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PSICOLOGIA SOCIAL Achilles Gonçalves Coelho Júnior Aline Aparecida Rabelo Montes Claros - MG, 2010 2010 Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. EDITORA UNIMONTES Campus Universitário Professor Darcy Ribeiro s/n - Vila Mauricéia - Montes Claros (MG) Caixa Postal: 126 - CEP: 39041-089 Correio eletrônico: editora@unimontes.br - Telefone: (38) 3229-8214 REITOR IMPRESSÃO, MONTAGEM E ACABAMENTO Paulo César Gonçalves de Almeida Gráfica Yago VICE-REITOR PROJETO GRÁFICO E CAPA João dos Reis Canela Alcino Franco de Moura Júnior Andréia Santos Dias DIRETOR DE DOCUMENTAÇÃO E INFORMAÇÕES Giulliano Vieira Mota EDITORAÇÃO E PRODUÇÃO Alcino Franco de Moura Júnior - Coordenação CONSELHO EDITORIAL Andréia Santos Dias Maria Cleonice Souto de Freitas Bárbara Cardoso Albuquerque Rosivaldo Antônio Gonçalves Clésio Robert Almeida Caldeira Sílvio Fernando Guimarães de Carvalho Débora Tôrres Corrêa Lafetá de Almeida Wanderlino Arruda Diego Wander Pereira Nobre Fernando Freire Madureira Gisele Lopes SoaresREVISÃO DE LÍNGUA PORTUGUESA Jéssica Luiza de AlbuquerqueMaria Cristina Ruas Abreu Karina Carvalho de Almeida Rogério Santos BrantREVISÃO TÉCNICA Karen Tôrres Corrêa Lafetá de Almeida Copyright ©: Universidade Estadual de Montes Claros Catalogação: Biblioteca Central Professor Antônio Jorge - Unimontes Ficha Catalográfica: UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MONTES CLAROS - UNIMONTES Ministro da Educação Fernando Haddad Secretário de Educação a Distância Carlos Eduardo Bielschowsky Coordenador Geral da Universidade Aberta do Brasil Celso José da Costa Governador do Estado de Minas Gerais Antônio Augusto Junho Anastasia Secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior Alberto Duque Portugal Reitor da Universidade Estadual de Montes Claros - Unimontes Paulo César Gonçalves de Almeida Vice-Reitor da Unimontes João dos Reis Canela Pró-Reitora de Ensino Maria Ivete Soares de Almeida Coordenadora da UAB/Unimontes Fábia Magali Santos Vieira Coordenadora Adjunta da UAB/Unimontes Betânia Maria Araújo Passos Diretor de Documentação e Informações Giulliano Vieira Mota Diretor do Centro de Ciências Humanas - CCH Mércio Coelho Antunes Coordenadora do Curso de Pedagogia a Distância Maria Auxiliadora Amaral Silveira Gomes Chefe do Departamento de Educação Maria Cristina Freire Barbosa Chefe do Departamento de Estágios e Práticas Escolares Dayse Magna Santos Moura Chefe do Departamento de Métodos e Técnicas Educacionais Francely Aparecida dos Santos AUTORES Achilles Gonçalves Coelho Júnior Graduado em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2000) e Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (2006). Atualmente é professor das Faculdades Integradas Pitágoras de Montes Claros/MG (FIP-MOC), das Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE/SOEBRAS) e da Fundação Presidente Antonio Carlos (UNIPAC/Montes Claros). Tem experiência na área de Psicologia com ênfase em Psicologia Social e Intervenção Terapêutica, atuando principalmente nos seguintes temas: projetos sociais, psicoterapia, aconselhamento psicológico, logoterapia, fenomenologia e experiência comunitária. Aline Aparecida Rabelo Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (2009). Tem experiência na área de Psicologia Social e Psicologia do Trabalho, atuando principalmente nos seguintes temas: psicologia comunitária, preconceito e identidade social. Atualmente é professora das Faculdades de Saúde Ibituruna (FASI) e das Faculdades Unidas do Norte de Minas (FUNORTE/SOEBRAS). É técnica social do Programa Mediação de Conflitos, atuando na Prevenção à Criminalidade e Desenvolvimento Comunitário. SUMÁRIO DA DISCIPLINA Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 07 Unidade I: Psicologia social: aspectos históricos e epistemológicos . 09 1.1. Psicologia e psicologia social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 1.2. História da psicologia social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 1.3. Relação indivíduo e comunidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 1.4. Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 Unidade II: temas em psicologia social . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 2.1. Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37 2.2. Representações sociais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38 2.3. Ideologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 40 2.4 identidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 43 2.5. A questão do gênero . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 2.6. Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49 Unidade III: Processos grupais . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51 3.2 Considerações teóricas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53 3.3 Oficinas em dinâmica de grupo: uma sugestão de método de trabalho com grupos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 3.4 Algumas considerações sobre as técnicas. . . . . . . . . . . . . . . . 72 3.5 Mediação de conflitos: uma contribuição para atuação na resolução de conflitos grupais e interpessoais. . . . . . . . . . . . . . . . . . 73 3.6 Conclusão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78 3.7 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 78 Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 81 Referências básicas, complementares e suplementares . . . . . . . . . . . 83 Atividades de aprendizagem - AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89 APRESENTAÇÃO 07 Caro (a) Acadêmico(a), O caderno didático de Psicologia Social oferece a possibilidade de continuidade dos estudos de temas fundamentais de Psicologia, iniciado na disciplina de Psicologia da Educação. Buscamos organizar os temas, desta disciplina, de forma a apresentar os principais aspectos da Psicologia Social no que se refere aos autores e temas clássicos, bem como aqueles temas que podem servir para uma melhor compreensão da área da Pedagogia. A disciplina de Psicologia Social implica um conhecimento muito complexo, com aspectos teóricos bem específicos de cada autor. Contudo, optamos por apresentar o tema de forma mais esquemática e resumida, oferecendo a vocês a possibilidade de um conhecimento introdutório que deverá ser aprofundado nos estudos individuais. A Psicologia Social poderá contribuir bastante na compreensão de temas sociais como os relaciona- mentos pessoais, processos grupais, formação de uma postura crítica e o aprendizado de um constante questionamento diante da realidade. Resgatar a tradição, desta ciência, possibilita uma instrumentalização para conhecer melhor a realidade que está diante de nós, provocando-nos, constantemen- te, com problemas, perguntas, necessidades de mudança e de engajamento. Na disciplina Psicologia Social temos os seguintes objetivos: ?Conhecer a história da Psicologia Social com seus principais autores e temas clássicos; ?Apresentar os principais temas da Psicologia Social que funda- mentam uma postura compreensiva e crítica da realidade social; ?Refletir sobre os principais processos grupais, envolvendo desde os principais tipos de conflitos de grupo até as principais possibilidades de mobilização, engajamento e mudança social.Organizamos o caderno em três unidades, na tentativa de agrupar os temas propostos. Na Unidade I, “Psicologia Social: Aspectos Históricos e Epistemológicos”, apresentamos um pouco da história da consolidação, desta disciplina, no Brasil e no mundo, destacando os principais temas e autores. Na Unidade II, “Temas em Psicologia Social Contemporânea”, discutimos alguns temas centrais que auxiliam na compreensão da realidade social, a partir de uma perspectiva crítica, abordamos os conceitos de ideologia, representações sociais, gênero e identidade. Estes temas são centrais para compreensão dos processos grupais e estruturais da sociedade. 08 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Na Unidade III, “Processos Grupais”, oferecemos condições para a compre- ensão dos principais fenômenos do processo grupal, além de apresentar um método de intervenção em grupo denominado “oficinas de dinâmica de grupo.” Sugerimos que o estudo seja realizado de forma pausada, realizan- do a leitura do caderno didático e a realização das atividades ao final de cada tópico ou unidade. Por se tratar de um material de orientação dos estudos, acreditamos que as leituras complementares indicadas durante o texto poderão contribuir bastante para o aprendizado dos temas aqui abordados. Estudar estes temas envolve uma constante reflexão sobre a realidade cotidiana de cada um de vocês, portanto, sugerimos que sempre comparem a teoria com a realidade social específica, verificando, na prática, como ela pode ser útil. Acreditamos que este conjunto de temas será de grande relevância para a formação acadêmica e desejamos que vocês possam se enriquecer ao realizar este estudo. Então, bom trabalho! 09 1UNIDADE 1PSICOLOGIA SOCIAL: ASPECTOS HISTÓRICOS E EPISTEMOLÓGICOS Achilles Gonçalves Coelho Júnior A história da Psicologia Social carrega uma grande diversidade de autores e perspectivas teóricas e metodológicas. Buscamos organizar esta história identificando as principais escolas de pensamento, agrupando-as por temas e teorias que mostram algum tipo de semelhança. Consideramos que qualquer tipo de generalização de teorias pode ferir a originalidade dos autores e de suas contribuições, mas optamos por organizar, de forma didática, os principais momentos da história desta disciplina. Apesar de haver discussões sobre os temas da Psicologia Social presentes desde a Antiguidade Clássica, optamos pelo recorte histórico que remete aos temas e autores que estiveram presentes na fundação e na consolidação da Psicolo- gia Social enquanto ciência moderna. O objetivo geral, desta unidade, é conhecer a história da Psicologia Social, identificando e diferenciando as principais escolas teóricas e temas clássicos. Quanto aos objetivos específicos, esperamos que ao final do estudo, desta unidade, o acadêmico possa: ?Relacionar Psicologia e Psicologia Social; ? Identificar os principais temas clássicos da Psicologia Social; ?Identificar as principais contribuições das Escolas teóricas da Psicologia Social, bem como os principais autores e conceitos; ?Conhecer as principais características do surgimento da Psicologia Social no Brasil; ?Identificar as principais perspectivas teóricas da discussão que tratam da relação pessoa e sociedade. Para o estudo desta Unidade 1, propomos que a leitura seja realiza- da de forma pausada, procurando realizar as atividades e as reflexões indicadas ao final de cada tópico. Desta forma, o texto traz em si uma divisão de tópicos que pode auxiliar na organização do cronograma de estudo. Por tratar-se de um material introdutório, sugerimos que, ao final de cada tópico, também sejam realizadas as leituras de aprofundamento, sugeridas na bibliografia básica e complementar, especificadas neste caderno. Conhecer a história da Psicologia Social será uma grande oportuni- dade de identificar temas novos que oferecem à Pedagogia um novo olhar para os problemas sociais, possibilitando uma maior compreensão dos temas vivenciados nos relacionamentos sociais e nos processos sociais envolvidos no sistema de ensino e na aprendizagem. Portanto, bom estudo! 10 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 1.1 PSICOLOGIA E PSICOLOGIA SOCIAL A Psicologia tem sido definida como a ciência que estuda os com- portamentos e os processos mentais (DAVIDOFF, 2000). Contudo, um olhar mais demorado para a Psicologia logo identificará, em sua história, diferen- tes definições para seu objeto de estudo. O Behaviorismo dirá que a Psicolo- gia deve estudar o comportamento, a Gestalt propõe o estudo da percepção e aprendizagem, a Psicanálise aprofunda o estudo do inconsciente e assim por diante. Entretanto, não haveria um único objeto de estudo para a Psicologia? Enquanto ciência humana, a Psicologia busca compreender o ser humano a partir de um olhar próprio. Porém, cada autor aborda o fenômeno humano a partir de um recorte teórico, uma maneira específica de descrever e explicar os acontecimentos ligados à pessoa. A compreensão do ser humano não deveria ser reduzida a uma identificação do indivíduo como um ser isolado do seu contexto e de sua história cultural. Silvia Lane (1981) questiona se é possível estudar algum comporta- mento humano que não tenha os seus fundamentos na sociedade. Para compreender o comportamento humano devemos reconhecer as suas características sociais. Se considerarmos nossa maneira de falar, vestir, pensar, relacionar, entre outras ações, perceberemos logo que essas sofrem influências diretas da sociedade onde vivemos. A tradição na qual somos educados, em nossa sociedade, nos indica um caminho a ser percorrido além dos vários papéis a serem desempenhados na ocasião do estabeleci- mento das nossas relações. Apesar de uma pretensa neutralidade inicial buscada pela Psicolo- gia, logo, identificou-se que o objeto de estudo vem marcado pela história de cada pesquisador, de cada autor, marcado pelos seus desejos e pelo percurso acadêmico e social que este realizou. Desta forma, a definição de Psicologia tem sido revista atualmente na tentativa de apresentar um objeto Figura 1: A família (Tarsila do Amaral) Fonte: sp5.fotolog.com/photo/37/61/43/es_telinha/1201735687_f.jpg PARA REFLETIR A família constitui o lugar primário de nossa socialização. Dela recebemos os valores de uma sociedade e somos educados quantos aos papéis sociais que esperam que cumpramos em uma sociedade determinada. 11 Psicologia Social UAB/Unimontes teórico de estudo que contemple melhor toda a complexidade de que se trata o ser humano. Ana Bock (2002), uma das autoras contemporâneas de destaque, em nossa área, afirma que o objeto de estudo da Psicologia é a subjetividade. Subjetividade entendida como uma síntese pessoal de tudo aquilo que recebemos de nosso meio externo e que constitui nosso mundo interior. Constituída por ideias, afetos, ações, significados, formados a partir de todas nossas relações com os outros e com as instituições sociais (família, escola, igreja, entre outras). Assim, a Psicologia deveria estudar a subjetivi- dade. De modo global, estudar subjetividade é procurar no indivíduo as marcas da sociedade. Ou seja, dizer que o indivíduo é mediado socialmente, não significa que ele seja afetado externamente pela sociedade, mas sim que se constitui por ela, isto é, pela sua introjeção. Assim, a psicologia, para entender as questões que se referem à subjetividade, deve compreender as finalidades, as instâncias, os meios, pelos quais uma determinada cultura forma o indivíduo. Este argumento só pode ser efetivo a partir do momento em que se admite que a cultura modela a subjetividade, disponibilizando seus hábitos e costumes, valores e padrões de comportamento. Tais elementos que incorporamos ou que nos formam advêm das várias experiências de sociabilidade pelasquais passamos: nossa família, a escola, nossos colegas e amigos, a comunidade local, a igreja (BRANDÃO et al, 2006, p. 7). Podemos dizer, ainda, que não apenas a cultura molda a nossa subjetividade, mas esta mesma cultura é moldada pela maneira como nos posicionamos diante da nossa realidade. Não recebemos passivamente os estímulos do meio, mas pensamos sobre eles, decidimos o que vamos fazer e criamos algo na realidade, deixando assim a nossa marca na cultura. Assim, a subjetividade não só é determinada pelo contexto, mas também autodeter- minada pelas decisões e posicionamentos pessoais. A Psicologia Social constitui-se como uma área da Psicologia que estuda as interações sociais, entendendo as interações dos indivíduos entre si, com os grupos e com as instituições sociais. Aroldo Rodrigues (apud BOCK, 2002, p.135), um dos primeiros psicólogos sociais brasileiros a escrever um manual de Psicologia social, a define como o estudo das “mani- festações comportamentais suscitadas pela interação de uma pessoa com outras pessoas, ou pela mera expectativa de tal interação”. No decorrer de um encontro interpessoal, surgem vários fenômenos que passaram a ser estudados pela Psicologia social: atitudes, percepção social, comunicação, papéis sociais, grupos sociais, entre outros. No momento que a Psicologia Social passou a questionar o seu papel social, ou seja, refletir sobre sua função crítica na construção de uma sociedade mais justa, o que discutire- mos, mais adiante, na história desta disciplina, como outros temas passaram DICAS Para um estudo mais aprofundado destes temas estudados pela psicologia social, indicamos os livros: “Psicologia Social Contemporânea: livro-texto” (JACQUES et. al. 1981); “Temas em Psicologia Social” (BRAGHIROLLI; PEREIRA; RIZZON, 1993) e “Psicologia Social” (RODRIGUES, 2000). 12 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período a integrar seu rol de estudo: ideologia, movimentos sociais, gênero, repre- sentações sociais, entre outros. Neste percurso, faremos uma breve visita a história da Psicologia Social, destacando os principais autores e escolas, com suas principais contribuições. Não pretendemos, aqui, esgotar a complexidade, deste estudo, por se tratar de algo tão complexo e de difícil categorização. Contu- do, com o propósito de oferecer uma introdução, oferecemos os principais temas e obras a serem conhecidos, visando um posterior aprofundamento a partir de pesquisas individuais a serem realizadas por vocês. 1.2 HISTÓRIA DA PSICOLOGIA SOCIAL Apresentar a história da Psicologia Social requer refletir antes de tudo sobre o que desejamos apresentar. Optamos por identificar os principa- is autores clássicos, adotando também como critérios aqueles que podem dialogar mais facilmente com a área da Pedagogia. Evitamos repetir o mesmo erro apontado por Farr (1996), aquele que, em muitos manuais, reduz a história da Psicologia Social a determinados autores e ideias, geralmente privilegiando o positivismo, por ser entendido, durante muito tempo, como a único método verdadeiramente científico. Resgatar as contribuições de diversos autores, não restringindo apenas a um método, nos ajuda a não reproduzir apenas uma perspectiva teórica, mas refletir criticamente sobre as contribuições de várias escolas teóricas. Em seu livro “As raízes da Psicologia Social Moderna”, Robert Farr (1996) apresenta uma reflexão sobre a história que nos ajudará a compreen- der melhor o tema. Para este autor, a Psicologia Social Moderna é um fenômeno tipicamente americano, embora tenha raízes europeias. Apesar de podermos identificar as histórias das ideias sociais, perpassando vários autores da filosofia situados na Europa, foi nos Estados Unidos da América (EUA) que esta disciplina se consolidou enquanto ramo da ciência Psicolo- gia. A Segunda Guerra Mundial trouxe um grande incentivo ao desen- volvimento da Psicologia Social. A adequação dos soldados à vida do exérci- to, as consequências das participações nos combates, a avaliação das formas de treinamento militar, entre outros temas, foram decisivos para a definição de pesquisas e geraram uma publicação chamada The zAmerican Soldier, pelo sociólogo Stouffer em 1949, que foi considerada um marco na história da Psicologia Social por possibilitar vários programas de pesquisa de douto- rado e uma parceria decisiva entre a Psicologia e a Sociologia. A Segunda Guerra Mundial também teve um papel decisivo no que se refere à migração de muitos autores europeus para os EUA. Sobretudo os autores gestaltistas, como Lewin, Kohler, Wertheimer, entre outros, contri- buíram com vários estudos sociais nos EUA, consolidando alguns departa- mentos de pesquisa, que foram essenciais para a formação da Psicologia 1) Defina Psicologia e Psicologia Social. 2) O que você entende por subjetividade? 3) Dê exemplos de situações envolvendo a vida de uma escola e de como a Psicologia Social poderia contribuir com temas para compreender essas situações. ATIVIDADES C F E A B GGLOSSÁRIO Positivismo: sistema filosófico formulado por Augusto Comte, tendo como núcleo sua teoria dos três estados, segundo a qual o espírito humano, ou seja, a sociedade, a cultura, passa por três etapas: a teológica, a metafísica e a positiva. As chamadas ciências positivas surgem apenas quando a humanidade atinge a terceira etapa, sua maioridade, rompendo com as anteriores. Para Comte, as ciências se ordenaram hierarquicamente da seguinte forma: matemática, astronomia, física, química, biologia, sociologia, cada uma tomando por base a anterior e atingindo um nível mais elevado de complexidade. A finalidade última do sistema é política: organizar a sociedade cientificamente com base nos princípios estabelecidos pelas ciências positivas. (Fonte: http://www.fafich.ufmg.br/~lab fil/~labfil/mito_filosofia_2_arqu ivos/verbetes_dicionario_filosofi co.pdf) 13 Psicologia Social UAB/Unimontes Social (FARR, 1996). A partir daí, começaram a surgir vários manuais de Psicologia Social, programas de doutoramento em Psicologia Social, geran- do um número cada vez mais denso de publicações com temas sociais. Enquanto isto, na Europa, as teorias dos sociólogos começavam a ser revisita- das, buscando uma fundamentação cada vez maior para os temas que passaram a ser estudados pela Psicologia. Vale ressaltar algo sobre esta relação entre a Psicologia e a Sociolo- gia. A Psicologia Social, enquanto disciplina de estudo, não foi gerada apenas no interior da Psicologia, mas foi gerada também a partir da Sociolo- gia. A dicotomia individual e social, ou seja, a separação entre o que é apenas individual e o que é puramente social foi uma tendência marcante do início das ciências modernas, que na sua tentativa de fortalecimento, dividia cada vez mais seus objetos de estudos em partes. Contudo, a Psicolo- gia Social contribuiu tanto para a Psicologia resgatar a importância da dimensão social na compreensão do indivíduo, quanto para a Sociologia resgatar a importância do indivíduo na constituição da sociedade. Desta forma, falamos em uma Psicologia Social de tendência mais sociológica e uma Psicologia Social de tendência mais psicológica, de acordo com os contextos de origens destas teorias (FARR, 1996; ESTRAMIANA, 1998). Neste tópico, nesta unidade, gostaríamos de apresentar os princi- pais autores e temas que marcaram a história da Psicologia Social, para, posteriormente, aprofundarmos em alguns temas de mais relevância e aplicabilidade para a Pedagogia. Este capítulo pode contribuir para uma Figura 2: Soldados norte-americanos - Foto de Joe Rosenthal, na qual militares norte- americanos, do 28º regimento erguem a bandeira norte-americana no alto do Monte Suribachi, na ilha japonesa de Iwo Jima. O que foi apresentadoao mundo como foto- jornalismo era uma peça de propaganda. O assunto foi trabalhado em um dos últimos filmes de Clint Eastwood. Fonte: http://img.terra.com.br/i/2009/01/02/944505-2139-in.jpg ATIVIDADES 1) Discuta como a Segunda Guerra Mundial interferiu no desenvolvimento da Psicologia Social nos EUA? 2) O que significa dizer que existe uma Psicologia Social de tendência sociológica e uma Psicologia Social de tendência psicológica? 14 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período formação crítica, suscitando uma reflexão sobre o contexto de onde nascem as teorias, sobre suas contribuições e os seus limites. 1.2.1 A Psicologia das Massas e Multidões A multidão ou a massa foi um dos temas pioneiros a serem estuda- dos pela Psicologia Social. Entre os principais autores que enfrentaram o tema da relação indivíduo e massa, temos William MacDougall, Wilfred Trotter, Gustave Le Bon, Gabriel Tarde e Sigmund Freud (FARR, 1996; NETO, 2000; BARROS; JOSEPHSON, 2007). Vale lembrar que este fenômeno de comportamento de massas teve uma atenção especial, a partir do século XVIII, quando em decorrência da Revolução Industrial e do Capitalismo, as cidades modificam suas estruturas, em virtude de uma nova organização social e urbana, e os trabalhadores começam a se organizar em movimentos sociais, reivindicando direitos trabalhistas. Gabriel Tarde, citado por Barros e Josephson (2007), foi um dos pioneiros a escrever sobre o comportamento das massas. Ao estudar os delitos no contexto social, Tarde identifica que na multidão encontra-se um grau inferior de inteligência e moralidade. Conduzidas por um líder, a multidão se formaria a partir de processos de trocas de comunicação e de emoções, aumentando de tamanho devido a processos de imitação. Para este autor, a imitação estaria na base da vida social, o que sustentaria inclusi- ve a compreensão do fenômeno da massa. Nesta, teríamos um conjunto de pessoas imitando umas as outras (NETO, 2000). Outro autor bastante conhecido, por estudar este tema, é Gustave Le Bon. Em 1895, escreveu um livro traduzido para o português como “Psicologia da Multidão”, nele define a multidão como sendo o agrupamento de um grande número de pessoas interatuantes que exercem uma influência mútua, composta por elementos heterogêneos que se ligam e, por esta reunião, formam um outro corpo, tal como as células se organizam e geram um corpo vivo com características diferentes de cada uma delas (BARROS; JOSEPHSON, 2007, p.449). Para Le Bon, a multidão possui uma vida própria. Um indivíduo em um contexto de multidão seria capaz de realizar atos que sozinho não realizaria. No meio da multidão, o indivíduo seria induzido a vários compor- tamentos devido a um processo de contágio emocional, agindo com maior impulsividade, pouca racionalidade, sendo marcado por pensamentos simplistas e rudimentares. Para que a multidão se mantenha, seria necessária a presença de um líder, que conduziria a massa a partir do seu carisma, dominando a direção da ação das pessoas. Seriam três fatores característicos desta multidão: o sentimento de poder invencível, o contágio mental e a PARA REFLETIR A violência nos estádios de futebol poderia ser explicada como um fenômeno de massa por estes autores da Psicologia Social? O contágio emocional justificaria as situações de violência entre gangues de jovens? 15 Psicologia Social UAB/Unimontes s u g e s t i o n a b i l i d a d e (NETO, 2000). Desta forma, Le Bon identifica a mult idão como um fenômeno negativo, na medida em que expro- pria as pessoas de suas r e s p o n s a b i l i d a d e s , colocando nas mãos do líder a possibilidade de condução das ações coletivas. Outro grande autor da Psicologia, que também ofereceu sua contribuição para explicação dos fenômenos de massa, foi Sigmund Freud. Em 1921, escreveu a obra “Psicologia do grupo e análise do eu”, retomando a ideia de vários autores da Psicologia Social e oferecendo suas contribuições originais para o tema. Freud explicou os fenômenos da multidão a partir do indivíduo, fundamentado em sua teoria da sexualidade. Os grupos sociais estariam fundados sobre laços afetivos que envolveriam por um lado a figura de seu líder e do outro lado os laços com os demais membros. Para Freud, o que estaria na base da vida social seria a identificação e não a imitação, o contágio ou a sugestionabilidade como os autores anteriores afirmaram. Neste contexto, que fundamenta a vida da multidão, a identificação seria o que “cada indivíduo projeta sobre os outros e sobre o líder”, poderia ser entendida como uma “idealização do que cada ego individual estruturou para si próprio”, passando a ser reconhecida nos outros (BARROS; JOSEPHSON, 2007, p.452). Em outras palavras, o que nos mantêm vincula- dos a um grupo, tanto ao líder quanto aos demais membros, é que, em alguma medida, desejamos ser como eles ou ter algo que eles possuem e que nos falta. Freud retomou o papel do indivíduo na massa, não a considerando apenas como uma vilã que direciona o indivíduo a partir de seu líder e dos outros membros. Desta forma, recuperou o papel do indivíduo e sua respon- sabilidade nos processos de vinculação social. Contudo, ainda tratou os grupos de forma indiferenciada, não abordou, portanto, as diferenças culturais e econômicas próprias dos grupos e os processos de dominação que podem estar por trás dos laços afetivos que sustentam um vínculo social. 1.2.2 Escola de Chicago Considerada uma das Escolas de Sociologia mais importantes dos EUA, a Escola de Chicago reuniu vários autores que inovaram no que se refere aos temas estudados e aos métodos utilizados na pesquisa de temas Figura 3: Violência nos estádios de futebol Fonte: http://3.bp.blogspot.com/_CKkuDd5cWeM/SnnQw cxW0FI/AAAAAAAABGQ/tZjoSgkkNjU/s400/manchacontra independente2.jpg ATIVIDADES 1) Quais as principais semelhanças e diferenças apresentadas pelos autores sobre a concepção de uma Psicologia das Massas? 16 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período sociais. Becker (1996), representante desta perspectiva teórica, nos ajuda a compreender a história desta Escola, apresentando dados da fundação da Universidade de Chicago, que aos poucos foi reunindo professores e pesqui- sadores que consolidaram sua proposta. Iniciamos com o próprio significado do termo “escola” que, segundo este autor, pode ser entendido como “escola de pensamento” ou como “escola de atividade”. Enquanto “escola de pensamento”, entendemos que se trata de um conjunto de pessoas que tiveram suas ideias identificadas como pensamentos de características semelhantes. Já, enquanto “escola de atividade”, entendemos que se trata de um conjunto de pessoas que trabalham junto, não sendo necessário que compartilhem as mesmas teorias. No caso da Escola de Chicago, grande parte de suas ideias era compartilhada por muitos, mas não por todos. Entre os principais autores desta perspectiva, temos Small, Thomas, Park, Mead, Goffman, Blumer e Becker. Esta Escola foi conhecida por se dedicar ao estudo de temas urba- nos, problemas sociais vivenciados pela cidade de Chicago, fazendo com que a pesquisa saísse dos gabinetes e enfrentasse a realidade social. Assim, a pobreza, a imigração, a delinquência juvenil, as gangues, a discriminação foram temas enfrentados nos estudos dos pesquisadores sociólogos, incluin- do em suas metodologias a pesquisa documental e etnográfica (FARR, 1996; BECKER, 1996; PORTUGAL, 2007; SILVA, 2007). Gostaríamos de apresen- tar as ideias de dois autores, que podem contribuir mais com nosso percurso, neste momento: George Mead e Erving Goffman. George Herbert Mead nasceu em 1863 e faleceu em 1931. Lecio- nou na Universidade de Chicago por mais de 30 anos, trabalhando com a disciplina de Psicologia Social.Os livros publicados de Mead foram organi- zados pelos seus alunos, baseando nas anotações das aulas que ministrava. Sua obra principal foi publicada com o nome “Self, Mind and Society” (1934) e traduzida para o espanhol com o nome: “Espiritu, persona y socie- dad”, em 1973 (SILVA, 2007). Sua obra foi influenciada pelo pragmatismo filosófico e pelo behaviorismo social, ainda que este último tenha sofrido algumas revisões em relação ao behaviorismo de Watson. Do pragmatismo herdou a perspectiva de valorizar a racionalidade humana como capacidade de modificação do curso da evolução do homem, e do behaviorismo social a ideia de que o homem se constitui num meio de relacionamentos onde o aprendizado se dá por meio das relações sociais e das consequências dos atos. Mead identificou o poder que a sociedade exerce sobre o indivíduo a partir das expectativas sociais que nos são impostas e de nossas característi- cas, como gênero, idade, entre outras. Contudo, reconheceu que a pessoa era capaz de se posicionar diante destas, aceitando-as ou rejeitando-as, a fim de construir uma nova realidade compartilhada. É através das interações sociais, das conversações gestuais – verbais e não verbais – que o indivíduo acolhe as expectativas dos outros, assim como pode inclusive antecipar estas expectativas antes de se expressar. Somos capazes de imaginar como o outro nos vê e responder a esta percepção. DICAS Para um estudo mais aprofundado destes autores da Escola de Chicago, indicamos o artigo de Paulo Vinicius Baptista Silva, “Goffman, discípulo de Mead?” (2007), cuja referência completa encontra-se no final desta unidade. 17 Psicologia Social UAB/Unimontes Segundo Mead (1973), somos capazes de nos ver a partir do olhar dos outros. Dessa forma, o conceito de self implica necessariamente uma dimen- são social. Aquilo que atribuo a mim mesmo, aquelas características que utilizo para me definir, são construídas dentro de um campo de laços sociais. Aqui está uma das ideias centrais de Mead: a importância dos laços sociais na construção da pessoa. É da qualida- de dos nossos relacionamentos que constituímos nossa subjetividade, o que significa dizer que a consciência ou o self não existiria antes da pessoa ser inserida na realidade social. Neste processo de interações mediadas pelos símbolos e pela linguagem, identifica- mos dois componentes envolvidos na constituição do self: o eu e o mim. O eu refere-se ao sujeito que empreende a ação. Os seres humanos são entidades ativas, capazes de atuar espontanea- mente e por iniciativa própria. O mim se refere ao self como objeto, na medida em que formamos uma imagem de nós mesmos nos olhando pelos outros. “O 'eu' é a reação do organismo às atitudes dos outros; e o 'mim' é a série de atitudes organizadas dos outros que alguém adota” (1973, p. 202). A interação social é um diálogo contínuo entre o eu e o mim. O eu empreende uma ação, mas não a faz de forma aleatória, toma em consideração ou antecipa a reação de outras pessoas, o que corresponde ao mim. (SILVA, 2007, p.120) Ao mesmo tempo, que identifico as expectativas e atribuições que os outros nos projetam – o “mim” – também reajo a estas atribuições de várias maneiras – o “eu”. Assim, a ação do outro sobre minha experiência possui um significado fundante para constituição de quem eu sou. Goulart e Bregunci (1990, p.52-54) resumem as principais contri- buições teóricas de Mead, nos seguintes enunciados: a) a anterioridade histórica da sociedade sobre a pessoa individual; b) a hipótese do desenvol- vimento do indivíduo autoconsciente a partir de uma matriz de relações sociais; c) o papel da linguagem na transformação do indivíduo biológico em organismo ou pessoa dotada de psique e self; d) o conceito de self desenvol- vido por Mead aponta para uma construção social e não algo inato; e) o conceito de ato sugere uma incorporação dos acontecimentos da realidade social. DICAS Hauser passou os primeiros anos de sua vida aprisionado numa cela, não tendo contato verbal com nenhuma outra pessoa, fato esse que o impediu de adquirir uma língua. Porém, logo lhe foram ensinadas as primeiras palavras e com o seu posterior contacto com a sociedade, ele pôde, paulatinamente, aprender a falar, da mesma maneira que uma criança o faz. Afinal, ele havia sido destituído somente de uma língua, que é um produto social da faculdade de linguagem, não da própria faculdade em si. A exclusão social de que foi vítima não o privou apenas da fala, mas de uma série de conceitos e raciocínios, o que fazia, por exemplo, que Hauser não conseguisse diferenciar sonhos de realidade, durante o período em que passou aprisionado. A sua história foi representada no filme de Werner Herzog, "Jeder für sich und Gott gegen alle" (em língua portuguesa, "Cada um por si e Deus contra todos"), de 1974, lançado em Portugal com o título "O Enigma de Kaspar Hauser". Kaspar Hauser escreveu, em fevereiro de 1829, uma autobiografia que pode ser lida em português no site: http://www.kasparbio.blogspot. com/ Figura 4: Kasper Hauser Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Kaspar_Hauser DICAS Sugerimos que assista ao filme longa-metragem: “O Enigma de Kasper Hauser”, dirigido por Werner Herzog em 1974. (Duração: 110 minutos). 18 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Um outro grande representante da Escola de Chicago, e considera- do um dos continuadores do trabalho de Mead, foi Erving Goffman. As obras traduzidas para o português “A representação do eu na vida cotidiana” (1975, original de 1959); “Manicômios, Prisões e Conventos” (1972, original de 1961) e “Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada” (1988, original de 1963). (SILVA, 2007). Goffman se dedicou a estudar as representações e ideias sobre nós mesmos que apresentamos a nós e aos outros. Segundo este autor, dedicamos-nos a regular as impressões que queremos que os outros tenham de nós ao mesmo tempo, que estas mesmas impressões, que os outros projetam sobre nós acabam regulando, muitas vezes, nossos comportamentos. Para estudar este tema, Goffman adotou a metáfora do teatro o qual o permitiu analisar os papéis sociais, as fachadas, a plateia e outros temas vinculados às relações sociais. No livro “Manicômios, Prisões e Conventos” (1974), Goffman analisou as organizações que isolam os indivíduos do resto da sociedade com o objetivo de moldar a consciência e aliená-los. As instituições totais apresentariam três características específicas: a) uma diferenciação clara daqueles que trabalham na instituição que visa expropriar os internos de sua individualidade; b) a busca da uniformidade em tudo o que se refere à vida dos internos (roupas, alimentação, etc.); c) a regulamentação de todas as atividades da vida diária (SILVA, 2007). Desta forma, Goffman descreveu estes tipos de instituições que visam excluir os indivíduos da sociedade, contribuindo para um esvaziamento da subjetividade e para um processo de objetificação do indivíduo. Vale ressaltar que as intituições que visam apenas este tipo de organização da vida cotidiana, preocupando-se apenas com aspectos estruturais e desvalorizando as manifestações individuais, se assemelhariam ao que é definido como prisões e antigos manicômios. O livro de Goffman publicado em 1988, “Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada”,discute uma questão muito importante para o contexto da educação, sobretudo, porque se refere ao contexto escolar. O termo “estigma” é adotado, no livro, referindo-se a sinais corporais que apresentavam algo “de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava” (1988, p. 11). Segundo Goffman, no momento de um encontro social, um indivíduo atribui a outrouma série de características e atributos morais, geralmente partindo da aparência ou de uma primeira impressão. A este processo, ele nomeia como identidade social, ou seja, conjunto de atribuições projetadas. O que seria apenas um preconceito passaria a agir no indivíduo como uma “expectativa normativa”, exigindo uma série de comportamentos que poderiam comprovar ou desmentir estas exigências (GOFFMAN, 1988; SILVA, 2007). O fechamento da percepção do outro em um estigma, geralmente atrapalha a percepção de novas características que não aquelas depreciativas que foram projetadas ou convencionadas para uma pessoa. Goffman estudava estigmas como as deformidades físicas, as doenças mentais, a raça, nação ou religião. PARA REFLETIR Na nossa realidade brasileira, quais são os principais estigmas envolvidos nos processos educativos em relação aos alunos, aos professores (de escola pública e de escolas privadas), às famílias dos alunos? Seria possível falar em tipos de alunos, professores ou famílias? Procure identificar os principais estigmas que circulam nas escolas que vocês têm ou tiveram contato e reflita sobre como estes estigmas podem interferir na percepção de novas potencialidades pessoais. 19 Psicologia Social UAB/Unimontes O interacionismo simbólico de Mead e Goffman pode contribuir diretamente para pesquisas e intervenções na área da Pedagogia. Goulart e Bregunci (1990) identificam alguns temas diretamente vinculados às propo- sições destes autores: a) construção de identidades e de seus processos; b) análise dos papéis sociais vivenciados nas instituições; c) análise das institui- ções e dos grupos sociais; d) relações interpessoais na escola. Esses e vários outros temas enfrentados, na realidade das escolas, podem ser diretamente auxiliados por pesquisas ou ações que sejam fundamentadas na teoria de Mead ou de Goffman. 1.2.3 Escola de Frankfurt A Escola de Frankfurt ou Teoria Crítica nasceu nos anos 1920 na Alemanha, fundamentando-se na filosofia de Hegel, Marx, Kant, Nietzche e Freud, buscaram estudar a modernidade enquanto uma realidade em movimento de transformação (SOARES, 2007). Os principais teóricos, desta escola, foram Theodor Adorno, Hebert Marcuse, Walter Beijamim, Franz Neumann, entre outros. Os teóricos tinham pensamentos e temas de pesquisas bem diferentes, embora todos eles fundamentassem suas obras na teoria marxista e na psicanálise. Os autores frankfurtianos se propuseram a examinar a realidade de forma crítica, atentos ao destino no qual a racionalidade iluminista havia conduzido a humanidade: Primeira Guerra Mundial, os campos de concen- tração nazistas da Segunda Guerra Mundial, a indústria cultural e a ideologia de dominação dos estados. Quando Max Horkheimer assume a posse da direção do Instituto de Pesquisa Social, instituição onde os pesquisadores frankfurtianos se reuniam, propõe como objeto de estudo a “relação entre a vida econômica da sociedade, o desenvolvimento psíquico dos indivíduos e as possíveis mudanças culturais que daí advinham” (SOARES, 2007, p.485). Poderíamos identificar alguns princípios norteadores da Escola de Frankfurt, seguindo as indicações de Soares (2007): ?Noção de crítica: que significava questionar todo juízo sobre o mundo, interrogar sobre os valores dados, buscando desvelar a realidade da maneira como ela era e poderia vir a ser. ?Crítica do positivismo, nas ciências humanas: rejeitavam a ideia de uma teoria que explicasse o homem de forma neutra e buscavam uma compreensão do homem no seu contexto sociocultural concreto, recupe- rando ao mesmo tempo uma discussão sobre a liberdade de ação e a mudança do homem, bem como uma denúncia das várias determinações sociais que atravessam as motivações pessoais. ?Abordagem micrológica: uma escolha de estudar o detalhe ou o particular para daí ter acesso à lógica social presente no todo. Desta forma, acreditavam que considerando situações específicas, poderiam ter acesso a 20 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período uma estrutura de funcionamento da sociedade presente nestes fenômenos particulares. ?Apropriações da obra de Freud e Marx: esses dois autores apresentavam um questionamento e desconfiança direta das ideias, racionalizações e ideologias transmitidas pela sociedade. Marx denuncian- do como o capitalismo poderia influenciar na produção de subjetividades e Freud discutindo como a modernidade poderia causar um mal-estar e sofrimento psíquico no embate entre o desejo e as tentativas de controle social. Pensar a Teoria Crítica, no contexto de nossa discussão, significa herdar desta Escola um olhar questionador sobre as bases sociais de onde nascem nossos desejos, valores e objetivos. Os autores frankfurtianos denunciam uma série de ilusões, entre elas, a ilusão de uma liberdade individual que poderia modificar toda uma estrutura social. Adorno já falava como esta pretensão poderia ser expressão de uma personalidade autoritá- ria, como foi a de Hitler que com uma grande pretensão, acabou cometendo uma série de atrocidades. A crítica ao Capitalismo, contudo, deve ser pensada dentro de cada contexto histórico, buscando um conjunto de diálogos, com os diversos grupos sociais, na tentativa de garantir uma condição de crescimento e inclusão de todos na sociedade. Um questionamento sobre a finalidade da educação, que não se reduz a uma simples reprodução de valores capitalistas, formando consumi- dores e não cidadãos, torna-se necessário de forma urgente. Retomar o sentido da educação e vinculá-la à história pode ser uma das direções a serem questionadas pelos agentes educativos. ATIVIDADES 1) Discuta as principais características da Escola de Frankfurt e suas contribuições para o campo da Pedagogia. Educação após Auschwitz (T. Adorno) Becker — Penso que nisto estamos inteiramente de acordo. O decisivo parece-me ser que vivemos num tempo em que, ao que tudo indica, o "para quê" já não é mais evidente. Adorno — O problema é precisamente este. É bastante conhecida a anedota infantil da centopéia que, perguntada quando movimenta cada uma de suas pernas, fica inteiramente paralisada e incapaz de avançar um passo sequer. Ocorre algo semelhante com a educação e a formação. Houve tempos em que esses conceitos, como dizia Hegel, eram substanciais, compreensíveis por si mesmos a partir da totalidade de uma cultura, e não eram problemáticos em si mesmos. Mas hoje tornaram-se problemáticos, nestes termos. No instante em que indagamos: "Educação – para quê?", onde este "para quê" não é mais compreensível por si mesmo, ingenuamente presente, tudo se torna inseguro e requer reflexões complicadas. E, sobretudo, uma vez perdido este "para quê", ele não pode ser simplesmente restituído por um ato de vontade, erigindo um objetivo educacional a partir do seu exterior. Fonte: ADORNO, T. W. Educação e emancipação. Trad. Wolfgang Leo Maar. São Paulo;Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra, 1995. p. 140. PARA REFLETIR Para você, quais são os objetivos e as finalidades da educação? Para que educar as pessoas? 21 Psicologia Social UAB/Unimontes 1.2.4 Teoria Sócio-histórica Uma das ideias centrais da Teoria Sócio-histórica ou Histórico- cultual, como também é denomina- da, é que a subjetividade é constituí- da a partir das relações sociais e do contexto histórico concreto e cultural de um indivíduo. Os principais representantes desta teoria são Vygostki, Alexei Leontiev, Alexander Luria, Rubestein, entre outros. Um aspecto comum destes autores é a fundamentação na teoria marxista, sobretudo, no que se refere à dialéti- ca marxista e o papel da cultura na produção de subjetividades. Neste sentido, o indivíduo tanto sofre as determinações do meio, quanto constrói, constantemente, através de suas ações este meio que odetermina. Zanella (2004) apresenta algumas proposições que nos ajudam a compreender as principais ideias desta teoria: 1) o psiquismo é constituído por uma unidade entre as dimensões fisiológicas e psicológicas superiores, desta última recebe as influências sociais e culturais; 2) a noção de que a natureza e a dimensão social não são dadas, mas construídas historicamente e modificadas pela ação do homem; 3) a ideia de um desenvolvimento humano não a partir de um germe interior, que se manifesta na realidade evolutiva do indivíduo, mas um desenvolvimento que resulta das atividades realizadas pelo indivíduo na história do estabelecimento de suas relações; 4) a ideia que uma atividade motivada por um objetivo, mediada por instru- mentos simbólicos da sociedade (como a linguagem, por exemplo) seja produtora da cultura, constitui um aspecto central do desenvolvimento da pessoa. Pode-se afirmar, portanto, que para a psicologia sócio- histórica, o homem é um ser ativo, social e histórico. Essa é a sua condição humana, a qual lhe permite constituir suas formas de pensar, sentir e agir, ou seja, constituir sua consciência. (AGUIAR, 2000, p. 128) Um dos principais autores desta abordagem, que tem sido muito discutido também pela Pedagogia, é Lev Semenovitch Vygotski. Nascido em Moscou em 1896, morreu aos 37 anos de tuberculose, deixando uma grande contribuição para a Psicologia e Pedagogia. Sua obra só foi conhecida após sua morte. Vygotski defendia a ideia que a consciência era um produto das relações sociais que a pessoa estabelece em sua cultura. Para este autor, as funções mentais superiores não são resultados de um desenvolvimento Figura 5: Lev Vygostki Fonte: pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:LSvygotsky.jpg C F E A B GGLOSSÁRIO Dialética: originariamente, a arte do diálogo e da discussão. Os idealistas alemães vêem na dialética uma noção triádica, constituída por TESE, ANTITESE, SÍNTESE, que Hegel pensa constituir o processo histórico necessário ao desenvolvimento do espírito e Marx da matéria. Fonte: AIRES (2003) DICAS Sugerimos retomar a leitura sobre Marxismo e materialismo-dialético, apresentados no caderno de Pesquisa em Educação do 3º período de Pedagogia da UAB. 22 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período interior, mas são resultados das interações sociais, o que significa dizer que primeiro ocorrem no contexto social para depois acontecerem na dimensão psicológica. A linguagem e o pensamento, por exemplo, são resultados dos contatos sociais a que a criança vai sendo submetida durante sua vida, o que irá permitir a aprendizagem e o desenvolvimento. (AGUIAR, 2000; ZANELLA, 2004). Uma criança que vive em situação de miséria e fome será provocada a priorizar formas de aprendizado que permitam satisfazer suas necessidades básicas. A maneira de falar, de se comunicar com os demais, as estratégias de solução de problemas, tudo isto, será influenciado pelo contexto onde vive, de forma que através de processos mediados pelo seu grupo, poderá aprender caminhos que a direcionem na solução de suas necessidades. O conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal exemplifi- ca bastante a ideia de que o desenvolvimento do indivíduo ocorre a partir de uma mediação dos laços sociais e culturais que ele estabelece. Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) é um conceito elaborado por Vygotski, e define a distância entre o nível de desenvolvimento real, determinado pela capacidade de resolver um problema sem ajuda, e o nível de desenvolvi- mento potencial, determinado através de resolução de um problema sob a orientação de um adulto ou com a colaboração de outro companheiro. Se pensarmos, como exemplo, em uma criança que precisa dar um troco em moedas, o que exigiria um raciocínio matemático envolvendo várias opera- ções de soma ou subtração, pode acontecer que ela não consiga calcular esse troco sozinha. A ajuda de um adulto ou de um companheiro que pense com ela algumas estratégias diante do problema, contribuiria para que ela encontrasse o valor a ser devolvido, o troco. Neste caso, quando a criança consegue resolver o problema apenas com esta ajuda é o que estamos chamando de Zona de Desenvolvimento Proximal. Para a Psicologia Social, esta teoria contribuiu muito para o seu desenvolvimento, principalmente, na história desta disciplina no Brasil. A noção de que a pessoa é constituída pela diversidade de relações que estabelecem seu modo de pensar e agir, bem como considerar a singulari- dade da pessoa, que age em seu meio modificando sua cultura, possibilitou a formação de uma concepção na qual tanto a dimensão social quanto a individual eram incluídas na compreensão dos fenômenos da sociedade. Em relação à Pedagogia, fundamentando no artigo de Lima (2000), “A teoria sócio-histórica de Vygotsky e a educação: reflexões psicológi- cas”,destacamos, também, algumas contribuições de Vygostky referentes à educação e à escola, explicitando uma relação entre Psicologia Social e educação: 1) explorar a diversidade de recursos de linguagem além da verbal e da escrita, uma vez que os símbolos, possuem um significado pessoal, que contribuem para a aprendizagem; 2) valorizar o acervo de conhecimento que os alunos já possuem e trabalhar, a partir deles, na construção de novos conhecimentos significativos , relacionando-os com o dia a dia deles; 3) valorizar a interação entre os alunos na sala de aula, 23 Psicologia Social UAB/Unimontes promovendo a troca de conhecimentos, valorizando, sobretudo, a interação entre as diferenças em classes heterogêneas; 4) atentar para o momento do desenvolvimento cognitivo dos alunos, propondo novos conceitos, que ajam como mobilizadores do desenvolvimento do pensamento, e não aguardar o momento de prontidão dos alunos para a aprendizagem, uma vez que a proposta cultural pode provocar mudanças. 1.2.5 Fenomenologia Social A Fenomenologia é definida como um método de conhecimento dos fenômenos (ALES BELLO, 2006). Fenômeno é entendido como tudo aquilo que se mostra a uma pessoa, trata-se de procurar o sentido – ou a essência – de um fenômeno a partir da experiência que uma pessoa faz dele. Edmund Husserl foi o fundador da Fenomenologia e buscava construir os fundamentos filosóficos rigorosos para as Ciências Humanas, a partir de uma análise dos fenômenos e uma descrição da realidade até chegar à essência daquilo que se estuda. Husserl propunha que para conhecer algo da realidade era preciso se voltar para este fenômeno, estabelecer um relacionamento com ele, voltar às coisas e não partir das pré-concepções existentes, que carregamos em nós, sobre isto que pretendemos estudar (ALES BELLO, 2004, 2006). Este seria o primeiro passo do método fenomenológico, a epoche, ou seja, colocar em suspensão ou entre parênteses tudo o que sabemos ou achamos que sabemos sobre algo e nos voltar para este fenômeno a fim de conhecê-lo pela maneira como ele se mostra a nós, identificando sua estrutura essencial, a partir da nossa experiência. Ao analisar estes processos, Husserl identificou nos relacionamos com a realidade a partir de vivências de vários tipos: ver, tocar, sentir, pensar, recordar, entre outras. Assim, identificou que existe no ser humano uma estrutura transcendental, uma estrutura universal presente em todos os seres humanos, composta por vivências e atos que todos podem realizar, chamando-o de sujeito transcendental. Devido a esta estrutura, podemos compreender o que os outros estão vivenciando, porque também nós podemos vivenciar isso em qualquer momento. Exemplo: Podemos compreender a tristeza de alguém, porque nós também vivenciamos em algum momento uma tristeza. A análise da cultura volta-se, portanto, para identificação de como a estrutura da pessoa vem sendo mobilizada, em determinado contexto social,identificando a maneira como a sociedade ativa certas vivências do corpo, da psique ou do espírito. Husserl fundou uma Escola Fenomenológica tendo, inclusive, vários alunos seguidores contemporâneos ou póstumos que aplicaram seu método no estudo de temas específicos. Relacionados aos temas sociais, podemos identificar determinados autores que se dedicaram aos temas ligados ao estudo da interação pessoal a partir da Fenomenologia: Edith Stein, Martin Heidegger, Jean Paul Sartre, Max Scheler, Gerda Walter, e posteriormente, Alfred Schutz (ALES BELLO, 2004; WAGNER, 1979). ATIVIDADES 1) Discorra sobre o papel da história e da cultura para a constituição do sujeito, a partir da Teoria Sócio-histórica. 2) Cite quatro contribuições da Teoria Sócio-histórica para os processos educativos. DICAS Sugerimos retomar a leitura sobre Fenomenologia no caderno de Pesquisa em Educação do 3º Período de Pedagogia da UAB/Unimontes. 24 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Gostaríamos de apresentar algumas ideias mais específicas de Schutz, pelo fato deste autor possuir uma influência maior na Psicologia Social e na Sociologia, sendo um dos autores mais citados que aplicaram o método fenomenológico no estudo de temas sociais. A intersubjetividade é considerada por ele como uma “categoria ontológica”, ou seja, um tipo de vivência que existe a priori no ser humano, o que significa dizer que estar em relacionamento social constitui uma característica essencialmente humana, somos humanos porque vivemos em relação com os outros (WAGNER, 1979). A maneira como estas relações vão se construir dependerá da socie- dade e da concepção que a pessoa tem sobre seu mundo. Portanto, Schutz se interessou pela maneira como as pessoas faziam experiência subjetiva de sua vida diária e a maneira como elas interpretavam seu mundo. Cada pessoa possui meios de orientação e interpretação do mundo, disponibilizados pela sociedade em sua vida cotidiana. Assim, ele investigava a maneira como o indivíduo vivenciava seu ambiente, discutindo sobre quais aspectos a pessoa concentra sua atenção e como ela constrói “tipos conceituais” para compreensão de seu mundo. O processo de tipifi- cação consiste em construir idealizações ou ideias generalizadas sobre a realidade, permitindo ao indivíduo construir antecipações sobre sua vida social, como resultado ele pode orientar sua ação e comportamento. Cada pessoa vivencia a sua realidade de maneira subjetiva, contu- do, podemos apreender a maneira como cada pessoa vivencia sua realida- de, gerando uma experiência sobre nós. A possibilidade de uma troca de expe- riências, de uma aprendizagem sobre algo da realidade que nasce desta relação social, possibilita ao indivíduo descobrir novos sentidos sobre sua realidade que poderia não identificar se estivesse sozinho. Na Psicologia Social, a Fenome- nologia tem contribuído para o estudo de vários temas vinculados à cultura. O estudo das comunidades, das tradições culturais, da experiência religiosa, da educação, entre vários outros, tem sido enfrentado a partir deste método. Na Universidade Federal de Minas Gerais, o Laboratório de Processos de Subjetivida- de tem desenvolvido várias pesquisas, a partir do método fenomenológico, coordenadas pelo Prof. Dr. Miguel Figura 6: Catopê de Montes Claros/MG - Os catopês são um tipo de festa religiosa tradicional. Eles dançam em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Em Montes Claros, a primeira notícia registrada da festa data de 1839. A dança, enquanto cultura, aparece como possibilidade de resgate e manutenção da tradição, bem como expressão de valores religiosos de uma comunidade diante de toda a sociedade. Fonte: montesclaros.mg.gov.br/festasagosto2009/g aleria 25 Psicologia Social UAB/Unimontes Mahfoud, entre elas encontramos temas relacionado à educação e à cultura de comunidades tradicionais (MAHFOUD, 2002, 2003; MAHFOUD; LEITE, 2007). Outros pesquisadores brasileiros também têm enfrentado temas sociais, fundamentando na Fenomenologia, como Cristiano Barreira e Marina Massimi (2005), Sodré (2004) e Mauro Amatuzzi (1996, 2003, 2006). 1.2.6 Psicologia Social no Brasil A Psicologia Social Moderna no Brasil possui uma grande tendência marxista, fundamentada na teoria sócio-histórica, mas nem sempre foi assim. Antes da década de 1960, a Psicologia Social no Brasil era predomi- nantemente uma psicologia de base experimental e positivista, abordando mecanismos psicológicos universais e abstratos, seguindo os moldes de uma psicologia norte-americana de ênfase individualista. (BOCK et al, 2007). A psicologia social cognitivista coloca como objeto as relações interpessoais e a influência de fatores sociais no indivíduo, mas estabelecendo uma dicotomia entre indivíduo e sociedade e dentro de uma perspectiva naturalizante. Tais formulações estão baseadas em um método experimental, que busca relações causais entre variáveis e estabelece a necessidade de verificação empírica de princípios teóricos. Baseado no positivismo, o método prega a neutralidade do conhecimento científico e a distinção entre o conhecimento e a ação, ou seja, entende que o conhecimento deve ser objetivo e desvinculado de qualquer intenção em relação a seu uso. (BOCK et al, 2007, p.49) Silvia Lane, uma das maiores precursoras da Psicologia Social no Brasil, afirmava que, neste início, a Psicologia Social era um “zero à esquer- da”, estava lá, mas não contribuía em nada com uma mudança da realidade social. Isso porque partira de teorias norte-americanas para explicar os fenômenos nacionais. Lane dizia isto, considerando todo o contexto próprio da América Latina, inclusive as ditaduras militares e a situação de desigual- dade social, específicas de países latinos americanos que viviam e ainda vivem situações como estas. A perspectiva marxista, com seu método histórico-dialético, apresentou-se como uma alternativa relevante a este contexto, uma vez que possibilitava a compreensão do indivíduo dentro de seu contexto social e político específico. Desta forma, era possível desenvolver uma teoria voltada para um contexto social prático, buscando enfrentar os problemas sociais e o contexto político local. A esta nova perspectiva, vários autores da América Latina também estavam sintonizados e a Psicologia Social no Brasil se desenvolveu simultaneamente com a da América Latina, através de vários congressos e a construção de Associações. ATIVIDADES 1) Fundamentando-se na Fenologia social, discuta como a cultura interfere na vida do indivíduo. 2) Pesquise as principais festas tradicionais de sua comunidade e discuta como os valores mantidos por esta comunidade formam uma maneira de viver dos indivíduos. 26 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Foi a partir de 1976 que aqueles que realizavam experiênci- as semelhantes na América Latina passaram a estabelecer contato e, de uma maneira informal, a traçar um programa alternativo para a Psicologia Social de cunho experimental desenvolvida nos Estados Unidos e que até então era dominante também no Brasil. É o caso, entre outros tantos, da peruana Gladys Montecinos, das venezuelanas Maritza Monteiro e Maria Auxiliadora Banchs, do cubano Fernando González Rey e do espanhol radicado em El Salvador, Ignacio Martín-Baró. (BOCK et al, 2007, p.49). Nos anos 1970, houve uma situação cultural propícia ao desenvol- vimento de concepções progressistas dentro da Psicologia Social, marcada também por um clima de militância política. Junto a Silvia Lane, muitos outros psicólogos se propuseram a desenvolver uma Psicologia Social pautada nos modelos sócio-histórico e marxista. Entre os principais psicólo- gos, deste grupo, estavam Bader Sawaia, Suely Rolnik, LeonorGaioto, Antônio Ciampa, Maria do Carmo Guedes, Wanderley Codo, entre outros. Alguns fatos marcantes contribuíram também para a Psicologia Social no Brasil nos anos 1970 e 1980, entre eles a publicação de obras nacionais na perspectiva já descrita, como “Psicologia Social: o homem em movimento” (LANE; CODO, 1985), e a fundação da Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO) em 1980. A partir daí, houve um crescimen- to considerável da Psicologia Social no Brasil, ocorrendo diversos congressos estaduais e nacionais da ABRAPSO, além de desenvolvimento de pesquisas na perspectiva sócio-histórica, criação de cursos de mestrado e doutorado em Psicologia Social pelo país, entre outros. Vale ressaltar que, apesar da influência sócio-histórica ser de grande relevância para a história da Psicologia Social no Brasil, existe uma diversidade enorme de pesquisadores que condu- zem seus estudos a partir das demais escolas teóricas aqui apresentadas. 1.3 A RELAÇÃO PESSOA E COMUNIDADE NA HISTÓRIA DA PSICOLOGIA SOCIAL Na história da Psicologia Social, a categoria “pessoa” utilizada para se referir aos seres humanos, está sendo retomada apenas recentemente, sendo assumida geralmente a categoria indivíduo, sujeito, self, entre outras, para se referir ao ser humano no seu aspecto social (ÁLVARO; GARRIDO, 2003; ELIAS, 1994; SPINK; MEDRADO, 1999; LOPES, 2002; DUARTE, 2003; MAHFOUD, 2005B, COELHO-JUNIOR, 2006). Desta mesma forma, a categoria “comunidade” passou a ser discutida de forma mais consistente na Psicologia somente a partir dos anos 60 do século passado, como resposta ATIVIDADES 1) Descreva as principais características que estiveram presentes na constituição da Psicologia Social no Brasil, a partir da década de 1970. DICAS A ABRAPSO é uma sociedade sem fins lucrativos, fundada durante a 32ª Reunião da SBPC, no Rio de Janeiro, em julho de 1980. Fruto de um posicionamento crítico na Psicologia Social, desde a sua criação, a ABRAPSO tem sido um importante espaço para o intercâmbio entre estudantes de graduação e de pós- graduação, profissionais, docentes e pesquisadores. Os Encontros Nacionais e Regionais da entidade têm atraído um número cada vez maior de estudiosos da Psicologia e possibilitam visualizar os problemas sociais que a realidade brasileira tem apresentado à Psicologia Social. A revista Psicologia & Sociedade é o veículo de divulgação científica da entidade. Fonte: Site oficial da ABRAPSO http://abrapso.org.br/ Figura 7: ABRAPSO Fonte: abrapso.org.br 27 Psicologia Social UAB/Unimontes à necessidade da adoção de uma ciência mais comprometida socialmente, o que implicava uma discussão ética e política sobre os beneficiários da produção intelectual, bem como as modificações sociais que poderiam ser geradas a partir desta produção (SAWAIA, 2000). Até então, a vida associati- va era discutida em termos de sociedade, grupos, instituições sociais, entre outras terminologias. A escolha da terminologia, para se referir a estes entes, não foi apenas uma questão linguística, mas trata-se da expressão de um posicionamento intelectual historicamente construído que, referindo-se ao ser humano e às modalidades da sua vida associativa, utilizando um ou outro conceito, opera um recorte teórico que pode acabar por reduzir a compre- ensão a apenas algumas características dos entes considerados. Contudo, retomar a maneira como a Psicologia Social discute a relação pessoa e comunidade signif ica também considerar a metodologia e a concep- ção ontológica – explícita ou implícita – de onde cada autor parte para elaboração do conheci- mento. Na história da Psicologia Social, pode- mos perceber as dicotomi- as referidas através de três perspectivas: (a) a do individualismo que discute a existência de uma supremacia do indivíduo sobre os fenômenos sociais, em que tudo dependeria do indivíduo, da sua liberdade de construir suas relações e de seus valores pessoais, identificados nas obras dos autores Gabriel Tarde, Herbert Spencer, Max Weber, Floyd Allport, entre outros; (b) a perspectiva do sociologismo que discute a existên- cia de uma supremacia das estruturas sociais sobre o comportamento dos indivíduos, através da qual o condicionamento dos indivíduos dependeria, sobretudo, da sociedade, de certas escolhas e valores, identificados nas obras de Émile Durkheim, Gustave Le Bon, Talcott Parsons, Robert Merton entre outros; (c) a perspectiva do interacionismo através do qual o sujeito constrói e, ao mesmo tempo, é construído pela sociedade, podendo ser identificada nas obras de George Herbert Mead, Lev Vygostky, P. Berger, T. Luckmann e outros (ÁLVARO; GARRIDO, 2003; ELIAS, 1994, COELHO- JUNIOR, 2006). PARA REFLETIR Como você considera a relação pessoa e comunidade? Pensando nas comunidades nas quais você participa, pensa que a comunidade é determinada pelas pessoas que a compõe ou são as pessoas determinadas pelos valores e regras da comunidade? Existe espaço para singularidade nas comunidades? Figura 8: Rede Social Fonte: diegobrito.com.br/wp-content/uploads/2009/05/rede _social_corporativa.jpeg 28 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 1.3.1 A perspectiva do individualismo As formas associativas e os tipos de relação apreendidos nestas diferentes formas fizeram parte da história das ideias através da discussão da relação entre homem e sociedade. Em cada contexto histórico e político, a relação pessoa e comunidade era discutida contextualizada pelo confronto de valores coletivistas e valores individualistas (SAWAIA, 2000). No final do século XVIII, o Iluminismo inaugurou um movimento de hostilidade intelec- tual em relação à comunidade, uma vez que esta era identificada com as comunidades feudais e precisavam ser combatidas, já que a dominação e a dependência eram consideradas as características marcantes deste tipo de associação, o que consistiria em um bloqueio para o processo de realização do homem e para construção do progresso. Esse movimento anticomunitário, assentado no desejo de destruir a ordem feudal injusta, foi reforçado pelas duas revoluções, francesa e industrial, e encontrou apoio também nos que recusavam a idéia de contrato e defendiam a doutrina do egoísmo racional e, conseqüentemente, do racionalismo econômico. Para todos esses, a comunidade era o inimigo do progresso que se vislumbrava no final do século XVIII, representando a persistência das tradições a serem vencidas, pois impedia o desenvolvimento econômi- co e a reforma administrativa (SAWAIA, 2000, p.37). Marcado historicamente por esta concepção, no início do século XIX, Auguste Comte propõe que a ciência havia passado por estágios em seu desenvolvimento e, após superado o estágio teológico e o estágio metafísico, havia chegado ao seu momento positivo, caracterizado pela busca da determinação das leis da natureza, através da experiência observável e do modelo da ciência físico-matemática considerada como supremacia de método (ÁLVARO; GARRIDO, 2003). Era introduzida uma primeira dicoto- mia, ou seja, o estudo do indivíduo cabia à fisiologia – uma vez que conside- rava a Psicologia da época como excessivamente metafísica e o estudo do ser humano, enquanto ser social, deveria ser realizado pela sociologia. A postura intelectual assumida por Comte dificultava o estudo de muitos fenômenos apreendidos socialmente, já que não poderiam ser submetidos a uma metodologia de observação direta ou a experimentação. Muitos psicólogos e sociólogos, no início do desenvolvimento da Psicologia e da Sociologia enquanto ciências, acolheram as indicações do positivismo de Comte, traduzindo o interesse pelos fenômenos referentes à pessoa como um individualismo metodológico. Inicialmente, também se dividiram em doisgrupos, ou adotando a Sociologia como caminho para explicar os fenômenos sociais, ou adotando a Psicologia – considerada em termos positivistas e experimentais – como caminho para se explicar os fenômenos individuais. Os fenômenos psicossociais ficavam reduzidos a um dos polos: indivíduo ou sociedade. 29 Psicologia Social UAB/Unimontes Gabriel Tarde sustentava que a Sociologia deveria se fundamentar na Psicologia, em oposição às ideias de Comte que considerava que a Sociologia deveria se fundamentar na Física. A realidade dos fenômenos sociais existia concretamente nos indivíduos, nos seus comportamentos de interação e nos efeitos que estes comportamentos geravam nas consciências individuais (ÁLVARO; GARRIDO, 2003). Fundamentando na teoria evolucionista de Darwin, Herbet Spen- cer defendia que na sociedade predominava o princípio de sobrevivência do mais apto (ÁLVARO; GARRIDO, 2003). Considerava que os mais aptos eram também os melhores e a sociedade seguia esta dinâmica de propiciar o surgimento de pessoas que se destacassem mais. Apesar de considerar a relação entre indivíduo e sociedade, Spencer negava que o indivíduo fosse produto da sociedade, pelo contrário, seriam os indivíduos que construiriam a realidade social e cultural. Vale ressaltar que esta teoria evolucionista possui implicações éticas e políticas perigosas, porque sustenta, justifica e legitima, a partir do conhecimento científico, um processo de dominação social e cultural e uma série de atitudes preconceituosas e eugênicas, no sentido de afirmar a possibilidade de uma soberania de valor de algumas raças ou pessoas sobre outras. A comunidade é considerada, aqui, apenas como ferramenta hermenêutica que possibilita a compreensão de um contexto genérico onde o indivíduo pode passar de uma situação de homogeneidade para heteroge- neidade quanto as suas características, contudo, são desenvolvidas a partir de um caminho individualmente considerado. Max Weber, propondo uma perspectiva metodológica que se distanciava do objetivismo positivista, buscou adotar uma perspectiva compreensiva no estudo dos fenômenos sociais (MINAYO, 1999; ÁLVARO; GARRIDO, 2003). Considerado como sociólogo das ações sociais, discutiu como os indivíduos se comportavam em diferentes contextos sociais (SAWAIA, 2000). As ações sociais eram consideradas por Weber como o objeto da Sociologia e poderiam ser compreendidas apenas em referência ao sentido atribuído pelo indivíduo em um determinado contexto de relacionamento social. A relação pessoa e comunidade, assim como é considerada numa perspectiva individualista, acentua o papel do indivíduo na constituição dos fenômenos sociais e na própria comunidade. A dicotomia adotada pelo positivismo, assumida pela perspectiva individualista propõe que a comuni- dade é produto da construção do indivíduo, da maneira como ele se coloca diante dos demais e diante dos outros, ressaltando apenas uma ação unidire- cional na constituição da comunidade criada pelos indivíduos e desconside- rando o papel desta mesma comunidade criada a partir da constituição do indivíduo que nesta se insere. 30 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 1.3.2 A perspectiva do sociologismo Diferentemente da ênfase dada ao papel do indivíduo na constru- ção dos fenômenos sociais, a teoria adotada pela perspectiva do sociologis- mo buscava descrever como a sociedade exerce um papel determinante na vida do indivíduo, uma vez que o homem é considerado um ser social. Isto não quer dizer que os autores, que representam esta perspectiva, desconsi- derassem os elementos individuais, como a motivação ou a vontade, pelo contrário as submetiam como resultado de forças sociais externas que condicionavam os comportamentos individuais. Adotando a proposta de uma Sociologia fundamentada no positivismo, a sociedade era visada como um todo constituído de partes que apenas poderiam ser compreendidos a partir da totalidade. Émile Durkheim acolheu a indicação de realizar uma Sociologia fundamentada no positivismo e buscou a consolidação da Sociologia enquanto ciência (MINAYO, 1999; ÁLVARO E GARRIDO, 2003). Para Durkheim, o objeto de estudo da Sociologia deveria ser os atos sociais, considerados como 'coisas' que se mostram a observação direta. Considerou os atos sociais em termos objetivos, para além da significação atribuída pelo sujeito destes atos, de forma que a explicação causal dos fenômenos sociais deveria ser buscada nos atos sociais precedentes e não na consciência individual. Durkheim afirmava a primazia da sociedade sobre o indivíduo, onde os comportamentos individuais eram considerados como produtos da ação da sociedade através de mecanismos coercitivos ou das representações coletivas que agiam nos indivíduos. Ao contrário da perspectiva do individu- alismo, para a perspectiva do sociologismo, a pessoa é determinada pelo seu contexto social e comunitário; os fenômenos que são identificados na vida da comunidade são vistos como determinantes da vida da pessoa o que pode gerar uma concepção de comunidade onde se vive uma segurança de ser guiado, ao abrir mão se sua liberdade individual (BAUMAN, 2003). Outro representante da perspectiva do sociologismo, mais reco- nhecido pelo estudo de sua psicologia de massas, frequentemente citado por Freud na explicação dos fenômenos sociais, é Gustave Le Bon. Le Bon dedicou-se ao estudo das massas formulando-a como uma entidade psicoló- gica independente dos seus membros (Conferir o item 1.2.1). Considerado um dos fundadores do funcionalismo estrutural na psicologia social, Talcott Parsons buscou desenvolver uma perspectiva teórica que explicasse os fenômenos sociais em termos do que estes cumprem na manutenção da ordem social (MINAYO, 1999; ÁLVARO, GARRIDO, 2003). O indivíduo é reconhecido como parte de um mecanismo que ele ajuda a manter, seu lugar na sociedade é considerado apenas em função de valores e normas que sejam socialmente acordadas e nas quais ele se insere de modo anôni- mo e mecânico. A comunidade, pensada a partir de uma perspectiva funcionalista, significa uma estrutura que se impõe ao indivíduo, que 31 Psicologia Social UAB/Unimontes considera apenas aquelas contribuições que são necessárias para o funcio- namento do todo e desconsidera tanto as singularidades, como a liberdade pessoal como fator construtivo da vida comunitária. O indivíduo, com suas particularidades pessoais, corre o risco de ser considerado como ameaça a comunidade, de forma que a intenção que se sobrepõe é a adequação do indivíduo a uma estrutura que já se encontra pronta, sendo sua contribuição acolhida na medida em que ajuda a manter o que já está estabelecido pelos outros. A relação pessoa e comunidade, assim como é considerada na perspectiva do sociologismo, afirma a soberania da sociedade e da comuni- dade sobre a constituição da pessoa e de seus comportamentos. A comuni- dade, vista por esta perspectiva, é considerada como algo que já está pronta e, encontrando-a ou inserindo-se nela, o indivíduo deveria se adequar e contribuir para sua manutenção. A tensão que surge entre a comunidade e o indivíduo, considerado como ameaça de suscitar uma decomposição dos elementos estruturais comunitários, é superada a partir de representações coletivas que passariam a determinar o comportamento individual, ainda, que a partir do exterior, com a ilusão de ter sido assumida voluntariamente. Nesta perspectiva, embora haja um reconhecimento de como a comunida- de age na constituição do indivíduo e de sua personalidade, o papel ativo do indivíduo é desconsiderado para dar lugar a forças sociais que determinam tanto os fenômenos individuais, quanto os próprios fenômenos sociais. O lugar da pessoa se perde ou é reduzido a uma função genérica, para dar lugar a uma estrutura externa que se sobrepõeaos acontecimentos sociais. 1.3.3 A perspectiva do interacionismo A ênfase unilateral no papel do indivíduo ou da sociedade quanto à determinação da realidade social, provocou muitas reações de pesquisado- res na Psicologia Social. Muitos autores que buscaram uma alternativa a uma supervalorização do polo individual ou social na constituição dos fenôme- Figura 9: Interação na sala de aula Fonte: neocyber.com.br/cmsescolas2/components/com_fpss/images/kids.jpg 32 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período nos, discutiram o processo de interação entre indivíduo e sociedade como a chave de compreensão para os fenômenos sociais. O indivíduo não podia ser reduzido a um produto de forças sociais externas a ele e a sociedade não podia ser reduzida a produto de vontades individuais. Considerado um dos maiores teóricos da Escola de Chicago, George Herbert Mead, desenvolveu uma teoria fundamentada no interacio- nismo simbólico como base para compreensão da constituição do indivíduo e dos fenômenos propriamente sociais (Conferir o item 1.2.2). Para Mead, ao mesmo tempo que a pessoa acolhe em si um conjunto de papéis e expectativas dos outros, que determinam as possibilidades de ação, ela é capaz de se posicionar diante destas determinações de maneira ativa e construtiva, podendo resistir a pressões externas, mas também inserir algo novo na realidade social. A relação pessoa e comunidade, analisada a partir de Mead, pode ser pensada a partir de uma contribuição muito original: ao mesmo tempo que este autor descreve os processos de interação simbólica que mediam a constituição da pessoa, aponta elementos estruturais da pessoa constituídos em um processo relacional e discute como a própria realidade passa a ser modificada pelo resultado destas interações, a partir do posicionamento do eu. A pessoa é resultado da interação com os outros, sofre influências do posicionamento dos outros e influencia aquilo que o outro e a própria comunidade pode ser. Podemos também citar, aqui, a Psicologia Sócio-Histórica nesta perspectiva interacionista. (Conferir o item 1.2.4). Vygotsky considerava que a dimensão social não se mantinha como fato externo que condicionava o comportamento da pessoa através de mecanismos exteriores ao sujeito, mas essa penetrava nos processos psíquicos internos, através da cultura e da linguagem, determinando o desenvolvimento da pessoa a partir de dentro (REY, 2002, 2003). A perspectiva interacionista discutida por Vygotsky possibilita a compreensão da relação pessoa e comunidade de uma maneira interdependente. Embora, sejam vistas como realidades separadas, que se colocam em interação, modificando-se mutuamente. A perspectiva históri- co-cultural de Vygotsky permite considerar que, na interação dialética entre a pessoa e a comunidade, os fenômenos socioculturais vividos, na comuni- dade, modificam o sujeito e são modificados por eles. A pessoa tem um lugar ativo na construção da sua comunidade e esta, por sua vez, introduz dinâmi- cas específicas – historicamente definidas – na constituição da pessoa. Também a Fenomenologia Social apresentou-se como perspectiva interacionista. A relação pessoa e comunidade, considerada a partir da sociologia fenomenológica, é apreendida como uma realidade que é constituída de maneira interdependente. A experiência de compartilhar as experiências pessoais com os outros, oferecendo e recebendo dos outros uma bagagem cultural, constitui a essência da vida da comunidade e do processo de constituição da pessoa. Através do processo de constituição compartilhada do sentido, a personalidade individual é formada assim como 33 Psicologia Social UAB/Unimontes as características específicas da comunidade a qual a pessoa encontra-se vinculada. Tanto a dimensão pessoal quanto a dimensão comunitária são construídas de forma compartilhada, sendo a realidade social uma realidade essencialmente significativa – portadora de significados pessoais - e inter- subjetiva. Concluindo, podemos apreender que a relação pessoa e comuni- dade, considerada a partir da perspectiva interacionista, enfatiza o papel ativo da pessoa e da comunidade na construção de uma relação que é essencialmente interdependente. A pessoa constitui e tem sua personalida- de constituída pela comunidade, assim como a comunidade constitui e é constituída pelo posicionamento das pessoas de seus membros. Trata-se de um processo ativo da pessoa na elaboração de significados colhidos social- mente e a tomada de posição diante destes significados, de forma que, por este processo, a comunidade é construída a partir de um processo de interação de significados. ATIVIDADES 1) Diferencie as perspectivas do individualismo, sociologismo e interacionismo, em relação à pessoa e à comunidade. 2) Qual destas perspectivas citadas, você considera que prevalece na prática de um trabalho pedagógico em sala de aula? Justifique sua resposta. REFERÊNCIAS ADORNO, T. W. Educação e emancipação. Trad. 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Os objetivos específicos, desta unidade, são: ?Definir o conceito de Representações Sociais e sua relevância no contexto de estudo de processos psicossociais vinculados ao contexto escolar; ?Refletir sobre o conceito de ideologia e as maneiras como esta pode estar presente no contexto da educação, suscitando um pensamento crítico diante dos fenômenos sociais; ?Discutir o conceito de identidade enquanto um processo de contínuas modificações, onde a cultura e os relacionamentos sociais apresentam um papel essencial na sua constituição; ?Discutir o conceito de gênero enquanto uma construção social e identificar a origem de preconceitos e as possibilidades de uma educação que considere as diversidades. Para o estudo desta Unidade 2, propomos que a leitura seja realiza- da de forma pausada, procurando realizar as atividades e as reflexões indicadas ao final de cada tópico. Desta forma, o texto traz em si uma divisão de tópicos em que são apresentados os conceitos principais a serem discuti- dos. Indicamos ao final da unidade um conjunto de referências que pode ser lido para que os conceitos, aqui, abordados sejam compreendidos e assimi- lados de uma maneira mais adequada. Esta unidade tem o objetivo de suscitar uma postura mais crítica, provocando reflexões sobre os fundamen- tos de nossas crenças, a fim de construirmos uma atitude educativa que possa apreender a realidade de uma maneira mais atenta. 38 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 2.2 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS O que um grupo de professoras de uma escola pensa sobre o que é educar? Quais as estratégias que elas acham que são mais eficazes? E os alunos, o que pensam sobre a escola que frequentam? A resposta a estas e tantas outras perguntas remetem a um conjunto de ideias que são comparti- lhadas em um contexto específico. Talvez, há um século atrás, estas respostas seriam diferentes, por isso falamos que estas concepções são construções de um contexto sócio-histórico de uma realidade compartilhada. Para compre- ender estas concepções, precisamos conhecer o lugar que o indivíduo ocupa em relação aos outros, identificando nas suas relações a maneira como ele constrói estes discursos. O estudo destas concepções remete a uma categoria da Psicologia Social entendida como “representação social”. Contudo, o que são as representações sociais? As Representações Sociais são “teorias” sobre os saberes populares e do senso comum, elaboradas e partilhadas coletivamente, com a finalidade de construir e interpretar o real. Por serem dinâmicas, levam os indivíduos a produzir comportamentos e interações com o meio, ações que, sem dúvida, modificam os dois. (OLIVEIRA; WERBA, 2002, p.105) Figura 10: Sala de aula de uma escola indígena. Fonte: oldmanphotos.wordpress.com/2009/08/31/sebastiao -salgado-parte-quatro/ Esta bela fotografia está no livro “O Berço da Desigualdade”, parceria de Sebastião Salgado com Cristovam Buarque. Nesta fotografia de uma escola indígena, o fotógrafo apresenta não só a condição do local, mas também das alunas. A concentração das duas se opõe a frágil condição de suas vestimentas. Neste caso, e em muitos outros, o desejo de estudar é superado pelas dificuldades para alcançar este privilégio. DICAS39 Psicologia Social UAB/Unimontes A teoria da “representação social” busca compreender este fenô- meno psicossocial que está presente em todas nossas ações. Trata-se de uma teoria transdisciplinar que recebe influências da Psicologia, Sociologia, Antropologia, entre outras. Nesta perspectiva de estudo, o indivíduo não é concebido como um ser isolado o qual são acrescentadas ideias externas da sociedade, mas trata-se de uma concepção teórica que identifica a unidade entre indivíduo e sociedade, ou seja, estas representações estão na constitui- ção tanto do indivíduo quanto da sociedade a que ele pertence, modifican- do-se mutuamente. O conceito de representação social tem sua origem na Sociologia de Durkheim e na Antropologia de Lévi-Bruhl, ambos considerados precur- sores da discussão das ideias compartilhadas de um grupo sobre temas do cotidiano (OLIVEIRA; WERBA, 2002). Este conceito foi utilizado pela primeira vez por Serge Moscovici que passou a estudar o conjunto de conceitos, proposições e explicações que são construídos nos relaciona- mentos sociais, servindo de orientação para a compreensão do mundo e para a orientação das ações (SPINK, 1993). Apesar de manifestarem-se como elementos cognitivos, ou seja, ideias socialmente construídas e compartilhadas sobre a realidade, as representações sociais possuem um caráter prático por orientar as ações dos indivíduos e dos grupos. Assim, além de se tratar de representações cognitivas sobre um tema, implicam também em um caráter afetivo e de ação. Por exemplo: podemos comparti- lhar com um grupo uma maneira de pensar o que é o “castigo”, o que poderia influenciar a maneira como nos sentimos diante de uma criança que está sendo castigada e até mesmo o tipo de ação que tomamos diante deste acontecimento. Estudar as representações sociais de um grupo possibilita conhecer a rede de significados que é compartilhada e da qual nascem às ações e práticas comuns (SPINK, 1993). Significa voltar para um saber comum, uma teoria ou filosofia de vida comum de um grupo de pessoas, que organiza sua ação cotidiana e sem a qual nenhuma sociedade poderia existir. Nas repre- sentações sociais incluim-se as normas, valores, mitos, significados, entre outros. Entretanto, vale ressaltar que estas representações sociais não são determinantes sociais externos que interferem nas ações individuais, elas mesmas são construções dos sujeitos enquanto ator social. São os sujeitos que constroem de forma compartilhada estas representações e as disponibi- lizam para dos demais membros do grupo. As condições onde elas nascem e se disseminam são sempre condições contextualizadas. As representações são formadas por um imaginário social, ou seja, um conjunto de produções culturais compartilhadas por uma sociedade, mas também são formadas pela ciência, ou seja, o conjunto de informações científicas que circulam publicamente através dos meios de divulgação. Spink (1993) discute três funções principais das representações sociais: 40 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período ?Função Social: orientação das condutas e comunicações. Implica pensar a representação social não como conteúdo, mas como processo de construção de discursos que visam manter a ordem de um grupo ou da sociedade, organizando as ações e valores dos grupos. Exemplo: a concepção que uma escola tem sobre as avaliações, a repetência, o fracasso escolar, estaria sendo organizada através deste fenômeno das representações sociais sobre este tema. ?Função Afetiva: proteção e legitimação de identidades sociais. Implica um processo de interação social a partir do qual um grupo de pessoas pode elaborar estratégias coletivas ou individuais para manter sua identidade ameaçada. Poderíamos pensar no exemplo de como uma classe reagiria a uma mudança de professora durante o semestre letivo ou até mesmo a uma divisão da classe em subturmas. ?Função cognitiva: familiarização com a novidade. A função cognitiva implica um processo de familiarizar com aquilo que é novo e poderia ser considerado ameaçador. Acontece através dos processos de objetivação e ancoragem. A ancoragem ocorre quando associamos a informação ou evento novo a informações já existentes e familiares, promovendo uma domestificação da novidade ao organizar e associar as representações em eventos já conhecidos. A objetivação, por sua vez, implica uma cristalização da nova representação, disponibilizando-as como bagagem de experiência para representações e eventos futuros. Por exem- plo, temos a tendência de associar um novo tipo de avaliação pedagógica a algum tipo já conhecido ou experimentado por nós, facilitando o manejo desta nova experiência. A teoria das Representações Sociais é muito útil para a compreen- são dos fenômenos envolvidos nos processos de educação. Através de pesquisas que visem conhecer estas representações de um determinado grupo poderíamos ter acesso a vários dados específicos de como os discentes e docentes, por exemplo, compartilham a respeito da realidade social de uma escola. Exemplos de pesquisas envolvendo representações sociais, na área da Pedagogia, podem ser encontrados no artigo: “A pesquisa de repre- sentação social na área de ensino aprendizagem: elementos do estado da arte”, de Mary Rangel (1998). 2.3 IDEOLOGIA O conceito e a teoria da ideologia se fizeram presentes na Psicologia Social de forma mais significativa a partir da década de 1970 (GUARESCHI, 2002). Influenciados pela Escola de Frankfurt e sobre a teoria das Represen- tações Sociais de Moscovici, a Psicologia Social passou a identificar os diferentes processos de dominação que poderiam estar presentes nas interações sociais. ATIVIDADES 1) Defina “representação social” e discuta suas principais funções na sociedade. 2) Cite quatro temas que poderiam ser investigados a partir da categoria de “representação social” e discuta a relevância da pesquisa destes temas. 41 Psicologia Social UAB/Unimontes Embora o termo já fosse discutido anteriormente nas obras de Machiavel, quando falava das estratégias de dominação dos príncipes, e na obra de Bacon, quando este discutia como os ídolos poderiam nos impedir de conhecer a verdade, foi com Karl Marx que o conceito de ideologia se difundiu e passou a influenciar diretamente a Sociologia e a Psicologia Social. Geralmente a ideologia tem sido estudada na busca de identificar como o sentido tem sido utilizado para estabelecer e sustentar relações de dominação (THOMPSON, 1995 apud GUARESCHI, 2002). Por relações de dominação, entendemos uma relação onde uma pessoa expropria o poder ou as capacidades de outra, tornando as relações assimétricas, injustas e gerando exclusão social. Pe d r i n h o G u a r e s c h i (2002) fala que o conceito de ideologia pode ser discutido de várias maneiras, ou seja, este conceito possui vários sentidos de acordo com as perspectivas teóricas que estejamos discutindo. Pode- mos pensar a ideologia no “sentido positivo”, isto é, entendê-la como uma cosmovisão ou conjunto de ideais e valores compartilhados por um grupo. No “sentido negativo”, entendemos a ideologia como um conjunto de ideias distorcidas que visam esconder algo da realidade e enganar as pessoas sobre suas percepções, divulgadas a partir das relações de dominação. Identificaríamos ainda uma “dimensão material e concreta” da ideologia, quando entende- mos a ideologia corporificada em uma ideia (por exemplo, a ideologia da esquerda), ou associada a uma instituição, grupo ou família (por exemplo, a ideologia do Movimento dos Sem Terra). Contudo, a ideologia pode ainda ser estuda em sua “dimensão prática e dinâmica” através de suas formas simbólicas de criar e manter relações de dominação. Vamos exemplificar melhor: podemos estudar a ideologia no sentido positivo, quando nos voltamospara identificar o que um grupo de professores acredita que seja educação; podemos estudar a ideologia no sentido negativo, quando buscamos identificar como a concepção de educação de alguns professores serve para exercer o poder e controle disciplinar em uma classe; poderíamos estudar a ideologia no sentido concreto ao generalizar esta concepção negativa referida acima a todos os professores de uma sociedade ou identifi- car a dimensão prática e dinâmica de como alguns professores utilizam de estratégias específicas para estabelecer uma relação de dominação com seus alunos. DICAS A ideologia consiste precisamente na transformação das ideias da classe dominante em ideias dominantes para a sociedade como um todo. (Marilena Chauí) Figura 11: Marionete Fonte: http://www.jornalviamao.com.br/imagens /editorial/12MARIONETE.jpg 42 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Thompson define as cinco formas de operação da ideologia: legitimação, dissimulação, unificação, fragmentação e reificação. Trata-se de estratégias cuja verdade passa a ser camuflada na intenção de uma relação dominadora. A ideologia é por si só uma teoria crítica na medida em que identifi- ca a maneira como as comunicações e os sentidos – todo o universo simbóli- co – podem ser utilizados para criar relações de dominação e esconder a verdade. Uma vez que a ideologia é compreendida como um conjunto de ideias construídas com esta finalidade de excluir e dominar, devemos constantemente examinar os aspectos simbólicos das comunicações, visando denunciar as estratégias exclusivas e lutar por uma prática de inclusão dos indivíduos na sociedade, superando, em nossa própria prática, os riscos de construir ou manter relações de dominação. A educação pode ser utilizada para promover este processo ou ser utilizada de forma ideológi- ca quando não for pensada criticamente. ATIVIDADES 1) Defina ideologia e relacione com a educação. 2) Pesquise as cinco formas ou estratégias ideológicas discutidas por Thompson e exemplifique com situações ligadas a área da educação. O que é ideologia (Marilena Chauí) A ideologia consiste precisamente na transformação das idéias da classe dominante em idéias dominantes para a sociedade como um todo, de modo que a classe que domina no plano material (econômico, social e político) também domina no plano espiritual (das idéias). Isto significa que: 1) embora a sociedade esteja dividida em classes e cada qual devesse ter suas próprias idéias, a dominação de uma classe sobre as outras faz com que só sejam consideradas válidas, verdadeiras e racionais as idéias da classe dominante; 2) para que isto ocorra, é preciso que os membros da sociedade não se percebam como estando divididos em classes, mas se vejam como tendo certas características humanas comuns a todos e que tomam as diferenças sociais algo derivado ou de menor importância; 3) para que todos os membros da sociedade se identifiquem com essas características supostamente comuns a todos, é preciso que elas sejam convertidas em idéias comuns a todos. Para que isto ocorra é preciso que a classe dominante, além de produzir suas próprias idéias, também possa distribui-las, o que é feito, por exemplo, através da educação, da religião, dos costumes, dos meios de comunicação disponíveis; 4) como tais idéias não exprimem a realidade real, mas representam a aparência social, a imagem das coisas e dos homens, é possível passar a considerá-las como independentes da realidade e, mais do que isto, inverter a 'relação fazendo com que a realidade concreta seja tida como a realização dessas idéias. 43 Psicologia Social UAB/Unimontes Todos esses procedimentos consistem naquilo que é a operação intelectu- al por excelência da ideologia: a criação de universais abstratos, isto é, a transformação das idéias particulares da classe dominante em idéias universais de todos e para todos os membros da sociedade. Essa universa- lidade das idéias é abstrata porque não corresponde a nada real e concre- to, visto que no real existem concretamente classes particulares e não a universalidade humana. As idéias da ideologia são, pois, universais abstratos. Fonte: CHAUÍ, M. O que é Ideologia? São Paulo: Brasiliense. 1981. p.35- 36 2.4 IDENTIDADE Uma questão nos persegue, e está sempre por ser respondida. Quem sou eu? Você se sente capaz de responder? É possível que um desconhecido saiba exatamente quem você é, após você se descre- ver? Caso você tenha tentado responder, percebeu que não se trata de algo simples como parece a princípio. Segundo Jacques (2007), “a identidade é o ponto de referência a partir do qual surge o conceito de si e a imagem de si, de caráter mais restri- to.” (p. 165). Então, vamos a outra pergunta: há cinco anos atrás, você era igual ao que é hoje? Certamente houve mudanças. A sua vida social, profissi- onal, a sua forma de pensar e agir no mundo, provavelmente, passou por algumas modificações, e a cada dia percebemos pequenas mudanças em nossa identidade. Conforme nos afirma Ciampa (1985, p.74), “Identidade é metamorfose”. Identidade é um constante movimento do ser histórico e contextual que somos. Com nosso pai, somos o filho; com nosso filho somos o pai ou a mãe, no trabalho somos o pedagogo, com os amigos somos o engraçado. A definição de quem somos perpassa pelo contexto onde estamos inseridos, o que varia de grupo para grupo e num mesmo grupo passa por transformações. Conforme um filósofo grego, Heráclito, o homem não se banha duas vezes no mesmo rio, porque ambos já terão mudado. É nesse sentido, que Ciampa destaca o processo de formação da identidade. Ele destaca que a Identidade possui uma função antagônica, diferença e igualdade. Ao Figura 12 Fonte: www.tlics.blogger.com.br/espelho.jpg ATIVIDADES Tente responder à pergunta: Quem sou eu? Procure perceber se é possível fazer a descrição completa de quem você é. 44 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período mesmo tempo, que ao dizer quem sou me insere em grupos de pessoas parecidas, também me diferencia de outros grupos. Desta forma, não deixamos de ser quem somos o tempo todo apesar das constantes transfor- mações. Para entendermos melhor essa relação entre os grupos sociais, vamos apresentar o conceito de Identidade Social. 2.4.1 Identidade Social A teoria da Identidade Social tem como principal representante Henri Tajfel, que foi também um dos principais psicólogos a se debruçar sobre questões do preconceito e sobre discriminação, numa perspectiva social. Para ele, o fato destes fenômenos surgirem em vários contextos possibilitaria a compreensão e elaboração de uma abordagem psicológica que os explicassem (RABELO,2009). Segundo Tajfel (1981), Identidade Social refere-se à parcela de autoconceito proveniente da pertença a um grupo. Pertencer a um determi- nado grupo implica em compartilhar valores, hábitos, regras e crenças. Também implica na convivência com outros grupos com diferentes formas de posicionamento. Podemos sintetizar a definição de Identidade Social como sendo a consequência, para o indivíduo, provenientes desse compar- tilhamento de crenças e valores e das diferenciações feitas com outros grupos. As relações intergrupais são importantes na construção da Identida- de Social por determinarem comportamentos que influenciam toda a estrutura social. Para compreender melhor estas relações, Tajfel (1981) se apoiou em três conceitos fundamentais: Categorização Social, Comparação Social e Diferenciação Social. Estes conceitos estão fortemente interligados ao de Identidade Social e descrevem as relações intergrupais de forma a considerar seu caráter dinâmico. Os processos de Categorização Social dizem respeito às divisões em grupo que acontecem em função de fatores ou acontecimentosequivalen- tes, por exemplo: categoria raça (branca e negra), categoria nacionalidade (brasileiro e norte-americano). Trata-se de um processo cognitivo resultante da necessidade de diferenciar o grupo a qual pertenço dos demais grupos. O mecanismo de Comparação Social entre grupos serve ao propó- sito de formação da própria Identidade Social. Desta forma, as características do grupo duma pessoa, no seu conjunto (tais como o seu estatuto, riqueza ou pobreza, cor da pele ou capacidade para atingir fins) atingem todo o seu significado quando relacionadas com a percepção de diferenças em relação a outros grupos e a conotação de valor destas diferenças. (TAJFEL, 1981, p. 293). ATIVIDADES Enumere cinco grupos de que você faça parte (gênero, profissão, classe social, opção sexual, dentre outros). Pense nas características e crenças que você possui provenientes da pertença a cada um destes grupos. Isso é Identidade social. 45 Psicologia Social UAB/Unimontes Os estudos feitos por Tajfel com os chamados 'grupos mínimos” mostram que não são os conflitos entre grupos ou interesses individuais que causam os processos de comparação e diferenciação. Para ele, a razão para a diferenciação cognitiva, comportamental e avaliatória intergrupo encontra-se na necessidade dos indivíduos em dar significado social, através da identidade social, a situação intergrupo, experimental ou qualquer outra; e de que esta necessidade é satisfeita pela criação de diferenças intergrupo quando tais diferenças não existem de fato, ou pela atribuição de valor e de realce a quaisquer diferenças existentes. (TAJFEL, 1981. p. 313). As experiências com os chamados “grupos mínimos” mostraram que a separação em grupos é uma tendência facilmente estimulada, sendo que a pertença a um determinado grupo pode ser proveniente de fatores internos, como um consenso dos próprios membros, ou fatores externos vindos de grupos alheios. Foi possível demonstrar também que, a partir do surgimento de uma separação em grupos, aparece uma inclinação da preferência e do favorecimento ao próprio grupo, mesmo que isso não implique em relações face a face (RABELO, 2009). Este “sentimento” de pertença aumentará de acordo com alguns princípios gerais: a clareza da consciência do indivíduo de que é membro dum determinado grupo, a grandeza das avaliações positivas ou negativas associadas a essa pertença e a grandeza de investimento emocional na consciência e avaliações desta pertença. Além disso, observa-se que certas situações sociais obrigam os indivíduos a agirem de acordo com a pertença a um grupo, o que reforça as identificações ou mesmo criam novas pertenças que antes não se sabiam existir. A sua célebre frase “Somos o que somos, porque eles não são o que nós somos” (TAJFEL, 1981, p. 367), ilustra bem esse ponto de vista. Esta necessidade de comparação e diferenciação acontece pela tendência ou necessidade de se buscar uma aceitação positiva de si mesmo pelos outros e por si próprio. Para classificar algo como “positivo” deve haver o contraponto “negativo”. A busca por aceitação e respeito social acaba se tornando a maior responsável pelos conflitos intergrupais, considerando os aspectos psicológicos desses conflitos. Deve-se admitir que a teoria da Identidade Social de Tajfel é bastante criticada por ser considerada reducionista e ignorar os fatores econômicos, políticos e ideológicos das relações intergrupais. No entanto, ele demonstrou estar ciente destas questões e considerou sua relevância, mas focou os seus objetivos na busca de uma ligação entre o sociológico e o psicológico, priorizando as questões psicológicas, o que resultou no concei- to de Identidade Social. DICAS Para conhecer a experiência com os grupos mínimos, indicamos a leitura do livro de Tajfel: “Grupos Humanos e Categorias Sociais”, p. 305- 306. 46 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Estes aspectos psicológicos resultantes da comparação social e responsáveis pela Identidade Social proporcionam efeitos importantes nas relações intra e intergrupo, e podem favorecer a permanência do indivíduo em um grupo, caso este grupo contribua, de alguma maneira, para a constru- ção de uma identidade positiva. Caso contrário, o indivíduo poderá abando- ná-lo, a menos que isso seja muito difícil ou impossível. A permanência em um grupo que reforce em demasia uma identidade negativa levará o indiví- duo a duas possibilidades: reinterpretar as características desvalorizadas em termos positivos ou implicar-se numa ação de transformação da situação social. Estes efeitos não são regras ou leis universais e gerais, pois acontecem com grande variação. Pode-se dizer que a Identidade Social positiva de pertencer a um grupo determinará em algum grau a necessidade ou não de mudança de grupo por um indivíduo ou de mudança da situação. Essas mudanças são determinadas, principalmente, pela percepção da legitimidade e da estabili- dade das relações intergrupo e pelo grau de objetivação do status quo social. Este processo leva, por um lado, os grupos superiores a uma constante criação de estratégias para manter e reforçar a situação e, por outro, os grupos inferiores a tentar mudar a situação, quando se tem a consciência que a situação pode ser mudada. Estamos nos referindo a grupos superiores como aqueles grupos que são reconhecidos socialmente e de grupos inferio- res aos grupos estigmatizados, também conhecidos como grupos minoritári- os. Em síntese, podemos afirmar que, numa perspectiva psicológica, os processos de comparação e de diferenciação social são provenientes da tendência de atribuir aos nossos grupos valores positivos e aceitáveis e de desfavorecer os grupos alheios menosprezando os seus valores, hábitos e características, o que resulta no processo de categorização social. A seguir, iremos apresentar algumas considerações sobre gênero, a partir do enfoque da Identidade social aqui apresentada. 2.5 A QUESTÃO DO GÊNERO Vamos abordar o tema gênero falando sobre a relação masculina e feminina em nossa sociedade. Oliveira (2004), explica e discute a formação dos valores e comportamentos exigidos dos homens desde o mundo medieval até o moderno ideal masculino. Assim, nos fala de uma construção social da masculinidade. O primeiro ponto para se enfatizar, nessas considerações, é que o masculino e o femini- no são vistos como algo cultural, uma construção complexa e influenciada PARA REFLETIR A figura acima nos apresenta um aspecto cultural das diferenças entre os gêneros. A utilização das cores pelos homens e pelas mulheres. Você já pensou de onde surgiu essa separação? Qual o significado destas cores para você? Qual a associação destes significados para as mulheres e para os homens? Figura 13: Homem - Mulher Fonte: thumbs.dreamstime.c om/.../1202149505J24AuQ. jpg 47 Psicologia Social UAB/Unimontes por infinitas variáveis correlacionadas entre si. Desta forma, não iremos discutir questões genéticas e biológicas, mas tentar desconstruir essa natura- lização do ser homem e do ser mulher presente no senso comum, falaremos sobre gênero e não sobre sexo. Segundo Parker (1991) citado por Rabelo (2009), a hegemonia do sistema patriarcal agrário que se estabeleceu no Brasil exerceu uma marcan- te influência na organização social e na construção das representações ideológicas das interações sociais e nas formas como elas se estabeleceram, principalmente com relação às interações entre homens e mulheres. A estrutura hierárquica que estabelecia total dominação masculina e submis- são feminina teve como fonte inicial o direito delegado aos patriarcas de utilizarem a violência tal como lhes conviessem. O resultado foi à criação de dois mundos não só diferentes, mas antagônicos entre homense mulheres. Enquanto os primeiros tinham o direito e até o dever de domínio e controle tanto no ambiente doméstico quanto fora dele, as mulheres eram cercadas pelas grades dos afazeres domésticos e das paredes de suas próprias casas. As dicotomias feminino x masculino, passivo x ativo, dominado x dominante são as associações que justificaram as diferenças de gêneros a partir da contextualização apresentada. De acordo com Parker (1991), é na linguagem do corpo e sobre o corpo que a passagem da diferença biológica entre homens e mulheres se transforma em diferenças de representações altamente valorativas capazes de se estenderem a todos os níveis de vida em sociedade. Como exemplo, pode-se pensar nos apelidos dados aos órgãos sexuais femininos e masculinos que revelam a força, superioridade e ativida- de do pênis em contraposição à fraqueza, inferioridade e passividade da vagina. Além das problemáticas entre homens e mulheres, os conflitos entre os próprios homens são intensos. Segundo Welzer-Lang (2004), as problemáticas relacionadas ao masculino surgiram em dois polos antagôni- cos e até hoje se encontram separados entre os que seriam normais, sobre os quais nem é necessário enunciar qual é a cor dos seus amores, de tal modo a heterossexualidade parece triunfante em nossa época; e os outros, que assumem a sua homossexualidade e procuram compreender por que são considerados diferentes dos primeiros (p. 110). Nesta perspectiva, ele propõe alguns passos para se começar a pesquisar sobre masculinidades, considerando que falar sobre um gênero exige falar sobre o outro, uma vez que eles só se definem enquanto relacio- nados entre si. Esse mesmo autor deixa claro, também, que falar em homens traz à tona o fato de que esse não é um grupo homogêneo. Pelo contrário, é um grupo marcado por graves conflitos internos, como nos casos dos homo- afetivos que fogem dos padrões normativos de masculinidade. C F E A B GGLOSSÁRIO Homofobia: caracteriza o medo e o resultante desprezo pelos homossexuais que alguns indivíduos sentem. Para mais informações acessem o site: http://www.rea.pt/homofobia.h tml Figura 14 Fonte: mundodoarthur.wordpress.com/ 48 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Esse grupo, assim como o das mulheres, é duramente categorizado e enquadrado em especificidades fora das características atribuídas aos heterossexuais (Devemos esclarecer que, assim como os homens, também as mulheres e os homoafetivos constituem grupos extremamente heterogê- nos). Para Welze-Lang, a homofobia é uma forma de controle social que se exerce entre os homens, e isso desde os primeiros passos da educação masculina. Para ser valorizado, o homem precisa ser viril, mostrar-se superior, forte, competitivo...senão é tratado como os fracos e como as mulheres, e assimilado aos homossexuais. Homofobia e dominação das mulheres são as duas faces de uma mesma moeda (2004, p. 118). Nesta direção, a crença na superioridade masculina sobre as mulheres é que delimita como a mulher deve agir e pensar e delimita, também, como é se tornar e permanecer homem “macho”. Essas delimita- ções se relacionam à virilidade, ao poder, à atividade e ao domínio nas diversas situações sociais. Qualquer variação dessa norma social resultaria na categorização em minorias marginalizadas. Assim, também conforme Trindade e Nascimento (2004) apontam, a construção de atitudes homofó- bicas precoces faz parte do próprio processo de socialização dos homens, sendo que esse processo exige controle e vigilância constante dos homens entre si. Qualquer passo em falso ameaça a tão suada masculinidade. E se para isso são impostas aos homens atitudes, às vezes perversas, assim que eles se beneficiam das vantagens da dominação. As diferenças construídas entre os gêneros são compartilhadas entre eles, embora cada um, por força da própria ideologia, assume posturas diferentes na manutenção da mesma. De qualquer forma, se estabelece uma relação de poder, onde a masculinidade é tida como ordem natural e geral e a feminilidade como ordem específica e inferiorizada (Amâncio, 1994). Conforme afirma Lígia Amâncio (1994, p. 34), tanto homens como mulheres participam na reprodução do sentido dos modos de ser que os diferenciam, através de padrões de comportamento que, embora aparentemente distintos, têm uma origem ideológica comum. A ideologia comum a qual a autora se refere impõe uma diferencia- ção entre masculino e feminino, donde a norma coincide com os padrões masculinos e a exceção com os padrões femininos. Além disso, trata-se de uma ideologia partilhada e que, sendo legitimada e estável, não é percebida nem mesmo pelas mulheres que acabam reforçando estas diferenças em todas as esferas sociais. ATIVIDADES Aponte quais características do homem e da mulher o quadrinho acima sugere? Como essa forma de pensar reproduz uma relação de dominação entre grupos? 49 Psicologia Social UAB/Unimontes O objetivo não é colocar as mulheres como vítimas dos homens, mas entender os mecanismos sociais que ainda provocam diferenciações entre os gêneros e entender como esse processo é compartilhado e alimen- tado por uma complexa rede cultural e social. AMÃNCIO, Lígia. Masculino e Feminino: A construção social da diferença. Porto: Edições Afrontamento, 1994. (Coleção: Saber Imaginar o Social). CHAUÍ, M. O que é Ideologia? São Paulo: Brasiliense, 1981. CIAMPA, Antonio da Costa. Identidade. In: Psicologia Social: O homem em movimento. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.58-75. GUARESCHI, P. A. Ideologia. Em: JACQUES, M. G. C. et al. (Orgs.). Psicologia social contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2002. p.89-103. JACQUES, M. G. C. et al. (Orgs.). Psicologia social contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2002. JACQUES, Maria das Graças. Identidade. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. OLIVEIRA, F. O.; WERBA, G. C. Representações Sociais. In: JACQUES, M. G. C. et al. (Orgs.). Psicologia social contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2002. p.104-117. OLIVEIRA, Pedro Paulo. A construção Social da masculinidade. Rio de Janeiro: Editora UFMG, 2004. PARKER, R. Homens e mulheres. In THEREZINHA, M. C. Corpos, prazeres e paixões: A cultura sexual no Brasil contemporâneo. São Paulo: Best Seller, 1991, p.55-107. RABELO, Aline Aparecida. Sendo o que se pode ser: vivência do preconcei- to, ocultamento e construção da identidade para homens homoafetivos. 2009. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. RANGEL, Mary. A pesquisa de representação social na área de ensino- aprendizagem: elementos do estado da arte. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília, v. 79, n.193, set./dez. 1998. p.72-85. SPINK, M. J.. O conceito de representação social na abordagem psicosso- cial. Caderno Saúde Pública; v.9, n.3, p.300-308, jul./set. 1993. TAJFEL, Henry. Grupos humanos e categorias sociais. Lisboa: Livros Horizonte, 19981. REFERÊNCIAS 50 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período TRINDADE, Z. A; NASCIMENTO, Adriano Roberto Afonso. O Homossexual e a Homofobia na construção da masculinidade hegemônica. In Souza, L.; Trindade, Z.A. Violência e Exclusão: convivendo com paradoxos. São Paulo: Casa do psicólogo, 2004. WELZER-LANG, D. Os homens e o masculino numa perspectiva de relações sociais de sexo. In M.R. Schupun (Ed.), Masculinidades. São Paulo: Boitempo; Santa cruz do Sul: Edunisc, 2004. p.107-128 51 3UNIDADE 3PROCESSOS GRUPAIS Aline Aparecida Rabelo 3.1 INTRODUÇÃO Objetivo geral: Oferecer condições aos acadêmicos para a compreensão dos principais fenômenos do processo grupal, bem como apresentar um método de intervenção em grupo. Objetivos específicos: ?Identificar quais os principais aspectos a serem observadosno desenvolvimento de uma atividade em grupo; ?Conhecer alguns direcionamentos importantes para a atuação de um facilitador de grupo; ?Conhecer o manejo das técnicas grupais e da mediação de conflitos no grupo. O trabalho com pequenos grupos ou grupos de interação face a face é bastante frequente na prática da Psicologia Social. As atuações do psicólogo, em escolas, empresas, hospitais, comunidades e outras instituições, abrangem sempre atividades realizadas em grupos, isso se deve, principalmen- te, às possibilidades de intervenção que este tipo de trabalho permite. Para entender como ocorrem essas atividades, vamos conhecer as principais teorias que explicam os fenômenos e processos comuns da convivência em grupo, em seguida, apresentaremos o método de Oficinas em Dinâmica de Grupo como uma das possibilidades de intervenção, por fim, encerraremos enfatizando as técnicas de mediação de conflitos dentro dos grupos. Para o bom aproveitamento, desta unidade, é necessária a leitura dos textos básicos e complementares e a realização de uma atividade prática. Esta prática consiste na observação de um grupo que existe em alguma instituição da sua cidade e que seja, preferencialmente, coordenado por um psicólogo. A prática favorecerá um melhor entendimento dos aspectos apresentados nesta unidade. Iremos oferecer alguns direcionamen- tos no decorrer do texto, fiquem atentos aos quadros em que são apresenta- das as atividades práticas. Figura 14: Grupo de adolescentes - Artista: Mario Mariano Fonte: sanjarosa.multiply.com/journal/item/39 PARA REFLETIR O que você entende por grupos? As mulheres de sua cidade formam um grupo? Várias pessoas, numa fila de supermercado, formam um grupo? O time de futebol do clube que você torce pode ser denominado de grupo? 52 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Antes de começarmos a discorrer sobre os processos grupais, faz-se necessário algumas diferenciações importantes para entender sobre qual grupo falamos. Os conceitos apresentados, abaixo, ajudarão a refletir sobre estas questões. Categoria Social: trata-se de um agrupamento estatístico de indivíduos, formado com base em uma ou mais características comuns, neste caso, não existe interação entre os envolvidos). (INFOPÉDIA). (Ex. A quantidade de mulheres da cidade de Montes Claros, no ano de 2009). Agrupamento: conjunto de pessoas reunidas sem organização prévia, sem interação e podendo ou não ter um objetivo em comum. (Ex. Conjunto de pessoas na fila do supermercado com o objetivo de pagar os produtos escolhidos). Grupo: Conjunto de pessoas capazes de se reconhecer em sua singularidade e que estão exercendo uma ação interativa com objetivos compartilhados. (OSORIO, 2003). (Ex. Jogadores de futebol que pertencem ao mesmo clube e almejam conquistar um campeonato). Desta forma, quando falarmos de grupo, daqui para frente, estaremos referindo ao conceito acima, ou seja, um conjunto de pessoas que se reconhecem mutuamente e se reúnem com certa periodicidade em busca de um objetivo em comum. Desta interação surgem fenômenos, que denominamos de fenômenos grupais, como coesão, resistência, conflitos, identificação, projeção, aprendizagem, comunicação, dentre outros. Conforme Carlos (2007), existem os grupos “espontâneos” como grupo de amigos, vizinhos e os grupos organizados com objetivos específi- cos, como grupo de hipertensos, formado pelo posto de saúde de uma comunidade com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos partici- pantes. Os fenômenos, aqui, citados acontecem em qualquer forma de organização humana, no entanto, estaremos nos referindo às atividades grupais que contam com a presença de coordenador/facilitador e de grupos que possuem algum objetivo pré-estabelecido, ou seja, nos ateremos aos grupos organizados. Também, não vamos nos ater aos grupos terapêuticos, ou seja, grupos com finalidade de cura ou de autoconhecimento, nos quais se percebe uma atuação diferenciada do terapeuta e que demandaria estudos mais aprofundados na área da Psicologia. Assim, para o bom entendimento, desta unidade, é importante que você faça uma reflexão sobre os grupos dos quais participa e observe as reuniões de algum grupo que esteja em andamento, como: grupo de professores, grupo de alunos, grupo de diabéticos do PSF da sua cidade, grupo de funcionários de uma empresa ou outros. Isso permitirá a você, praticar a percepção da identidade grupal e dos aspectos, aqui, citados. ATIVIDADES Procure uma instituição, na sua cidade, que realize atividades em grupos e se informe a respeito dos procedimentos necessários para que você faça a observação. Lembre-se que é necessária a autorização do órgão ou pessoa responsável. Para esta prática, algumas questões éticas devem ser observadas, como sigilo das observações e consentimento dos participantes do grupo. 53 Psicologia Social UAB/Unimontes 3.2 CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS Imagine a seguinte situação: Marcos era um líder comunitário, como presidente da comunida- de Boa Esperança. Na terça-feira à noite ele desabafou: “Viver em grupo é difícil”. Desde pequeno Marcos vinha tentando viver em grupos. Mas, percebia que no grupo dos meninos de rua, no grupo de jovens da Igreja e, agora, no grupo dos moradores do bairro, em todos eles, as confusões, brigas, os problemas estavam presen- tes. E Marcos vivia insistindo. Sempre pensava que os grupos não funcionavam por falta de alguém que soubesse o que queria, de alguém que soubesse mandar, por falta de pessoas como ele, Marcos, que sempre soube falar bem e bonito para conseguir o que queria, que sempre soube mandar. E continuava insistindo. Tinha sido o líder dos meninos da rua, dos Jovens Cristãos e agora era o líder da comunidade. Mas os grupos não funcionavam: os membros não se manifestavam ou disputavam e se dividiam e, no final, acabavam não comparecendo às reuniões. Marcos não conseguia entender por que isso acontecia. “Viver em grupo é difícil”, desabafava Marcos com sua voz grossa e forte, a mais forte e mais grossa dentre os membros do grupo. E olhava para aquela gente com olhar altivo de quem se acha superior. Os morado- res, só de olharem para Marcos, sentiam que ele era o mais inteligente, o mais capaz. Os membros da comunidade permaneciam calados, frios, apáticos, ouvindo o desabafo de Marcos. Era sempre assim... (PEREIRA, 2005, p.14). Figura 15: Pessoas trabalhando em grupo Fonte: www.scn.org/cmp/images/st07.gif Analisando o exemplo acima, podemos perceber que se trata de um grupo de pessoas que se reúnem constantemente, possuem vínculos entre si e buscam um objetivo em comum. Vocês conseguem observar os diversos fenômenos que acontecem a partir da interação e das especificida- des das pessoas nele presentes? Como age essa liderança? Os participantes são motivados? O grupo consegue alcançar seus objetivos? São questões como estas que vamos tentar entender no decorrer deste tópico, mas, lembre-se, é importante que vocês leiam os autores citados, por nós, de forma mais profunda e detalhada. ATIVIDADES Faça um resgate da sua participação em grupos no decorrer da sua vida. Família, escola, dança, academia, grupos de igreja, grupos de amigos e outros. Tente relembrar os sentimentos, os medos, as vitórias que você compartilhou com estas pessoas e como o grupo influenciou na sua forma de viver hoje. Faça um paralelo com as questões trazidas pelos autores, aqui, citados. 54 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 3.2.1 Kurt Lewin Kurt Lewin nasceu em 9 de setembro de 1890 na Prússia. Judeu, emigrou-se para os Estados Unidos antes da II Guerra Mundial. Formado em Física, passou a se interessar pelos fenômenos comportamentaisrealizan- do doutorado nesta área. Morreu em 1947 nos EUA. O primeiro teórico a se debruçar sobre os fenômenos grupais foi Kurt Lewin. Ele entendia que somente seria possível compre- ender a sociedade global através da observa- ção de pequenos grupos. Por pequenos grupos ou grupos de interação face a face entende-se a reunião de poucas pessoas, de forma a possibilitar o contato entre elas e a fluidez na comunicação. Geral- mente, Lewin organizava grupos entre 12 a 15 pessoas. A principal questão levantada por Lewin era como o preconceito e a discriminação se reproduziam na sociedade. Imigrante Judeu, nos Estados Unidos, Lewin buscava entender como ocorre à mudança social e a resistência a mudança na socieda- de. Lewin utilizou da teoria da Gestalt para fundamentar as suas observações, desta forma, afirma- va que o grupo não deve ser entendido como a soma dos indivíduos participantes, mas como um campo de forças resul- tante do conjunto das relações entre os membros que se mantêm em constante movimento e que vai além da soma das individualidades de seus membros. Como “campo de forças” os pequenos grupos podem ser compreendidos a partir da forma como se organizam, como os membros “enxergam” os outros membros e a si próprios dentro do grupo, como atuam as forças de coesão e de dispersão no grupo, como as normas são formadas e estabelecidas, como ocorre à comu- nicação entre os membros, como agem diante da competição entre eles, como ocorre à divisão de tarefas e como se dá a distribuição de poder e liderança. (LEWIN, 1988 apud AFONSO, 2006). Figura 16: Kurt Lewin Fonte: changemanagement.spring note.com/.../869108 ATIVIDADES 1) Considerando o quadro 1, como você definiria a liderança de Marcos? 2) Parece que a liderança de Marcos está produzindo bons resultados para o grupo? Justifique sua resposta Figura 17: Estado deplorável de Judeus e outros contrários ao nazismo, no final da guerra. Campo de concentração de Buchenwald. Fonte: Wikipédia. 55 Psicologia Social UAB/Unimontes Para Lewin, a mudança social só é possível a partir das mudanças dos pequenos grupos sociais que começam a pensar formas alternativas para a resolução de conflitos e problemas e da percepção social que os indivíduos desenvolvem no interior destes grupos. Lewin entendia que a compreensão dos processos grupais só seria possível com o envolvimento do pesquisador e que essa inclusão interfere na dinâmica grupal, mas não invalida a investiga- ção. Inaugurou, então, a proposta da pesquisa-ação, partindo da ideia de que ... os fenômenos grupais só se tornam inteligíveis ao observador que consente em participar da vivência grupal; segundo ele, tais fenômenos não podem ser estudados “do exterior”, assim como também não podem ser estudados como fragmentos a serem examinados a posteriori... (OSÓRIO, 2003, p. 24). Lewin enfatizou, em seus estudos, a importância da autoridade e dos tipos de liderança nos pequenos grupos. Ele descreveu três tipos básicos de liderança: o autocrático, ou seja, aquela liderança que dita e impõe normas e procedimentos; o laissez-faire aquele líder que deixa o grupo a vontade e não exerce a sua função e o democrático que ouve e troca ideias na organização do trabalho. Ele entendeu que tendo uma liderança autocrá- tica e democrática o grupo conseguia avançar em seus objetivos, o que não acontece com a liderança laissez-faire. Portanto, Lewin percebeu que na liderança democrática havia maior satisfação dos envolvidos em compara- ção com a liderança autoritária. Como foram experimentos realizados em laboratório, muitos criticaram os resultados das experiências de Lewin pelo fato de que os grupos sofriam a influência de terem sido organizados para fins experimen- tais e que, sendo assim, não abarcava toda a complexidade de organização dos grupos que se organizam na sociedade de forma espontânea. Lane (1985) afirma que Lewin acreditava num ideal grupal de coesão, participação e harmonia, ela pontua que essa forma de pensamento parte de uma visão ideológica de individualismo, de harmonia e manuten- ção e, assim, desconsidera a historicidade do grupo. Para ela esses ideais não são possíveis diante da perspectiva histórica e que o grupo só pode ser conhecido como processo grupal que implica em constante transformação. 3.2.2 Psicanálise e os processos grupais A principal contribuição psicanalítica para o entendimento dos fenômenos grupais refere-se à percepção dos aspectos inconscientes que permeiam as relações intragrupais. As teorias psicanalíticas vieram demons- trar que os aspectos conscientes e racionais que se desenvolvem no grupo aparecem aliados aos vínculos, emoções e ansiedades e podem, quando 56 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período compreendidos, proporcionar efeitos de mudança nos participantes e no grupo como um todo. Vamos apresentar uma rápida definição dos principais conceitos psicanalíticos utilizados para a compreensão do processo grupal. Trata-se de processos que estão acontecendo a todo tempo nas relações entre os membros e são inconscientes. Identificação: Processo central pelo qual o sujeito se constitui e se transforma, assimilando ou se apropriando, em momentos chaves de sua evolução, dos aspectos, atributos ou traços dos seres humanos que o cer- cam. (ROUDINESCO; PLON, 1998). Em outros termos, trata-se do processo pelo qual percebemos características de pessoas próximas e passamos a reproduzi-las, sejam seus comportamentos, hábitos ou ideias, etc. O processo de identificação é ambivalente, pois ao mesmo tempo você pode querer estar com o outro e estar no lugar do outro, isso gera tensões no grupo. Transferência: É o fenômeno pelo qual o indivíduo transfere para uma pessoa sentimentos, originalmente, experimentados em relação às pessoas significativas de seu passado como pai, mãe, avós, etc. Em Freud, este conceito foi explicado tendo como base a relação analista paciente, no entanto, é um fenômeno universal e recorrente na vida de todos nós. (OSÓRIO, 2003). No grupo, um participante pode transferir para o líder do grupo sentimentos sentido pelo pai, por exemplo. Caso tenha tido uma experiên- cia positiva de aprendizagem com o pai, pode desenvolver comportamento de maior receptividade com o líder do grupo por reproduzir o sentimento tido pelo pai. A transferência de sentimentos pode ocorrer, também, do coorde- nador do grupo para os participantes, neste caso, denominamos de Contra- transferência. Esses sentimentos podem ter características positivas ou não. Um participante pode começar a ter atitudes de repulsa com relação a outro membro por ter transferido para ele sentimentos negativos sentidos por um irmão, por exemplo. Resistência: Designa o conjunto de reações de um paciente submetido à análise, ou psicoterapia de orientação psicanalítica, cujas manifestações, no contexto do tratamento, criam obstáculos ao desenrolar da análise. (ROUDINESCO; PLON, 1998). No grupo também ocorrem comportamentos que podem ser analisados como resistências ao amadurecimento do grupo e à realização dos objetivos propostos. Por exemplo, num grupo de formação de manicure, percebe-se que os encontros focalizam na reclamação da instrutora sobre a falta de material, como consequência não ocorre à realização da oficina. Trata-se de uma atitude de resistência, pois as reclamações estão encobrindo a não concretização do objetivo do grupo. Esta resistência é explicada por 57 Psicologia Social UAB/Unimontes algum fenômeno, que se compreendido pode resultar em mudança de comportamento. A partir da apresentação destes conceitos, seguem as contribuições de alguns autores psicanalíticos. 3.2.2.1 Wilfred Bion Bion nasceu na Índia em 1897. Aos oito anos foi estudar na Inglaterrae não retornou. Morreu em 1979. Conforme nos apresenta Afonso (2006), Bion, psiquiatra e psicanalista inglês, trabalhou com grupos no período da II Guerra Mundial. Para ele, todos os grupos funcionam em dois níveis: 1) o nível da tarefa, que implica normas, regras e objetivos conscientes e 2) o nível da valência, que abarca os aspectos afetivos, emocionais e inconscientes. O nível da tarefa é, também, deno- minado de “grupo de trabalho” e o nível da valência como “grupo de suposição básica”. O nível da valência refere-se aos mecanismos utilizados pelo grupo para se defenderem de sua angústia e assim se preservarem. Os dois níveis atuam de forma simultânea, sendo que em cada momento percebe-se a sobreposição de um ou de outro. Ora o grupo está bem con- centrado em seus objetivos conscientes, ora ele se ocupa com mais afinco em criar estratégias inconscientes de aliviar suas angústias. Isso vai depender dos acontecimentos e das relações entre os membros num determinado momento. De acordo com Afonso (2006, p. 16), “as suposições básicas são estados emocionais que evitam a frustração relacionada com o trabalho, sofrimento e contato com a realidade.” Elas se apresentam através de três maneiras: 1) dependência: quando o grupo busca proteção do líder, perma- nece a espera que ele irá resolver todos os problemas e angústias; 2) ataque e fuga: quando o grupo alterna movimentos de luta e fuga com relação ao líder, depositando nele a causa de todas as dificuldades; 3) acasalamento: quando o grupo sente dificuldade em realizar as atividades e fica inerte esperando a solução em algo externo que pode ser uma pessoa, um fato, uma decisão. Figura 18: Wilfred Bion Fonte: marxists.org/.../b/pics/bion-wilfred.jpg PARA REFLETIR De acordo com as ideias de Bion, você acredita que a informação muda comportamento? Pense. Essa é uma discussão antiga para a Psicologia, mas conforme podemos perceber na teoria de Bion, não basta apenas informação, é necessária uma mudança na forma de ser do indivíduo, na atitude e no sentimento. E assim, aliado ao conhecimento, a mudança acontece. 58 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Quando esses supostos básicos se tornam a principal forma de atuação grupal, os participantes ficam inertes e não conseguem agir, acabam imobilizados na própria angústia. Eles sempre existem nos grupos, conforme afirma Bion, no entanto, com o amadurecimento do grupo surgem estratégi- as em lidar com essas angústias e o grupo consegue realizar seus objetivos. Para Bion, é o movimento do grupo, na busca de resolver e elaborar seus conflitos e fantasias inconscientes, que faz com que ocorra uma “trans- formação em K” e um “crescimento em O”. “K” de Knowledge que significa conhecimento, refere-se ao aprendizado, à informação, refere-se aos aspectos cognitivos. E “O” de Ought to be que significa tornar-se, refere-se às transformações no ser, na forma de sentir, de comportar-se. 3.2.2.2 Foulkes S iegmond He in r ih Foulkes (1898-1976): a análise de grupo, criada por Foulkes, é uma forma de psicoterapia em pequenos grupos, na qual a partir da gestalt e da teoria de campo, ele adotou a visão de que o todo é mais elementar que suas partes. Fo u l k e s p r o c u r o u integrar a teoria de Lewin com as ideias de Bion. Seu objetivo foi adaptar a teoria e o método Freudiano para os grupos. Criaram-se, então os trabalhos em “grupo análise”. Para Foulkes, a vivência em grupo permite a seus participantes à reconstrução e à criação de novas de formas de pensar e agir, assim como permite, também, a revivência de situações traumáticas que poderão ser entendidas e superadas. Os fenômenos que acontecem a todo tempo, no desenrolar do grupo, transferências, resistências, conflitos, identificação, permitem a elaboração destas vivências traumáticas e a mudança de atitude. O método que Foulkes utiliza é o mesmo da análise individual, ou seja, a interpretação. (AFONSO, 2006). Desta forma, deve-se incentivar a interação, a comunicação, a livre expressão, a ressignificação do sistema de valores, atitudes e relações que vigoram no grupo. Cabe ao facilitador perceber o campo total desta intera- ção e observar Momento as resistências, as formas de comunicação e os demais fenômenos, provendo ao grupo a responsabilização pelo seu proces- so. (RIBEIRO, 1995 apud AFONSO, 2006.) Figura 19: Siegmond Heinrih Foulkes Fonte: chasqueweb.ufrgs.br/.../imagens/pichon.jpg C F E A B GGLOSSÁRIO Interpretação: o termo designa qualquer intervenção psicanalítica que vise a fazer um sujeito compreender a significação inconsciente de seus atos ou de seu discurso, quer estes se manifestem através de um dito, um sonho, de uma resistência, da transferência, etc. (ROUDINESCO, 1998). 59 Psicologia Social UAB/Unimontes Foulkes descreve 3 fases de desenvolvimento grupal que aconte- cem em qualquer grupo: 1º fase: Momento no qual predomina uma grande dependência na figura do coordenador. Onde acontecem as primeiras conversas, sentimento de divisão, estabelecimento de identificações. 2º fase: Momento em que ocorre maior integração entre os partici- pantes. A comunicação e a confiança se estabelecem, os participantes tendem a centrar mais uns nos outros que no facilitador. 3º fase: É a fase de fim do grupo, onde predominam sentimentos de ansiedade, perda e luto. Para Foulkes, os objetivos racionais e lógicos do grupo são modifica- dos pelas questões afetivas inconscientes que estão sempre presentes. Estas questões são resultantes dos processos dinâmicos resultantes das relações entre as pessoas do grupo. 3.2.2.3 Pichon Riviere Enrique Pichon Riviere nasceu em Genebra (Suíça) em 1907. Mudou-se aos três anos com a família para a Argentina, onde morou até sua morte em 1977. A teoria de Grupos Operativos de Pichon Riviere também foi elaborada a partir das concepções de Lewin e Bion. Pichon define o grupo como um conjunto de pessoas, ligadas no tempo e no espaço, articuladas por sua mútua repre- sentação interna, que se propõem explícita ou implicitamente a uma tarefa, interatuando para isto em uma rede de papéis, com o estabelecimento de vínculos entre si. (LANE, 1985). Esta definição apresenta os principais conceitos da teoria de Pichon e por isso vamos destrinchá-la, a seguir. Trata-se de pessoas que se encon- tram no mesmo espaço e no mesmo tempo e que possuem uma maneira de compreender uns aos outros, ou seja, constroem representações internas sobre quem é cada um dos participantes e, consequentemente, sobre como cada um é visto pelos outros. Estas pessoas propõem-se explícita ou implici- tamente a uma tarefa, pode ser algo bem definido e claro como algum tipo de formação profissional ou algo não tão definido como troca de vivências, pois tal finalidade pode revelar outros objetivos desejados pelo grupo. Neste ponto, vamos abordar uma questão muito importante para Pichon, para ele Figura 20: Pichon Riviere Fonte: chasqueweb.ufrgs.br/.../imagens/pichon.jpg 60 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período todo grupo possui uma tarefa externa que se refere às metas pré- estabelecidas conscientemente e uma tarefa interna que se refere ao fato de trabalhar com todos os processos vividos pelo grupo, sejam racionais ou afetivos. Somente se o grupo conseguir lidar com os aspectos inconscientes e emocionais é que conseguirá se concentrar na ação e realização da tarefa externa. Nesta perspectiva, Pichon utiliza-se de dois conceitos psicanalíticos apresentados por Melaine Klein referentes aos medos básicos. Diante das resistências do grupo, surgem dois tipos de medos básicos. O medo de perda diz respeito ao medo de perder o que já se tem e que oferece alguma segu- rança, inclui inclusiveo medo de perder a própria identidade. O medo de ataque refere-se ao medo do desconhecido, do novo e da mudança. Lidar com esses medos faz parte da tarefa interna do grupo. Segundo Pichon, todos os processos vividos pelos participantes do grupo resultam em consequências para o grupo como um todo. Desta forma, a história de cada sujeito influencia a de todos e ao próprio sujeito que pode modificar sua forma de ação dentro do grupo e isso reflete numa mudança no grupo como um todo. Pichon definiu essa integração em duas dimensões: Verticalidade: Refere-se à vivência que cada participante apresenta ao grupo e Horizontalidade: refere-se ao campo grupal que vai se modificando pela ação de seus membros. Assim sendo, o grupo precisa construir um esquema comum que serve para o fortalecimento do grupo e para a diminuição dos medos bási- cos. Pichon chama este esquema de ECRO – Esquema Conceitual Referenci- al e Operativo. Vamos entender melhor isso. O conjunto de referências, conheci- mentos e afetos que as pessoas levam para um grupo promove um esquema referencial operativo, sustentado pelas referências comuns ali existentes. A função do facilitador do grupo é criar e fomentar a comunicação no grupo para que se desenvolva a discussão de questões internas do grupo e assim ocorram transformações nas formas de pensamento que muitas vezes são rígidas e estereotipadas. O objetivo do grupo é fazer com que o Esque- ma (ECRO) do grupo seja plástico e consiga resolver as contradições e conflitos próprios da convivência grupal. Assim, a comunica- ção, a aprendizagem e a resolução de tarefas coincidem com a criação de um novo esquema referencial. Figura 21 Fonte: uel.br/ccb/psicologia/revista/PODER.htm 61 Psicologia Social UAB/Unimontes A cada situação proposta ao grupo ocorrem processos internos que abrange o todo e que Pichon denomina de “espiral dialética” referindo ao movimento interno e dinâmico destes processos quais sejam: afilia- ção/pertença, comunicação, cooperação, tele- aprendizagem e pertinência. Afiliação/pertença: refere-se ao grau de identificação dos mem- bros entre si e com a tarefa. Afiliação traduz uma identificação frágil, não existindo ainda vínculo, já a pertença indica o sentimento de equipe. Comunicação: É através da comunicação que é possível conhecer o ECRO grupal e assim analisar os conflitos que surgem no processo grupal. Para Pichon é necessário resolver os mal entendidos que surgem da rede de comunicação grupal para que ocorra a aprendizagem necessária. Cooperação: Trata-se da ajuda mútua entre os membros, está relacionada também a confiança e juntamente com a comunicação favorece a aprendizagem. O oposto desta situação é a competição que dificulta a concretização da tarefa. Tele: Traduz o clima do grupo, ou seja, como as relações são perce- bidas se de forma positiva ou negativa. Aprendizagem: Além da reprodução de informações implica num processo criativo de possibilidades para resolução de conflitos e realização da tarefa. Só é possível se os membros se disponibilizam para a comunicação e se mantêm em relações consideradas positivas por eles. Pertinência: Refere-se à forma do grupo em centralizar na tarefa de forma coerente e eficaz. Para conhecermos o funcionamento de um grupo é sempre impor- tante identificar como esses processos estão ocorrendo dentro do grupo. Outro aspecto muito visível nos grupos e que foi bastante estudado por Pichon são os papéis assumidos pelos membros. É comum observarmos nos grupos a adjudicação e assunção de papéis. Por exemplo, tem o brinca- lhão que pode auxiliar ou interferir na realização do objetivo do grupo, tem o líder que possui a confiança dos outros membros, tem o bode expiatório que é aquele membro que sempre é responsabilizado pelas dificuldades que o grupo enfrenta, tem o porta-voz que expressa sentimentos, medos e desejos seus que são, também, do grupo, e de outros. A forma como se dá esses processos revelam muito do grupo, e o ideal é que a flexibilidade desses papéis seja incentivada e não ocorra a estereotipia que pode paralisar o grupo. 3.3 OFICINAS EM DINÂMICA DE GRUPO: Uma sugestão de método de trabalho com grupos. Iremos apresentar, agora, um conteúdo mais prático sobre uma forma de se realizar atividades em grupos em instituições em geral. Este método foi desenvolvido pela Psicóloga Lúcia Afonso entre os anos de 1998 DICAS Existem várias outras contribuições teóricas que explicam de outras maneiras o processo grupal, utilize as referências, no final do texto, e faça uma pesquisa. ATIVIDADES Vamos utilizar novamente o quadro 1 do início do tópico. 1) Podemos perceber uma forma de atuação estereotipada do líder. Descreva-a. 2) Como um facilitador poderia contribuir para a mudança de comportamento do líder e de organização do grupo? 62 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período PARA REFLETIR Trecho retirado do livro de José Bleger – Temas de psicologia: entrevista e grupos – 2º Ed. 1998. p. 65-66 A organização do ensino em grupos operativos exige que se desarmem e se rompam uma série de estereótipos, que se vêm repetindo e que servem como defesas da ansiedade, mas que paralisam o processo dialético de ensino e aprendizagem. Não se deve fomentar nenhuma imagem falsa, nem de professores nem de estudantes, e deve-se transmitir a informação no nível em que ela se encontre, sem deixar de apresentar os fatos duvidosos, contraditórios ou não resolvidos. Grande parte da facilitação ou simplificação efetuadas com finalidades didáticas, como ocorre na maior parte dos textos, administram a informação como alimento pré-digerido e servem para encher cabeças mas não para formá-las. Os sistemas educativos e pedagógicos são, por outro lado, instituições que se modelam na luta de interesses de classes sociais, e os métodos antiquados de ensino são instrumentos de bloqueio e controle que, nesse sentido, preenchem amplamente seus objetivos políticos, sociais e ideológicos. E como se transmitem aos estudantes os instrumentos de problematização e indagação? Só existe uma forma de fazê-lo, é empregá-los, transformando os estudantes de receptores passivos em co-autores dos resultados, conseguindo que utilizem, que “se encarreguem” de suas potencialidades como seres humanos. Em outros termos: deve-se energizar ou dinamizar as capacidades dos estudantes, assim como as do corpo docente. e 1999 no Laboratório de Grupo da Universidade Federal de Minas Gerais. Grande parte do embasamento teórico utilizado pela autora foi apresentada no tópico anterior, foi a partir daquelas concepções que o método foi desenvolvido. 3.3.1 O que são oficinas? Afonso (2006), define oficina como um método de intervenção psicossocial que procura elaborar uma interrelação entre cultura e subjetivi- dade. Como intervenção psicossocial, a Oficina tem uma dimensão ou potencialidade terapêutica, na medida em que facilita o insight e a elaboração sobre questões subjetivas, interpessoais e sociais. Também tem uma dimensão ou potencialidade pedagógica, na medida em que deslancha um processo de aprendizagem, a partir da reflexão sobre a experiência. Possibilita uma elaboração do conhecimento desenvolvido sobre o mundo e do sujeito no mundo, portanto, sobre si mesmo. (AFONSO, 2006, p. 34) A afirmação da autora remete a alguns dos teóricos que vimos anteriormente. Vamos relembrar a concepção de crescimento em “K” e evolução em “O” apresentados por Bion. Neste caso, a condução de uma oficina produz essas duas dimensões, ou seja, a de aprendizagem cognitiva, sem ser uma sala de aula e a de mudança de comportamento, sem ser terapia de grupo. Desta forma, cabe ao coordenador, entender a existênciade uma tarefa externa e uma tarefa interna tal como nos explicou Pichon e assim efetuar interpretações e questionamentos que levem o grupo a conhe- Figura 22: Grupo de pessoas participando de uma dinâmica de grupo Fonte: pedagogiaemprocesso.blogspot.com/2007/11/dina... 63 Psicologia Social UAB/Unimontes C F E A B GGLOSSÁRIO Dinâmica de grupo: a expressão é utilizada em dois sentidos. Refere-se a uma técnica lúdica, conforme observamos na foto abaixo e, em alguns casos, designa o acontecer grupal, ou seja, todo o processo grupal com suas especificidades. É com este sentido que Lúcia Afonso utiliza a expressão no método Oficinas em dinâmica de grupo. Fonte: Afonso (2006) Insight: capacidade que o ser humano possui de avaliar criticamente seu estado mental com os “olhos da mente”, sejam eles os do próprio indivíduo ou os de terceiros. Fonte: Sims (2006) citado por Fontenelle (2010) cer as questões inconscientes ali presentes e assim construir com efetiva aprendizagem e transformação de condutas o foco definido. Afonso (2006), deixa claro que nas oficinas nos deparamos com um diferencial que é o limite de tempo, o que exige preparo do coordenador para que as questões interpretadas estejam focadas na proposta da oficina e não ampliem para questões muito pessoais de cada participante já que não se terá tempo para a elaboração necessária. Ao coordenador cabe uma postura de facilitador e não de detentor de todas as respostas e soluções, já que o processo de aprendizagem deve ser estimulado nos participantes. Vamos falar mais sobre o papel do coordena- dor mais adiante. Agora, vamos seguir os passos para a construção de uma oficina, abordando os seguintes temas: demanda, pré-análise da demanda, planejamento, coordenação, comunicação e processos grupais. 3.3.2 Demanda O primeiro passo para a organização de uma oficina é que esta seja demandada pelo grupo, ou seja, as pessoas precisam requerer algum tipo de intervenção visando algum interesse próprio. No entanto, em se tratando de atividades realizadas em escolas, empresas, hospitais, comunidades, etc a demanda não costuma aparecer de forma clara e definida. Nestes casos, o profissional deve ficar atento à existência de fatores sociais, culturais, subjeti- vos que chegam até ele. Por exemplo: Numa escola começam a surgir várias exigências de pais solicitando mais rigor com os filhos adolescentes em sala de aula. Podemos observar uma demanda sendo apresentada, ou seja, a necessidade de trabalhar a relação pai/adolescente. No entanto, o profissio- nal deve passar para um segundo passo, a partir da observação de vários eventos que acontecem a sua volta, que sinalizam necessidades de interven- ção, permitindo-lhe entender a demanda. 3.3.3 Pré-análise da demanda Para o profissional ter subsídios para compreender as questões decorrentes das demandas, é importante realizar a pré-análise da demanda. Trata-se de uma pesquisa sobre o tema, levantar dados sobre o problema apresentado, assim será possível um maior entendimento das variáveis ali envolvidas. Essa postura é indispensável, não podemos correr o risco de realizar intervenções com conhecimentos precários ou apoiados apenas no senso comum, isso restringe o trabalho e ainda podemos correr o risco de alimentar ideologias, preconceitos e estereótipos prejudiciais para o grupo. Algumas perguntas podem nortear a pré-análise, quais fatores sociais interferem no tema? Como outras pessoas sentiram e resolveram problemas similares? Quais as questões emocionais envolvidas? 64 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período No caso de uma oficina com pais sobre a relação pais e filhos adolescentes, pode-se, através de uma pesquisa, conhecer alguns temas relacionados como sexualidade, drogas, disciplina, etc. Esses são chamados de temas geradores, ou seja, são assuntos relacionados ao foco da oficina que começam a ser levantados na pré-análise da demanda e são confirma- dos ou não com o contato com os participantes do grupo. São subtemas que juntos compõem o tema central da oficina: 3.3.4 Planejamento A oficina deve ser planejada e focada na demanda, seu planeja- mento precisa seguir os interesses do grupo e não dos coordenadores. Como, geralmente, são organizadas dentro de Instituições com suas regras e normas, é importante traçar alguns limites de tempo, de horário, de local. No entanto, a ordem dos temas, a duração das discussões de cada tema gerador deve ser orientada a partir das necessidades do grupo. Por isso, Afonso (2006) enfatiza a importância de o planejamento ser flexível. Foco Foco é o tema amplo da oficina, a partir dele desdobram-se os temas geradores que foram levantados na pré-análise, os quais serão discuti- dos com o grupo no momento do enquadre. Os temas-geradores podem ser trabalhados por encontro e devem ser apresentados de forma adequada à linguagem do grupo, e como são temas vivenciados por eles, é necessário que os participantes consigam enxergar o seu cotidiano nas questões colocadas, já que é este o objetivo de uma oficina. Devem-se evitar nomes técnicos e abusar de atividades lúdicas e outras técnicas que facilitem a compreensão dos participantes como dinâmicas, jogos vivências, filmes, etc. Enquadre Por enquadre entendem-se os critérios de participação e a organi- zação das oficinas. Implicam na definição de horário, local, perfil dos Figura 23: Grupo de pessoas Fonte: www.plurivalor.com/.../mode/item/products_id/504 65 Psicologia Social UAB/Unimontes participantes, recursos disponíveis, duração da oficina. Nesta fase alguns fatores devem ser ponderados. O local precisa oferecer as condições necessárias para o grupo se sentir livre para conversar e participar das atividades sugeridas. É necessário privacidade. Supondo que será organi- zada uma oficina para grupos de idosos, as condições mínimas de confor- to para esse público precisam ser consideradas, isto é, marcar encontros no 7º andar de um prédio sem elevador irá inviabilizar a proposta. É possível organizar o planejamento global ou efetuar o planeja- mento de forma gradativa, ambos apresentam vantagem e desvantagens. O planejamento global permite uma visão maior do que será feito, mas corre o risco dificultar a flexibilidade necessária, o planejamento parcial permite maior flexibilidade e conhecimento com o grupo, mas pode resultar numa visão fragmentada do trabalho. Isso depende de cada coordenador, de qualquer forma, esse planejamento estará sendo revisto em função das especificidades do grupo. No primeiro encontro, que deve ser aberto para a escuta dos interesses e expectativas do grupo, se faz também o contrato, ou seja, estabelecem regras e combinações como: horário, local, sigilo, participa- ção livre, dentre outros fatores relevantes que dependerão de cada planejamento. No planejamento será definido o número e a duração dos encontros, em cada encontro será trabalhado um tema gerador e será organizado em três momentos de forma a facilitar o envolvimento dos participantes. 1- Aquecimento/relaxamento. É o momento em que se prepara o grupo para a concentração nos trabalhos do dia, permitindo que eles estejam abertos para as próximas atividades. Pode-se utilizar uma técnica de relaxamento, de aquecimento ou uma conversa inicial sobre os trabalhos do dia. São utilizados entre 10 a 15 minutos. 2- Reflexão e elaboração do tema trabalhado. Nesse momento será utilizada alguma atividade para sensibilizar o grupo sobre o assunto a ser tratado. Aqui, utiliza-se dos procedimentos para aplicação de técnicas de grupo: ?num primeiro momento, aplica-se o recurso escolhido, dinâmica, vivência, jogo, texto reflexivo sobre o tema que permita a sensibilização e a reflexão; ?depois, abre-se espaço para osparticipantes dizerem seus sentimentos, reflexões e ideias, proporcionadas pela atividade; ?estimula-se o grupo a estender aquelas reflexões para situações do dia a dia e a compartilhar experiências sobre o tema levanta- do; ?momento de exposição de informações sobre o tema, comparando teorias com as práticas compartilhadas; 66 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 3- e por último, realiza-se a organização dos temas tratados e a avaliação do trabalho realizado. Isso facilita ao grupo apropriar-se das discussões e apresentar sugestões para os próximos encontros. A organização destes momentos em cada encontro também é flexível, a partir de observações do coordenador sobre o grupo e dos impre- vistos que podem acontecer no desenvolver das atividades, ele pode optar por não fazer a fase de aquecimento, por exemplo, ou a encurtar um momento que acabou acontecendo simultaneamente a outro, etc. Vamos apresentar, abaixo, um relato resumido de uma oficina organizada pelo Laboratório de Grupo da UFMG. “OH! PEDAÇO DE MIM, OH! METADE ARRANCADA DE MIM...” OFICINA SOBRE QUESTÕES ÉTNICAS, COM ADOLESCENTES NEGRAS, EM UMA ESCOLA PÚBLICA. Stefânie Arca Garrido Loureiro Betânia Diniz Gonçalves Katin Ellen Von Smigay Maria Lúcia M. Afonso O diretor de uma escola pública procurou a professora Stefânie, aluna do curso de psicologia, pedindo sua inter- venção no caso de agressão física de uma aluna branca por um grupo de seis alunas negras. Após conversar com as alunas ouviu a seguinte história: A aluna branca passeava de braços dados com um colega de classe, quando as meninas negras “mexeram” com ele. Ele reagiu chamando-as de “negras chulezentas”. As alunas negras entre 13 e 14 anos bateram na menina que o acompanhava. A direção pensou em suspendê-las das aulas, mas a professora Stefânie percebeu que não se tratava de indisciplina, mas de um conflito de classes sociais e étnicas. Então, sugeriu-se planejar oficinas para traba- lhar com a seis alunas. Elas demonstraram bastante interesse. Os encontros foram marcados para acontecer uma vez por semana durante uma hora e meia. Os objetivos definidos para a oficina foram: ?“Criar espaço de confiança, em que as alunas pudessem expressar seus conflitos, disputas, fantasias e autoimagem. ?Trabalhar a identidade psicossocial fragilizada, sobretudo pelo forte estigma, ligado à cor da pele e condição social, vivido pelas adoles- Figura 24: Crianças brincando Fonte: alunosonline.com.br/sociologia/racismo/ 67 Psicologia Social UAB/Unimontes centes e expressado nos discursos do próprio grupo. ?Oferecer condições propícias para a desconstrução e recons- trução de algumas representações sociais, especialmente ligadas ao estigma. ?Facilitar o reconhecimento e a elaboração psíquica das condições de surgimento do estigma, para que se pudesse pensar e operar nele.” O método de oficinas em dinâmica de grupo busca organizar alguns encontros focalizados num tema central que será tratado de forma racional e afetiva para que os participantes possam elaborar suas vivências dentro e fora do ambiente institucional. As primeiras reuniões visaram o fortalecimento dos laços entre as participantes para isso utilizou-se de técnicas que estimulassem o falar de si próprio e do outro. De forma geral, pode-se perceber a influência de aspectos ideológicos e emocionais relacionadas ao estigma em ser negras. Vejamos algumas falas ditas: “Aluna L: “Eu não gosto de nada em mim, eu não gosto do meu cabelo, da minha pele, dos meus dentes, da minha cor, da minha unha, do meu pé. Quero ser branca.” “Eu não cuido de mim hora nenhuma. Olha aqui, (apontou o relógio desenhado na técnica “relógio do cotidiano”), acordo, arrumo casa, vou para a escola... só na hora em que vou tomar banho para dormir. Cuido de mim, tomando banho”. As intervenções foram realizadas visando uma desconstrução das representações que as meninas tinham sobre si próprias, assim foram pensadas estratégias para incentivar a construção de novas representa- ções. No terceiro encontro, percebeu-se, um pouco, como o contex- to social e doméstico das meninas contribuíram para a postura ali revela- da. Algumas disseram serem ofendidas constantemente pela mãe, como sendo chamadas de macacas e uma revelou que era espancada. A coordenadora do grupo teve como estratégia levar outra aluna da escola que era negra e trabalhava num escritório de contabilidade para conversar com o grupo. O efeito foi bastante positivo, as participantes ficaram muito interessadas na forma de vida daquela garota e ficaram curiosas com as trançinhas de seu cabelo. No próximo encontro foram levadas revistas direcionadas para negros e as participantes folheavam e faziam comentários positivos e negativos. ATIVIDADES A partir do relato da oficina “Oh! Pedaço de mim, oh! Metade arrancada de mim...”, aponte a demanda que motivou a realização da oficina e quais os pontos a serem investigados na análise da demanda. Por que esta análise é necessária? 68 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período A partir de então se pode observar uma mudança nas falas das meninas que saíram da posição ser negro é ruim e começaram a perceber pontos positivos. Percebeu o início de uma ambivalência num espaço onde havia apenas um estigma negativo. Após sete encontros, o grupo foi encerrado devido à chegada das férias, mas os resultados foram efetivos em termos de propiciar mudança de ponto de vista e questionamentos para as participantes, a respeito do negro e de si próprias. Houve uma boa repercussão na escola, pois mudanças de comportamentos foram observadas em sala de aula. Livro: Oficinas em dinâmica de Grupo: Um método de intervenção psicossocial. pp. 129-135 DICAS As técnicas são retiradas de livros especializados em dinâmicas, vivências e jogos. Outras técnicas são bastante utilizadas como palestras interativas, depoimentos, filmes. A escolha da técnica depende do objetivo do encontro, da necessidade e da criatividade dos coordenadores do grupo. Segue, abaixo, duas sugestões de livros: MILITÃO, Rose; MILITÃO, Albigenor. Jogos, Dinâmicas e Vivências grupais. Rio de Janeiro: Qualitymark editora, 2000. KIRB, Andy. 150 jogos de treinamento. São Paulo: T&D Editora, 1995. Afonso (2006) sugere que organizemos os encontros em fichas para a elaboração do relatório da oficina. Segue um exemplo. Programação do encontro nº 02 Grupo: Data: Coordenadores: Temática trabalhada: Como me vejo (autoimagem) Objetivos Técnicas Pontos enfatizados na discussão. Aquecimento, criar um clima de trabalho. (nome da técnica) Facilitar para que as participantes falem de si próprias, da sua relação com os outros. (nome da técnica) (o que foi discutido no grupo) Levar informações sobre autoestima. (nome da técnica) (o que foi levado para o grupo e avaliação) Tabela 1: Ficha de programação dos encontros Fonte: Acervo Pessoal 3.3.5 O acontecer da oficina Neste ponto, iremos abordar quais os principais processos a serem observados e analisados no desenvolver de uma oficina. Afonso (2006) apresenta-nos os seguintes pontos principais: o papel do coordenador, fases e processos grupais e a técnica como linguagem. A coordenação da Oficina O coordenador de uma oficina precisa, em primeiro lugar, conhe- cer as bases teóricas que explicam os processos grupais, em segundo precisa desenvolver uma atenção flutuante, ou seja, perceber o grupo e os processos conscientes e inconscientes que ali acontecem. A partir de suas percepções passará a desenvolver o papel de facilitador, respeitar o tempo e as necessi- dades dogrupo, e nunca impor ou decidir por ele. C F E A B GGLOSSÁRIO Bode expiatório: Aquele para o qual são atribuídas todas as responsabilidades pelas dificuldades do grupo. A expressão é originada do Oriente Médio que, por tradição, enviava um bode carregado de oferendas para o deserto com o objetivo de expiar os pecados do povo judeu. Figura 25: Bode expiatório Fonte: passandoaregua.wordpress. com/2009/09/13/ 69 Psicologia Social UAB/Unimontes Conforme nos assinala Pichon Riviere, cabe ao coordenador facilitar a resolução da tarefa interna (afetiva, inconsciente) para que o grupo consiga realizar a sua tarefa externa (explícita e consciente). Logo no início, os participantes, ainda sem interação, buscarão formas de se conhecerem, cabendo ao coordenador o papel de acolhimento e de incentivador da formação da identidade grupal. Para isso, deve estar atento aos processos inconscientes, como as angústias de aproximação que podem aparecer. Alguns acontecimentos são comuns como: grande dispersão ou coesão, disputa pela liderança, surgimento de bodes-expiatórios, dificulda- des dos membros se expressarem e dizerem seus sentimentos ou ideias e predomínio de uma confusão na forma de organização do grupo. O coorde- nador tem o papel de facilitar a compreensão destes fenômenos, levando técnicas e fazendo intervenções que permitam ao grupo refletir, compreen- der suas angústias e realizar sua própria organização. A atuação interventiva do coordenador, numa oficina, é limitada pelo foco central da oficina. Sabemos que conforme nos apresenta Bion, também a oficina possui uma potencialidade pedagógica e uma potenciali- dade terapêutica que favoreça o crescimento em “k” e a evolução em “O”. No entanto, as ações do coordenador devem girar em torno da tarefa a ser desenvolvida, uma vez que não se trata de um grupo terapêutico. Por outro lado, não pode estar centrado, apenas, nas questões cognitivas e racionais visando à aprendizagem sobre o tema proposto, relacionando com as vivencias emocionais dos participantes. Todos os teóricos da Psicologia Grupal acreditam que as mudanças de atitude e comportamentos somente serão estabelecidas se o sujeito puder refletir com a razão e com a emoção. Por isso, é necessário um coordenador preparado que não estimule em excesso as angústias dos participantes, uma vez que não haverá tempo e nem condições terapêuticas de elaborá-las, mas que não fique apenas no nível da intelectualização. Com relação às transferências estabelecidas entre os participantes e o coordenador ou entre eles próprios, serão devidamente interpretadas caso estejam ligadas a não realização da tarefa, como afirma Afonso (2006), “uma boa interpretação é aquela que pode ser “ouvida” e entendida pelos partici- pantes”, ou seja, é aquela que o sujeito esteja preparado para entender do que se trata. Em muitas ocasiões, o coordenador pode observar questões emocionais visíveis em certo comportamento, ou então perceber que o participante não está preparado para lidar com uma interpretação, naquele momento. As fases do grupo Conforme nos apresenta Foulkes, citado por Afonso (2006), o processo de formação de um grupo pode ser entendido em três fases: formação de sentimentos e identidade do grupo; surgimento de diferenças e 70 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período construção de condições de produtividade do grupo e fim do grupo, portan- to, na oficina, verifica-se, também, estas fases que devem ser observadas pelo coordenador. Essas fases não acontecem sempre numa sequência rígida, variam de grupo para grupo, como podem, no mesmo grupo, ir e vir de acordo com as situações vivenciadas. Ao conhecer as fases do processo grupal, o coorde- nador entenderá, também, que as reflexões e discussões devem começar abarcando temas mais fáceis e à medida que o grupo construir uma maior confiança e integração, deve estimular a discussão de temas mais profundos relacionados com o objetivo da oficina. Fase 1- Formação de sentimento e Identidade de grupo: Nos primeiros momentos de formação de uma oficina, predomina a falta de integração entre os membros, por outro lado observa-se uma disponibilidade de conhecimento e identificação. De forma, concreta é onde ocorrem às conversas informais, trocas de informações de maneira superficial. O coordenador deve estimular a integração grupal, sem assumir a função de direção, uma vez que esta fase é marcada por uma forte depen- dência do grupo das instruções do coordenador. É seu papel propor as ações, mas deixar o desenvolvimento das mesmas sob responsabilidade do grupo, desta forma marca a diferença entre ser o sujeito que dá as respostas e o sujeito que sugere as questões para o grupo resolver. Nesta fase, deve-se estimular a troca de experiências, podendo sugerir atividades em duplas ou trios, abrindo para o grupo como todo, num segundo momento. O coordenador também ajuda o grupo na organização e divisão de suas tarefas, já que falta ainda a rede de transferências entre eles. Na medida em que essas redes são construídas e a tarefa exige mais ação, as diferenças entre os participantes começam a intensificar. No caso das oficinas, os limites de tempo e as atividades levadas pelo coordenador aceleram esse processo, que deve ser acompanhado e analisado, de forma que o grupo consiga elaborar as angústias provenientes destas diferenças. Fase 2- Aparecimento de diferenças e construção de condições de produtividade do grupo. Ao integrarmos num grupo, buscamos um espaço onde possamos nos identificar com ideias, normas e emoções semelhantes, mas também buscamos ser reconhecidos por nossas especificidades. Esta ambivalência inerente ao nosso processo de construção de identidade é que leva ao aparecimento das diferenças no grupo. A metáfora, a seguir, exemplifica as dificuldades de equilibrar nossas necessidades em grupo. A formação de nossa identidade é um processo sempre ambivalente, queremos ser iguais, mas queremos ser diferentes. 71 Psicologia Social UAB/Unimontes Fábula da Convivência (autor desconhecido) Durante uma glaciação muito remota, quando parte do globo terrestre estava coberto por densas camadas de gelo, muitos animais não resistiram ao frio intenso e morreram, indefesos, por não se adaptarem às condições do clima hostil. Foi então, que uma grande vara de porcos-espinhos, numa tentativa de se proteger e sobreviver, começou a se unir, e juntar-se mais e mais. Assim, cada um podia sentir o calor do corpo do outro e, juntos, bem unidos agasalhavam-se mutuamente, aqueciam-se, enfrentando por mais tempo aquele inverno tenebroso. Porém, vida ingrata, os espinhos de cada um começaram a ferir o companheiros mais próximos, justamente aqueles que lhes forneciam mais calor, aquele calor vital, questão de vida ou morte. Afastaram-se feridos, magoados, sofridos. Dispersaram-se por não suportarem mais tempo os espinhos dos seus semelhantes. Doíam muito… Mas, essa não foi a melhor solução. Afastados, separados, logo começaram a morrer congelados. Os que não morreram voltaram a se aproximar, pouco a pouco, com jeito, com precaução, de tal forma que, unidos, cada qual conservou uma distância do outro, mínima, mas o suficiente para conviver sem ferir, para sobreviver sem magoar, sem causar danos recíprocos. Assim suportaram-se, resistindo à longa era glacial. Sobrevive- ram. Fonte: www.vivercomalma.com.br Figura 26 Fonte: josiasdesouza.folha.blog.uol.com.br/arch2008-... 72 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período Assim como os ouriços da história, no decorrer dos encontros, a realização da tarefa vai exigir cada vez mais reflexões e decisões o que suscita em divergências que podem resultar em conflitos. Os conflitos contribuem para a realização da tarefae para a transformação do grupo, pois permitem o processamento de formas diversas de posicionamento no mundo. É isso que o coordenador vai enfatizar para o grupo, qual o papel positivo destes conflitos e, ao mesmo tempo, pontuar questões afetivas que possam estar impedindo a resolução destes conflitos. Um ponto negativo a ser trabalhado, diz respeito quando os conflitos são sempre os mesmos, o que indica dificul- dades de superação. Propor técnicas que facilitem a comunicação é uma das estratégias mais efetivas, neste momento, pois os mal entendidos são respon- sáveis por grande parte das dificuldades. Nesta fase, o coordenador percebe- rá com nitidez o ECRO – Esquema Conceitual Referencial Operativo do grupo, ou seja, o conjunto de referencias, ideias e formas de agir, conforme Pichon Riviere. Quanto maior a cooperação e melhor a comunicação, melhor também o processo de aprendizagem, a tele, a pertença e a perti- nência do grupo. Fase 3 – Final de Grupo: Elaboração do Luto e Avaliação do processo Grupal Numa oficina o fim é delimitado por um cronograma antecipada- mente comunicado aos participantes e não pelo movimento próprio do grupo. Isso pode dificultar um pouco a elaboração do fim do grupo. De qualquer forma, é importante que o fim seja sinalizado com antecedência para que possíveis sentimentos de insatisfação, melancolia possam ser expostos, inclusive, cabe ao coordenador utilizar técnicas que estimulem esse momento. Além disso, deve levar técnicas que possibilitem a avaliação da oficina e uma retrospectiva dos pontos positivos e negativos que o traba- lho proporcionou ao grupo. 3.4 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS TÉCNICAS É muito comum observarmos profissionais inexperientes que utilizam essas técnicas sem o devido cuidado. As dinâmicas, jogos e outras técnicas não podem ser vistas como brincadeiras ou apenas como uma forma lúdica de apresentar o tema. Elas também têm essa função, mas, além disso, deve estimular a comunicação, a participação de todos os participan- tes e oferecer a possibilidade de metáfora das vivências e experiências dos participantes. Desta forma, suas escolhas devem ser bem estudadas de acordo com os fins que se pretendem atingir. Também não se deve esperar pelo resultado do recurso utilizado, como o jogo, por exemplo, e sim entender a estratégia como forma de estímulo para atuação do grupo e como possibilidade de refletir sobre determinado comportamento ou ideia. O coordenador deve se ater ao 73 Psicologia Social UAB/Unimontes processo da técnica, como o grupo se comporta? Quais os conflitos que surgem? Quais as estratégias de resolução? Quais os papéis assumidos? Qual a dinâmica do grupo? Desta forma, Afonso, 2006, afirma ser a técnica mais uma possibili- dade de linguagem do grupo que diz sobre suas referências, sua forma de sentir e agir. Ela afirma que as técnicas são linguagem e armam uma encenação de relações ou situações a se trabalhar. O processo de tradução entre linguagens – do lúdico ao compreensivo, do poético ao racional – propicia o insight, na medida em que o grupo fala sobre o que encenou, operando no registro da palavra (p. 57). Uma boa condução e coordenação de uma oficina exigem estudo e prática. A experiência proporciona uma percepção mais aguçada dos fenômenos que ajudarão nas intervenções que serão cada vez mais apropri- adas para reflexão do grupo. 3.5 MEDIAÇÃO DE CONFLITOS: uma contribuição para atuação na resolução de conflitos grupais e interpessoais A nossa convivência em grupos sociais nos mostra a inevitável existência dos conflitos. Por isso, achamos de grande valor para pedago- gos, cientistas sociais e outros profissionais, o conhecimen- to sobre a técnica de media- ção de conflitos. A mediação de conflitos ao lado da negocia- ção, da arbitragem e da conciliação surge como uma técnica alternativa de resolver situações de desacordo entre as pessoas. A mediação de conflitos refere-se ao procedimento no qual um terceiro imparcial reúne-se com as pessoas em conflitos e através do diálogo incentiva as partes a expressarem seus pontos de vista e a assumirem a responsabilidade por aquela situação e, assim, permiti-lhes pensar em formas de resolução do problema de maneira satisfatória para eles (SALES, 2004). Temos, nesta definição, uma série de pontos para reflexão, vamos começar pensando sobre a natureza dos conflitos, em seguida falaremos melhor sobre a técnica e encerraremos com sugestões de implantação deste procedimento em uma Instituição escolar. DICAS Para aprofundar melhor neste método, consulte o livro de Lúcia Afonso: “Oficinas em Dinâmica de Grupo: Um método de intervenção psicossocial” citado nas referências. Figura 27: O processo de mediação de conflitos Fonte: ouvidorblog.blogspot.com/2009/05/ 74 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 3.5.1 Conflito: um novo ponto de vista Conforme Sampaio e Neto (2007), pode-se definir conflitos ... como um conjunto de propósitos, métodos ou condutas divergentes, que acabam por acarretar um choque de posições antagônicas, em um momento de divergências entre as pessoas sejam físicas ou jurídicas. O choque de posições citado é fruto da conscientização de que a situação vivenciada pela pessoa a deixa desconfortável e a faz solicitar a outra a possibilidade de mudança. Os conflitos são inerentes às situações de mudança e não vivenciá- los significa se isolar e se acomodar em uma única forma de agir, o que não é possível. À medida que o tempo passa, ingressamos em redes de relaciona- mentos cada vez mais complexas e são os conflitos que permitem a nossa adaptação e a nossa transformação. Observamos, no entanto, formas diferentes das pessoas lidarem com situações conflituosas, desde violência até o diálogo aberto. Essas atuações variam em função da influência de infinitas variáveis como cultura, idade, meio social, religião, etc. De qualquer forma, a mediação de conflitos procura fazer com que as pessoas em situações conflituosas, procurem entender os conflitos como uma possibilidade de mudança e para isso contam com uma terceira pessoa, imparcial, chamada de mediador. 3.5.2 A Mediação de Conflitos Ao mediador não basta entender o conflito em si, é necessário compreender os interesses e as emoções presentes entre as partes envolvi- das na situação como um todo. A sua atuação não é a de opinar ou propor, mas a de incentivar a reflexão, tal como a do facilitador de grupo. O objetivo é que as partes estabeleçam um acordo, através da discussão sobre o problema, e saiam satisfeitas pela forma como foi realizado. Para início de conversa, é necessário que haja uma preparação formal do mediador, ele precisa conhecer os principais princípios deste procedimento. Atualmente, existem cursos a distância, cursos presenciais e outras capacitações oferecidas nas diversas regiões do país. Vamos indicar nas referências alguns sites para os interessados. De acordo com Sampaio e Neto (2007), os principais norteadores da mediação são: autonomia da vontade das partes; imparcialidade; independência; credibilidade; competência; confidencialidade, diligência e acolhimento das emoções dos mediados. 75 Psicologia Social UAB/Unimontes O processo de mediação será iniciado a partir da vontade das pessoas interessadas, cabe a elas a autonomia de procurar algum serviço que presta o atendimento ou alguma pessoa que possui capacitação para o processo. O mediador deve ser imparcial diante do conflito, ou seja, ele não poderá ter nenhum interesse particular em face de alguma solução prevista, pois o processo deve acontecer com o papel ativo das partes, de forma que a qualquer momento uma das partes ou ambas serão independentes para desistir do processo. O mediador deve ter competência e compreensãodos objetivos do processo de mediação de conflitos, pois não se trata de opinar ou decidir pelas partes, mas de facilitar o diálogo e para isso deve realizar pequenas intervenções que facilitem para as partes o entendimento de seus interesses e emoções sobre o problema discutido. Os aspectos tratados na mediação, assim como os documentos elaborados ou mostrados serão mantidos sob sigilo, respeitando a autonomia das partes. Ao mediador cabe, também, observar e cuidar para que tudo ocorra com qualidade e ética, ou seja, falamos da diligência. E por último, é necessário saber que a maioria dos processos de mediação envolve fortes emoções por parte dos envolvi- dos, sendo comum raiva, tristeza, choro, agressões e outras manifestações de sentimentos que o mediador deverá estar preparado para acolher, entender e às vezes pontuar para que as partes consigam entender melhor a si mesmas ou umas as outras. Percebemos semelhanças do processo de mediação com o processo do trabalho com grupos. Nos dois casos, percebe- mos interesses conscientes e interesses inconscientes levados ao público para um entendimento. O mediador e o facilitador de grupo irão facilitar o diálogo e a transformação da situação a partir do momento que abre espaço para os envolvidos se expressarem e se entenderem, facilitando o conheci- mento do real interesse envolvido no problema que surge, constantemente, como fruto das diferenças e do processo de mudança, permitindo a abertura para novas possibilidades. 3.5.3 A Escola: Algumas possibilidades de Mediação DICAS A Cartilha Escola de Mediadores é disponibilizada pelo Ministério da Justiça - Programa Escolas da Paz. Figura 28: Por uma cultura de paz nas escolas Fonte: unida.org.ar/boletin/imagenesok/u_paz.gif 76 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período A escola é palco constante de conflitos envolvendo todos os atores ali presentes e as relações entre eles, alunos, professores, corpo administrati- vo, pais, etc. É comum, notícias de violência dentro da escola, principalmen- te entre os alunos e entre alunos e professores, por isso, observa-se várias iniciativas de implantação da mediação de conflitos dentro das escolas. Sales (2004), afirma que essas iniciativas ainda são pequenas no Brasil, ela cita o exemplo de um projeto desenvolvido no Rio de Janeiro em 2000 em parceria com o Instituto NOOS, Viva Rio – Balcão de Direitos, Mediare e Secretaria Municipal de Educação. A iniciativa foi do Ministério da Justiça que tinha como meta incluir nas escolas uma cultura de paz e assim modificar o quadro de violência existente em algumas escolas do Rio. O projeto envolveu os alunos, os professores e os pais que foram capacitados com cursos sobre mediação de conflitos e passaram a criar estratégias de divulgação para que todos conhecessem essa nova forma de encarar os conflitos dentro da escola. Como um dos resultados, elaborou-se uma Cartilha Escola de Mediadores que disponibiliza informações sobre o processo e sobre sua implantação em instituições escolares. Para Sales (2004), A mediação possibilita a discussão dos problemas sob uma perspectiva que favorece a responsabilidade das partes, ou seja, oferece aos conflitantes a oportunidade e a possibilida- de de solucionarem a controvérsia de maneira que ambas as partes se sintam responsáveis pelo cumprimento do acordo, já que fora realizado por elas próprias. A mediação facilita assim o diálogo entre as partes e cria um sentimento de cooperação, possibilitando que as divergências sejam resolvidas da forma mais adequada à realidade de cada um. Para a implantação da mediação nas escolas é necessário a atuação de profissionais habilitados que possam pensar em estratégias, em conjunto com outros envolvidos, para abarcar as diversas possibilidades de mediação que acontecem nas escolas. Existem vários procedimentos diferentes sendo utilizados pelos mediadores em todo país. Vamos citar alguns direcionamentos utilizados pelo Programa Mediação de Conflitos de competência da Secretaria da Defesa Social do Governo de Minas Gerais. Esse programa, objetiva contri- buir para a construção de uma cultura de paz dentro de bairros e comunida- des conhecidas pelo alto índice de criminalidade e violência. O programa atua em duas vertentes: Mediação de conflitos – Comunitária: Trata-se da realização de diagnóstico social e realização de intervenções, por meio de projetos coletivos, com a parceria das associações e instituições da região para atender as demandas trazidas pelos moradores do local. Implica na constru- ção de uma rede social envolvendo escolas, instituições de saúde, empresas, 77 Psicologia Social UAB/Unimontes associações de moradores de bairro a fim de que juntos criem estratégias para conhecer a comunidade e para intervir nas problemáticas observadas. Mediação de conflitos – Atendimento: O programa disponibiliza espaço apropriado para o atendimento individual às pessoas do bairro ou da região, onde o programa está instalado. Os atendimentos são realizados em dupla por profissionais e estagiários capacitados da área da Psicologia e do Direito, pode ser realizado apenas para orientação ou para a mediação. A procura acontece, geralmente, pelas partes separadas, uma das pessoas, ou várias pessoas, com o mesmo interesse, comparecem ao Programa com um conflito que as incomodam. Elas são esclarecidas sobre os procedimentos, são repassadas informações legais de acordo com a problemática levantada. Caso elas concordem em participar da mediação uma carta convite é enviada ao segundo envolvido. Ou quando o segundo envolvido comparece ao programa é explicado o procedimento e, na oportunidade, fala-se sobre o conflito apresentado pelo primeiro envolvido. Em alguns casos são neces- sários vários encontros com apenas uma das partes, isso porque se faz necessário que as partes entendam bem sobre o método e sobre o conflito para que possam decidir como participar. A participação é voluntária e a pessoa pode desistir a qualquer tempo do processo. Sendo do interesse de ambas as partes, o processo de mediação é iniciado. Não existe um limite de sessões, às vezes um encontro é o suficien- te, outras vezes são necessários vários encontros entre as partes. O mediador deve perceber se o melhor é encerrar a sessão ou prorrogar um pouco, dependendo do desgaste emocional e da disponibilidade dos envolvidos. Os interessados são convidados a expor o problema e a conversarem entre si. Antes é feito um enquadre onde se explica, novamente, o procedimento e fala-se da necessidade de cada um respeitar a fala do outro, evitar agressões verbais e físicas. Ao mediador cabe: incentivar o diálogo, acolher a emoção das pessoas envolvidas, compreender os interesses implícitos na situação, realizar intervenções apropriadas para o entendimento dos interesses levados pelos envolvidos. Ele nunca deve: falar a sua opinião sobre o proble- ma, tomar partido de uma das partes, demonstrar impaciência, impor um limite de tempo para a solução, deixar as partes constrangidas. Desta forma, as partes irão se responsabilizar pelas decisões ali tomadas e será mais viável o cumprimento do combinado. Os principais problemas levados para o Programa Mediação de Conflitos do Governo de Minas Gerais são pensão de alimentos, separação, conflitos familiares, conflitos entre vizinhos, dentre outros. Ressaltamos que o processo de mediação assume uma função preventiva, na medida em que as partes conhecem uma nova forma de resolução de conflitos e passam a adotá-la para outras situações pessoais, desta forma, auxiliando pessoas próximas. 1) Cite dois exemplos de conflitos que você vivenciou como aluno ou como profissional dentro da escola. 2) Pense em duas ações que poderiam ser realizadas, dentro da escola, utilizando o processode mediação de conflitos para resolver os conflitos citados na questão ATIVIDADES 78 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período 3.6 CONCLUSÃO Existem muitas semelhanças entre o trabalho do facilitador de grupo e o mediador de conflitos, por isso, a literatura sobre esses dois temas pode auxiliar na capacitação para a condução de grupos nas escolas e em outras instituições. Estamos a todo tempo tendo que nos adaptar a novas situações e condições o que exige constante transformação. Estas exigências aparecem principalmente da necessidade de mantermos relações pessoais e profissio- nais com pessoas que pensam e agem de forma diferente de nós. Muitas conquistas e avanços deixam de acontecer porque desistimos de mudar e de aprender formas novas de pensamento e de ação. O trabalho com grupos permite, por meio da figura do facilitador ou mediador, momentos para repensar essa convivência, indo além da tarefa pré-estabelecida. Esperamos ter suscitado a curiosidade e o interesse de vocês para que busquem nas referências sugeridas e em outros meios, mais informações e conhecimentos sobre o trabalho com grupos e a mediação de conflitos. Várias ações efetivas podem ser planejadas a partir da teoria aqui apresenta- da. ATIVIDADES Elabore um relatório associando as suas observações com a do grupo e com a teoria apresentada, neste caderno, e com outras fontes. Explique os fenômenos observados com os conceitos aprendidos. Boa sorte! REFERÊNCIAS AFONSO, Maria Lúcia M.(Org). Oficinas em dinâmicas de grupo: Um método de intervenção psicossocial. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. BLEGER, Jose. Temas de Psicologia: Entrevista e Grupos. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. CARLOS, Sérgio Antônio. O Processo Grupal. In: JACQUES, M. G. C. et al. (Orgs.). Psicologia social contemporânea. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2007. p.199-206. FONTENELLE, Júlia M. et al. O conceito do insight em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo. Rev. Brás. Psiquiatr., São Paulo, v.32, n.1, mar. de 2010. LANE, Sílvia T.; SAWAIA, Bader B. Novas veredas em psicologia social. São Paulo: Brasiliense: EDUC, 1995. LANE, Silvia Tatiane Maurer. O processo Grupal. In: Psicologia Social: O homem em movimento. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.78-98. LANE, Silvia; CODO, Wanderley. (Orgs.). Psicologia Social: o homem em movimento. 13. ed. São Paulo: Brasiliense, 1985. 79 Psicologia Social UAB/Unimontes OSORIO, Luiz Carlos. Psicologia Grupal: Uma nova disciplina para o avento de uma era. Porto Alegre: Artmed, 2003. PEREIRA, William Cesar Castilho. Dinâmica de grupos populares. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 2005 PICHON-RIVIERE, Enrique. O processo grupal. São Paulo: Martins Fontes, 1998. ROUDINESCO, E., PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. SALES, Lilia Maia de Morais. Mediação de conflitos escolares: uma proposta para a construção de uma nova mentalidade nas escolas. Pensar Fortaleza, v.9, n.9, p. 89-96, fev. 2004. SAMPAIO, Lia Regina Castaldi; NETO, Adolfo Braga. O que é Mediação de Conflitos. São Paulo: Brasiliense, 2007. (Coleção Primeiros Passos; v. 325). http://www.mediadoresdeconflitos.pt/ http://www.institutoelo.org.br http://www.itsbrasil.org.br/.../ead-direitos-humanos-e-mediação-de- conflitos http://www.mediarconflitos.blogspot.com/ 81 RESUMO Chegamos ao final da disciplina. Gostaríamos, aqui, de recapitular alguns temas que foram apresentados, neste caderno, e que servirão de base para um estudo mais aprofundado e para discussões posteriores. Aprende- mos, nesta disciplina, que: ?A Psicologia Social é uma ciência que estuda as interações sociais e os fenômenos da sociedade que impactam na subjetividade. Apesar de estar muito vinculada à Psicologia, a Psicologia Social também recebeu grandes contribuições da Sociologia, desde seu início. Por este motivo, podemos falar de uma Psicologia Social de tendência psicológica e uma Psicologia Social de tendência sociológica. ?A Psicologia Social Moderna é uma ciência norte-americana, embora tenha raízes europeias. A Segunda Guerra Mundial teve um papel fundamental no surgimento e na consolidação desta disciplina. ?A Psicologia das Multidões ou das Massas foi um dos temas pioneiros da Psicologia Social. ?Existem diferentes teorias da Psicologia Social que embasam a compreensão dos fenômenos sociais e as possíveis intervenções visando uma mudança da sociedade. Entre estas abordagens teóricas e metodológi- cas temos: Teoria Sócio-Histórica, Escola de Chicago, Escola de Frankfurt, Fenomenologia Social, entre outras. ?A Psicologia Social, no Brasil, a partir da década de 1960, superou uma postura individualista e experimental e dedicou-se a enfrentar temas de nossa realidade local. A Teoria Sócio-Histórica tem grande divulgação no Brasil e tem contribuído para uma compreensão mais crítica de nossa realidade, além de fundamentado inúmeras pesquisas e interven- ções. ?A Psicologia Social utiliza de várias categorias teóricas para compreensão dos fenômenos sociais. Entre as categorias mais utilizadas atualmente, marcadas por uma postura crítica, temos as seguintes: ideolo- gia, identidade, representação social, gênero, entre outras. ?A Ideologia constitui um conjunto simbólico de processos pelos quais uma classe dominante busca fazer com que suas ideias sejam apropria- das pela sociedade, ou pelo menos pelos grupos dominados. A ideologia pode ser utilizada para criar ou manter relações de poder e podem ser utilizadas várias estratégias. 82 Pedagogia Caderno Didático - 4º Período ?As Representações Sociais constituem um grupo de saberes populares, construídos e compartilhados socialmente, utilizados para ajudar na compreensão dos fenômenos sociais e, muitas vezes, orientar nossas ações. Apresentamos as funções afetiva, social e cognitiva das Representações Sociais. ?A identidade é o ponto de referência a partir do qual surge o conceito de si e a imagem de si, de caráter mais restrito. Refletimos, também, que a Identidade Social refere-se à parcela de autoconceito proveniente da pertença a um grupo. ?Diferenciamos sexo e gênero. Sexo designando a condição biológica e Gênero, por sua vez, se referindo a um tipo de comportamento, masculino ou feminino, dentro dos padrões convencionais de uma determi- nada cultura. As diferenças construídas entre os gêneros são compartilhadas entre eles, embora cada um, por força da própria ideologia, assume posturas diferentes na manutenção da mesma. ?Entendemos que Grupo é um conjunto de pessoas capazes de se reconhecer em sua singularidade e que estão exercendo uma ação interativa com objetivos compartilhados. Este se diferencia de agrupamento. Discutimos, também, várias teorias que são utilizadas pela Psicologia Social para compreensão dos processos grupais. Entre elas, apresentamos os principais conceitos dos autores Kurt Lewin, Sigmund Freud, Wilfred Bion, Siegmond Heinrih Foulkes, Pichon Riviere. ?Apresentamos, também, as Oficinas de Dinâmica de Grupo que é um método de intervenção psicossocial que procura elaborar uma interrelação entre cultura e subjetividade. Essas oficinas acontecem como intervenção psicossocial e têm uma dimensão ou potencialidade terapêutica e uma dimensão ou potencialidade pedagógica. ?Finalizamos, discutindo um pouco sobre a Mediação de Conflitos que, ao lado da negociação, da arbitragem e da conciliação, surge como uma técnica alternativa de resolver situações de desacordo entre as pessoas. Fizemos algumas considerações sobre a utilização da Mediação de Conflitos, no contexto escolar, buscando facilitar uma reflexão e aplicação desta técnica. Esperamos que todos estes temas possam contribuir para a constru- ção de um percurso profissional mais éticoe engajado com a realidade social, além de propriciarem uma postura crítica, que considere ao mesmo tempo nossa subjetividade e nossa história pessoal, bem como a realidade que está diante de nós, que pode contribuir diretamente com nossa realiza- ção pessoal e com o crescimento profissional. É isto que desejamos a vocês. 83 REFERÊNCIAS BÁSICAS AFONSO, Maria Lúcia M.(Org). Oficinas em dinâmicas de grupo: Um método de intervenção psicossocial. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. ÁLVARO, J. L.; GARRIDO, A.. Psicología social: perspectivas psicológicas y sociológicas. Madrid: MacGraw Hill, 2003. BOCK, Ana. Mercês Bahia. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2002. FARR, R. As raízes da psicologia social moderna. Petrópolis: Vozes, 1996. JACQUES, M. G. C. et al. (Orgs.). Psicologia social contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2002. LANE, S. T. 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No entanto, quando ela chega ao baile fica bastante constrangida ao perceber que outra pessoa está usando um vestido igual ao dela. Como esta situação pode ser utilizada como metáfora no processo de formação da nossa identidade? Explique. 6) Defina ideologia e pesquise a definição das cinco formas ou estratégias ideológicas discutidas por Thompson, exemplificando com situações ligadas ao campo da educação. 7) A Identificação, conceito psicanalítico, é um dos fenômenos responsáveis pelo estabelecimento da grupalidade. Marque a alternativa que melhor define esse fenômeno. Explique, abaixo, como esse fenômeno pode favore- cer o processo de mudança comportamental no grupo. a) ( )Processo psicológico pelo qual o indivíduo assimila um aspecto, propriedade ou atributo de outrem e se transforma segundo o modelo introjetado. b) ( ) Processo pelo qual o sujeito projeta em outro sujeito desejos que provém dele. c) ( ) Processo que se dá quando o sujeito desloca suas próprias ansiedades para os outros participantes. d) ( ) Trata-se da pulsão dos participantes do grupo. 91 Psicologia Social UAB/Unimontes 8) De acordo com Afonso (2006), a oficina tem uma dimensão pedagógica e uma dimensão terapêutica, no entanto, não deve ser organizada como uma sala de aula tradicional e nem considerada como um processo terapêutico. Como você entende a articulação destas duas dimensões? 9) Como você avalia as diferenças entre os gêneros na atualidade? Cite um exemplo de seu cotidiano que ilustre a sua resposta. 10) Elabore um planejamento de Oficina que envolva 5 encontros com alunos de escolas públicas, partindo de demandas identificadas em sua experiência profissional ou em sua biografia estudantil. Justifique a demanda escolhida.