VÍCIOS OU DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO
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VÍCIOS OU DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO


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VÍCIOS OU DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO
1) Introdução: a doutrina subdivide o estudo da matéria em dois
grandes grupos:
a) Vícios da vontade ou do consentimento: erro, dolo, coação,
estado de perigo e lesão.
OBS: estado de perigo e lesão consistem em novidades introduzidas
pelo NCC.
b) Vícios sociais: fraude contra credores e simulação.
OBS: com o advento do NCC, a simulação passou a ser hipótese de
nulidade.
2) Erro (artigos 138 a 144 do CC).
a) Conceito: consiste na falsa representação da realidade fática em
relação à pessoa, ao objeto do negócio ou ao direito, acarretando
vício na vontade da parte que celebrou o negócio jurídico.
b) Requisitos para a caracterização de erro (artigo 138 do CC):
- erro substancial (artigo 139 do CC): introdução de erro de direito
no inciso III, sendo uma exceção ao disposto no artigo 3º da Lei de
Introdução às Normas de Direito Brasileiro.
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OBS: o erro acidental não acarreta anulação do negócio jurídico
(artigo 142 do CC).
- erro perceptível por pessoa de diligência normal (outra parte do
negócio jurídico).
- erro escusável (justificável): divergência na doutrina (posição
majoritária sustenta que não consiste em requisito necessário).
c) Outras hipóteses:
- Artigo 140 do CC: \u201co falso motivo só vicia a declaração de
vontade quando expresso como razão determinante\u201d. Ex: João faz
doação pensando quem alguém salvou a sua vida.
- Artigo 141 do CC: \u201ca transmissão errônea da vontade por meios
interpostos é anulável nos mesmos casos em que o é a declaração
direta\u201d. Ex: realização de negócio jurídico por meio de Internet.
- Artigo 143 do CC: \u201co erro de cálculo apenas autoriza a retificação
a declaração de vontade\u201d (haverá somente a retificação do cálculo,
mantendo-se o negócio jurídico).
- Artigo 144 do CC: \u201co erro não prejudica a validade do negócio
jurídico quando a pessoa, a quem a manifestação de vontade se
dirige, se oferecer para executá-la na conformidade da vontade real
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do manifestante\u201d (princípio da conservação dos contratos / de
acordo com os princípios da eticidade e operabilidade).
- Erro obstativo ou impróprio: \u201cé o de relevância exacerbada, que
apresenta uma profunda divergência entre as partes, impedindo que
o negócio venha a se formar\u201d (Carlos Roberto Gonçalves).
d) Prazo decadencial: quatro anos, contados da celebração do
negócio jurídico (artigo 178, inciso II, do CC).
3) Dolo (artigos 145 a 150 do CC)
a) Conceito: consiste no emprego de artifício ardiloso para enganar
alguém e obter benefício (erro provocado).
b) Distinção:
- dolo essencial (artigo 145 do CC): o dolo é a causa do negócio
(negócio jurídico anulável).
- dolo acidental (artigo 146 do CC): o negócio teria sido realizado
de qualquer forma, mas de modo diferente (não admite anulação do
negócio, gerando apenas perdas e danos).
c) Dolo de terceiro (artigo 148 do CC): 
- a parte a quem aproveite tem ciência do dolo: aplica-se a regra do
dolo essencial (anulabilidade do negócio).
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- a parte a quem aproveite não tem ciência do dolo: aplica-se a regra
do dolo acidental (subsiste o negócio jurídico e o terceiro responde
por perdas e danos).
d) Dolo do representante (artigo 149 do CC): distinção necessária.
- representante legal: o representado responde civilmente até a
importância do proveito que teve.
- representante convencional: o representado responde
solidariamente com o representante por perdas e danos.
e) Classificação doutrinária
- Quanto ao conteúdo:
> dolo bom (dolus bonus): consiste naquele dolo tolerável,
caracterizado pelo exagero sobre as qualidades de um bem.
> dolo mau (dolus malus): intenção de enganar alguém e causar
prejuízo.
- Quanto à conduta das partes:
> Dolo positivo ou comissivo: dolo praticado por meio de ação
(conduta positiva).
> Dolo negativo ou omissivo (reticência acidental / artigo 147 do
CC): dolo praticado por omissão. Ex: venda de um imóvel que sofre
constantes alagamentos (alienante omite esse fato).
> Dolo recíproco ou bilateral (dolo compensado ou dolo
enantiomórfico / artigo 150 do CC): ambas as partes atuam
dolosamente, pretendendo prejudicar o outro mediante emprego de
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artifícios (aplicação da regra de quem ninguém pode se beneficiar
da própria torpeza). Destarte, não há anulação do negócio jurídico e
ninguém pode reclamar perdas e danos. Diferencia-se dos casos de
nulidade absoluta, pois não se aplica a regra referida.
f) Prazo decadencial: quatro anos, contados da celebração do
negócio jurídico (artigo 178, inciso II, do CC).
4) Coação (artigos 151 a 155 do CC)
a) Conceito: consiste na pressão física (vis absoluta) ou psicológica
(vis compulsiva) exercida em face de outro para a celebração de um
negócio.
- coator: quem pratica a coação.
- coato, coagido ou paciente: quem sofre a coação.
b) Requisitos para a anulação por meio de coação (artigo 151 do
CC).
- fundado temor
- dano iminente e considerável
- em face da pessoa, família ou seus bens (se não for pessoa da
família do paciente, o juiz analisará com base nas circunstâncias).
c) Análise em concreto (artigo 152 do CC) deve-se levar em
consideração o sexo, a idade, a condição, a saúde o temperamento
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do paciente e todas as demais circunstâncias para a constatação de
coação.
d) Descaracterização da coação (artigo 153 do CC): temor
reverencial e ameaça de exercício normal de um direito.
e) Coação de terceiro (artigos 154 e 155 do CC): 
- se a parte a quem aproveite tivesse conhecimento ou devesse ter
conhecimento da coação: o negócio jurídico é anulável e a parte
beneficiada responderá solidariamente com o terceiro por perdas e
danos.
- se a parte a quem aproveite não tinha conhecimento da coação:
subsiste o negócio jurídico e o terceiro responde por perdas e danos.
f) Prazo decadencial: quatro anos, contados da cessação da coação
(artigo 178, inciso I, do CC).
5) Estado de perigo (artigo 156 do CC)
a) Conceito: \u201cconfigura-se o estado de perigo quando alguém,
premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de
grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação
excessivamente onerosa\u201d (artigo 156 do CC).
OBS: se for pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz
decidirá segundo as circunstâncias (parágrafo único).
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Ex: pai leva o filho acidentado ao hospital e este cobra um valor
desproporcional.
b) Requisitos:
- onerosidade excessiva (elemento objetivo)
- conhecimento da situação de risco pela outra parte (elemento
subjetivo)
c) Princípio da conservação do contrato (aplicação analógica do
disposto no artigo 157, § 2º, do CC): \u201cao estado de perigo (art. 156)
aplica-se, por analogia, o disposto no § 2º do artigo 157\u201d
(Enunciado 148 do CJF/STJ da III Jornada de Direito Civil).
d) Prazo decadencial: quatro anos, contados da celebração do
negócio jurídico (artigo 178, inciso II, do CC).
6) Lesão (artigo 157 do CC)
a) Conceito: \u201cOcorre a lesão quando uma pessoa, sob premente
necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação
manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta\u201d. Ex:
táxi em show no estádio do Morumbi.
b) Requisitos:
- onerosidade excessiva (elemento objetivo)
- premente necessidade ou inexperiência (elemento subjetivo)
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OBS: \u201ca lesão que trata o art. 157 do Código Civil não exige dolo
de aproveitamento\u201d (Enunciado 150 do CJF/STJ da III Jornada de
Direito Civil).
c) Momento de aferição da desproporção das prestações (§ 1º):
valores vigentes ao tempo em que foi celebrado o negócio jurídico.
d) Princípio da conservação do contrato (§ 2º): não se anulará o
negócio jurídico se for oferecido suplemento suficiente ou se a
parte favorecida concordar com a redução do proveito para
restabelecer o equilíbrio das prestações. 
OBS: \u201cEm atenção ao princípio da conservação dos contratos,