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MAIKON ANDREW BATISTA DE OLIVEIRA A RITUALÍSTICA MÁGICA DO DIREITO CURITIBA 2013 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ SETOR DE CIÊNCIAS JURÍDICAS FACULDADE DE DIREITO A RITUALISTICA MÁGICA DO DIREITO Monografia apresentada pelo acadêmico Maikon Andrew Batista de Oliveira ao Curso de Graduação da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Direito. Orientadora: Profª. Drª. Katya Isaguirre CURITIBA 2013 “Do what thou wilt shall be the whole of the Law”. (Aleister Crowley) SUMÁRIO INTRODUÇÃO.....................................................................................................................p. 1 CAPÍTULO 1 – O PROCESSO DE ESTABELECIMENTO DO PARADIGMA HEGEMÔNICO DO DIREITO; CONSTRUÇÃO DE UMA RACIONALIDADE..............................................p. 4 1.1) A construção da modernidade e o desencantamento do mundo.............p. 4 1.2) A racionalização da ciência moderna: breves apontamentos..................p. 8 1.3) O estado moderno e a racionalização das leis.........................................p. 11 CAPÍTULO 2 – MAGIA: GÊNESE, ANÁLISE E FUNCIONAMENTO...............................p. 17 2.1) Magia e Ciência: gênese e convergência..................................................p. 17 CAPÍTULO 3 – MAGIA COMO REPRESENTAÇÃO SOCIAL E O PODER SIMBÓLICO EXERCIDO PELO DIREITO: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL.....................................p. 25 3.1) Operadores do Direito e Operadores da Magia, Representação Mítica e o Sagrado...............................................................................................................p. 25 3.2) Ritualística: substrato da eficácia mágica e jurídica...............................p. 30 3.3) A Eficácia Mágica do Direito: Mana e Magia.............................................p. 35 CONCLUSÃO.....................................................................................................................p. 40 BIBLIOGRAFIA..................................................................................................................p. 42 RESUMO O paradigma hegemônico do Direito moderno, caracterizado por seu aspecto legalista e burocrático, bem como por ser o único detentor legítimo do uso da força, pretende-se puramente racional e lógico, como se deixando para trás qualquer fundamentação que não a técnica racionalizada e a razão; única detentora da verdade inserida na lógica científica. Através deste trabalho pretende-se demonstrar como a lógica seguida pelo Direito, seus operadores e seu sistema de pensamento, é aproximada das concepções de magia como descritas por MAUSS, amparadas no poder simbólico tal qual explicado por BOURDIEU. Dessa forma, a crença da racionalidade do Direito torna-se tal qual a crença em um Mito, amparando as escolhas não racionais do Direito e legitimando suas ações a priori. Assim os processos de eficácia jurídica que são naturalizados poderão ser expostos, de tal modo que acreditamos que dessa análise possam surgir resultados interessantes que busquem problematizar a crise paradigmática enfrentada pelo Direito. Palavras-chave: Ritualística, Magia, Poder Simbólico, Eficácia Legal, Crença Jurídica. A quem me ensinou o pleno significado do amor; Alfredo, Gerusa, Matheus e Tabitha, que me suportaram e suportam, nos dois sentidos da expressão. Obrigado por tudo. AGRADECIMENTOS É com muita alegria que chego a essa página de agradecimentos sabendo que ela não se comporá de uma lista pequena, daqueles a quem eu devo “uma obrigação moral de agradecer”. Pelo contrário, ela é composta de nomes e pessoas em que tenho orgulho de dizer aqui: obrigado pela ajuda, obrigado por sua existência junto à minha, obrigado pelo momento em que, podendo servir-se de tudo o mais que o mundo te oferecia, vocês escolheram ficar ao meu lado. Assim, devo agradecer primeiramente aos meus pais (Alfredo e Gerusa), pelo carinho, exemplo e compreensão não apenas nestes dias de produção monográfica, mas pela longa caminhada que acredito estar se encerrando com esta produção. Agradeço também aos familiares, especialmente na figura das tias Rita (a quem tenho carinho como uma mãe), Lidiane e Reginalda que me apoiaram em um dos momentos mais delicados não só de minha jornada acadêmica, mas da minha vida. Tal ajuda foi também fundamental da parte de minha irmã, Daniele e de seu marido Daniel. Do mesmo jeito, obtive o apoio fundamental do meu sobrinho Matheus; se em algum momento eu quis desistir por mim, não pude fazê-lo por você. Obrigado Tabitha, por sua dedicação e companhia, você foi, e é fundamental na minha vida. Obrigado por conseguir a cada dia, renovar e aumentar o amor em mim. Quanto á família que se escolhe, tenho que agradecer aos meus irmãos, Daniel e Patrick verdadeiros guias encarnados que a vida me presenteou, os quais me ensinam diretamente não apenas com palavras de apoio, incentivo, mas, sobretudo, através do exemplo e dignidade com que conduzem suas vidas. Ao meu irmão Emidio, que mesmo quando afastado, é sempre presente. Da mesma maneira, agradeço à Isabela, não apenas pelo incentivo quanto ao ingresso no Curso de Direito, mas também pelo apoio nas horas mais fundamentais, você é com certeza, a melhor amiga que uma pessoa como eu poderia ter. (Não tenho certeza se isso foi um elogio) Mas tenho certeza ao afirmar que seria impossível que eu chegasse ao fim da graduação, sem a ajuda dos amigos que reconheci. Assim, agradeço à Ana Flávia, amiga dedicada, cuja ajuda para a qualidade deste trabalho monográfico é de importância indizível. Ao Pedro, ao Tomal, ao Lucas e ao Antonio. Vocês são amigos que, ao longo do curso, mostraram-se prontos a ajudar e apoiar sempre que necessário. A vocês, novamente, muito obrigado. De fundamental importância também é o apoio e orientação da professora Katya, a qual possui minha admiração e agradecimento não só pelo conhecimento acadêmico que possui, mas também pelo modo com que soube conduzir essa orientação. Obrigado pela dedicação, apoio e auxílio. Um obrigado também à Rosecler, médica extraordinária que me ensinou através do exemplo que a dedicação ao que se ama, traz resultados incríveis na vida das pessoas que nos rodeiam. Agradeço ainda à Corrente Guerreiros de Oxalá, pelo apoio na hora de necessidade e por me propiciarem o entendimento que certamente mudou minha vida para sempre. Agradeço a todos os elos desta corrente, na figura de meus sacerdotes; Jaci e Gabriela, muito obrigado pela paciência, pelas orientações e pelo amor que dedicam ao que acreditam. Agradeço também a certo Andarilho, que no curto período de um ano, fez- se, sem sombra de dúvidas, o melhor amigo, professor e guia que eu poderia ter. Aonde você estiver, saiba que sou grato e aguardo seu retorno para que continuemos nossa caminhada. Por fim quero agradecer às demais pessoas que de alguma forma fizeram parte dessa jornada nestes anos de curso. Agradeço ao Cesar que fez as horas de estágio muito mais suportáveis com seus besouros intelectuais. Aos companheiros de jornada em Azeroth (certamente os momentos de maior alegria durante todo o curso), Daniela e Paulo. E a todos os demais que, de alguma forma, contribuíram com esse momento. Muito obrigado 1 INTRODUÇÃO O paradigma hegemônico do Direito Contemporâneo é fruto da ascensão da razão como valor fundante e basilar do Estado. Tal processo foi analisado por WEBER, que concluiu que a trocada moral religiosa pela tecnicidade da ciência levou-nos ao que ele classifica de “desencantamento do mundo” 1 (Entzauberung der Welt, que em outra tradução possível poderia ser transcrita como desmagificação do mundo.). Esse alegado paradigma hegemônico de pronto é associado como em direta oposição aos mitos religiosos e a processos não embasados na racionalidade racional, como se a assunção do paradigma moderno tivesse trazido para si a responsabilidade de por fim às ações embasadas em sistemas tradicionais, ou puramente “mágicos”, entendidos assim os que não identificassem de pronto a supremacia da razão como causa finalística de seus atos. Nesse sentido, nas palavras de Paolo GROSSI: Parece quase o aproximar-se de dois opostos quando – como se faz com o título dessa conferência- são colocadas uma ao lado da outra as expressões “mitologia” e “modernidade”. Na consciência comum, de fato, o apelo ao moderno evoca um tempo percorrido e dominado pelo vitorioso desmantelamento de antigas mitificações sedimentadas e enraizadas no costume graças a duas conquistas do progresso humano: a secularização e a consequente posse de evidentes verdades científicas. Tendo sido finalmente exilada em um cantinho apartado a velha produtora de fábulas, a Igreja Romana, torna-se grande o orgulho de poder olhar o mundo com olhos incorrompidos, capazes de ler as verdades imanentes, verdades não reveladas (e, portanto não demonstradas), ou melhor, descobertas na sólida e concretíssima natureza das coisas. 2 O objetivo primário deste trabalho é demonstrar, através do método analítico, que os meios utilizados pelo Direito, mesmo no contexto legalista do Estado Moderno, continuam atuando de forma não puramente racional, considerando que a técnica de que se utiliza o Direito compõe-se como um de seus 1 Nesse sentido o autor prescreve: “O destino de nosso tempo, que se caracteriza pela racionalização, pela intelectualização e, sobretudo, pelo desencantamento do mundo levou os homens a banirem da vida pública os valores supremos e mais sublimes. Tais valores encontraram refúgio na transcendência da vida mística ou na fraternidade das relações diretas e recíprocas entre indivíduos isolados”. WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 2007. p. 51. 2 GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da modernidade. Tradução de Arno Dal Ri Júnior. Florianópolis: Fundação Boiteux, 2007.p. 12. 2 valores primários na constituição da eficácia e da legitimação do Direito. Tal tecnicalização pode ser aproximada do que foi estudado em outras culturas e classificado como Magia. Assim, primeiramente, iremos tratar de que forma esse paradigma Iluminista que busca pautar a razão como único valor legitimado para a verdade institui-se no Ocidente e também de que forma podemos entender as legitimações de pretensão de verdade quando inseridas neste contexto. Para tal, nos utilizaremos do conceito de WEBER e da análise que faz acerca das categorias metodológicas da ação, tal qual preconizadas pelo autor ao longo de suas obras, e de que forma podem nortear as escolhas racionais ou parcialmente racionais dos indivíduos. Também se pretende analisar brevemente como o estabelecimento da Ciência como valor fundante dos juízos detentores de verdade levou à ascensão do Estado de Direito, que em última análise pode ser identificado como um Estado legalista e burocrata que acredita na eficácia da lei e nos atributos que a mantem, tal qual ocorre a crença em um mito. Para além disso, pretende-se analisar como o fato de os atos jurídicos estarem intimamente ligados ao conceito de racionalização das leis pode acabar por atribuir às questões jurídicas uma pretensão de verdade e justiça, já que a lei gozaria de tais premissas. Nesse viés, demonstrar-se-á como a metodologia de justificação legal, pode funcionar de acordo com WEBER e os demais autores trabalhados, de forma mágica, pois não necessariamente segue uma lógica racional e, pelo contrário, pautada em uma análise que não advem unicamente dos critérios da razão, acaba por atribuir legitimação e verdade baseado em juízos acríticos. Buscando-se, assim, analisar a epistemologia da ciência jurídica na construção de seus mitos que, como apontado, resultam, de acordo com os autores trabalhados, em uma forma de atuação mágica por parte do Direito. Desse modo, faz-se necessário a compreensão acerca do que é Magia, para que possamos identificar até que ponto podemos tratar tais efeitos do Direito como sendo mágicos. Nesse sentido trabalha-se com os autores clássicos da Antropologia que se debruçaram sobre o tema, tendo-se por fim escolhido MAUSS para estudo comparativo entre o método da Magia e o método do direito. Isso se dá porque o autor aborda a Magia em um viés analítico de representação social. Definir-se-á o que pode ser entendido como Magia, não apenas através 3 da opinião dos antropólogos que tomaram por base análise de culturas alheias tidas como “primitivas”, mas também de que forma essa magia passou a incorporar-se na cultura Ocidental sem que tenha por isso perdido seus pressupostos de eficácia. A partir daí, passa-se a traçar um paralelo entre o método de ação e justificativa dos Rituais Mágicos e dos métodos de atuação do Direito inseridos no paradigma Racional, analisando não apenas de que modo ocorrem e se justificam as ações escolhidas dentro do sistema jurídico e dentro do sistema mágico, mas também de que forma elas podem ser aproximadas no seu método de atuação simbólico. Dessa análise pretende-se demonstrar que, no campo simbólico, Direito e Magia enquanto representação social, podem por vezes assemelhar sua procedimentalização, através da técnica e da ritualização de seus meios que assim conferem uma eficácia a priori, atribuindo legitimidade à ação. 4 1. O PROCESSO DE ESTABELECIMENTO DO PARADIGMA HEGEMÔNICO DO DIREITO; CONSTRUÇÃO DE UMA RACIONALIDADE 1.1) A Construção da Modernidade e o Desencantamento do Mundo A Modernidade, cujo sistema de pensamento será alvo de estudo desse trabalho, deve ser entendida como iniciada pela corrente de pensamento caracterizada, sobretudo, pelo racionalismo. Como se demonstrará, o homem moderno domina os fenômenos da natureza mediante métodos objetivos. Assim escreve TOURAINE acerca da Modernidade: Desencantamento, secularização, racionalização, autoridade racional legal, ética da responsabilidade: os conceitos de Max Weber, tornados clássicos, definem perfeitamente esta Modernidade à qual se deve acrescentar que é conquistadora, que estabelece a dominação das elites racionalizadoras e modernizadoras sobre o resto do mundo, pela organização do comércio e das fábricas e pela colonização. 3 O paradigma 4 hegemônico do Direito na Modernidade construiu-se através dos processos de racionalização, tendo como pano de fundo as sombras deixadas pelo Iluminismo e sua busca pelo incessante uso da razão. Essa razão deve ser contextualizada como um instrumento a serviço do homem moderno. Esclarece-nos SANTOS que: No que respeita ao modelo de racionalidade, é sabido, desde Bacon e Descartes, que a ciência moderna pretende conhecer o mundo, não para o contemplar, mas para o dominar e transformar, e neste sentido a sua racionalidade é instrumentalista. 5 3 TOURAINE, Alain. Crítica da Modernidade. Tradução de Elia Ferreira Edel. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 1997. p. 38. 4 Neste sentido, pretende-se trabalhar com a noção de paradigma exposto por Thomas Khun que assim o define: "são as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de umaciência” KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 7 ed. São Paulo: Perspectiva, 2003. p. 13. 5 SANTOS, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. 6. ed. Porto: Afrontamento, 2002.p. 37. 5 Na metodologia proposta por WEBER para investigar as origens do pensamento do Estado Moderno e sua racionalização, mais do que apenas denunciar oposição ao pensamento religioso - visto que, há a pretensão de dominar o mundo através da técnica e da produção científica, colocando o indivíduo como não mais subjugado a forças superiores - demonstra-se como a moral e demais condições abstratas foram fundamentais nesse processo, afirmando que a Modernidade é um resultado dos movimentos de racionalização e desmistificação do domínio da natureza. Nesse sentido, esclareceu o sociólogo de que forma o progresso da civilização Ocidental regeu-se por uma redução à lógica da vida social, constatando que a Modernidade vai além da diferenciação da economia capitalista e de inovada forma organizacional do Estado, constituindo-se também de reordenação racional da cultura e sociedade. Paradoxalmente, ao tratar a temática moderna como “desencantamento do mundo”, WEBER apresenta a tese de que a excessiva racionalização teórica e prática do ocidente acabam por conduzir ao irracionalismo dos fins. Esta condição não deve ser entendida como um valor em absoluto, mas sempre em comparação a alguma outra lógica racional estranha aos valores utilizados como parâmetro. Tal irracionalismo pode, dessa forma, ser pensado como fruto da fragmentação do mundo em esferas diferentes, inseridas em contextos com sentidos diferentes, que resulta em um “politeísmo de valores”: Há, por exemplo, as racionalizações da contemplação mística, ou seja, num contexto que, considerado sob outras perspectivas, é especificamente irracional, da mesma forma que há racionalizações da Sociedade, da técnica, do trabalho, científico, da educação, da guerra, do Direito e da administração. Cada um desses campos pode, além disso, ser “racionalizado” segundo fins e valores últimos muito diferentes, e o que de um ponto de vista for racional, poderá ser irracional do outro. Racionalizações têm existido em todas as culturas, nos mais diversos setores e dos tipos mais diferentes. Para caracterizar sua diferença do ponto de vista da história da cultura, deve-se ver primeiro em que esfera e direção elas ocorreram. Por isso surge novamente o problema de reconhecer a peculiaridade específica do racionalismo Ocidental, e, dentro deste moderno racionalismo Ocidental, o de esclarecer sua origem. 6 Tal aspecto também é evidenciado por Weber quanto ao isolamento espiritual do ser humano no tocante ao sentido de sua vida. Isso porque o 6 WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Tradução de Maria Irene de Q. F. Szmrecsányi e Tamás J. M. K Szmrecsányi. 6. ed. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1989.p. 11. 6 posicionamento do homem moderno decorre da ruptura com o pensamento cristão, considerando que se cessa o imperativo moral da cristandade e que, assim, os sujeitos da ação passariam, obrigatoriamente, a conviver com a necessidade de justificar seus atos de maneira reflexiva. Ao homem moderno caberia o destino de assumir a responsabilidade pelas escolhas que preencherão o vazio em sua vida: O racionalismo grandioso, subjacente à orientação ética de nossa vida e que brota de todas as profecias religiosas destronou o politeísmo, em benefício do “Único de que temos necessidade”; mas, desde que se viu diante da realidade da vida interior e exterior, foi compelido a consentir em compromissos e acomodações de que nos deu notícia a história do cristianismo. A religião tornou-se, em nossos tempos, “rotina quotidiana”. Os deuses antigos abandonam suas tumbas e, sob a forma de poderes impessoais, porque desencantados, esforçam-se por ganhar poder sobre nossas vidas, reiniciando suas lutas eternas. Daí os tormentos do homem moderno, tormentos que atingem de maneira particularmente penosa a nova geração: como se mostrar a altura do quotidiano? 7 Para acertada análise sobre de que forma o desencantamento do mundo relaciona-se com a tecnicalização da razão e sua aplicação no paradigma moderno, faz-se mister explicar brevemente os conceitos metodológicos trabalhados por Weber com relação aos valores e padrões utilizados como motivadores das ações8 dos indivíduos na sociedade. O sociólogo trabalha com um conceito arquetípico9, 7 WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. p. 42-43. 8 “Por ‘ação’ deve-se entender um comportamento humano, tanto faz que se trate de um comportar- se externo ou interno ou de um permitir ou omitir, sempre quando o sujeito os sujeitos da ação ligam a ela um sentido subjetivo”. WEBER, Max. Metodologia das ciências sociais. São Paulo: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1995. p. 400. 9 Neste sentido, a ação arquetípica deve ser considerada como um recorte à realidade, e não uma reprodução fidedigna desta: “A sociologia constrói – como já supomos evidente - tipos ideais e procura descobrir regras gerais do acontecer. Em oposição à história, que se esforça em conseguir a análise e imputação causal das personalidades, das estruturas e das ações individuais consideradas culturalmente importantes. A construção conceitual da sociologia encontra o seu material paradigmático, de maneira essencial, mas não de maneira exclusiva, nas realidades da ação consideradas também importantes a partir do ponto de vista da história. Ela constrói também os seus conceitos e busca para suas leis com o propósito, sobretudo, de poder prestar um serviço para a imputação causal histórica dos fenômenos culturalmente importantes. Como acontece com toda ciência generalizadora, uma condição da peculiaridade de suas abstrações no que se refere aos conceitos, tende a dar-se de maneira que estes mesmos conceitos tendem a ser vazios em seus conteúdos. O que ela pode oferecer em contrapartida é a univocidade elevada dos seus conceitos. Esta elevada univocidade se alcança em virtude da possibilidade de um optimum da adequação de sentido tal como acontece na conceituação sociológica. Por sua vez, esta adequação pode ser alcançada na sua forma mais plena - e isto, sem dúvida, foi considerado até agora – através de regras e conceitos racionais (racionais com relação a valores ou racionais com relação a fins)”. LAZARTE, Rolando. Max Weber: ciência e valores. São Paulo: Cortez, 1996 p. 73. 7 para fins de estudo, conhecido como ação social 10 , que seria um método de entender quais seriam os fatores e de que forma são sobrepesados para influenciar o agente na tomada de sua decisão. Assim, o autor define os critérios que podem desembocar nos tipos de categorias da ação social: A ação social, como toda ação, pode ser: 1) racional com relação a fins: determinada por expectativas no comportamento tanto de objetos do mundo exterior como de outros homens, e, utilizando essas expectativas como “condições” ou “meios” para o alcance de fins próprios racionalmente avaliados e perseguidos. 2) racional com relação a valores: determinada pela crença consciente no valor – interpretável como estético, religioso, ou de qualquer outra forma – próprio e absoluto de um determinado comportamento, considerado como tal, sem levar em consideração as possibilidade de êxito. 3) afetiva, especialmente emotiva, determinada por afetos e estados sentimentais e atuais; e 4) tradicional: determinadas por costumes arraigados. 11 Como veremos a seguir, tal categorização é importante para compreendermos que, como racionalismo, a razão é dissociada da realidade, e também do pensamento puro, ficando localizada no campo dos valores. Da noção de ação social relatada em epígrafeé que se dará a maneira como o sociólogo alemão irá tratar acerca das formas de legitimação de poder, intrinsecamente ligadas ao papel do Direito12 e da lei no Estado Moderno. Distingue-se no trabalho de WEBER a “Razão Formal” da “Razão Instrumental”. Neste sentido, para THIRY-CHERQUES: (...) a racionalidade formal é constituída pela calculabilidade e predicabilidade dos sistemas jurídico e econômico. No campo das organizações, a racionalidade formal está presente em aparelhos como o contábil e o burocrático. Implica regras, hierarquias, especialização, treinamento. A racionalidade substantiva é relativa ao conteúdo dos fins operacionais dos sistemas legal, econômico e administrativo. Difere da 10 “A ‘ação social’, portanto, é uma ação na qual o sentido sugerido pelo sujeito ou sujeitos refere-se ao comportamento de outros e se orienta nela no que diz respeito a seu desenvolvimento”. WEBER, Max. Metodologia das ciências sociais. p. 400. 11 WEBER, Max. Metodologia das ciências sociais. p. 417. 12 Cabe-nos aqui ressaltar observação de Weber acerca do Direito: “Tomemos ainda o exemplo da ciência do Direito. Essa disciplina estabelece o que é valido segundo as regras da doutrina jurídica, ordenada em parte, por necessidade lógica e, em parte, por esquemas convencionais dados; estabelece, por conseguinte, em que momento determinadas regras de Direito e determinados métodos de interpretação são havidos como obrigatórios. Mas a ciência jurídica não dá resposta à pergunta: deveria haver um Direito e dever-se-iam consagrar exatamente estas regras? Aquela ciência só pode indicar que, se desejamos certo resultado, tal regra do Direito é, segundo as normas da doutrina jurídica, o meio adequado para atingi-lo”. WEBER, Max. Ciência e Política, duas vocações. p. 37. 8 formal por ter uma lógica estabelecida em função dos objetivos e não dos processos. A segunda distinção, entre as racionalidades meio finalística e valorativa, deriva do fato de existirem vários tipos de ações e cada tipo corresponde a um grau de maior ou menor racionalidade. A ação que é racional quanto aos fins que se propõe a alcançar, a ação que é racional quanto aos meios empregados, a ação “afetiva”, que é racional quanto aos sentimentos, a ação tradicional que está próxima da irracionalidade, já que fundada unicamente no hábito. De modo que um comportamento racional não precisa, necessariamente, obedecer a uma lógica finalística. Pode ser “valor-racional”, sempre que seus fins ou seus meios sejam religiosos, morais ou éticos e não diretamente ligados à lógica formal, à ciência ou à eficiência econômica. 13 Assim, associado aos processos de instrumentalização da razão, é que se verifica o conceito de validade, e pretensão de validade sem, para tanto, deixar de passar pelos processos de irracionalismo. O processo de validação passa, portanto, necessariamente pelo conceito explicado anteriormente, alcunhado de “politeísmo de valores”, e que pode ser entendido como irracional, mas que atende às demandas da razão instrumental. Dessa forma, a supremacia da razão instrumental evidencia-se, na visão de TENBRUCK, em três esferas sociais 14 : a economia associada com a consolidação do capitalismo, a política bem representada pelo Estado Moderno com seu respaldo legal e burocrata, e a ciência. As duas últimas serão alvo de breve análise. 1.2) A Racionalização da Ciência Moderna: breves apontamentos Para o Mundo Moderno, a Ciência parece emergir como única detentora legitimada dos resultados dos processos de busca pela verdade 15 . Na visão Weberiana, a influência desta afirmação obrigava ao homem um pesar sobre suas ações, o qual não poderia deixar de fazê-lo, conferindo-lhe uma posição consciente face ao mundo, obrigando-o a conferir-lhe um sentido. O que implica na necessidade 13 THIRY-CHERQUES, Hermano Roberto. Max Weber: o processo de racionalização e o desencantamento do trabalho nas organizações contemporâneas. Rev. Adm. Pública. vol. 43, n. 4. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-76122009000400007&script=sci_arttext>. Acesso em: 10 nov. 2013. 14 TENBRUCK, Friedrich. The problem of thematic unity in the works of Max Weber. British Journal of Sociology. London: vol. 31, n. 3, set. 1980. p. 322. 15 “A ciência criou esse cosmo da causalidade natural e pareceu incapaz de responder, com certeza, à questão de suas pressuposições últimas. Não obstante, ela, em nome da ‘integridade intelectual’, arrogou-se a representação da única forma possível de uma visão racional do mundo”. WEBER, Max. Rejeições religiosas do mundo e suas direções. In: TRAGTENBERG, Maurício (Org.). Textos Selecionados / Max Weber. São Paulo: Abril Cultural, 1980. p. 265. 9 do indivíduo optar por uma “ação consciente”. Em seu livro Ciência e política, duas vocações, temos um conceito mais claro: A ciência hoje é uma vocação organizada em disciplinas especiais a serviço do auto esclarecimento e conhecimento de fatos inter-relacionados. Não é o dom da graça de videntes e profetas que cuidam de valores e revelações sagradas, nem participa da contemplação dos sábios e filósofos sobre o significado do universo. É essa, na verdade, a condição inevitável de nossa situação histórica. Não podemos fugir a ela enquanto continuarmos fiéis a nós mesmos. 16 JASPERS apresenta opinião semelhante ao discorrer sobre a Ciência enquanto paradigma “cogente” aplicável a todo o Ocidente Moderno, chegando a afirmar que, enquanto valor, o caráter científico reveste-se de evidência universal. Dessa forma, ele esclarece: Esta ciência é, em primeiro lugar, um conhecimento metódico guiado pelo conhecimento deste método e de seus limites. Em segundo lugar, ela traz consigo uma certeza coercitiva que se apoia em, e se dirige para o que permanece incerto. Em terceiro lugar ela é válida para todos, não apenas de Direito, mas de fato. 17 Seguindo sua lógica, o autor chega a afirmar que esse posicionamento conduz o homem à superstição da ciência 18 , que é a condição que o leva a desconhecer o real significado de ciência e acreditar que pode compreender a verdade em sua totalidade, acreditando por fim que não há outra forma de se chegar à realidade que não o conhecimento científico. Conclui dessa forma que o homem é incapaz de conhecer tanto a verdade quanto a realidade. Assim, o saber científico não apenas aparece como uma das formas possíveis de verdade, mas como sendo o único detentor legitimado dos processos de racionalização. Isso ocorre, a despeito da irracionalização de se atribuir à razão e à ciência o poder de se firmar como únicas formas legitimadas de validar os processos de racionalização. O homem moderno exalta a verdade científica, que se opõe às demais verdades precedentes, por não apenas conseguir desfazer-se de outros veículos 16 WEBER, Max. Ciência e política, duas vocações. p. 180. 17 JASPERS, Karl. Ciência e verdade. O que nos faz pensar. In: Cadernos do Departamento de Filosofia da PUC-RJ. n. 1, jun. 1989. p. 104-117. p. 105. 18 JASPERS, Karl. Ciência e verdade. p. 108. 10 para alcançar a verdade (como o mito), mas também, porque nesta culmina a possibilidade da verdade natural: Parece quase o aproximar-se de dois opostos quando – como se faz com o título dessa conferência- são colocadas uma ao lado da outra as expressões “mitologia” e “Modernidade”. Na consciência comum, de fato, o apelo ao moderno evoca um tempo percorrido e dominado pelo vitorioso desmantelamento de antigas mitificações sedimentadas e enraizadas no costume graças a duas conquistas do progresso humano: a secularização e a consequente posse de evidentes verdades científicas. Tendo sido finalmente exilada em umcantinho apartado a velha produtora de fábulas, a Igreja Romana, torna-se grande o orgulho de poder olhar o mundo com olhos incorrompidos, capazes de ler as verdades nesse imanentes, verdades não reveladas (e, portanto não demonstradas), ou melhor, descobertas na sólida e concretíssima natureza das coisas. 19 WEBER discorda desse posicionamento e vê que a própria escolha desse caminho é problemática em sua essência, já que ao orientar a conduta prática do homem a ciência fornece-nos apenas verdades provisórias que são constituídas pelo experimento racional. As verdades científicas são, portanto, verdades provisórias mutáveis e temporais20. Concordarmos aqui com COHN, para quem WEBER, ao adotar esse posicionamento, acaba por criticar a forma da instrumentalização da razão na cultura Ocidental moderna: Weber combate resolutamente a ideia de que a Ciência possa engendrar “concepções de mundo” de validade universal, fundadas no sentido objetivo do decurso histórico. Esse sentido objetivo não existe e por isso mesmo não existe uma ciência social livre de pressupostos valorativos. O que existe é a luta constante, que extravasa o domínio da Ciência, pela atribuição prática de um sentido ao mundo e pela sua sustentação diante das alternativas concretamente existentes. 21 Isso porque, na proposição propedêutica weberiana, os conceitos vistos como irracionalidade continuam por influir nas ações dos indivíduos. Ao buscar as causas das motivações de sua ação, mesmo as que seguem a lógica Ocidental moderna, isto é, escolhem a ciência como pretensão de verdade, percebe-se que a 19 GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da Modernidade. p. 55. 20 “Com efeito não é de modo algum evidente que um fenômeno sujeito à lei do progresso albergue sentido e razão. Por que motivo, então, nos entregamos a uma tarefa que jamais encontra fim e não pode encontra-lo? Assim se age, responde-se, em função de propósitos puramente práticos ou, no sentido amplo do termo, em função de objetivos técnicos.” WEBER, Max. Ciência e política, duas vocações. p. 29. 21 COHN, Gabriel. Introdução. In: COHN, Gabriel (Org.). WEBER, Max. Sociologia – Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Ática, 2004. p 21. 11 própria noção de verdade científica já valida objetivamente o conteúdo da afirmação, de modo que não se faz necessário uma postura crítica frente à Ciência. Conclui, portanto, que o campo da ação racional está ligado a movimentos cotidianos desconexos e não refletidos. No mesmo sentido, é a posição de SANTOS, ao discorrer sobre a irracionalidade sob o ponto de vista da Modernidade: O modelo de racionalidade que subjaz ao paradigma de ciência moderna não hesita em lançar todos estes fenômenos na vala comum da irracionalidade e de os contabilizar a débito de nossa fraqueza intelectual, individual ou coletiva. Contudo, de muitos lados, da hermenêutica à psicologia e à teoria da escolha racional, começa-se hoje a pensar que o maniqueísmo em que opera esse modelo é demasiado simplista para ser, ele próprio, “racional”. Uma análise mais detalhada dos nossos processos mentais, da sua gênese e das suas consequências revela que a razão nos prega muitas peças (e nós a ela) e que, por isso, a relação entre racionalidade e irracionalidade é muito mais complexa do que a primeira vista se pode pensar. 22 A evidenciação de que a racionalidade moderna compõe-se de outros valores, considerados sob análise do próprio paradigma como irracionais, bem como, de que tais valores encaixam-se em diferentes arquétipos metodológicos propostos por Weber, poderá ser melhor vislumbrada quando estudarmos a aplicabilidade de sua teoria na divisão e legitimação do Estado do Direito. 1.3) O Estado Moderno e a Racionalização das Leis Podemos identificar no Ocidente um histórico que culmina nas características que WEBER identifica no Estado Moderno. Para ele o Estado possui um poder centralizado, em conjunto com um aparato burocrático administrativo que permite o exercício da dominação. Assim, a estrutura do Estado Moderno caracteriza-se principalmente pelo processo de legalização. Nas palavras de GROSSI: Se muitos altares eclesiásticos serão cuidadosamente desconsagrados, outros tantos – profanos - serão erigidos e consagrados ao culto da lei, juntamente com a teorização de uma verdadeira mitologia jurídica (mitologia devido ao fato de ser muito frequentemente regida por um aceite 22 SANTOS. Boaventura de Souza. Introdução a uma ciência pós-moderna. p. 38. 12 substancialmente acrítico, ou, o que dá no mesmo, ideologicamente motivado. 23 Este aceite coletivo por parte da sociedade, sem questionar o conteúdo do que se está em jogo é o que torna o Estado o único detentor legítimo da violência física. 24 Fruto direto disso, a “autonomia” da lei pode ser vista como um processo, cujas características se pode identificar já na Grécia Antiga, em que “a autoridade ou força moral das leis escritas suplantou, desde logo, a soberania do indivíduo ou de um grupo ou classe social, soberania esta tida doravante como ofensiva ao sentimento de liberdade do cidadão” 25. Essa tentativa de supremacia das leis, ainda que fundada em diversos motivos, pode ser vista também em Hobbes e Maquiavel, já no embrião do Estado de Direito. Entretanto, foi apenas após a queda das monarquias absolutas e a ascensão da burguesia ao poder que as leis passaram a exercer papel de maior destaque na sociedade. E somente nesta configuração que as leis positivadas (não apenas as divinas ou naturais) passaram a ser obrigatoriamente erga omnes, incluindo aí os detentores do poder. Tem-se aí então o Estado de Direito, fundado na legalidade e na limitação do poder estatal aos ditames legais. Para além da intenção de denunciar o Estado como um meio de dominação26, WEBER destaca que uma associação só tem legitimidade e existência quando é fruto da concatenação de inúmeras ações individuais e do consenso da coletividade. Dessa forma, o Estado necessita do reconhecimento do cidadão para ser legitimado. O autor separa a legitimidade de dominação estatal em arquétipos: a tradição, o carisma, a legalidade, o medo e a esperança: 23 GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da Modernidade. p. 46. 24 “Em nossa época, entretanto, devemos conceber o Estado contemporâneo como uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território – a noção de território corresponde a um dos elementos essenciais do Estado – reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física. É, com efeito, próprio de nossa época o não reconhecer, em relação a qualquer outro grupo ou aos indivíduos, o Direito de fazer uso da violência, a não ser nos casos em que o Estado o tolere: o Estado se transforma, portanto, na única fonte do “Direito” à violência”. WEBER, Max. Ciência e política, duas vocações. p. 56. 25 COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2005.. p. 13. 26 “Tal como todos os agrupamentos políticos que historicamente o precederam, o Estado consiste em uma relação de dominação do homem sobre o homem, fundada no instrumento de violência legítima (isto é, da violência considerada como legítima). O Estado só pode existir, portanto, sob a condição de que os homens dominados se submetam à autoridade continuamente reivindicada pelos dominadores”. WEBER, Max. Ciência e política, duas vocações. p. 57. 13 Existem em princípio – e começaremos por aqui - três razões internas que justificam a dominação existindo, consequentemente três fundamentos da legitimidade. Antes de tudo, a autoridade do “passado eterno”, isto é, dos costumes santificados pela validez imemorial e pelo hábito,enraizado nos homens, de respeitá-los. Tal é o “poder tradicional” que o patriarca ou o senhor de terras outrora exercia. Existe, em segundo lugar, a autoridade que se funda em dons pessoais e extraordinários de um indivíduo (carisma) – devoção e confiança estritamente pessoais depositadas em alguém que se singulariza por qualidades prodigiosas, por heroísmo ou por outras qualidades exemplares que dele fazem o chefe. Tal é o poder “carismático” exercido pelo profeta ou – no domínio político - pelo dirigente guerreiro eleito, pelo soberano escolhido através de plebiscito, pelo grande demagogo ou pelo dirigente de um partido político. Existe, por fim, a autoridade que se impõe em razão da “legalidade”, em razão da crença na validez de um estatuto legal e de uma competência positiva, fundada em regras racionalmente estabelecidas, ou, em outros termos, a autoridade fundada na obediência, que reconhece obrigações conformes ao estatuto estabelecido. 27 O Estado Moderno ao utilizar-se da dominação legal não é entendido como sujeito à dominação carismática ou dominação tradicional já que os cidadãos não são motivados a obedecer aos detentores do poder pela crença em suas instituições ou no sagrado das tradições, mas, por concederem o poder de crença à legalidade. Dessa forma, WEBER aproxima Direito e Estado, pois o poder deste último é legítimo na exata medida de sua legalidade, ou seja, quando o poder é exercido cumprindo uma série de exigências formais previamente constituídas. 28 Estas exigências podem ser entendidas como manifestação do domínio racional legal, que se expressa através da burocracia. Isto é, a burocracia não apenas é consequência do governo da razão, como também é a forma pelo qual age o Estado Racional Moderno, devendo ser entendida como produto histórico da racionalidade formal. Nos esclarece ARGÜELLO: (...) o objetivo da burocracia é o de gerir o poder. Esta gestão, por sua vez, pode ser mais racional, quando mediada pelo tipo de administração burocrática pura, (administração burocrático-monocrático), que ressalta os aspectos da precisão, disciplina, continuidade, calculabilidade, 27 WEBER, Max. Ciência e política, duas vocações. p. 57-58. 28 Assim esclarece BOBBIO: "Weber e Kelsen interpretam no fundo o mesmo fenômeno da convergência do Estado e do Direito, embora olhando-o de dois pontos de vista diferentes. Weber, a partir de um ponto de vista da juridificação do Estado, ou seja do poder estatal, que se racionaliza através de uma complexa estrutura normativa articulada e hierárquica; Kelsen, a partir da estatização do Direito, ou seja do sistema normativo que se realiza através do exercício do máximo poder (...)".BOBBIO, Norberto; MATEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Tradução de Carmen C. Varrialle, Gaetano Loiai Mônaco, João Ferreira, Luis Guerreiro Pinto Caçais e Renzo Dini. Brasília: UnB, 2004. p. 351. 14 aperfeiçoamento técnico, enfim, de eficácia. Em termos históricos concretos, essa instrumentalidade do agir racional com relação aos fins diz respeito à função da força política do Estado moderno desenvolvido no Ocidente. 29 O poder sustentador do Estado Racional é o da fé na legitimidade do Direito e da política, bem como na impessoalidade do aparelho burocrático do Estado. Isso porque o que se pretende obedecer não é a uma pessoa detentora do poder, mas o próprio conteúdo das normas jurídicas advindos do Estado. Assim o Direito enquanto ordem jurídica está garantido externamente pela probabilidade de coação, seja ela física ou psíquica. Dessa forma tem-se que a legalidade é também legitimada pela coerção. Essa obediência ou dominação possui, de acordo com WEBER, um caráter racional, de modo que as normas jurídicas representavam tal racionalidade: gerais, abstratas, impessoais e cogentes, de maneira que isso revela também a crença generalizada na capacidade racional do ser humano. Tal capacidade de crença intimamente ligada ao sistema de legitimação da racionalização e aplicação do Direito também é evidenciada por Paolo GROSSI: O autor se deu conta, nas suas já longas e contínuas pesquisas histórico- jurídicas, de que um grande emaranhado nó de certezas axiomáticas lentamente se sedimentou no intelecto e no coração do jurista moderno, um nó que foi aceito de modo submisso, que ninguém sonhou discutir por ter sido fundamentado em um lúcido projeto originário de mitificação, mitificação como processo de absolutização de noções e princípios relativos e discutíveis, mitificação como passagem de um mecanismo de conhecimento a um mecanismo de crença. 30 Figurando como crença, nada impede que normas distintas e contraditórias sejam válidas. Dessa forma, a norma é dotada de poder31 à medida que pode coagir o indivíduo a cumpri-la, já que é dotado de legitimidade. Assim, o poder está unificado ao Direito na medida em que este figura como forma coercitiva despida de conteúdo, mas, continua dotado de poder, isto é, coerção. Dessa forma, a legitimidade jurídica aqui é puramente formal, remetendo ao procedimento de criação e a crença de que tal procedimento é legítimo. 29 ARGÜELLO, Katie Silene Cáceres. O Ícaro da modernidade: direito e política em Max Weber. São Paulo: Acadêmica, 1997.. p. 82-83. 30 GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da Modernidade. p. 12. 31 "Poder significa a probabilidade de impor a própria vontade, dentro de uma relação social, mesmo contra toda a resistência e qualquer que seja o fundamento desta probabilidade". Weber, Max. Economia y Sociedad – esbozo de sociologia compreensiva. México D.C. e Buenos Aires: Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1964. p. 43. 15 Acerca da revelação legal, WEBER afirma: Mas o formalismo jurídico origina-se, sobretudo, do processo no Direito probatório vinculado a determinadas formas. Este Direito não regulamenta, de modo algum, a 'prova' processual no sentido atual. Não se apresentam meios de prova para demonstrar que um 'fato' é 'falso' ou 'verdadeiro'. Ao contrário, trata-se de saber qual das partes pode ou deve dirigir aos poderes mágicos a pergunta de se está em seu Direito, e em que formas esta deve ser feita. Ao lado do caráter formal do próprio procedimento, temos, portanto, o caráter totalmente irracional dos meios de decisão. 32 (grifo nosso) Assim, ao jurista cabe o papel de elaborar normas que dominem a realidade, isto é, que determinem eficazmente o comportamento humano, sem se preocupar se essas normas são justas/boas ou injustas/más, pois o que importa é a efetividade da norma. No mesmo sentido, temos a opinião de GROSSI ao discorrer sobre a diferenciação entre lex e loy: Mas um outro elemento discriminante salienta-se entre a lex dos medievais e a loy dos modernos: quanto à primeira, era marcada por conteúdos e finalidades bem estabelecidos – a razoabilidade , o bem comum -, tanto já a segunda propõe-se como realidade que não encontra em um conteúdo ou em um objetivo nem o seu significado nem a legitimação social. 33 Nesse sentido poderíamos afirmar que as leis encontram apenas nelas mesmas suas justificações à medidas que são descoladas dos problemas de caráter social, que em tese justificariam sua incidência. GROSSI prossegue, citando MONTAIGNE: “(...) as leis possuem crédito não porque são justas mas porque são leis. É o fundamento místico da autoridade delas, não tem outro fundamento, e é bastante. Frequentemente são feitas por imbecis”. A dose vem recarregada algumas linhas depois: “quem as obedece por serem justas, não dá a obediência devida a elas”. 34 (grifo nosso) O Direito, reafirmamos, aparece como dotado de um poder mágico, advindo da crença daqueles que o legitimam afastando-se, assim, do senso comum que costuma associar a legitimação do Direitoao senso de justiça e ordem. Dessa forma, o Direito figura como a forma por excelência do poder simbólico, já que é através de sua significação que se confere realidade e poder de 32 WEBER, Max. Economia y sociedad: esbozo de sociología comprensiva. p. 74. 33 GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da Modernidade. p. 41 34 GROSSI, Paolo. Mitologias jurídicas da Modernidade. p. 42. 16 realização às coisas. Seu discurso é capaz de produzir efeitos mediante uma eficácia que pode ser entendida como mágica, pautada unicamente na crença de sua legitimidade: A crença que é tacitamente concedida à ordem jurídica deve ser reproduzida sem interrupção e uma das funções do trabalho propriamente jurídico de codificação das representações e das práticas éticas é a de fundamentar a adesão de profanos aos próprios fundamentos. 35 Pois bem, até aqui se falou de que forma foi construído o paradigma racional Ocidental da Modernidade, trabalhando com conceitos weberianos de racionalização para um agir racional. Demonstrando de que forma esse conceito de racionalização espalhou-se por diversos campos de conhecimento da sociedade moderna, consolidando-se na Ciência como detentora única da verdade e dessa forma, de como o Direito e os demais campos estatais precisaram ter seus valores atestados por ela para que se tornassem neutros e legítimos. Evidenciou-se, assim, que na visão “politeísta de valores” que virá a fundamentar as escolhas racionais do Direito, os autores abordados optam por afirmar uma eficácia mágica do Direito pautado na crença deste como legitimador de seus atos, distanciando-se assim da ideia de que o Direito tem uma racionalização uni-valorativa pautada na razão. Dentre os motivos que justificam essa validação, encontram-se o contexto pretensamente racional que transmuta um valor de crença, para ser entendido como racional de forma a prioristicamente sem que se tenha necessidade de que se analise a situação como de acordo com os valores racionais. Antes de demonstrarmos através de metodologia analítica de que forma os valores ritualísticos advindos do sistema de racionalidade mágica podem interferir na racionalidade utilizada pelo Direito, bem como na constituição de valor simbólico, crença e na constituição de seu habitus (inserido dentro da teoria de BOURDIEU), faz-se necessário delimitarmos o que é, e para fins didáticos, o que se entende por magia. 35 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz.10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. p. 189. 17 2. MAGIA: GÊNESE, ANÁLISE E FUNCIONAMENTO 2.1) Magia e Ciência: gênese e convergência A noção que temos atualmente do que seria magia foi construída pelo Iluminismo, que delimitou campos de atuação diferentes para magia, religião e ciência. Em que pese, tenhamos identificado esses sistemas de pensamento em todas as civilizações36, somente recentemente no Ocidente é que se pode distanciar seus métodos e formas de interação social. Assim, para fins metodológicos, trabalharemos com os conceitos trazidos por MAUSS e HUBERT, confrontando-os com as teorias de seus pares como DURKHEIM, MALINOWSKI e FRAZER 37 . Tais autores caracterizam-se por abordarem aspectos diferentes bem como posicionarem-se de forma heterogênea acerca dos constitutivos da magia e de suas características. Pinçaremos pontos específicos em comum que podem ser encontrados nas teorias trabalhadas por tais antropólogos, priorizando a visão apontada por MAUSS, já que, assim, será mais fácil aproximá-la quando do tratamento do poder simbólico exercido pelo Direito, abordado por BOURDIEU. Estes estudiosos, ao debruçarem-se sobre o tema, trouxeram novas ideias e formas de se ver os entrelaçamentos desses três sistemas, na opinião de MALINOWSKI: Uma conquista da antropologia moderna não poderemos questionar: o reconhecimento de que a magia e a religião não são meramente uma doutrina ou uma filosofia, não apenas o cerne da opinião intelectual, mas um modo especial de comportamento, uma atitude pragmática impregnada de razão, sentimento e vontade em partes iguais. É um modo de ação, assim como um sistema de crença, um fenômeno sociológico, bem como uma experiência pessoal. 38 36 “Assim como não existem, diga-se de passagem, quaisquer raças selvagens que não possuam atitude científica ou ciência, embora esta falha lhes seja frequentemente imputada. Em todas as sociedades primitivas, estudadas por observadores competentes e de confiança, foram detectados dois domínios perfeitamente distintos, o Sagrado e o Profano; por outras palavras, o domínio da Magia e da Religião e o da Ciência”. MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. Tradução de Maria Georgina Segurado. Rio de Janeiro: Edições 70, 1948. p. 1. 37 Os autores supracitados apresentam como característica comum a definição de magia sempre como oposição ao que se entende por magia. Ainda que concordemos que tal posicionamento deve ser alvo de estudo, este viés não será apresentado neste trabalho, por acreditarmos que não é conveniente ao que esta obra se propõe. 38 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. p. 6. 18 É mister evidenciarmos que não há consenso entre os teóricos supracitados sobre quais os limites entre religião e magia. Devemos notar, contudo, que a magia será sempre contextualizada como algo “estranho” à cultura na qual se está inserido. Como evidencia SILVA: No entanto, até aos dias de hoje, nunca se chegou a uma demarcação intelectualmente satisfatória entre religião e magia, a maior parte destas demarcações, derivando de preconceito pela parte daqueles que se viam como bastiões da religião versus aquilo que viam como “superstição” ou “pactos demoníacos”, numa fase inicial e no período colonial pela parte dos poderes coloniais, face às práticas religiosas que lhes pareciam “irracionais” ou simplesmente erradas nos povos colonizados. Parece, então, que a distinção entre magia e religião é uma questão mais ligada à perspectiva de quem atribui estas etiquetas a diferentes práticas relacionadas com o mundo metafísico ou sobrenatural do que a qualquer factor intrínseco das práticas em si. Por exemplo, na perspectiva cristã, desenhar um círculo no chão e queimar incenso, de forma a contactar com anjos ou deus é uma prática mágica, enquanto ajoelhar, juntar as mãos e rezar para o mesmo fim é uma prática religiosa. No mesmo princípio, a transmutação do chumbo em ouro é magia, enquanto que a transmutação de pão e vinho em carne e sangue é religião. Este último exemplo levou, de facto, durante a reforma protestante, a acusações pela parte de alguns protestantes de práticas mágicas pela Igreja Católica. Como mencionado em cima, é uma questão de perspectiva. 39 Esse caráter etnocêntrico na definição do termo pode ser evidenciado considerando a origem do vocábulo “magia”, advinda de magi ou magoi, como eram chamados os Persas, tidos como sábios e detentores do saber esotérico, quando estes conceitos foram absorvidos na civilização grega40. Dessa forma, é evidente que a noção de magia enquanto dado cultural alheio pode ser entendida também como a crença daquele que é diferente de mim. Assim, “rebaixam” ao patamar de magia toda crença aliada à técnica daquilo que desconhecem ou ignoram. 39 SILVA, F. P. C. S. Magia: A Religião do “outro”. In: Veredas da História. São Paulo: 2010. p. 2-3. 40 “A palavra ‘magia’ deriva do grego antigo, e mais especificamente do termo ‘mageia’, o qual era usado para descrever as práticas e crenças dos andarilhos ‘magi’ ou ‘magoi’, os quais se acredita serem de origem persa. Estes ‘magi’ estrangeiros eram admiradospela sua sabedoria esotérica e seu conhecimento de feitiçaria, que foi rapidamente absorvido e reinterpretado dentro do contexto grego, apesar de que em alguma medida ainda fosse visto como uma intromissão estrangeira na cultura local. A relação de certa forma ambivalente dos gregos com a magia ficou cimentada na cultura Ocidental, e persiste até os dias de hoje, embora de um modo diferente”. Tradução livre do original: “The word magic derives from ancient Greece, and more specifically from the term mageia, which was used to describe the practices and beliefs of the wandering magi or magoi, believed to be of Persian origin. These Foreign magi were admired for their esoteric wisdom and knowledge of sorcery, which was quickly absorbed and re interpreted into the Greek context, although on some level it was still viewed as a foreign intrusion in to local culture. The somewhat ambivalent relationship of the Greeks with magic became cemented into Western culture, and persists to this day, albeit in different guise”. BOGDAN, Henrik. Introduction: modern western magic. In: Aries. vol. 12, n. 1, jan. 2012.p. 3. 19 Ao mesmo tempo em que a magia e suas diversas vertentes foram desvencilhando-se do que veio a dar origem à ciência do período iluminista, seguindo-se a mesma dicotomia de pensamento que atribuía à magia, critérios valorativos inferiores na busca pela verdade, diversas ciências foram surgindo. O paradigma do Iluminismo e posteriormente o da Modernidade fez questão de limitar campos separados na sociedade para cada um destes sistemas. Aos poucos, a razão foi responsável por distinguir entre sistemas de crenças e sistemas eficazes, ou ao menos, assim se pensou. É fato notório que ciências tais como a Química, estão ligadas à Alquimia, bem como a Astronomia à Astrologia e toda a Medicina provém de conhecimentos e rituais mágicos que passaram pelo “filtro da razão”: O ato médico não apenas permaneceu, quase até nossos dias, cercado de prescrições religiosas e mágicas, preces, encantamentos precauções astrológicas, mas também as drogas as dietas do médico, os passes do cirurgião, são um verdadeiro tecido de simbolismos, de simpatias de homeopatias, de antipatias e, de fato, são concebidos como mágicos. A eficácia dos ritos e a da arte não são distinguidas, mas claramente pensadas em conjunto. 41 Nesse sentido, sabe-se também que NEWTON dedicou estudos à Alquimia da mesma maneira que Giordano BRUNO ao Hermetismo. Visto dessa forma, concordamos com MAUSS quando afirma que “todos os médicos, todos os pastores, todos os ferreiros são, ao menos virtualmente, mágicos” 42. Deste modo, afirmamos que, ao contrário do que se costuma acreditar, não houve, por parte dos pensadores modernos, “uma marcha triunfal do saber científico atravessando as trevas e as superstições da magia” 43. Pelo contrário, podemos perceber que houve no pensamento mágico um caminho traçado que pode ser interpretado como simultâneo ao paradigma da racionalidade, considerando que tal corrente também influenciou o modo como o Ocidente trabalha com a magia e incorpora seus elementos à sua racionalidade. Assim, na fase pós-iluminista, surgem no Ocidente sujeitos e grupos organizados que passam a se definir como praticantes de magia. 41 HUBERT, Henri; MAUSS, Marcel. Esboço de uma Teoria Geral da magia. In: MAUSS, Marcel. Ensaios de sociologia. São Paulo: Perspectiva, 2005.p. 56. 42 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 66. 43 ROSSI, Paolo. O nascimento da ciência moderna na Europa. Bauru: EDUSC, 2001.p. 59. 20 Um dos mais famosos é sem dúvida Eliphas LEVI, que tem seu sistema de magia baseado no Hermetismo e atrela o conceito de magia à força de vontade do homem utilizada para alterar o mundo. Baseado em seus escritos acerca da Cabala, do Hermetismo e da Alquimia, consolida-se na Inglaterra vitoriana, rapidamente vindo a espalhar-se por todo o Ocidente, a Ordem conhecida como Golden Dawn, que tem como um de seus membros Aleister CROWLEY. Polêmico escritor e filósofo ocultista, CROWLEY criou seu sistema magico e filosófico conhecido como Thelema. Tal autor definia a magia como ciência e arte de se alterar a realidade de acordo com sua vontade44. Além da vontade, em seus escritos podemos encontrar diversas manipulações técnicas que, mediante a crença, poderão levar o mago a transformação da realidade, de acordo com sua vontade. O termo vontade também aparece nos estudos antropológicos, quando MAUSS diferencia o poder criador da vontade mágica: “sua vontade faz com que efetue movimentos dos quais os outros são incapazes” 45. Ao mesmo tempo em que CROWLEY delimitava a magia, dando-lhe assim uma aparência de racionalidade formal, postulando teorias e teoremas em suas obras, também estendeu o âmbito da magia, já que considerava todo ato intencional um ato mágico. Podemos perceber, portanto, que a magia não é deixada de lado com o avanço da racionalidade, senão readaptada à sua nova realidade. Esta adaptação da magia a nosso paradigma, pretendendo-se forma de ciência, não foi alvo de estudos dos antropólogos clássicos já que, para a grande maioria, ainda persiste a ideia de que a magia seria uma fase pré-científica presente em povos tidos como primitivos. Tal pensamento é respaldado pelas análises de FRAZER, para quem a magia estaria mais próxima da ciência do que da religião, sendo considerada “sua irmã bastarda” 46 . Ele observa através de seu paradigma evolucionista, as necessidades de se passar por um estágio mágico imediatamente anterior ao paradigma científico. Considerando que as mesmas causas produzirão sempre os mesmos efeitos, o mago convencer-se-ia de que por isso deve respeitar um método, o que na opinião de FRAZER abre caminho à valorização do talento e dá autoridade às 44 CROWLEY, Aleister. Magick without tears (Eletronic Version). Disponível em: <http://hermetic.com/crowley/magick-without-tears/> Acesso em: 10 out. 2013.. p. 52. 45 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 70. 46 MONTERO, Paula. Magia e pensamento mágico. São Paulo: Atica, 1986. p. 53. 21 habilidades humanas. Esse estudioso opta, assim, por importar padrões de pensamento ocidentais a fim de classificar os atos e leis mágicas que encontra em categorias, retomando noções como “contiguidade”, “similitude” e “causalidade”: O mago que pratica estas leis crê implicitamente que elas regem o funcionamento da natureza inanimada. Em outras palavras, tacitamente admite que as leis de semelhança e de contato são de aplicação universal e não se limitam às ações humanas. Em síntese, a magia é um sistema espúrio de leis naturais, uma errônea guia de conduta, uma falsa ciência e uma arte abortada. Considerada como sistema de leis naturais, é dizer, um estatuto de regras que determina a sequência dos acontecimentos em todo o mundo, podemos caracterizá-la como magia teórica. Se a consideramos, entretanto, como uma série de preceitos que os seres humanos observam para conseguir os objetivos, poderia chamar-se de magia prática. Mas, ao mesmo tempo devemos ter presente que o mago primitivo só conhece a magia em seu aspecto prático, porque nunca analisa os processos mentais em que se baseia e nem reflete sobre os princípios abstratos que regem suas ações. Para ele, como para a maioria dos homens, a lógica é implícita, não explicita; ele entende como digere seus alimentos, ignorando por completo os processos mentais e fisiológicos essenciais em uma e outra operação. Em suma, para ele a magia sempre é uma arte, nunca uma ciência. O verdadeiro conceito de ciência não existe em sua mente rudimentar. Fica para o estudo da filosofia descobrir o curso do pensamento pelo qual se embasa a prática do mago; desenrolar ospoucos fios da emaranhada madeixa, separar os princípios abstratos de suas aplicações concretas. Em síntese, discernir a ciência espúria do ato bastardo. 47 Como podermos aduzir da leitura do trecho acima, o trabalho de análise de FRAZER é marcado por um profundo marco teórico evolucionista. Optamos por evidenciar o posicionamento demonstrado por MONTERO ao afirmar, referente ao pensamento de FRAZER, que: 47 Tradução livre do original: “El mago que practica estas leyes cree implícitamente que ellas rigen el funcionamiento de la naturaleza inanimada. En otras palabras, tácitamente admite que las leyes de semejanza y de contacto son de aplicación universal y no se limitan a las acciones humanas. En síntesis, la magia es un sistema espúrio de leyes naturales, una errónea guía de conducta, una falsa ciencia y un arte abortado. Considerada como sistema de leyes naturales, es decir como un estatuto de reglas que determinan la secuencia de los acontecimientos en todo el mundo, podemos caracterizarla como magia teórica. Si la consideramos en cambio como una serie de preceptos que los seres humanos observan para conseguir sus objetivos, podría llamarse magia práctica. Pero al mismo tiempo debemos tener presente que el mago primitivo sólo conoce la magia en su aspecto práctico, porque nunca razona los procesos mentales en los que se basa ni reflexiona sobre los principios abstractos que rigen sus acciones. Para él, como para la mayoría de los hombres, la lógica es implícita, no explícita; él razona como digiere sus alimentos, ignorando por completo los procesos mentales y fisiológicos esenciales en una u otra operación. Em suma, para él la magia siempre es un arte, nunca una ciencia. El verdadero concepto de ciência no existe en su mente rudimentaria. Queda para el estudio de la filosofía descubrir el curso del pensamiento en el cual se basa la práctica del mago; desenredar los pocos hilos de la embrollada madeja, separar los principios abstractos de sus aplicaciones concretas. Em síntesis, discernir la ciencia espuria del acto bastardo”. FRAZER, James George. La Rama Dorada – Magia y Religión. Ciudad de México, Fondo de Cultura Económica, 1996. p. 3. 22 Entretanto, essa análise intelectualista, que retira da magia todo elemento místico e afetivo, só poderia levá-lo a constatar os erros e incoerências desse pensamento. Esforçando-se em descobrir na magia as origens da ciência, encontra nas sociedades os mesmos elementos que, a priori, lhes havia atribuído. 48 Dessa forma, ainda que em nossa civilização a magia possa ter inicialmente se confundido e certamente contribuído para a gênese do pensamento científico, nem todos partilham da ideia de que ela é, necessariamente, uma pré- revolução de toda ciência. MALINOWSKI, quando deparado com essa questão, sintetiza: Podemos encarar o conhecimento mágico que, como vimos, é simultaneamente empírico e racional, como uma fase rudimentar da ciência, ou não tem nada a ver com ela? Se por ciência se entender um conjunto de regras e conceitos, baseados na experiência e dela derivados através da inferência lógica, personificados nas realizações materiais e numa forma fixa de tradição e executados por uma espécie de organização social – então, sem dúvida que mesmo as comunidades selvagens mais inferiores detêm os princípios da ciência, conquanto rudimentares. 49 Na opinião de MALINOWSKI, o que ocorre é que o homem primitivo vê-se obrigado a procurar a magia toda vez que seus conhecimentos e técnicas racionais falham50. Poderíamos assim dizer que, tal qual o cidadão que apenas busca o acesso ao poder jurisdicional estatal, quando tem algo que considera ser legitimamente justo e que por motivos alheios deve ser resolvido apenas pelo Direito, de forma semelhante, o homem primitivo recorre a forças mágicas suas ou de um sacerdote através de técnicas em que busca alterar a realidade em seu favor. Dessa forma, trata-se de uma forma de explorar a natureza buscando seus benefícios ao mesmo tempo em que se pode “burlar o destino”. Restaria à magia, assim, o controle acerca da imprevisibilidade, porém de forma que se crê racional. Ao comparar, entretanto, o pensamento mágico diante do pensamento científico, MALINOWSKI encontra semelhanças e reserva à magia o papel de pseudociência. 48 MONTERO, Paula. Magia e pensamento mágico. p. 54. 49 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. p. 10. 50 “A ciência nasce da experiência, a magia é construída através da tradição. A ciência é norteada pela razão e corrigida pela observação; a magia, imune a ambas, vive numa atmosfera de misticismo. A ciência está aberta a todos, é um benefício para toda comunidade, a magia é oculta, ensinada através de misteriosas iniciações, transmitida hereditariamente ou pelo menos com grande seletividade. Enquanto a ciência assenta na concepção de forças naturais, a magia desponta a ideia de um determinado poder místico e impessoal, em que a maior parte dos povos crê”. MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. p. 4. 23 Nesse sentido, ainda que concordando com FRAZER, MALINOWSKI não relega à magia o papel de pré-ciência. Ao contrário, identifica que ambas desenvolvem aspectos técnicos especiais voltados essencialmente à prática. Assim, “a magia é semelhante à ciência pelo fato de ser sempre intimamente associada aos instintos, carências e objetivos humanos, uma finalidade definida” 51. Por fim, tal autor afirma que, quando comparada à ciência, a magia acaba por apresentar um caráter falso: A ciência, mesmo como representação do conhecimento primitivo do homem selvagem, baseia-se na experiência normal e universal do dia-a-dia, experiência conquistada pela luta do homem com a natureza para sua subsistência e segurança, assente na observação, determinada pela razão. A magia baseia-se na experiência específica de estados emocionais em que o homem se observa a si próprio e não a natureza, em que a verdade é revelada não através da razão, mas da ação das emoções sobre o organismo humano. A ciência fundamenta-se na convicção de que a experiência, o esforço e a razão são válidos; a magia, na crença de que a esperança não pode falhar nem o desejo iludir. As teorias do conhecimento são ditadas pela lógica, as da magia pela associação de ideias sob os auspícios do desejo. Como fato empiricamente comprovado, os moldes do conhecimento racional e os moldes do saber mágico estão por si incorporados numa tradição diferente, num esquema social diferente e num tipo de atividade diferente, e todas estas diferenças são perfeitamente reconhecidas pelos selvagens. Uma constitui o domínio do profano; a outra, rodeada de formalidades, mistérios e tabus, constitui metade do domínio do sagrado. 52 Quanto a STRAUSS, este trabalha com o conceito de mito atuando como bricolagem na dicotomia entre ciência e magia, e discorda da redução do conceito de magia como um esboço de ciência, afirmando que se tratam de dois sistemas articulados e independentes que acabam por proceder a operações mentais distintas53. A análise feita por DURKHEIM e MAUSS preocupa-se muito mais com o papel que a magia exerce junto à sociedade do que com o conteúdo do pensamento mágico. Deste modo, eles identificam em nossa sociedade estruturas sociais representativas que funcionam de forma semelhante à magia. Concebendo que enquanto elementos constitutivos da sociedade podem ser aproximadas de outras formas de interação social que se caracterizam como representações simbólicas, de forma assemelhada ao que ocorre no Direito. 51 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. p. 31. 52 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. p. 31. 53 MONTERO, Paula. Magia e pensamentomágico. p. 56 24 Também no Direito, ocorre a análise de que certos fenômenos jurídicos podem ser interpretados como tendo uma natureza mágica, obviamente em se tratando magia como fenômeno social, conforme nos demonstra ALLEN: De acordo com os realistas, os resultados legais foram efetivamente determinados pelas preferências individuais dos juízes e ideologia - e, na verdade, deve ser determinada pela análise empírica e avaliativa simples. Hierarquias de precedente, fórmulas doutrinais e regras processuais eram todas uma espécie de "palavras mágicas de resolução," "palavras rituais," e "mito legal", que obscureceram as verdadeiras razões para as decisões judiciais. Embora os mais importantes escritos realistas foram produzidos há muito tempo, eles exercem um poderoso contínuas influencia. Reclamações sobre o raciocínio "talismã" e "palavras mágicas" continuaram a crescer.. Sem dúvida, a maioria das comparações entre lei e magia, hoje são puramente retórica; mas no auge da comparação feita pelos realistas suas práticas jurídicas e mágicas foram objeto de investigação séria e, recentemente, alguns estudiosos têm novamente começado a considerar as conexões entre direito, magia e ritual. 54 Nesse sentido é que nos propomos a analisar quais elementos identificados como pertencentes à magia dentro da análise proposta de MAUSS podem ser identificados no Direito. Bem como de que forma tal sistema mágico interage com a sociedade, objetivando ao final evidenciar as aproximações existentes entre a simbologia do Direito e a simbologia da magia como forma de alteração do mundo de acordo com a vontade, mediante técnica legitimada socialmente. 54 Tradução livre do original: “According to the Realists, legal outcomes were actually determined by judges’ individual preferences and ideology - and actually should be determined by straightforward empirical and evaluative analysis. Precedential hierarchies, doctrinal formulas, and procedural rules were all a kind of “magic solving words," “word ritual,” and “legal myth” that obscured the real reasons for court decisions. Although the most important Realist writings were produced a long time ago, they exert a powerful continuing influence. Complaints about "talismanic" reasoning and "magic words" continue to crop up. Doubtless most comparisons of law and magic today are purely rhetorical;9 but during the Realist heyday similarities between legal and magical practices were the object of serious investigation, and recently a few scholars have again begun to consider the connections among law, magic and ritual”. ALLEN, Jessie. A theory of adjudication: law as magic. In: Public Law & Legal Research Paper Series. Working Paper 07-10, jul. 2007. New York: New York University School of Law, 2007. p. 2. 25 3. MAGIA COMO REPRESENTAÇÃO SOCIAL E O PODER SIMBÓLICO EXERCIDO PELO DIREITO: UMA APROXIMAÇÃO POSSÍVEL 3.1) Operadores do Direito e Operadores da Magia, Representação Mítica e o Sagrado MAUSS compreende a magia de uma forma complexa55, atribuindo ao seu funcionamento, agentes, atos e representações simbólicas que, quando manifestadas dentro de um contexto social, tornam-se mágicas. São chamadas assim de ritos mágicos e são tidas como advindas primeiramente da tradição, tendo em vista que se consolidam primeiramente por repetição. Para além dessa característica, tem-se a ideia de que a magia funciona e tem sua eficácia respaldada em uma noção de causa e efeito totalmente mecânica, de forma que ela “resulta diretamente da coordenação dos gestos, dos instrumentos e dos agentes físicos” 56. Assim devemos perceber que a ritualística mágica é um dos componentes mais importantes na racionalização valorativa de sua eficácia, de forma que respalda seu funcionamento e reproduz sua tradição. Verificamos que a ritualística do Direito, munida de seu equiparato simbólico, também exerce semelhante função na validação de sua eficácia. Essa noção de sagrado ritualístico, quando trazida ao campo jurídico tem a função de legitimar os atos do Direito. Podemos ainda observar que BOURDIEU trata dessas repetições tradicionais quando analisa o habitus do direito, em que identifica uma dupla função, já que por um lado sacraliza as relações jurídicas colocando tudo que está fora dela como profano, isto é, de frente ao templo, e por outro lado, fecha o sistema como uma justificação em si mesma. Assim o operador jurídico, dotado de um poder simbólico que é respaldado pela sociedade através dos rituais de passagem, é o único que pode manifestar-se, legitimamente, acerca do tema: 55 Novamente salientamos que argumentação seguida por MAUSS é a da definição da magia em contraposição ao sistema religioso o qual não adotaremos por motivos metodológicos, dessa forma, separações entre rito publico x rito secreto. 56 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 57. 26 A lógica paradoxal de uma divisão do trabalho que se determina, fora de qualquer concertação consciente, na concorrência regulada entre os agentes e as instituições envolvidas no campo, constitui o verdadeiro princípio, de um sistema de normas e de práticas que aparece como fundamento a priori na equidade dos seus princípios, na coerência de suas formulações e no rigor de suas aplicações, quer dizer, como participando ao mesmo tempo da lógica positiva da ciência e da lógica normativa da moral, portanto como podendo impor-se universalmente ao reconhecimento por uma necessidade simultaneamente lógica e ética. De modo diferente da hermenêutica literária ou filosófica, a prática teórica da interpretação de textos jurídicos não tem nela própria a sua finalidade; diretamente orientada para fins práticos, ela mantém a sua eficácia à custa de uma restrição e sua autonomia. Assim as divergências entre os <<intérpretes autorizados>> são necessariamente limitadas e a coexistência de uma pluralidade de normas jurídicas cogentes está excluída por definição da ordem jurídica. Como no texto religioso filosófico ou literário, no texto jurídico estão em jogo lutas, pois a leitura é uma apropriação da força simbólica que nele se encontra um potencial. Mas por mais que os juristas possam opor-se a respeito de textos cujo sentido nunca se impõe de maneira absolutamente imperativa, eles permanecem inseridos num campo fortemente integrado de instâncias hierarquizadas que estão à altura de resolver conflitos entre os interpretes e as interpretações. E a concorrência entre os interpretes está limitada pelo fato das decisões judiciais só poderem distinguir-se de simples atos de força políticos na medida em que se apresentem como resultados necessários de uma interpretação regulada de textos unanimemente reconhecidos: como a Igreja e a Escola, a justiça se organiza segundo uma estrita hierarquia não só as instancias judiciais e os seus poderes, portanto, as suas decisões em que elas se apoiam, mas também a normas e as fontes que conferem a sua autoridade essas decisões. 57 Tem-se aqui um exemplo do que se constitui simbolicamente o discurso do agente operador do Direito inserido dentro da ideia de habitus jurídico, assumindo a ideia de ser estruturante e estruturado. Dessa forma será determinante na visão que virá a ser construída quando da evocação do ethos de tais agentes frente a outros setores da sociedade. Isto é, o agente jurídico dialoga com outros grupos sociais sempre de dentro de sua ritualística própria e ainda assim visto como uma classe a parte. Essa visão também é comum em relação a representatividade social ocupada pelos mágicos: “não somente a opinião pública que trata os mágicos como formando uma classe especial; eles próprios consideram-se como tais. Embora sejam,como dissemos, indivíduos isolados, eles puderam, de fato, formar verdadeiras sociedades mágicas” 58. Tornam-se aptos socialmente a manipular o Direito e adentrar esse habitus apenas os que gozam de legitimação social para fazê-lo. O Direito constrói 57 BOURDIEU, Pierre. Poder simbólico. p. 213. 58 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 80. 27 dessa forma uma simbologia própria separando os “aptos” dos que não estariam prontos a utilizar-se de suas técnicas, limitando assim não só a atuação dos agentes externos a ele, mas, também a interpretação dos juristas. É de conhecimento comum, por exemplo, que os juristas se utilizam de termos rebuscados, que são entendidos com plena significação apenas entre os sujeitos já acostumados a seu meio, dando vazão ao uso desnecessário e excessivo de jargões jurídicos, acompanhados de termos técnicos bem como denotando floreio excessivo da língua e subterfúgios linguísticos desnecessários, de forma a excluir-se assim a sociedade civil deste entendimento. Convencionou-se assim a chamar tal “dialeto” de juridiquês59, o que também entendemos como elemento constitutivo do habitus jurídico. Assim, se por um lado limita-se a manipulação do Direito apenas aos que já possuem conhecimento prévio acerca do “arcano jurídico”, de outro, atesta-se o poder constitutivo, estruturado e estruturante, do habitus e de que forma sua eficácia tem legitimidade na ritualística. 60 Deve-se tomar como regra geral que as práticas são sempre efetuadas por especialistas mágicos que gozam de tal posicionamento porque dotados de crença pública no meio em que se vive. Dessa forma, a eficácia do ato mágico utiliza como respaldo a tradição não apenas de sua gesticulação, mas também dos poderes simbólicos concedidos aos membros da sociedade em que participa, sendo 59 “Diagnosticada a mazela, põe-se a querela a avocar o poliglotismo. A solvência, a nosso sentir, divorcia-se de qualquer iniciativa legiferante. Viceja na dialética meditabunda, ao inverso da almejada simplicidade teleológica, semiótica e sintática, a rabulegência tautológica, transfigurada em plurilingüismo ululante indecifrável. Na esteira trilhada, somam-se aberrantes neologismos insculpidos por arremedos do insigne Guimarães Rosa, espalmados com o latinismo vituperante. Afigura-se até mesmo ignominioso o emprego da liturgia instrumental, especialmente por ocasião de solenidades presenciais, hipótese em que a incompreensão reina. A oitiva dos litigantes e das vestigiais por eles arroladas acarreta intransponível óbice à efetiva saga da obtenção da verdade real. Ad argumentandum tantum, os pleitos inaugurados pela Justiça pública, preceituando a estocástica que as imputações e defesas se escudem de forma ininteligível, gestando obstáculo à hermenêutica. Portanto, o hercúleo despendimento de esforços para o desaforamento do “juridiquês” deve contemplar igualmente a magistratura, o ínclito Parquet, os doutos patronos das partes, os corpos discentes e docentes do magistério das ciências jurídicas. Entendeu? É desafiadora a iniciativa da AMB de alterar a cultura lingüística dominante na área do Direito e acabar com textos em intrincado juridiquês, como o publicado acima. A Justiça deve ser compreendida em sua atuação por todos e especialmente por seus destinatários. Compreendida, torna-se ainda mais imprescindível à consolidação do Estado Democrático de Direito”. ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS BRASILEIROS. O judiciário ao alcance de todos: noções básicas de juridiquês. 2005. p. 4. 60 Neste sentido podemos perceber que os termos técnicos, indicativos da prevalência daaposta da modernidade no mito da ciência, também serve como barreira que impede o acesso da sociedade civil, de maneira geral, ao Direito. Fato este que motivou o lançamento da “Campanha pela Simplificação do Juridiquês” promovida pela OAB no ano de 2005. 28 que: “o que lhes confere virtudes mágicas não é tanto seu físico individual quanto a atitude tomada pela sociedade em relação a todo seu gênero” 61. Podemos identificar, portanto, que há aproximação da legitimidade do Direito na teoria weberiana com o que BOURDIEU identifica como Poder Simbólico, porque ambos exercem sua eficácia mágica mediante crença e desta forma legitimam o operador do Direito da mesma forma que ocorre a legitimação do agente mágico: O poder simbólico é um poder que aquele o qual está sujeito dá aquele que o exerce, um credito que ele credita, uma fides uma auctoritas, que ele lhe confia pondo nele sua confiança. É um poder que existe porque aquele que está sujeito crê que ele existe. CREDERE, diz Benveniste, é literalmente colocar o KRED, quer dizer, a potência mágica, num ser que se espera proteção, por conseguinte, crer nele. (grifo nosso) 62 Assim a crença, que aqui pode ser entendida também como justificada num mito, da mesma forma gera uma potencia mágica, que se sustenta enquanto representação social da eficácia do Direito. Novamente BORDIEU afirma a questão dessa eficácia mágica enquanto produto da fé social: O homem político retira sua força política da confiança que um grupo põe nele. Ele retira o seu poder propriamente mágico sobre o grupo da fé na representação do próprio grupo que ele dá ao grupo que é uma representação do próprio grupo e sua relação com outros grupos. 63 (grifo nosso) Exceção à regra é que, quando reproduzida de forma idêntica à prescrita, tal rito pode dispensar a especialidade de seu agente central, o mágico, desde que esse mantenha uma relação de propriedade direta com a fórmula que está efetuando. Isto é, desde que sua condição perante o rito o torne “parte legítima” da ação mágica pretendida. O agente mágico, para que seja imbuído desse poder diante da sociedade – que aliada à tradição confere eficácia de seus atos- geralmente deve passar por uma iniciação que envolverá os três modos de qualificação: revelação, quando o mágico crê achar-se no contato de inteligências autônomas não convencionais como anjos, daemons ou espíritos; por consagração quando há o 61 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 65. 62 BOURDIEU, Pierre. Poder simbólico. p. 188. 63 BOURDIEU, Pierre. Poder simbólico. p. 188. 29 desdobramento do mágico no contato com estes seres e assim estes o tem como escolhido; e a mais comum: a um ritual dotado de características iniciáticas. Trata-se nesse caso de uma representação, geralmente mítica, em que o indivíduo é iniciado e considerado renovado. Dessa forma, geralmente exploram-se temas como morte e ressurreição, ou concepções fantásticas como se “as entranhas do mágico foram renovadas pelos espíritos”. Isso quer dizer que para a sociedade cria-se um novo indivíduo que tem seus poderes confirmados pelo rito iniciático. O mito dessa forma compreende-se intrinsecamente ligado a prática da virtude mágica. Nas palavras de MALINOWSKI: O mito é consequência natural da fé humana, porque cada poder deve dar indícios da sua eficácia, deve atuar e saber–se que atua, se se pretende que as pessoas acreditem na sua virtude. Cada crença gera a sua mitologia, pois não existe fé sem milagres, e o principal mito relata simplesmente o primeiro milagre da magia. 64 A questão mítica embasa o rito para MALINOWSKI, que enfatiza a importância dos atributos ritualísticos como a fórmula para sua execução, ou mesmo o cenário emocional. Assim a iniciação mágica de certa forma pode ser equivalida a qualquer outra iniciação de caráter social, pois determina uma mudança de nome e personalidade de forma mítica. Nesse sentido, ela nos seria muito próxima dobacharel em Direito que apenas após ser submetido a um “exame de Ordem” é que se encontra apto a manipular as técnicas jurídicas em favor ou desfavor de seu cliente, atestando o poder desse individuo de estabelecer contato com a técnica e seus aliados sobrenaturais, de forma que pode ser aproximada de uma possessão virtual. Esclarece-nos MAUSS: A iniciação ao simplificar-se, acaba por aproximar-se da tradição pura e simples. Mas a tradição mágica nunca foi uma coisa perfeitamente simples e banal. Na verdade, na transmissão de uma fórmula, o professor, o noviço os acompanhantes, se os houver, assumem uma atitude extraordinária. O adepto é e acredita-se um eleito. O ato é geralmente solene e seu caráter misterioso de modo nenhum prejudica sua solenidade. É acompanhado de formas rituais, abluções, precauções diversas; condições de tempo e de lugar são observadas; noutros casos, o que há de grave no ensinamento mágico exprime-se pelo fato de a transmissão da receita ser precedida de uma espécie de revelação cosmológica da qual ela parece depender. É frequente os segredos mágicos não serem transmitidos incondicionalmente. Mesmo o adquirente de um sortilégio não pode dispor livremente dele fora 64 MALINOWSKI, Bronislaw. Magia, ciência e religião. p. 87. 30 das cláusulas do contrato; os sortilégios indevidamente fornecidos deixam de funcionar ou voltam-se contra quem os emprega; o folclore de todos os países possui uma infinidade de exemplos disso. Vemos nessas crenças os sinais de um estado de espírito que se atualiza sempre que se transmitem conhecimentos mágicos, mesmo os mais populares. Essas condições de transmissão, essa espécie de contrato, mostram que, embora transferido de pessoa a pessoa, o ensinamento não deixa de implicar a entrada a uma verdadeira sociedade fechada. A revelação, a iniciação e a tradição sob esse ponto de vista, são equivalentes; elas marcam formalmente, cada uma a seu modo, que um novo membro agrega-se à corporação dos mágicos. 65 3.2) Ritualística: Substrato da Eficácia Mágica e Jurídica Definidos os praticantes, tratemos de definir as características do rito, que é o ato mágico por excelência. Tais atos ainda que representados no folclore como atos simples e banais mostram-se em realidade como complexos e imbuídos de solenidade. Com efeito, considerando-se que existe uma operação central, verificaremos o surgimento de certo número de observâncias acessórias, tais como a condição de horário específico, conjunção astrológica ou determinado clima. Da mesma forma, haverá predeterminação para o lugar em que o rito irá se suceder, sendo que, geralmente supõe-se que o lugar tenha uma correlação suficiente com o rito a ser praticado. Assim para MALINOWSKI apresentam-se três elementos principais que devem estar presentes para a eficácia mágica, quais sejam, efeitos e imitações de forma simbólica conectada ao que se deseja, o uso de palavras - o que será melhor explicado adiante com os ritos orais na teoria de MAUSS - e as alusões mitológicas, que para MALINOWSKI traduzem a própria noção mágica. Quanto à natureza dos ritos, MAUSS os divide em manuais e orais, sendo os manuais executáveis porque se apresentam limitados e prescritos e não por serem logicamente realizáveis. Assim, “essas práticas nos aparecem, não como gestos mecanicamente eficazes, mas como atos solenes e verdadeiros ritos”. 66 Quanto aos orais, estes podem ser aproximados de encantações, que se assemelham aos apresentados na religião tais como juramentos, votos, aspirações preces, etc. Através da técnica e de seu rito o Direito não apenas se utiliza de palavras para descrever a realidade, mas é através de suas palavras que o Direito 65 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 79. 66 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 88. 31 altera a realidade, de fato prescrevendo-a, ditando-a e modelando-a através das palavras ditas em seus rituais. Dessa forma, as metáforas e usos das palavras quando utilizadas no contexto do ritual jurídico são realizados para produzir uma ação e não para descrever uma. Isso é entendido como a crença de que certas palavras quando ditas em certos momentos podem causar efeitos diversos. Na tese de CARNEIRO PRINCE, ele expõe: É o que John Austin, chama de performative utterances (expressões realizativas). Segundo Karl Olivecrona, o Direito é cheio dessas expressões realizativas. As construções verbais utilizadas em uma cerimônia de posse de um funcionário público, ou em um testamento, ou ainda em um contrato verbal, não são meramente comunicativas. O status jurídico da pessoa a que se refere a expressão realizativa é alterado no momento em que ela é pronunciada. Direitos e deveres são criados, relações jurídicas são estabelecidas e dissolvidas. A expressão realizativa vai além da comunicação, ela é uma ação propriamente. Mas a força realizativa dessas expressões não está apenas nas palavras. Caso as palavras de um casamento não sejam ditas na frente da autoridade competente e das testemunhas necessárias, a transformação não ocorre. Uma série de condições e contextos são necessários para a eficácia realizativa das palavras mágicas. Se esses requisitos são cumpridos, ninguém poderá contestar a transformação ocorrida, e essa mágica será válida até que alguém, cumprindo os mesmos requisitos, pronuncie uma contra mágica. 67 Podemos encontrar aspecto semelhante na obra de BOURDIEU quando ele aborda o que chama de “poder de nomeação” do Direito, já que ao Estado compete, como único detentor da força reconhecido, distribuir legitimidade através de suas nomeações. Isto é, a sentença produzida pelo juiz figura-se como última visão Estatal, dotada de verdade absoluta, transcendendo as visões dos particulares, consagrando a ordem estabelecida: O Direito é, sem dúvida, a forma por excelência do poder simbólico de nomeação que cria as coisas nomeadas e, em particular, os grupos; ele confere a estas realidades surgidas das suas operações de classificação toda a permanência, a das coisas, que uma instituição histórica é capaz de conferir a instituições históricas. O Direito é a forma por excelência do discurso actuante, capaz, por sua própria força, de produzir efeitos. não demais dizer que ele faz o mundo social, mas com a condição de não esquecer de que é feito por este. Convém, com efeito, que nos interroguemos acerca das condições sociais - e dos limites- desta eficácia quase mágica, sob pena de cairmos no nominalismo radical (que certas análises de Michel Foucault sugerem) e de estabelecermos que produzimos as categorias segundo as quais construímos o mundo social e que estas categorias produzem este mundo. 68 67 CARNEIRO, Rafael Prince. Sacralidade e Direito. São Paulo, 2008, 44 f. Monografia – Faculdade de Direito – Universidade de São Paulo. p. 15. 68 BOURDIEU, Pierre. Poder simbólico. p. 227. 32 Essa separação dos mundos ritualísticos com caráter formal também é abordada por MAUSS ao tratar da encantação: O fato de toda encantação ser uma fórmula e de todo rito manual possuir virtualmente uma fórmula já demonstra o caráter formalista de toda magia. Em relação às encantações, ninguém jamais pôs em dúvida que elas fossem ritos, sendo tradicionais, formais e revestidas de uma eficácia sui generis; jamais se concebeu que palavras produzissem fisicamente os efeitos desejados. Em relação aos ritos manuais, o fato é menos evidente: pois há uma correspondência mais íntima, às vezes lógica, às vezes mesmo experimental, entre o rito e o efeito desejado; é certo que os banhos de vapor, as fricções mágicas aliviaram realmente os enfermos. Mas, na realidade, as duas espéciesde ritos possuem claramente os mesmos caracteres e prestam-se às mesmas observações. Ambas se passam num mundo anormal. 69 Acerca do significado do sentido dos ritos mágicos, podemos analisá-los quanto à sua representação, já que todo rito é uma espécie de linguagem. Eles são diferenciados de acordo com as circunstâncias que determinam o que se pretende mudar ou atrair. Dessa forma, MAUSS as divide em representações impessoais abstratas, nas quais incluímos as leis de contiguidade 70 - que implica em uma continuidade mágica71 - e a lei da similaridade72. A representação dessa forma é reduzida a poucos símbolos já tradicionais no meio ambiente do mágico. Isso porque o mágico “acha-se em presença de ritos, de ideias tradicionais que ele não é tentado a renovar, porque acredita somente na tradição e porque, fora da tradição não há nem crença nem rito.” 73 Da mesma forma, esses elementos também são encontrados nas análises que BOURDIEU realiza acerca das formas em que é exercido o poder simbólico do Direito: 69 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 94. 70 “A forma mais simples dessa noção de contiguidade simpática nos é dada na identificação da parte ao todo. A parte vale pela coisa inteira”. MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 100. 71 A ideia de continuidade mágica, que esta se realize por relação prévia do todo com a parte ou por contato acidental, implica a ideia de contágio. 72 “Dessa lei de similaridade se conhecem duas fórmulas principais, que importa distinguir: o semelhante evoca o semelhante, similia similibus evocantur; o semelhante age sobre o semelhante e, especialmente, cura o semelhante, similia similibus curantur”. MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 50. 73 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 106. 33 A legitimidade, que se acha praticamente conferida ao Direito e aos agentes jurídicos pela rotina dos usos que dela se fazem, não pode ser compreendida nem como efeito do reconhecimento universalmente condido pelos <justiciáveis> a uma jurisdição que, como quer a ideologia profissional do corpo dos juristas, seria o enunciado de valores universais e eternos, portanto, transcendentes aos interesses particulares, nem, pelo contrário, como efeito da adesão inevitavelmente obtida por aquilo que não passaria de um registro do estado dos costumes, das relações de força, ou, mais precisamente, dos interesses dos dominantes. 74 Determinado o tempo, lugar e demais condições do rito é hora do mágico escolher os materiais e instrumentos que serão utilizados para obtenção de seu resultado. Interessante notar que tais materiais, ainda que ressignificados visando a entrada no mundo ritualístico, já possuem valor simbólico social que em geral terá a ver com o intuito do rito mágico. Dessa forma o valor do signo não é totalmente desconsiderado ao entrar para o mundo do magico, pelo contrário, é alvo de uma extra-significação. Trabalhando com os conceitos advindos das leituras de ALLEN75 acerca da interpretação dos componentes da Escola Realista76 quanto ao tema Direito e magia, podemos identificar cinco técnicas mágico-legais: performance normatizada, formalidade elevada, a performatividade, manipulação temporal e analogia transformadora. Na performance normatizada observamos que muito acerca do Direito depende das palavras escritas, elevadas ao caráter de documentos, o que podemos identificar como um “fetiche legal” já que, a questão documental torna-se central para o julgamento. ALLEN exemplifica citando os atos de pessoas criminosas que não podem simplesmente confessar seus crimes sem que se tenha uma “cerimônia especial” para fazê-lo, envolvendo audiências públicas, pessoas habilitadas e legitimadas e demais constitutivos processuais. Nesse sentido, interessante notar 74 BOURDIEU, Pierre. Poder simbólico. p. 240. 75 “Aided by the Realist critiques and analyses of magic and ritual in other cultural contexts, I have identified five techniques of legal magic: (1) enacting performance, (2) heightened formality, (3) performativity, (4) temporal play, and (5) transformative analogy”. ALLEN, Jessie. A theory of adjudication: law as magic. p. 11. 76 Assim são definidos os Realistas por CARNEIRO: “um movimento que despontou, concomitantemente, na alvorada do século passado, nos Estados Unidos da América e na Escandinávia. Ambas as vertentes questionavam os aspectos mágicos do direito, usados para mascarar o arbítrio, o poder em estado puro” (CARNEIRO, Rafael Prince. Sacralidade e Direito. São Paulo, 2008, 44 f. Monografia – Faculdade de Direito – Universidade de São Paulo. p. 21). ALLEN esclarece ao tratar sobre a corrente de pensamentos: “Legal realism has fundamentally altered our conceptions of legal reasoning and of the relationship between law and society. (…) All major current schools of thought are, in significant ways, products of legal realism”. 34 que não pode haver condenação do réu á revelia, já que ele estaria ausente de todo esse processo. Em relação à formalidade elevada, ALLEN esclarece: Rituais legais e magia são ambos extraordinariamente sensíveis ao tempo e lugar. No processo judicial importa enormemente quando e onde um argumento é feito ou um fato revelado. Na maioria das outras decisões importantes tomadas no âmbito privado, além da necessidade básica de se obter informações acerca das pessoas que decidem e da necessidade prática que escolheram, não importa muito se uma ideia é expressa em junho em vez de janeiro, ou em um café ao invés de um oficial do governo. No julgamento , no entanto, como na magia ,as distinções contextuais fazem a diferença entre o sucesso ou fracasso. Existem estritas regras processuais sobre a renúncia, exaustão, e preservação significa que, a não ser que os advogados apresentem seus argumentos e fatos, exatamente no tempo e local determinado pelo juiz de acordo com as normas legais , eles serão totalmente ineficaz, independentemente do conteúdo dos assuntos discutidos. 77 Com relação à performatividade, percebemos que esta pode ser entendida como o tom “teatral” presente em certas falas jurídicas, sendo sensível a fatores externos e ao habitus envolvido no sistema jurídico. Este é entendido como estritamente contextualizado dentro do sistema do Direito, em que o tom teatral torna-se normalizado, porque o jurista vive a defesa de sua tese. Já a parte acerca da manipulação temporal refere-se no Direito à questão da busca por traçar uma linhagem de poder, buscando uma fonte temporal em comum, assim fazendo com que a questão das súmulas, por exemplo, quando aplicadas, tornassem os juízes verdadeiros “viajantes intertemporais”. Isso também ocorre em rituais shamânicos ou mesmo de magia brasileira, como a Umbanda, onde se busca um respaldo “mágico” dos seres que deixaram seu legado. Por fim, a analogia transformadora é explicada a partir da noção de que “a diversidade da fonte de objetos contribui para a força da eventual associação. É 77 Tradução livre do original: “Legal and magic rituals are both extraordinarily sensitive to time and place. In the judicial process it matters enormously when and where an argument is made or a fact revealed. In most other important government or, for that matter, private decision making, beyond the basic need to get the information to the decision makers and the practical need for a decision at some point, it does not much matter whether an idea is expressed in June rather than January, or in a coffee shop rather than an official government building. In adjudication, however, as in magic, such contextual distinctionsmake the difference between success or failure. Strict procedural rules about waiver, exhaustion, and preservation mean that unless lawyers present their arguments and facts at exactly the time and place determined by the judge according to the legal rules, they will be utterly ineffective, regardless of the substance of the matters discussed.” ALLEN, Jessie. A theory of adjudication: law as magic. p.13. 35 como se quanto maior for a distância entre os objetos comparados entre si, mais força adesiva sua eventual associação realiza” 78. 3.3) A Eficácia do Mágica do Direito: Mana e Magia Sustenta-se, ainda, que a magia é objeto de crença que, aliás, não opera de forma muito diferente da crença na verdade científica, já que a crença tanto na magia quanto na ciência e nos paradigmas do Direito é sempre atribuída de forma a priori. Quer dizer, a fé na magia precede a experiência. A eficácia observada na magia deve ser atrelada ao conceito de mana que pode ser configurado a priori como medida de uma potencialidade mágica ou uma força mágica que, à medida que atua, tem a possibilidade de alterar a realidade, pois nela se resume também a força do rito como um todo. É ainda uma força infinita, mas com poder de atuação dentro dos limites de seu ritual, isto é, trazendo para uma realidade mais convencional à nossa linguagem jurídica, poderíamos dizer que se a mana tem potencialidade de transformação do mundo circundado ao ambiente mágico, pode ser comparada com o poder de atuação dos operadores do Direito que, ainda que possam causar mudanças no mundo real, ficam restritos a fazê-las a partir do mundo do ordenamento jurídico. Este mundo constituído pelo Direito não apenas implica, como já tratamos, a divisão entre os iniciados e os não iniciados, mas também que no uso de linguagem própria, vestimenta, para que se construa essa noção jurídica com a funcionalidade de justificar aprioristicamente as decisões judiciais, assim ocorre um verdadeiro desvio de poder, dos “judiciáveis” aos seres “comuns” enquanto encontram-se em uma situação jurídica: A situação judicial funciona como lugar neutro, que opera uma verdadeira neutralização das coisas em jogo por meio da <desrealização> e da distanciação implicadas na transformação da defrontação directa dos interessados em diálogos entre mediadores. Os agentes especializados, enquanto terceiros - indiferentes ao que está diretamente em jogo (o que não quer dizer desinteressados) e preparados para apreenderem as realidades escaldantes do presente atendo-se a textos antigos e 78 Tradução livre do original: “In both legal and magical analogies, the diversity of the source objects contributes to the power of the eventual association. It is as though the greater the distance between the objects likened to one another, the more adhesive force their eventual association carries.” ALLEN, Jessie. A theory of adjudication: law as magic. p.22. 36 precedentes confirmados - introduzem, mesmo sem querer nem saber, uma distância neutralizante a qual, no caso os magistrados pelo menos, é uma espécie de imperativo da função que está inscrita no âmago dos habitus: as atitudes ao mesmo tempo ascéticas e aristocráticas que são a realização incorporada do dever de reserva são constantemente lembradas e reforçadas pelos grupos dos pares, sempre pronto a condenar e a censurar os que se comprometeriam de modo demasiado aberto com questões de dinheiro ou de política. 79 Esse conceito de “lugar neutro” pode ser aproximado do que é tido como “mana” na análise feita por STRAUSS dos escritos encontrados no Esboço de uma teoria geral sobre a magia, na medida em que entende tal conceito como um fundamento dos juízos a priori, atuando como força misteriosa ou potência secreta dotada de um significado flutuante. Ainda, entende a mana como uma função semântica “cujo papel é permitir ao pensamento simbólico exercer-se apesar da contradição que lhe é própria” 80. Assim nos resume STRAUSS: (...) força e ação; qualidade e estado; substantivo, adjetivo e verbo ao mesmo tempo; abstrata e concreta; onipresente e localizada. E, de fato, o mana é tudo isso ao mesmo tempo; mas não é assim, precisamente, porque ele não é nada disso? Porque ele é simples forma ou, mais exatamente, símbolo em estado puro, portanto suscetível de assumir qualquer conteúdo simbólico? Nesse sistema de símbolos que toda cosmologia constitui, ele seria um valor simbólico zero, isto é, um signo que marca a necessidade de um conteúdo simbólico suplementar àquele que pesa já sobre o significado, mas que pode ser um valor qualquer, com a condição de fazer parte ainda da reserva disponível e de já não ser, como dizem os fonólogos, um termo do grupo. 81 Já para MAUSS a mana não existe por si só e mescla os vários elementos da magia em sua definição, já que “ela realiza aquela confusão do agente, do rito e das coisas que nos pareceu fundamental em magia” 82. Ele conclui assim em sua análise que a mana está intimamente ligada com a noção de sagrado que também se constitui socialmente, só existindo na consciência das pessoas de forma análoga a ideias de justiça e valor: Diremos mais exatamente que, para empregar a linguagem abstrusa da teologia moderna, que a magia, como a religião, é um jogo de “juízos de valor , isto é, de aforismos sentimentais , que atribuem qualidades diversas aos diversos objetos que entram em seu sistema . Mas esses juízos de valor não são obra de espíritos individuais; são a expressão de sentimentos sociais que se formaram, ora fatal e universalmente, ora fortuitamente, em 79 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 39. 80 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 43. 81 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 39. 82 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 143. 37 relação a certas coisas, escolhidas em sua maior parte de forma arbitrária , plantas animais, profissões e sexos, astros, meteoros, elementos, fenômenos físicos, acidentes do solo, matérias etc. A noção de mana, como a noção do sagrado, não é senão, em última análise, a espécie de categoria do pensamento coletivo que funda seus juízos, que impõe uma classificação das coisas, separando umas, unindo outras, estabelecendo linhas de influência ou limites de isolamento. 83 Podemos perceber dessa forma o caráter social da magia enquanto representação simbólica, advinda dos processos construídos em diálogos com o social. Assim MAUSS afirma que toda espécie de representação mágica pode tomar a forma de um juízo. Dessa forma, tal qual explicitamos as constituintes valorativas da ação racional em WEBER, identificamos que estas se fazem presentes também no juízo mágico, já que estes são anteriores às experiências mágicas, sendo considerados cânones de ritos e cadeias de representações de tal forma blindadas que as experiências, ainda que frustradas, não têm o condão de invalidá-las. Isso torna a eficácia mágica fraca em sua essência analítica podendo ser considerada como um “sistema de induções a priori operadas sob a pressão da necessidade por grupos de indivíduos” 84. A eficácia do Direito foi atribuída na visão de BOURDIEU como intrinsecamente simbólica, associada também a uma potência de alterar a realidade de acordo com a vontade dos operadores do direito, mas já previamente condicionada por sua gênese. Os símbolos que se apresentam, por forma de mitos e elementos dos rituais no Direito, são identificados por BOURDIEU como constitutivos do habitus jurídico. Estes elementos também compõe sua técnica e são essenciais para validar a crença de que este é legítimo. Isto é, identificamos a crença em um conjuntode símbolos como fatores indissociáveis de sua eficácia de modo que a probabilidade de um ato jurídico vir a funcionar está diretamente ligada à crença em sua eficácia. Podemos desta forma, aproximar os conceitos de eficácia simbólica conforme prescritos por BORDIEU, do conceito que é construído ao longo da explanação acerca do que os antropólogos chamam de mana .Vejamos: Com efeito, o conteúdo prático da lei que se revela no verecidto é o resultado de uma leitura simbólica entre profissionais dotados de 83 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 155. 84 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 159. 38 competências técnicas e sociais desiguais, portanto, capazes de mobilizar, embora de modo desigual, os meios ou recursos jurídicos disponíveis pela exploração das <regras possíveis>, e de os utilizar eficazmente, quer dizer, como armas simbólicas, para fazerem triunfar a sua causa; o feito jurídico da regra, quer dizer, a sua significação real, determinar-se na relação de força específica entre os profissionais, podendo-se pensar que essa relação tende a corresponder (tudo o mais sendo igual do ponto de vista do valor da equidade pura das causas em questão) à relação de força entre os sujeitos à jurisdição respectiva. O trabalho de racionalização, ao fazer aceder ao estatuto de veredicto a uma decisão judicial que deve, sem dúvida, mais a atitudes éticas dos agentes do que às normas puras do direito, confere-lhe eficácia simbólica exercida por toda a ação quando, ignorada no que tem de arbitrário, é reconhecida como legítima. O princípio desta eficácia reside, pelo menos em parte, que, salvo vigilância especial, a impressão de necessidade sugerida pela forma tende a contaminar o conteúdo. O formalismo racional ou racionalizante do Direito racional, que se tende a opor, com Weber, ao formalismo mágico dos rituais e procedimentos arcaicos de julgamento (como o juramento individual ou coletivo). participa na eficácia simbólica do Direito mais racional. 85 O que se demonstra, portanto, é que, ainda que as justificativas para o ato mágico possam ser encontradas quase todas como a priori, após incidir sobre elas a noção de mana, justificam-se também a posteriori, de modo que não só o ritual torna-se racional mas também o ato perante a sociedade racionaliza-se. Concluímos dizendo que a mana impregna a magia de racionalismo, sendo que só pode assim ser justificada através da representação coletiva que demonstra. MAUSS conclui seu trabalho afirmando que: Por mais distantes que pensemos estar da magia, ainda continuamos presos a ela. Por exemplo, as ideias de sorte e azar, de quintessência, que nos são ainda familiares, são muito próximas da ideia da própria magia. Nem as técnicas, nem as ciências nem mesmo os princípios diretores de nossa razão estão lavados de sua mancha original. Não é temerário supor que, em boa parte, tudo o que as noções de força de causa, de fim, de substância ainda possuem de não positivo de místico e de poético, deve-se aos velhos hábitos mentais de que nasceu a magia, e dos quais o espírito humano é lento em desfazer-se. Assim, pensamos encontrar na origem da magia a forma primeira de representações coletivas que se tornaram depois o entendimento individual. Com isso, nosso trabalho não é apenas, como dizíamos no início, um capítulo de sociologia religiosa, mas também é uma contribuição ao estudo das representações coletivas. A sociologia poderá mesmo, como esperamos, encontrar aqui algum proveito, pois pensamos ter mostrado, a propósito da magia, de que maneira um fenômeno coletivo pode assumir formas individuais. 86 Pudemos assim, ao longo dessa breve explanação, mostrar que o Direito enquanto compreendido como conjunto de elementos de representação coletiva, 85 BOURDIEU, Pierre. Poder simbólico. p. 225. 86 MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Esboço de uma teoria geral da magia. p. 177 39 pode ter sua forma de atuação muito próxima do que se entende por magia. A linguagem trabalhada por ambos, fortemente marcada pela questão técnica é fonte de justificação que ocorre de forma acrítica, pois, goza de um poder simbólico que a imbui de eficácia mágica perante a sociedade. A causa desse poder, como pudemos analisar, é a crença, seja ela nas instituições e no poder de previsibilidade propiciado pela burocracia administrativa descrito por WEBER, ou a crença exercida através do poder simbólico analisado por BORDIEU. Essa crença intimamente ligada a questões míticas também se faz presente na explicação da atuação dos mágicos analisados por MAUSS, justificando assim, a analise aproximativa que nos propusemos a fazer entre Direito e Magia. 40 CONCLUSÃO: Estudou-se nessa pesquisa monográfica de que modo a ritualística do Direito, pode ser entendida como um dos principais componentes que validam sua eficácia e legitimidade. Essa eficácia incide de tal forma, que os autores aqui trazidos afirmam sobe um caráter mágico na justificação do direito. A partir dessa afirmação, ambicionou-se delimitar em termos gerais o que é entendido como magia pelo Ocidente e de que forma esses conceitos se relacionam com a Ciência jurídica inserida dentro do contexto do Estado Moderno. Comparando os trabalhos elaborados por MAUSS e BORDIEU sob a ótica da ação racional como compreendida em WEBER, pudemos traçar uma aproximação dialógico-comparativa entre as teorias elaboradas pelos teóricos referenciados, buscando assim demonstrar de que forma a incidência da ritualística do Direito pode ser compreendida em um de seus efeitos, que é o da legitimidade bem como o da eficácia. A decisão de analisar comparativamente as análises teóricas foi ancorada pelo fato de não encontramos material específico sobre o enfretamento do tema Direito e Magia, que não fossem as teorias realistas cujas obras encontram-se sem tradução para o português. Este ponto, aliás, constituiu-se como o de maior dificuldade no enfrentamento deste tema. De início, acompanhamos a incidência do processo racionalizador em relação a construção e ascensão da ciência no paradigma moderno, fato que a consolidou na posição de única detentora dos processos atributivos de verdade, tendo reflexo no mundo jurídico através da ideia de racionalização das leis. Analisamos dessa forma, que a racionalidade legal herdada pelo Direito Ocidental, é fruto direto de sua relação com o paradigma do Iluminismo que consolidou-se na ideia do Estado de Direito e seus aparatos burocráticos. Na continuidade desse processo tratamos acerca da construção da Modernidade, explicando as escolhas racionais do indivíduo através das propostas metodológicas de WEBER, quando se propõe a analisar e classificar os diferentes tipos de ação. Assim pode-se evidenciar que a validação de uma ação é advindo também de um processo de sobrepesamento de diversos valores que influem de forma decisiva sobre seu produto final. Nesse sentido é que observamos que, a ação tomada pelo indivíduo antes de ser decidida através utilizando-se de elementos 41 puramente racionais, é advinda de uma série de processos que se utiliza de outras fontes nas tratativas que levam às tomadas de suas decisões, colocando assim a razão antes como um valor do que como um processo analítico. Dessa forma, o aparato burocrático administrativo esvazia o Estado de seu aspecto humano e dá a ela a certeza da verdade científica, o que dentro outros fatores, o permitem ser o único detentor legítimo da violência física sem que haja oposição, já que estaria apenas cumprindo as leis, as quais gozam de uma legitimidade a priori respaldada no pensamento científico vigente. Assim para WEBERo Estado inaugura um período de dominação legal que substitui os demais tipos de dominação como carismática e tradicional. Esse poder legal, no entanto, pode ser entendido como crença tanto na legitimidade do como em seu poder de legitimação. Tal crença imbui as decisões jurídicas de um poder de legitimidade que a prioristicamente é interpretada como um poder mágico, pois quando esmiuçado não age pautado inteiramente na razão, ou, de outra forma, não precisa agir de forma pautada na razão desde que sua ritualística, proceda de forma tradicional confirmando a ideia que o agente deposita sua crença. É nesse sentido que se observou a proximidade entre o agente manipulador da magia conforme descrito por MAUSS e o agente jurídico dentro da estrutura jurídica proposta por BORDIEU, de forma que ambos apresentam a manipulação de uma técnica que, aceita pela sociedade como forma de representação, gera efeitos em sua realidade mediante atos de vontade. Por fim, podemos perceber que havendo interesse pelo tema, muitas outras leituras poderiam ser feitas quanto à ritualística do Direito funcionando de forma análoga à magia, referente à sua eficácia. Acreditamos que essa questão ainda deve ser melhor exposta em trabalhos futuros. 42 BIBLIOGRAFIA ALLEN, Jessie. A theory of adjudication: law as magic. In: Public Law & Legal Research Paper Series. Working Paper 07-10, jul. 2007. New York: New York University School of Law, 2007. ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS BRASILEIROS. O judiciário ao alcance de todos: noções básicas de juridiquês. Brasília: AMB, 2005. ARGÜELLO, Katie Silene Cáceres. O Ícaro da modernidade: direito e política em Max Weber. São Paulo: Acadêmica, 1997. BOBBIO, Norberto; MATEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. Tradução de Carmen C. Varrialle, Gaetanod Loiai Mônaco, João Ferreira, Luis Guerreiro Pinto Caçais e Renzo Dini. Brasília: UnB, 2004. BOGDAN, Henrik. Introduction: modern western magic. In: Aries. vol. 12, n. 1, jan. 2012. BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Tradução de Fernando Tomaz.10. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. CARNEIRO, Rafael Prince. Sacralidade e Direito. 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