passado. Fenômeno do jamais visto (jamais- vu). O doente, apesar de já ter passado por determinada experiência, tem a nítida sen- sação de que nunca a viu, ouviu, pensou ou viveu. Valor diagnóstico: tais fenômenos ocor- rem na fadiga e em estados mais ou menos acentuados de esgotamento, não sendo, nesses casos, alterações patológicas. Podem ocorrer também associados com epilepsia, sobretudo no tipo em que ocorrem crises parciais-complexas e, eventualmente, em psicoses tóxicas. (Continua) Quadro 15.4 Semiotécnica da memória Perguntas relativas à memória recente (apresentar-se inicialmente ao paciente) • Há quanto tempo está nesta enfermaria (ou neste serviço de saúde, consultório)? • Onde dormiu na última noite? • Onde estava ontem? E há uma semana? No mês passado? • O que comeu ontem? E hoje? • A quehoras levantou-se da cama? • Trabalhou ou estudou ontem? E hoje? • Há quanto tempo estamos conversando? • Quem sou eu e qual o meu nome? Perguntas relativas à memória remota • Estado civil? • Com que idade casou? • Como se chama seu cônjuge? • Que idade tem seu cônjuge? • Em que cidade casou? • Tem filhos? Como se chamam? Que idade têm? • Como se chamam seus pais? Vivem ainda? Que idade têm? • Onde nasceu? • Foi à escola? Nome da escola/faculdade que cursou? • Lembra-se do nome de algum professor? • De algum colega de escola? • Como era a cidade de sua infância e a de sua juventude? • O que fez, em termos de trabalho ou atividade, no passado? • Como aprendeu? • Em que eleições você votou? • Lembra-se do nome dos últimos presidentes? • Se for viúvo, data e causa da morte do cônjuge? • Se for divorciado (separado), data e motivo do divórcio (separação)? Testes simplificados de memória Testes de memória verbal simples: Pedir ao paciente que preste atenção em quatro palavras aleatórias que serão ditas (p. ex., rua, cadeira, paz e chapéu). Solicitar que ele as repita em seguida, assegurando que prestou atenção e registrou imediatamente o que foi dito. Deixar passar 5 a 10 minutos (fazer alguns exames de força muscular e reflexos neurológicos ou solicitar ao paciente que conte de frente para trás, a partir de 20). Solicitar, então, que ele repita as palavras (ele deve recordar 3 ou 4 palavras). Teste de memória visual: Esconder quatro objetos (p. ex., caneta, relógio, chave e livro) diante do paciente, que repete imediatamente o nome dos objetos e diz onde eles estão. Continuar a testagem (outros testes ou perguntas) e, após 10 minutos, solicitar ao paciente que diga onde estão os objetos escondidos. Pessoas com memória visual normal (e sem afasias) tendem a lembrar de 3 a 4 locais. Paulo Dalgalarrondo154 Teste de memória verbal por associação de palavras: Dizer ao paciente que vai ler uma lista de 10 pares de palavras, relacionadas logicamente entre si (p. ex., alto-baixo). Depois pronunciar a primeira palavra do par e pedir ao paciente que diga a palavra correspondente. Por exemplo, “Quando eu disser alto, você deve dizer baixo”. Ler, primeiramente, todos os pares devagar e de forma bem-pronunciada, pedir ao paciente para que preste bem atenção. Em seguida, falar a primeira palavra do par e solicitar que ele diga a segunda palavra correspondente. Exemplo de lista de palavras: grande-pequeno/livro-caderno/cadeira-móvel/chuva-barro/criança-brinque- do/sol-verão/monstro-medo/rio-água/dinheiro-luxo/professor-escola. O indivíduo adulto, sem déficit de memória verbal, acerta, pelo menos, cerca de seis palavras. Teste de memória lógica (repetição imediata de uma história): Contar ao paciente uma história simples com 15 itens distintos. Por exemplo: Quadro 15.4 Semiotécnica da memória (continuação) Testes simplificados de memória Questões de revisão • Defina memória. • Do ponto de vista psicológico, de que fatores depende o processo de fixação? E a conservação (retenção)? • Em relação ao processo temporal de aquisição e evocação de elementos mnemônicos, como a neuropsicologia moderna divide a memória? • O que significa priming? • Explique o processo do esquecimento. • Com o avanço das neurociências, não se pode mais falar em memória, mas em “memó- rias”. Explique. • Classifique e caracterize os tipos de memória segundo as estruturas cerebrais envolvidas. • Defina amnésia. Quais são os tipos de amnésia? Caracterize-os. • Quais são os principais tipos de paramnésias? Diferencie-os. • Identifique e caracterize os diferentes tipos de alterações de reconhecimento conforme sua associação com transtornos mentais ou com sua origem essencialmente cerebral. 9. (dois homens fortes); 10. (com revólveres na mão); 11. (disseram a uma velha); 12. (que entregasse a bolsa); 13. (ela ficou nervosa); 14. (caiu no chão); 15. (bateu a cabeça); e 16. (foi levada para o hospital). Solicitar, em seguida, que o paciente repita a história completa. De modo geral, o indivíduo normal consegue lembrar de pelo menos 5 a 6 segmentos narrativos. 1. (Pedro); 2. (de 23 anos); 3. (ajudante de mecânico); 4. (morador de Hortolândia); 5. (foi ao cinema); 6. (com sua namorada); 7. (na saída da sessão); 8. (viu um assalto); Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 193 CONCEITOS Os conceitos se formam a partir das re- presentações. Ao contrário das percepções (e, em certo sentido, também das repre- sentações), o conceito não apresenta ele- mentos de sensoria- lidade, não sendo possível contemplá- lo, nem imaginá-lo. Trata-se de um ele- mento puramente cognitivo, intelecti- vo, não tendo qual- quer resquício sen- sorial. Não é possí- vel visualizar um conceito, ouvi-lo ou senti-lo. Nos concei- tos, exprimem-se apenas os caracteres mais gerais dos objetos e dos fenômenos. Para a formação dos conceitos, são necessários dois passos fundamentais: • Eliminação dos caracteres de sensorialidade. Estes caracteres ainda marcam essencialmente as DEFINIÇÕES BÁSICAS Devem-se inicialmente distinguir os ele- mentos constitutivos do pensamento, que, segundo a tradição aristotélica, são o conceito, o juízo e o raciocínio, das dife- rentes dimensões do processo de pensar, delimitadas como curso, forma e conteú- do do pensamento. Sem entrar em questões filosóficas mais amplas, pode-se, didaticamente, afirmar que o pensamento se constitui a partir de elemen- tos sensoriais, que, embora não sejam pro- priamente intelectivos, podem fornecer substrato para o processo do pensar: são as imagens perceptivas e as representações (pre- sentes no Cap. 14). Desde Aristó- teles, os elementos propriamente inte- lectivos do pensa- mento dividem-se em três operações básicas: os concei- tos, os juízos e o ra- ciocínio. Desde Aristóteles, os elementos propria- mente intelectivos do pensamento divi- dem-se em três ope- rações básicas: os conceitos, os juízos e o raciocínio. O conceito não apre- senta elementos de sensorialidade, não sendo possível con- templá-lo, nem ima- giná-lo. Trata-se de um elemento pura- mente cognitivo, in- telectivo. 18 O pensamento e suas alterações Eu sou, eu existo; isso é certo; mas por quanto tempo? A saber, por todo o tempo em que eu penso; pois poderia ocorrer que, se eu deixasse de pensar, eu deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. Agora eu nada admito que não seja necessariamente verdadeiro: portanto, eu não sou, precisamente falando, senão uma coisa que pensa [...] Descartes (Segunda meditação, 1641) Paulo Dalgalarrondo194 representações. Por exemplo, quan- do se representa uma cadeira, ela ainda é visualizada mentalmente, imagina-se uma cadeira preta, de madeira, bonita ou feia, etc. Essa representação de cadeira ainda tem forte aspecto sensorial. Quando se conceitualiza cadeira como um objeto de quatro pés, móvel utili- zado para sentar, suprime-se a di- mensão sensorial (no caso, aqui, vi- sual), ficando apenas a dimensão puramente conceitual. • Generalização. Quando, por exem- plo, se pensa em “cadeira” como conceito, tal conceito é válido para qualquer tipo de cadeira, seja a usada em casa, a cadeira de traba- lho, a cadeira de criança, etc. As- sim, o conceito resulta da síntese, por abstração e generalização, de um número considerável de fenô- menos singulares. O conceito é o elemento estrutural bá- sico do pensamento, nele se exprimem os caracteres essenciais dos objetos e fenôme- nos da natureza. Há um debate na psicologia moderna (Gazzania; Heatherton, 2005) se as repre- sentações são de fato “imagens”, tais como “fotografias” armazenadas na mente huma- na, ou se são “representações proposicio- nais”. Nessa linha, a representação propo- sicional de uma mesa não seria a imagem- fotografia de uma mesa genérica no cére- bro, mas as proposições, quase sempre de natureza lingüística, associadas a idéias de mesa. Assim, ao evocar a representaçãovi- sual de uma mesa, não viria à mente uma massa visual neutra, sem sentido utilitário, mas um objeto que, tendo quase sempre uma tampa plana, quatro ou três pés de sus- tentação, de madeira ou plástico, requisita algo que é construído culturalmente e com significado lingüístico. Estudos cognitivos e de neuroimagem têm reforçado a idéia de que, em diferentes contextos e para objetos distintos, ambos os modos de constituir re- presentações ocorrem na mente humana. JUÍZOS Formar juízos é o processo que conduz ao estabelecimento de relações significativas entre os conceitos básicos. O juízo consis- te, a princípio, na afirmação de uma rela- ção entre dois con- ceitos. Por exemplo, ao tomar-se os con- ceitos “cadeira” e “utilidade” (ou seja, qualidade de ser útil), pode-se formular o seguinte juízo: a cadeira é útil. Tal juízo estabelece deter- minada relação entre esses dois conceitos. Portanto, o juízo tem, por função básica, formular uma relação unívoca entre um su- jeito e um predicado. Na dimensão lingüís- tica, os conceitos se expressam geralmen- te por palavras; e os juízos, por frases ou proposições. RACIOCÍNIO A função que relaciona os juízos recebe a denominação de ra- ciocínio. O processo do raciocínio repre- senta um modo es- pecial de ligação entre conceitos, de seqüência de juízos, de encadeamento de conhecimentos, derivando sempre uns dos outros. As- sim como a ligação entre conceitos permite a formação de juízos, a ligação entre juízos conduz à for- mação de novos juízos. Dessa forma, o ra- ciocínio e o próprio pensamento se desen- volvem. O juízo consiste, a princípio, na afirma- ção de uma relação entre dois conceitos. O processo do racio- cínio representa um modo especial de li- gação entre concei- tos, de seqüência de juízos, de encadea- mento de conheci- mentos, derivando sempre uns dos ou- tros. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 195 O PROCESSO DO PENSAR Outra forma de analisar o pensamento, como processo do pensar, é distinguindo os seguintes aspec- tos ou momentos do pensamento: o cur- so do pensamento, a forma ou estrutu- ra do pensamento e o conteúdo ou te- mática do pensa- mento. O curso do pensamento é o modo como o pensamento flui, a sua velocidade e seu ritmo ao longo do tempo. Já a forma do pensamento é a sua estrutura básica, sua “arquitetura”, preenchida pelos mais diversos conteúdos e interesses do indiví- duo. Por sua vez, o conteúdo do pensa- mento pode ser definido como aquilo que dá substância ao pensamento, os seus te- mas predominantes, o assunto em si. Há tantos conteúdos de pensamento quantos são os temas de interesse do ser humano. ALTERAÇÕES DOS ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DO PENSAMENTO Alterações dos conceitos Desintegração dos conceitos Ocorre quando os conceitos sofrem um pro- cesso de perda de seu significado original. Segundo Paim (1986), os conceitos se des- fazem, e uma mesma palavra passa a ter significados cada vez mais diversos. A idéia de determinado objeto e a palavra que nor- malmente a designa passam a não mais coincidir. É comum, na desintegração dos conceitos, que o sujeito passe a utilizar as palavras de forma totalmente pessoal e idiossincrática. Para um paciente de Paim (1986), a palavra “ateu” deixa de signifi- car “descrente de Deus” para significar jus- tamente o seu oposto, pois subverte o seu sentido interpretan- do que ateu signifi- ca “a teu comando”, ou seja, “a comando de Deus, crente”. A desintegração dos conceitos é bastan- te característica da esquizofrenia e pode ocorrer também nas síndromes demenciais. Condensação dos conceitos Ocorre quando dois ou mais conceitos são fundidos, o paciente involuntariamente condensa duas ou mais idéias em um úni- co conceito, que se expressa por uma nova palavra. No plano da linguagem, as desin- tegrações e as condensações dos conceitos são designadas neologismos, ou seja, pala- vras inteiramente novas ou palavras conhe- cidas recebendo significados novos, com- pletamente idiossincráticos. Alterações dos juízos Juízo deficiente ou prejudicado É um tipo de juízo falso que se estabelece porque a elaboração dos juízos é prejudica- da por deficiência intelectual e pobreza cognitiva do indivíduo. Aqui, os conceitos são inconsistentes; e o raciocínio, pobre e defei- tuoso. Os juízos são por demais simplistas, concretos e sujeitos à influência do meio so- cial. Às vezes, é difícil diferenciar um juízo deficiente de um delírio. De modo geral, os erros de juízo por deficiência não são persis- tentes e irredutíveis, mudam com facilidade e variam sua temática a todo momento. Juízo de realidade ou delírio As alterações do juízo de realidade ou delírio são, de fato, as alterações do juízo No processo de pen- sar distinguem-se: o curso do pensamen- to, a forma ou estru- tura do pensamento e o conteúdo ou te- mática do pensa- mento. A desintegração dos conceitos é bastante característica da es- quizofrenia e pode ocorrer também nas síndromes demen- ciais. Paulo Dalgalarrondo196 mais importantes em psicopatologia. Por sua importância e extensão, esse tema será tratado em capítulo específico. Alterações do raciocínio e do estilo de pensar Antes de entrar na descrição das diver- sas formas de pen- sar alterado, con- vém descrever as regras básicas e o funcionamento nor- mal do pensamento. O que caracteriza o pensamento nor- mal é ser regido pela lógica formal e orien- tar-se segundo a realidade e os princípios de racionalidade da cultura na qual o indi- víduo se insere. Segundo a visão aristotélica, os prin- cípios básicos do pensamento lógico-for- mal que orientam o pensamento tido como normal são: 1. Princípio da identidade. Também é denominado princípio da não- contradição. Trata-se de um prin- cípio muito simples e essencial do pensamento lógico, o qual afirma que: se A é A, e B é B, logo, A não pode ser B. 2. Princípio da causalidade. Este princípio afirma que se A é causa de B, A não pode ser ao mesmo tempo efeito de B; ou, dito de ou- tra forma, se A é causa de B, então B não pode ser ao mesmo tempo causa de A. Também faz parte do princípio de causalidade a regra segundo a qual, sendo as condições mantidas, as mesmas causas devem produzir os mesmos efeitos. 3. Lei da parte e do todo. Este prin- cípio discrimina rigorosamente a parte do todo; se A é parte de B, então B não pode ser parte de A. Assim, se o Brasil é uma parte da América do Sul, então a América do Sul não pode ser uma parte do Brasil. Esses princípios receberam tratamen- to crítico e, em certa medida, foram supe- rados pelo desenvolvimento da dialética hegeliana. De acordo com o filósofo Hegel, as principais leis da dialética que se con- trapõem aos princípios da lógica aristo- télica são: 1. Lei da transformação da quantida- de em qualidade. 2. Toda afirmação encerra em si mes- ma o princípio de sua negação. 3. Tudo é, a um só tempo, causa e efeito de si mesmo. Além disso, a história da ciência e do conhecimento manifesta dois outros tipos básicos de pensamento: indutivo e dedu- tivo. O pensamento ou método indutivo parte da observação dos fatos elementa- res, da experimentação e da comparação entre fenômenos para chegar a conclusões e concepções mais gerais, a hipóteses explicativas e classificações mais amplas. O pensamento ou método dedutivo parte de esquemas, axiomas, definições e teore- mas já bem-arquitetados, para, por meio de demonstrações lógicas, deduzir a sua ver- dade. Além disso, presta-se mais às ciências matemáticas, à lógica formal. Já o método indutivo é mais adequado às ciências natu- rais e, em parte, às ciências sociais. Define-se intuição ou pensamento intuitivo como a apreensão de uma reali- dade de forma direta e imediata. Trata-se de um tipo de conhecimento primário, in- dependente da percepção sensorial (Alho Filho, 1995). Para o filósofo Henry Bergson (1984), a intuiçãoé uma forma de conhe- cimento de natureza oposta ao pensamen- O que caracteriza o pensamento normal é ser regido pela ló- gica formal e orien- tar-se segundo a rea- lidade e os princípios de racionalidade da cultura na qual o in- divíduo se insere. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 197 to racional, que capta a interioridade das coisas, inclusive aquilo que é impossível ou muito difícil de ser expresso por palavras. Vários erros e vieses comuns têm sido identificados pelos neuropsicólo- gos. O viés de con- firmação diz respei- to à busca ativa e se- letiva que um sujeito faz no sentido de confirmar hipóteses (ou preconceitos) falsas ou sem fundamento. Há, assim, uma tendência nas pessoas em distorcer incons- cientemente os dados e as percepções da rea- lidade para confirmar hipóteses previamente formuladas no início de um raciocínio. TIPOS ALTERADOS DE PENSAMENTO O tipo e o estilo de pensamento comum de um indivíduo não acometido por doença mental são apenas precariamente lógicos. Normalmente as pessoas tendem a utilizar estereótipos, as decisões são tomadas sem as evidências fatuais necessárias, havendo um salto de impressões vagas para conclu- sões aparentemente certas. Uma série de crenças preconcei- tuosas, sociais ou pessoais, é mantida de forma insistente por um número con- siderável de pessoas (Yager; Gitlin, 1995). Tudo isso torna difí- cil a discriminação entre pensamento normal e patológico, principalmente no que concerne aos tipos de pensamento e estilo de pensar. De qual- quer forma, a psicopatologia registra uma série de tipos de pensamento comumente associados a estados mentais alterados e transtornos psiquiátricos. Pensamento mágico É o tipo de pensamento que fere frontal- mente os princípios da lógica formal, bem como os indicativos e imperativos da reali- dade. O pensamento mágico segue os de- sígnios dos desejos, das fantasias e dos te- mores, conscientes ou inconscientes, do su- jeito, adequando a realidade ao pensamen- to, e não o contrário. O antropólogo inglês James Frazer [1911] (1982) estudou a magia em distintas culturas. Embora suas teses antropológicas não sejam mais acei- tas, algumas de suas definições são úteis do ponto de vista didático. Ele sugeriu al- gumas leis e particularidades do ato e do pensamento mágico: 1. Lei da contiguidade. É a base da magia de contágio, que utiliza o preceito de que “coisas que esti- veram em contato continuam uni- das”. Assim, se o ato mágico agir sobre um objeto que pertenceu a uma pessoa (roupa, adorno, mó- vel, etc.), há a crença de que esta- rá, de fato, agindo sobre a própria pessoa (p. ex., ao queimar uma ca- misa da pessoa estará “queiman- do” a própria pessoa). 2. Lei da similaridade. É a base da chamada magia imitativa. Nesse caso, domina a idéia de que “o se- melhante produz o semelhante”. A ação ou o pensamento mágico pen- sa produzir efeito desejado por imi- tação da ação real. Por exemplo, ao queimar um boneco com alguma se- melhança com um inimigo, estará queimando o próprio inimigo. O pensamento mágico pressupõe que a uma relação puramente subjetiva de Há, assim, uma ten- dência nas pessoas em distorcer incons- cientemente os da- dos e as percepções da realidade para confirmar hipóteses previamente formu- ladas no início de um raciocínio. Uma série de cren- ças preconceituosas, sociais ou pessoais, é mantida de forma insistente por um nú- mero considerável de pessoas (Yager; Gitlin, 1995). Tudo isso tor- na difícil a discrimi- nação entre pensa- mento normal e pa- tológico. Paulo Dalgalarrondo198 idéias corresponda uma associação objeti- va de fatos. As associações fortuitas, ocasio- nais, entre idéias seriam equivalentes a re- lações realmente causais entre os fenôme- nos (Montero, 1990). O pensamento má- gico seria mais comum entre as crianças (embora nelas, de modo geral, predo- mine uma visão rea- lista). Também po- de-se verificar a ocor- rência de tal forma de pensar em alguns transtornos da per- sonalidade, como os transtornos esqui- zotípico, histriônico, borderline e narcisis- ta. Nos quadros ob- sessivo-compulsivos, ocorrem com freqüên- cia pensamentos mágicos e rituais compul- sivos dominados pelas leis da magia. Na esquizofrenia e na histeria, também podem ser detectados pensamentos mágicos. Pensamento dereístico O pensamento dito dereístico, algo seme- lhante ao pensamento mágico, é um tipo de pensamento que se opõe marcadamente ao pensamento realista, o qual se submete à lógica e à realidade. Aqui, o pensamento só obedece à lógica e à realidade naquilo que interessa ao desejo do indivíduo, dis- torcendo a realidade para que esta se adap- te aos seus anseios. No pensamento de- reístico, o pensar volta-se muito mais ao mundo interno do sujeito, suas fantasias e seus sonhos, manifestando-se como um de- vaneio, no qual tudo é possível e favorável ao indivíduo. A pseudologia fantástica e a mitomania (discutidas no Cap. 19) impli- cam boa dose de pensamento dereístico. Na língua inglesa, utiliza-se o termo wishful thinking (tomar o desejo pela rea- lidade) para indicar a identificação errô- nea dos próprios desejos com a realidade, o conjunto de crenças adotadas pelo indi- víduo, crenças estas baseadas mais nos de- sejos que em fatos, ou seja, um aspecto do pensamento dereístico. Pode ocorrer nos transtornos da personalidade (esquizotí- pica, histriônica, borderline, narcisista, etc.), na esquizofrenia, na histeria e, even- tualmente, em crianças e adolescentes (e mesmo em adultos) normais. Pensamento concreto ou concretismo Trata-se de um tipo de pensamento no qual não ocorre a distinção entre di- mensão abstrata e simbólica e dimen- são concreta e ime- diata dos fatos. O in- divíduo não conse- gue entender ou uti- lizar metáforas, o pensamento é muito aderido ao nível sen- sorial da experiên- cia. Faltam, ao pensamento concreto, aspec- tos do desenvolvimento do pensamento, como a ironia, o subentendido, o duplo sen- tido, bem como categorias abstratas de modo geral. Tanto os indivíduos com defi- ciência mental (principalmente) como os pa- cientes dementados e esquizofrênicos gra- ves podem apresentar concretismo. Pensamento inibido Aqui ocorre a inibição do raciocínio, com diminuição da velocidade e do número de conceitos, juízos e representações utiliza- dos no processo de pensar, tornando-se o pensamento lento, rarefeito, pouco produ- tivo à medida que o tempo flui. Ocorre em quadros demenciais e depressivos graves. Nos quadros obses- sivo-compulsivos, ocorrem com fre- qüência pensamen- tos mágicos e rituais compulsivos domi- nados pelas leis da magia. Na esquizo- frenia e na histeria, também podem ser detectados pensa- mentos mágicos. No pensamento con- creto não ocorre a distinção entre di- mensão abstrata e simbólica e dimensão concreta e imediata dos fatos. O indivíduo não consegue enten- der ou utilizar metá- foras, o pensamento é muito aderido ao nível sensorial da ex- periência. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 199 Pensamento vago As relações conceituais, a formação dos juízos e a concatenação destes em raciocí- nios são caracterizadas pela imprecisão. O paciente expõe um pensamento muito am- bíguo, podendo mesmo parecer obscuro. Não há propriamente o empobrecimento do pensamento, mas, antes, a marcante falta de clareza e precisão no raciocínio. O pensamento vago pode ser um sinal inicial da esquizofrenia ou ocorrer em quadros demenciais iniciais, transtornos da perso- nalidade (p. ex., esquizotípica) e neuroses graves. Pensamento prolixo Aqui, o paciente não consegue chegar a qualquer conclusão sobre o tema de que está tratando, senão após muito tempo e esforço. O paciente dá longas voltas ao redor do tema, e mescla, de forma imprecisa, o essen- cial com o supér- fluo. Há dificuldade em obter construção direta,clara e acabada, além de notável falta de capacidade de síntese. A tangen- cialidade (pensamento tangencial) e a cir- cunstancialidade (pensamento circuns- tancial) são tipos de pensamento prolixo. A tangencialidade ocorre quando o paciente responde às perguntas de forma oblíqua e irrelevante, não sabendo discri- minar o supérfluo do essencial. Tratam-se de respostas que apenas tangenciam aqui- lo que foi perguntado, nunca chegando ao ponto central, ao objetivo final, sem concluir algo de substancial. A circunstancialidade descreve o ra- ciocínio e a digressão do paciente como “ro- dando em volta do tema”, sem entrar nas questões essenciais e decisivas. Entretan- to, eventualmente o paciente alcança o objetivo de seu raciocínio. Em alguns ca- sos, a conversa torna-se uma “massa de parênteses e cláusulas subsidiárias” (Sims, 1995). Esses tipos de pensamento ocorrem em pacientes com transtornos da persona- lidade (associado à epilepsia com crises parciais-complexas ou a patologias do lobo temporal), em indivíduos com lesões cere- brais, em deficientes mentais limítrofes, naqueles que se acham no início de um processo esquizofrênico e em alguns neu- róticos graves (incluindo pacientes com quadros obsessivo-compulsivos, que, devi- do ao excesso de detalhes e atalhos cola- terais, não conseguem desenvolver adequa- damente suas idéias). Pensamento deficitário (ou oligofrênico) É um pensamento de estrutura pobre e ru- dimentar. O indivíduo tende ao raciocínio concreto; os conceitos são escassos e utili- zados em sentido mais literal que abstrato ou metafórico. A abstração apenas ocorre com dificuldade, sem consistência ou gran- de alcance. Não há falta, porém, da gene- ralização e da utilização da memória, sem- pre vinculadas às necessidades mais ime- diatas do sujeito. Há pouca flexibilidade na aplicação de regras e conceitos aprendidos. Não há distinção pormenorizada e precisa de categorias como essencial e supér- fluo; necessário ou acidental; causa e efeito; o todo e as partes; o real e o imaginário; o con- creto e o simbólico. A memoriza- ção de determina- dos conteúdos ou temas (números te- lefônicos, nomes de No pensamento pro- lixo, o paciente dá longas voltas ao re- dor do tema, e mes- cla, de forma impre- cisa, o essencial com o supérfluo. No pensamento de- ficitário não há dis- tinção pormenori- zada e precisa de categorias como es- sencial e supérfluo; necessário ou aci- dental; causa e efei- to; o todo e as par- tes; o real e o imagi- nário; o concreto e o simbólico. Paulo Dalgalarrondo200 pessoas, ruas, tipos de carros, etc.) pode ser muito extensa e numerosa, porém é mecânica e rígida. Esse fenômeno de extensa memoriza- ção mecânica é de- nominado ilhotas de memória, ocor- rendo geralmente em deficientes men- tais e autistas, que, em função de tal habi- lidade, eram chamados de idiotas-sábios (atualmente savant). A compreensão e a explicação de fatos complexos da vida é sempre difícil, e o paciente apreende ape- nas a realidade de forma vaga e simpli- ficada. Pensamento demencial Trata-se também de pensamento pobre, porém tal empobrecimento é desigual, ao contrário do que ocorre no pensamento deficitário, no qual o empobrecimento é mais homogêneo. Em certos pontos, o pen- samento demencial pode revelar elabora- ções mais ou menos sofisticadas, embora de forma geral seja imperfeito, irregular, sem unidade ou congruência. Em relação aos conceitos abstratos e aos raciocínios di- ferenciados e complicados, podem-se ob- servar seus resquícios no pensamento demencial, embora, com o progredir da síndrome demencial, vá predominando mais e mais o pensamento pobre, concreto e desorganizado. É freqüente o fato de o indivíduo dementado, nas fases iniciais, tentar dissimular suas dificuldades cogniti- vas. Ao se deparar com a dificuldade em encontrar as palavras (aspecto caracte- rístico no início das demências), procura termos mais genéricos, evita os adjetivos e os substantivos específicos. Por exemplo, “Não consigo encontrar aquela coisa, o meu... (batom), aquilo para pintar a bo- ca...”; “Vou pedir ao... àquele homem (o guarda), que me ajude a atravessar... aqui (a rua)”. Pensamento confusional Verifica-se, devido à turvação da consciên- cia, um pensamento incoerente, de curso tortuoso, que impede que o indivíduo apre- enda de forma clara e precisa os estímulos ambientais e possa, assim, processar seu raciocínio adequadamente. Há marcante dificuldade em estabelecer vínculos entre conceitos e juízos devido às alterações de consciência, de atenção e de memória ime- diata, impedindo a formação adequada do raciocínio e lançando o indivíduo em esta- do de perplexidade e impotência. Ocorre principalmente nas síndromes confusionais agudas. Pensamento desagregado Trata-se de pensamento radicalmente in- coerente, no qual os conceitos e os juízos não se articulam minimamente de forma lógica. O paciente produz um pensamento que se manifesta como uma mistura alea- tória de palavras, que nada comunica ao interlocutor. A linguagem correspondente é o que se denomina “salada de palavras”. Ocorre nas formas graves e avançadas de esquizofrenia. Pensamento obsessivo Aqui, predominam idéias ou represen- tações que, apesar de terem conteúdo absurdo ou repulsi- vo para o indivíduo, A extensa memori- zação mecânica é de- nominado ilhotas de memória, ocorrendo geralmente em defi- cientes mentais e autistas, que, em fun- ção de tal habilidade, eram chamados de idiotas-sábios (atual- mente savant). No pensamento ob- sessivo, predominam idéias ou representa- ções que, apesar de terem conteúdo ab- surdo ou repulsivo para o indivíduo, se impõem à consciên- cia de modo persis- tente e incontrolável. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 201 se impõem à consciência de modo persis- tente e incontrolável. Isso determina uma luta constante entre as idéias obsessivas, que voltam de forma recorrente à consci- ência, e o indivíduo, que se esforça por bani-las de sua consciência, gerando um estado de angústia constante. Com certa freqüência, em pacientes gravemente ob- sessivos, aspectos do pensamento mágico também estão presentes (p. ex., “Se eu to- car na roupa de uma prostituta ficarei con- taminado”, ou “Se eu repetir a palavra san- to cinqüenta vezes impedirei que meu pai morra”). ALTERAÇÕES DO PROCESSO DE PENSAR Curso do pensamento As principais alterações do curso do pen- samento são a aceleração, a lentificação, o bloqueio e o roubo do pensamento. Aceleração do pensamento O pensamento flui de forma muito acele- rada, uma idéia se sucedendo à outra ra- pidamente. Ocorre nos quadros de mania, na esquizofrenia, nos estados de ansieda- de intensa, nas psicoses tóxicas (sobretudo por anfetamina e cocaína) e na depressão ansiosa. Lentificação do pensamento O pensamento pro- gride lentamente, de forma dificulto- sa. Há certa latência entre as perguntas formuladas e as res- postas. Ocorre prin- cipalmente nas de- pressões graves, em alguns casos de re- baixamento do nível de consciência, em certas intoxicações (por substâncias se- dativas) e em determinados quadros psico- orgânicos. Bloqueio ou interceptação do pensamento Verifica-se o bloqueio do pensamento quan- do o paciente, ao relatar algo, no meio de uma conversa, brusca e repentinamente interrompe seu pensamento, sem qualquer motivo aparente. O doente relata que, sem saber por que, “o pensamento pára”, é blo- queado. Trata-se de alteração quase que exclusiva da esquizofrenia. Roubo do pensamento É uma vivência, freqüentemente associa- da ao bloqueio do pensamento, na qual o indivíduo tem a nítida sensação de que seu pensamento foi roubado de sua men- te, por uma força ou ente estranho, por uma máquina, uma antena, etc. O roubo do pensamento é um tipo de vivência de influência (ver descrição também no item sobre delírio de influência).O roubo do pensamento é uma alteração típica da esquizofrenia. Forma do pensamento As principais altera- ções da forma ou es- trutura do pensa- mento são: fuga de idéias, dissociação e incoerência do pen- samento, afrouxa- mento das associa- ções, descarrilha- mento e desagrega- ção do pensamento. Em alguns pacientes gravemente depri- midos, o pensamen- to progride lenta- mente, de forma di- ficultosa. Há certa latência entre as per- guntas formuladas e as respostas. As principais altera- ções da forma ou es- trutura do pensa- mento são: fuga de idéias, dissociação e incoerência do pen- samento, afrouxa- mento das associa- ções, descarrilha- mento e desagrega- ção do pensamento. Paulo Dalgalarrondo202 Fuga de idéias É uma alteração da estrutura do pensamen- to secundária à acentuada aceleração do pensamento, na qual uma idéia se segue a outra de forma extremamente rápida, perturbando-se as associações lógicas en- tre os juízos e os conceitos. Na fuga de idéias, as associa- ções entre as pala- vras deixam de se- guir uma lógica ou finalidade do pensa- mento e passam a ocorrer por assonân- cia (p. ex., amor, flor, cor... ou cidade, idade, realidade...), e as idéias se asso- ciam muito mais pe- la presença de es- tímulos externos contingentes (as pessoas que estão pre- sentes na entrevista, os móveis e os qua- dros da sala de entrevista, um ruído incidental, alguém que entra na sala, etc.). Segundo Nobre de Melo (1979), na fuga de idéias há o progressivo afastamento da idéia diretriz ou principal, sem prejuízo ma- nifesto, contudo, para a coerência final do relato. Tal noção de preservação da coe- rência na fuga de idéias não é, entretanto, aceita por todos os autores. A fuga de idéias é uma alteração muito característica dos quadros maníacos. Dissociação do pensamento É a designação cunhada por Bleuler (1985) para a desorganização do pensamento en- contrada em certas formas de esquizofre- nia. Os pensamentos passam progressiva- mente a não seguir uma seqüência lógica e bem-organizada, e os juízos não se arti- culam de forma coerente uns com os ou- tros. Em fase inicial, a incoerência pode ser discreta, ainda sendo possível captar aqui- lo que o indivíduo quer comunicar. Com o agravamento do processo patológico, o pensamento pode tornar-se totalmente in- coerente e incompreensível. Afrouxamento das associações Neste caso, embora ainda haja concate- nação lógica entre as idéias, nota-se já o afrouxamento dos enlaces associativos (Nobre de Melo, 1979). As associações pa- recem mais livres, não tão bem-articula- das. Manifesta-se nas fases iniciais da esqui- zofrenia e em transtornos da personalida- de (sobretudo no da personalidade esqui- zotípica). Descarrilhamento do pensamento O pensamento passa a extraviar-se de seu curso normal, toma atalhos colaterais, des- vios, pensamentos supérfluos, retornando aqui e acolá ao seu curso original. Geral- mente está associado a marcante distrai- bilidade. Se o descarrilhamento for muito acentuado, e os desvios, muito freqüentes e longos, pode-se não mais captar a seqüên- cia lógica do pensamento. O descarrilha- mento é observado na esquizofrenia e, eventualmente, nos transtornos maníacos. Desagregação do pensamento Neste caso, há profunda e radical perda dos enlaces associativos, total perda da coerên- cia do pensamento. Sobram apenas “peda- ços” de pensamentos, conceitos e idéias frag- mentadas, muitas vezes irreconhecíveis, sem qualquer articulação racional, sem que se- jam detectadas uma linha diretriz e uma fi- nalidade no ato de pensar. Trata-se de alte- ração típica de formas avançadas de es- quizofrenia e de quadros demenciais. Na esquizofrenia, de modo geral, o progredir da desestruturação do pensa- Na fuga de idéias, as associações entre as palavras deixam de seguir uma lógica ou finalidade do pensa- mento e passam a ocorrer por asso- nância, e as idéias se associam muito mais pela presença de es- tímulos externos con- tingentes. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais 203 O conteúdo do pen- samento é aquilo que preenche a estrutu- ra do processo de pensar. mento segue esta seqüência (em ordem de gravidade): afrouxamento das associações, descarrilhamento do pensamento e, final- mente, desagregação do pensamento. Es- sas formas de alteração podem ser encon- tradas, de modo ainda incipiente, em pa- rentes de primeiro grau de pacientes com esquizofrenia (Catts et al., 1993). Conteúdo do pensamento Embora muitos autores classifiquem os delírios como alterações do conteúdo do pensamento, isso parece incorreto. O conteúdo do pensa- mento é aquilo que preenche a estrutu- ra do processo de pensar. Nesse senti- do, o conteúdo corresponde à temática do pensamento. Assim, não se pode falar pro- priamente em alterações patológicas do conteúdo do pensamento. Há tantos con- teúdos quanto são os temas de interesse ao ser humano. Optou-se aqui, conseqüentemente, por não incluir o importante tema dos delírios no item “Conteúdo do pensamento”, mas no capítulo referente às alterações do juízo de realidade. Quando um indivíduo acome- tido por uma psicose afirma que os vizinhos preparam um complô para matá-lo, o con- teúdo é de perseguição, mas o que está pa- tologicamente alterado é a atribuição de re- alidade absoluta a esse pensamento. Um po- lítico pode viver pensando que querem prejudicá-lo; seus conteúdos de pensamen- to são basicamente persecutórios; entretan- to, ele não está necessariamente delirando. A observação clínica indica que os principais conteúdos que preenchem os sin- tomas psicopatológicos são: 1. Persecutórios 2. Depreciativos 3. Religiosos 4. Sexuais 5. De poder, riqueza, prestígio ou grandeza 6. De ruína ou culpa 7. Conteúdos hipocondríacos As razões pelas quais tais conteúdos e não outros são os mais prevalentes é cer- tamente complexa. A importância desses conteúdos tem a ver com a constituição social e histórica do indivíduo, com o uni- verso cultural no qual ele se insere, assim como com a estrutura psicológica e neuro- psicológica do Homo sapiens. Eis, a seguir, algumas hipóteses. A persecutoriedade (ou vivências de perseguição) é provavelmente muito im- portante pelo fato de a sobrevivência em um mundo po- tencialmente amea- çador ser tema oni- presente em quase todos os grupos so- ciais. A sobrevivên- cia do indivíduo e, em conseqüência, o seu oposto, ou seja, a possibilidade de ser atacado e destruído, é algo elementar tanto biológica como psicologicamente. Os conteúdos de poder, riqueza, ruína e culpa com certeza também têm conexão com a dimensão de sobrevivência. A sexualidade, por sua vez, apesar de secularmente reprimida na maioria das sociedades, nunca deixou de ser tema de primeiro interesse ao ser humano. Freud e o desenvolvimento de sua psicanálise trou- xeram à luz da sociedade vitoriana e con- servadora a grande importância da sexua- lidade para a vida mental e social do ser humano. Tal importância deriva de fatores instintivo-biológicos (sobrevivência da es- pécie) e psicológicos, pois, paralelamente ao desenvolvimento das relações afetivas, A persecutoriedade (ou vivências de per- seguição) é prova- velmente muito im- portante pelo fato de a sobrevivência em um mundo potencial- mente ameaçador ser tema onipresente em quase todos os grupos sociais. Paulo Dalgalarrondo204 há a erotização dessas relações (amar é, ao mesmo tempo, um fenômeno afetivo e erótico). Os temas reli- giosos e místicos também são muito comuns na psicopa- tologia, o que se jus- tifica pelo fato de que não há cultura ou grupo social hu- mano em que a reli- gião não desempe- nhe papel central na organização da representação do mundo, na articulação de formas de compreensão da origem e do destino do ser humano, dos valores ético-morais, da compreensão do sofrimento e dos modos de constituição da subjetividade. Os temas hipocondríacos